AURORA

SOBRE OS DOIS ADOLESCENTES QUE ESTA TARDE ATRAVESSARAM A RUA DE MÃOS DADAS –

Foi depois do fim das aulas.
Passaram o portão de ferro da escola
e deram as mãos
para atravessarem a rua.
E, de mãos dadas, formaram
uma corrente
tão poderosa, tão compacta,
que o trânsito teve mesmo de parar
e ficou completamente imobilizado. 

Não vou ceder
agora à tentação
de afirmar que assisti
à materialização de um milagre,
afinal é coisa
que deve estar sempre a acontecer,
em algum lugar, ao fim
da manhã ou da tarde, logo
depois das aulas,
dois adolescentes dão
as mãos, atravessam a rua, bloqueiam
a circulação rodoviária
de uma cidade.
Mas pensa nisso por um segundo,
pensa na força dessa corrente.

 Luís Filipe Parrado

 

AURORA

Helena Cunha Di Ciero Mourão

Outro dia mesmo era eu sentada no chão do aeroporto jogando truco, pensei, quando encontrei um bando de adolescentes sentados numa típica viagem escolar, nem aí para a hora do Brasil, na calçada com seus telefones celulares tocando música sertaneja. Sorrindo com leveza, zombando uns dos outros, coloridos pelo viço, pelas tatuagens. “Ei, espere, já fui uma de vocês” – tive vontade de dizer para aquela plateia nada interessada naquela mãe de duas crianças que faziam birra na calçada, exaustas pelas horas de voo. Essa sou eu, constatei.

Foi assim, de repente, que cresci e virei gente grande. Ali no espelho, eu olhei e deixei de ver a adolescente que um dia eu fui. Na verdade, hoje até estranho essa moça que eu vejo nas fotos tão cheia de sonhos, que achava que a vida com ela seria mais doce, menos dura, mais generosa. Tinha algo em mim que achava que a adolescente em mim duraria para sempre, tal qual metal precioso. E tentei mumificar esse ser que um dia eu fui por um tempo, confesso com certo embaraço. Até que, num dado momento, foi preciso fazer uma despedida e assumir que a adulta agora me possuía mais do que nunca. Não foi de propósito; a aurora da minha vida passou e foi embora sem se despedir. Com o final dessa primavera começou a vida de adulto, sem pedir permissão.

É assim que se dá o crescimento; a gente se adapta finalmente a uma situação e ela acaba. E as rugas mapeiam esse anúncio sem dó nem piedade. O tempo se impõe, simplesmente.

Fácil verbalizar isso após os trinta, com quilômetros rodados. Mas há uma tristeza nesse discurso, um luto, uma dor e uma perda. Pois bem, para um adolescente, a mesma sensação se presentifica. O momento é outro, mas é também marcado por uma transformação. Contudo, falta repertório, palavras, sobram angústias e sensações.

A adolescência é a passagem do mundo infantil para o adulto, uma ponte, uma travessia. Tudo isso envolve uma adaptação, e toda adaptação é precedida por uma crise. Aquele corpo de criança se vê invadido por pelos, espinhas, partes que crescem desgovernadamente, uma voz que desafina, hormônios que não existiam. Esses novos habitantes daquele espaço tão gracioso do corpo infantil não chegam de forma harmônica.

Esse processo é marcado por uma sensação de estranhamento, de não pertencimento. Já diziam os Titãs: “Eu não caibo mais na roupa que eu cabia, eu não encho mais a casa de alegria, mas quando me olhei achei tão estranho, a minha barba estava desse tamanho.”

Há ao mesmo tempo uma excitação com a conquista de mais autonomia e também tristeza pelas cobranças do mundo da maturidade. Além da dor da perda do lugar privilegiado da criança.

Os pais, que antes eram um lugar de proteção, tornam-se figuras persecutórias por tentarem colocar limites nas realizações de desejos do jovem. O que traz a estrofe de outra canção: “Você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo. São crianças como você, o que você vai ser quando você crescer “.

Nesse período da vida há um luto das figuras parentais idealizadas. Logo, o lugar de herói fica desocupado e por isso, há uma busca por ídolos e novos modelos de identificação. O jovem está desesperado em busca de formar essa nova identidade.

David Leviski (1998) destaca que embora fisicamente o adolescente esteja apto a exercer suas funções, ainda encontra-se diante de forças da cultura e da sociedade e do risco que existem ante os desejos de plena liberação e desenvolvimento dessas funções.

Calligaris,C. (2000) adiciona que apesar da maturação dos corpos a autonomia reverenciada, idealizada por todos como valor supremo, é reprimida, deixada para mais tarde.

É como se tornassem estrangeiros num mundo que sempre lhe foi familiar. Por isso as amizades nessa fase são tão importantes, constroem um muro para proteger aquele Ego frágil em transformação.

Costumo dizer que são como Ferraris com motor de Brasília amarela. Lataria linda, mas o interior precisa de cuidados. O corpo de adulto e a mente infantil são parte de um mesmo indivíduo. E essa mente não é capaz de conter aquele novo corpo em desenvolvimento, numa ardência pulsional. Na crise da adolescência, há uma sexualidade aflorando descontroladamente e torna-se difícil lidar com seus impulsos.

De acordo com o psicanalista Marcelo Viñar (2005) a juventude não pode ser definida como realidade cronológica, e sim como um tempo de mutação que marca um antes e um depois. Isso pois a essência da adolescência é o ímpeto, o movimento. Como se captura o vento ou o fogo quando sua marca é a instabilidade?

Atendo adolescentes há alguns anos no consultório e me sinto bastante privilegiada por receber esses pacientes no momento em que a dança da vida se apresenta para eles. Recebo-os como quem recebe botões de rosa fechados, cheios de esperança, ao mesmo tempo frágeis e cheio de espinhos. E procuro dar-lhes algum contorno. Não é um trabalho fácil, ajudá-los nessa transição. Explicar-lhes que a vida é mesmo contraditória. Que os amores acabam. Falar-lhes sobre leis num país onde elas são constantemente desrespeitadas. Explicar-lhes sobre autoimagem numa cultura de Photoshop. Ajudá-los a compreender que esse corpo que pulsa não pode fazer exatamente aquilo que deseja a despeito de sua intensidade.

Contudo, acredito que um jovem, quando acolhido e compreendido nesse transbordamento emocional, nos sinaliza um futuro mais colorido e cheio de esperança.

Trabalhar com esses pacientes que vêm com a marca da pressa, da urgência, do efêmero do nosso tempo atual pode ser rejuvenescedor. Convidá-los a um momento de pausa e reflexão é quase um ato revolucionário. Pois perceber também o quanto essa geração chegando se alimenta de relações qualitativas, basta haver uma intenção, me faz acreditar num horizonte mais azul. Sim, eles assistem lixo na internet, mas também são capazes de se encantar com um belo poema, um bom filme, quando convidados. Basta estender-lhes a mão nessa passagem.

Devemos ser cuidadosos, como adultos, para continuarmos investindo nos adolescentes, não com um olhar invejoso do jovem que deixamos de ser. É importante dar credibilidade aos sentimentos dos jovens, tentar compreender suas dores e angústias. Oferecer um amparo nesse momento de tempestade. Essa é a aposta esperançosa.

O aumento dos suicídios na adolescência nos denuncia um vazio. Que vazio é esse? Seria o vazio do nosso olhar? Como adultos? Será que estamos preocupados com o legado que estamos deixando para os jovens, em acolher esses seres em transformação?

Ou será que estamos tão preocupados em perpetuar nossa juventude que nos esquecemos de cuidar de nossos jovens? Será que, ao nos conformarmos com nosso lugar de envelhecimento, não podemos lhes oferecer a proteção que necessitam?

Pensa na força dessa corrente.

 

Helena Cunha Di Ciero Mourão percebeu, no fim da escrita, que fez uma escolha quase sem querer de canções para ilustrar o texto. Renato Russo e Titãs não vieram aleatoriamente, vieram lembrar minha adolescência.

