O desejo segundo Jacques Lacan

* Marilsa Taffarel

Lacan, em seu seminário proferido em 1964, declara: “Não há meio de me seguir sem passar por meus significantes…” (pg. 206). Para compreender o que é o desejo, precisaremos considerar alguns “significantes” de eleição para o autor: demanda, gozo, Outro, alienação, separação, fantasia fundamental, objeto a… Nem sempre questionamos o emprego da palavra desejo que a psicanálise, Freud e, posteriormente, Lacan, tratou de definir, circunscrever e relacionar com outras formulações conceituais. Ambos consideram o desejo um elemento central, nodal do ser humano.

Tomamos como sinônimo de desejo um querer muito forte – a insistência da criança, pequena ainda, que foi proibida de terminar o desenho de um ursinho na parede da sala e que, pé ante pé, à noite, vai completá-lo. Como poderia deixar o ursinho sem suas orelhinhas?  Ela desejava muito tal coisa. Sem dúvida, um desejo está ali presente porque houve a interdição. Um desejo pode ser suscitado pela proibição.

Em Freud, o desejo, que é inconsciente, é designado pelo vocábulo alemão Wunsch, cuja tradução é anelo, aspiração. O desejo não se mostra claramente e, como sabemos, tudo que é cifrado, ambíguo ou obscuro exige interpretação. E é essa a condição de sua manifestação no sonho, concebido por Freud como realização de desejos, nos lapsos, nos sintomas, na fantasia de cada um.

Para Freud, o desejo é um movimento em direção à marca psíquica deixada pela vivência de satisfação primeira que acalmou uma necessidade, como a fome, no bebê. Através dessa inscrição mnêmica poderá então a criança reeditar a satisfação de forma alucinatória, nessa pouco duradoura autonomia que a alucinação fornece. Seria essa a realização do desejo. Contudo, a tensão da necessidade que persiste conduz à ação de esperneio ou choro. A necessidade se impõe e a criança precisa de um adulto capaz da ação específica de dar leite, de cuidar.

Lacan escolhe outro vocábulo alemão para designar o desejo: Begierde, que, segundo o dicionário alemão-português, significa cobiça, anseio, desejo veemente.  Como costuma ser apontado, essa escolha marca suas influências (Hegel) para além de Freud e marca sua contribuição quanto a esse crucial conceito para o pensamento psicanalítico e para a prática analítica. Não iremos tratar disso nesse momento.

O desejo e a linguagem

Lacan – tendo o propósito de, finalmente, dar fundamentos sólidos, cientificamente, para a psicanalise, propósito de toda sua vida – apoia-se na linguística de F. Saussure.  A linguagem passa a ser fundamental em sua reconstrução do inconsciente, do recalcamento, do desejo.

Lacan irá articular o desejo com a linguagem. O adulto que cuida, que exerce a função materna, fala. Sua importância se destaca sobretudo por ser o transmissor do grande mediador simbólico que é a linguagem, a qual possibilita ao bebê o acesso a nosso mundo simbólico. A criança irá registrar suas primeiras experiências através dos elementos linguísticos – significantes – emitidos pela mãe. Lacan chama atenção para o fato de que, de forma inevitável, a criança irá se alienar nesses significantes. É essa a única maneira de entrar na linguagem.

Lacan irá marcar, desdobrar, esquadrinhar a função do adulto indispensável para a passagem ao mundo intersubjetivo da linguagem. Mundo da incompletude, da falta, do desejo e de sua alienação.

A mãe tanto interpreta os movimentos e expressões da criança quando lhe oferece alimento e irá entender como mensagens as manifestações da satisfação da necessidade. É o desejo da mãe que assim se manifesta. Ela, ao falar com o bebê, irá inserir uma satisfação de espécie diferente da satisfação da necessidade corporal, uma satisfação que prolonga a corporal. Esse acréscimo de satisfação que a criança não demandou, ela a recebeu sem pedir, sem usar a linguagem. Lacan chama essa satisfação de gozo, um gozo primordial.

Contudo, é através da interpretação, da atribuição de sentido às manifestações de apaziguamento corporal da criança que essa vai deixando o âmbito da necessidade e entrando para o mundo da linguagem, o mundo simbólico. O espernear e chorar quando a tensão se reestabelece, que não tinham inicialmente um alvo, passam a se dirigir ao Outro.

A criança demanda ao Outro não só a satisfação da necessidade, ela demanda o plus que recebeu da mãe satisfeita com a satisfação da criança. Aquele primeiro plus que recebeu sem demandar não irá se repetir após a criança aprender a se manifestar, a fazer apelos à mãe através de quaisquer elementos da linguagem.

O desejo deve ser discernido da necessidade e também da demanda. Ele está, para o autor, entre elas e tem uma relação intrínseca com a incompletude, com a falta. Com um apelo, um pedido que esconde e indica uma demanda, faz-se a tentativa de alcançar um preenchimento que, nessa concepção, está sempre além.

Referindo-se ao sonho da filha de Freud, Anna, sonhado quando essa era ainda bem pequena, Lacan diz que nele se manifesta o desejo do impossível. Anna teria comido muito de suas frutas e doces preferidos no dia anterior. Passou mal, vomitou.  Então, só poderia ingerir alimentos leves. À noite tem um sonho, exemplo para Freud de sonho infantil, simples. Diz ela no sonho algo como: framboesas, morangos bem grandes, flan: delicias que adora. Para Lacan, que não considera o sonho simples, esses objetos mencionados já são objetos transcendentes, já entraram na ordem simbólica. São cerejas e flans, mas são, sobretudo, aquilo que não posso ter.

Uma outra interpretação desse sonho, feita por Slavoj Zizek, em seu livro Como ler Lacan, é a de que o desejo da pequena Ana era de satisfazer o desejo de seus pais de ter nela uma menina que se deliciasse com essas guloseimas que eles lhe ofereciam. Dessa maneira, Zizek introduz a questão essencial para Lacan concernente ao desejo: qual é o desejo dos que me cercam para que eu possa ser o objeto desse desejo? Ou para que possa ser o desejo desse desejo?

Lacan expressa esse anseio de se posicionar como objeto do desejo do Outro (na grafia de Lacan a letra maiúscula indica a decalagem de posição, de pertinência ao mundo social de quem desempenha a função materna em relação à criança) em seu seminário sobre os quatro

conceitos fundamentais da psicanalise, dizendo: “O desejo do homem é o desejo do Outro”. (pg.223)

Nessa primeira relação com quem desempenha a função materna, outro elemento é de fundamental importância: o Outro precisa ser desejante, a criança precisa experimentar o Outro como desejante, não completo ou como diz Lacan o Outro precisa estar barrado. O que verdadeiramente a mãe deseja permanecerá enigmático para a criança no processo de instauração de sua posição como sujeito.

O desejo é um fluir metonímico. O que quer dizer isso? Ele estará – dentro dessa concepção – sempre se deslocando em direção ao que aparenta ser o objeto perdido se não estiver, como soe acontecer, aprisionado numa vã tentativa de obturar a falta constitutiva. Essa é uma das maneiras de entendermos porque Lacan diz que a ordem simbólica é intrinsicamente decepcionante.

O objeto do desejo, designado como objeto a, é um objeto perdido. O que o caracteriza e distingue de outras concepções de objeto na psicanalise é exatamente não ter qualquer objetividade, existir independentemente das percepções do sujeito.

O que suscita meu desejo em um objeto do mundo ou uma pessoa? Algo indecifrável. Um brilho, uma textura, um som, um significante. Esses são, para Lacan, faces simbólicas ou imaginarias do objeto a. Aparências. Como diz Lacan de forma brilhante, “(…) o que o sujeito reencontra não é o que anima seu movimento de tornar a achar.” (pg.207).  Além de ser o alvo do desejo, o objeto a é concebido como um concentrado de gozo que causa o desejo.

O desejo e a função do pai        

Em um primeiro tempo de sua existência, a criança tenta se colocar como o objeto do desejo da mãe, como aquele que preenche a mãe, isto é, como o falo. Contudo, o que a mãe, de fato, deseja permanece enigmático para a criança.

A ultrapassagem dessa relação primeira é condição para que a criança deixe de ser objeto do desejo da mãe e passe a ser sujeito do desejo.  É pela intervenção da função do pai através da linguagem que a sinaliza que esse corte se dá. O registro da proibição da relação incestuosa com a mãe, registro da lei que a proíbe, é considerado um evento psíquico estruturante e fundamental para a criança. Em terminologia lacaniana expressa-se como simbolização primordial da Lei (de interdição do incesto). Essa interdição recalca, torna inacessível o significante fálico, cujo sentido enigmático guiará e determinará sua busca infinda.

Na analise, o desejo é o que gera a demanda que se expressa em apelos ao analista, é o que sustenta a transferência. O analisando busca a análise por acreditar que ela o levará ao desejo inconsciente. Tal coisa é, muitas vezes, expressa pela frase que ouvimos direta ou indiretamente de nossos analisandos “quero me encontrar”.

Para Lacan, o princípio que rege uma análise é a liberação do desejo em relação à sua alienação. Talvez esse propósito de uma análise, essa espécie de consigna, tenha transbordado mais rapidamente do que outras para universos psicanalíticos vários e para além do campo psicanalítico. Bem recebida por aqueles que esperavam da psicanalise uma teoria do sujeito como contendo um elemento intrínseco de caráter libertário.  Mal compreendida por muitos que viam nessa espécie de consigna uma licença para o descompromisso com o contrato civilizatório. Portanto, libertar o desejo alienado em formas imaginárias, nas repetições da demanda e contido na fantasia fundamental é o fito de uma análise.

A interrogação que resta é: podemos libertar o desejo também da função paterna, do Édipo? Pergunta que interessa cada vez mais a uma sociedade que põe em questão o patriarcado, que põe em evidência novas formas de investimentos libidinais – investimentos ditos rizomáticos ou horizontais e não verticais e hierarquizantes -, e, como consequência, uma sociedade que se amedronta com tais transformações.

O Édipo, ou seja, a função paterna na produção de um sujeito desejante, para Lacan, é a condição da forma normal do desejo. Contudo, Jacques-Alan-Miller, em uma entrevista para a Opção Lacaniana (ano 4, n.12) fala do desejo ligado à interdição do pai como um desejo “normalizado”. A ênfase na função do pai seria um legado de Freud em relação ao qual Lacan operaria um distanciamento. Não poderia deixar de levar em conta, justamente, o declínio da sociedade patriarcal com seus padrões de investimentos libidinais.

