Sobre a depressão

Maria Tereza Labate Mantovanini

 

Chama atenção a frequência com que chegam à clínica psicanalítica pessoas com diagnóstico de depressão, encaminhadas por médicos psiquiatras que reconhecem na intervenção terapêutica um valioso complemento da medicação ministrada.

 

Outro fenômeno que chama a atenção e surpreende é o número de pacientes que, mesmo sem a chancela médica, apresentam-se como depressivos. A reincidência desses casos faz pensar: qual seria o sentido de um leigo diagnosticar-se dessa forma?

 

São inúmeros os significados e geralmente aparecem entrelaçados. O primeiro deles parece estar relacionado ao uso do termo depressão ou depressivo pelo senso comum, para identificar estados de abatimento, desesperança e desinteresse pela vida.

 

A segunda possibilidade, que não exclui a anterior, seria usar a patologia para precisar, a priori, a razão de um sofrimento particular, expresso por um mal-estar, uma falta de vitalidade, uma desesperança, cuja origem o paciente ignora.  Nesses casos, a utilização do termo depressão mostra-se uma estratégia não só para aludir a algo que se desconhece, como também para localizá-lo em um campo e em um grau. Nomear o sofrimento resulta, portanto, em uma forma de apropriação.

 

Seja o uso do termo depressão derivado de avaliação médica ou de um autodiagnóstico, o certo é que a investigação psicanalítica não pode ater-se a ele, ainda que deva, sem dúvida, levá-lo em conta. Ao analista cabe, sobretudo, concentrar-se nas particularidades do sofrimento de cada paciente.

 

Entretanto, parece haver uma característica semelhante, que aproxima os casos de depressão. Trata-se de uma perda do sentido do viver, que se manifesta num desligamento afetivo. Este serve como defesa contra o sofrimento. Porém, ao se buscar não sofrer, todas as demais vivências  emocionais experimentam uma espécie de “desbotamento”.

Nas situações depressivas, a dor parece estar predominantemente ligada a um distanciamento do que se é e uma aproximação a modelos de perfeição idealizada. As pessoas sofrem por não estarem à altura de ideais construídos.

 

Apesar de buscarem na terapia um espaço para respirar e existir, encontram um obstáculo interno, que as devolve para o mesmo lugar de desalento. A esperança advém da possibilidade de transformação e atualização dessa crença de que não estão à altura dos ideais construídos.

 

Maria Tereza Labate Mantovanini. é psicóloga, mestre em Psicanálise pela Pontifícia Universidade Católica e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise/SBPSP.

‘Ficou difícil, para a sociedade de hoje, lidar com o diferente’, diz analista

A rapidez das mudanças do mundo, a fragilidade dos vínculos e a dificuldade de enxergar o outro são algumas das razões, apontadas por Bernardo Tanis, para o mal-estar geral da sociedade. O psicanalista – que acaba de assumir a presidência da Sociedade Brasileira de Psicanálise de SP – , quer ampliar a atuação dos profissionais na área social, aproximando-os da população “A psicanálise tem a contribuir, mas que as outras disciplinas também contribuem, e dessa forma – cada um desde a sua perspectiva, desde a sua metodologia – podem juntos produzir alguma coisa talvez que nos ajude a lidar com a perplexidade do homem no mundo de hoje”, afirmou em entrevista à repórter Marilia Neustein, em seu consultório.

Para Tanis, os desafios dos analistas de hoje são muitos, entre eles a dificuldade do indivíduo em lidar com a alteridade: “Está muito difícil para o homem lidar com o outro, com o diferente. Ou seja, nós amamos o que é idêntico a nós. E odiamos o que nos questiona, o que é diferente”, diz, Abaixo, os principais trechos da conversa.

Como você avalia o momento que o País e o mundo estão vivendo, de polarização política? A relação entre as pessoas está se tornando mais violenta?
O mundo está se transformando nas últimas décadas de um modo vertiginoso. Muito mais rápido do que conseguimos entender. Temos a sensação de que ele está mais violento, mas se pensarmos nos milhões que morreram na Primeira Guerra Mundial, na Segunda Guerra, nas atrocidades e matanças, teremos que refletir que talvez haja uma transformação no modo da violência – e precisamos entender as raízes desse cenário.

Existe mais violência?

Violência sempre existiu na história da humanidade, mas talvez o que a motiva hoje seja algo diferente. Uma coisa interessante que vem acontecendo nas últimas décadas é uma mudança do mundo que o indivíduo encontra no seu cotidiano, na sua história. Havia uma continuidade maior que a de hoje e o ritmo de mudanças na vida, nas famílias, nas amizades, no trabalho, era bem mais lento. Do ponto de vista subjetivo, esse indivíduo conseguia se projetar no futuro.

Era mais previsível.

Não que fosse ideal, porque também havia amarras, havia situações em que o indivíduo ficava preso. Nós ganhamos talvez maior margem de liberdade na vida afetiva, na sexualidade, na aceitação da diversidade. Mas em outras coisas o mundo foi nos conduzindo a um desenraizamento muito grande. Então, em relação ao trabalho, por exemplo, as pessoas não sabem se vão continuar amanhã no mesmo emprego. As mudanças são rápidas, há muitas incertezas. As pessoas estão se sentindo substituíveis, pouco relevantes, seja na vida afetiva ou na inserção no mundo do trabalho.

Acredita que há uma frivolidade nas relações e na maneira de se constituir no mundo?

Sim. Existe a dificuldade de uma certa continuidade dos vínculos. E isso vai produzindo uma forma de ilusão. Então, isso envolve questões de confiança em si mesmo, de confiança no outro, nas instituições. E isso tem uma ressonância – uma questão muito importante que a psicanálise estudou – que é uma condição de desamparo. Assim, quando o mundo externo não lhe dá muitas garantias, soma-se a estranheza com você mesmo e com esse mundo exterior.

De que forma isso aparece no consultório?

O que é que nós vemos? Maior quantidade de quadros de depressão, por exemplo. Situações de vazio que a pessoa vive ou adições fortes, compulsões. Há muito sofrimento, angústia, e isso precisa ser obturado. Então o que a gente vê são formas de obturação. E a violência aparece também aí, como forma de reagir ao sentimento de insegurança e de fragilidade social. A violência acaba aparecendo muitas vezes como um ato de afirmação.

Como os psicanalistas podem lidar com essas mudanças e fenômenos contemporâneos?

