“Embrace”: o peso silencioso do ódio ao corpo

*Luciana Saddi

Desde sempre, a fotógrafa australiana Taryn Brumfitt sentiu pressão para ter um corpo perfeito. Ela tem três filhos e chorava de ódio e desespero ao olhar-se no espelho após cada gravidez. Depois de muito lutar contra seu corpo, decidiu se aceitar e abriu mão das dietas. Assim começa o documentário “Embrace”, disponível na Netflix.

Brumfitt postou no Facebook uma foto do antes, quando ainda se sacrificava para obter um corpo perfeito e magro, e do depois, quando fez as pazes consigo mesma e com suas formas arredondadas. A imagem viralizou. Compartilhada por celebridades, virou manchete em revistas e jornais do mundo afora. Era a força que faltava para expor seu sofrimento e com isso investigar a relação de inúmeras mulheres com a imagem corporal. A principal motivação foi a filha. Ela queria que a menina se amasse.

O documentário revela que 91% das mulheres odeiam o próprio corpo. Diante de padrões idealizados de beleza toda mulher sente-se gorda e feia. Esse ódio é explorado pela indústria cosmética, da moda, das dietas, das cirurgias estéticas, das revistas femininas. O filme não investiga a exploração desse ódio pela sociedade patriarcal, pois mulheres oprimidas tendem a aceitar qualquer coisa, principalmente, homens que as maltratem. Tampouco questiona a não transformação da hostilidade em revolta ou libertação.

“Embrace” prefere mostrar mulheres que aprenderam a se amar, recusaram padrões de beleza e superaram preconceitos internos e externos. Magras demais, obesas demais, peludas demais, com queimaduras demais, com defeitos físicos demais ou apenas mulheres que lutaram para sair da perversa equação beleza/magreza/felicidade/juventude. E que fizeram do próprio sofrimento bandeira de luta e afirmação, dando novo sentido às suas vidas.

O documentário ainda expõe a loucura obsessiva e obcecada gerada por sucessivas dietas – prática quase sempre fracassada (é impossível se manter em privação alimentar por muito tempo) – que roubam a capacidade de pensar, de trabalhar, de se divertir e empobrece a vida de milhares de mulheres ao redor do mundo. O filme mostra que mulheres sentem medo o tempo todo, pois seus corpos podem ser expostos, suas imperfeições reveladas…mulheres se escondem, se envergonham e se humilham por causa do corpo imperfeito, inclusive as belas e jovens.

Nos anos 70, a psicanalista Susie Orbach escreveu um livro de grande sucesso internacional que está na 50ª edição: “Gordura é uma questão feminista”. No Brasil, o título não teve boa aceitação, embora a autora seja best-seller na Inglaterra e nos Estados Unidos. Há poucos anos, ela lançou “Bodies” (2009), livro que trata do crescente ódio ao corpo.

Orbach explora o conceito de mentalidade de dieta que aliena o sujeito dos sinais vitais da alimentação (fome, saciedade, prazer em comer). Considera a epidemia de obesidade e o aumento dos problemas alimentares (anorexia, bulimia e distúrbio compulsivo de alimentação) consequência do crescente controle alimentar, por meio das dietas, para alcançar um corpo idealizado. Autonomia alimentar versus opressão dietética. A autora afirma que a mentalidade de dieta é transmitida na família. Diz que os tratamentos dos problemas alimentares baseados em dieta são iatrogênicos, visam aumentar ainda mais o controle e o ódio ao corpo, e agravam os sintomas. Propõe, baseada na psicanálise, trocar a dieta pela autonomia alimentar e os ideais por simples aceitação. Indica mudanças técnicas para conectar (ou reconectar) o sujeito aos sinais vitais do comer para alcançar seus sofrimentos. A forma de pensar a ligação entre o social e o individual ao entrelaçar os níveis sociocultural, intrapsíquico e psicopatológico é a marca deste trabalho.

Em 1930, em “O Mal-Estar na Civilização”, Freud apontara que o progresso civilizatório não traria felicidade ao homem, pelo contrário, por meio da repressão à agressividade – condição civilizada por excelência – haveria um superego cada vez mais severo e violento. Talvez, por isso, o ódio ao próprio corpo não se transforme em rebeldia ou libertação, por estar preso a um círculo vicioso superegóico e masoquista que apenas o agrava.

“Embrace” expõe o opressor peso silencioso do ódio ao corpo, também apresenta mulheres que se libertaram e conseguiram se amar. Toda a opressão se assemelha enquanto a libertação percorre caminho singular.

Aprendi com Fabio Herrmann que a psicanálise apresenta ao homem o absurdo que o constitui e, se possível, ajuda a reconciliar-se com o absurdo e consigo mesmo. O documentário “Embrace” segue nessa trilha.

 

Luciana Saddi é psicanalista e escritora. Membro efetivo e docente da SBPSP, mestre em Psicologia Clínica – PUC/SP, publicou artigos em revistas e livros especializados.

Autora dos livros: O amor leva a um liquidificador (ed. Casa do Psicólogo), Perpétuo Socorro (ed. Jaboticaba) e Alcoolismo – coleção o que fazer? (ed. Blucher). Recentemente publicou Educação para Morte (ed. Patuá).

Conversa Psicanálise e Semiótica

Afinada com o espírito de nosso tempo, do risco do radicalismo e da intolerância ao diferente, a diretoria científica da SBPSP propôs  como eixo geral para as suas atividades, o tema “O mesmo, o outro”.  E seguindo este tema, trabalha com a noção de porosidade.

 

Nossa ideia é a de  pensar o corpo psicanalítico como uma pele disposta às influências internas e externas. Assim, cabe pensarmos na porosidade da Psicanálise voltada para outras áreas do conhecimento.