Marilsa Taffarel é membro efetivo e professora da SBPSP, mestre em filosofia da psicanálise pela PUC-SP, doutora pelo núcleo de psicanálise da PUC-SP e coautora do livro “Isaias Melsohn, a psicanálise e a vida”.

A PRESENÇA DA PSICANÁLISE NA TRAGÉDIA DE BRUMADINHO

* Alicia Beatriz Dorado de Lisondo

Denunciar o crime cometido pela irresponsabilidade da empresa Vale com a cumplicidade dos órgãos governamentais, ironicamente encarregados de zelar pela segurança da população e do meio ambiente, também passa a ser nossa responsabilidade enquanto analistas. Também passa a ser importante ação social dos psicanalistas, o cuidado para com a vida psíquica dos sobreviventes de Brumadinho, um dever cívico de todo brasileiro, de todo cidadão deste mundo.

Desse modo, o pensamento psicanalítico pode, fora dos muros do consultório, ajudar a lidar com bebês, crianças e adolescentes (B.A.C.) em profundo sofrimento.

A presença da psicanálise com voz, espaço e um melhor esclarecimento à comunidade sobre sua essência e epistemologia para marcar às diferenças com a psicologia e a psiquiatria, poderão ser um caminho e modelo de atendimento da população atingida.

Segue o formato e as principais considerações  tratamento de Bebês, Crianças e Adolescentes em situações de trauma e tragédia:

-> Pensar em cada B.A.C. como um sujeito e/ou uma pessoa na sua singularidade. O cuidado com a vida emocional com eles é fundamental. O corpo não está separado da alma assim como a consciência não está desligada do inconsciente.

-> A aproximação à verdade dosada, passo a passo, revelada com amor e na medida que o outro a possa assimilar, alimenta a alma humana.

-> As mentiras, os segredos, o não dito, intoxicam a mente. Os B.A.C. sabem mais do que nós, adultos, podemos imaginar. Eles têm radares e antenas parabólicas para captarem as emoções presentes no ambiente. Quando a criança indaga: “Por que você está chorando?” e escuta: “Por nada!!!”, sua percepção é desqualificada. A oportunidade para uma alfabetização emocional foi perdida: “Estou muito triste!!”, “Estou com raiva!!”.

-> Sabemos os efeitos devastadores que um trauma pode provocar na personalidade em formação de B.A.C. dificultando ou paralisando o desenvolvimento emocional. As barreiras protetoras do psiquismo não podem conter a dor, a angústia, o desespero e o ódio. As feridas na alma podem piorar e os buracos no tecido mental podem se ampliar. Por isto importa criar as possibilidades, para o inicio do processo de cicatrização para cerzir com delicadeza o tecido esgarçado. É necessário dar palavras plenas de sentido, expressivas da emoção, ao sofrimento, ao pesadelo, ao tremor do corpo ante a comoção!! “Estou com saudade de X!!”, “Dói, dói demais meu coração. Dói de saudades!!”…

-> Não confundir o ódio, indignação, revolta; com a destrutividade. Seria prudente discriminar e compreender as diferentes manifestações emocionais dos B.A.C.

-> A expressão do ódio é tão necessária quanto a do amor, por isso é importante não a sufocar e permitir que cada criança escolha seu repertório para expressar sua fúria, respeitando os limites colocados pelo adulto de forma clara e consciente.

-> É preciso viabilizar as possibilidades de sua manifestação, acompanhando as vítimas:

  • A armar e permitir que derrubem casas, torres, construções de plástico, massinha, cartões, palitos de sorvete etc;
  • A enterrar embaixo de lama, areia, terra, galhos, fotos plastificadas dos seres perdidos, animais de plástico, bonecos humanos, carros, bicicletas, brinquedos etc;
  • A cortar, picar, rabiscar, pintar, recortes representativos da tragédia;
  • Estimular a escrita de manifestos, músicas, cartas abertas, livros, solicitações.

-> Os bebês, capazes de brincar às escondidas com seis meses de idade, podem vir a compreender que mamãe não está e não voltará, que papai foi embora de carro e não voltará, mas que agora X cuidará dele. O ato de brincar, tantas vezes quanto necessário sobre os “desaparecimentos” ajudará a dar forma e nome ao terror outrora sem nome.

-> Incentivar os familiares, voluntários, educadores, agentes de saúde a oferecer uma atenção qualificada e espontânea aos B.A.C., com disponibilidade para criar vínculos tão estáveis e constantes quanto seja possível. Elas podem tentar compreender, brincar, escutar, conversar, compartilhar a dor com as lembranças dos seres que já não estão corporalmente presentes com os B.A.C., buscar  as fotos, vídeos, gravações dos seres mortos, desenhar, pintar, cantar, contar histórias, dramatizar, montar peças de teatro,  incentivar aos adolescentes nas varias formas de escrita sobre temas relacionados com este crime.

-> A tragédia, no dia 25/01/2019, em Brumadinho, faz parte da vida desses B.A.C. Familiares, pessoas conhecidas, casas, animais de estimação, brinquedos, computadores, celulares, foram abruptamente destruídos, sepultados pela onda de lama. É importante que esse momento entre num processo de historização. As fotos, os recortes de jornal, as notícias, os depoimentos, as entrevistas, a história desta cidade, a legislação existente, podem constar num álbum. Este será um suporte, para dar figurabilidade, forma, palavra, ao horror quase impensável e indizível.

-> Os B.A.C. expressam as dores da alma de várias formas, às vezes, numa linguagem pré-verbal. Dessa forma, os bebês podem apresentar sinais de risco psíquico como: não olhar nos olhos do outro ser humano, não balbuciar, não brincar, inapetência, evitar morder e mastigar alimentos sólidos a partir dos seis meses de idade, ritmo do sono alterado, terrores noturnos, preferência por segurar objetos duros e inanimados, evitação do contato humano, deixar de rir, quietude, passividade, entre outros. Fazem parte desse vocabulário pré-verbal, as doenças psicossomáticas, a incontinência urinária e/ou fecal, problemas escolares, tentativas de suicídio, anorexia, bulimia, vícios em drogas, tédio, condutas antissociais e delinquenciais. Estes berros silenciosos, eloquentes pedidos de socorro, exigem uma escuta e observação, aguda dos adultos.

-> Uma avaliação psicanalítica levantará hipóteses diagnósticas e orientará sobre os caminhos a seguir, para evitar a calcificação dos transtornos e sintomas.

-> A psicanálise tem um poder preventivo! Futuras gerações podem receber as consequências desta tragédia se ela não for elaborada.

-> Quando for necessária uma adoção, ante a orfandade dos B.A.C., será necessária uma intervenção rápida do Poder Judiciário para evitar o trauma da institucionalização destas criaturas em risco psíquico. Legalizar o processo de adoção é importante para que os pais adotantes legitimem este novo lugar com firmeza amorosa e autoridade para exercer as funções parentais.

-> Enterrar simbolicamente os “desaparecidos” – os mortos sem cadáver – com todos os rituais e cerimonias, respeitando a religião, os costumes, a tradição de cada família, permite entrar em contato com a dolorosa realidade da morte e ajuda a elaborar o luto. Sábio legado de Antígona! Quando se perpetua a crença sobre o desaparecimento, a temida realidade da morte do ser querido é negada, como no quadro de Monet. A fantasia de reencontrar o sobrevivente estará presente. Não será possível iniciar o árduo trabalho do luto. A culpa inconsciente é potencializada ante a fantasia de matar – deixar de buscar – um ser que poderia estar vivo.

-> Uma caixa com a foto do ser morto, velado e enterrado, num espaço a criar sobre os escombros, numa praça, museu, pode ser uma oportunidade para realizar a terrível despedida.

-> Um memorial pode vir a ser construído com as com as fotos e os nomes dos mortos, as obras das crianças e adolescentes, com toda a documentação sobre esta hecatombe. Este espaço pode exercer a função de rêverie para esta sofrida comunidade e para todos nós!

Enfim, este espaço pode exercer a função de rêverie para essa sofrida comunidade e para todos nós!

Onde os interessados podem procurar ajuda:

FEDERAÇÃO BRASILEIRA DE PSICANÁLISE (FEBRAPSI)

Congregando as sociedades psicanalíticas brasileiras filiadas à Associação Psicanalítica Internacional (IPA), organiza e fortalece suas atividades de divulgação, difusão e ensino da psicanálise em nosso território, assim como a participação na Federação Psicanalítica da América Latina (FEPAL).

Contato: (21) 2235-5922; contato@febrapsi.org

SOCIEDADE BRASILEIRA DE PSICANÁLISE DE MINAS GERAIS (SBPMG)

A Sociedade Brasileira de Psicanálise de Minas Gerais é filiada à Federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI) e à Federação Psicanalítica da América Latina (FEPAL), além de componente da International Psychoanalytical Association (IPA), sendo a única instituição em Minas Gerais a oferecer formação psicanalítica nos padrões exigidos pela IPA.

Contato: (31) 3224-5405

GRUPO DE ADOÇÃO E PARENTALIDADE DA SBPSP

Este Grupo Coordenado por Gina Levinzon e Alicia Lisondo se reúne o segundo sábado de cada mês das 11h30 às 13h na SBPSP, Av. Cardoso de Melo, 9° andar – Vila Olímpia/SP. Profissionais podem apresentar experiências, situações relacionadas com os temas do grupo, avaliações e/ou sessões de psicoterapia psicanalítica. É preciso conectar-se previamente com as coordenadoras e enviar por escrito a apresentação para a discussão grupal.

ALICIA BEATRIZ DORADO DE LISONDO

Oferece 1h30 mensal para conversas sobre às inquietações, questões, discussão dos B.A.C. com um grupo entre 6 e 8 integrantes – professores, voluntários, agentes de saúde, familiares, profissionais do Poder Judicial – por SKYPE, na última sexta feira do mês das 10h30 às 12h. Contato: alicia.beatriz.lisondo@gmail.com

Alicia Beatriz Dorado de Lisondo é analista didata e docente do GEP Campinas e da SBPSP, filiada à International Psychoanalytic Association, co-fundadora do Grupo de Estudos Psicanalíticos de Campinas, membro de ALOBB, integrante da Comisión de Niños y Adolescentes de FEPAL, co-coordenadora do Grupo de Adoção e Parentalidade da SBPSP e analista de Crianças, Adolescentes e Adultos.