Acabamos de assumir a presidência da SBPSP e o mote científico e também de intervenção na cultura da nossa gestão vai ser a questão do “o mesmo e o outro”. Identificamos que em nosso tempo está muito difícil para o homem lidar com a alteridade, com o outro, com o diferente. Ou seja, nós amamos o que é idêntico a nós. E odiamos o que nos questiona, o que é diferente. Veja o tema das migrações, dos exilados. Consideramos, desde uma perspectiva psicanalítica, que do mesmo jeito que o ser humano é auxiliado pela psicanálise a conhecer motivações inconscientes do seu modo de lidar com a vida, consigo mesmo e com o mundo, ele também tem que aprender a dialogar com esse outro dentro de si mesmo para viver de um modo mais consciente, mais integrado. E as culturas de uma determinada sociedade também têm que aprender a conviver com o diferente dentro dessa cultura.

Nesse contexto, como vê o cenário polarizado?

Há momentos na história em que determinados grupos têm interesses em polarizar a discussão política. Como se existisse algo totalmente bom e algo totalmente ruim, excluindo as complexidades. Penso que o que acontece nas redes sociais, em alguns debates, às vezes na mídia, é que justamente as pessoas que têm um pensamento mais complexo, mais rico, que aceita a diversidade e enxerga a complexidade, ganham menos espaço. Isso se dá também no contexto da psicanálise.

De que forma? Por exemplo, discute-se muito hoje, no caso da psicanálise e da saúde mental, a questão das neurociências, do avanço da psiquiatria, dos psicotrópicos, as medicações, como se fosse também uma questão ou um ou outro. Sem levar em consideração que são modos de conceber e de lidar com o aspecto do humano complementar e não são excludentes. É inegável que temos um corpo biológico e que certas substâncias influenciam na nossa subjetividade. Podem ajudar a lidar com a ansiedade ou com a depressão, mas a dimensão subjetiva do humano, que Freud chamava alma humana, que é a angústia e o sofrimento humano ligado ao existir, isto não é tratado por nenhuma medicação. Essa transformação só pode vir de uma prática clínica. Então são vínculos complementares. Por isso o que queremos, na Sociedade de Psicanálise, é convocar um diálogo cada vez maior entre os diferentes campos do conhecimento. É procurar, buscar, tentar essa interface com as experiências das outras disciplinas. Achamos que psicanálise tem a contribuir, mas que as outras disciplinas também contribuem, e dessa forma – cada um desde a sua perspectiva, desde a sua metodologia – podem juntos produzir alguma coisa talvez que nos ajude a lidar com a perplexidade do homem no mundo de hoje.

Retomando o tema da alteridade, acredita que existe uma falta generalizada de empatia? As pessoas, de uma forma geral, não conseguem se enxergar em um lugar diferente, independente de qual situação seja?

Se a gente aceita essa diferença, a partir daí pode desenvolver a empatia. Não é a partir daquilo que a gente vê que é igual. Por que é que uma formação de analista é longa, demorada? Porque o analista precisa fazer uma análise pessoal, pois ele vai transitar consigo mesmo por esses fantasmas, por essa questão do próprio narcisismo, de aceitação do outro nele mesmo, das raivas, do desejo de dependência, das vivências de solidão. Porque pra eu poder escutar o outro e poder lidar com a diferença do outro, preciso escutar essas coisas em mim.

Quais são os maiores desafios dos analistas hoje?

Acho que desafios não faltam. Talvez um dos maiores seja a questão dos tempos e dos ritmos. Vivemos em um mundo muito acelerado e as pessoas têm uma urgência muito grande de resolver seus problemas. Além disso, há uma certa ditadura da felicidade. Nós temos que ser felizes, temos que ser todos muito bonitos, ter corpos malhados, temos que estar sempre com uma cara sorridente. Não há o direito a se exercer a subjetividade plenamente. Não há direito a ficar às vezes triste, a não querer ir pra balada. Não há direito a ter dúvidas. A psicanálise, nesse sentido, se propõe a ser o espaço da singularidade. E para isso é preciso tempo, é preciso espaço.

Vivemos uma falsa liberdade? Somos escravos dessa falta de tempo?

O ritmo do mundo de hoje aparentemente nos fala da liberdade, que cada um pode ser do jeito que quer, que pode se vestir como quer, viver sua sexualidade como preferir. Sim, há algo que caminha nesse sentido, mas também há uma tirania de tudo isto também. Uma pessoa hoje na sessão de análise tem dificuldade de desligar o celular porque tem que estar conectada permanentemente. A quantidade de informação que a gente recebe é monstruosa. A psicanálise nos ajuda a construir uma narrativa de nós mesmos, mas para ter o tempo dessa narrativa, pra poder se situar no mundo, é preciso abrir um espaço, por pequenino que ele seja.

Como vê a democratização da psicanálise? Ela deve sair do consultório e dialogar com outros setores da sociedade?

Sim, isso é um dos nossos objetivos. Queremos oferecer pequenos cursos para que as pessoas possam se aproximar de psicanálise. Grupos de escutas sobre situações que acontecem na vida de todos nós – como adoção, envelhecimento, famílias, drogas. Queremos expandir nosso setor de parcerias e convênios e mostrar o que a psicanálise tem pra dar à comunidade como um todo. Como psicanalistas precisamos nos preparar para essa escuta.

Olhando para o cenário político, acha que as delações e os escândalos de corrupção aumentam essa sensação de vazio e descrença?

Como eu vejo um pouco o fenômeno que tá acontecendo? Face a essa descrença e a essa corrupção, surgem as filosofias e os desejos autoritários. Então, do que é que precisamos? A conclusão que surge é que precisamos de um pai bravo. De um governo forte, que puna os culpados. Então aí surgem as filosofias autoritárias. Assim surgiram o fascismo e o nazismo, os governos autoritários. Em lugar de pensar, o que precisamos é criar uma sociedade cuja regulação interna seja democrática. Fortalecer não uma figura autoritária mas a democracia, as instituições, os funcionários que operem com regras claras e transparentes. Pode parecer utópico, mas é o caminho de uma sociedade forte.

 

 

Entrevista publicada originalmente no jornal O Estado de S. Paulo em 24 de abril de 2017.

DEPRESSÃO

Com sintomas de depressão e tristeza, muitos adolescentes tem sido vítimas do “jogo” Baleia Azul, cujo fim culmina com o suicídio do participante. Depressão não é facilmente detectável, principalmente em crianças e adolescentes e, por essa razão, é preciso se informar a respeito e procurar ajuda quando necessário. A psicanalista Maria Thereza Barros França discute o tema no artigo “Depressão“, publicado originalmente no blog da SBPSP em 2014 e hoje mais atual do que nunca.

