Sobre o aborto, com a psicanálise

*Ludmila Frateschi

Paulo Endo[1], no I Simpósio Bienal da SBPSP, conclamou a psicanálise e os psicanalistas a não se calarem quando seus muitos anos de produção científica tiverem algo a acrescentar ao debate público. É possível que a psicanálise possa contribuir com a discussão sobre manter ou não o aborto como crime?

Os movimentos pela defesa da vida das mulheres e pela igualdade de direitos entre mulheres e homens têm defendido, já há muito tempo, a autonomia de decisão de uma mulher sobre seu o corpo e o seu direito de fazer um aborto no caso de gravidez que não se sinta apta a levar a termo.

No Brasil, a legislação mantém o aborto como crime no Código Penal, prevendo de um a três anos de reclusão para aquelas que o praticam. Destacam-se apenas três situações em que a pena não se aplica: risco de morte da mãe, anencefalia fetal e gravidez decorrente de estupro. Alguns legisladores defendem que a criminalização seja ainda maior: O projeto de lei 5069/2013, por exemplo, levou milhares de mulheres às ruas e fomentou várias manifestações feministas em 2015, propondo tornar também crime o auxílio ao aborto[2]“ e acabou não indo para frente[3]. Também o texto atual da PEC 181/2015[4], originalmente criado para estender a licença maternidade de mães de prematuros, foi alterado por um deputado: num desvio, ele acrescentou uma emenda prevendo que a vida de fetos deva ser protegida acima de tudo e desde a concepção[5].

Por outro lado, uma sugestão legislativa para legalizar o aborto voluntário até a décima segunda semana de gestação tramitou na Comissão de Direitos Humanos do Senado, ensejando cinco consultas públicas entre 2014 e 2016[6]. Seu relator sugeriu o arquivamento do projeto no início deste ano[7]. No entanto, uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 442 ajuizada pelo PSOL com o argumento de que os artigos do Código Penal referentes ao aborto são inconstitucionais, passou a tramitar no Supremo Tribunal Federal (STF) e, em agosto, realizou-se mais uma audiência pública. Não sabemos ainda qual será o resultado final. A audiência ganhou ainda maior visibilidade porque, no mesmo mês, na Argentina, vimos milhares de mulheres nas ruas em vigília pela aprovação da legalização do aborto naquele país. Lá, o movimento teve uma vitória na Câmara, mas uma derrota no Senado.

A criminalização do aborto leva à enorme subnotificação dos casos e aos nefastos efeitos da prática que se faz clandestinamente. A pesquisadora Débora Diniz, expondo a Pesquisa Nacional do Aborto[8] na audiência do STF, apresenta o impressionante dado de que uma a cada cinco brasileiras com quarenta anos já fizeram ao menos um aborto. Diniz cita também o emblemático (mas, infelizmente, comum) caso de uma mulher que, mãe de outros filhos, morreu numa manobra com um talo de mamona, naquilo que seria o seu segundo aborto. Denuncia-nos, assim, como a criminalização obriga as mulheres a se esconderem, impedindo que procurem ajuda, orientação e cuidado e levando à repetição de uma situação tão dolorosa e arriscada. Convoca-nos, como analistas, a pensar: que mecanismo psíquico e social opera na hipocrisia que nega a realidade dos abortos clandestinos? O que favorece a repetição deste ato mortífero?

Outra expositora da audiência Pública, a pastora Lusmarina, do Instituto de Estudos da Religião (ISER)[9], recusa o dogmatismo e reforça os preceitos humanistas de sua Igreja: a importância do acolhimento e a singularidade de cada experiência. Ela fala em “escolhas possíveis”, lembrando-nos do preceito também psicanalítico de que um ato ou sintoma é sempre o melhor que o sujeito pode fazer com sua angústia naquele momento e, abstendo-se de uma posição que julga, diz ela: “Não cabe a nós como sociedade, como Estado ou como gente de fé, “amontoar aflição sobre aflição’ – como dizia Lutero -, culpa sobre culpa, medo sobre medo, abandono sobre abandono, dor sobre dor, ao ameaçar com a prisão e a categorização de ‘assassina’ alguém que está numa profunda situação de vulnerabilidade”.

Virginia Ungar[10], Presidente da International Psychoanalytical Association (IPA), disse: “Partamos de uma evidência: nossa época não é a de princípios do século passado quando nasceu a psicanálise. Tampouco a situação das mulheres que estamos aqui é representativa da maioria das mulheres. É verdade que antes houve outras mulheres no lugar de condução de muitas sociedades psicanalíticas. Isto não quer dizer que vamos negar o lugar vulnerável que tem tido e ainda tem a mulher em nossa sociedade”. Creio ser importante que possamos pensar nas diferentes condições em que as mulheres no Brasil fazem aborto. Segundo a Pesquisa Nacional do Aborto, a mulher que tem menos acesso a planejamento familiar, que pratica aborto nas piores condições e que tem maiores complicações é pobre, negra ou indígena, nortista ou nordestina. Ela precisa escolher entre ter um filho que não pode ou correr risco de vida. Entre adequar-se a um mandamento social de que não pode dar conta ou, como disse a Pastora Lusmarina, acreditar que é uma assassina.

Sabendo que a possibilidade de maternar não é universal entre as mulheres e que é fundamental para o desenvolvimento da criança, pergunto-me então o que a psicanálise e os psicanalistas têm a dizer sobre a criminalização daquelas que assumem o seu limite.

Retomo, por fim, um episódio da série “The Handmaid’s Tale”, inspiração das manifestações na Argentina. Nele, uma das personagens – obrigada a ter filhos para a comunidade, já que é uma das poucas mulheres férteis que resta – tenta cometer infanticídio. Ordena-se então que seja apedrejada pelas outras mulheres férteis. Estas recusam-se a cumprir a ordem. Compreendem, a meu ver, que não é possível apedrejar alguém por levar a cabo um desejo que reconhecem em si mesmas. Parece-me algo que um psicanalista poderia questionar: se em toda mulher há alguma ambivalência em tornar-se mãe, por que socialmente apedrejamos, matamos e criminalizamos mulheres que admitem não poderem tornar-se mães?

 

Imagem: Alejandro Moreyra para o portal Tiempo Argentino

 

[1] Paulo Endo, em fala no Fórum Violência e Psicanálise no I Simpósio Bienal da SBPSP

[2] No texto do PL: “Induzir ou instigar a gestante a usar substância ou objeto abortivo, instruir ou orientar gestante sobre como praticar aborto ou prestar-lhe qualquer auxílio para que o pratique, ainda mais sob o pretexto da redução de danos

[3] Projeto de Eduardo Cunha (então do PMDB do Rio de Janeiro),

[4] De autoria de Aécio Neves (PSDB-MG)

[5] Jorge Tadeu Mudalem (DEM – SP)

[6] De autoria de André de Oliveira Kiepper, cidadão comum do Rio de janeiro, mestre em saúde pública

[7] Senador Magno Malta (PR-ES)

[8] https://www.youtube.com/watch?v=kuzNoNoYrTg

[9] https://www.youtube.com/watch?v=joAMPIaSkv0

[10] Virginia Ungar, O mesmo, O outro – fala na conferência de abertura do I Simposio Bienal da SBPSP

 

Ludmila Frateschi é psicóloga e psicanalista formada pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Pertence ao Serviço de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (HC/FMUSP). É atualmente membro filiado do Instituto Durval Marcondes. Atende em consultório particular. Contato: ludmilafrateschi@gmail.com

Arte e mal-estar na civilização

A SBPSP promove no sábado, 22 de setembro, às 11h, o encontro “Arte e Mal-Estar na Civilização”. O evento, coordenado por Cristina Secaf Rebello, contará com as apresentações “Psicanálise e o Espírito dos Tempos”, do psicanalista Leopold Nosek, e “A Crítica da Visão Como Sentido Dominante”, do professor doutor do departamento de História da Arquitetura e Estética do Projeto da FAU/USP, Agnaldo Farias. Confira o texto de apresentação do encontro. As inscrições devem ser feitas pelo link: https://bit.ly/2NRLUBC

 

A coerção das pulsões – exigência necessária para o desenvolvimento civilizatório, cultural e tecnológico – produz, segundo Freud, um constante e crescente mal-estar ao impedir o prazer e a felicidade. As forças destrutivas, assim como os desejos sexuais vividos sem limitações, devem sofrer desvios como possibilidade de expressão e descarga.