Acompanhe também o vídeo publicado no canal da SBPSP no YouTube:

 

Imagens:

  1. “Le Balcon”, Edouard Manet (1868-69) e “Perspective II, La balcon de Manet”, René Magritte (1950)
  2. “As Cruzes”, Cândido Portinari

Quebrando a costela de Adão

* Miriam Chnaiderman

 1. Linn da quebrada, a bixa travesty

Eu quebrei a costela de Adão     

Muito prazer, sou a nova Eva

Filha das trevas, obra das trevas

Não comi do fruto do que é bom e do que é mal

Mas dechavei suas folhas e fumei sua erva.”

Essa é a letra de uma canção, entre muitas outras, que a maravilhosa e provocativa Linn da Quebrada nos apresenta no portentoso documentário BixaTravesty, dirigido por Cláudia Priscila e Kiko Goifman. Aliás, é preciso acentuar, o roteiro é assinado pelos dois diretores e por Linn da Quebrada. É sempre o olhar de Linn que está presente e as escolhas são dos três.

Não é docemente que a mulher nasce de Adão. É irrompendo, esfacelando, quebrando. Já um tremendo esforço de visibilidade e de existência. A mulher é obra das trevas. Do demônio?

O devir-mulher se explicita em sua violência desde o início do filme, quando em um programa de rádio que apresenta junto com Jup do Bairro, sua querida Bebete, Linn afirma:

“Nós vamos aprender as suas técnicas e nós vamos melhorá-las, nós vamos aprimorá-las e vamos usar entre nós. Vamos aprender a lutar, vamos pegar em armas, vamos pegar nos nossos corpos como armas e aí o jogo vai virar pra vocês. Eu não queria estar na pele de vocês”.É um discurso raivoso de mulher que luta por seus direitos. É um discurso feminista acentuado.

No programa, Linn se apresenta como Linn do Bairro e apresenta Jup como Jup da Quebrada. “Qual é bixa? Qual é veada?” Afirma Linn:“Porque antes eu era um traveco, agora sou mulher, sim…”.

Ou então: “Eu, quando alguém me aponta o dedo e fica gritando que sou veado, alguém faz alguma piada, eu penso: gente, será que eu tava tentando disfarçar? Será que eles acham que precisam me lembrar disso?(..) Eles acham que nós deveríamos curvar nossas cabeças e então atender essas expectativas. Então, se você quer ser mulher, tenha peito. Se você quer ser mulher, seja magra. Então, se você quer ser mulher, então você tem no mínimo que atender às expectativas do que é ser mulher…Não necessariamente… Pode até ser se você quiser, se eu quiser…Às vezes, eu fico com um pouco de vontade… Vou confessar que, às vezes, eu quero mas aí eu nunca tenho certeza do quanto eu quero, se eu quero ter peito, se eu ter dois… se eu quero tirar o pelos…”.

Em outro momento, Linn brinca: “Eu não tenho lugar de fala porque eu tenho passabilidade trans mas na verdade eu sou uma mulher cis”. Depois, rindo, pede que essa sua brincadeira não vá ao ar…  É marota com o binarismo de gênero… Pode ser qualquer coisa…

Em quase uma defesa da indiscriminação ou do desmanchamento de qualquer lógica aristotélica, Linn é bixa travesty. A lógica identitária não é a de Linn! Em entrevista à revista Cult (Trói ,2017), Linn conta que leu e lê Foucault, Preciado, Butler. Define o queer, conceito de Judith Butler para definir o corpo bizarro, o corpo abjeto, como inominável, como aquilo que não pode ser fixo. Citando Linn na entrevista: “O queer é a dúvida, a incerteza, é uma atitude em relação ao próprio corpo, não identidade”.

Essas reflexões, despertadas pelo documentário, remetem ao meu texto, “É possível ser gender fucker?”(Chnaiderman, 2018), escrito em 2017 e publicado em 2018. Essa interrogação que dá nome ao texto é a fala de Dudu Bertholini ao final do documentário “De gravata e unha vermelha (2014)”, que dirigi.  Reproduzo aqui o início desse meu ensaio:

“Ao final do filme que dirigi “De gravata e unha vermelha” (CHNAIDERMAN, 2014), Dudu Bertholini, um dos personagens do documentário,  em lindas vestes e brincos vistosos,  declara: “Eu sou o que as pessoas classicamente chamam de um gender fucker… então, eu sou a pessoa que não quer o estereótipo do masculino, não quer o estereótipo do feminino… eu quero  muito mais é descobrir uma maneira única e minha de ser”.

A radicalidade dessa frase chama a atenção. Ser um gender fucker explode qualquer lógica identitária e questiona o binarismo de gênero. Ser um gender fucker é não estar nem aí para o gênero, não se adequar ao que o nosso mundo oferece como possibilidades para viver o desejo.

Esse final do documentário ocorre depois de oitenta e quatro minutos onde vamos assistindo aos mais diversos modos de viver a sexualidade – sem qualquer estereótipo, vão emergindo desejos homos, desejos trans, brincadeiras as mais esdrúxulas: trans-mulheres que menstruam, trans-homens que engravidam, Rogérias que continuam Astolfos, Neys que adoram ser homens mas não suportam se restringir a qualquer espaço que limite o desejo, gays que adoram ter pelos e adoram casamentos pomposos com vestidos de princesa…”(p. 10) ( aqui termina a citação do artigo meu que cito… será que não seria bom deixar isso mais claro? Fazendo uma margem mais acentuada a esquerda ou letra menos, não sei…)

Quando fui convidada para participar do Colóquio Internacional Psicanálise, Gêneros e Feminismos, esse texto foi a minha fala na mesa “Transgressões” (24 de outubro de 2018).  Ao final, depois de uma elaboração teórica que passava por Lacan,Pommier e NathalieZaltzmann,  eu concluía que “Somos todos gender fuckers”, pois todo corpo seria bizarro, na medida em que “ninguém vive bem com seu corpo”(NathalieZaltzman) e que o objeto do desejo é sempre fantasioso.

Em conversa com Patrícia Porchat, uma das organizadoras do evento juntamente com Nelson Silva, fui bastante criticada. O argumento era o quanto, nesse momento em que vivemos, é importante manter a questão do gênero como batalha política. Patrícia se referia à necessidade de um movimento feminista que denunciasse a violência e os cânones da submissão que vigoram no mundo contemporâneo.  Como se o conceito de gender fucker abalasse a luta feminista, ou a bandeira da defesa de gênero.

Em conversa pessoal, Patrícia me explicou que sua questão seria com a generalização do conceito de gender fucker. Transcrevo sua mensagem para mim: “A luta feminista, a violência de gênero, a opressão e a subordinação das mulheres fala de pessoas e de um lugar que não explode identidade e que, infelizmente, funciona na lógica do idêntico e do diferente do um”. O conceito de gender fucker inviabilizaria essa questão. Penso que não. Pois o gender fucker toma vários rostos e caminhos. É isso que Linn nos mostra.

Dudu Bertholini, autor da frase no filme, trabalhou com Fernanda Lima no programa da Globo “Amor e Sexo”, onde deram voz a vários trans e onde Fernanda como mulher e, por ser mulher sexuada, foi considerada louca. Viralizou nas redes sociais a fala de Fernanda Lima:

“Chamam de louca a mulher que desafia as regras e não se conforma. Chamam de louca a mulher cheia de erotismo, vida e tesão. Chamam de louca a mulher que resiste. Chamam de louca a mulher que diz sim e que diz não. Não importa o que façamos, nos chamam de loucas. Se levamos a fama, vamos sim deitar na cama, vamos sabotar as engrenagens deste sistema de opressão. Vamos sabotar as engrenagens desse sistema homofóbico, racista, patriarcal, machista e misógino. Vamos jogar na fogueira as camisas de força da submissão, da tirania e da repressão. Vamos libertar todas nós! E todos vocês! Nossa luta está apenas começando, preparem-se porque esta revolução não tem volta. Vamos sabotar tudo isso?”.

Parece que aceitar a possibilidade dos mil sexos, entre eles, o da mulher, é uma posição antes de mais nada, política.Chamou-me a atenção em Linn da Quebrada, que se define bixa travesty, o feminismo exacerbado. Um feminismo lutado em alguém que não fez a cirurgia de redesignação sexual e que não escolheu se hormonizar, vivendo muitas dúvidas em relação a isso. “Esse lugar que eu to, essa invenção, é o lugar que eu chamo de bixa travesty, que é travesty, é feminino, mas também tem o lugar de bixa, que não é uma mulher que eu sou, é esse lugar que é bixa travesty. E as gays, elas gostam de boy, de homens – não é um espaço que eles cultivam pelo feminino…”.

Linn é mulher e é bixa.  Esse lugar que é gay também e gosta de homens. Como homem ou como mulher?  Ou isso não importa? Gender fucker? De qualquer forma, é como bixa travesty que Linn vai delineando um feminismo radical, afirmando que os homens apontam o dedo para as mulheres: “…o dedo do homem que adora apontar prás coisas e dizer

Mulher – lixo – casa. Dar nome, né, adora dar nome, dar sentido a essas coisas. Então eu pensei – porque é que eu não posso fazer isso também. Eu fiz a minha música justamente como arma, pensando que o primeiro alvo era eu…”.

É como travesty que o lugar da mulher ganha um questionamento radical: “Antes era impensável se pensar no corpo da travesti sem que ela estivesse extremamente ligada ao padrão do travesti… Tanto que as manos estavam muito mais sujeitas ao lance do silicone industrial, se sujeitando ao lance do silicone industrial e a hormonização.  Eu acho que hoje a gente consegue pensar na travestilidade ou na feminilidade sem, por exemplo, ter que estar ligada à depilação. Sem ter que estar ligado a trejeitos extremamente femininos…

… eu fico querendo entender como seria meu corpo com um pouco mais de feminilidade…”.

Para Linn, o menosprezo pelo trans é o mesmo que pelo feminino. Como se no trans, o feminino se exacerbasse.  E não porque o trans acentua o que é do binarismo, mas porque ele confunde… E o feminino confunde.  Em entrevista à revista Cult, Linn afirma que no sistema, no cis-tema “…só valoriza os saberes heterossexuais… Foi cultuado um repúdio e aversão às pessoas trans, um menosprezo pelo feminino.” Linn conta que é na música que desconstrói seu desejo.