Blog de Psicanálise

Vincent van Gogh - Old Man in Sorrow Vincent van Gogh – Old Man in Sorrow

Para a Psiquiatria, a depressão é uma alteração do humor caracterizada por tristeza profunda, acompanhada de apatia, desânimo, inapetência, desinteresse sexual e pela higiene, insônia e um sentimento de falta de sentido na vida. Esses sintomas podem ou não se alternar com seus contrários: humor exaltado, denominado “mania”, ou em grau mais leve,hipomania. Se por um lado os sintomas depressivos nos fazem sentir pesados e pesando aos que convivem conosco, os de mania nos fazem sentir ótimos, não necessitando de nenhum tipo de ajuda, o que, entretanto já não se dá com os familiares, que podem perceber certas inadequações, falta de limites, gastos exagerados e assim por diante.

Esses quadros nos levam a perguntar: se eu tenho esses sintomas, sou doente? Estou doente? O que se passa comigo?

A Psicanálise traz sua contribuição no sentido de pensar estas questões.

Embora não seja…

Ver o post original 770 mais palavras

A psicanálise e o caso José Mayer

assedio

 Vírus nas redes: vacina para relações de poder?

Uma visão psicanalítica sobre o caso José Mayer

*Por Susana Muszkat

Vimos surgir nas últimas semanas, na esteira do #AgoraEQueSaoElas, mais uma manifestação de indignação e repúdio por parte de um grupo de mulheres: #MexeuComUmaMexeuComTodas.

Este hashtag visa denunciar mais uma de um sem-número de situações de desigualdade nas relações de gênero, manifesta por atos que traduzem o desejo de manutenção de uma determinada ordem nas relações de poder.   Neste caso vemos como, uma somatória de pressupostos paradigmáticos, levou um ator-celebridade a se sentir autorizado a assediar, no espaço de trabalho, uma moça bonita e jovem, sua subordinada.

O que são esses pressupostos paradigmáticos a que me refiro? São ideias que circulam entre nós, tendo o estatuto de ‘normalidade’. Sendo assim, costumam ser aceitas como fazendo parte da ordem natural das coisas, ainda que não nos agradem.

Por exemplo:

  • O predomínio em nossa cultura da ideia de que homens têm, por direito, deliberar sobre o destino das mulheres. Em outras palavras, subjaz um pressuposto de que aos homens cabe ocuparem lugares de decisão e de comando.

Vide, por exemplo, homens que matam companheiras pelo simples motivo de elas não mais os quererem como companheiros.  O inverso é muito raramente o caso.

Ou ainda, a proibição imposta às mulheres de terem liberdade de decidir sobre a própria vida e corpo no que diz respeito ao aborto.  A hierarquização entre homens e mulheres baseada no gênero visa garantir a perpetuação de Relações de Poder que são confundidas como normais ou a norma. Evidencia, ainda, como esse tipo de hierarquização é posta a serviço do preconceito e da discriminação.

  • Além da questão de gênero, vemos aqui uma outra ordem de abuso de lugares hierárquicos uma vez que se trata de um patrão famoso e poderoso e uma funcionária jovem cujo trabalho está subordinado ao dele. Confunde-se aí subordinação trabalhista com subjugação do outro.

Mas por que um homem educado, famoso, poderoso, que parece ter tudo, praticaria um tipo de violência contra alguém em posição de menor força?

Pois é, parece ter tudo…  No entanto…

Freud, nos esclarece a respeito da condição básica de desamparo em que nós, seres humanos, nascemos. Necessitamos, desde o primeiro momento de nossa existência, de um outro adulto que nos deseje e se dedique a cuidar de nós amorosamente para que possamos sobreviver.  O problema é que o temor em não sermos plenos e o desejo de nos livrarmos de nossa incompletude humana não termina na infância, mas ao contrário, continua pela vida toda!

Então, de que forma essas duas situações se interligam?

– De um lado temos a cultura que autoriza ou ensina aos homens (e às mulheres também!) que eles têm direitos sobre o desejo das mulheres, fazendo-os pensar que seu desejo é soberano.

– De outro, o temor do desamparo, de sentir-se frágil, não ter tudo.

A ilusão, portanto, de muitos homens, é a de que, por serem homens estarão autorizados a que seu desejo prevaleça sobre o das mulheres. É o desamparo disfarçado de força. É a ilusão respaldada pela cultura de machismo hegemônico, fazendo com que homens acreditem que de fato são mais poderosos. O risco é sempre a confusão da ilusão com a realidade. Pois a realidade revelada expõe a falácia da ilusão, trazendo à tona a reação violenta. A violência contra a mulher que frustra visa encontrar um culpado a fim de poder tolerar que o que parecia realidade era mera ilusão: ninguém pode tudo. Todos somos frágeis. Todos estamos sujeitos ao desamparo.

Mentalidades têm mudado, vêm mudando, e mulheres vêm se mobilizando mais e mais, inclusive, é importante que se diga, com apoio de muitos homens. Essas mudanças buscam estabelecer relações mais equitativas, respeitosas, onde o gênero não seja mais o fator determinante dos lugares que cada um de nós ocupa.

Como última nota: a cultura muda, mas sempre de forma muito lenta. No entanto, a internet e as redes sociais aceleraram construção de redes de apoio e de divulgação jamais imaginadas ou possíveis.  Essa velocidade que reúne tantas pessoas em torno de algo em tão pouco tempo, vem criando efeitos marcantes no fiel da balança, alternado as relações de poder. É a isso que assistimos quando algo é ‘viralizado’, e milhares ou milhões de pessoas passam a reproduzir e divulgar uma mesma ideia num tempo comprimido. Isso definitivamente tem repercussões nos ritmos de mudanças de mentalidades e consequentemente da cultura. A Internet e as redes sociais parecem ser o novo poder prevalente.  É, sem dúvida, um recurso novo e poderoso.

Deve, contudo, ser usado com cautela, pois vírus podem salvar-nos de doenças através de vacinas ou podem eliminar povos ou contagiá-los de forma irreversível.

*Susana Muszkat é psicanalista, membro efetivo e docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). É psicanalista em consultório particular de adolescentes, adultos, casais e famílias. É mestre em Psicologia Social pelo Instituto de Psicologia da USP, e autora do livro Violência e Masculinidade(2011) ed. Casa do Psicólogo e Violência Familiar (co-autora),  (2016) ed. Blucher, que faz parte da coleção O que fazer?, da qual é uma das coordenadoras editoriais.  