 

Calligaris, C. A Adolescência. São Paulo: Publifolha, 2000

Levisky, David Léo Adolescência : reflexões psicanalíticas / David Léo Levisky. – 4. ed. – São Paulo : Zagodoni, 2013.

Vinar . M  (2005)La Juventud en el Mundo de Hoy. Ser Sujeto Adolescente en el tercer milenio. Abril 2005. Soc. Brasilera de Psicología de Sao Paulo.

 

*Helena Cunha Di Ciero Mourão é psicanalista, membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, especialista em Psicologia Psicanalítica pela Universidade de São Paulo (USP).

 

À flor da pele

Andreza Miranda

Em 24 de junho, assisti a um evento na Sociedade Brasileira de Psicanálise (SBPSP) intitulado “Diálogo e Humanidades: o autoritarismo e a História do Brasil”. Eventos como esse são verdadeiras provas de resistência para mim: uma mulher negra de origem humilde e que, por um conjunto de fatores e de circunstâncias, surpreendentemente, encontra-se agora neste auditório, na Vila Olímpia.

Há um incômodo que me transporta ao “deslugar“, me sinto “morena”, da mesma forma que ocorria em situações sociais não muito remotas, nas quais pessoas próximas e queridas tentavam suavizar meu tom de pele, gravemente escuro. E assim me angustio: estar aqui seria uma traição aos meus irmãos e ancestrais?

Sinto asco da “coisa preta” que, desde sempre, é branca. E da mulata que pegou um cabo de vassoura e dançou com ou para Juscelino, pouco importam os detalhes do fato, diante da “mulata”, biologicamente estéril, mas sensualíssima. Há muito por dizer, mas sofro repentinamente de uma mudez; a mudez de uma intrusa bem-vinda e que empalidece como uma “camaleoa”

Sofrendo da escuridão à flor da pele, revivendo o trauma ancestral nas palavras do estereotipado narrador, que historicamente oprime, que renarrando herculeamente tenta remover maquiagens branqueadoras – atenuantes – ainda que de forma atabalhoada num ideal antirracista.

Minha sensação é espantosamente a mesma da qual me contam meus parentes sobre lugares que outrora não podiam entrar. Me lembro que sempre protestei com o argumento questionador: “Onde isto estava escrito?”. Agora, entendo que não precisa estar escrito, basta estar sentido.

Eu tropeço em mim mesma quando faço o teste do pescoço e penso em mim construída neste projeto de embranquecimento sumário e genocida. O teste do pescoço é o desolador giro da cabeça para o lado esquerdo e para o direito, no qual você pode comprovar em tempo real a solidão e o desamparo, quando se trata de inclusão racial no Brasil.

Como desconstruir, a partir de tudo o que nos constrói: a pureza do branco, a sujeira escura, o crespo duro e ruim, o liso ideal e bom… discursos constitutivos e resistentes sempre a serviço das pessoas de bem que dominam as belas palavras e que contam a História.

Apesar de me ver no assunto não me sinto totalmente nele. Por instantes sou fragmentos coloridos, disfarces e represento uma falsa ilusão de inclusão. Questiono-me: afinal, de que adianta estar neste lugar de escuta saturada de sentimentos que temem vir à luz?

Mas, ao mesmo tempo, há o alívio de poder divergir, convergindo para o lugar onde sorrateiramente e indulgentemente me conduzem e com o qual não deixo de me identificar, extermínio e enclausuramento.

Somos parte de um mesmo todo, somos capturados pelas mesmas armadilhas da linguagem e das boas maneiras trazidas da mais tenra idade, desde a “lista negra” à “carta branca”, passando pela “mulatice etmologicamente infértil”, até a “alvura virginal”.

E, na vã e inglória tentativa de descobrir de qual lugar devo falar e de que ausência de lugar é essa que parto, sigo e me dou conta de que é preciso respirar e decifrar a estranheza como aquela de quando, pela primeira vez, me descobri e tenho me dito negra.

 

Andreza Miranda é estudante de Psicologia

Um necessário diálogo entre a Psicanálise e as Ciências Humanas

AMF – Associação dos Membros Filiados ao Instituto de Psicanálise Durval Marcondes, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

“Um povo que não conhece sua história está condenado a repeti-la” (George Santayana, The Life foi Reason, 1905)

 

Diante dos recentes discursos de ataques às ciências humanas em nosso país, e suas possíveis consequências, a Associação dos Membros Filiados (AMF) ao Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), decidiu promover um ciclo de encontros entre a Psicanálise e as Humanidades.

O primeiro diálogo proposto foi entre a Psicanálise e a História, em torno do tema “O Autoritarismo no Brasil”. Recebemos como convidadas a antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz, da Universidade de São Paulo (USP), e a psicanalista Noemi Moritz Kon, do Instituto Sedes Sapientiae, numa conversa mediada por Flávia Steuer, fonoaudióloga e psicanalista, membro filiado ao Instituto de Psicanálise da SBPSP e do departamento de Psicanálise do Sedes. A escolha destas convidadas, oriundas de diferentes instituições, foi intencional e marca o desejo de que este diálogo abra as fronteiras entre as instituições, a fim de que possamos conversar e nos envolver em uma mobilização conjunta.

Em clima de conversa, Lilia nos trouxe um apanhado de seu recente livro, “Sobre o Autoritarismo Brasileiro” (Companhia das letras, São Paulo, 2019), e nos apresentou o conceito de “democradura”, para designar um fenômeno em expansão no Brasil e em outros países do mundo, em que as instituições democráticas se vêem ameaçadas.

Nas “democraduras”, o adversário político é transformado em um inimigo a ser combatido, diferentemente do que se espera nas democracias, de fato, onde os adversários são importantes e, jogar com as diferenças, é fundamental para o fortalecimento da democracia. Afinal, numa democracia plena não se espera que as diferenças desapareçam, muito pelo contrário, seu bom funcionamento depende do diálogo e da convivência entre os diferentes.

Lilia fez também uma retomada histórica da constituição do povo brasileiro e do papel da escravidão em nossa cultura. Mostrou como o modelo escravocrata, de domínio e de submissão, preconceituoso e intolerante ao diferente, está presente até hoje e enraizado em nossa cultura, embora durante muito tempo tenhamos nos acreditado um povo tolerante, pacífico e pouco preconceituoso.

Em uma pesquisa realizada na USP, na década de 90, pessoas foram questionadas se elas se consideravam preconceituosas e 99% dos entrevistados responderam que não. A seguir, perguntou-se se conheciam alguém preconceituoso e 97% disseram que sim, e reconheceram pessoas próximas de si como preconceituosas (familiares, amigos, vizinhos). Este é um dado espantoso e revelador de como o brasileiro se sente “uma ilha de democracia cercada de preconceituosos por todos os lados”, como citado por Lilia.

Nas últimas eleições, a intensa polarização se mostrou no jogo do “nós contra eles”, deixando explícita a intolerância de todas as formas, como podemos verificar pelo aumento da violência e da discriminação por cor, raça, gênero e religião. No entanto, este não é um fenômeno recente, mas algo que se repete na história de um país que foi fundado em bases escravocratas e de intensa desigualdade social, de oportunidades e de acesso a educação, saúde, moradia, entre outras.

Noemi entrou na conversa para introduzir em que medida a Psicanálise dialoga com a cultura e com a história do Brasil, e como poderia contribuir para o entendimento e o enfrentamento das intolerâncias em nossa sociedade. A Psicanálise, tanto na clínica quanto na instituição psicanalítica, nos permite revelações. Em nossas clínicas, vemos os efeitos que a história e os acontecimentos sociais do país provocam em cada sujeito, e consequentemente, em nossa cultura. O psicanalista, além de sujeito da própria cultura, tem um papel fundamental de testemunho das marcas que estes acontecimentos deixam no psiquismo de cada um e da coletividade.