Assim, Rafael Cossi, no dossiê da Revista Cult “Femininsmos e femininos” ( Cossi, 2018) fala de Luce Irigaray: “Escrever mulher e escrever como mulher, autoafetar-se, lançando mão de um regime de diferença não previsto pela binaridade implícita à mobilidade da linguagem  –  uma diferença que não se sustente na oposição entre dois termos substancializados, um a submeter o outro, tal como o pensamento ocidental se orientaria, a se dar a ver em pares de opostos como natureza/cultura e céu/inferno, e que se expande à relação intrínseca ao dipolo homem/mulher .  Se só A e não A – a mulher como negativo do homem, sua exclusão constitutiva -, Irigaray elucubra outra lógica a ser acionada por uma escrita que deturpe os códigos linguísticos, as regras sintáticas e a gramática da cultura que silencia o feminino.” (p. 34)

É o que Linn quer fazer. Linn canta: Tô vendo de camarote o fim do seu reinado, rindo muito da sua cara… (…) quando tiver que ir embora não esqueça, deixa seu pau encima da mesa… Bixa travesty de um peito só, o cabelo arrastando no chão e no meio sangrando um coração”.

Marie Claire Booms, no ensaio “Da sedução entre os homens e as mulheres: umaabordagem lacaniana” (Booms, M. C. 1987),mostra como nossa cultura vem colocando a mulher fora da possibilidade do simbólico. Afirma: “… pois numa sociedade que se funda sobre a rejeição para fora do simbólico do feminino nãohá significante de mulher. Há apenas o significante fálico e sua função para significar a diferença, dividindo ahumanidade falante em metade masculina e metade feminina,segundo a maneira como cada sujeito seinscreveu em relação à castração que esta função designa.” (Booms, p. 92) A metade masculina tem o acesso ao simbólico bem garantida. Na outra metade, a nomeada como feminina, haveria um gozo que escaparia à castração, sendo então portadora de umsegredo sempre inviolado. Nessa metade, o acesso ao simbólico permanece problemático.

Marie Claire Booms, como feminista, mostra como essa estrutura se dá a partir do falo, sendo o feminino verdadeiramente rejeitado para a esfera do enigma, de um enigma detentor de um gozo ao qual os ditos “masculinos” não têm acesso. Enquanto bixa travesty Linn vive tudo isso radicalmente.

2. Armadilhas psicanalíticas

É tocante a cena onde Linn e sua mãe tomam banho juntas. Com doçura, uma ensaboa a outra. Essa cena acontece depois de Linn, Leniker (com quem mora) e mais uma trans conversarem na cozinha com a mãe de Linn, fazendo um estrogonofe.  Nessa conversa, surge o tema da religião. E Linn é radical. Há um momento em que Linn pega nos seios de Leniker e fala que tem mais carne do que a que está na panela, e que viveram momentos duros, de fome e de pegar pizza na lata de lixo. A mãe afirma que devem agradecer, pois Deus deve ter feito assim para que eles aprendam a valorizar o que têm. Linn ironiza, diz que esse é um jeito conformista de lidar com a realidade. Nessa cena tão caseira, há um momento em que a mãe, falando de Linn, fala do talento “dele”. Linn pergunta: “Dele quem?”.  A mãe embaraçada, tenta se corrigir. Linn afirma que vai tatuar um ELA na testa, para que a mãe nunca mais se confunda. E é o que faz ao final do filme.

A cena do banho é tocante. Linn ensaboa as dobras do corpo envelhecido de sua mãe. Conversam sobre o corpo, conversam sobre nada. Apenas se ensaboam. Linn massageia sua mãe, com imensa gratidão. Linn ensaboa a mãe que ensaboa Linn…Não é uma cena edípica. É uma cena de ternura, como se a dureza da história de Linn guerreira pudesse, naquele momento, viver uma cena de ternura e repouso. E, acarinha sua mãe, que é empregada doméstica e cuida de duas crianças brancas. A vida foi dura. Linn já foi Lino e já foi Lara. A construção daquilo que é se dá minuto a minuto.

Depois, no final do filme, Linn tatua na testa ELA. Para que sua mãe não se distraia e não esqueça de que não é mais um homem.  Porque dói quando sua mãe a trata como um menininho. Mas, o papo na banheira é sobre como lavar o “pintinho” de uma criança.

É uma cena infantil.  Que poderia levar qualquer psicanalista a falar em uma sexualidade não genitalizada, infantilizada. Diferentemente do “La Luna”, de L. Bertolucci, onde a realização edípica entre os personagens é o grande tema do filme.

Sérgio Rizzo(Rizzo, 2016), apresentando o lançamento do DVD de La Luna assim fala:“O cineasta italiano Bernardo Bertolucci conta que uma das imagens mais fortes guardadas por ele da primeira infância, talvez a mais antiga, é a de um passeio de carro. O bebê quedepois dirigiria ‘O Último Tango em Paris’ (1972) estava no colo da mãe, entre ela e o volante, de costas para a estrada. Lá em cima, a Lua. ‘Lembro que o jovem rosto de minha mãe se confundia com o velho rosto da Lua. Interpreto essa lembrança como um sonho’, diz Bertolucci no documentário incluído no material extra da edição especial em DVD de “La Luna” (1979). A cena é recriada no início do filme, com uma bicicleta no lugar do carro (São Paulo, domingo, 19 de março de 2006). Rizzo nos lembra como a mãe lambe o mel que escorre pelo corpo do filho ainda um bebê. Depois, o choro do bebê vendo o prazer da mãe dançando com “outro”.  É diferente do que acontece com Linn.

Linn pergunta desafiadoramente à mãe se ela sente “tesão” por alguém. A mãe demora a entender. Diante da insistência de Linn, responde que sentiu pelo pai de Linn. Linn abraça a mãe rindo e esse abraço dá início à cena do banho.  É como se Linn se indiscriminasse da mãe como um bebezinho. A entrega de Linn e da mãe é de uma ternura tocante. Mas, ninguém precisa satisfazer ninguém, não há qualquer “fissura enlouquecida”. Diferentemente da mãe do La Luna que, segundo Sérgio Rizzo, “chega a satisfazer sexualmente o filho adolescente para aplacar a dor do garoto que busca mais e mais cocaína”.

Mas, ao final do filme, cumprindo a ameaça que fizera à mãe na conversa de cozinha, quando ela se refere à filha como “ele”, Linn tatua ELA na testa.  Esse ELA na testa, mais do que um sinal de ligação materna, é também um tapa na cara do mundo que quer “mulheres sem pinto”e “sem pelo”. Seria bastante fácil falar de uma ligação com a mãe levando à uma identificação primária, a uma bolha da primeira infância onde os corpos de indiscriminariam.

Ou ligar a transexualidade a uma sexualidade infantilizada não genital, que se evidenciaria tanto na cena do banho com a mãe como na cena em que Jup e Linn estão na sauna e falam dos corpos. Aliás, a relação de Linn com Jup acontece sempre ludicamente, dançarinamente. Jup é uma mulher trans, gorda e desajeitada.  As duas falam do esforço que fazem para não serem apenas engraçadas.  Reduzir a sexualidade trans ao pré-genital seria patologizar uma escolha que não obedece à anatomia. Seria fazer o que o DMS fez e faz, ou seja, considerar o transexualismo como doença a ser curada. Como fazem no Iran, onde matam homossexuais e operam transexuais para curá-los.

Em Linn e Jup, nos seus jogos, no humor, nas coreografias, o que vemos é uma sexualidade regida pelo Sexual, termo que Laplanche (Laplanche, 2015) conceitua como sendo aquilo que, para Freud,  é anterior “à diferença dos sexos, para não dizer à diferença de gêneros”(p. 157) . Citando Freud, Laplanche afirma que o Sexual poderia ser definido como “o que é condenado pelo adulto”. (p. 157).  E, a seguir, afirma Laplanche: “… creio que, mesmo nos dias de hoje, a sexualidade infantil propriamente dita, é o que mais repugna para a visão do adulto”(p. 158).

Há um momento do filme em que Linn encontra uma amiga querida,Núbia, que fotografou e filmou momentos íntimos. Vemos Linn ainda homem, vemos Linn urinando em uma praça como uma estátua barroca, vemos seus jogos com o pênis/batom. São jogos onde o corpo vai sendo conhecido através de lindo jogo erótico. Em uma transa no banho, Linn comenta de como viviam se agarrando, Linn e Núbia, e de como “tem coisas que não mudam”. É quando ficamos sabendo que Linn teve um câncer. É mais uma cena tocante: em um espelho de hospital, Linn vai puxando suas madeixas e o cabelo vai caindo, lentamente. Depois, na cama, com os lábios pintados de rosa pink, uma camisolinha azulão com pássaros que voam, Linn conta como aprendeu sobre o corpo a partir do câncer. Disruptora, de salto alto, Núbia filma cenas de autoerotismo no hospital. É com vida que se rebate a morte.

3. Descubram os corpos escondidos em cada um de nós

Em um dos programas de rádio, Jup conta a Linn que tinha resolvido vir de taxi, fazer algo diferente. E o taxista perguntou: “Prá onde o senhor vai?”. Esse é o diálogo de Jup com Linn:

Linn :Fui explicar prá o taxistaque nem toda mulher tem…

Jup: Barba, mas é o meu caso…

Linn: Nem toda mulher tem xuxu, mas eu tenho

Linn: Mas tem mulher que tem…

Jup: Pinto…

Linn: Olha que novidade!!!

Linn: Descubram novos corpos que se escondem entre vocês!

Jup: Vai vasculhando que vai dar.

Linn relaciona seu corpo com a produçãode saberes periféricos. Fala em “produção de saberes marginais”: “Tem essa questão geográfica , mas acho que eu penso meu próprio corpo como esse território geográfico, como esse território a ser explorado, como essas quebradas, ainda pensando o corpo como essa arqueologia, como esse processo de escavação, de descoberta de territórios que modificam as coisas e as transformam, que me fazem outra mesmo.E as possibilidades de encontros e desencontros vão se multiplicando ao infinito, pois “tem bixa que trava por medo de trava(…) e tem trava que trava-línguas e tem trava”.

Linn é de uma lucidez cortante: “Eu acho que eu sou a trava que tem medo do escuro. Eu acho que é disso que eu tenho medo. Tenho medo do escuro, tenho medo de ficar sozinho. Medo de não pertencer. Eu acho que pelo medo de não pertencer eu acabei inventando prá mim, prá que eu pertencesse pelo menos a mim. Já que não tem um lugar que me cabe então que inventasse esse espaço, um espaço que me coubesse. Mas que também é temporário. Não quer dizer que eu vou caber aqui prá sempre. Logo eu acho que eu vou precisar estar indo prá outros lugares”.