O psicanalista e suas formas de presença

De tempos em tempos, a Psicanálise é convocada a posicionar-se frente a críticas vindas de outros campos do saber ligados ao sofrimento humano no que diz respeito à sua atualidade clínica. Muitas dessas críticas atestam um desconhecimento sobre o movimento psicanalítico e, principalmente, sobre os desenvolvimentos no sentido de responder aos desafios da clínica contemporânea.

Nas últimas décadas, os psicanalistas vêm se debruçando sobre o tema do enquadre (Winnicott, Bleger), convocados pela clínica a inventar novas formas de presença que favoreçam o trabalho junto a pacientes ou situações clínicas nos limites da analisabilidade.

André Green é um psicanalista que nos ajuda a construir metapsicologicamente a necessidade dessas novas possibilidades de presença. Se o trabalho do aparelho psíquico é o da representação, as condições da análise devem ser tais que favoreçam esse trabalho (e não serão as mesmas em diferentes situações).

Em Freud, a clínica e a pesquisa nunca estiveram dissociadas, tendo a primeira sempre provocado investigações que o fizeram reformular a teoria. O lugar do analista nessa linhagem freudiana não poderia ser o de mero reprodutor de teorias bem acabadas, mas, possuidor de um repertório herdado de seus mestres, participar do espírito do seu tempo buscando responder a perguntas pelas quais se deixará tocar. Isso implica uma apropriação crítica e criativa da herança recebida, retrabalho constante em uma psicanálise vitalizada, como pode ser visto mesmo nos movimentos internos à própria obra freudiana.

O trabalho com as neuroses demonstra que a atitude abstinente e mais silenciosa do analista e o uso do divã limitando o polo motor, tal qual o modelo do sonho, favorecem a associação e o processo de simbolização. Diante da angústia despertada na situação analítica, a força pulsional investe as representações que vão, através da cadeia associativa, encontrar vias secundárias de satisfação. O paciente fala, sonha, produz sintomas e o analista se dispõe a um estado de atenção flutuante que o permite acompanhar e atuar nas trilhas que as palavras do paciente puderam deixar. Essa aposta, no caso do funcionamento neurótico, é geralmente bem-sucedida, pois nesses casos podemos contar com as condições para o processo representacional que se encontram construídas e mais ou menos bem preservadas.

Mas nem sempre é assim. Há situações clínicas, ou momentos na análise, em que essas condições de enquadre estabelecidas para favorecer a representação, ao contrário, as dificulta. O excesso de excitação pulsional reavivado na situação transferencial interrompe as cadeias de ligação. Diante de angústias que oscilam entre abandono e intrusão, o silêncio do analista pode ser sentido pelo paciente como mortífero. As falhas do trabalho da representação tais como reveladas na análise denunciam as marcas das condições constitutivas de origem junto ao objeto (invasão e abandono) o que impõe ao analista um manejo diferente para restaurar em certa medida a via associativa. Nessas condições menos favoráveis, o trabalho psíquico do analista é chamado a comparecer, sua própria elaboração imaginativa ganha lugar e o analista buscará encontrar a justa distância que o permita se manter vivo sem se tornar invasivo. Como intervir respeitando essa justa distância? O que faz o trabalho de simbolização falhar em certas condições?

Foi diante destas dificuldades impostas ao trabalho analítico que Green propôs seu projeto para uma psicanálise contemporânea, um projeto coletivo de investigação das condições de representação no enquadre analítico, tomando como matriz clinica as situações nos limites da analisabilidade. O projeto é coletivo, e estamos todos convidados a dele participar.

Algumas das respostas pessoais de André Green a essas perguntas serão trabalhadas no curso “André Green e a Psicanálise Contemporânea”, oferecido pela SBPSP.

 

Berta Hoffmann Azevedo é membro filiado ao Instituto de Psicanalise Durval Marcondes da SBPSP, mestre em Psicologia Clínica pela PUCSP, docente do curso “André Green e a Psicanálise Contemporânea” pela SBPSP e autora do Livro Crise Pseudoepiléptica, coleção Clínica Psicanalítica (Ed. Casa do Psicólogo).

bertaazevedo@hotmail.com

A tecnologia não pode substituir o contato humano no tratamento do autismo

A psicanalista Alicia Beatriz Dorado de Lisondo integra o Grupo de Psicanálise e Pesquisa de Autismo (GPPA). Junto com outros profissionais, ela tem se dedicado a estudos na área que culminaram na publicação do livro “Atendimento Psicanalítico do Autismo” (2014) e no desenvolvimento do Protocolo PRISMA (Protocolo de Investigação Psicanalítica de Sinais de Mudança em Autismo), que oferece indicadores para o mapeamento do desenvolvimento emocional de crianças com transtornos autísticos e sua evolução no tratamento psicanalítico.

“Queríamos dialogar com a comunidade científica, mostrando como a psicanálise é um caminho eficiente para trabalhar com a criança com estados autísticos. Então criamos o Protocolo PRISMA, que foi apresentado em vários congressos internacionais”, conta Alicia. Em entrevista à Sociedade Brasileira de Psicanálise São Paulo, ela fala sobre o autismo em um mundo cheio de estímulos tecnológicos e deixa um alerta: a tecnologia não pode ser usada para substituir o contato humano.

Os estímulos proporcionados pela tecnologia podem ser usados a favor do tratamento de um paciente autista?

Sem dúvida estamos em mundo midiático. Isso é uma realidade. A questão é: como a tecnologia é usada? Isso não é só para a criança autista, é para qualquer criança. Quando a família está submetida à televisão ou ao tablet, não está dialogando nem interagindo. Há momentos que deveriam ser sagrados. Hoje, a conversa e até a briga e o confronto estão sendo substituídos por cada um com seu tablet ou com seu celular quando a família se reúne em torno de uma mesa. O problema é que o aparelho não é um ser humano. Pode estar a serviço desse refúgio autístico, desse isolamento para evitar o contato.  O aparelho pode fazer parte desse mundo mental da criança com estados autísticos. Não são só os psicanalistas: a Sociedade Brasileira de Pediatria também encaminhou um comunicado chamando a atenção para o uso excessivo dessas tecnologias que estão levando crianças a quadro de depressão, de anorexia, adições e até o suicidio.

Há limites e contraindicações para o uso desses estímulos tecnológicos?