A Arte, que Freud entendia ser, junto à Ciência, a mais nobre produção do homem, adviria da sublimação das pulsões agressivas e sexuais. Na arte, Eros e Thanatos teriam expressão e aceitação. Através do trabalho do artista torna-se possível para nós, “homens comuns”, viver as próprias paixões em toda a sua intensidade e estranheza.

A arte seria então a possível libertação das forças instintuais, maneira de ser e fazer o novo, forma de, ao mesmo tempo e paradoxalmente, eludir e evidenciar o incontornável mal-estar na cultura.

 

Diretoria de Cultura e Comunidade

Ilusão: o perigoso fio que nos conecta mesmo sem wi-fi

A Sociedade Brasileira de Psicanálise colabora com a Revista Psique.

Abaixo, reprodução do artigo de Helena Cunha Di Ciero Mourão* para a revista Psique nº 150, de agosto de 2018

 

Recentemente testemunhei a seguinte cena num restaurante. Eram dois adolescentes com os pais. Logo que a comida chegou, um apetitoso sanduíche acompanhado de batatas fritas, cada membro da família sacou do bolso seu celular e fotografou o prato antes mesmo de experimentá-lo. Parecia uma cena de faroeste. Estavam ávidos e felizes por registrar o cheeseburguer que comeriam em segundos. Orgulhosos. A ligeireza em fotografar a cena veio antes do que a fome. Surpreendi-me, também, por não ter me espantado, assisti à cena como quem contempla um movimento habitual do sujeito contemporâneo: a pausa para a fotografia.

Curioso pensar que, apesar do imediatismo ser uma marca forte do tempo em que vivemos, essa suspensão está sempre presente. Pausa antes de postar, pausa para registrar a foto ou filmar, pausa na conversa ao vivo para responder a um comentário do mundo virtual.

Os diálogos pelos aplicativos de mensagens instantâneas nada têm de instantâneos, todos somos escravos desse mesmo tempo de espera. Atualmente, essa forma de comunicação é muito mais frequente do que os telefonemas, possibilitando um tempo de reflexão antes da resposta, uma reformulação da frase antes do envio e, muitas vezes, uma quebra da espontaneidade.

O lugar mais temido pelos adolescentes hoje são as marcas azuis do Whatssapp, que indicam que o outro visualizou a mensagem e não respondeu. Elas tornam real o maior pesadelo dessa geração: a sensação de invisibilidade.

Posto, logo existo

As fotos hoje são compartilhadas em busca da validação de uma experiência. É preciso que alguém testemunhe minha vivência, assista às minhas experiências, dê likes nos meus registros fotográficos para que a cena seja completa. A função da rede social é a de uma plateia que assiste, contempla, celebra um fragmento do tempo recortado e editado numa imagem.

Como uma mãe que aplaude o filho em seus passos, os amigos virtuais reafirmam nosso narcisismo[1] (há inclusive um emoji de palmas). O espelho virtual representa algo muito valioso para todos nós, aquele primeiro olhar que delineia nossa existência e de onde vem o amor: O olhar materno. Seria este o lugar onde se iniciam as primeiras trocas significativas com o mundo. Esse espelho inaugura nosso psiquismo e traz uma sensação que buscamos a vida inteira: a de segurança.

Possivelmente, essa é a causa de serem tão poucos os que conseguem não se render aos encantos da Internet. A busca por curtidas seria uma forma resgatar a lembrança de que existimos para alguém de maneira concreta. Não é raro ouvir de pacientes apaixonados: “Estou feliz, ele curtiu minha foto”. Ou seja: “Ele se lembra de mim, eu tenho a prova viva”.

Há também os que se filmam em seus stories, enquanto olham para a tela, conversam com seus seguidores e pedem opinião sobre roupas, corte de cabelo etc. ou divagam sobre a vida.  Existem também as filmagens ao vivo, os lives, nos quais as pessoas em tempo real interagem com outros usuários da rede. Seria possível se isentar da persecutoriedade nesse tipo de postagem? Pois essa exposição traz riscos, haters e falas de estranhos protegidos pelo escudo da tela de computador. Nem tudo é like, há também o haters. Freud diria que entre fezes e sangue nascemos. Não dá para esperar só aplausos da plateia virtual.

Tal qual a bruxa da história da Branca de Neve, o espelho de pixels contemporâneo tem uma função oracular. Seria este oráculo poderoso o suficiente para evitar o fim trágico do sujeito atual que nos remeteria à história de Narciso? Importante adicionar que há muitos registros de pessoas que arriscam sua vida para fazer uma selfie em lugares perigosos, colocando-se em situações de risco e morrendo por acidente ou distração. Não é uma causa mortis incomum, inclusive vem crescendo. O mito de Narciso segue mesmo bastante atual.

O que chama atenção para um outro ponto que considero interessante: o que aparece nos filtros virtuais é um fragmento da realidade, um pedaço, muitas vezes editado com o objetivo de contar ao outro sobre o quanto sou feliz. É comum, por exemplo, as postagens serem recados endereçados a alguém com uma finalidade provocativa. Uma bela foto de um momento pode não revelar o que de fato se passava no instante, pois há um aspecto da cena que é impossível de ser captado em sua totalidade: as emoções.

A psicanalista Marielle Kellerman Barbosa (2012, p. 101) escreve:

Podemos considerar a virtualização das relações, da comunicação, sob essa perspectiva freudiana da busca da felicidade na medida em que recriamos para nós uma realidade mais agradável e digerível. A tecnologia nos permite fazer um photoshop das relações, dos momentos, da imagem com que nos apresentamos ao mundo

As fotos poderiam ser recortes daquilo que gostaríamos de ser, representando um ideal de ego, isto é, como gostaríamos de ser vistos e como acreditamos que um dia fomos tratados em nossa tenra infância.

No artigo do jornal Folha de São Paulo, “Felicidade nas telas”, de 2010, Calligaris discute essa necessidade de expor a felicidade nas redes sociais como sendo um desejo de ter a vida invejada pelo outro:

Além disso, somos cronicamente dependentes do olhar dos outros. Consequência: para ter certeza de que sou feliz, preciso constatar que os outros enxergam minha felicidade. Nada grave, mas isso leva a algo mais chato: a prova de minha felicidade é a inveja dos outros.