A cultura nos veste como uma segunda pele, complementa Lilia, de modo que não a vemos mais, e assim não a percebemos. É papel das ciências humanas em nos auxiliar para iluminá-la.

Em nível institucional, Noemi compartilha que uma aluna do Instituto Sedes Sapientiae denunciou uma fala  racista, durante uma aula, revelando algo que antes estava invisível, e permitindo a abertura de um espaço de reflexão e de produção de conhecimento. A abertura desta escuta levou à formação de um grupo de psicanalistas atentos à questão racial, e à publicação do livro “Racismo e o Negro no Brasil. Questões para a Psicanálise” (Perspectiva, São Paulo, 2017).

Como na aula citada por Noemi, certamente nos deparamos, diariamente, com manifestações preconceituosas, na vida pública e na vida privada. Por vezes, percebemos incomodados que essas manifestações são nossas, como muito ilustrou a conversa com o público presente neste evento, majoritariamente branco. A SBPSP, teve como uma de suas pioneiras Virgínia Leone Bicudo, mulher, socióloga e negra, mas é uma instituição marcada por predominante presença de brancos, com maior poder econômico. O que mais uma vez revela a cultura de nosso país, onde o conhecimento e as instituições de formação ainda não são acessíveis a todos. Em momentos como esse, não cabe nos apegarmos à nossa frágil ideia da ilha de democracia, mas nos darmos conta do esforço constante que é necessário para reconhecermos e cuidarmos do preconceito e da desigualdade, presentes em cada um de nós.

A escuta psicanalítica não está inerte diante dos fatos históricos e sociais, ela é sensível a eles, promovendo assim uma abertura de nossas clínicas e práticas. Muitos trabalhos estão sendo desenvolvidos fora dos consultórios de análise. Trabalhos em diversas instituições que buscam uma conexão com o que pulsa na cultura e na sociedade, para além de nossos muros. O Sedes conta com uma clínica social, assim como instituições acadêmicas como USP e PUC, entre outras. A SBPSP, por meio da Diretora de Atendimento à Comunidade (DAC), possui um Centro de Atendimento Psicanalítico (CAP) com custo acessível, além de parcerias com diversas instituições, junto às quais desenvolve diferentes trabalhos de escuta e intervenção.

Pensamos  num paralelo entre a Antropologia, que se ocupa da história do homem como povo,  e a Psicanálise que se ocupa da história do homem em sua subjetividade, que não deixa de ser marcada pela história do homem antropológico, incluindo suas origens, cultura e costumes, que ao não ser reconhecida, é repetida por todos e cada um de nós, como povo e como indivíduos.

Lilia finaliza sua fala, no evento, citando Guimarães Rosa, que segue ressoando em nós:

“A vida é assim:  esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.

 

 

A AMF é a associação que reúne os membros filiados ao Instituto de Psicanálise Durval Marcondes, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Esse grupo conta hoje com 345 integrantes: médicos, psicólogos e outros profissionais, que têm a psicanálise como referencial teórico e instrumento de trabalho clínico.

Pensemos grupo

Any Trajber Waisbich

Nada melhor do que começar essa conversa contando minha experiência de ensinar psicanálise de grupo no Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Primeiro, observo um certo desconforto, cada vez menor devo afirmar, por parte de profissionais em referendar este procedimento, mesmo ao verificarem, por meio da prática, que análise de grupo é uma análise profunda e não distorce o método psicanalítico.

Vale a pena salientar, que este seminário iniciado em agosto de 2017, supre uma demanda reprimida pelo estudo de conteúdos ligados à psicanálise de grupo, que organizasse o trabalho desenvolvido por vários colegas da SBPSP, que trabalham com grupos em instituições espalhadas pelo estado de SP. Análise de grupo, até pouco tempo atrás não era considerada como opção de estudo na SBPSP. Havia um ranço histórico e era vista como terapia menor, distante da psicanálise, além de incorrer no perigo de fomentar situações psicóticas no interior do agrupamento.

Profissionais creditavam ser este um método utilizado como um dos tantos recursos destinados a resolver uma alta demanda por atendimento em instituições, ora por dificuldades puramente econômicas de seus pacientes, ora por ser esta uma técnica menor de alívio e espera por atendimento individualizado. A não sistematização do tema e o pouco conhecimento teórico são fatores impactantes neste contexto. Estamos no universo da ideologia que impede pensamento.[i]

Uma das dificuldades em se ensinar e discutir psicanálise de grupo por um lado e implantar o dispositivo, por outro, em consultório, como em instituições, evidencia o conflito de profissionais ao questionar teoria, aliás, fator fundamental numa ciência que se repensa. Torna-se cada vez mais evidente que psicanálise de grupo é uma teoria e uma prática não conflitante com o método psicanalítico.

Não por acaso nos últimos anos, a DAC (Diretoria de Atendimento à Comunidade) da SBPSP promove e elabora projetos voltados a atendimento institucionais. A SBPSP, por meio de parcerias, faz-se presente naquilo que de mais valioso pode contribuir, isto é, intervenções psicanalíticas.

Volto ao tema, a inclusão de conceitos grupais se impôs no momento em que a intersubjetividade e a noção de vínculo são temas recorrentes[1] para uma parcela do pensamento psicanalítico. Trata-se da articulação deste sujeito formado na intersecção dos processos intrapsíquicos, dos intersubjetivos e dos vinculares.

Como psicanalista, onde quer que desempenhe sua expertise a psicanálise se fará presente. Assim sendo, surge um complicador devido às diferentes formas de se observar a prática dos profissionais fora de seus locais de atendimento. Insisto, fato muitas vezes ligado a ideologias escolásticas e que inviabilizam debates para além de uma clínica estabelecida.

Como conceber a abrangência das teorias psicanalíticas para se trabalhar grupo como método e validado por técnicos e usuários?

Na sala de aula, acompanhamos a apreensão das escolhas teóricas dos alunos ao se depararem com sua prática. Apreender de que forma os autores instrumentalizam profissionais a elaborarem prototeorias a respeito de cada atendimento é fundamental.

Concomitantemente, desvendamos os meandros da clínica de cada psicanalista, o que nos conduziu a uma vivência intrigante.

Como sabemos, a descoberta de processos psíquicos inconscientes desafia o psicanalista. Ensinar teoria e prática de grupo utilizando como material o próprio agrupamento é temerário, já que este pode se desestabilizar. Esta escolha, no entanto, foi necessária para a finalidade desta vertente.

Viver a formação de um grupo abriu novas perspectivas de atuação para seus integrantes. Verificar o que seria um grupo leva a questionar seus trabalhos nas organizações em que atuam. Investigar a influência dos psicanalistas e das instituições leva, inexoravelmente, a questionar o que impregna o grupo. Num outro momento, verificar o que cada sujeito imprime de singular, de plural e de compartilhado dentro de cada grupo elucida conflitos e provoca reações inesperadas.  Enfim, matéria prima de uma teoria e de uma prática preocupada com os movimentos no interno do grupo.

Exemplifico com uma vinheta, ou melhor, um relato.

Na sala de aula, um dos membros cogitou que aquele seminário pudesse continuar a estudar grupo de forma mais perene. Proposta aceita por todos. Posto isto, a coordenadora, eu, sugeriu a inclusão de novos integrantes. Manifestações no grupo! Havia aqueles favoráveis e aqueles que verbalizaram seu descontentamento.

Um                              – Não vai estragar o clima?

Outro                          – Seria até bom, já que, alguns entre nós vamos parar.

Outro ainda                – Não é bem assim, eu não queria parar, mas no próximo semestre está tudo encavalado.

Coordenadora            – Agora peço licença, vamos ver o que acaba de se passar, se vocês me permitirem.

Um deles                     – O que está acontecendo?

Coordenadora            – O que vocês acham?

Risada geral.