 

O formato “Conversas” surge da ideia de apresentarmos psicanalistas que se dedicam ao estudo da interface da Psicanálise com outros campos do conhecimento em conversa com profissionais de outras áreas, que se dedicam ao mesmo campo. Esta é uma oportunidade para conhecermos como outra disciplina comparece em seu pensamento e no seu exercício clínico.

 

No sábado, dia 12 de agosto às 9 horas, no auditório da SBPSP, teremos a primeira Conversa Psicanálise e Semiótica.

 

A Semiótica é a ciência que investiga os fenômenos como produtores de significação e sentido. Os seus nomes fundamentais são os linguistas Ferdinand de Saussure (1857-1913) e Algirdas Julien Greimas (1917-1992), e o filósofo e matemático americano Charles Sanders Peirce (1839-1914). Contemporâneo de Freud, Peirce nunca o conheceu. No entanto, podemos encontrar importantes  aproximações entre as duas disciplinas.

 

O foco de Peirce está em como percebemos os fenômenos e em como significamos as nossas experiências.  Partindo do ponto de que para conhecer algo o homem  produz um signo, ele sugere três categorias de apreensão, três modalidades nas quais os pensamentos são construídos.

 

A “primeiridade” refere à apreensão primeira e imediata dos fenômenos a partir de suas qualidades sensíveis. Ela tem como signo o ícone, que mantém a semelhança com objeto representado.

 

Mas, para que um fenômeno possa existir, ele tem que estar encarnado em uma matéria. Aí está a segunda modalidade de contato, a “segundidade”, cujos signos correspondentes são os índices, que mantêm uma relação causal de contiguidade física com o que representam.  E por fim a “terceiridade”, que aproxima os outros dois em uma síntese  intelectual e tem como signo correspondente o símbolo. Este, não mais ligado diretamente ao objeto, mas às associações multissemânticas de quem o vive.

 

Portanto, neste caminho do signo ao símbolo, podemos notar a importância da Semiótica para a clínica psicanalítica. Perceber, compreender, interpretar em um movimento ininterrupto são matéria tanto para semioticistas quanto para psicanalistas. Estas são as questões que serão abordadas em nossa Conversa Psicanálise e Semiótica. Contamos com a presença do professor Ivo Ibri, da PUC-SP, que apresentará um panorama geral da Semiótica. E com os psicanalistas Paulo Duarte Guimarães Filho  da SBPSP, que abordará a presença das ideias de Peirce na literatura psicanalítica recente  e José Antônio Pavan, da SBPSP e do Núcleo de Psicanálise de Marilia e Região, que vai estabelecer relações da semiótica com a sua clínica.

 

Aguardamos vocês,

 

Silvana Rea

Diretora Científica da SBPSP

Novos casais – antigos amores

Regina Maria Rahmi

O Dia dos Namorados faz emergir indagações sobre o amor. E como anda o amor, tão cantado em verso e prosa? E a busca pela cara metade?

Freud afirma que a busca do partner evoca, desperta ou ativa algum traço parcial no sujeito das primeiras relações amorosas. A primeira marca de prazer e satisfação. Entre o encanto do reencontro e o desencanto da ausência é o lugar onde convergem os apaixonados.

A ilusão de ter a mesma ilusão… Na parceria amorosa, implica em momentos mágicos onde os dois acreditam terem encontrado aquilo que sonharam. Esse é o território de projeções entrecruzadas, fantasias de continuidade, completude e transcendência. Não seria o “campo virtual”algo inerente à natureza das paixões? Um espaço de sonho e desejo?

“Os enamorados” –  diz William Shakespeare –  “buscam a noite”. Território das idealizações e intensas atrações. A grande questão aparece quando a luz da realidade, a existência do outro, se faz presente.

Qual é o espaço para a alteridade? Para a existência do outro enquanto outro, o diferente? Qual a tolerância para a dor de perceber que o outro não alberga somente nossas projeções? Que o partner existe por si, diferente do que se imagina?

 Na atualidade

A busca pela satisfação instantânea, o abandonar-se aos impulsos, estar em movimento, alta velocidade, uma aventura estimulante…  Nas parcerias, leva por vezes a “amores líquidos”, como se refere Zygmunt Bauman. Laços frágeis que, frente à frustração do não encontro daquilo que almeja, emerge o pesadelo.  A desilusão leva facilmente a rompimentos; sempre está a possibilidade de apertar a tecla e deletar.

Por outro lado, também existem aqueles que têm espaço e recurso interno para lidar com os desencontros e experimentar o desconhecido; a possibilidade de um novo vínculo nasce de um entre dois.  No momento em que o amor se apresenta, o prazer é inerente ao encontro, surge uma esperança.  Há uma inquietação e uma descoberta de quem se apresenta.

O amor vive da incompletude. É a falta, a busca que nos põe em movimento.  O desejo precisa de tempo para germinar, crescer e amadurecer. E no dizer do poeta Arnaldo Antunes: “O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo por conjunção estrelar. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério pela paz que o outro dá ou pelo tormento que provoca”.

 

Regina Maria Rahmi é membro associado da SBPSP, professora dos Seminários de Psicanalise dos vínculos de Família e casal da (Dac), diretoria de Atendimento a Comunidade da SBPSP e coordenadora do curso de especialização de Família e casal na atualidade – Instituto Sedes Sapientiae.

Foto: We Heart It

Sexo anatômico e identidade sexual

Não é exclusividade de nossos tempos a existência de pessoas que sofrem do sentimento de incompatibilidade entre o seu sexo anatômico e a sua identidade sexual. A crescente liberdade sexual conquistada pelas sociedades ocidentais – impulsionada sobretudo pela mudança da posição da mulher na sociedade – tem contribuído para uma maior aceitação e visibilidade de práticas sociais e sexuais que se afastam dos conceitos tradicionais e de sofrimentos que até então tinham pouco espaço para se manifestar.