Recentemente li um post com fotos de pessoas tiradas na semana ou até no dia em que se suicidaram como um alerta. Era uma campanha chamada “Depressão não tem cara”, na qual fotografias de cenas felizes, repletas de pessoas sorrindo e aparentemente leves, escondiam a morte que as espreitava. Vendo as fotos imagina-se algo bem diferente do que se passava internamente com as personagens ilustravam as fotos.

Em outro artigo, “A inveja dos outros”, de 2013, Calligaris acrescenta um ponto bastante interessante:

Num mundo em que a inveja é um regulador social, as aparências são decisivas, pois comandam a inveja dos outros. Por exemplo, o que conta não é ser feliz, mas parecer invejavelmente feliz.

Nesse mundo o ter é mais importante do que o ser apenas por que à diferença do ser, o ter pode ser mostrado facilmente. É simples mostrar o brilho de roupas e bugiganga aos invejosos. Complicado seria lhes mostrar vestígios da vida interior e pedir que nos invejem por isso.

Recordação

Esquecer-se de fotografar uma experiência deveria ser sinal de estar vivendo-a com plenitude, de maneira inteira e, no entanto, há uma lástima: “Puxa, nem sequer tiramos fotos!”. Mas, por que a lástima?

Ao registrar momentos em nossos iPhones, nossos “eus” de bolso, criamos também uma ilusão de poder a qualquer momento revisitar aquela memória. Um pedaço de nossa história poderia ficar salvo, eternamente, da passagem do tempo, aprisionado numa nuvem virtual como lembranças que nunca se apagam. A prova de que um dia eu existi. Daqui a alguns anos o Facebook será um enorme catálogo de pessoas que já não existem mais. Para quem poderemos escrever no mural, revisitar as fotos, pensar nos posicionamentos políticos, se eram ou não coerentes, e até mesmo postar flores nas páginas daqueles que se foram ao invés de visitar seus túmulos no dia de Finados. Um pedaço da nossa vida que pode ficar inesquecível.

Na cultura mexicana uma pessoa não deixa de existir quando morre, mas sim quando ninguém mais fala dela. Por isso o dia dos mortos é tão importante. Para que a memória do falecido nunca se perca na história de uma família, todos aqueles que partiram são rememorados nesse dia.

Na plataforma virtual a morte também não é sinônimo de esquecimento. Hoje nas redes sociais não é incomum homenagear, no dia das Mães ou dos Pais, os que já faleceram numa tentativa de, em algum lugar, reativar aquela lembrança e, principalmente, buscar alguma solidariedade, seja na forma de comentário ou de curtida. Nesse sentido a rede social se tornaria um espaço de acolhimento pela identificação. Busco alguém que saiba o que estou sentindo, comunico ao mundo minha dor: uma espécie de catarse eletrônica.

Todavia, há certas pessoas que, se não morrem na nossa história, assombram todo nosso trajeto e nos aprisionam. Servem apenas para assombrar nosso disco rígido mental, sobrecarregando-o. É o caso dos ex-amores, por exemplo, que nas redes sociais só deixam de existir quando bloqueados ou deletados e para isso é necessária muita força de vontade no dedo indicador. Visitas virtuais às páginas da pessoa que um dia amamos não são raras, pelo contrário. Trazem mal-estar, alimentando, assim, a melancolia[2] e impedindo-nos de completar o trabalho do luto[3]. Uma memória permanece semiviva rondando as timelines da nossa mente. Se antigamente, quando terminávamos uma relação, temíamos encontrar nosso antigo amor na fila do cinema, hoje nos deparamos com vídeos diversos daquele alguém vivendo uma outra história e somos, muitas vezes, espectadores de cenas virtuais desnecessárias e que afetam nossa vida real: como um beijo apaixonado daquele pedaço da sua história que hoje tem vida própria.

Sou mais um na multidão

Hoje, as crianças brincam com tablets, disputam com seus pais os celulares, dividem seu tempo com a onipresença dos aparelhos eletrônicos. Estamos todos unidos pelo mesmo fio, invisível e poderoso: o fio da ilusão. De acordo com o Comitê Invisível, em Motim e destruição agora (2017, p. 57):

A Condição do reino dos Gafa (Google, Apple, Facebook, Amazon) é que os seres, os lugares, os fragmentos do mundo permaneçam sem contato real. Onde os Gafa pretendem ‘vincular o mundo inteiro’ é, ao contrário, trabalhar para o isolamento real de cada um. É imobilizar os corpos. É manter cada um recluso em sua bolha significante. O golpe da força cibernético consiste em gerar, em cada um, a sensação de ter acesso ao mundo inteiro, quando se está na realidade, cada vez mais, separado de ter cada vez mais ‘amigos’, quando se é cada vez mais autista”.

O sujeito contemporâneo mantém a ilusão de estar sempre conectado, e essa ilusão contribui para sua solidão. Se hoje Freud pudesse acrescentar algo a sua frase “É preciso amar para não adoecer”, acrescentaria: “é preciso desconectar para não adoecer”.

Não há antídoto contra o desamparo, condição inerente ao ser humano. Não há escudo que nos proteja dos riscos da existência e das dores da vida.

Referências bibliográficas

BARBOSA, M. K.. Viver conectado, subjetividade no mundo contemporâneo. Ide, v. 35, 2012, p.89 – 101.

CALLIGARIS, C: Felicidade nas telas. Folha de São Paulo, 2010.

______. A inveja dos outros. Folha de São Paulo, 2013.

COMITÊ INVISÍVEL. Cinquenta tons de rupturas. In : ______. Motim e destruição agora. São Paulo: N1 Edições, 2017, p.57.

FREUD, S. Luto e melancolia. Tradução de Marilene Carone. São Paulo: Cosac Naify, 2011.

______. Sobre o narcisismo: uma introdução. In: ______. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. V. 14. Rio de Janeiro: Imago, 1990, p. 83-119.

 

[1] Freud (1914) atribuiu ao narcisismo a atitude de uma pessoa que trata seu próprio corpo como objeto sexual.

[2] Termo usado por Freud em Luto e melancolia que descreve o estado da mente diante da perda de um objeto de amor – que não necessariamente morreu, mas que se perdeu como objeto de amor – em que há a suspensão do interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda a atividade e o rebaixamento do sentimento de autoestima.  “A sombra do objeto recai sobre o próprio ego. O luto profundo em reação à morte de uma pessoa amada contém o mesmo estado de ânimo doloroso, o mesmo desinvestimento no mundo externo, a perda da capacidade de encontrar um novo objeto de amor – em substituição ao pranteado -, porém não há o rebaixamento de autoestima”.

[3]  Freud coloca nesse mesmo texto que o trabalho do luto consiste em um hiper-investimento nas lembranças que se referem ao objeto perdido afim de desligar a energia que vinculava o ego ao objeto de amor. “Mas de fato, uma vez concluído o trabalho do luto o ego fica novamente livre e desinibido” (1914/2011, p. 50).

 

Helena Cunha Di Ciero Mourão é psicóloga formada pela PUC -SP, especialista em psicoterapia psicanalítica pela Universidade de São Paulo e colaboradora da Revista Amarello  É membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. E-mail: hcdiciero@gmail.com

Sobre o incêndio no Museu Nacional

Nós, psicanalistas da SBPSP, consternados com o acontecido com o Museu de História Nacional, endossamos a carta da Federação Brasileira de Psicanálise abaixo publicada.