Um                              – Ah! Entendi, falei direto que ia estragar o grupo.

Outro                          – Acho que poderíamos abrir sim, está sendo tão importante este lugar que é bom partilhar e fazer ficar maior.

Coordenadora             – Pois é! Vimos o que é aceitar ou não um estrangeiro, ao vivo e a cores.

Agora teoria: tivemos aqui exemplos de porta-voz ou porta-palavra ou emergente grupal, depende do ângulo que privilegiarem. Vimos este movimento de acolhimento e de repulsa verbalizado por alguns de vocês.

 Riso geral, muitas falas, sensações, adensando o conhecimento. No final, concordou-se em se abrir mais vagas.

O pensamento psicanalítico nos leva a ultrapassar fronteiras e questionar paradigmas e porquê não, o método em si. A inclusão das questões observadas e sistematizadas numa configuração grupal para o universo dual supera a oposição entre estas duas instâncias. Insere este sujeito como o sujeito da relação e ilumina a concepção da intersubjetividade e do vínculo. Portanto, o outro passa a não ser reduzido a uma construção pessoal de mundo interno e, sim, por meio da relação estabelecida entre sujeitos numa formação inconsciente de vínculos. Deste modo, a apreensão da subjetividade se configura na intersecção deste sujeito do inconsciente que se forma através do outro e que é outro para si mesmo.

[1]Kaes, R. (2011) Um Singular Plural. – O problema epistemológico do grupo na Psicanálise. São Paulo, Edições Loyola Jesuítas.

[i] Kaes Ideologia

 

* Any Trajber Waisbich é psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Coordenadora de seminários temáticos sobre Psicanálise de grupo junto ao Instituto de Psicanálise Durval Marcondes da SBPSP. 

Uma ilusão de ter a mesma ilusão

Regina Maria Rahmi

Em O Mal-estar na Civilização (1930/2010), Freud faz uma importante ligação entre subjetividade e cultura, enfatizando o sofrimento psíquico diante da impossibilidade de o amor conseguir uma completa satisfação quando o prazer está ligado à escolha amorosa. Para ele, o sofrimento aparece como consequência do desprezo, da perda de um laço amoroso.

No auge do enamoramento, borrando-se as fronteiras entre o eu e o outro, os amantes agem por vezes como se fossem um só. Em “Eu te amo” (1980), Chico Buarque canta:

Se nós, na travessura das noites eternas

Já confundimos tanto as nossas pernas

Diz com que pernas eu devo seguir

Adentrando-se um território de complexidades e incertezas:

Gradiva é nome do livro de Jensen analisado por Freud (1907/1996). Nele, o autor narra a história do jovem arqueólogo Norbert Hanold, que descobre, num museu em Roma, um relevo que o atrai e do qual obtém uma cópia em gesso. A escultura representa uma jovem caminhando, cujo vestido esvoaçante deixa entrever seus pés calçados em sandálias. O interessante aí é o que o relevo desperta em Norbert. Com o resultado de suas fantasias, o arqueólogo conclui que o modo de andar da Gradiva não é encontrável na realidade, o que o enche de tristeza e desânimo. Pouco depois, tem um sonho no qual eles se encontram em Pompeia, no dia da erupção do Vesúvio, testemunhando a destruição da cidade. A Gradiva desaparece, e Norbert continua procurando por ela, no decorrer do texto Freud faz importantes considerações a respeito se ele estaria vendo, delirando ou sonhando. Posteriormente, em um longo e complexo processo, o rapaz começa a tecer uma ligação entre a Gradiva e um amor de sua infância, Zoe. Ele havia associado a mulher idealizada, a Gradiva que o fascinava à menina da infância. Como triunfo do amor, aquilo que era belo nos seus sonhos foi finalmente reconhecido.

As lembranças das relações infantis de Norbert com a amiga de andar gracioso estavam no esquecimento. Diante do achado arqueológico, o que ele viu tinha ligações com a imagem do passado.

O herói da Gradiva é um enamorado. Ele sonha/delira o que outros apenas evocariam. A Gradiva, figura daquela a quem ele ama, é percebida como pessoa real. Zoe não quebra imediatamente essa ilusão, não o acorda bruscamente do sonho.

No território da arqueologia amorosa, busca-se encontrar as marcas dos primeiros amores, repetições de experiências infantis presentes nas escolhas amorosas e, de maneira singular, o desejo do reconhecimento e do amor do outro. Seria a órbita narcísica inerente ao amor?

Entre o encanto do encontro e a desilusão que se apresente, o outro encontrado nem sempre se mantém como o Outro sonhado. Com isso, surgem algumas indagações: qual é o grau de tolerância ante a percepção de que o outro tem existência própria e não alberga somente nossas projeções? Qual é o espaço para a alteridade?

Nas relações afetivas, pelo encontro de duas subjetividades, a turbulência estará sempre presente, embora nem sempre explicitada – suas origens são desconhecidas. Tomo como exemplo uma cena comum. Após uma calorosa discussão, um diz ao outro: “Afinal, por que mesmo estamos discutindo?”

No conflito, provavelmente o desconhecido implícito esfumaçou o conhecido explícito. Pela interferência do desconhecido em nós, e no outro também, surgem inquietações e novas descobertas. O jogo entre implícito e explícito talvez seja a chama da tolerância e da curiosidade em relação ao outro que se apresenta.

Em “Arte de amar” (2013, p. 224), Manuel Bandeira diz:

As almas são incomunicáveis

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo

Porque os corpos se entendem, mas as almas não

Referências

Bandeira, M. (2013). Antologia poética. São Paulo: Global.

Buarque, C. & Jobim, T. (1980). Eu te amo [Gravada por Chico Buarque]. In Chico Buarque: vida [LP].

Polygram; Philips. Recuperado em 4 jul. 2019, de http://www.chicobuarque.com.br/letras/euteamo_80.htm.

Freud, S. (1996). Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, Trad., Vol. 9, pp. 17-88). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1907) Freud, S. (2010). O mal-estar na civilização. In S. Freud, Obras completas (P. C. Souza, Trad., Vol. 18, pp. 13-122). São Paulo: Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1930)

 

 

Regina Maria Rahmi é Psicanalista, Membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, integra a Diretoria de Cultura e Comunidade da SBPSP, a Diretoria de Atendimento à Comunidade da SBPSP e o corpo editorial da Revista IDE.

Da somatização, seus genéricos e afins

Abigail Betbedé

Quem alguma vez não passou mal antes de uma ansiada viagem ou uma prova? Sentiu dores inexplicáveis que assim como vieram foram embora ou padeceu de uma dessas doenças terminadas em –ite (gastrite, bronquite, colite e assim por diante) acompanhada do adjetivo “nervosa” ou caracterizada como “de fundo emocional” por um período mais prolongado? Somatizar é comum e muito frequente. Desde a tenra infância, a somatização é a primeira e mais primitiva maneira de expressar nossos mal estares; desde a época em que não sabíamos reconhecer nossas emoções, nem expressar sentimentos através da palavra e nos comunicávamos com corpo. Se bem intuitivamente estamos familiarizados com a ideia da somatização, em termos conceituais acaba por ser um verdadeiro ‘balaio de gato’.

Somatização é um termo vago e genérico utilizado, tanto popularmente quanto na academia, para nomear mecanismos, sintomas e estados mórbidos cuja manifestação é uma queixa orgânica. Traz em si a idéia de ser algo que se expressa através do corpo, mas que não se sabe ao certo o que é, nem qual seria sua ‘verdadeira’ origem. Aqui se abre um grande leque − incluindo as perspectivas de pacientes e profissionais − que vai desde quem acredita na etiologia concretamente orgânica dos sintomas, até quem se permita pensar na participação de outros fatores menos evidentes, passando por aqueles que nem registraram que estavam doentes. Quando existe a possibilidade de estabelecer uma ligação com o mundo emocional, vislumbra-se a existência da ordem psíquica e a necessidade de trabalhar num campo que leve em consideração o conteúdo latente, além do conteúdo presente no manifesto dos sintomas somáticos. Eis o terreno onde a psicanálise tem muito a oferecer.