Aqui, Linn desconstrói qualquer leitura moralizante de sua sexualidade e jeito de estar no mundo. Afinal, todos temos que nos reinventar para caber naquilo que é o nosso desejo. Bixa Travesty deixa claro o não-lugar que constitui toda e qualquer sexualidade. Assim, Linn é mais feminista do que muitas mulheres, pois vive na pele a humilhação e o preconceito.  Sua luta política é pelo amor: “…eu acho que é político a gente ser amado, é um dever, é um dever meu ser feliz, é um dever meu ter dignidade, estar contente com a nossa vida, nós travestis, mulheres pretas e travestis, mulheres brancas e travetys, bixa sapatão, bixa travesty, é um dever nosso estar bem, ser feliz, ser amada. Prá isso que eu sinto que eu vivo mesmo, é prá ser feliz”.

Linn, como Laplanche, afirma o Sexual, como oposição ao sexo e ao gênero. Por isso incomoda tanto. Desvela o que o mundo adulto não pode ver. Desvela o que a sexualidade adulta recalcou.  Desvela o que, em“Três Ensaios sobre a sexualidade”, Freud mostrou de uma pulsão plástica e sem objeto pré-determinado. O nome que isso venha a ter – polimorficamente perverso, trans, bixa, etc, pouco importa.  Importa, sim, afirmar, com Linn, que amar é um ato político.

Referências Bibliográficas:

BOOMS, M. C. – “Da sedução entre homens e mulheres: uma abordagem lacaniana inHomem Mulher, abordagens sociais e psicanalíticas, org. Carmen Da Poian; R.J., Livraria Taurus Editora, 1987, pp 89-106.

CHNAIDERMAN, M – “É possível ser gender fucker” in Corpo: ficção, saver, verdade, vol.2, Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, n.50, vol. 2, janeiro/junho 2018, pp 9-22.

COSSI, Rafael Kalaf – “Lacan não sem o feminismo” in Revista Cult 238, ano 21, setembro 2018, pp 33-35.

LAPLANCHE, J. – “O gênero, o sexo e o Sexual” in Sexual A sexualidade ampliada no sentido freudiano –Porto Alegre, Fondation Jean Laplanche/ Dublinense2000 2006, pp 154-189.

RIZZO, S – Lançamento do dvd La Luna, São Paulo, “Folha Ilustrada“ in Folha de São Paulo, 19 de março de 2006

TRÓI, Marcelo de – “Linn da Quebrada: Ficou insustentável fingir que nós não existimos”, Revista Cult, 8 de agosto de 2017.

Miriam Chnaiderman é psicanalista e cineasta, ensaísta e escritora. Possui vários artigos publicados sobre psicanálise, cinema e teatro, bem como dois livros sobre a relação entre arte e psicanálise: “O hiato convexo: literatura e psicanálise” (Brasiliense, 1989) e “Ensaios de psicanálise e semiótica” (Escuta, 1989).

Memórias de Infância: um nó entre literatura e psicanálise

* Cristiana Tiradentes Boaventura

Nas ciências humanas, há um extenso campo que se debruça sobre os usos da memória e o estudo de como ela se constitui. Na literatura, alguns escritores se dedicaram mais de perto a esse tema e fazem da sua obra um importante espaço para reflexão sobre a memória, o testemunho e a autobiografia, espaço que o campo psicanalítico também ocupa. Escrever, pensar, falar sobre nossas próprias memórias é debruçarmos sobre nós mesmos. E parece claro que alguns autores literários conseguiram chegar perto, de modo rico e profundo, dessas arquiteturas psíquicas.

Graciliano Ramos faz isso muito bem. Costura com rigor o narrador no seu presente, no seu passado. No final do primeiro capítulo de seu livro Infância, por exemplo, em que perseguido pela “impertinência” da lembrança de um conto, que a mãe proseava com insistência, ele tenta lidar com os nós da memória. O teor desse texto nos remete à representação de uma violência destruidora, vingativa, e surge como memória problemática, saturada de dilemas, que o narrador insiste em marcar num jogo entre esquecer e lembrar. Assistimos a um conflito do adulto entre a tentativa de afastamento da lembrança e o esforço de resgatá-la.

O leitor toma conhecimento da temática de sofrimento e violência que se esboça na história oral quando ela é resumida pelo narrador. O enredo é basicamente o seguinte: um menino é adotado por um padre que tinha uma amante. Para não se comprometer e não ter sua história revelada pelo rapaz, o padre lhe ensinou signos linguísticos distintos para designar algumas palavras, de forma que se o pequeno falasse algo ninguém o entenderia. Com o tempo, o padre e a amante começaram a maltratá-lo, certos de que não seriam delatados. Acontece que, um dia, o menino decidiu vingar-se e coloca fogo na casa, escapulindo, gritando versos na linguagem que havia aprendido com o padre. Seguem-se, então, comentários do narrador vinculados aos sentimentos de infância:

Não se mencionou o gênero dos maus tratos, mas calculei que deviam assemelhar-se aos que meus pais me infligiam: bolos, chicotadas, cocorotes, puxões de orelhas. Acostumaram-me a isto muito cedo — e em consequência admirei o menino pobre, que, depois de numerosos padecimentos, realizou feito notável. (RAMOS, 2009, p. 19)

É muito interessante observar como os versos da história, aos poucos, adquirem sentido e como o narrador atribuirá a eles um significado para o presente. O necessário é para o agora, que parece passar pela dificuldade em expor sentimentos ambivalentes, visto a insistência em esquecer, em evitar mostrar desejos que o envergonhavam no passado, em falar do tema violência. Mas, paradoxalmente, o narrador fixa-se nesses sentimentos e os expõe, apontando para uma construção narrativa corajosa em que vergonhas e constrangimentos de outros tempos se apresentam. De modo bidirecional, opera com a revisão desse passado:

Esta obra de arte popular até hoje se conservou inédita, creio eu. Foi uma dificuldade lembrar-me dela, porque a façanha do garoto me envergonhava talvez e precisei extingui-la. Ouvindo a modesta epopeia, com certeza desejei exibir energia e ferocidade. Infelizmente não tenho jeito para violência. Encolhido e silencioso, aguentando cascudos, limitei-me a aprovar a coragem do menino vingativo. (RAMOS, 2009, p. 19)

Essa revelação evidencia que o narrador não se propõe à construção de um passado limpo, ligado somente a sentimentos dignos e justos. A lembrança não vem sem sofrimento. E a relutância de lembrar ocorre porque é preciso admitir ali atitudes que para ele são condenáveis, principalmente a confissão de sua admiração pelo menino que age violentamente e do desejo de capacitar-se com a coragem e a ferocidade da personagem.

Esse pequeno exemplar da literatura oral serviu para uma reflexão sobre esse passado e para que agora possa se ver outro – ele não é mais aquele, há um caminho entre o menino e o adulto. Parece funcionar também como uma ferramenta de reterritorialização do presente, por onde o tom às vezes irônico alcançará caminho para lidar com o conceito de masculinidade daquela sociedade patriarcal em que cresceu.

A literatura, a narrativa ficcional, estaria funcionando aqui como mediadora entre a violência e o narrador. Ela interpõe-se entre os dois e serve como instrumento de elaboração. É pela narrativa que se dá a transformação. E ela cria o espaço devido para uma crítica da violência, crítica essa só possível pelo distanciamento do tempo, feita com uma escrita combativa àquela ordem social violenta.

Algumas construções discursivas foram necessárias no processo de reconstrução da história, como a fragmentação, a repetição e a resistência ao narrar, muito identificadas a situações de traumas, de modo que a interpretação do passado se aproxima do próprio processo de funcionamento da memória, com seus vazios e lacunas.

É ao escrever essa história, portanto, que Graciliano constrói para si um sentido entre esse conto e sua experiência, na medida em que criou uma relação interpretativa desse mundo do passado e o seu mundo como narrador-escritor. Esse movimento dialético possibilita a construção de uma “identidade narrativa” (RICOEUER). Afinal, para analisar o “homem psicanalítico” (HERMANN) muitas vezes é preciso acionar recursos da ficção literária. Nesse sentido, literatura e psicanálise se aproximam. E articulam experiências amalgamadas pela memória e pela narrativa.

Referências:

HERMANN, Fabio. A infância de Adão e outras ficções freudianas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002.

RAMOS, Graciliano. Infância.  44ª ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 2009.

RICOEUR, Paul. O si-mesmo como um outro. Campinas, SP: Papirus, 1991.

Cristiana Tiradentes Boaventura é psicanalista, mestre e doutora em Literatura Brasileira pela USP. É membro filiado ao Instituto Durval Marcondes da SBPSP e vinculada ao Serviço de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (HC/USP).

 

AMAMENTAÇÃO TEM ALGO A VER COM SEXUALIDADE?¹

* Denise de Sousa Feliciano

Quando uma menina percebe que seus botões mamilares incham, envergonha-se. O pudor se instaura no símbolo que o nascer do seio representa: torna-se aos poucos uma mulher. Em geral, vem acompanhado da menarca e dos demais sinais que transformam o corpo de menina no de uma mulher. E com ele será capaz de gerar um filho. O seio, então, é tanto o prenúncio quanto a própria consolidação de sua vida adulta.

A menina, agora adolescente, sente-se invadir por complexas emoções, sensações e um novo olhar dirigido à ela. Percebe que em sua nova roupagem captura os olhos masculinos de admiração e desejo. Um misto de incômodo e vaidade.

De símbolo, o seio aos poucos passa a fazer parte de sua vida sexual. As sensações no mamilo são fortes aliadas na excitação genital. O mesmo seio no qual o bebê vai mamar.

Amamentar por sua vez está associado à nutrição e também ao aconchego, ao carinho, à ternura e a outros adjetivos que denotam o relacionamento afetivo da mãe com seu bebê. E essa fusão entre as necessidades fisiológicas e emocionais torna essa – e todas as demais – experiências do corpo carregadas de significados e representações mentais que vão marcando a vida psíquica de cada pessoa.