Acontecimentos como este devem alertar os poderes públicos e a sociedade como um todo para importância da preservação e conservação dos nossos acervos de memória histórica e cultural. Fatos como este – assim como em outras esferas, a traumática tragédia de Mariana – não podem ser vistos como acidentes. Eles acendem uma luz vermelha sobre o descaso com o nosso patrimônio histórico cultural e nossa população.

Bernardo Tanis

Presidente da SBPSP

Carta aberta à comunidade científica, endereçada ao presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC:

A Federação Brasileira de Psicanálise – FEBRAPSI sente imensa perplexidade pela tragédia que se abateu sobre o mais antigo patrimônio histórico do Brasil. Sua dor e sua tristeza ecoam em todo Brasil. Muito de nós, ainda crianças, fomos a este museu e com olhos ávidos de curiosidade olhamos as múmias, pela primeira vez na vida, os imensos esqueletos, que naquela época ainda ficavam maiores diante de nosso pequeno tamanho. O que dizer da sensação de estar no local onde monarcas viveram, as louças, os adereços e as roupas? Tudo nos ensinava como numa época mais antiga as pessoas se vestiam e viviam. Nunca esquecemos e nem esqueceremos esta primeira visita. Mais tarde, levamos nossos filhos que, para nossa alegria, também se inebriaram com a beleza e riqueza deste museu, testemunha viva de nossa história. Hoje, perplexos percebemos que não poderemos mostrar este museu do jeitinho que nós o vimos pela primeira vez. Apesar da luta de vocês por todos esses anos, muitas preciosidades foram perdidas. Perdas irreparáveis! Não valorizar o passado é perder a memória e com isso a própria identidade. Perde o Brasil mais uma vez.

Aproveitamos para parabenizá-los pelo esforço de todos vocês em manter e proteger durante todos esses 200 anos esta relíquia que é o Museu Nacional.

Anette Blaya Luz
Presidente

Rosa Maria Carvalho Reis
Secretária Geral

Foto: O Estado de S. Paulo

TORRE DE BABEL E OUTRAS CONFUSÕES

*Eva Maria Migliavacca

Os mitos constituem uma das fontes das quais a teoria psicanalítica bebeu desde o início. Alguns se destacam: Édipo, Éden e, menos explorado pelos psicanalistas, a Torre de Babel.

Babel, palavra hebraica, significa confusão; sugere uma coisa misturada com outra, de tal forma que a clareza do que é e do que não é fica obscurecida e conduz a equívocos e sofrimento.

Babel, a Torre

Lemos no Gênesis: “Os homens encontraram um vale na terra de Senaar, na Babilônia, sob o comando do rei Nemrod, e disseram: ‘Vamos construir uma cidade e uma torre cujo ápice penetre nos céus. Façamo-nos um nome e não sejamos dispersos sobre toda a terra’. E Javé, ao ver as ações daqueles homens: ‘Eis que todos constituem um só povo e falam uma só língua. Isso é o começo de suas iniciativas. Confundamos a sua linguagem, para que não mais se entendam uns aos outros’.”

O Deus antigo decidiu domar a vontade dos homens e submetê-los à sua lei: interferiu naquela empreitada e tudo mudou. Destruiu a torre e confundiu as línguas dos homens. Eles se desentenderam e se dispersaram pelo mundo.

Nemrod estava seduzido pela crença na própria grandeza. O mito não narra isso, mas podemos supor, pois ele pretende alcançar os céus, levantar uma torre que chegue até uma dimensão sem limites e que o faça sentir-se uma divindade. O resultado é catastrófico e instaura uma nova dinâmica.

Éden, o poema

Milton compôs “Paraíso Perdido”, belíssimo poema sobre a queda do homem. Adão e Eva vivem em harmonia no Éden, inconscientes dos riscos que os cercam. O Arcanjo Rafael, enviado por Deus, previne Adão do perigo: Satã, cheio de ódio e desejo vingativo por ter sido lançado das alturas celestiais às profundezas infernais, pretende encontrar meios de destruir a paz e beleza do Éden e seus habitantes.

Adão e Eva cultivam as plantas, flores e frutos do paraíso. Eva insiste com Adão para que a deixe cuidar sozinha do jardim. Queixa-se de que ele não confia nela. Adão argumenta, mas se rende. Olha-a, toda bela enquanto ela se afasta, cheio de preocupação e temores. Não ficou inteiramente convencido de ter tomado a decisão correta, o que vai se confirmar.

Satã já se imiscuíra no Éden. Assumiu a forma de um sapo e perturbou o sono da mulher, soprando-lhe dúvidas maléficas ao ouvido. Sabia que o melhor modo de atingir o odiado Criador seria atacar a criatura pelo lado mais vulnerável, a mulher desprevenida.

O par no Paraíso podia comer de todas as frutas de todas as árvores – exceto a da ciência do bem e do mal. É aí que Satã avança. Quando vê Eva só, sem a proteção do prudente companheiro, toma a forma de uma serpente dotada de voz humana para induzir a mulher à desobediência.

Todo simpatia, enrosca-se na árvore e argumenta com Eva que o fruto daquela árvore vai transformá-la numa deusa. Afinal ela, a serpente, comera o fruto e falava com voz humana, diz Satã. Que melhor prova de que ele dizia verdade?

O grande mentiroso convence a mulher de que o bem era um mal e de que o mal era um bem. Eva não contesta o absurdo. Afinal, “quem a proibiria de alimentar a mente e o sopro com aquele lindo fruto, de atraente aroma”?

Assim dizendo, a mão desatentada

Ergue Eva para o fruto em hora horrível;

Ela o toca, ela o arranca, e logo o come.”

O abalo na natureza, o estremecimento da terra por tal ferida, que Eva não percebe, prenuncia toda a mudança que virá.

Édipo, a tragédia

Há uma cena em “Édipo rei” em que toda a soma de equívocos se desfaz. Desde o início, Édipo caminha para o momento sagrado em que todas as coisas são recolocadas nos seus devidos lugares. Coincide com a descoberta não só de que ele era assassino e regicida, mas também parricida e incestuoso. Esse momento acontece no confronto entre um pastor que vivia escondido e o rei.

Ambos têm um diálogo áspero. O pastor sabe e Édipo desconfia que o que ele ouvirá mudará tudo. Porém, é preciso pronunciar as palavras que desvendarão a cegueira em que todos estavam mergulhados e confirmarão quem Édipo é. O pastor diz que o bebê devia morrer porque os pais – de Édipo – temiam a profecia de que ele lhes causaria a morte. Por que o salvou, então?  O pastor disse que teve pena. E que Édipo nasceu para um destino cruel.

Édipo: Que horror! Que horror! Todas as predições, afinal, se haviam de confirmar! Ó luz, que nunca mais te possa ver, porque se apura que nasci de quem não devia nascer, convivo com quem não devia conviver e matei a quem não devia matar!

O pastor encarna um valor imorredouro: a verdade imperecível. Usamos muitos subterfúgios para nos subtrairmos da verdade. Quando a escutamos, vivemos a dor psíquica do despertar da consciência. Vemos melhor nosso real tamanho: somos influenciáveis, vulneráveis à força de nossos desejos, dominados por necessidades, controlados por preconceitos, determinados por limites.

Essas narrativas falam da nebulosa dinâmica verdadeiro-falso. Representam uma condição mental na qual se enxerga o que se quer e não o que existe. Os três personagens se confundem, cometem equívocos de compreensão. Édipo, cego pela vaidade; Eva, pela soberba; Nemrod, pela prepotência.