Desta forma, sendo mais específicos, a somatização nos remete a uma região fronteiriça cuja especificidade é a de enlaçar eventos psíquicos e eventos somáticos. Uma fronteira que resulta ser nada mais, nada menos, o cerne da psicanálise. Caminho inverso, sabemos que a pulsão é o conceito psicanalítico fronteiriço par excellence. O ‘pulo do gato’ freudiano que permitiu imaginar como a excitação puramente somática, necessariamente significada, se transformaria em material psíquico. Esse é o alicerce metapsicológico que sustenta como se dá (ou não) a qualificação do somático em psíquico nos albores do ser, marcando o nascimento do corpo − que é o soma psiquisizado. Tomaremos esse marco referencial para as considerações a seguir, que visam chamar a atenção sobre as queixas somáticas que surgem cotidianamente na clínica.

Como mecanismo de defesa a somatização denuncia uma demanda que não conseguiu ser tramitada psiquicamente, servindo o corpo como meio para estancar e circunscrever a sobrecarga afetiva, outorgando-lhe temporariamente um ‘nome de fantasia’. Assim, será possível falar da ‘dor de cabeça’ ou da ‘contratura nas costas’ sem sofrer a inundação da angústia derivada do conflito subjacente. O corpo entra de gaiato, enquanto o discurso oferece geralmente associações que permitem trazer à tona a mencionada conflitiva, escoar a angústia e atribui-lhe sentido; denotando um bom funcionamento do circuito representacional e uma estrutura egoica, que dará conta do gerenciamento pulsional.

Em um segundo nível encontramos queixas somáticas que caracterizam sintomas, cujo exemplo mítico e fundante da psicanálise é o sintoma conversivo histérico. O corpo entra em cena como coadjuvante de uma sofisticada trama que possibilita o retorno do recalcado através de uma solução de compromisso − resultado do embate entre a censura e o desejo − que cumpre com a satisfação das moções pulsionais, de maneira disfarçada. Graças à dissociação ideo-afetiva das moções, junto com a repressão do componente ideativo e o deslocamento do investimento afetivo em direção ao corpo, se garante o gozo na embalagem da belle indifférence: a gravidade do sintoma não angustia seu portador. Decifra-me ou te devoro, os sintomas carregam a marca dos anseios edipianos que, se são decifrados a tempo, tem chance de virar anedóticas curiosidades da biografia do sujeito. Caso contrário, sua perniciosidade poderá engolir − qual buraco negro − toda sua existência. O amor ao sintoma é proporcional ao amor à sua causa, tornando o desenlace desta tensa novela neurótica imprevisível.

O pai da medicina, Hipócrates, dizia há milênios que antes de tentar curar alguém precisamos saber se ele está disposto a renunciar àquilo que o fez adoecer, prenunciando, quem sabe, o que a psicanálise soube esclarecer: o sintoma tem um sentido. Não podemos simplesmente removê-lo. Esta é a região fronteiriça à qual me referi anteriormente que solicita a intervenção do psicanalista para devolver ao campo psíquico o que lhe pertence. Região onde analisar também é curar. Dentro do consultório nos parece obvio, mas fora dele tanto os pacientes quanto outros profissionais se desgastam em uma busca incessante de respostas, uma peregrinação sem fim que consome recursos de todo tipo, inclusive somas nada insignificantes dos cofres públicos. Dai a importância de não ficarmos desconectados de outras disciplinas e possibilidades de clinicar.

Conforme a psicanálise se desenvolveu, adentrou no campo não neurótico ampliando para o ‘mais além’ as bordas do mapa clássico da nosologia psicanalítica. Deparamo-nos com os vestígios do trauma. Clivagens. Um acervo representacional comprometido, pois as cicatrizes mnêmicas não são plásticas e não comportam a demanda pulsional. Faltam processos terciários e sobra excitação que não sendo comportada psiquicamente transborda, sendo um dos caminhos o curto-circuito somático. O desassossego impera.

O retorno do cindido se encena de maneira diferente. Trata-se daquela queixa desconexa, aquela dor, aquele déficit erguido, surda e solitariamente. Os órgãos, os membros, as partes se destacam: o fígado, a mão, a cabeça são os protagonistas. Escassas associações, precisamos resgatá-las com astúcia e/ou construí-las com imaginação. O soma é o porta-voz da tragédia que precisa ser auxiliado a significar. Parte do nosso trabalho passa pela validação do sofrimento que só poderá acontecer através do seu reconhecimento. Operamos a transformação de uma queixa somática em sofrimento ao atribuir-lhe qualidades psíquicas. O sujeito poderá assim apropriar-se do seu sofrimento, para sua posterior elaboração.

No Ambulatório de Transtornos Somáticos (SOMA)[1] recebemos pacientes ‘fim de linha do balaio do gato’. Sujeitos que depois de percorrerem anos de caminhos carregando no corpo e no soma suas novelas e tragédias, chegam à toca da psicanálise, um lugar improvável do SUS dentro de um marco institucional declaradamente biologista. Um lugar onde a leitura psicanalítica é chave para compreender seu sofrimento e interromper o ciclo de repetição. O SOMA cobra vida toda quarta-feira,  quando a porta da Sala 50 se abre para alojar as atividades de uma equipe multidisciplinar, com cerca de trinta profissionais que ad honorem se reúnem para escutar esses indivíduos e problematizar suas genéricas queixas somáticas, tornando-as matéria prima para o desenvolvimento de atividades académicas, assistenciais e de pesquisa.

Os R1 de psiquiatria realizam atendimentos sob uma cuidadosa supervisão que visa o desenvolvimento integral do médico; introduzir conceitos psicanalíticos que permitam a superação do dualismo corpo-mente, favorecendo a integração psicossomática; assim como contribuir em termos de modelo identificatório com a formação de profissionais capazes de reconhecer no paciente um sujeito único em seu modo de ser, adoecer e sofrer.

Para finalizar, aproveitamos a ambiguidade do terreno transitado, para diluir fronteiras, aproximar saberes e fomentar uma cultura de trabalho no marco do paradigma da complexidade que inclua novamente a psicanálise dentro do debate transdisciplinar da vida.

*Abigail Betbedé é médica psicanalista. Psiquiatra colaboradora do Ambulatório de Transtornos Somáticos – SOMA IPq HCFMUSP. Membro filiado ao Instituto da SBPSP, pós-graduanda em psicanálise pela Universidad del Salvador – Asociación Psicoanalítica Argentina.

 

[1] O SOMA pertence ao Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – IPq HCFMUSP.

Freud na casa de Adélia – uma conversa entre “Luto e melancolia” e o poema “Leitura”

Vanessa Figueiredo Corrêa 

Leitura

Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras.
As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha
de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas
fora do seu tempo desejadas.
Ao longo do muro eram talhas de barro.
Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo
que lá fora o mundo havia parado de calor.
Depois encontrei meu pai, que me fez festa
e não estava doente e nem tinha morrido, por isso ria,
os lábios de novo e a cara circulados de sangue,
caçava o que fazer pra gastar sua alegria:
onde está meu formão, minha vara de pescar,
cadê minha binga, meu vidro de café?
Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.

Adélia Prado 

 

No livro Literacura – Psicanálise como forma literária, de Fernanda Sofio, a autora sugere que o leitor reproduza o texto literário em sua mente e assim “distorça-o” e o recrie de acordo com a experiência subjetiva. Dessa forma, a leitura de uma obra literária pelo vértice psicanalítico pode ter características de um diálogo e não de uma análise. Aqui, além do exercício teórico, deseja-se sobretudo convidar o leitor a sentir em si o poema, ou seja, percebê-lo por meio dos sentidos.