A legalização do casamento gay e a adoção de crianças por casais do mesmo sexo têm estimulado o questionamento das noções tradicionais de gênero e tornado possível a manifestações de diversas identidades sexuais.

Transgeneralidade é um termo que abarca as pessoas que ultrapassam as normas de gênero baseada na equivalência pênis – macho – homem – masculino e vagina – fêmea- mulher – feminina.  Entre eles podemos citar os travestis, drag queens, drag kings, crossdressings e os transexuais. Denominamos de transexuais aqueles que se identificam com o sexo oposto àquele de seu nascimento. Nessa entrevista concedida ao blog da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, a psicanalista Marcella Monteiro de Souza e Silva* fala sobre os dilemas entre sexo anatômico e identidade sexual, questão despertada principalmente na adolescência, e o papel dos pais, da família e do processo terapêutico nessa jornada que envolve profundas mudanças psíquicas.

Como a Psicanálise vê a questão do sentimento de inadequação entre o sexo biológico e a identidade sexual?

Freud, no início do século XX, provoca uma revolução na ideia de sexualidade vigente na sua época, afirmando não só a existência da sexualidade infantil como também apontando para o fato de que possuímos uma bissexualidade originária. Com isso, ele queria dizer que apesar de nascermos com um sexo anatômico definido, temos, inicialmente, uma disposição bissexual e só nos constituímos como homens ou mulheres através de um longo processo de identificação com as pessoas significativas com as quais nos relacionamos. Com essa colocação Freud inclui a dimensão social e psicológica na formação da nossa identidade sexual que passa a ser vista como uma construção, não se reduzindo e, portanto, nem sempre coincidindo com o nosso sexo biológico. Em 1964, o psicanalista Robert Stoller contribuiu para a discussão do assunto introduzindo a noção de “gênero” ou “identidade de gênero” na psicanálise. Com isso, ele propõe pensarmos a masculinidade e a feminilidade como aspectos psicológicos, sociais e históricos diferenciando-as do sexo no sentido biológico. Assim, vemos que a teoria psicanalítica já aponta para o fato de que a identidade sexual não se encontra soldada ao sexo biológico

 Os indícios do desejo de mudança de sexo costumam manifestar-se em que idade?

É importante termos em mente que não existe “o transexual” como uma categoria única, pois cada pessoa (seja ela transexual ou não) é um ser humano singular que vive e sofre a sua própria maneira. Daí a importância de levarmos em conta a diversidade e a singularidade das histórias vividas pelos adolescentes ou adultos que desejam a “mudança de sexo”.

Muitas pessoas que sofrem com o sentimento de inadequação de seu sexo anatômico e sua identidade de gênero afirmam que desde muito cedo, ainda crianças, sentiam-se desconfortáveis com seu sexo biológico e identificavam-se com o sexo oposto ao seu de nascimento. Porém, é geralmente na adolescência, quando há uma segunda eclosão da sexualidade (sendo a primeira na infância, na época do complexo de Édipo), que esse sentimento de fato “ganha corpo”e que, geralmente, surge a vontade de “mudança de sexo”.

Vale lembrar que até mesmo o tratamento cirúrgico, chamado cirurgia de redesignação sexual, não altera efetivamente o sexo da pessoa, uma vez que ela não altera o material genético do indivíduo (XX nas mulheres e XY nos homens). Atualmente, a cirurgia, possível de ser realizada a partir dos 21 anos de idade no Brasil, só é indicada após um processo psicoterapêutico de alguns anos no qual essa decisão possa ser pensada e elaborada.

Muitos transexuais buscam apenas a terapia hormonal e não têm interesse em realizar a cirurgia para a redesignação sexual.  Esse método consiste na administração de progesterona e estrógeno para as transexuais com identidade de gênero feminina e testosterona para os transexuais com identidade de gênero masculina.

Essas duas possibilidades oferecidas pela medicina nos dias de hoje – a intervenção cirúrgica ou o tratamento hormonal – tornam possível a minimização do sofrimento de pessoas que sentem incongruência entre seu sexo anatômico e a sua identidade de gênero. Com esses recursos, o transexual pode ser ajudado na tentativa de adaptar seu corpo ao seu sentimento de identidade de gênero, ou seja, ao gênero ao qual sente que pertence.

Quais os principais dilemas de um adolescente que quer mudar de sexo?

A adolescência é uma fase de inúmeras mudanças corporais e esforços de adaptação a elas. No caso de um adolescente que não se identifica com o seu sexo anatômico os desafios são ainda maiores.

Geralmente, nessa época os adolescentes sentem muito intensamente o desejo de reconhecimento segundo o gênero que eles próprios sentem ser o seu. Ou seja, eles desejam serem designados na escola e na família, segundo o gênero que lhes corresponde psicologicamente. Assim, muitos deles lutam por mudar o nome social, na lista de chamada da escola, por exemplo, e na família.

Embora os pais e as escolas estejam cada vez mais conscientes e sensíveis ao assunto, ainda é muito grande a resistência que os adolescentes encontram nessa área. Surgem receios de como serão vistos e aceitos pela comunidade e de como será sua vida afetiva e sexual.

Como os pais podem apoiar e se preparar para esse processo?

O apoio dos pais é fundamental para o adolescente que deseja “mudar de sexo”. Quanto mais os pais podem suportar e acolher o desejo do filho, maior será a possibilidade de o adolescente entrar em contato com seu desejo e tentar elaborá-lo de maneira a tomar as decisões que mais lhe convêm. E caso opte, de fato, pela cirurgia ou tratamento hormonal, ele poderá enfrentar as dificuldades da mudança corporal e dos desdobramentos emocionais que elas trarão.