A mentira nos cega e lança na Babel de tomar uma coisa por outra. Presente nas três narrativas, a verdade é dolorosa, mas transformadora. Em Édipo e no Éden, indica um processo de integração, que leva ao crescimento e na Torre de Babel, a dispersão, terreno propício ao preconceito e ódio.

O homem é limite. Se não houvesse limite, não haveria movimento, tudo seria estagnado. O ilimitado é sem forma, sem referência. Como diz Rovelli, o universo é finito. Ele se movimenta naquilo que revela sua finitude; por isso, expande-se. Após sua finitude só há escuridão. E não conseguimos precisar qual o limite. Por isso, como os personagens dessas antigas narrativas, transgredimos, avançamos sempre mais, ainda que o preço a pagar seja considerável. Só assim evoluímos.

 

Referências

Gênesis (1985) In: A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus.

Milton, J (1994) Paraíso Perdido. Belo Horizonte: Vila Rica.

Sófocles (1961) Édipo rei. In: Teatro Grego. São Paulo: Cultrix.

Rovelli, C. (2018) A ordem do tempo. Rio de Janeiro: Objetiva.

Imagem: “Torre de Babel”, de Pieter Bruegel, o Velho.

Eva Maria Migliavacca é psicanalista e membro efetivo da SBPSP, professora titular pelo Departamento de Psicologia Clínica do IPUSP e tem vários artigos publicados em revistas nacionais e internacionais.

 

Brincar para se tratar

*Marion Minerbo

Olá, Ana Lisa, sobre o que gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! Estava na casa de uns amigos que têm um filhinho de um ano. Lá pelas tantas, quando ele ficou com sono, se deitou de bruços sobre uma mesa de centro revestida de azulejos e ficou se contorcendo de barriga para baixo, como uma minhoca, até adormecer. Os pais disseram que faz uns meses que ele criou este ritual e não dorme sem ele. Achei estranho, pois em geral as crianças escolhem lugares macios e quentinhos para adormecer. O que a psicanálise tem a dizer sobre isso?

Ele criou um ritual, mas também podemos dizer que criou uma brincadeira. Me lembrei daquela famosa que foi inventada pelo neto de Freud. A brincadeira era a seguinte: ele atirava um carretel para debaixo da cama exclamando “miu”! E depois puxava a linha e o recolhia exclamando “tou”! Freud entendeu que ele estava brincando de sumiu-voltou.

É verdade. Ele fazia isso quando a mãe saía de casa. Começou atirando o carretel, talvez para se livrar do pavor de ficar sozinho, mas depois acabou virando uma brincadeira.

É simplesmente genial. Em vez de sofrer passivamente o sumiço inesperado da mãe, produz seu desaparecimento ativamente. A graça da brincadeira é que, ao atirar o carretel, ele já sabe que este vai voltar. O pavor vai cedendo lugar ao prazer. A repetição acaba “domesticando” o trauma. A criança brinca para se tratar.

Entendo. Ela vai se dando conta de que há uma diferença entre o horror do abandono definitivo e uma simples ausência.

O repertório conceitual e emocional se amplia. Quando estão psiquicamente saudáveis, as crianças inventam continuamente novas brincadeiras para se tratar daquilo que as assombra. O filho dos seus amigos brinca de minhocar numa mesa gelada até dormir. De que “trauma” será que ele está se tratando?

Tenho um palpite. Mas antes, eu queria perguntar o seguinte: como alguém cria uma brincadeira para poder se tratar?

Excelente questão. Obviamente, para o neto do Freud, o carretel representa a mãe. Isto quer dizer que ele transferiualguma característica da mãe para o carretel. E ele escolheu o carretel para fazer esta transferência porque, para ele, ambos têm algo em comum.

Como assim? O que o carretel e a mãe têm em comum?

A mãe some e volta. O carretel também. Graças a esse traço em comum, a criança pode transferir o sumiço/retorno da mãe para o carretel. O carretel se torna um objeto investido transferencialmente como um equivalente da mãe. Nesse contexto afetivo, o carretel interpreta para a criança o que ela está vivendo.

Ah, agora é demais. Um carretel interpreta?

Claro! É por isso que brincar é terapêutico. Ao ser atirado para baixo da cama, o carretel “conta” para o menino que ele está às voltas com o problema do sumiço da mãe. Dessa forma, ele tem a oportunidade de perceber do lado de “fora”, de forma concreta, aquilo que o inquieta e assombra “dentro”. Num primeiro momento, antes dessa concretização, é uma inquietação vaga, sem cara, sem forma, e por isso mesmo, aterrorizante.

Hum. Então, ao ser resgatado, ao reaparecer, o carretel “conta” para o garotinho que, assim como ele voltou, a mãe vai voltar?

Isso. E agora vem o mais importante: é a criatividade psíquica da criança que lhe permite equiparar o carretel à mãe por meio do traço em comum. A criança faz uma associação livre, que é sinal de saúde mental.

Quer dizer que as características reais do carretel são importantes para que ele possa transferir o que precisa ser elaborado?

São. Um ursinho de pelúcia “aceita a transferência” dos aspectos acolhedores da mãe porque é macio e quentinhoJá o lobo mau “aceita a transferência” dos aspectos aterrorizantes da mãe.

Você está usando o conceito de transferência de um jeito diferente daquele que eu aprendi, que é a relação com o analista.

Sim, a transferência para o analista é um caso particular disto que estou descrevendo. Ele se dispõe a aceitar todos os tipos de transferência para que o paciente consiga reconhecer “fora” o que o assombra “dentro”. Mas voltando à situação que você descreveu: o bebê que precisa minhocar sobre a mesa gelada para adormecer.

Eu te disse que tinha um palpite sobre qual poderia ser o “trauma” do qual ele estava se tratando. Ele nasceu com um pequeno cisto na coluna. Com horas de vida fez uma ressonância magnética. E depois outras, até que os médicos decidiram operar. Depois da cirurgia fez novos exames para acompanhar a evolução.

Sempre com a barriga para baixo! Claro, seu palpite tem tudo a ver! Os bebês saem do útero esperando encontrar alguma continuidade do ambiente que conhecem. Mas este encontrou algo duro, liso e frio. Essa experiência sofrida e impossível de ser digerida certamente ficou gravada em sua memória corporal.

Pelo que entendi da sua explicação sobre o jogo do carretel, essas sensações desconhecidas foram traumáticas. Quando ele se deita sobre a mesa de azulejos gelados ele está sendo ativo lá onde antes foi passivo. Está recriando essa situação horrível para conseguir reconhecer “fora” o que ficou inscrito “dentro”, e assim ir se apropriando do que viveu.

“Ir se apropriando” é a expressão exata. A mesa de azulejos “atrai” o traumático porque tem traços em comum com a de ressonância magnética. O frio, duro e liso do passado é transferido para o presente. E por isso mesmo se presta a ajudar a elaborar o que ficou encruado no inconsciente. A mesa de azulejos “interpreta” para ele seu sofrimento inconsciente.

Posso até imaginar o diálogo entre o bebê e a mesa.

Ele: “Esta superfície gelada me dá medo e não sei bem por que. Sinto que é algo de estranhamente familiar.

Ela: Sim, você já viveu isto antes. Na época foi muito sofrido e você não tinha como entender que diabo era aquilo.

Ele: Reconheço vagamente esta sensação. Mas não tenho palavras para descrevê-la.