Os psicanalistas, pela experiência clínica, tentamos alertar sobre as consequências do uso excessivo dos estímulos tecnológicos. Quanto menos melhor na primeira infância. Seu uso precisa ser modulado de acordo com as idades e os estados mentais. Há um tempo fiz uma avaliação diagnóstica em que o menininho com fortes traços autísticos estava com o tablet. Ele passava o dedinho e sucessivas figuras que o pai tinha carregado apareciam na tela. Em determinado momento, tentei ver o conteúdo. Me dei conta que era tão grande a minha dor e sofrimento que eu queria encontrar um sentido naquela envoltura imagética. Ele não me olhava, ele não estava em contato comigo e o uso que ele fazia desse tablet era passar o dedinho e ficar absolutamente absorto com a  imagem  aparecendo . Ele parecia não entender, não reconhecer cada imagem. Importava ter o controle pelas aparições e desaparições .  Estava focado nesse tablet que lhe dava uma proteção sensorial e o protegia do contato humano. Esse tablet é previsível, ele tem o controle. O ser humano é imprevisível em sua essência. Ele não estava sendo estimulado com o tablet assim usado, ele encontrava excitação em seu mundo próprio, isolado do mundo humano.

Eu acho que o importante é que os pais entendam que os efeitos dos recursos tecnológicos dependem de como eles estão sendo usados e que isso não os poupa das funções paternais. Com os adolescentes, é importante que os pais estejam perto para acompanhar, não para proibir. A possibilidade de conversar, de dialogar, pode permitir que valores e modelos sejam assimilados. A criança precisa de tempo para brincar e sonhar, o adolescente para ter seus devaneios, a vida nos grupos sociais, organizar os programas sociais presenciais, poder ter devaneios, descansar. Tem criança que tem agenda de executivo.

Acredita que outros profissionais, como fonoaudiólogos e pedagogos, podem se beneficiar desse recurso no tratamento?

Depende do uso que se faz. Se estão sendo usados para substituir a interação humana, eu desaconselho seu uso. O problema da criança autista – e isso é muito importante para conscientizar a comunidade –  não é que a criança fale ou deixe de falar. É uma questão do ser, da formação da personalidade, dos alicerces do ser humano. Os papagaios também falam. Não nos interessam essas falas mecânicas e repetitivas, automáticas, que são objetos autísticos assim como o tablet pode vir a ser. Nos interessa uma pessoa que seja autor de sua fala, que tenha construído uma subjetividade. Que sua fala seja uma linguagem, expressão de sua subjetividade, uma linguagem com um sentido num diálogo humano. É preciso ter para quem falar e ter um dizer próprio e singular. Então, o fonoaudiólogo pode ser um profissional que muito ajude no momento adequado, dependendo da concepção que tenha do ser humano e da aquisição da linguagem. Mas o paciente com estados  autistas está lutando para construir um sentido para sua existência. Às vezes, o próprio sentido de existir como ser humano. Ele não é só um aparelho fonoarticulatório. A criança pode se sentir invadida com espátulas e tentativas de recuperar o tônus muscular em momentos de muita angustia catastrófica, desmantelamento psíquico,  se sentir caindo aos pedaços.

Essas questões envolvendo tecnologias são mais comuns nos pacientes nativos digitais ou você percebe em outras idades também?

A tecnologia pode ser utilizada em todas as idades e os pais são um modelo de identificação. O mundo de hoje é muito desumano. Em uma cidade como São Paulo, não há muitos espaços seguros, arborizados, para a criança brincar, explorar o mundo, subir em arvores. A vida contemporânea dos casais faz com que as crianças sejam colocadas em creches, após a licença maternidade durante muitas horas por dia. O primeiro ano de vida é fundamental para criar vida psíquica, alicerce da personalidade. Quando a mãe dá o seio ao filho, ela dá muito  mais do que leite. A criança olha a mãe suficientemente boa, se encontra espelhada no seu rosto, escuta sua voz, saboreia o leite, sente-se segura no seu colo com um holding firme. Os sentidos estão integrados, harmonizados numa sinfonia poética: audição, vista, olfativo, gustativo, Kinestecico, cinestecico. A mãe é um seio pensante e um seio estético que lhe mostra o mistério do mundo. Em muitas situações, por falta de tempo, esgotamento, falta de conhecimento, conflitos na relação afetiva, uma difícil história transgeracional e um conjunto de fatores conhecidos e desconhecidos, muitas vezes o tablet surg como recurso autocalmante, um alívio para a família em desespero. É claro que a criança pode vir a ficar calma em seu mundo próprio- a paz do sepulcro-, mas aí a criança não lida com a raiva, com a frustração, com os limites, com a malcriação, não aprende a esperar, a tolerar, a criar outras alternativas, não chega o seio, pode chupar o paninho. As emoções, nos vínculos humano nutrem a mente. Joao a mamãe já chega aí, aguarda um pouquinho…Vai dar muito mais trabalho fazer uma criança de dois anos recolher os brinquedos e colocar em uma caixa do que fazer por ele Quando ele vive a experiência de juntar, guardar numa caixa, os brinquedos, ele encontra um continente. Ele pode juntar e esparramar e aí está a reversibilidade. O que acontece no seu mundo pode vir a ter um correlato com funções mentais. Essa criança de 18 meses precisa brincar com potes, encher potes e esvaziar potes, assim aprenderá a controlar esfíncteres; uma bexiga cheia é esvaziada. Ele perde urina, não seu ser que desaparece nessa urina. Essa possibilidade de brincar vai alimentar a vida mental. A criança precisa desenhar, contar e escutar histórias, brincar, criar personagens, dramatizar, explorar o mundo, interrogar, armar quebra-cabeças, dialogar, modelar… viver em vínculos humanos significativos.

 

 

Alicia Beatriz Dorado de Lisondo é analista de crianças, adolescentes e adutos. Didata e docente do GEP Campinas e da SBPSP. Filiada à International Psychoanalytic Association. E-mail: alicia.beatriz.lisondo@gmail.com

Melanie Klein: ontem, hoje e amanhã

Elizabeth Lima da Rocha Barros
Elias M da Rocha Barros

Se viva estivesse, Melanie Klein completaria 135 anos no dia 30 de março de 2017. O que devemos comemorar nesta data? Sua figura histórica? O fato de ter sido a criadora da análise de crianças? Ou o caráter vivo de seu pensamento? Este último ponto, que continua a fertilizar o desenvolvimento da Psicanálise Contemporânea, será o eixo de nossa atenção.