Alguns pais podem ter dificuldade em aceitar o filho que manifesta tais desejos, vendo-o muito distante daquele filho que eles gostariam de ter. É importante que os pais possam elaborar o luto pelo filho desejado para que possam acompanhar o filho real na descoberta da pessoa que ele é. Muitas vezes o acompanhamento psicoterapêutico dos pais pode ajudá-los a estar mais próximo ao filho nesse processo.

Muitos pais inicialmente sentem-se culpados, atribuindo algum erro na sua criação do filho como determinante do desejo dele pela mudança de gênero. É importante que os pais possam ter em mente que a vida mental, psíquica é de tal complexidade que não é um fator exclusivo que determina nossos desejos e necessidades e sim uma série de elementos que, conjuntamente, nos fazem ser quem somos. O sentimento de culpa dos pais pode ser um entrave para a aceitação do filho.

E a escola, amigos e sociedade? Qual o papel desses relacionamentos nesse contexto?

Qualquer mudança corporal, seja ela apenas de aparência ou fruto do tratamento hormonal, tem uma repercussão psíquica muito grande no adolescente, por isso, a importância de ambiente de parceria entre a escola, a família e o adolescente.

A escola costuma ser o ambiente público mais importante do adolescente. É fundamental que ele possa sentir que neste lugar ele é respeitado e aceito segundo a designação que ele deseja. Assim, ser chamado pelo nome social na chamada escolar, pelos professores, por exemplo, pode significar muito para o adolescente. É importante também a escola estar atenta de como a comunidade escolar aceita e respeita o aluno e dá espaço para ele existir de acordo com o gênero que deseja.

O principal desejo do adolescente neste contexto é o reconhecimento e o sentimento de pertencimento.

De que forma a análise poderia ajudar o adolescente e/ou família nesse processo nesse momento?

Uma vez que todas as nossas manifestações psicológicas têm como base elementos conscientes e inconscientes, uma análise pode beneficiar muitíssimo tanto a família quanto o próprio adolescente ou criança que se sente desconfortável com a sua identidade de gênero.

Para o adolescente, a análise pode auxiliá-lo a discriminar se o que ele sente é um real desejo de mudança de gênero ou apenas uma enorme admiração pelo sexo oposto, pois muitas vezes essas duas coisas encontram-se imbricadas e de difícil discriminação sem um trabalho analítico. Este processo de autoconhecimento é muito importante pois muitas vezes pode-se definir precocemente que se trata de uma questão identitária enquanto o que está em jogo é somente uma fase da construção de identidade de gênero que, como vimos, passa pelos caminhos identificatórios do indivíduo. Por isso, pode ser temerária uma definição e intervenção em crianças, por exemplo.

O processo analítico pode contribuir também para desvendar fantasias que muitas vezes estão em jogo. Alguns indivíduos idealizam a mudança de gênero, acreditando que com ela estarão livres de sofrimentos que muitas vezes são inerentes à condição humana. Por isso, o trabalho sobre as expectativas em relação à mudança de gênero é importante.

Por propiciar um contato maior do indivíduo com ele mesmo, a análise pode ajudá-lo a fazer escolhas e tomar decisões mais conscientes para, inclusive, poder lidar com as consequências dessas escolhas como o autorreconhecimento no gênero escolhido, o processo de inserção social e ainda a relação com o próprio corpo.

A família pode ser beneficiada pela análise uma vez que essa pode ajudá-la a rever seus próprios valores, crenças e certezas e assim poder acompanhar o adolescente de maneira mais próxima e livre de preconceitos.

 

 

 

Marcella Monteiro de Souza e Silva é psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e professora de psicologia no Colégio Oswald de Andrade.

CRACOLÂNDIA – DIVERSÃO OU REFÚGIO?

A discussão em torno do tema cracolândia tem ganhado visibilidade nos últimos dias por conta das ações realizadas pela Prefeitura de São Paulo no local, notoriamente conhecido por reunir usuários e traficantes que consomem e vendem drogas a céu aberto. Com o tema em voga, acabam vindo à tona histórias diversas de pessoas que vivem no local e, muitas vezes, fogem do estereótipo do craqueiro . Mas o que leva alguém a chegar ao ponto de se abrigar em um ambiente como o da cracolândia? Diversão? Prazer?

Confira abaixo o artigo da psicanalista Maria de Lurdes Zemel sobre o tema:

A CRACOLÂNDIA SERIA UM LUGAR DE DIVERSÃO OU UM REFÚGIO?

Ao fazer a divisão da palavra crack-lândia podemos associá-la à Disney-lândia – o que leva a pensar sobre o uso de droga estar associado somente ao prazer. Decorre daí a certeza que esse é um lugar que abriga pessoas que vivem só do prazer. Pessoas irresponsáveis, que não querem trabalhar, não respeitam leis, não sabem viver em grupos sociais, etc.

Sim, todos buscamos a droga para obter prazer e é isso que ela nos oferece. Sabemos isso usando adequadamente qualquer droga. A questão passa a se complicar quando a relação com a droga se inverte, isto é: quando ela dirige a relação, como se fosse um tirano a nos dominar. Isso é assim também com o crack.

O crack é a cocaína inalada. Tem um efeito rápido, vai direto à corrente sanguínea por inalação. Seu efeito também passa rápido. Rapidamente causa tolerância, síndrome de abstinência e dependência.

O usuário de crack de terno e gravata, aquele que vem ao nosso consultório, usa crack eventualmente e não frequenta a “cracolândia”. Ele é uma pessoa diferente do “craqueiro” que está lá na “cracolândia” em andrajos ou escondido por um cobertor. No entanto, ambos são seres humanos e merecem respeito e compreensão.

O frequentador da “cracolândia” está submetido à lei social do tráfico, lei rígida e que demanda obediência servil. O tráfico tem palavra: é cumprir ou morrer. É possível que ele obedeça a esse tipo de lei por não ter tido interdição paterna, por ter se perdido dentro da família e por estar num grupo social sem lei, onde nada do que é dito é cumprido.