Ela: Então preste atenção em mim que eu vou te contar: eu sou dura, lisa e fria. Acho que são estas as palavras que você está procurando.

Ele: Ah, então é isso que me assombra desde sempre!

Adorei! Um diálogo dentro do nosso diálogo!

Fiquei com uma dúvida. Você disse que nem todas as crianças conseguem usar este recurso para se tratar.

Exatamente. Um ambiente emocional turbulento prejudica a instalação do chip da capacidade de brincar. E isso desde as primeiras horas de vida.

O quê tornaria esse ambiente emocional difícil para o bebê?

Em duas palavras: o inconsciente dos pais sempre dá trabalho para os filhos. Normal. Mas quando ele transborda demais e há uma “inundação”, a criança tem que gastar muita energia para dar algum destino a esse “material radioativo”. E aí sobra pouca energia para brincar. Podemos até falar mais sobre isso numa próxima conversa.

Com certeza! Muito louco tudo isso!

 

Texto originalmente publicado no blog Loucuras Cotidianas.

 

Marion Minerbo é psicanalista da SBPSP, doutora pela UNIFESP e autora de vários livros e artigos, entre eles “Diálogos sobre a clínica psicanalítica” (Blucher, 2016) | marionminerbo@gmail.com

O ANALISTA DESCONCERTADO

*Silvana Rea

Em 1883, o jovem Freud escreve à sua então noiva, Martha Bernays: “Um fracasso em uma investigação estimula a criatividade. Cria um livre fluxo de associações, faz surgir uma ideia atrás de outra, ao passo que uma vez assumido o êxito, aparece com ele um estreitamento e torpor mental que obriga a retroceder ao estabelecido e impede uma nova combinação” (Caparrós, 1997, p. 309).

Poucos anos à frente, ele se desconcerta com as ideias de Charcot, em Salpêtrière. E no prefácio à tradução das conferências sobre as doenças do sistema nervoso, ele afirma que só pôde se dedicar a esta tarefa “após superar minha perplexidade inicial diante das novas descobertas de Charcot, e depois que aprendi a avaliar a sua grande importância…” (Freud, 1886/1969, p.53).

Podemos perceber que Freud considerou o desconcerto como algo útil por toda a sua vida. De fato, foi a sua capacidade de se surpreender com aquilo que escapa ao estabelecido, como os lapsos de memória, a troca de palavras, os sonhos, que permitiu que ele construísse a psicanálise. Dando atenção ao equívoco e ao inusitado, que neles encontrou o indício de que existe, no homem, uma comunicação que se subordina a outra ordem – o inconsciente conquista o estatuto de alteridade, com leis e lógica próprias.

Por sua vez, a psicanálise desconcertou a comunidade cientifica da época, ao abalar as convicções do século das luzes e sua defesa da racionalidade humana. Com ela, o homem racional e unitário deu lugar ao homem fendido do inconsciente. Algo que, para certa surpresa, ainda hoje desconcerta setores do conhecimento científico.

A Psicanálise supõe o desconcerto. O método psicanalítico leva a que o paciente se desconcerte de suas percepções cristalizadas, para que surja o novo. Mas não isenta o analista, porque o exercício clínico o convida a confrontar a alteridade do inconsciente nele mesmo e na relação com o paciente, que chega com suas questões e com sua proposta transferencial. E, como o encontro com o outro é sempre traumático, em algum momento algo desconcertante quebra as suas certezas, destrói a sensação de êxito e, por consequência, estimula a sua criatividade.

São muitas as situações que podem deixar o analista desconcertado. Um engano, uma provocação, uma quebra de setting. Pode ser um sobressalto que excede a sua possibilidade de representação. Ou o impacto da surpresa, do estranho que surge no familiar das sessões com determinado paciente. Algo que o leva a um acting-out. Ou o analista age guiado por um pensamento não pensado que só pode ser organizado a posteriori, muitas vezes depois da conversa com um colega, ou, talvez, de uma supervisão.

Do mesmo modo, o analista pode se desconcertar quando recebe seu jornal diário e o abre à leitura. Certos fenômenos nacionais e mundiais provocam a experiência de espanto, uma surpresa por muitas vezes desconfortável. Como compreender este choque em si? Como, pela psicanálise, compreender o mundo?

Qualquer analista já viveu algumas destas situações. São aquelas que não se aquietam; voltam à lembrança recorrentemente pois o espanto que elas causam produz uma memória que permanece incômoda (um fracasso?), exigindo alguma elaboração. Que nos exigem a ir além do estabelecido, criando novas combinações, como nas palavras de Freud. São oportunidades para a reflexão e a teorização psicanalítica.

O desconcerto é fundamental. De fato, na visão aristotélica, a origem e a evolução do pensamento dá-se a partir do espanto, momento no qual aquilo que era evidente torna-se inédito e incompreensível. O sentido da perplexidade leva a suspensão de certezas, incita o querer conhecer, exige uma reorganização do saber. Aqui o analista é aparentado do filósofo. Pois, como diz Kristeva (2000), é fundamental a qualquer psicanalista em seu exercício, a experiência de uma surpresa desconhecida e a posterior compreensão desse choque.  Eu completaria, fundamental para o analista em seu exercício e na vida.

Referências

Caparrós, N. (1997). Correspondencia de Sigmund Freud. Tomo I. Espanha. Biblioteca Nueva.

Freud, S. (1886/1969). “Prefácio à tradução das conferências sobre as doenças do sistema nervoso, de Charcot”. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Vol.II. Rio de Janeiro. Imago.

Kristeva, J. (2000). Sentido e contrassenso da revolta. Rio de Janeiro. Rocco.

Silvana Rea é Diretora Científica da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Mestre e Doutora em Psicologia da Arte pela Universidade de São Paulo.

 

Imagem: Olaf Hajek

O analista desconcertado e a sexualidade

*Sandra Lorenzon Schaffa

O tema do analista desconcertado e a sexualidade faz lembrar o canto do poeta que exaltou o amor como desconcerto do mundo. Eu cantarei de amor tão docemente, por uns termos em si tão concertados que dois mil acidentes namorados faça sentir ao peito que não sente.  

No soneto de Camões, o eu lírico exalta a visão  do objeto do amor apontando ao mesmo tempo para seu gesto inefável : Para cantar de vosso gesto a composição alta e milagrosa aqui falta saber, engenho e arte.  No amor platônico e no cortês, o gesto – corpo – é intraduzível.

Também aos protagonistas da cena originária da psicanálise teria faltado saber, engenho e arte.  Entre um homem e uma mulher –  Joseph Breuer e Bertha Pappenhein,  que ficou conhecida como Anna O a partir dos Estudos sobre Histeria –  aconteceu o inaugural  desconcerto. No caminho de levar a paciente a recordar experiências traumatizantes sofridas na infância, o médico austríaco deparou-se com o principal obstáculo do método que ela batizou de talking cure.

Diante do movimento erótico, Breuer retrocede,  Freud segue adiante com seu desejo de investigar a natureza do envolvimento entre os protagonistas da aventura psicanalítica.

“O psicanalista sabe que trabalha com as forças mais explosivas e que são necessárias cautela e meticulosidade, assim como no caso dos químicos. Mas quando é que a um químico foi interditado se ocupar com materiais explosivos, indispensáveis, por sua periculosidade, apesar de seu efeito?” (Freud, 1914)

Escrito sob o impacto da eclosão da guerra, “Observações sobre o amor transferencial” cria o neologismo  Übertragungsliebe que associa  transferência  (Übertragung) – fenômeno de deslocamento do afeto e da passagem de uma representação a outra –  e amor (Liebe).