Os dois textos, “Luto e melancolia”, de Freud, e o poema “Leitura”, de Adélia Prado, dialogam por meio da temática que têm em comum: as perdas e os possíveis caminhos para se lidar com elas.

Já que se trata de uma conversa, vem ao caso o contexto em que os autores produziram esses escritos. Adélia ficou órfã de mãe aos 15 anos, em 1950. Teve uma relação próxima com o pai, que faleceu em 1972, sendo que o poema “Leitura” foi mandado para a editora em 1975, ou seja, três anos depois.

Freud escreveu “Luto e melancolia” em 1915, e publicou em 1917, em plena Primeira Guerra Mundial, num momento em que, contra a sua vontade, dois de seus filhos se apresentaram de forma voluntária para o serviço militar e combateram na linha de frente.

Num exercício imaginativo, pode-se supor que as perdas, ou ameaças reais de perda, na vida desses dois autores foram usadas de maneira criativa e contribuíram para que as duas obras fossem escritas.

Em “Luto e melancolia”, é postulado que a perda de um objeto de amor (que não se restringe à morte de um ente querido) leva a um estado inicial de “desânimo doloroso profundo, falta de interesse no mundo externo, perda da capacidade de amor, inibição de toda atividade” (Freud). A obra, então, explora dois possíveis caminhos que a mente percorre após o dano: o primeiro seria o luto normal – um trabalho psicológico processual que “absorve, enquanto dura, todas as energias do Eu”. Mas, “a cada uma das recordações e expectativas que mostram a libido ligada ao objeto perdido, a realidade traz o veredicto de que o objeto não mais existe, e o Eu (…) é convencido a romper seu vínculo com o objeto perdido” (Freud). Ao final do processo, o indivíduo aceita a morte do objeto e segue o movimento de sua própria vida.

O segundo caminho seria o da melancolia: o indivíduo se torna incapacitado de fazer o trabalho psicológico do luto, pois fica identificado com o objeto perdido, e não consegue aceitar a perda. O melancólico sente que foi abandonado pelo objeto amado e o sentimento de abandono provoca ódio. No entanto, o objeto perdido ainda é o alvo de amor, e o ódio gera culpa, acabando por voltar-se para o próprio Eu daquele que perdeu, o que leva a uma ambivalência paralisante entre amor e ódio. Tal conflito está condensado na famosa frase de Freud:  “a sombra do objeto recai sobre o Eu”. Usando uma expressão poética, dir-se-ia que essa pessoa não pode ficar ensolarada, nem iluminada pelos objetos da realidade, está impedida de sentir alegria de viver. Preso na interação com a sombra (inanimada) do que foi o objeto amado, não há espaço para que o Eu volte a ligar a libido a objetos vivos.

Convém lembrar que em “Luto e melancolia” Freud toca pela primeira vez na noção de objeto interno, o que faz dessa obra um divisor de águas para a psicanálise (Ogden).

Caminhando dentro do poema: luto ou melancolia?

O título do poema de Adélia Prado, “Leitura”, entre outras possibilidades, pode ser pensado como uma preparação do terreno para uma “interpretação”, uma leitura dos fatos que serão apresentados.

O primeiro verso, “Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras”, descreve um ambiente fechado e ensombrado, sugerindo a existência de aspectos melancólicos em que, como discutido, “a sombra do objeto recai sobre o Eu”. Mas em seguida:

As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha
de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas
fora do seu tempo desejadas.

Surgem sinais de que há vida frutífera dentro dos muros. As maçãs são temporãs e, por isso, ainda mais desejadas, criando uma expectativa de prazer, reforçada pela construção “gosto caprichado”.

Ao longo do muro eram talhas de barros

As “talhas”, vasos de barro onde se guarda a água, combinadas com a palavra “vinho”, que está no terceiro verso, remetem à passagem bíblica em que Jesus realiza o milagre da transformação da água das talhas em vinho, nas bodas de Caná. O que faz sentido, levando em consideração a profunda influência de elementos bíblicos na obra de Adélia.

Então o leitor é convidado a experimentar sensações gustativas prazerosas:

“Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo
que lá fora o mundo havia parado de calor.

Aparece aí a oposição entre “dentro” e “fora”, que remete à existência de “objetos internos”. No poema, a paralisação está fora e não dentro, há um mundo interno povoado de movimento e de objetos vivos. Preparando o terreno para a alegria que surge nos próximos versos:

Depois encontrei meu pai, que me fez festa
e não estava doente e nem tinha morrido
por isso ria – sentia prazer em estar vivo
os lábios de novo e a cara circulados de sangue
caçava o que fazer pra gastar sua alegria:
onde está meu formão, minha vara de pescar,
cadê minha binga, meu vidro de café?”

São versos “circulados” pela alegria simples e cotidiana do pai, “joie de vivre”. Este é descrito como alguém desejante e o eu-lírico, após narrar o encontro com esse pai que lhe “fez festa”, conclui:

Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera
.”

A palavra “sonho”, por si só, dentro da leitura freudiana, tem múltiplas camadas de sentido e já sugere que foi realizado um trabalho de elaboração. Aqui, abre-se a perspectiva de todo o poema ser lido como um sonho: a realização de um desejo.

Portanto, o poema não segue pelo caminho da melancolia. Nesses quatro versos, está formulado o processo de transformação, da realização verdadeira do trabalho do luto. Do retorno cíclico e da aceitação da natureza: a morte adubando a vida.

Formulação rica para o uso na clínica psicanalítica e na vida.

 

BIBLIOGRAFIA

  1. FREUD, S., Obras completas, volume 12. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 170-94 (Luto e Melancolia – 1917 [1915]).
  2. OGDEN, T. H., “’Luto e Melancolia’” de Freud e as origens da teoria de relações de objeto”. In: ______, Leituras criativas: ensaios sobre obras analíticas seminais. São Paulo: Escuta, 2014, p. 33-60.
  3. PRADO, A., Poesia reunida, 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 2016, p. 22 (Leitura).
  4. SOFIO, F., Psicanálise como forma literária. São Paulo: FAP-Unifesp, 2015.

 

* Vanessa Figueiredo Corrêa, psiquiatra, membro filiado ao Instituto da SBPSP e membro do GEP São José do Rio Preto e Região.