O frequentador da “cracolândia” tem urgência – fuma uma pedra atrás da outra. Procura na latinha uma pouco de calor na boca, mesmo que a queime. Beija a boca de qualquer um ou aceita qualquer sexo somente para sentir um corpo junto ao dele, um corpo sem nojo, igual ao dele. Envolve-se num cobertor para sentir um limite na própria pele, para se sentir único no meio da multidão de semelhantes. Cada um tem seu cobertor. O cobertor é sagrado; assim como nosso corpo é sagrado para nós e nossa mente é única.

O cobertor esconde muitas histórias. Muitas misérias e muitas dores não poderiam ser suportadas sem a presença dele. Abortos, estupros, surras, mortes, abandonos, violências de toda qualidade. Estamos do lado de fora do cobertor, não sabemos dos sofrimentos daqueles que ali se escondem.

Um bebê substitui a ausência de sua mãe por um “paninho”. Um “craqueiro” precisa de um cobertor para suportar a ausência de vida que existe em sua própria vida. A morte se faz constantemente presente; a morte é fria.

O cobertor nos protege de ver tanta tristeza. Talvez fosse insuportável para nós enxergar o que o cobertor encobre. Talvez seja insuportável para o craqueiro também.

O craqueiro precisa da “cracolândia” para se refugiar e se proteger de nós, que temos medo da precariedade psíquica escancarada por ele.

*Maria de Lurdes de S. Zemel é coordenadora do Grupo de Prevenção ao Uso Indevido de Drogas do Setor de Parcerias e Convênios da Diretoria de Atendimento a Comunidade da SBPSP

*Revisão de Luciana Saddi – membro da SBPSP

Reflexões sobre identidade sexual

**Por Maria Thereza de Barros França

Desde inícios do século XX Freud nos apresentou suas teorias acerca da sexualidade infantil. Certamente organizou observações que já vinham sendo feitas por outros autores da época, entretanto inovou e propôs pensarmos a sexualidade em termos de libido – algo que transcende em muito a experiência do ato sexual. Nossa identidade sexual se firma na adolescência, mas desde muito cedo o processo de seu desenvolvimento está em andamento.

Freud nos colocou em contato com a bissexualidade presente em todos os seres humanos e ressaltou sua força na tenra infância. É um longo processo de amadurecimento emocional a ser percorrido, para que possamos transformar aspectos onipotentes da nossa mente infantil e nos tornarmos adultos, encontrando formas de compor dentro de nós nossos aspectos femininos e masculinos, os quais nunca deixarão de existir: o que se passa é que o desenvolvimento promove o predomínio e a identificação com uma dessas vertentes.

Neste sentido as relações afetivas, especialmente com mãe, pai e familiares, modelos que são para nossa constituição, são de extrema importância. Os bebês humanos não nascem prontos: nossos corpos continuam se constituindo após o nascimento; o mesmo se dá com nossa mente e também com nossos cérebros: as experiências emocionais esculpem nosso Sistema Nervoso, como demonstra Iole Cunha em seus interessantes trabalhos.

Certamente há muita distância entre nosso sexo biológico e a sexualidade psíquica. A desarmonia mente/corpo leva a sofrimentos intensos. Muitas vezes para lidarmos com dor, mobilizamos mecanismos de defesa em que idealizamos situações nas quais estaríamos livres de sofrimento. O que se passa, entretanto, é que apenas iremos gerar outros tipos de angústia.

Para lidar com nossas crianças e jovens às voltas com desarmonias em sua relação mente/corpo, não basta nomeá-los transgêneros, conforme fez o programa Fantástico. Sabemos que rótulos muitas vezes trazem algum alívio. Mas e o que isso quer dizer? Aceitar e respeitar é importante, mas NÃO BASTA! É fundamental que possamos buscar o entendimento amplo sobre os profundos processos inconscientes que se dão em nossas mentes, muitas vezes desconsiderados pelos desenvolvimentos científicos.

Winnicott há muito já dizia que a humanidade paga um preço muito caro por desconsiderar as pesquisas psicanalíticas.

 

** Maria Thereza de Barros França é psiquiatra e psicanalista. Membro efetivo da SBPSP, especialista em psicanálise de crianças e adolescentes pela IPA, docente do Instituto de Psicanálise Durval Marcondes, coordenadora do CINAPSIA, integrante da Secretaria de Psicanálise de Crianças e Adolescentes da SBPSP.

FEELING BLUE – A TRISTEZA DE NOSSOS ADOLESCENTES

*Por Sylvia Pupo

A febre dos jogos e séries ligados à temática da morte parece ter dado voz ao apagamento gradual e silencioso do adolescente na nossa sociedade.

O jogo da Baleia Azul e a série 13 Reasons Why, exaustivamente abordados na mídia nas últimas semanas, geraram perplexidade e pânico a respeito de uma possível epidemia de futuros suicídios e uma controvérsia a respeito de ser ou não recomendada sua exibição ao seu público alvo. Havia o receio da indução a mais suicídios, já que a forma romantizada e detalhada com que o tema é abordado são fatores largamente desaconselhados pela Organização Mundial de Saúde. Tentativas prévias são consideradas um fator de risco importante na indução de mais suicídios.

Tanto o jogo quanto a série expõem a angústia e a desesperança dos adolescentes e os destinos possíveis, embora nem sempre desejáveis, para a sua dor. O suicídio é um deles. Retratam com crueza a violência da via-crucis percorrida pelos jovens – como as etapas do jogo – na sua transicionalidade e na busca de lugar no grupo social. Esta é uma violência que às vezes não notamos ou então subestimamos.