Melanie Klein atualmente ganhou autonomia em relação à sua posição dentro do pensamento psicanalítico, limitada historicamente pelo fato de ter sido considerada chefe de uma Escola, para integrar o mundo das ideias psicanalíticas contemporâneas.

Dessa forma, hoje Klein já se libertou da limitação que o adjetivo “Kleiniana” lhe impunha, que por sinal ela sempre rejeitou, por se ver como uma continuadora de Freud. Foi ela quem apresentou o complemento mais importante à teoria freudiana da mente humana depois da fundação da nossa disciplina. É também a autora que gerou um grande número de controvérsias. Hoje sabemos que estas controvérsias deram ensejo a um período muito fértil de discussões, que se revelaram fundamentais, e continuam a dar frutos no que tange ao desenvolvimento do pensamento psicanalítico atual.

A partir deste ângulo, devemos olhar para o pensamento de Melanie Klein como uma obra aberta, que se reinventa a cada contato com o pensamento contemporâneo e o fecunda. Assim, ela continuará a inspirar novas perspectivas e a semear novos conceitos derivados a partir da compreensão profunda de suas ideias.

Conhecer é terapêutico

Correu pelas redes sociais da internet nos últimos tempos uma mensagem com uma foto de Melanie Klein, acompanhada de um pensamento a ela atribuído. O texto dizia: “Quem come do fruto do conhecimento é expulso de algum paraíso.” Esta postagem é emblemática daquilo que comemoramos.

Melanie Klein - quem come do fruto do conhecimento e sempre expulso de algum paraiso

Curiosamente a postagem alude a uma das contribuições mais importantes de Klein: a de que pensar não serve apenas à função de adquirir conhecimento. Ser capaz de pensar as próprias emoções altera profundamente a maneira de o indivíduo estar no mundo. Klein, portanto, introduz na psicanálise a noção de que “conhecer” por meio da libertação e da ampliação da capacidade de pensar é terapêutico, pois promove a integração das experiências emocionais ao cerne de nosso ser, e assim, gera amadurecimento emocional.

O paraíso do qual o indivíduo que conhece é expulso refere-se à libertação de uma falsa segurança baseada num estado de espírito que prima pela superficialidade e pelo descompromisso afetivo em suas relações humanas, sustentado em idealizações. Deixar de ser superficial por meio do aprimoramento de nossa capacidade de reflexão, ser profundo e responsável em nossas relações interpessoais, torna-se fator de saúde mental na concepção da Psicanálise que hoje praticamos. E esta premissa deriva diretamente da obra de Klein.

O desenvolvimento humano, na concepção de nossa autora, não é linear. Ele é dialético e mais próximo de um processo em espiral. Visto que a saúde mental está sempre ameaçada em sua estabilidade, ela deve ser permanentemente reconquistada. A saúde ou o equilíbrio mental não são consequências naturais de um desenvolvimento bem sucedido e, de certa maneira, pré-programado.

Na obra de Klein, o processo de aquisição de conhecimento tornou-se um conceito com estatuto metapsicológico. Esta ideia foi e é nova e, pouco a pouco, se incorporou à maior parte das teorias da psicanálise contemporânea.

A “pulsão para conhecer”

Klein desenvolve sua vocação psicanalítica impelida pelo desejo de compreender os mecanismos da inibição que impedem uma criança de desenvolver plenamente suas capacidades emocionais e cognitivas. Descobre progressivamente que essa criança é vítima de uma tirania imposta por suas fantasias inconscientes destrutivas que a impedem de exercer sua curiosidade sobre o mundo das coisas e das pessoas, inclusive sobre si mesma.

O medo é a base da tirania e gera uma realidade psíquica coercitiva baseada na lei do talião e na violência da pulsão de morte. Só a libertação de nossa capacidade de amar, baseada na compreensão da lógica que subjaz às nossas fantasias inconscientes, pode nos liberar e permitir o pleno florescer de nossas capacidades afetivas e intelectuais. Temos neste começo de suas indagações as raízes de sua concepção daquilo que chamou “instinto epistemofílico” e, depois, “pulsão para conhecer”. Esta ideia deu origem posteriormente à teoria dos elos K e -K na obra de Bion.

Pascal dizia que os instintos são as razões do coração sobre as quais a razão nada sabe. Klein procura decifrar essas razões do coração por meio da compreensão do sentido e significado daquilo que ela caracteriza como fantasias inconscientes. Essas são derivadas e ao mesmo tempo são organizadoras das experiências emocionais, constituindo-se em núcleos geradores de significado. As fantasias inconscientes, ao se constituírem núcleos geradores de significados para a vida psíquica, acabam por moldar e, às vezes, deformar as demais experiências emocionais a elas associadas.  Fantasia inconsciente é, antes de tudo, um modo ativo de pensar inconsciente que adquire certa estabilidade, gerando significados que vão se agrupar em torno de um núcleo atribuidor de significados. Este opera como um organizador da vida psíquica e, assim, cria elos com outras experiências emocionais.

Fantasias inconscientes traumáticas dão forma a uma situação vivida que, num primeiro momento, foi incompreensível ou intolerável.

Em Klein, as emoções passam a ser consideradas, na estrutura psíquica, como algo comparável ao tecido conectivo e operam como elos entre os diversos níveis das instâncias psíquicas e as vivências correspondentes. É Bion, mais uma vez, um dos mais criativos continuadores do pensamento kleiniano, que desenvolverá este aspecto com grande riqueza ao estudar os ataques a estes elos. E hoje sabemos como estes ataques afetam a capacidade de simbolização dos indivíduos.

Para Melanie Klein e seus seguidores, as pessoas não sofrem apenas devido a carências, traumas ou repressões. Elas sofrem também de falta de experiências emocionais que propiciem um desenvolvimento/crescimento. Nesta perspectiva, não basta que a psicanálise seja efetiva no levantamento de repressões que impedem certos pensamentos ou sentimentos de virem à luz ou propicie um ambiente facilitador, visando reparar situações de carências passadas.

É dentro da perspectiva oferecida pelas contribuições acima descritas que Melanie Klein merece ser lembrada e comemorada.

 

Elias Mallet da Rocha Barros é analista didata da SBPSP, recipiente do prêmio Sigournei, Fellow da Sociedade Britânica de Psicanálise e de seu Instituto, Chair Latino Americano da Força Tarefa para a produção do Dicionário Enciclopédico de Psicanálise a ser publicado pela IPA

Elizabeth L da Rocha Barros é analista didata da SBPSP, Fellow da Sociedade Britânica de Psicanálise e de seu Instituto, DEA em Psicopatologia pela Sorbonne.