O Estranho, inconfidências

Daniel Delouya

O XXVII Congresso Brasileiro de Psicanálise que acontecerá entre os dias 19 e 22 deste mês homenageia, em seu tema, o centenário da publicação do texto de Freud Unheimliche, e o associa, de outro, com a inconfidência mineira, história marcante da região onde o congresso se realiza este ano. Curioso, porém, o elo entre uma dimensão estética do mundo psíquico e o universo político. Seria um acaso? As circunstâncias da redação deste ensaio são eminentemente políticas: ocorre no final de 1912, com a eclosão da crise com Jung, após Freud desmaiar na sua presença. Um ataque parecido, e no mesmo local, acometeu Freud quando da ruptura definitiva com Fliess, em 1904, na sequência da qual sofreu o distúrbio de despersonalização em Acrópoles, que elaborara durante três décadas antes de publicá-lo em 1936. Já nesse período, em 1913, o estranho surge sob sua pena n’O tema dos três cofrinhos, no Totem e Tabu e no Moisés de Michelangelo. Nesses delineia-se a vivência do estranho pela ameaça narcísica de assassinato e aniquilamento associados ao destronamento do lugar de poder, às inconfidências. O termo Unheimliche significa aquilo que não é de casa, não é familiar e, na trama do rei Lear, essa inconfidência em relação ao pai (do complexo de castração)  é  remontado a posteriori à deposição original da primeira casa, do ventre materno e de sua restauração sucessiva nos cuidados maternos, no leito da mulher que esposamos e no retorno final, à morte, para a terra mãe, pela filha fiel Cordélia. Esse caminho, que o analista acompanha, desde o nascimento e até a inserção no mundo dos homens através das coordenadas propostas pela lei paterna é uma trajetória política penosa de diferenciação, de inconfidência, adquirindo um lugar na pólis do mundo humano. A escuta e o cuidado tanto do sujeito, assim como da cultura que o abriga, se faz pelo analista e pela psicanálise dentro de uma dimensão estética do sentir dessa dialética entre o familiar e não familiar, entre a confidência e a inconfidência. Heimliche-Unhemliche é o norteador, bússola da escuta psicanalítica, desde as nuances mais suteis do discurso do que destoa e desponta do recalcado, passando por aqueles inquietantes que nos desnorteiam e até os abalos das manifestações lúgubres francamente estranhos, de susto e despersonalização que acometem a dupla, o analista e o sujeito em relação a si, ao seu entorno e à cultura que habita. Essas espécies de vivências demarcam as agitações do conflito do eu com o seu recalcado, e os narcísicos entre o eu e o seu entorno. Em uma das últimas menções do estranho, Freud nos permite iluminar as turbulências do cenário atual, nacional e internacional. O fanatismo como o retorno da salvaguarda primária diante de nosso desamparo ao cair na vida, fora do recinto materno. Trata-se deste poder hipnótico responsável pela criação da massa primordial, do sujeito com o outro, o grande. Esse poder carrega, afirma Freud, o efeito estético enigmático, misterioso, unheimlich, nos remetendo, forçosamente, ao recalcado, o mais familiar do primeiro laço humano, do duplo constitutivo da horda primitiva (Freud, 1921). Tal fuga da pólis, da diferenciação e do convívio democrático em direção ao fanatismo, tem reincidindo no cenário ocidental com o colapso, o terceiro desde 1850, da promessa ilusória do neoliberalismo de independência econômica e de soberania da razão e da moral. O unheimliche da psicanálise o desmente!

Daniel Delouya é membro com funções didáticas da SBPSP e autor de vários livros, entre os quais Torções na razão freudiana (2 ed. pela Blucher, 2019)

A vida como ela é: Ser psicanalista hoje

Talya S. Candi

Por que perseverar no nosso impossível ofício de psicanalista?   E mais ainda, o que significa ser psicanalista hoje, no final da segunda década do século XXI?

Somos forçados a aceitar que hoje em dia a denominação de psicanalista não parece mais significar grande coisa. Esta denominação recobre um grupo de professionais profundamente variado e diferente tanto nos critérios de seleção e de habilitação, quanto na própria atuação e na formação teórica, cujo arcabouço conceitual acabou se transformando ao longo dos anos num corpo heterógeno atravessado por oposição por vezes fundamentais e irreconciliáveis. Consequentemente surge a interrogação: o que é ser psicanalista hoje?

Passada a grande febre do final do século XX, a psicanálise se estende hoje nos mais diversos centros de estudos, universidades e grandes centros hospitalares, permitindo que os estudantes interessados na ciência do inconsciente possam ter uma capacitação.  Esta fragmentação do campo tem sido em parte nefasta, mas também, acredito eu, necessária, pois permitiu uma ampla desidealização do fazer psicanalítico. O psicanalista de hoje é um professional como tanto outros que precisa estar inserido na sociedade de mercado e mostrar que seu saber é de valia tanto no campo do conhecimento científico como da terapêutica. No caso contrário, ficaríamos isolados esperando pacientes ideais, que fariam análises ideais e obteriam resultados ideias para não dizer idealizados.

Inspirada pelo psicanalista André Green, tenho me dedicado a pesquisar e trabalhar com os casos limites, casos que hoje prefiro denominar de não-neuróticos, porque desafiam o enquadre clássico (criado para tratar das neuroses) e se encontram nos limites da possibilidade de analisabilidade.  Trata-se de pacientes que parecem ter uma relação de extrema ambivalência com o psicanalista e a psicanálise. Eles experimentam por um lado, a análise como se ela fosse tão necessária quanto o ar que respiram, mas, por outro lado, acreditam (e insistem em dizer em voz alta)  que a psicanálise não pode fazer nada para aliviar o seu sofrimento. Assim vivem um impasse transferencial provocado por um negativismo feroz pelo qual se recusam tanto a largar quanto a melhorar e que, acreditamos, repete uma vivência de fracasso fundamental.

Um paciente que hoje perdi de vista, me perguntava frequentemente por que queria que ele fizesse análise?    A análise que ele foi fazendo contra a sua vontade o ajudou a recuperar sua vitalidade questionadora e me levou a repensar acerca do meu desejo de ser psicanalista.

Numa conferência já antiga que tive a oportunidade de escutar em Paris, Daniel Widlocher diz que o desejo do psicanalista se concentra em três áreas: o desejo de curar, o desejo de conhecer, e o desejo ligado à apreensão do humano. Os pacientes limites desafiam nosso desejo de curar, mas nos permitem conhecer e talvez compreender a complexidade dos dilemas e dos conflitos que nos tornam humanos.

Eles nos forçam a inserir conflitos lá onde frequentemente existem somente atos impensados que escapam a qualquer coisa que poderíamos chamar de humano.  Conflitos que hoje em dia se mostram cada vez mais ligados a impulsos destrutivos indomáveis, que aniquilam a essência do humano e apontam para lados obscuros e perversos da nossa humanidade que qualificaríamos de inumano. Como inserir humanidade lá onde vemos somente arrogância, destrutividade, violência e negação da alteridade? Em 2005, André Green[1]  escreve  um curto texto intitulado ‘’A humanidade do inumano‘’ à guisa de prefácio para o livro de Claude Balier: “A violência em abismo: ensaio de psico-criminologia”.  Uma das facetas do inumano, diz André Green, consiste na capacidade de anular qualquer questionamento e curiosidade, exterminando o sentido da vida,  transformando  qualquer  outro e o próprio Eu, em  “nada”  em “ninguém”,  como se qualquer tentativa de dar nome e significado  ao mundo no qual vivemos fosse violentamente exterminado.” O mal, o inumano é sem porque, diz ele, ele escapa a qualquer compreensão ao não ser se erguer enquanto mal, ele é uma força bruta que visa na sua essência a destruir o sentido e os porquês, os quando e os quem.”  (Green 1988, pg 370).

Acredito que o psicanalista de hoje deve poder estar preparado para ser confrontado com os aspectos mais obscuros e inumanos de nossa humanidade, que visam a aniquilar o sentido e o interesse da própria vida.

Como explicar a proliferação das patologias limites?  Existem vários modelos para explicar a origem das patologias não-neuróticas. A  grosso modo, podemos destacar dois modelos: O modelo do “conflito psíquico”  que remonta à teorização de Melanie Klein e de Kernberg, que vai enfatizar o papel da agressividade, da inveja inata e do conflito psíquico (entre a parte da personalidade  dominada pela posição esquizo-paranóide  que não suporta reconhecer a alteridade do outro e a posição depressiva que aceita a alteridade) e o modelo do déficit  que, a partir de Ferenczi e de Winnciott, destaca  a falta de sintonia do ambiente às necessidades primarias do bebê.

Este último modelo, enfatiza as dificuldades do self de se autorregular e atingir um nível de coesão de organização interna estável quando o ambiente externo não proporciona um suporte suficientemente bom, confiável e continente. Ao longo do tempo estes modelos têm levados a pontos de vista divergentes na ação terapêutica.  O modelo do conflito, coloca a ênfase na estabilidade do setting (que assegura que a análise possa sobreviver à ambivalência e agressividade do paciente) e na interpretação do conflito psíquico, possibilitando assim confrontar o paciente com a sua própria destrutividade.

O modelo do déficit, por sua vez, ressalta a necessidade de proporcionar continência e holding para possibilitar que as áreas que permaneceram indisponíveis para representação possam ser consolidadas. Esta parte do trabalho consiste em criar a tessitura de uma tela branca psíquica   que sirva de pano de fundo para que a história do paciente possa ser desenhada e inscrita.