Já fomos adolescentes e sobrevivemos – alguns melhor do que outros, é bem verdade – às angústias e maldades, ao desprezo dos amores e à incompreensão dos pais, às incertezas e dúvidas. Até ocorreu a alguns tirar a própria vida em momentos de desespero, mas não o fizeram. O pensamento parece ter dado conta das angústias.

Dados alarmantes da OMS apontam o suicídio como a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. O que será que mudou?

Os motivos pelos quais pessoas tiram suas vidas são variados e individuais, mas supomos que a desesperança e a dor sejam denominadores comuns. Esses suicídios nos dizem que algo vai mal, que está difícil viver. Que não se tem mais esperança e se está muito só. São sintomas do social?

O que não estaríamos podendo escutar? O que as palavras não estão alcançando no uso do corpo nessa falta de nomeação? Nos perguntamos: onde é que falhamos?

Seja um ato impulsivo ou planejado, de vingança ou desespero, no suicídio há uma mensagem – ainda que enigmática – para quem fica. O que nos comunica essa onda de suicídios, sobre a relação dos jovens com a sociedade? Seria a cultura contemporânea que está destruindo os jovens ou seria o modo que interagimos com ela?

É fato que o psiquismo se apoia em traços da realidade, mas não será, necessariamente, uma reprodução dela. A cultura oferece veículos para a expressão da violência interna de cada um e o jogo é mais um deles.

Podemos ter mais de 13 razões e, mesmo assim, conseguirmos encontrar outras vias para processar nossa dor e dar a ela um destino. Aperta-se o botão delete para que o desconforto desapareça? Novas drogas nos deixam em êxtase permanente. Perdemos a capacidade de tolerar o mal-estar – necessário e estruturante do sujeito – inerente ao processo civilizatório, observado por Freud?

Ninguém pode mais esperar, tudo é para já. Há uma pressão contínua para que se “evolua” (o que será isso?) em uma escalada ascendente, mas não há tempo para aprofundar. Não se tem mais tempo a “perder”. Vemos um grande incômodo quando é necessário desacelerar,  “voltar duas casas no jogo da vida” que se torna, ela mesma, uma série de tarefas a serem cumpridas, em vez de uma experiência a ser vivida.

Não é o caso de procurarmos culpados, mas de pensarmos se estamos conseguindo ajudar os jovens a criarem recursos para lidar com as dificuldades da vida, mas, principalmente, com os próprios afetos.

Estaríamos reproduzindo certos valores e ideais que nos dificultam “re-conhecer” nossos filhos?  Seria bom se pudéssemos acreditar que ser feliz é muito mais do que atingirmos os padrões valorizados socialmente. Que é importante construirmos algo que exceda a nossa sobrevivência – algo para além dela, que nos dê prazer e possa ser um veículo para os nossos sonhos. Questionar o sentido de passarmos a mensagem a um adolescente que ele tem que trabalhar muito agora para ter mais trabalho no futuro e que isso é o que vai fazê-lo feliz.  Considerar que é bom buscarmos satisfação nas nossas escolhas e não apenas reconhecimento. Ensinar que podemos ter felicidade apesar de tantas faltas e limitações. Talvez isso soe mais possível.

O submetimento, também suicida, à tirania de ideais, mostra que essa necessidade de reconhecimento encobre, na verdade, uma carência de auto-reconhecimento.  As patologias contemporâneas têm aí suas raízes. Depressão, baixa auto-estima, as chamadas “patologias do vazio”, que se expressam na forma de distúrbios alimentares, compulsões, adicções, intervenções estéticas em excesso, refletem a insatisfação crônica do sujeito consigo mesmo. Ser feliz tornou-se um valor quase masoquista: ser o que não se é, ter o que não se tem… Não se tolera a falta, a incompletude, a imperfeição. Não se tolera mais o humano.

Esse assassinato das individualidades atinge, sobretudo, os adolescentes, que estão em pleno processo de consolidação pessoal. Qual é o preço de pertencer?

Como conseguir tolerar os vazios sem preenchê-los com drogas, comida, consumo, sexo? Essa parece ser uma das tarefas da atualidade – darmos conta das incertezas e dos vazios de maneira não destrutiva.

Infelizmente não podemos prever com certeza quais jovens vão aderir aos jogos mortais ou cometer suicídio. O que sabemos é que pessoas com uma auto- estima mais satisfatória e uma identidade estável e estruturada terão maior capacidade de julgamento, de tolerar a frustração, de acomodar conflitos e pensar. Esse vai ser um recurso importante  nos funcionamentos impulsivos, por exemplo, a capacidade de adiar a ação.

Nossa tarefa então, não será poupar os adolescentes das problemáticas e frustrações. Ao contrário, temos que ajudá-los a desenvolver recursos para que sustentem as idiossincrasias e possam pensar sobre elas.

Neste sentido, a Psicánalise tem muito a contribuir, já que a violência e a maldade vão continuar a existir em toda parte.

*Sylvia Pupo é psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

Morte e vida: tensões

Silvana Rea

 

Há quase cem anos terminava a Primeira Grande Guerra moderna. Mas alguns pensadores afirmam que ela ainda não acabou, já que permanecemos marcados por um espírito belicoso até os dias de hoje. De fato, podemos observar na história que  seguem-se à primeira, a Segunda Guerra, Coreia, Vietnam, Líbano, Bálcãs e terrorismo, entre outros eventos violentos.

As guerras são fruto das paixões destrutivas do homem. Em sua reflexão de 1932, “Porque a guerra?” – tecida em interlocução com Einstein – Freud afirma que são infrutíferas as tentativas de eliminar essas inclinações humanas, como o ódio contra qualquer pessoa além de suas fronteiras. O que se pode fazer é tentar investir em vínculos emocionais amorosos que utilizem a identificação, introduzindo assim as modificações psíquicas que acompanham o processo civilizatório, com o desvio e o deslocamento dos fins instintuais, para a sua limitação.