O lugar do idoso no mundo contemporâneo

Miriam Altman

Você já parou para pensar no lugar que o idoso ocupa na nossa sociedade? São pessoas que muito produziram: participaram da vida familiar, ajudaram na construção de projetos, de sonhos e da vida comunitária por muito tempo.

A velhice tem estado em pauta desde a antiguidade, mas só a partir do século passado foi possível consolidar a emergência do estudo do envelhecimento. O fato é que a expectativa de vida aumenta a cada ano em função do desenvolvimento da medicina e da tecnologia. Já que se aumenta a longevidade, não deveria a qualidade de vida aumentar também? Será que nós, tanto como indivíduo quanto como sociedade, estamos preparados para esta realidade?

O ponto é que muitos de nós, ao se aposentar, têm dificuldade de se inserir em alguma atividade produtiva. Como em nossa sociedade somos muitas vezes definidos pela atividade do trabalho e, inclusive, chegamos a construir a nossa identidade com base na profissão, diante da aposentadoria, perdemos o chão. Isso faz com que sentimentos de fracasso, impotência e inutilidade nos envolvam. “A casa cai”.

Mas por que, nesse momento tão importante de mudanças, esquecemos que somos humanos e podemos (e devemos) nos valorizar? Que podemos nos ocupar com diversas outras atividades, inclusive desenvolvendo novos gostos pessoais; ou desfrutando do tempo livre; ou ainda nos reinserindo no mercado de trabalho?

O processo de envelhecimento é um momento de vida delicado, assim como a adolescência. O corpo vai se transformando e somos direcionados a buscar soluções práticas, normalmente na medicina e na tecnologia.

Porém, essas mudanças ocorrem tanto no nível físico quanto psíquico. Não podemos negligenciar a mente. Esse é um momento de indagação, reflexão e descoberta. E, diferentemente da pressa que acomete a adolescência, esse projeto pode ser construído aos poucos, sem pressa, encarando os próprios medos.

Sendo assim, não são apenas os jovens que precisam buscar um caminho. Nós também precisamos. Porém, o processo de autoconhecimento não é simples e imediato, mesmo para quem tem experiência de vida. Consequentemente, em inúmeras ocasiões não conseguimos encontrá-lo sozinho. É necessário algum apoio para elaborar as perdas e ganhos e trabalhar tantas questões internas. Mas então por que é tão fácil procurar um médico e tão difícil procurar um psicoterapeuta ou analista?

A percepção da vida psíquica pode, para muitas pessoas, ser o início da busca por uma psicanálise. Às vezes, é desconfortável depararmo-nos com sentimentos e emoções que não “estavam no programa” ou que nos trazem angústias. A vida mental é experimentada como algo abstrato, não tem consistência, cor, tamanho. Não temos acesso a ela por meios conhecidos, como os sensoriais. A terapia é uma conversa diferente aonde estes aspectos da vida mental podem ser investigados tornando-nos mais aptos a um conhecimento e contato com as próprias emoções. Por ser algo dessa natureza, desconhecida e pouco tangível, muitas pessoas preferem dar atenção ao corpo e às doenças e, dessa forma, cuidar em primeiro lugar do corpo. Isso é muito importante, desde que não esqueçamos que temos também uma vida emocional que não pode ser negligenciada!

Por fim, toda crise tem um lado bom, já que, apesar das angústias e desconfortos, ela nos impulsiona a buscar soluções para resolver conflitos novos e também antigos. Com um maior autoconhecimento, podemos nos posicionar mais ativamente perante o mundo em constantes mudanças e escolher prudentemente nosso posicionamento na sociedade, definindo nosso lugar. Aproveite esse momento para se conhecer melhor e fazer algo produtivo pessoal e profissionalmente por você!

 

Miriam Altman é membro associado à SBPSP, mestre em Psicologia Clínica pela USP e tem especialização em psicoterapia psicanalítica pelo Sedes Sapientiae.

miriam@miriamaltman.psc.br

Para ser um adulto feliz, precisamos ser uma criança feliz

A psicanalista e psiquiatra infantil Marie Rose Moro estará no Brasil para a III Jornada da Clínica 0 a 3 – Intervenção nas Relações pais-bebê, que acontece na Sociedade Brasileira de Psicanálise São Paulo nos dias 17 a 18 de março. Na ocasião, ela compartilhará experiências e abordará temas relativos à criação de filhos no século XXI. Em entrevista à SBPSP, ela fala sobre alguns dos temas do encontro, em especial sobre a abordagem transcultural, uma linha de trabalho e pesquisa à qual vem se dedicando e é cada vez mais necessária em um cenário marcado por grandes correntes migratórias e imigratórias.

Quais são os principais desafios culturais para a maternidade e paternidade hoje em dia?

Nós não somos pais, nos tornamos pais! É uma construção complexa de parâmetros coletivos, sistêmicos e intrapsíquicos. Antes, nós tentávamos fazer como nossos pais fizeram conosco nas gerações anteriores. Mas agora isso não é possível. Nós temos que criar nosso próprio jeito de ser pai e mãe. É difícil porque não tem um único modelo a ser seguido. Nós temos que inventar e adaptar nosso self para cada criança, para ouvir as necessidades dele ou dela. Frequentemente nós temos que fazer isso sozinhos, sem outras gerações, sem um grupo. Solidão e dúvidas estão presentes e é por isso que é um desafio grande e extraordinário. Alguns filósofos europeus acham que criar filhos é um desafio enorme no século XXI. É desafiador tanto para a sociedade mas também para a clínica psicológica e para a psicanálise.

 

Você poderia explicar como os processos de migração e imigração influenciam na criação de filhos nos dias de hoje?

Deixar o lar, a família, os amigos e a língua, perder os aroma, cores e sabores familiares e migrar para outro mundo, geralmente sozinho, são experiências ao mesmo tempo corriqueiras, atemporais e extraordinárias. Migração não é simplesmente a jornada sensata e necessária de muitos Ulysses, mas também tem outras faces: basta ver os rostos atordoados de homens e mulheres chegando nas fronteiras da Europa do oeste africano e barrados no aeroporto, ou tentando cruzar o deserto pelo Mali, Algeria e Marrocos para chegar à costa da Espanha aflitos, explorados e, algumas vezes, mortos. Acontece o mesmo no Brasil. A necessidade vem de fora, mas também de dentro. O viajante moderno chegando na controlada Europa ou na América é mais parecido com o valente Don Quixote lutando contra moinhos de vento e adversidades do que com Ulysses, mesmo quando há um propósito. A jornada continua pela Espanha, Portugal, França e além. O processo é para pessoas e grupos um jeito de encontrar a liberdade, mas também é um trauma e uma dor. Você encontra novos valores e caminhos de viver, mas perde outros que podem ser muito importantes para você.