Entre as múltiplas dificuldades que o analista deve enfrentar para levar a cabo este trabalho, destacamos a intensa quota de destrutividade que os pacientes não-neuróticos trazem e ativam na relação com o analista. Seja ela determinada por uma questão constitucional ou por uma falha dos objetos primários, a continência da agressividade constitui um nó técnico inevitável e um teste difícil.

Bion, Melanie Klein, Winnicott, Searles, Green, Pontalis  entre  muitos outros parecem ter percebido o tamanho do problema que significava para  um analista  engajar-se na análise de tais pacientes: O analista precisa num primeiro momento se implicar, ser utilizado pelas suas carências, se deixar vampirizar pelo paciente, sobreviver,  imaginar as coisas mais improváveis, as mais loucas e irracionais, aceitar errar e sentir-se completamente impotente, ser pisoteado no seu narcisismo e, finalmente, se precisar, saber desistir e aceitar recuar e…. mesmo assim continuar firme com a psicanálise.

Baita de uma tarefa!!

Para se engajar num tal desafio, o analista de hoje precisa mais do nunca estar profundamente familiarizado com seus próprias conflitos e dores, enfim, com sua vida psíquica e “sua loucura pessoal “(Green). Estes pacientes que nos desafiam com um funcionamento psíquico à beira da loucura, exigem que tenhamos  como instrumento  uma imaginação clínica para  intuir e apreender os conflitos  e não nos deixar levar pela manipulações, uma agilidade mental para não  enlouquecer com o sofrimento e,  uma firmeza  e serenidade  interna para  não desistir.

O método analítico, a associação livre e o enquadre são nosso porto seguro nesta árdua tarefa… Claro que eles serão inevitavelmente perdidos no decorrer do caminho, mas eles devem sempre nortear nossa caminhada. Cabe aqui alertar os analistas contra manipulações transferenciais que poderiam levar a situação perigosas de atuação e desfechos catastróficos.

Compreendemos que face a estas situações limites paradoxais (Roussillon) que questionam os limites da própria razão de ser da psicanálise, cabe recorrer à “loucura pessoal”(Green)  do analista que ao entrar  em ressonância com a  vida emocional do paciente, responde com flexibilidade e  rigor, a partir do espirito analítico,  inserindo sentido.

Diremos finalmente que a história da psicanálise nos ensinou que o único que garante a situação analítica é o próprio analista, a sua pessoa e a sua ética.  Neste sentido, não temos como não insistir na necessidade de uma formação sólida e de uma análise pessoal longa que formaram os pilares do ser psicanalista no passado e que permanecem, todavia mais indispensável hoje e   provavelmente amanhã.

Ser psicanalista hoje exige uma formação dupla.  Por um lado, estar atento, como no passado, a sutis manifestações do inconsciente e quando as circunstâncias o exigem, com pacientes não-neuróticos, poder acolher modos de pensamento paradoxais ou, por vezes, modos de pensamentos inexistentes   e inventar respostas apropriadas que possam abrir caminhos nunca antes imaginados.

[1] André Green, « Préface. L’humanité de l’inhumain », in Claude Balier, La violence en Abyme, Presses Universitaires de France « Le fil rouge », 2005 (), p. XI-XVII.

Talya S. Candi, Membro associado da SBPSP, filiada à International Psychoanalytic association, doutora pela PUC-SP, autora de varios artigos em revistas cientificas e do livro; O duplo Limite: o aparelho psiquico de André Green, ed Escuta e organizadora de “Dialogos psicanaliticos contemporaneos” publicado  tambem pela ed. Escuta. Talyasc@uol.com.br

 

Notas sobre Religião, Psicanálise e Vulnerabilidade

Cássia Barreto Bruno

Fala-se, hoje em dia, sobre o retorno das religiões. A Jihad, os escândalos da Igreja de Roma e a prisão de lider religioso no Brasil trazem à tona o debate sobre qual é o lugar da fé laica e da religião no século XXI. Ao levar em conta a complexidade do tema, a psicanálise pode dar alguma contribuição em sintonia com   antropólogos, teólogos e filósofos que trabalham nessa área. (Levi-Strauss, Viveiros, Derrida, para falar de autores recentes).

Na psicanálise, nós poderíamos pensar, por exemplo, em qual lugar da mente se situa esse fascínio pelo sagrado e pelo desconhecido? Podemos dizer que estaria no inconsciente profundo, segundo o modelo freudiano? Podemos ter acesso aos riscos que corremos quando falamos de áreas inconscientes e indizíveis? Serão mesmo inacessíveis? Qual seria o caminho de acessibilidade?

Lancemos alguma luz sobre essa questão. O fato de o inconsciente ser de difícil acesso e o fato de ser o reservatórios das paixões e dos sentimentos que nos assolam e sobre os quais não temos controle, nos deixa intrigados, assustados, mas, acima de tudo, vulneráveis à manipulação.

Nessa área profunda da mente, aquém da palavra, somos frágeis e vulneráveis, tanto no aspecto mais amplo da vida social, expostos à vida Politica, no sentido amplo da palavra, caso das religiões e do Estado, quanto na intimidade da família e do casal.

Após os avanços da teoria psicanalítica, sabemos hoje que, em relação às fantasias e afetos inconscientes, podemos desenvolver uma sensibilidade para esse campo de sentimentos desconhecidos. É possível apurar nossa intuição e ter acesso consciente sobre muitos dos sentimentos que não notamos no corre-corre do cotidiano. Ao se tornarem conscientes, podemos administrá-los de um modo mais racional e proveitoso, digamos assim.

Como desenvolver essa sensibilidade para o desconhecido? Após os estudos de Francis Tustin com autistas, sabemos da importância dos órgãos dos sentidos para a acessibilidade à mente mais primeva.

Se dirigirmos nossa atenção para os indícios que se nos apresentam diariamente e que ficam perdidos no corre-corre do cotidiano, qual seja um gesto, um olhar, um cheiro, uma sensação, podemos dar crédito às nossa intuições. Intuições baseadas em dados de realidade, em observação de nuances e detalhes, tal como Sherlock Holmes fazia ao ter fé e acreditar no que observava.

Nossos órgãos dos sentidos, sob império do olhar, estão subutilizados. Não sabemos qual é o cheiro da raiva, qual é a temperatura do amor, qual o significado desse retorcer de boca, dessa gargalhada fora de hora, desse leve toque de braço.

Assim, urge que fiquemos atentos para estas área da mente e tentemos sentí-las, intuí-las, percebê-las.

Precisamos estar alertas para nos defender de situações que, por estarem em áreas profundas da mente, que é o território do sagrado, do mito, da arte, do inconsciente, do não dito, das sombras, essas áreas, tanto podem abrigar nossas maiores felicidades, quanto nossos maiores sofrimentos.

No mundo atual, a Jihad, o poder das religiões e o abuso dentro das famílias é a violência mais terrível porque é praticada contra a fé e a crença, contra a situação de entrega do mais profundo do ser humano. Justamente quando o ser humano se assume como demasiadamente humano, com suas mais profundas maravilhas e fraquezas, dores e felicidades, justamente nesse momento a pessoa é roubada do que lhe é mais caro, que é sua verdade e seu compromisso consigo própria.

Ou fugimos dessa área profunda do sagrado e nos tornamos racionais qual robô, ou nos deixamos envolver por esses sentimentos brutos, primitivos, maravilhosos, sagrados e aprendemos a administrá-los. Ou fugimos ou corajosamente enfrentamos nosso humano. O que será do mundo sem a poesia, sem a arte, sem o sagrado, sem o amor? Sem o mistério?

Convido-os a ouvir a Quarta Sinfonia de Mahler.

Cássia A.N.Barreto Bruno é psicanalista. Membro Efetivo da SBPSP, Analista Didata,Training Analist da International Psycholoanalytic Association, Docente do Instituto de Psicanálise da SBPSP.