Freud dá estatuto de resistência a essa moção amorosa, no entanto, acentua a necessidade de não afugentá-la. Mas, como responder a essa injunção técnica paradoxal de acolhimento da demanda amorosa sem satisfazê-la?

“Acatar as demandas de amor por parte da paciente é tão fatal para análise quanto a repressão [Unterdrückung] delas. O caminho do analista é outro para o qual a vida real não oferece modelo. Evitamos desviar da transferência amorosa, afugentá-la ou estragá-la na paciente; também nos abstemos ferrenhamente de toda correspondência desse amor. Mantemos a transferência amorosa, a tratamos como algo irreal, como uma situação que deva ser enfrentada no tratamento e reconduzida às suas origens inconscientes (…)” (Freud, 1914)[1]

Freud  admitiu assim o  desconcerto na raiz do  método da nova disciplina.  O caráter escandaloso do procedimento não está,  entretanto, em  aceitar o inevitável  transtorno experimentado pelo analista (contratransferência), mas em  admitir a desordem temporal entre as cenas (transferência) que o diálogo comporta. Em reconhecer nessa exigência crucial da análise seu método de investigação.

Em termos freudianos, a irrealidade do amor de transferência reside em sua condição inatual. Esse amor,  escreve Freud :

“Não traz um único traço novo, oriundo da situação presente, mas é composto integralmente de repetições e retomadas de reações antigas até mesmo infantis.” (Freud, 1914)[2]

O caminho do analista é outro para o qual a vida real não oferece modelo.

Desde o tempo de Freud, a tendência a abandonar essa concepção  reitera-se.   O caráter  desconcertante da descoberta  afirma-se desde a época de Freud. Ernest Jones escreve no editorial do primeiro  International Journal of Psychoanalysis, em 1920,  que  a mais insidiosa forma de resistência à Psicanálise advém de uma parte de  seus  sectários que,  « fingindo desenvolver uma atitude mais positiva em relação à Psicanálise,   faz uso de seus termos técnicos, libido, “repressão”, etc., mas de tal maneira a tirar-lhes o seu significado intrínseco.” 

Nossos tempos assaltados pela urgência e pela pressa demandam uma psicanálise cada vez mais terna, mais rápida. A tendência voltada para uma psicanálise mais leve, próxima da clínica, derivada do abandono do solo da sexualidade infantil e da teoria das pulsões,  difunde-se hoje.  Uma clínica do atual, dos afetos e da reciprocidade, que subestima o caráter explosivo da demanda erótica infantil (inatual).

O termo pulsão é introduzido por Freud em 1905 nos Três ensaios sobre a teoria sexual[3]. Freud reconheceu um caráter do sexual irreprimível que se separa dos fins do instinto. O caráter distintivo da sexualidade humana opõe-se à vida sexual de outros animais, não é regulada como um instinto. Uma crise de bulimia é um exemplo de uma insaciabilidade que busca  preencher um vazio do corpo numa dimensão que não é a da fisiologia. A  teoria sexual, como Freud a apresentou supõe uma não-separação do saber inconsciente do sintoma e da teorização infantil na gênese do psiquismo.

Analista desconcertado seria aquele que sabe que não há tradução possível do gesto sexual senão pelo sonho que trabalha a partir da inatualidade da memória do sexual.  Pois a sexualidade infantil não corresponde à memória intencional da infância: o sexual infantil não tem idade, sua natureza pulsional  ignora o tempo, resiste ao primado da genitalidade. Seu material é explosivo e exige cautela e meticulosidade do analista que dele não pode prescindir para colocar-se o mais próximo do impronunciável do infante.

Saber, engenho e arte é preciso.  Saber da sexualidade, construindo-se na renúncia a compreender para que o  ideal arcaico de que sofre o amor tome corpo.  Engenho e arte, engendrando-se  no rompimento de ligações representacionais, no desarranjo dos  concertos que  se fazem e desfazem por efeito da violência do pulsional, sob o regime das transferências.

 

Referências bibliográficas:

[1] Obras Incompletas de Sigmund Freud, OISF, p.173-4

[2] OISF, p.175

[3] Da pulsão ao desejo, a mitologia pulsional constitui o próprio fundamento da metapsicologia freudiana. Freud a ela se refere inicialmente no  “Projeto de uma psicologia” (Freud, 1895)  até  “Análise sem fim, a análise finita” (Freud, 1937).

 

Imagem:

Kneeling Girl, Resting on Both Elbows, de Egon Schiele.

Sandra Lorenzon Schaffa é psicanalista, membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SPPSP). Foi editora do Jornal de Psicanálise. Publica em diversas revistas de Psicanálise de São Paulo.

 

 

Fantasia inconsciente: o desconcerto inaugural

*Izelinda Barros

Em uma conferência, apresentada em 1917, Freud afirma que “…a humanidade teve que tolerar, “por parte da ciência” dois grandes insultos ao “seu ingênuo amor–próprio”: aceitar que a Terra não é o centro do universo e conviver com teoria da evolução das espécies que “aniquilou a suposta prerrogativa humana na criação” [1]

A seguir, ele pondera que a psicanálise é o terceiro e mais grave insulto à “mania de grandeza humana” pois ela, em detrimento da racionalidade… “busca provar ao “Eu” que ele não é nem mesmo senhor de sua própria casa, mas tem de satisfazer-se com parcas notícias do que se passa inconscientemente em sua psíque”[2]

Vinte anos antes, ele mesmo tinha sido vítima desse argumento e abandonou, com grande dasapontamento, uma brilhante teoria que construíra a respeito da etiologia das diferentes formas de histeria e mesmo das neuroses obsessivas.

Voltemos ao episódio desse desconcerto inaugural da história da psicanálise:

Em torno de 1896, Freud estava entusiasmado com os resultados obtidos na terapia analítica que substituía, com vantagens, a técnica da hipnose para tratar os sintomas incapacitantes da histeria que interferiam na vida diária de muitas mulheres jovens.

Independente da idade, classe social ou grau de cultura se repetiam nas narrativas de suas pacientes, lembranças ligadas a abusos sexuais sofridos infância e perpetrados  por adultos do círculo íntimo dessas meninas.

Havia uma relação constante entre o relato de tais acontecimentos nas sessões de análise e o subsequente desaparecimento dos sintomas, indicando uma relação etiológica entre eles.

Confiante na racionalidade (e também movido pela “mania de grandeza humana”), Freud escreveu um artigo em que sustentava essa hipótese, ilustrando-a como o relato de treze casos

Entretanto, uma série de evidências contrárias a essa possibilidade- do abuso efetivo envolvendo pessoas da família – fez com que lentamente Freud pusesse em dúvida e finalmente renunciasse à sua “ teoria da sedução”.  Foi o primeiro desconcerto e “quase fatal para a jovem ciência”[3]

Mas o desânimo durou pouco.  “A reação de Freud ao abandono da teoria da sedução foi a de levar as mensagens, tanto as suas como de seus pacientes, mais a sério do que antes, mas de maneira muito menos literal. Passou a lê-las como mensagens vindas de uma realidade psíquica, muito mais poderosa do que a realidade objetiva cifradas- distorcidas, censuradas , significativamente disfarçadas”[4], pois é  assim que o homem recebe  as “parcas notícias do que se passa inconscientemente em sua psíque”[5]  e chamou essas manifestações da realidade psíquica de fantasias inconscientes.