As terminações nervosas do mamilo não mudam nas duas situações. Mas a mulher se vê diante de todo o engendramento mental que vai permitir que ela transforme psiquicamente as sensações de prazer genital de seus seios em uma experiência também prazerosa de ternura e amor. Não é um mecanismo mental simples. A condição de que essa organização flua está relacionada à sua história e à constituição de sua sexualidade. Soma-se à essa bagagem a dinâmica e história com o pai dessa criança e sua concepção. Marcas que ela nem mesmo pode acessar conscientemente, mas que são fatores importantes no modo como o lugar da criança e da amamentação vão se consolidar.

Um processo semelhante acontece com o homem, que precisará ver no mesmo seio erótico que o cativa, a fonte de nutrição e aconchego para seu filho, marca primária do prazer para o bebê, que nessa experiência inaugura a sua própria sexualidade.

Freud (1905)  em um de seus artigos mais importantes – Três ensaios para a teoria da sexualidade infantil –, apresentou-nos a construção da sexualidade humana que se inicia no prazer de mamar para o bebê. A boca, sua primeira zona erógena pela sensibilidade exacerbada nos primeiros meses, favorece que ele tenha grande satisfação ao mamar, garantindo a sua sobrevivência. Zona erógena para a Psicanálise está ligada à energia vital ou libido.

Na compreensão psicanalítica, sexualidade não se restringe à atividade genital e abrange um sistema complexo que envolve o corpo, as relações interpessoais e toda a cadeia de representações que constitui a vida psíquica do ser humano. É vital.

O prazer compartilhado e dual da mãe e do bebê na amamentação é sexualidade. Mas tem diferenças importantes do ponto de vista do bebê e  da mãe.

A sexualidade infantil tem características próprias de um psiquismo em constituição. Não é a mesma dos adultos. De qualquer modo, a finalidade é a mesma: o prazer, que é o motor da vida mental saudável e precisa ser experimentado pelo indivíduo desde o nascimento, mas dentro do caráter próprio de cada fase do desenvolvimento psicoemocional.

Libido, que no senso comum tornou-se sinônimo do desejo sexual da vida adulta, em termos psíquicos é o que garante a ligação das pessoas  com seus interesses e as mantém em movimento vital. Um bebê para ser saudável precisa ser libidinizado por seus pais, sendo para eles o centro de suas atenções e interesses durante a primeira etapa de vida. Isso funda na criança a capacidade de amar e se vincular.

Com base nessas premissas fundamentais, o pediatra e psicanalista inglês Donald W. Winnicott desenvolveu sua Teoria do Desenvolvimento Emocional Primitivo, atribuindo fundamental importância ao psiquismo da mãe e às vivencias psicoemocionais da dupla, com o suporte afetivo do pai, como fatores intrínsecos à saúde global do indivíduo.

Para Winnicott (1968/1994), é uma grande riqueza a amamentação vivida tanto pela mãe quanto pelo bebê de forma plena e prazerosa. Ao entregar uma parte de seu corpo ao contato da mucosa bucal do bebê, a mãe favorece uma experiência de união e intimidade sem igual.

Para a psicanalista inglesa Melanie Klein (1936/1997), no prazer experimentado pelo bebê pela estimulação em sua mucosa bucal no ato de sugar o seio materno estariam as raízes da sexualidade. As sensações de desequilíbrio interno provocadas pela fome ocupariam lugar de primazia nesta primeira fase da infância. O bebê pequeno estabeleceria com a mãe um contato parcial através do seio tomando o seio gratificante – portador do alimento que sacia a fome -, como bom e o que frustra, como mau. Essa ambigüidade de sentimentos dessa relação com o seio-mãe seria responsável pelas diversas fantasias inconscientes que vão consolidando as relações do bebê com seus pais, e que posteriormente servirão de protótipo aos demais relacionamentos.

Apesar das variações no enfoque de cada autor, é unânime a afirmação de que o cerne da constituição do psiquismo estaria fundamentado na vivência de prazer compartilhado na primeira infância. A amamentação como o ícone dessa etapa de vida pode ser a pedra fundamental desse percurso.

O pai tem importante papel na sustentação da dupla mãe-bebê, que vive essa intensa experiência compartilhada. É importante que ele próprio não esteja excessivamente incomodado e impossibilitado de tolerar ser excluído dessa dualidade, para que aos poucos se construa uma nova relação triangular que lhe inclua. Nesse momento, suas próprias vivências infantis serão o esteio no qual ele se apoiará ou não para esse lugar primordial na relação com sua família atual.

É comum os homens sentirem-se enciumados da relação do filho com sua esposa, seja porque se sente excluído do prazer que percebe haver entre eles, seja porque precisa temporariamente abster-se da sexualidade genital do casal, que fica ofuscada ante à temporária substituição do prazer erótico genital da mulher pela plenitude que a ternura ocupa em sua sexualidade. Entretanto, esse período precisa terminar e a mulher afastar-se um pouco dessa espécie de fusão com seu filho e voltar-se também para o casal parental. Esse afastamento gradual que tem seu apogeu no desmame permite ao bebê o espaço de desenvolvimento psíquico necessário, ainda que seja um período de dor e luto para todos. É a vivencia de luto que permite ao bebê se constituir como pessoa.

[1] Título inspirado no artigo de André Green “Sexualidade tem algo a ver com Psicanálise?” (1995) Livro Anual de Psicanálise, 1995; v.11 p.217-29 São Paulo : Escuta, 1997.

REFERÊNCIAS

Freud, S. (1969). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade In Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J.Salomão, trad.,Vol. VII). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1905)

Klein, M ( 1997). O desmame In Amor, Culpa e Reparação e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1936)

Winnicott, DW. (1994). A amamentação como forma de comunicação In Os bebês e suas mães. São Paulo: Martins Fontes. (Originalmente publicado em 1968).

Denise de Sousa Feliciano é psicóloga e psicanalista, mestre e doutora pelo IPUSP-SP em pesquisas sobre amamentação e psiquismo, membro associado da SBPSP.

Imagem: Obra “Maternity”, de Pablo Picasso

 

Atualidades pedagógicas: o pensamento de vanguarda de Junior Bolsonaro

* Luciana Saddi

Como cantou Vinicius de Morais “hay dias que no sé lo que passa…”, e me pergunto o que teria em mente Bolsonaro Jr. no momento que utilizou redes sociais para ordenar (sic) o final do “ensino” do feminismo nas escolas. Difícil entender. Há nas escolas a disciplina “Feminismo”? Junior é especialista em currículos? É surpreendente! Junior pretendeu propor apenas a supressão do substantivo masculino (ironia) – que significa ampliar e aprimorar o papel e os direitos das mulheres na sociedade – no ambiente escolar?  Ou pretendeu estender os seus domínios para eliminar a palavra, censurar seus sinônimos em dicionários, sites, blogs e redes sociais? É possível censurar a palavra, mas não acredito que seja possível censurar seu significado. Imagino, se é que captei o sentido da ação, que Junior considere feminismo alguma anomalia e causa direta da violência contra as mulheres. Ou Junior não aprecia mulheres?

É público e notório, o feminismo – entre outras contribuições – provoca ou estimula 135 estupros diários e 12 assassinatos por dia *, além de incontáveis agressões, lesões e sofrimento psíquico.  O feminismo está na etiologia destas ocorrências. Basta, portanto, que seja eliminado como palavra e ideia nas escolas para queda natural, e inevitável, destes índices. É só não ensinar nada sobre feminismo que os índices desaparecerão. Junior, nunca suspeitei, encontrou a solução. Gênio das ciências sociais e do comportamento humano, comprometido com o enfrentamento da violência familiar – que assola os brasileiros independente de extrato ou renda – de pronto, sem meias medidas, solucionou um problema tão grave.

Foi muito além dos que desperdiçam tempo nas Universidades do país, nas áreas de saúde e assistência social, consumindo recursos preciosos e finitos. Junior foi ao ponto. A nítida má vontade de Junior e família com a Universidade se deve ao simples fato de que a investigação destes problemas pode ser descartada, sem prejuízo à sociedade. Junior sabe como resolver. Se a palavra desaparecer de todas as bocas, sumir das escolas e das ruas, as mulheres não serão mais agredidas, estupradas, humilhadas e mortas. O responsável direto por tais atrocidades é essa maldita coisa chamada feminismo.

Caríssimas, obedeçam, é mais seguro. Inclinem a cabeça, olhem para o chão, trabalhem fora para pagar as contas da família, cozinhem, limpem, lavem e passem, criem os filhos e os protejam das agressões e violações, e ao cumprir tal tarefa, como prêmio, podem, talvez, escapar do estupro e assassinato. Percebem como é simples? Vocês conseguem!

Comove testemunhar jovem congressista, emblema da renovação, comprometido com tal causa e, mais, propondo soluções. Surpreende que um moço jovem, forte, bonito, bem-nascido tenha se interessado, justamente, pela causa do feminismo. Ele se porta como um herói nacional. Junior nunca testemunhou ou viveu problemas vulgares de ameaça à vida da mulher, por ela querer terminar a relação. Totalmente desinteressado, mas, sentindo a dor dos que sofrem, procurou usar seu enorme poder para melhorar a vida das mulheres brasileiras. Junior é um altruísta!

Ainda me pergunto o que mais Junior pretende ao indicar a eliminação do “ensino” do feminismo? Porque, afinal, ao decretar a extinção do tema no Enem e no vestibular, ele aborda um dos problemas da educação: a diferença entre o exigido em provas e o ensinado em sala de aula, que leva ao desinteresse do aluno e evasão escolar. Mais uma preocupação de Junior que toca o nosso coração. O congressista demonstra interesse nos problemas da educação e aprendizagem do Brasil. Quem diria que um dia teríamos alguém tão importante, de notório saber, dando sua contribuição para solucionar os problemas do país.

Entendo que Junior como representante da população no legislativo não poderia atuar tão incisivamente nas diretrizes do Ministério da Educação, seara do Poder Executivo, mas, quando a causa é nobre – a propósito de seu pronunciamento fundamental e demonstração de responsabilidade para com a saúde física e psíquica das mulheres brasileiras -, vale quebrar as regras da república e embaralhar os três poderes.

É bem possível que Junior, ao enfrentar o espelho, perceba-se príncipe ou futuro regente. O primeiro na linha de sucessão ao trono, nas democracias modernas, muito pode. Vejam o príncipe Charles, príncipe de Gales e Duque da Cornualha, educado na Escócia e em Cambridge, portanto, menos afortunado que Junior, também cultiva o hábito de dar conselhos sobre ensino e temas de exames ao ministro da Educação do Reino Unido. No momento, dedica-se à missão de indicar, à primeira ministra, providências relativas a caça à raposa na primavera e arranjos florais adequados aos rigores do clima nos castelos do Atlântico Norte.