Estar no exílio é uma situação muito desafiadora para tornar-se mãe ou pai. Em um ambiente que você não conhece tão bem, você pode sentir-se não muito confortável e pode ser uma situação muito insegura sem família e grupos para te ajudar, modelos para te inspirar e por aí vai. E se o bebê chorar, o que fazer? E se o bebê não quiser comer ou dormir?  E se o desenvolvimento dele ou dela não for bom o suficiente? E se o bebê não quer comer ou dormir? E se uma doença ou morte acontecer? Nessa situação transcultural, precisamos ajudar os pais a serem pais nessa situação vulnerável. Imaginamos um cenário transcultural para os pais imigrantes.

Há diferenças para homens e mulheres na criação de filhos no século XXI? Quais são elas? Elas mudaram muito nos últimos anos? São igualmente importantes para o desenvolvimento do bebê?

Claro que ainda há muitas diferenças entre homens e mulheres na criação de filhos no século XXI. E as diferenças são boas para os bebês. Eles podem viver experiências e estímulos diferentes. As mães ainda estão mais envolvidas nos cuidados diários e passam mais tempo com os bebês do que os pais, mas podemos observar em partes diferentes do mundo que os papeis dos pais estão mudando. Os pais estão mais perto dos bebês do que antes e querem participar mais das experiências do dia a dia e dividir mais com as mães. Mas os bebês e as crianças precisam de ambos ao redor e interagindo com eles. Eu acho que o bebê também precisa de um grupo para ser apoiado e interagir.

 

 

Em que aspectos a relação entre pais e bebês nos primeiros anos de vida pode influenciar o desenvolvimento da personalidade da criança?

Nós sabemos bem que o primeiro ano de vida do bebê é crucial para toda sua vida porque é nele que o bebê precisa construir sua segurança, personalidade e maneira de interagir com o mundo. Muitos grandes psicanalistas e psiquiatras mostraram isso no século XX, como Selma Fraiberg e Daniel Stern, nos Estados Unidos; Serge Lebovici, Michel Soulé e René Diatkine, na França, e Donald Winnicott, no Reino Unido. Os bebês precisam de ajuda em momentos vulneráveis e os pais também. Levando em conta essa vulnerabilidade é uma necessidade hoje que reconheçamos suas necessidades e não deixemos os pais e os bebês sozinhos com o sofrimento deles. Essa também é uma necessidade para o futuro porque esse período tem uma enorme influência para a criança, o adolescente e o adulto que eles serão. Essas intervenções precoces têm grandes resultados no momento, mas também é um investimento para o futuro. Para ser um adulto feliz, precisamos ser um bebê feliz.

Claro que pais imigrantes que pertencem a grupos vulneráveis têm que ser ajudados nesse período muito específico e esse é o objetivo da nossa aproximação transcultural. Pesquisas atuais no campo da psiquiatria transcultural apontam que essa técnica é adequada à prática clínica com pais imigrantes, pois produz resultados terapêuticos que são profundos e duradouros.

 

Marie Rose Moro é chefe de departamento de medicina transcultural e psicopatologia do adolescente, Maison de Solenn, Maison des adolescents do Hospital Cochin (Paris, França); criou e é a responsável pelas consultas transculturais destinadas a bebês, crianças, adolescentes e suas famílias, Hospital Avicenne (Bobigny) e Cochin (Paris); é chefe de fila da psiquiatria transcultural na Europa; diretora da revista transcultural, L’autre. Clinicas, Culturas e Sociedades; presidente da Associação Internacional de Etnopsiquiatria (AIEP), e professora convidada para conferências em vários países do mundo.

 

Saiba mais sobre o trabalho de Marie Rose Moro:

 

 

Psicanálise e homossexualidade – da apropriação à desapropriação médico-moral

psicanalisehomossexualidade

*Oswaldo Ferreira Leite Neto, Eduardo de São Thiago Martins, Rodrigo Lage Leite, Tiago da Silva Porto

Há vários anos, entidades científicas representativas da psicologia, medicina e psicanálise têm posicionamentos claros sobre a não inclusão das homossexualidades na categoria de “doenças, distúrbios ou perversões”. Estes posicionamentos são amparados “pela produção científica nacional e internacional” e asseguram a “defesa dos princípios constitucionais da igualdade e da não discriminação” (Nota de repúdio do CFP 22/02/17).

A despeito disso, várias propostas parlamentares são recorrentemente apresentadas para sustar os efeitos da Resolução CFP 01/1999, marco regulatório que estabelece normas de atuação para psicólogos em relação à questão da orientação sexual. A resolução impede o oferecimento de “tratamentos de cura” para homossexualidade ou comunicações públicas, em nome da psicologia, associando homossexualidade e doença. Neste momento, acontece mais uma tentativa de barrar a resolução, através do Projeto de Decreto Legislativo (PDC) nº 539/2016.

Em 2014, a Revista IDE publicou o trabalho “Psicanálise e homossexualidade – da apropriação à desapropriação médico-moral”, fruto do trabalho do Grupo de Estudos de Psicanálise e Homossexualidade, da SBPSP. O trabalho, escrito por Eduardo de São Thiago Martins, Rodrigo Lage Leite, Tiago da Silva Porto e Oswaldo Ferreira Leite Netto, recupera historicamente como “chegamos à realidade anacrônica de encarar a sexualidade, incluindo a homossexualidade, como doença. Isto significa entender de que maneira os movimentos da sexualidade humana desde sempre, com sua multiplicidade de formas e expressões, incluindo as relações entre pessoas do mesmo sexo, foram encampados pelo saber dito científico, médico, e passaram da condição de algo sem um nome, algo dos homens e das mulheres, algo da intimidade desejante dos seres, valorizado ou não, idealizado ou execrado, para algo que tinha agora um nome – homossexualidade – que era determinante da personalidade, do caráter e da própria essência do sujeito. E, sobretudo, que passava a ser objeto de estudo da medicina, associado à noção de doença”.

Acreditamos que o artigo traga elementos para enriquecer a discussão do tema em nosso país e impedir retrocessos e obscurantismos. É fundamental separar o direito da livre manifestação do pensamento do uso da ciência para embasar posicionamentos religiosos ou morais. Boa leitura!

http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-31062014000100013