Mas qual seria o limite possível para as forças destruidoras? Novamente recorremos a Freud (1920) quando nos apresenta a noção de compulsão à repetição, ou seja, a presença da pulsão de morte no psiquismo humano?

Esses são alguns dos desafios que qualquer psicanalista enfrenta em sua compreensão dos fenômenos mundiais e em sua atividade clínica. Em nossos consultórios, também vivemos cotidianamente o embate entre os impulsos destrutivos e a pulsão de vida. Como podemos pensar a tensão entre estas duas forças a partir dos fenômenos psíquicos configurados na contemporaneidade?

Estas são algumas questões que gostaríamos de discutir no evento “Morte e Vida: Tensões”, no sábado, dia 10 de junho, às 9:30, na sede da SBPSP.

Este evento é preparatório para o XXVI Congresso Brasileiro de Psicanálise a ser realizado em Fortaleza, em Novembro de 2017.

 

La muerte es una vida vivida. La vida es una muerte que viene.

Jorge Luis Borges

 

“Morrer, que me importa? (…) O diabo é deixar de viver.”

Mario Quintana

 

 

Silvana Rea é psicanalista e Diretora Científica da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

Dia da Família: alternativa democrática?

*Por Eliana Riberti Nazareth

Algumas escolas já implantaram o Dia da Família (15 de maio) em substituição ao Dia das Mães e ao Dia dos Pais. Outras parecem estar em via de. Alguns justificam tal iniciativa dizendo que, desse modo, mais crianças podem ser incluídas nas comemorações, pois nem todas têm mãe, pai ou ambos, ou provêm de famílias ditas tradicionais. Ligado a isso, outros afirmam ser esta uma maneira mais “democrática”, implicando uma visão menos preconceituosa e menos intolerante, sobretudo em se tratando de crianças e adolescentes pertencentes a famílias que não se compõem por pai-mãe-filhos. Bons argumentos à primeira vista.

A fim de ampliar a reflexão, proponho examinar brevemente tais premissas envolvidas na criação do Dia da Família, isto é, a maior possibilidade de inclusão e o abrandamento do preconceito. Reflexão que, talvez, nos leve a pensar além de consequências mais superficiais para as famílias, tenham elas a estrutura que tiverem. Refiro-me aos pressupostos de tais iniciativas e suas possíveis ressonâncias no imaginário de crianças, adolescentes e suas famílias.

No caso do argumento de que a extinção da comemoração em separado do Dia das Mães e dos Pais (e criação de um único dia, o da Família) permitiria uma maior inclusão, penso que, na sua origem, estaria a tentativa de minorar o sofrimento daquelas crianças que não têm um ou ambos os pais, ou porque nunca os tiveram como figuras presentes emocionalmente em suas vidas, ou porque os perderam por abandono, separação conjugal conflituosa ou morte. Objetivo louvável num primeiro momento. Mas será mesmo que a diminuição do sofrimento da perda se dá dessa maneira?  Será que eliminar essas comemorações levará ao desfazimento dos conflitos, dos traumas, das dores das perdas?

Parece que por trás dessa substituição de comemorações está embutida a crença de que “longe dos olhos, longe do coração”, algo com o qual nós, psicanalistas, lidamos todos os dias. Construção difícil de desmontar, pois diz respeito à ilusão de que, quanto menos contato se tem com a realidade dolorosa, menor o sofrimento. E a cultura, sobretudo a atual, não tem favorecido muito o enfrentamento da realidade. Ao contrário, cada vez mais proliferam os meios de seu tangenciamento e negação, com a criação de simulacros.

A justificativa de que a criação do Dia da Família, em substituição ao Dia das Mães e Dia dos Pais, seria uma alternativa mais democrática e menos preconceituosa implica a intenção de que, desse modo, possa haver uma maior receptividade das diferenças, sobretudo em se tratando de crianças filhas de casais do mesmo sexo.

Aqui também caberiam algumas ponderações. Qual seria a maneira mais adequada de se lidar com o preconceito e a intolerância? Seria extinguindo ou anulando as diferenças? Ou seria mantê-las e ajudar crianças, adolescentes e suas famílias a compreendê-las e elaborá-las descobrindo novas possibilidades do ser, tão complexo, humano?

Ao não se comemorar mais Dia das Mães e Dia dos Pais, pode-se ter a impressão de que as faltas e as diferenças não serão registradas com sua devida importância e singularidade. Tentar tratar o diferente como se não o fosse, tentar tratar as especificidades das mais diversas configurações familiares como não se não fossem peculiares e distintas pode, ao contrário do pretendido, fortalecer preconceitos que ficam invisíveis e aparentemente inertes, mas que podem tomar voz nos nada triviais comportamentos de bulliyng. As diferenças não desaparecem pela simples troca de comemorações.

Levar em consideração as singularidades é o que pode favorecer a compreensão e aceitação da pluralidade das famílias.

Como nos ensina Bion “o desenvolvimento mental saudável parece depender da verdade como o ser vivo depende da comida”.

Que se comemore o Dia da Família, o Dia das Mães e o Dia dos Pais!

*Eliana Riberti Nazareth é membro efetivo da SBPSP, mestre em Psicologia Clínica pela PUCSP, coordenadora do Grupo de Estudos das Relações CorpoMente e docente do Instituto de Psicanálise da SBPSP. Eliana possui especialização em psicoterapia de família e de casal pelo ILEF – México.

 

Ser mãe é uma realização para a mulher, mas não é a única

Será que a maternidade significa o auge da realização na vida de uma mulher? Em entrevista à Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, a psicanalista Leda Maria Codeco Barone fala desse momento bastante particular no universo feminino, do empoderamento e luta que os métodos de controle da gravidez e a liberação sexual trouxeram às mulheres, além da legítima decisão de não ter filhos.