Mas, voltemos às contribuições de Junior ao país, constata-se ausência de manifestações contra o ensino do machismo, que deve, portanto, permanecer prestigiado nos currículos e constante nos exames vestibulares.

Junior, obrigada. Essa é a sociedade justa que desejamos. Agora temos norte!

* dados levantados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em 2017

Luciana Saddi é psicanalista e escritora, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, diretora de cultura e comunidade da SBPSP e autora dos livros “Alcoolismo” (ed. Blucher) e “Educação para a morte” (ed. Patuá).

Imagem: Freepik

Sobre os dias de hoje

* Gizela Turkiewicz

Na política e na vida cotidiana, vivemos tempos de intolerância e de polarizações. Quando alguém vem ao nosso encontro, traz consigo uma parte do seu mundo lá de fora, e nós, analistas, também somos permeados por nossas experiências. A escuta analítica não se restringe à sala de análise, mas pode ser ampliada ao nos atentarmos para os acontecimentos do mundo ao redor, numa espécie de escuta da cultura, da qual todos somos sujeitos. Qualquer ameaça à democracia, ao livre pensamento e aos direitos básicos da humanidade, afeta a todos nós.

Hoje, eu atendi uma menina, uma moça, uma mulher. Ela chorou pela travesti do Arouche, pelo estudante queimado com ferro, pela mulher marcada com a suástica, por alguém morrendo a facadas. Como alguém é capaz de perseguir outro alguém e o matar com facadas? Será que eles não veem?

Chorou de medo e de decepção. Medo de ser atacada, violentada, de ter seus direitos roubados, de perder a liberdade, de não poder decidir. Medo de não mais existir. Não era medo da morte morrida, mas de ser apagada, anulada, desconsiderada, exilada. Exilada sem sair do país, exilada num isolamento onde ninguém a vê ou escuta.

Decepcionada, horrorizada com a liberdade ameaçada, a violência amenizada, com a relativização da barbárie, com o lugar a que já estamos. A que ponto chegamos? Isso já é triste, é muito triste termos chegado até aqui.

No divã, ela chorou lágrimas de decepção, de medo, de indignação; por não acreditar. Lágrimas de preocupação pelo amigo gay, pela mãe ativista, pelo pai professor, pelo namorado ateu, pela turma feminista, pelo colega cotista, por aqueles que não sabem o que estão fazendo.

Eu gostaria de ter algo a dizer. Eu gostaria de poder fazer uma associação que falasse sobre seu mundo interno, ou sobre algo que lhe fosse muito particular. Mas eu não pude. A única coisa que eu poderia oferecer a ela naquele momento era minha solidariedade.

Essa mulher poderia ser minha filha, minha mãe, minha irmã, minha melhor amiga ou uma desconhecida. Poderia ser eu ou você. Poderia ser todas e qualquer uma nós. Isso nos diz respeito.

Gizela Turkiewicz é psiquiatra e psicanalista, membro filiado do Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Entre heteros, homos, cis, x e trans…

*Cecília Orsini

Caro leitor, você sabia que esta verdadeira revolução dos costumes na sociedade ocidental, no que diz respeito às opções sexuais, começa em fins do século XIX, com Freud?

Bem, seria um tanto restritivo atribuir somente a Freud o início dessa revolução, já que muitas coisas concorreram para isso. Um pensador recolhe os elementos de época, os articula e os coloca na vanguarda de uma transformação que virá. Portanto, vou me ater a expor como a questão da sexualidade humana é captada, recolhida e transformada radicalmente a partir de Freud.

Como essa história começa? Corria no meio médico de meados do século 19 que a masturbação infantil era uma das fontes privilegiadas da loucura. Foi um século prolífico em tratados sobre os “desvios” sexuais. Em contrapartida, também se dizia à boca pequena que as histéricas (que respondiam pela maior parte dos casos de neurose) adoeciam por falta de relações sexuais normais. Enfim, sexo estava na cabeça dos puritanos da era vitoriana.

A partir da instauração da escuta analítica no tratamento das neuroses, Freud passa a dar importância aos relatos de qualquer natureza, sobretudo aqueles que davam passagem aos conteúdos inconscientes, motores da neurose: sonhos, atos falhos e rememorações da infância. Enfim, o lado avesso da vida de vigília… De um lado Freud tinha essa ferramenta em mão, mais o caldo de cultura referente à preocupação com a sexualidade e sua repressão. Por outro lado, observava-se a exigência de relações sexuais normais para que não se adoecesse. Tudo isso somado concorreu para que Freud escutasse a neurose a partir desse lugar. Assim, surgiam nos relatos os mais diferentes tipos de manisfestação sexual, incluindo a infância, em pacientes insuspeitos de uma conduta sexual “desviante”.

Assim, para dar conta desse fenômeno, Freud vai elaborar uma nova e revolucionária teoria da sexualidade humana. Num golpe de gênio, Freud descola a libido, ou pulsão sexual – concebida como a expressão psíquica da energia sexual – de qualquer objeto de satisfação pré-determinado. Ou seja, não há nada no ser humano que garanta a heterossexualidade e nem a fidelidade a um mesmo parceiro como um padrão biológico da espécie. Aliás, Freud vai demonstrar que não existe um instinto sexual que oriente as opções sexuais.

Para dar conta dessa tese, Freud monta seu argumento de maneira radical e sagaz, na obra seminal “Três ensaios para uma teoria da sexualidade”. Ele começa por fazer um inventário de variações sexuais, como homossexualidade, pedofilia, zoofilia, fetichismo.  Com isso vai desmontando a exclusividade de um objeto sexual convencionado como o correto, ou seja, o sexo oposto. Radicalizando ao máximo, Freud vai apelar para as mais repulsivas atividades sexuais, a necrofilia ou lamber excrementos, para demonstrar quão longe vai a distância da pulsão sexual em relação à heterossexualidade. A necrofilia seria o argumento decisivo onde se constata que a sexualidade pode abrigar objetos surpreendentes. E mais, ou o mais importante, é que as diferenças em relação à norma são encontráveis em pessoas comuns, em nada diferentes dos demais seres humanos, no que diz respeito a outros aspectos de seu comportamento. Freud convida o leitor a constatar a legitimidade das diferentes práticas sexuais que variam de acordo com a cultura, como a aceitação da homossexualidade na Grécia clássica. Ou da zoofilia no campo. Nos povos tutsis, o recém-nascido é recebido na comunidade numa cerimônia em que se serve uma refeição ritual preparada com as fezes do bebê…

O relativismo cultural, somado à constatação da variedade de escolhas, separa radicalmente libido e objeto de satisfação. Do ponto de vista da psicanálise, toda e qualquer atividade sexual é legítima, ainda que seja vista como imoral e condenável juridicamente, a depender dos valores éticos que cada sociedade estabelece (como a pedofilia ou a homossexualidade que até há pouco era criminalizada juridicamente). Para a psicanálise, dirá Freud, qualquer conduta está sujeita a explicações no interior de uma análise, até mesmo a escolha exclusiva de um parceiro do sexo oposto. A moralidade é uma convenção que se estabelece no contrato social, mas ela não elimina as peculiaridades do desejo humano. A libido é uma força plástica e elástica, capaz até de ser sublimada em atividades valorizadas pela cultura em tela. Colocam o bebezinho para manusear areia ou massinha, substituindo as fezes que costumam ser sua diversão.  E o bebê pode crescer e tornar-se um ceramista ou um escultor.

A questão é que – e esta é a outra face do argumento – o desejo tem uma história singular que começa no nascimento. É o que Freud vai chamar de sexualidade infantil, ou seja, a sexualidade não começa na puberdade. O que encontramos em nível do desejo sexual, são práticas cujo mapa da mina, ou do tesouro que é o prazer, encontram-se marcadas pela experiência da criança no encontro com o desejo daqueles que dela cuidam. O prazer acompanha as atividades de mamar, no primeiro ano de vida, que perduram no beijo e no sexo oral. Depois, no segundo ano de vida, reforça-se o interesse prazenteiro pelos movimentos esfincterianos, que perduram nos rituais de evacuação e no sexo anal. Vem a seguir, a partir de dois ou três anos, a  masturbação dos genitais que perduram no sexo solitário e, na criança, vinculam-se a  fantasias ligadas aos genitores, alvos das paixões da criança, que serão reprimidas pela educação e recalcadas no inconsciente. Essas chamadas fases do desenvolvimento psicossexual não são exatamente passagens de uma fase a outra, onde a anterior é eliminada. Pelo contrário, elas coexistem colorindo a sexualidade. De outro lado – e este aspecto é revolucionário e perturbador: o adulto cuidador traz as marcas de seu próprio desejo e lida com o corpo da criança orientado pelas mesmas. É desse encontro singular que se constrói a sexualidade, em conflito e na estreita dependência daquilo que é aceito socialmente.

Embora até a década de 70 a opção heterossexual fosse a única legítima, a revolução dos costumes foi se impondo.  Esse descolamento entre libido e escolha de objeto foi crucial. Foi revelado, construído como argumento e assim legitimado pela psicanálise. Na sua radicalidade, leva ao ponto em que estamos: pessoas que não querem definir-se nem sexualmente, nem enquanto gênero, instaurando o gênero neutro. Países que não colocam o gênero da criança em seu registro civil, creches em países escandinavos que usam o gênero neutro em suas práticas, como banheiros unissex com portas abertas. Como também se observa o aumento do número de pais que dão nomes unissex aos seus filhos.

No entanto, curiosamente, ou nem tanto, aquele que abriu as comportas dessa revolução, em seu tempo capitulou: afinal, porque na maioria casamos com alguém do sexo oposto e fazemos filhos? Para surpresa do leitor, Freud, nos seus “Três ensaios”, responde: pela necessidade biológica da espécie humana de “crescer e se multiplicar”… Era demais exigir que um único pensador, na alvorada do século 20, sustentasse sozinho uma revolução coletiva, que só viria a acontecer plenamente 120 anos depois…

Cecília Orsini é psicanalista e membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e professora de Freud no Instituto de Psicanálise da SBPSP.

(Imagem: Haafiz Shahimi – Confused Sexuality)

Sobre o Ressentimento

*Nilde J. Parada Franch

Tenho observado nos muitos anos de experiência clínica que o ressentimento é um fator bastante presente nas situações de parada e fixação em certas etapas do desenvolvimento emocional.

Os efeitos devastadores do rancor consequente ao ressentimento já foram assinalados há 25 séculos por Heráclito de Éfeso (540 AC): “Há que mostrar maior rapidez em acalmar um ressentimento do que em apagar um incêndio, pois as consequências do primeiro são infinitamente mais perigosas do que os resultados do último”.

O ressentimento provoca a permanência em um tempo de ruminação indigesta de uma ofensa que não cessa, de um luto que não se consegue elaborar, podendo trazer consigo a sede de vingança. Por outro lado, o ressentimento também pode abrigar uma esperança de o indivíduo lutar para instalar ou reinstalar o sentido da dignidade ferida.

O rancor pode mobilizar fantasias e ideias destrutivas, mas também favorecer o aparecimento de uma rebeldia e de um trabalho psíquico sublimatório que poderiam levar a restaurar as feridas provenientes de situações traumáticas.

Sándor Márai, escritor húngaro, aborda em seus livros temas sobre amor, segredos, ofensas, traições, perdão, vingança, compaixão e também ressentimento. Em “As Brasas”, conta-nos o último encontro de dois homens de mais de 75 anos, amigos inseparáveis na juventude. Depois de um afastamento de 41 anos, em consequência da traição do amigo com sua esposa, encontram-se para uma última conversa. Desde o momento da ruptura, interpuseram-se na linha do tempo as memórias do rancor e da dor, sem que pudessem falar sobre a situação. A traição da amizade, a infelicidade e o desconhecimento em relação à verdade fizeram com que Henrik, o ressentido, o desejante de vingança, aquele que se refugiava no rancor e na dor, permanecesse sequestrado por um ressentimento interminável, habitado por lutos patológicos que detiveram a passagem do tempo e o retiveram numa posição de reclamante litigioso, queixoso e reivindicativo. Não podia olhar para frente; seus olhos estavam como que “em sua nuca”, olhando apenas para a ofensa passada.

A grande amizade que os unira no passado mantinha alguma esperança de entendimento entre eles.

Márai e outros autores, como o filósofo Agamben e o escritor Octavio Paz, destacam a amizade como importantíssimo sentimento que marca a sensação de ser e de existir. ,

Através da memória da traição, do desapontamento, a pessoa permanece atada a situações traumáticas. Os sentimentos permanecem no campo do automatismo de repetição, sem poder reviver os afetos, integrando-os numa nova estrutura. O passado assombra e não há espaço para uma perspectiva diferente, para um futuro a ser construído. A pessoa vive em estado de precariedade, pois falta-lhe o sentimento de pertinência e de confiança. Não consegue estabelecer vínculos confiáveis e estáveis, já que está sempre presente o pavor de um novo trauma. Não consegue viver em paz. “Sinto-me como alguém que foi atirado em uma cela, como vítima, pois não fui consultado, não escolhi isso. Tenho que esperar o tempo de cumprir a pena” – são palavras que revelam o sofrimento e a consciência do tempo que leva à elaboração de tantos sentimentos contraditórios!

A memória da dor não implica a desvalorização do passado, nem a amnésia do traumático, nem mesmo a absolvição superficial do traumatizador, mas sim a aceitação com pena, ódio e dor pela situação imodificável, pela perda sofrida, pela frustração vivida, o que possibilitaria o processamento de um luto normal. Entretanto, a pulsão de vida, pode utilizar o não esquecimento como algo estruturante, como aprendizado para proteger o sujeito e evitar situações que poderiam ser evitadas. O passado pode ser transformado em uma experiência de aprendizado.

Aprender o quê? O mais importante, de meu ponto de vista, é o aprendizado sobre a presença de um outro, diferente e singular – e, portanto, não necessariamente disponível para atender às nossas expectativas, necessidades e desejos. Como se costuma dizer: aprender que “os olmos não dão peras” é necessário, ainda que muito sofrido, desidealizar o outro e aceitar suas limitações… Difícil trabalho diante de tanta dor!

Milan Kundera, em “A Brincadeira”, coloca-nos diante do personagem que, conseguindo perpetrar sua vingança, pergunta-se o que fará agora de sua vida, como preencherá o espaço que durante anos foi ocupado pelo ressentimento e alimentado por ideais de vingança. Passara anos de sua vida imaginando como fazer o outro sofrer o que havia sofrido, e agora?

Na clínica, enfrentamos situações bastante difíceis e dolorosas. O paciente sofre de um ressentimento absolutamente compreensível por expectativas não cumpridas. Como evitar o conluio culpabilizador e propiciador de estagnação na situação vitimizante, sem desqualificar o enorme sofrimento, as vivências de falta, o ódio?

Outra dificuldade frequente é a desconfiança sempre presente, como que à espera onipresente do momento de outra traição, incompreensão ou maus tratos.  Da idealização possível, quando o paciente se sente bem tratado e compreendido, rapidamente um buraco pode abrir-se quando há momentos de incompreensão ou falha do analista. E, nesse processo que vai passo a passo, sessão por sessão, momento a momento, a dupla vai caminhando na esperança de poder encontrar possibilidades de elaboração do luto, de encontrar palavras para dizer o ainda não dito, emoções que possam ser pensadas e que indiquem o caminho a seguir.

Nilde Parada Franch é psicanalista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, analista de crianças, adolescentes e adultos.

O Desamparo na Cidade

* Adriana Casagrande e Rita Andréa Alcântara de Mello

Como descrever uma cidade? Como descrever uma experiência com a cidade?

Vem à cabeça a personagem de Saint-Preux em A nova Heloisa, de Rousseau, quando narra sua experiência com uma cidade grande pela primeira vez: “Eu começo a sentir a embriaguez a que essa vida agitada e tumultuosa me condena. Com tal quantidade de objetos desfilando diante dos meus olhos, eu vou ficando aturdido…perturbam meus sentimentos, de modo a fazer com que eu esqueça o que sou e qual o meu lugar”.

Essa vivência pode ocorrer quando nos defrontamos com qualquer metrópole como Tóquio, Deli, Nova York, Cidade do México ou Pequim. Segundo a ONU, a previsão para 2050 é que seremos cerca de 9,8 bilhões de habitantes no planeta e, nas próximas décadas, as principais cidades terão mais de 10 milhões de habitantes.

Na década de 60, quando comecei a conhecer São Paulo, a cidade possuía aproximadamente quatro milhões de habitantes. Hoje, em um pouco mais de meio século, a população e a cidade mais que triplicaram, multiplicando, e muito, os seus problemas.

A cidade, com suas referências históricas, cedeu lugar a conglomerados indiferenciados. O espaço coletivo foi diminuindo, favorecendo o anonimato de pessoas e lugares. O crescimento, desordenado e desenfreado, favoreceu o rompimento das possibilidades de troca, de construções e de elaboração no tecido cultural da cidade.

Com esses problemas, como deixar de associar condições da vida urbana com condições de humanidade da população?

A cidade foi mudando para dar mais mobilidade e escoamento em suas vias. Surgiram grandes avenidas, marginais e calçadões dificultando o contato, a troca e a noção de individualidade; transformamo-nos em uma grande massa compactada, onde o tempo é sempre escasso, a correria é cotidiana, as pessoas são anônimas e os lugares sem narrativa.

O coração de São Paulo foi se transformando em um lugar frio e vazio, e essa “desordenação” deu lugar a uma cidade fragmentada, quebrando elos de comunicação e gerando grupos de pessoas isoladas, que sobrevivem num meio cultural empobrecido.

No último século, a cidade, relativamente segura, passou a ser relacionada a um lugar perigoso.  Os sociólogos B. Diken e C. Laustsen chegam a sugerir que o milenar “vínculo entre civilização e barbárie se inverteu. A vida urbana se transformou num estado de natureza caracterizado pelo domínio do terror, acompanhado pelo medo onipresente”.

Quando a cidade deixa de exercer sua função geradora e organizadora de sentidos, há a possibilidade de uma desagregação da rede simbólica que sustenta as trocas intersubjetivas, voltando a modos de funcionamento primitivos, formando aglomerações instáveis, desestabilizadoras e refratárias nas relações entre seus habitantes.

A cidade é o palco dos nossos dramas cotidianos; podemos fazer um paralelo dessa cidade fria, vazia, insegura e assustadora com os sentimentos despertos no morador da megalópole – a vivência do drama do vazio, da falta de sentido, do medo e do desamparo.

Em uma entrevista recente, o sociólogo Danilo Lima fala da cidade como ‘pessoa’; se a cidade é uma pessoa, que pessoa nossa cidade se tornou? Caótica, violenta, sem história, culturalmente empobrecida, sem condições de acolher seus filhos-cidadãos. Uma cidade em crise que espelha a crise que estamos vivendo psiquicamente.

Através de Winnicott conhecemos a mãe suficientemente boa, que oferece ao bebê condições para desenvolver seu potencial de vida. Sim, nascemos com um potencial e necessitamos de um espaço, onde possamos dar continuidade a esse desenvolvimento. Esse espaço é conquistado na relação mãe-bebê, mas não podemos esquecer que se faz necessária a presença de objetos e experiências culturais significativas para o amadurecimento. Se houver a ausência dessas experiências tão necessárias, o desamparo pode se instalar.

Voltando ao personagem de Nova Heloisa, que traz o contraste entre a pureza da vida – em contato com a natureza – e a corrupção da sociedade urbana; Rousseau apresenta o sentimento de embriaguez de Saint-Preux ao se defrontar, pela primeira vez, com a agitação e tumulto de Paris. Por vezes somos invadidos por esse sentimento frente ao ritmo alucinado da “cidade que nunca dorme” e da violência presente em seu dia a dia. Cotidianamente, vamos mantendo uma relação desumanizada com a cidade, tornando-nos desconectados das pessoas, do meio e de nós mesmos. O desamparo que experimentamos com essa desconexão pode nos paralisar. Passamos a sobreviver, e não mais viver todo o nosso potencial de vida.

Será que assim como Saint-Preux, estamos perto de esquecer quem somos, ou qual é o nosso lugar?

 

Adriana Casagrande é membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e especialista em Psicoterapia Psicanalítica pelo CEPSI

Rita Andréa Alcântara de Mello é membro filiado do Instituto Durval Marcondes da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e membro do Departamento de Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.