Com essa nova hipótese, formulou seu entendimento sobre a origem dos sintomas da histeria da seguinte maneira: fantasias românticas, criticadas como sinal de ociosidade, prejudicando as atividades de trabalho e estudo, eram repudiadas e afastadas do espírito.

Mas, uma vez que negadas e reprimidas, essas fantasias eram adicionadas aos processos primários do inconsciente e, como tal, tornavam-se conteúdos de desejo em potencial. Como todo desejo busca sua efetivação, as fantasias, agora inconscientes, se apresentavam “significativamente disfarçadas” sob a forma de sintomas.

A análise de crianças pequenas, em particular, ampliou a potencialidade do conceito de fantasia inconsciente ao evidenciar que o brincar e o comportamento da criança na sala de análise podem ser lidas como expressões não verbais de fantasias inconscientes.

Assim, desde os seus primórdios, o conceito de fantasia inconsciente é um dos pilares da teoria psicanalítica e instrumento indispensável para o psicanalista clínico como uma das vias de acesso privilegiado para o acesso ao conteúdo latente das comunicações verbais e não verbais inconscientes.

Pois bem: no presente, notamos um esgarçamento da vida de fantasia em boa parcela das patologias que afligem as pessoas que buscam nossa ajuda, o que, com relação ao uso clínico das fantasias inconscientes não deixa de ser um novo desconcerto a ser respeitado, valorizado e enfrentado.

Voltamos, então, ao ponto de partida de cem anos atrás?  Certamente que não.

Pelo contrário, eu diria que o desconcerto atual sugere que estamos nos aproximando de algo ainda mais complexo e desconhecido, algo que ainda não podemos intuir e que   nos desafia na sala de análise e convoca nossa curiosidade.

Essa breve resenha do conceito de fantasia inconsciente particulariza o modelo evolutivo da teoria e da técnica em Psicanálise, o qual em uma espiral ascendente de desconcertos e ampliações subsequentes sustenta sua continua vitalidade.

Referências Bibliográficas:

[1] Freud, S (1917) Conferências introdutórias à Psicanálise. Teoria geral da neuroses. P. 380-1 Companhia das letras, 2017

[2] idem

[3] Gay, P. (1998) Freud Uma vida para nosso tempo. p,102. Companhia da Letras

[4]Gay, P.idem. p,103. Companhia da Letras

[5] Gay, P.idem. p,103. Companhia da Letras

 

Izelinda Garcia de Barros, nascida na cidade de São Paulo, Brasil, é psiquiatra, membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e membro efetivo da Associação Psicanalítica Internacional. Sua prática clínica, em consultório particular e as atividades didáticas como coordenadora de seminários na mesma instituição, somam-se à escrita de trabalhos científicos sobre análise de crianças, em particular sobre a clínica dos transtornos do espectro autista e, na mesma faixa de interesse, à investigação sobre os estados limítrofes que se apresentam com variadas configurações sintomáticas no atendimento de pacientes adultos.

O analista desconcertado e o pensamento

“Não vos imagine diante de alguém amedrontador,
por ele possuir uma língua que gagueja e
de onde emana uma linguagem emaranhada,
fora de vosso alcance”
(Isaias, 33:19)

Sou frequentemente indagado, e por isso frequentemente me indago, o que é o pensamento para o psicanalista. A “resposta”, que aparece recorrentemente, é que “pensar é continuar a funcionar psiquicamente durante a tempestade”.

A metáfora meteorológica nos ajuda bastante a entender as oscilações do espírito humano e, por extensão, a caracterizar a dinâmica do encontro psicanalítico: o analista, no fundo, não passa de uma estação experimental que possa acolher as tempestades e as bonanças do analisando, devolvendo-lhe uma “previsão” de como isto poderá afetar a sua vida.

Tempestade, por supuesto, é sinônimo de turbulência, e, portanto, de fonte de desconcerto, ou melhor ainda, de desorientação. Nos meus anos de psiquiatra fui orientado a investigar na anamnese a orientação têmporo-espacial como um importante parâmetro a definir a sanidade mental do paciente. Doce ilusão! Será que Édipo, sabedor da exata localização geográfica do fatídico encontro na encruzilhada que alterou seu destino, bem como do exato momento histórico em que aquilo acontecera, teria dado um passo à frente no esclarecimento do drama da sua identidade?

Eis-nos, aqui, diante de mais um exemplo em que a psicanálise “recicla” os “descartes” da psiquiatria, elevando-os à categoria de matéria prima para seu processo investigativo da vida mental. Quantas vezes, ao acolher a massa de fragmentações psicóticas dos analisandos, não me senti perdido, desorientado e desamparado? E quantas vezes, ficando em contato com este universo caótico, por falta de alternativa, não percebi, para minha surpresa e alívio que, aos poucos, aqui e ali começavam a vagalumear focos de luz que prenunciavam a luz que buscamos no fim do túnel?

Isto me ensinou uma verdade de grande utilidade clínica: se entendermos a imersão num estado caótico como a única bússola possível a nos orientar no universo psicótico, teremos chance de nos movimentar neste labirinto com alguma desenvoltura.

Mas, retornemos à questão do que seria, em essência, “funcionar psiquicamente”. Freud descreveu o pensar como aquele “arranjo mental” (expressão minha) através do qual o psiquismo se sustenta entre o momento em que recebe um estímulo e o instante em que ele consegue satisfazê-lo. No entanto, malgrado a dimensão ciclópica de sua obra, ele não conseguiu nos fornecer um esclarecimento sobre a “fisiologia” deste processo.

Alguns desdobramentos posteriores de sua obra, como os de Melanie Klein e de Bion, nos permitem hoje começar a entender a microscopia deste processo. Muito resumidamente, sua essência consiste no fato de que o psiquismo só consegue se desenvolver através de um tropismo que o induz a preencher suas lacunas se assenhoreando de recursos existentes num outro psiquismo, sem abdicar daqueles recursos já consolidados em seu self. Esta busca, no entanto, não acontece de forma egoísta ou possessiva, mas sim de forma curiosamente desinteressada que sedimente uma troca procriativa: trata-se de um processo que Freud denominou de metapsicológico onde a forma é tão ou mais importante que o conteúdo, porque, através de artimanhas estéticas, produz um registro emocional sempre elegante e econômico.

Aos nos defrontarmos com a personalidade psicótica, no entanto, precisamos abrir mão destes parâmetros estruturais e nos lançarmos no espaço da infinitude indiferenciada, povoado por escombros não-sensoriais: se pudermos conter este cenário desconhecido, até que as primeiras cintilações de significado apareçam, poderemos começar a ajudar nossos analisandos a sair deste estado com algum ganho de integração.

*Luiz Carlos Uchôa Junqueira Filho, médico (Faculdade de Medicina da USP), membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, da qual foi Presidente. Organizador dos Encontros Bienais da SBPSP e Editor das publicações correspondentes. Autor de Sismos e Acomodações: A Clínica Psicanalítica como Usina de Idéias (Ed. Rosari, 2003) e Dante e Virgílio: o resgate na selva escura (Ed. Blucher, 2017).  Tradutor e co-autor de livros sobre a obra de Wilfred Bion, no Brasil e no exterior.

Imagem: reprodução da obra “La réproduction interdite”, de René Magritte