 

Ser mãe ainda é, do ponto de vista da sociedade, a maior realização na vida de uma mulher?

Creio que essa ideia vem mudando ao longo do tempo. O advento da pílula anticoncepcional na década de 60 do século passado incrementou o movimento feminista no sentido de levar a mulher a se apropriar melhor de seu corpo e de sua sexualidade, bem como a encontrar lugar social diferente daquele vivido por suas mães e avós. Hoje, a mulher reivindica de forma mais contundente lugar nos bancos universitários e acesso a carreiras profissionais antes destinados apenas aos homens. Se antes a vida sexual das mulheres se atrelava de forma mais estreita à maternidade, pela dificuldade de controlar ou postergar a gravidez, na atualidade, a mulher pode mais facilmente escolher se quer ser mãe e quando.

Outro fator decisivo no assunto está relacionado às novas formas de procriação assistida: inseminação artificial, congelamento de óvulos e esperma, fertilização in vitro, banco de embriões, etc. Essas formas atestam que a mulher coloca outras maneiras de realização pessoal antes da maternidade, inclusive a de não ter filhos.

Embora esse movimento de liberação da mulher seja um fato, ele é diverso nas diferentes camadas sociais e religiosas e, como movimento, ainda enfrenta resistência e luta.

Os motivos exposto acima – liberação da sexualidade da mulher, maior preparo e conquista de novos espaços no mundo do trabalho,  aliados aos novos modos de concepção – mostram que a maternidade é uma importante realização da mulher, mas não a única.

 

As pessoas costumam exaltar o lado bom da maternidade, mas alguns aspectos como o momento de tensão no relacionamento do casal, a dificuldade de conciliar vida profissional e pessoal e o extremo cansaço são subestimados na fase de espera e a mulher só se depara com a intensidade dessas emoções quando já está com o bebê. Como as mulheres têm lidado com isso? E os homens? Que papel eles têm desempenhado para ajudar as mulheres com a maternidade?

Apesar de a decisão de ser mãe ou não, ser uma prerrogativa da mulher, uma vez que na atualidade há a possibilidade de maternidade sem paternidade, ou seja, do recurso à inseminação artificial valendo-se de bancos de esperma, o projeto de ter um filho inclui, mesmo que imaginariamente, a participação do pai.

Acho importante aqui lembrar a contribuição de Winnicott que, embora seja considerado pioneiro na discussão da importância da maternidade para o desenvolvimento emocional primitivo do bebê, reconhece um papel fundamental exercido pelo pai. Para o autor, o pai é necessário em casa para ajudar a mãe a “sentir-se bem em seu corpo e feliz em sua mente” além de fornecer à mãe um suporte moral que a ajuda em sua função com os filhos. Nesse sentido, a acolhida e apoio do pai é essencial à mãe no cumprimento da maternidade. Mulheres que não contam com esse apoio sentem-se desprotegida além de exauridas em meio às exigências e sobrecarga desse momento.

 

Há uma contradição também no discurso moderno em relação aos papeis da mulher e à maternidade. Por um lado, a sociedade pede uma mulher forte e batalhadora, capaz de prover a prole ou contribuir com o parceiro nessa tarefa, mas também valoriza a mulher que acompanha de perto o crescimento dos filhos. Isso traz alguma consequência para a mulher nessa fase?

Realmente a jornada da mulher que assume ao mesmo tempo a maternidade e a carreira profissional é dura, cansativa e de extrema exigência. A mulher fica dividida entre a maternidade e a vida profissional, assumindo tripla jornada de trabalho: cuidar da carreira, dos filhos e da casa. Tal exigência requer um equilíbrio muitas vezes impossível de se alcançar e pode ter como consequência a negligência de uma ou de outra dessas atribuições. O abandono das aspirações profissionais poderá ser fonte de muitas frustrações no futuro assim como a negligência dos cuidados maternos enchem a mulher de culpa e pode trazer consequências na educação e cuidado com os filhos.

O trabalho para a mulher na atualidade não é somente uma questão de realização pessoal, mas uma necessidade para o sustento da família, visto que em muitas delas, a mulher assume o lugar de mantenedora única ou contribui de forma decisiva em sua organização econômica.

No entanto, ainda que de forma tímida, assistimos a uma transformação na divisão do trabalho doméstico e do cuidado dos filhos. No tempo de nossos pais e avós era inconcebível o pai dar banho, trocar fraldar ou alimentar seus filhos. Tais tarefas eram exclusivas das mães, muitas vezes ajudadas por outras mulheres da família, avós, tias ou mesmo babás. As novas configurações familiares e o incremento da participação da mulher no mercado de trabalho têm levado casais mais jovens a dividirem melhor o cuidado dos filhos, o que, sem dúvida, é saudável para todos.

 

E a decisão de não ser mãe? É cada vez mais comum, mas parece também um ato de coragem. Que desafios a mulher que toma essa decisão deve enfrentar?

Creio ser legítima a decisão de não ser mãe, da mesma forma que legítima é a de ser. A mulher de hoje, pela facilidade no controle da gravidez e por sustentar outros ideais diferentes da maternidade, pode tranquilamente optar por não gerar um filho. Lembremos que Freud, discorrendo sobre a sexualidade infantil coloca no centro da resolução edípica, a castração.  Assim, enquanto o medo da castração serve ao menino como motivo para desistência de seus intentos incestuosos em direção à mãe, para a menina a castração a introduz na vivência edípica. Por se sentir em falta, pela ausência do pênis, a menina vai em busca do pai, do pênis do pai, de um filho do pai e, finalmente de um filho que possa completá-la. Nesse deslizamento entre o desejo do pênis para um filho, outros deslizamentos são possíveis como o trabalho, a ciência ou a arte.

 

Leda Maria Codeco Barone é psicanalista e doutora em psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP.