Precisamos estar mais próximos de nós mesmos

Luiz Tenório Oliveira Lima mantém, em sua mesinha de cabeceira, um tomo de (ou sobre) Sigmund Freud, o pai da psicanálise, outro do francês Marcel Proust e um terceiro do poeta inglês W. H. Auden – porque, para ele, “razão e emoção não são incompatíveis”. Nestes tempos de isolamento social forçado pelo coronavírus, ambas precisam se equilibrar. Psicanalista, médico psiquiatra, escritor, professor e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Tenório também pode ser visto na Casa do Saber – não neste momento de quarentena. Lá, ele já ministrou cursos a respeito de a razão e a emoção andarem juntas, para que as pessoas possam enfrentar o presente distópico, o futuro freudiano e… a melancolia, a doença da bile negra, segundo Hipócrates. O remédio para a sensação de vazio e de estar em busca de um tempo perdido? Manter uma rotina de cuidados com a mente (“Tom Jobim aguçava a imaginação lavando a louça”) e disciplina – “a mesma que muita gente tem quando faz exercícios por conta própria”, afirma.

Tenório defende que aqueles que estão em análise continuem por vias digitais, como o WhatsApp, por exemplo, com o qual vem atendendo seus pacientes. A histeria, em muitos casos, parece investir sobre pessoas menos conectadas às suas emoções. “Essa falta de conexão leva à sensação de onipotência, e quando uma pessoa assim se vê confrontada com a realidade de estar só, geralmente entra em pânico”.

Auden, o poeta, perguntou certa vez: “O que fará o homem capaz de assobiar na solidão?”. Pois o freudiano Luiz Tenório tem algumas respostas. Aqui vão trechos da entrevista.

Como combater a angústia que surge em momentos como este, forçados a uma quarentena e com medo do novo coronavírus?
Em um momento como este, as angústias são ativadas em todos nós. Angústias antigas, de desamparo, de medo, de medo da morte. Grande parte das pessoas têm algum tipo de convivência, de contato, com essas angústias. Mas muitas outras não têm. São pessoas cujas angústias estão postas de lado, como se fossem negadas, em nome, talvez, de um sentimento de que a pessoa é inexpugnável. Essas pessoas, sem treino com a própria angústia, quando se encontram em situações como atual, assumem uma proporção, às vezes, histérica, excessiva. Excessiva no sentido de que a pessoa não percebe que a fatalidade existe, e que as limitações podem existir de maneira inexorável.

Essas limitações desencadeiam um certo desequilíbrio entre razão e emoção?
A questão que precisa ser posta é que razão e emoção não precisam ser incompatíveis. Se a razão aceita as emoções, se aceita o coração, como se diz, então se estabelece um contato com essas emoções. Quando a razão não aceita a emoção, então, por trás dessa razão, se esconde um sentimento terrível, que é o da onipotência. Quando uma pessoa que se imagina onipotente se vê confrontando a realidade, ela geralmente entra em pânico.

As pessoas estão em pânico por estarem enclausuradas ao mesmo tempo que não conseguem prever o futuro ou não?
Uma explicação possível diz respeito a isso, sim. A pessoa não tem o devido treino com as próprias emoções. O que significa isso? Para usar uma linguagem comum, o treino com a emoção acontece quando a pessoa, todos os dias, entra em contato com essa emoção, com os seus sentimentos – para que a razão, isto é, todo o aspecto racional dessa pessoa, possa acolher esses sentimentos. O que vemos em momentos como este é que um grande número de pessoas não tem esse treino e acaba “perdendo” o sentimento de onipotência, de invulnerabilidade. E isso é muito crítico.

Por quê?
Porque a pessoa acaba ficando alheada de si mesma, que é o pior tipo de alheamento. Você pode ser alheio a tudo, mas não de si mesmo. Caso contrário, esse feixe de emoções que cada um carrega fica sujeito, em determinadas situações, ao pânico. Em uma situação como esta da covid-19, que é muito grave, pelas consequências econômicas e pessoais, desestabiliza as pessoas. Se você não tem dentro de si algo estável, fatalmente vai se desesperar.

Tem mantido seus pacientes com sessões virtuais?
Estou trabalhando com quase todos os meus clientes por WhatsApp, cada um na sua casa. E esse contato faz todo o sentido. As pessoas estão com medo. E, quando estamos com medo, esse contato é fundamental. Estar em contato garante uma espécie de consciência de si próprio.

Como o senhor encara o seu trabalho, quando atende pessoas incapazes de entrar em contato com as próprias emoções?
Infelizmente, isso ocorre com frequência, ou com mais frequência do que se imagina. Muitas pessoas dizem “mas eu sou analisado”, “eu fiz análise tantos anos”. Mas isso não significa que desenvolveram o contato com as emoções. Porque uma terapia pode contribuir para o restabelecimento de uma pessoa em situação de crise pessoal, por exemplo. Mas, dependendo do caso, isso pode até reforçar nela o sentimento de onipotência, a menos que continue na análise. Isso eu posso dizer pela minha experiência, pelo tempo de trabalho. Análise não é coisa fácil, requer disciplina, requer que a pessoa se comprometa a ir às sessões. E nem sempre ela quer ir.

Só funciona quando o cliente/paciente passa a gostar da terapia?
Quando ele percebe que seus esforços estão enriquecendo sua experiência, quando ele se interessa pela análise, passa a se interessar também pela própria mente. Por exemplo: neste momento de confinamento, de isolamento, uma pessoa que tem a capacidade de conviver com a própria mente tem muito mais ferramentas para se proteger.

É como o trabalho do personal trainer para as pessoas que querem entrar em forma?
Essa é uma analogia muito boa. O personal te ajuda, há contato seu com os movimentos e o dinamismo do seu corpo, a flexibilidade e tudo mais. Com a terapia é a mesma coisa. Corpo são é sempre bom, mas a mente precisa de muito mais cuidados do que o corpo.

Como encarar este momento de quarentena?
É tudo questão de disciplina. Funciona para o corpo e funciona para a mente. E ter as ferramentas mentais certas. Por exemplo, em uma das últimas entrevistas do Tom Jobim, na casa dele, um jornalista perguntou como era seu ritual para compor. Ele respondeu: “Olha, uma das coisas de que mais gosto é lavar louça. Quando preciso de ideias, vou para a pia da cozinha. Começo a lavar alguns pratos e a minha imaginação voa”. Ou seja, se a pessoa tem o recurso mental, se valoriza a própria mente, imediatamente ela vai ser criativa, vai ter devaneios, vai usar a imaginação. Isso é possível para qualquer um de nós, contanto que tenhamos essa condição. Lembro-me de que o jornalista ficou um pouco desapontado, porque esperava que o Tom respondesse com poesia. Mas não. Bastavam algumas bolhas de detergente.

O ferramental ajuda, não?
Principalmente para evitar a histeria, o pânico, que são frutos do sentimento de onipotência. Que também é uma sensação de desamparo. Essa palavra é perfeita. Todos somos desamparados quando nascemos, mas recebemos amparo dos nossos pais, da família, das pessoas em torno. Então, nossas angústias encontram acolhimento. Quando crescemos, o desamparo se torna bem maior, porque não tem mais pai, não tem mais mãe. Podem estar vivos, mas não estão mais lá para nos acolher, pois nossas questões se tornaram por demais pessoais, e acabamos nos sentindo sozinhos.

Daí a necessidade do treino da mente e da terapia?
É preciso aprender a aceitar a dor, a amar a dor. Caso contrário, você se torna vítima do desamparo. Porque você não suporta, você tende a achar que a dor lhe é imposta de fora, por uma circunstância, pelo vírus, por exemplo. Não é o vírus que impõe às pessoas a dor mental, essa dor está presente o tempo todo na nossa mente.  O vírus está deixando muita gente sem dormir, com medo do desemprego e da paralisação da economia.

O que é fundamental para o ser humano?
O sono. Aliás, hoje isso é consensual entre os próprios médicos: o sono é a base, porque é a partir do sono que se sonha, e o sonho tem uma função mental importantíssima para estabilizar a pessoa, ou seja, tem uma base química também.

A mídia tem ajudado as pessoas nesse período difícil?
Acho que sim. Tenho visto muitas entrevistas com infectologistas, epidemiologistas, gestores da área de saúde, psicólogos, todas muito boas. Porque há muita necessidade de informação e ela precisa chegar às pessoas com uma linguagem que seja inteligível.

As pessoas hoje, ante as redes sociais, estão mais distantes de si mesmas?
Cada vez mais distantes. E a questão é que todos nós precisamos (ou precisaríamos) estar mais próximos de nós mesmos. Toda tecnologia, com as redes sociais, distancia a pessoa dela mesma. E isso é muito ruim. Não tem a ver com egoísmo, mas com sanidade, proteção. Uma pessoa só se é capaz de enxergar a outra quando consegue enxergar a si mesma.

Foto: Casa do Saber

PSICANÁLISE EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS

* Dora Tognolli

  • The storm will pass … and… each one of us?

Torna-se bastante difícil escrever algo no auge da pandemia, no auge da semana em que novas práticas estão nos desafiando. Inexoravelmente, somos “bypassados” pela dinâmica dos fatos externos e de nossas próprias elaborações que não param de nos invadir, pelo bem e pelo mal, mesmo porque muitos pensamentos ativados pela situação traumática não acabam sendo boas companhias…

Nesse momento, tenho o privilégio de estar acompanhada de outros pensamentos, de psicanalistas, jornalistas, escritores, economistas, humoristas, cronistas, familiares, amigos frequentes e atuais, e os que retornaram das nuvens dos tempos em busca de contato. Minha reflexão não é só minha: fruto de uma colagem que está sendo útil, fazendo boa companhia.

  • Isolados…mas não sozinhos!

Curioso o nome que demos a essa temporada forjada pelo Covid-19: isolamento. Cada um no seu pedaço, comprometido em não disseminar a peste, não transmitir e nem ser alvo da transmissão, mas muito conectados, em uso pleno das modernas tecnologias de redes. Alguns de nós reconhecemos que estamos usufruindo bastante, dos dias calmos, da parada da desmesura e do excesso, das paisagens desertas e silentes. Tudo parou: será? Se alguém pudesse capturar o movimento das nuvens e ondas de transmissão, teríamos um espetáculo colorido e pulsante sobre nossas cabeças.

  • Fazer nada … não parece uma boa escolha…

Ficar em casa, sem sair, com todo o tempo para si… pode ser perigoso…Pode convocar o pecado da preguiça no seu sentido mais nefasto: cansaço psíquico, apatia, desinteresse… melancolia…Não estamos em férias, portanto, há trabalho. Não o trabalho na estreita acepção capitalista, atrelado à produtividade, grana, ambição, acúmulo, competição. O sentido freudiano de trabalho cabe bem aqui: trabalho do sonho; trabalho da memória: alude a um processo interno intangível, que põe em movimento o sistema psíquico, em conversa dentro, fora, consciente, inconsciente, presente, passado, fantasia, realidade, o eu e o outro. Momento de uso criativo de ferramentas que estavam adormecidas em nós, muitas vezes, massacradas pela visão estreita de trabalho que nos acompanha. Convite a cozinhar, ler, arrumar a casa, dialogar, contar estórias, exercitar os músculos, tocar piano, aprender um idioma online, atender pacientes etc.

  • Não estamos em tempos normais… estamos em regime de exceção…

Sim: exceção tem parentesco com trauma, com estímulos de magnitude e tempo de existência incomensuráveis. Racionalmente, ok: somos obedientes, marcados por solidariedade e cidadania, mas essa insegurança deixa restos enigmáticos, que não entram na corrente de ideias e se manifestam de formas insidiosas. Angústia, sim: muita angústia. Angústia que busca expressão, vira medo: medo de falir, de deprimir, de não ter comida em casa, de perder nossos pacientes, de contaminar os mais idosos de nossas famílias, do Bolsonaro, dos generais, do Trump, do Posto Ypiranga, do desgoverno, anterior ao vírus…

Desamparo. Ódio. Depressão. Juntos e amalgamados. Com certa dose de esperança e calma, não podemos esquecer…

Nesse momento, parece que a solidão não é uma boa companhia: pode chegar com seus polos de onipotência (Não conto com ninguém! Nem preciso!) ou de impotência, em que o desamparo dá sinal de vida. Em conjunto, em comunhão, parece que unimos nossos conhecimentos dispersos e fragmentados, e que podem propiciar uma organização social, ares civilizatórios diante do caráter implacável da natureza: agora do vírus e de certos representantes do poder que não participam desse possível refúgio civilizatório.

O filme “Melancolia”, de Lars von Trier, é aqui lembrado: curiosamente, o personagem mais racional, mais informado, o geômetra, diante do caos, sucumbe: acaba se suicidando, deixando a fortaleza segura onde vivia com sua família. Nosso lado onírico, mais louco e caótico, pode nos fazer bem, num momento onde os instrumentos tradicionais de controle falham…

  • Esquecer/ neutralizar a ignorância e o obscurantismo

Em se tratando de Brasil, além do vírus, nosso outro inimigo está encalacrado no Governo, na figura do Presidente, que nos apresenta outra classe de vírus, cujos sintomas são o obscurantismo, o ódio, o desrespeito, a irresponsabilidade. Parece que estamos sendo criativos, na medida do possível, e coletivamente, manifestando nas varandas, nos panelaços, nossa desobediência e protesto diante de uma figura que não merece nosso respeito. Vamos continuar nossos levantes, contando que outros representantes políticos ignorem cada vez mais este ser abjeto, derretendo seu lugar e decretando simbolicamente sua inexistência. Onipotente, essa ideia, mas esperançosa: levantes são assim…

  • Ao trabalho

Muitos de nós precisamos trabalhar, queremos trabalhar, em todos os sentidos, e estão pedindo nosso trabalho. Em outros moldes, outro setting, outra dinâmica. E agora, José? Mais uma vez, estamos sendo convidados a nos reinventar e permanecer com nossas ferramentas ativas. Por todas as questões anteriores, nossa profissão tem utilidade pública, nossa conversa acessa os mais recônditos lugares de desamparo e angústia. Muitos colegas já trabalhavam em modo virtual, e sua experiência pode nos ajudar a repensar as práticas. Porém, este momento tem um ar especial, porque não se trata de escolha, mas a única forma de não paralisar o trabalho das análises. Hoje, na cidade de São Paulo, o Estádio do Pacaembu, bem como o Parque Anhembi estão se transformando em “hospitais de campanha”, metáfora interessante, onde as condições ideais não podem estar presentes, mas a iniciativa garante que médicos trabalhem e pacientes sejam atendidos, num espaço de acolhimento, ética e respeito.

As instituições possuem protocolos e normas que pautam os ofícios. No caso da nossa Instituição, é a IPA que rege essas normas, às quais estamos todos submetidos. Mas, por se tratar de um momento de exceção, a manutenção da prática, a meu ver, deverá ser propiciada por uma conversa em tempo real entre profissionais e órgãos reguladores. O analista experiente, numa época de exceção, talvez não seja apenas o mais velho, mais titulado e reconhecido: esse também precisará dialogar com seus pares, na tentativa de manter o atendimento sem prejuízos do ponto de vista da ética e da confiabilidade.

Além do método psicanalítico (livre associação – atenção flutuante, que depende de dois na sala, física ou virtual), ferramenta que aprendemos a cultivar e aperfeiçoar, o momento nos convida a pensar com cuidado nos dispositivos de segurança que precisaremos usar, e também que nossos pacientes utilizarão.

Estas semanas serão um grande laboratório para todos nós, em que definiremos os horários, as plataformas (Skype, WhatsApp – voz apenas, ou imagem e voz, Zoom, Hangouts, telefone celular ou comum) e se há resistências intransponíveis de certos pacientes, e de certos analistas, diante desse novo setting virtual.

  • Tem adulto na sala…

Gostaria de compartilhar algumas experiências bem recentes: quando meu consultório se transformou em virtual, uma vez que encerrei os atendimentos presenciais no dia 18 de março, experimentei um enorme cansaço, após um dia de trabalho virtual, em modalidades variadas: voz, imagem, ambas, troca durante o atendimento por falha na transmissão. Algumas questões surgiram: a necessidade de espaçar mais os horários e flexibilizar opções para pacientes que estão em casa como eu. Alguns, com dificuldades enormes em manter um espaço privado, em função de suas pequenas moradias, e presença da família o tempo todo em conjunto. Eis aí uma questão operacional, nem tão difícil de resolver, que merece tempo e atenção.

A outra questão diz respeito ao momento em si, traumático e assustador para os dois: paciente e analista. Notei que foi um tanto quanto difícil sair do tema da pandemia, e possibilitar o estranhamento necessário ao encontro analítico, acessando os lados mais enigmáticos do paciente. Na pandemia, nos irmanamos, nos solidarizamos, nos familiarizamos com o paciente, e assim, ficamos mais distantes do dispositivo do método. Enredados nas conversas que ambos ouvimos, ficamos duas crianças na sala, desamparadas, em busca de um adulto, não necessariamente o “sujeito suposto saber”, mas aquele que acompanha a longa jornada ao mundo interno, que muitas vezes não tem as respostas nem as certezas, mas propicia a viagem.

Outra experiência significativa foi o apoio em redes de colegas, em reuniões virtuais, onde pudemos falar da experiência recente, numa espécie de supervisão horizontal, colocar nossas angústias num espaço ético e colaborativo.

A conversa continua, a pulsão não sossega, exige trabalho…

Dora Tognolli é psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) e mestre em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (USP).

Quando tudo isso passar, vai precisar de um outro carnaval!

Mariangela O. Kamnitzer Bracco

Com essa frase bem humorada Alice se despediu de mim. Durante a sessão havíamos combinado de começar nossa quarentena analítica e prosseguir, se possível, online. Uma experiência nova para nossa dupla antiga. O tom alegre da despedida me animou, e me senti cheia de boas perspectivas; não só para o prosseguimento dessa análise, como também para os dias vindouros, que até então me pareciam totalmente sinistros e sombrios.

A necessidade de recolhimento exigida pelo coronavírus implicou em inúmeras mudanças em um ano que já começava a tomar ritmo. E assim, semana passada, vi-me despedindo também de outros pacientes, de colegas de seminário, de grupos de trabalho, de familiares e amigos. E, last but not least, do meu analista. Ainda que o mundo virtual acenasse promissor, tudo aconteceu de forma rápida e avassaladora. E essa, penso ser a crueldade desse vírus; a velocidade e a forma insidiosa com que se espalha e que não dá tempo. Tempo para que os doentes sejam tratados e não se acumulem nos hospitais. Tempo, essa matéria prima fundamental no trabalho psíquico.

Nessa semana caótica, terminei uma sessão dizendo para meu analista: sem surto e sem surtar. E esse seria o mantra a ser entoado. Outra medida protetiva foi refugiar em meu narcisismo e me acalmar pensando que não pertencia ao grupo de risco. Mas vi em mim, em meus pacientes e em todos ao meu redor, fortes angústias emergirem. Angústias despertadas pelos ameaçadores fatos recentes que, de alguma forma, reavivavam angústias passadas, da história pessoal e coletiva.

Assolada por meus fantasmas persecutórios, recorri aos diários de Helene Lilly, minha avó judia-alemã.  Em 1938, morando em São Luís do Maranhão, ela escreveu com muita precisão e perspicácia sobre a crescente brutalidade dos nazistas, que tanto sofrimento infligiram também a nossa família. Depois dessa leitura, e, inspirada em Helene, desejei uma serenidade lúcida e decretei: não, não se trata de uma terceira guerra mundial – o vírus com todas mazelas sociais que promete acarretar, não vai ser tão devastador. Mas, metáforas de guerra, de hecatombes, de zumbis vagando pelas ruas povoavam o imaginário. Bruno Profeta, nosso colega, desabafou no grupo de WhatsApp da DC: “só rindo pra aguentar esse clima de mistura entre o Ensaio sobre a Cegueira e The Walking Dead…” Sim, o humor poderia ser um precioso aliado.

Minha angústia depressiva se manifestou quando corajosamente decidi sair do meu bunker para resgatar no consultório minhas plantas, alguns livros e o álcool gel que, no movimento de fuga, haviam ficado para trás. O prédio vazio, com apenas dois carros na garagem, me encheu de tristeza, não vi ninguém. Tudo muito unheimlich! Voltando para casa me senti mais aliviada, pois havia vida e uma família reorganizando sua rotina, com novos tempos, novos espaços.

Assim, com a ajuda da análise pessoal, com a confiança de ser neta de Helene, e no compartilhamento com os colegas e amigos, fui acalmando minhas angústias e tecendo uma narrativa para esse acontecimento inédito, chamado por muitos de peste. Outro ponto de apoio fundamental tem sido as supervisões com Sandra Schaffa, onde vemos que não bastam os cuidados sanitários, pois o vírus insidioso também pode vir de dentro. Fortalecida, penso estar trabalhando com muita disposição e desenvoltura no meu novo consultório/casa-online.

Hoje, Alice compareceu a sua segunda sessão nesse novo ambiente. Bastante alegre contou que ontem arriscou fazer um passeio e, na padaria, encontrou um andarilho que já havia visto algumas vezes antes. Ele se vestia de boiadeiro, com chapéu de cowboy e tudo. Ficou intrigada, quis conversar com ele, mas limitou-se a observar. Ele recebeu o pingado e o pão na chapa que pedira ao dono do estabelecimento. É uma figura popular, muito querida. Conversamos sobre a liberdade desse homem de vaguear e viver seu personagem sem constrangimento, numa cidade asfaltada e sem boiadas.  Alice que gosta de escrever e escreve lindamente, pensa deixar o emprego na empresa da família e lançar-se como escritora. Falamos sobre sua liberdade de escrever, de ser como esse andarilho muito bem acolhido pelo seu entorno. Mas, ao contrário dele, verteria suas fantasias em personagens e enredos a serem compartilhados.

Na sequência, Alice falou com apreensão de seus pais que ainda estão nos Estados Unidos, e com dificuldade de retornar ao Brasil. O seguro-saúde deles não cobre pandemias e a volta possível, requer um pernoite em Nova Iorque, hoje, a cidade-epicentro da doença, cujo sistema de saúde ameaça colapsar. A alternativa seria permanecer na cidade onde estão, na casa de uma irmã da igreja – mas aí havia o desconforto de ficar um longo tempo em casa alheia. Bela metáfora, e lhe digo minha percepção do seu impasse, entre ficar abrigada e protegida num lugar que não é seu (a empresa) ou voltar para o território em que se reconhece e se sente confortável: a escrita.  Contudo teria que passar por uma zona de risco, para a qual não havia proteção (cobertura do plano de saúde). Toda essa conversa se deu num contexto de muita soltura e mobilidade, dela e minha, no divã online. Penso que Alice já fez sua escolha. Agora é aguardar.

O que posso afirmar é que eu fiz a minha: sair da zona de conforto, abandonar o terreno dos grandes autores e publicar esse texto muito intimista. Quanto risco !

Antes de encerrar, relato aqui parte da conversa fluida e alegre que ocorreu via WhatsApp por ocasião da interrupção do seminário de Lacan. Havia pedido ao nosso colega e poeta Ricardo Biz, que nos enviasse um poema inspirador para os dias que se seguiriam. E, após algum tempo, ele respondeu: “Aceitei o desafio. Aí vai:”

O Agora é um alambrado

Que aprisiona meu vento,

Um vento nunca rumado,

Sem fim e sem nascimento.

Marilsa Taffarel, nossa querida coordenadora, que habilmente nos conduz por meio dos instigantes labirintos de Lacan, reagiu: “Ricardo, inspiração à prova de coronavírus!” E sem perder o gingado lacaniano acrescentou: “Bons tempos em que corona era uma marca de chuveiro! Lembra?”.  Ymara Victolo, por sua vez, concluiu: “Boa, Ricardo! Não aprisionou a liberdade de criar e pensar!”

Eu termino meu texto, desejando que esse período de recolhimento seja de muita libidinização e vitalidade. As próximas semanas serão muito duras. Precisamos reforçar nossa imunidade com fortes laços coletivos para resistir.  Resistir, não só ao vírus, mas também a toda uma politica ensandecida que não valoriza a vida humana. É hora de convocarmos Eros e realizar um pacto civilizatório, onde prevaleça a justiça e a fraternidade. Agora, juntos, cantemos o refrão: “é preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte!”

Quero citar as outras colegas que compõem o precioso grupo de Lacan: Alice Paes de Arruda Barros, Ana Maria Rosenzvaig, Fernanda C. S. Colonnese e Maria da Penha Lanzoni. Quero expressar também minha gratidão para a Ana Maria, que foi generosa interlocutora na realização desse texto. Sem seu incentivo, eu não o teria escrito.

 

* Mariangela O. Kamnitzer Bracco é psicanalista, membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

 

Caros Membros da SBPSP e Membros Filiados ao Instituto

Estamos vivendo um momento pleno de incertezas e inseguranças em múltiplos aspectos de nossas vidas. As medidas práticas tomadas por governos, estados, autoridades embora importantes e necessárias atendem a uma parte das demandas necessárias para conter a vertiginosa velocidade de contágio da pandemia que nos assola.

Como psicanalistas sabemos que a incerteza, o medo e a insegurança têm ressonância com angústias primárias e o nosso desamparo constitutivo e demandam também outras modalidades de contenção. O melhor e o pior da humanidade emergem nestas horas. Estamos acompanhando de perto o esforço dos colegas analistas e também dos analisandos no Brasil e no mundo, para manter as condições de escuta e de trabalho psicanalítico nas condições que a cada um lhe é possível.

O momento não é de heroísmo onipotente, mas também não de um niilismo catastrófico. Acredito que todos nós estamos cientes da importância de estarmos disponíveis para nossos analisandos, seja de modo presencial quando possível ou pelas ferramentas remotas ao nosso alcance.

Reconhecemos que em momentos como estes surgem dúvidas e inseguranças no modo de conduzir nossa tarefa analítica. Muitos nunca praticaram análises remotas, outros se interrogam sobre a possibilidade e dificuldade do trabalho com crianças nestas condições as perguntas são muitas.

Todos nós temos colegas e amigos analistas com quem podemos compartilhar as experiências, intercambiar ideias, manter um diálogo sincero e exercer um pensamento analítico vivo. O importante é que estejamos unidos como grupo e instituição, embora isolados fisicamente, de modo algum o estamos emocionalmente.

A solidariedade entre todos e para com o conjunto da sociedade são fundamentais para enfrentar o sofrimento psíquico, físico e econômico ao qual estamos todos sujeitos.

Um afetuoso e solidário abraço a todos,

 

Bernardo Tanis

Presidente da SBPSP

 

Pandemia do coronavírus, epidemia de pânico e a evolução da humanidade

Observatório Psicanalítico – 150/2020  

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo

*José Martins Canelas Neto

 

A meu ver a questão decisiva para a espécie humana é de saber se, e em que medida, a sua evolução cultural poderá controlar as perturbações trazidas à vida em comum pelas pulsões humanas de agressão e autodestruição. (Sigmund Freud, O mal-estar na civilização, 1930)

​Vivemos uma epidemia de pânico desencadeada pela grave pandemia do coronavírus. Diante da angústia de morte e das incertezas quanto à doença, o pânico aparece entre as pessoas e as reações são as mais variadas. Uma delas é a negação do problema. Vemos isso em todos os países, nos quais as pessoas minimizam o problema e não tomam os cuidados recomendados pelos especialistas e pelos sistemas de saúde, frequentando lugares com aglomeração de pessoas como bares, restaurantes, cinemas, shows, manifestações públicas, etc. De forma semelhante vemos reações de rebeldia, violência, segregação de pessoas que poderiam estar infectadas.

Já entramos numa crise mundial desencadeada por essa pandemia que apesar disso, paradoxalmente, pode nos ajudar a pensar e, quem sabe, começar a mudar nossa visão sobre esse mundo em que vivemos hoje.

Atravessamos um momento histórico sombrio da humanidade, no qual certas políticas e ideologias discriminatórias estão em ascensão; o conhecimento e a ciência são atacados, mesmo após as importantes lições que outras epidemias, o holocausto e outros genocídios nos deram.

Esse quadro é particularmente grave no Brasil onde observamos uma enorme regressão no que concerne nossa consideração e reconhecimento do outro como nosso semelhante, manifestações violentas, desqualificativas e de descaso e ódio em relação aos mais desfavorecidos e àqueles diferentes de nós.

Agora fica claro o que Freud já mostrou quando, a partir de 1920, no pós-Primeira Guerra Mundial, reformulou sua teoria das pulsões, introduzindo o novo dualismo pulsional: pulsão de vida e pulsão de morte. No texto Psicologia das massas e análise do Ego, e em outros textos, nos mostrou o quanto o ser humano tem nele, em seu âmago mais profundo, a possibilidade de destruição de si mesmo e dos seus semelhantes.

Todos nós estamos sendo forçados a aprender que só sobreviveremos enquanto espécie se realmente levarmos em consideração o outro. Não só o outro ser humano, mas os outros seres vivos e nossa mãe Terra. A ganância e o egoísmo, fomentados pelo “narcisismo das pequenas diferenças”, estão nos levando para a real possibilidade de destruição de nosso planeta e de nossa espécie.

Quando vemos no Brasil e em vários países as pessoas apresentando um comportamento, estimulado pelo pânico da morte, de completa desconsideração pelo ser humano próximo, enchendo os carrinhos nos supermercados de maneira irracional, tentando a todo custo levar vantagem sobre os outros, ficamos tristes e muito preocupados com o nosso futuro enquanto espécie. Mas talvez essa pandemia nos propicie indiretamente a oportunidade de refletir com nosso coração e exercer nossa capacidade de amar a vida e respeitar cada ser vivo.

A ameaça à vida pela pandemia não faz distinções de classe, de cor, de gênero, enfim das singularidades de cada um. Todos estamos ameaçados. Mesmo as classes mais favorecidas, num piscar de olhos, poderão se tornar discriminadas, por exemplo se não houver mais leitos de UTI nos melhores hospitais privados. De nada adianta estocar papel higiênico se o sistema de saúde não conseguir dar conta do atendimento das pessoas que necessitarem, sejam elas ricas ou pobres, homens ou mulheres, qualquer que seja seu gênero, cor ou outra singularidade.

Nossa sociedade baseada no individualismo, no lucro desenfreado, no consumismo sem limites, por vezes de produtos extremamente fúteis, essa sociedade será obrigada a ver que a natureza é mais forte, que um simples ser vivo como um vírus pode acabar com nossas vidas rapidamente. Esse é o momento em que será preciso mais do que nunca desenvolver nosso senso do coletivo, nossa solidariedade e nossa civilidade. Cada vida é um milagre precioso e deveríamos honrá-la e ter responsabilidade e respeito com ela.

No mundo atual, no qual a tecnologia nos permite conseguir tantos progressos, passamos mais tempo nos celulares, mergulhados em nosso universo narcísico individual, do que no cuidado com o outro, com o afeto e o amor pelo ser humano próximo.

Precisamos refletir como dispomos de nosso tempo. Que escolhas fazemos para usufruir de nossa vida. Paradoxalmente agora, com essa pandemia, só poderemos nos relacionar pelos meios virtuais. A necessidade premente do isolamento social vai nos mostrar, assim espero, o quanto o outro humano é importante. Será que conseguiremos aprender a fundamental lição de que o respeito e a responsabilidade pelos outros são essenciais para nosso futuro e o do planeta?

Espero que sim! Mas nada é certo. Estamos em um momento de profunda incerteza e precisamos aprender a lidar com ela. É preciso respirar profundamente e acolher uma nova maneira de pensar e ser criativo diante dessas limitações cotidianas que nos estão sendo impostas, podendo transformar então nossa organização da vida e das relações. O vírus nos mata pela impossibilidade de respirar, mas também pela nossa dificuldade de enxergar o outro em sua semelhança e humanidade, nos tornando irracionais e propagadores da morte. É o momento de nos elevarmos enquanto seres de luz e razão e não sucumbirmos ao que há de mais baixo em nós!

O momento do sobreviver é o momento do poder. O horror ante a visão da morte desfaz-se em satisfação pelo fato de não se ser o morto. Este jaz, ao passo que o sobrevivente permanece em pé. […] A forma mais baixa do sobreviver é o matar. (Elias Canetti, Massa e poder, 1960)

 

*José Martins Canelas Neto é psicanalista; membro e secretário geral da SBPSP.

 

**Uma versão deste texto está publicada no Observatório Psicanalítico no site da FEBRAPSI. Clique aqui.

Transformações na era digital, criação de um “inconsciente virtual”?

* Patrícia Cabianca Gazire

Hoje, nós não mais acessamos a Internet – vivemos dentro dela. Mas como o mundo digital afeta nosso modo de vida? Há mudanças criativas em nossa maneira de pensar decorrentes do convívio com a Internet? Usamos a tecnologia para estar mais próximos de quem amamos? Ou ela nos estimula a ficar fora do convívio social? Afinal: a realidade virtual estimula ou nega uma vivência no mundo real?

Os avanços tecnológicos ampliaram o espaço dialógico do ser humano, de modo a permitir conversas com pessoas em vários locais do mundo. Entretanto, nessas conversas, dialogamos não apenas com seres humanos, mas com um elemento outro – os algoritmos: núcleos de inteligência que não são mais humanos.

Os algoritmos são fórmulas matemáticas usadas pelo sistema de inteligência artificial para resolver problemas por meio do estabelecimento de relações de analogia e semelhança. Eles criam e armazenam um conjunto de informações sobre nós mesmos sem que tenhamos consciência. Essas informações são coletadas não mais a partir do que fazemos conscientemente, mas a partir do que fazemos sem saber: usos habituais dos smartphones, gestos detectados por meio dos tabletes, gostos e paixões extraídos de postagens ou conversas trocadas na pelas redes sociais na Internet. Ou seja, os algoritmos acabam nos conhecendo melhor do que nós mesmos.

O deslocamento da noção de si mesmo para além da consciência deixa de ser um fenômeno novo para o pensamento ocidental a partir do fim do século XIX, início do XX. Freud sintetizou e trabalhou o conceito de inconsciente, e deslocou a noção do “si mesmo” para além dos aspectos conscientes do psiquismo. Em seu texto “O Inquietante” (1919), o autor elabora a hipótese do inconsciente discutindo a experiência do “duplo”. A partir de um exemplo autobiográfico em que vê no vidro do trem a imagem de um estranho para em seguida se dar conta de que se tratava do reflexo dele mesmo, o autor exemplifica uma das maneiras do inconsciente se exprimir. Parte da ideia da ação do recalque, mecanismo de defesa que isola os conteúdos inconscientes em um núcleo pulsional – o id. Em determinados momentos da experiência cotidiana, certos conteúdos escapam ao recalque e atingem a consciência.

No caso do fenômeno do “duplo”, trata-se de uma vivência primitiva anterior ao surgimento do eu, mas que está em sua essência. É uma vivência especular, em que o eu ainda não formado encontra uma organização em sua relação com o outro (o primeiro objeto de cuidados, a mãe, o adulto), mas sem ainda dele se diferenciar. Mais precisamente, uma síntese do eu é dada pelo olhar do outro e pelo investimento de desejo que o “outro” faz no “eu”, a fim de que ele se torne “um” (a sensação de que se é inteiro, de uma identidade do eu).

Essa vivência primitiva do “duplo” ou de ser “dois” em “um”, antes de se separar em uma identidade definida, é recalcada e armazenada no inconsciente. Ela se aproveita de uma “falha do recalque” para, na vida adulta, se apresentar como projetada “fora do eu”, já que não pertence mais ao aparato de vivências identitárias do eu mais desenvolvido. Diante dessa visão de um “outro” que está fora de mim, mas que, na verdade, sou “eu mesmo”, o sujeito tem a sensação de um estranhamento que lhe é, ao mesmo tempo, familiar, o que Freud chama de “inquietante” (Unheimlich).

O fenômeno do “duplo” exemplifica bem o funcionamento do inconsciente – ligado à possibilidade de fantasiar, de criar o mundo ficcional, de se saber separado do mundo real pela linguagem.

A pergunta que fazemos a nós mesmos diante do armazenamento de informações pelo algoritmo e do controle de informações por analogia é: não estaria sendo criado um “duplo” real, e não imaginário, na medida em que esse armazenamento de informações sobre mim, fora de mim, e que eu desconheço ocorre de fato, e não é apenas parte do mundo imaginário e da fantasia? Em decorrência disso, há que se perguntar se a realidade virtual não estaria criando, através do armazenamento e seleção de informações algorítmicas, uma espécie de “inconsciente virtual” que é, de fato, real e provoca uma quebra na discriminação entre realidade e fantasia para alguns sujeitos já vulneráveis no que diz respeito à noção de si.

Enquanto avançamos para o futuro, corremos atrás de algo que nos acompanha desde nossa pré-história: a necessidade de inventar histórias (fantasias, narrativas) e de contá-las e ouvi-las de outras pessoas. Com ou sem realidade virtual.

 

Referências bibliográficas:

ENJOLRAS, F. Gare à ces ‘algorithmes qui pourraient finir par nous connaître mieux que nous nous connaissons nous-mêmes’. Le Monde, 26.12.2017.

Disponível em https://www.lemonde.fr/sciences/article/2017/12/26/gare-a-ces-algorithmes-qui-nous-connaissent-mieux-que-nous-memes_5234390_1650684.html. Consultado em 14.11.2019.

 

FREUD, S. “O Inquietante” (1919); O homem dos lobos e outros textos. Obras Completas. Organização e tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, volume 14.

 

* Patrícia Cabianca Gazire é psicanalista e escritora, membro associado da SBPSP. É Professora Afiliada do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP/EPM. Mestre em Saúde Mental pelo Departamento de Psiquiatria da UNIFESP/EPM. Doutora em psicanálise pela Université Paris Diderot (Paris 7), com dupla titulação no Departamento de Psicologia Social da USP. Doutoranda em Escrita Criativa na PUCRS. Autora do livro “Objeto, modo de usar: construção de objeto na psicanálise de pacientes borderline” (Blucher, 2017).

 

 

 

A Psicanálise, um estranho no ninho

*Luís Carlos Menezes

Freud não é Dali. Quando o movimento surrealista, sob a batuta de André Breton (1896-1966), declarava com ardor sua afinidade com as ideias desenvolvidas por Sigmund Freud, em particular em relação aos sonhos, o jovem médico protestava. Foi com indiferença que ele recebeu o emissário, Salvador Dali (1904-1989), enviado a Viena para encontrá-lo. Freud não se propunha a criar um movimento intelectual com a intenção de incomodar, provocar, contestar e inovar parâmetros estabelecidos da ciência, da moral e da religião na cultura ocidental.

Freud foi um estudante de Medicina e um jovem médico com ambições grandes, alguém que desejava se tornar famoso fazendo descobertas importantes, mas certamente situadas dentro dos marcos estritos da pesquisa científica clássica. Foi assim que, com 20 anos, fez suas primeiras pesquisas dissecando as glândulas sexuais das enguias, em Trieste, sendo então admitido no laboratório de Ernst von Brücke (1819-1892), considerado o pai da Fisiologia na Áustria.  Trabalhou durante alguns anos ali. Fez estudos anatômicos sobre o sistema nervoso da lampreia, tendo chegado perto da descoberta do que Heinrich Wilhelm von Waldeyer (1836-1921), alguns anos depois (1891), chamaria de neurônio. Brücke era o representante em Viena de um grupo de cientistas que, em torno de Hermann Helmholtz (1821-1894)  e de Emil du Bois-Reymond (1818-1896), afirmavam a convicção de que não só é possível, mas necessário chegar ao conhecimento de fenômenos de qualquer natureza, portanto biológicos e também psicológicos, estabelecendo os seus fundamentos com base na Física e na Química.

Foi a contragosto que o rapaz teve de deixar a carreira incipiente e promissora na pesquisa científica. Freud não tinha condições financeiras para viver, queria se casar e constituir família. Tornou-se amigo de um conhecido neurologista, 14 anos mais velho que ele, Josef Breuer (1842-1925). Este encontrou no jovem um excelente interlocutor para suas ideias, passando a dar precioso apoio material e humano para ele.

Uma vez formado em Medicina, aos 26 anos, Freud passou a trabalhar também como neurologista, recebendo pacientes de Breuer. Eles discutiam com frequência seus casos clínicos e suas teorias. Foi assim que, quando Breuer passou a atender, em 1882, uma mocinha, Berta Pappenheim, tornada célebre na psicanálise sob o pseudônimo de Anna. O., não deixou de reportar o caso ao seu jovem protegido. Breuer a visitava diariamente. Em sua presença, ela entrava em transe, um estado auto-hipnótico, pondo-se a dizer coisas as mais variadas, sobre as quais, num segundo tempo, conversavam, ela já tendo recobrado seu estado normal de consciência, conversavam. Chegavam, desta maneira, a acontecimentos carregados de emoção e que, uma vez falados, resultavam no progressivo desaparecimento dos sintomas e numa nítida melhora do estado da paciente.

Breuer estava muito envolvido com esse tratamento sem imaginar que ele próprio poderia se tornar objeto das fantasias da paciente. A descoberta da transferência só seria feita por Freud por volta de 1895. O fato é que ela acabou se declarando grávida do médico. Assustado com a situação criada, que ameaçava tanto a sua reputação profissional como o seu casamento, Breuer interrompeu de imediato e de forma definitiva o atendimento da jovem e viajou com sua mulher para Veneza. Ele guardava cuidadosas anotações desse estranho tratamento, mas só iria retomá-las uma década depois, por insistência de Freud, que percebeu nelas a descoberta de um método revolucionário para o tratamento da histeria.

Eles o chamaram de método catártico, em uma publicação conjunta de 1893. Sustentaram a tese de que a causa do sintoma era o represamento de ideias e de afetos ligados a um acontecimento penoso ocorrido em um momento em que o paciente não tivera condições para pensar,  por não estar em plena posse de seus meios, por encontrar-se em um estado alterado de consciência, do qual o estado crepuscular, hipnoide, de Bertha Pappenheim era o protótipo. Quer pelo uso da hipnose, quer pela insistência do médico, era possível chegar à lembrança do acontecido, detalhe por detalhe, fazendo ressurgir toda a carga de afeto implicada. A lembrança patógena tornava-se, dessa maneira, acessível ao fluxo normal da atividade de pensamento do qual estava cortada, isto é, passava a ser pensada como qualquer outro acontecimento da vida, o que resultava no desaparecimento do sintoma, como, por exemplo, a paralisia de um membro.

O estágio de Freud no serviço de Jean-Martin Charcot (1825-1893), no Hospital da Salpêtrière em Paris, alguns anos antes (1885/86) teve uma influência decisiva nesta evolução. O grande neurologista, do alto de seu prestígio, ousara dedicar-se ao estudo das neuroses, das doenças nervosas, das histerias que, por não poderem ser relacionadas a qualquer lesão ou alteração observável do cérebro, não mereciam no estado de espírito da época o interesse da ciência médica. Eram falsas doenças, doenças imaginárias, que não deviam ser levadas a sério.

Charcot reproduzia por indução hipnótica, sintomas (a paralisia de um braço, por exemplo) ou crises histéricas “completas”, semelhantes às crises epilépticas, e as fazia desaparecer da mesma maneira: por vezes as ordens hipnóticas não eram senão ideias da quais a paciente nada sabia, palavras com as quais ele criava e fazia desaparecer sintomas. Impôs-se de forma definitiva para Freud a certeza de que pensamentos separados da consciência podiam existir e produzir tanto efeitos patogênicos como curativos. Estava entusiasmado e impressionado.

Em uma carta à sua noiva, Freud escreveu de Paris: “Nenhum ser humano jamais me afetou dessa maneira”, referindo-se ao neurologista francês. De volta a Viena, aos 30 anos, passou a dedicar-se, em sua atividade clínica, às doenças nervosas, às neuroses, fazendo palestras na Sociedade Médica sobre o pensamento e a prática de Charcot, cujas Conferências traduziu para o alemão. Deixou de lado a eletroterapia, os banhos terapêuticos em estações de água e coisas assim, únicos recursos então disponíveis para o tratamento de tais pacientes. Passou a tentar um caminho terapêutico, usando em particular a hipnose para chegar aos elementos causais, na linha da terapia catártica.  Na França, em Nancy, um grupo de médicos, em torno de Hippolyte Bernheim (1840-1919), estava usando a sugestão sob hipnose para tratar esses pacientes, os sintomas sendo eliminados por ordem hipnótica, o que era diferente do caminho que Freud tomava. Mas ele foi a Nancy ver de perto o que estavam fazendo e teve longas conversas com Bernheim.

Freud escreveu ainda alguns artigos como neurologista, mas o interesse do jovem médico se deslocara definitivamente para o tratamento das neuroses. Exceção feita a um livro, publicado em 1891, sobre as afasias, isto é, enfermidades em que uma lesão cerebral causa perda da capacidade de compreensão da linguagem escrita ou falada, ou da capacidade de expressão oral ou escrita. Contra as concepções “localizacionistas” dos centros da linguagem, argumenta em favor de uma concepção dinâmica e funcional do processamento das representações e da linguagem na área cortical, entrando em um debate de atualidade na época.

Em outra publicação, de 1890, Freud dá conta do andamento de sua prática clínica, mostrando-se decepcionado com o recurso à hipnose. Trata-se de um artigo que também diz respeito à linguagem, mas em outra perspectiva. O tratamento por meio da fala, tanto dos males da alma como do corpo, remonta à origem dos povos, ocorrendo hoje pelas curas milagrosas nos santuários, e os próprios benefícios propiciados pela Medicina vieram, em grande parte, mais dos efeitos do fala prestigiosa do médico do que da justeza de seu saber, em geral inoperante. Só mais recentemente, com o desenvolvimento das ciências, que a medicina encontrou um fundamento mais efetivo baseado no saber científico. Freud interessa-se por este poder curativo milenar da fala e apostava que, apesar do tratamento pela fala sob hipnose ter-se mostrado insuficiente, essa força poderia ainda vir a ser explorada de forma metódica para a cura das neuroses.

Aproximando-se dos 40 anos, Freud está na iminência de inventar este método. É neste momento que se situa o seu interesse pelo antigo caso clínico de Breuer.  Os estudos sobre a histeria, publicados em 1895, em co-autoria com Breuer, retomam o antigo caso de Anna O., além de vários casos dos últimos anos, tirados da clínica de Freud. Pode-se acompanhar essas mudanças no modo de fazer, correlatas de forma a compreender que vão se transformando ao longo destes relatos, nos quais a terapia catártica de Breuer, vai dando lugar à Psicanálise. A última parte, escrita por Freud, é uma exposição meticulosa do desenrolar de um processo analítico, incluindo os fenômenos por ele chamados de transferências, ou seja, dos envolvimentos com o médico, assim como o modo de pô-los a serviço do tratamento. Não tardarão a se tornar o seu eixo.

A mudança mais significativa é ideia de Freud de que as representações psíquicas patogênicas, inacessíveis normalmente à consciência, são assim mantidas por um esforço ativo, contínuo, ignorado pelo paciente. Esse esforço automático, compulsivo, é a defesa diante de um conflito intrapsíquico. A modalidade exemplar de defesa é o recalque.

A nova concepção é congruente com a constatação nos tratamentos do que Freud chamou de resistência. À medida que o paciente é convidado a falar “o que lhe ocorrer”, ao se aproximar de certas zonas, a fala vai escasseando, não ocorrem pensamentos, o paciente vai ficando evasivo, por estar tocando em algo que tem alguma conexão com o recalcado. Freud  convenceu-se de que é preciso ter muita paciência ao esbarrar na resistência, pois a necessidade de manter silenciado o que está recalcado é a mesma que suscita angústia e evitamento na sessão, sob forma de resistência. Ele entendeu que se forçasse o paciente, ou se insistisse em lhe fazer interpretações, estas funcionariam como sugestão ou como as ordens do tratamento hipnótico. É preciso que o paciente tenha o tempo e as condições psíquicas para achar com suas palavras, com suas imagens, em uma rede significativa de falas, algo que faça pleno sentido para ele, em relação com o hipotético recalcado ou inconsciente.

Impacientar-se, atropelá-lo, só reforçaria sua defesa, pois ele ficaria mais preocupado em atender à necessidade do médico e em agradá-lo. Até diria coisas na direção buscada pelo médico, melhoraria por amor transferencial a ele, como ocorre sempre na vida, mas continuaria privado deste pedaço essencial do seu ser que, alguns anos depois, no livro sobre os sonhos, Freud chamou de desejo inconsciente. Será paulatinamente, seguindo vias associativas em uma fala não dirigida e em uma escuta também não dirigida, que a resistência poderá ser aos poucos vencida, dando margem para que a fala diga coisas que soam tão verdadeiras quanto estranhas, ao mesmo tempo que dizem respeito a episódios ou fantasias muitas vezes minúsculos e que parecem sempre ter estado por ali, no entanto, sem nunca terem sido ditas ou pensadas.

O método psicanalítico tinha sido inventado e estava estreitamente sustentado por uma rede coerente de hipóteses e conceitos, a que Freud chamou de metapsicologia, herdeira das especulações neurológicas sobre o funcionamento do cérebro. No livro sobre os sonhos, de 1900 (A interpretação dos sonhos), Freud, retomando hipóteses elaboradas em 1895, descreveu um dispositivo chamado por ele de aparelho psíquico que comporta uma diferenciação espacial de lugares, uma tópica (consciente, pré-consciente e inconsciente), atravessada por tensões e movimentos decorrentes da conflitualidade intrapsíquica, uma dinâmica e uma quantidade de energia que adquire a qualidade de afetos ou da libido (“energia” das pulsões sexuais), quantidade que se desloca, se transforma, se condensa, caracterizando a dimensão econômica do funcionamento desse aparelho.

Tais hipóteses evocadas de forma tão ampla devem, sem dúvida, dar a impressão de uma compreensão árida e muito redutora, mecânica, da alma humana transformada em uma máquina de sonhar, de sofrer, de rir, de amar. Testemunha da presença em Freud do imperativo de construir uma Psicologia com base em um dispositivo nocional que atendesse aos pressupostos da Física, na linha do que foi dito antes sobre a influência de Brücke e Helmholtz.

Para além disso, porém,  a metapsicologia é indispensável em função da natureza do que a psicanálise se propõe a elucidar, ou seja, uma gama de fatos psíquicos não acessíveis de maneira direta à auto-observação, à introspecção consciente. O imediatamente acessível, o mundo das motivações conscientes com as quais estamos familiarizados, não permite o entendimento nem a resolução do sofrimento neurótico, apenas racionalizações defensivas, também não fornecem meios para abordar a experiência do sonho e a interrogação sobre sua natureza, sobre como se produz, de que se trata, a não ser fabricar alguma compreensão sumária, com explicações redutoras de pouco alcance; também não são adequadas para o entendimento do próprio processo analítico, do que ali ocorre, do que nele se transforma. A metapsicologia corresponde a hipóteses, conceitos e modelos auxiliares, com os quais a psicanálise procura dar alguma inteligibilidade à experiência clínica, na extrema diversidade de suas configurações.

Naturalmente que toda esta rede nocional é especulativa, fictícia, hipotética e opera colada na experiência, ou seja, no “objeto” que está sendo pensado. Movimenta-se continuamente com a linguagem e a inteligência imaginativa de quem nela toma pé. A força de convicção que poderá produzir não é em sua natureza diferente da força de convicção de um momento “de verdade” vivido pelo analisando em sua análise. A metapsicologia não opera tanto como recurso explicativo, mas sobretudo como suporte para a inventividade teórico-clínica do analista. Ou seja, só se tornaria redutora, mecanicista, se fosse considerada dissociada da experiência, sob um modo realista.

A psicanálise, sendo um tratamento pela linguagem, a linguagem com a qual é dita, precisa a cada vez reencontrar o seu fôlego no modo particular de dizer, tanto mais que seu “objeto” é subjetivo por natureza e remete ao que está no âmago da vivência subjetiva de si e do outro. Toda objetivação que se cristalize perde o essencial daquilo que se está pretendendo dizer. Isto vale tanto para as teorizações em psicanálise, como para as falas no interior do processo analítico.

Deixamos Freud no momento em que chegava aos fundamentos metodológicos e teóricos da psicanálise. É conhecida sua teoria da sedução sexual das crianças pelos adultos como um acontecimento traumático, patogênico e que estaria na origem das neuroses. Não é o momento de nos determos nas sutilezas dessa teoria, nem nas intuições que se revelaram justas posteriormente – ainda que a ideia de um acontecimento causal nunca deixe de nutrir a imaginação clínica e teórica dos analistas e dos analisandos. O fato é que teve vida curta, ao menos nesta forma inicial.

Freud mergulhou no que chamou posteriormente de auto-análise, para a qual a via régia parece de fato terem sido os seus sonhos e o desencadeante, a morte de seu pai, em 1897. Passa a dedicar grande interesse aos seus sonhos, anotando-os, assim como toda sorte de fatos e ideias, por mais corriqueiros e sem significado. Uma coisa leva à outra, e por via associativa criam-se sequências de sentido que se entrecruzam em um ponto que insiste e de onde, em dado momento, chega ao equivalente de uma interpretação, de uma ideia inesperada referente ao desejo operante no sonho; não há ponto final, ponto de chegada neste trabalho interpretativo, que poderá prosseguir com novas linhas associativas.

 

Nesses exercícios surgem muitos fatos corriqueiros acontecidos na véspera ou nos últimos dias, mas também ressurgem fragmentos de memória de outros tempos, por vezes da mais longínqua infância, e que, provavelmente, jamais lhe tivessem ocorrido de outra forma. Nesse processo analítico, a correspondência com um colega mais ou menos da sua idade, um médico otorrino de Berlim, Wilhelm Fliess (1858-1928), se intensifica tanto em quantidade de cartas, como na clara necessidade e dependência que ele passa a demonstrar em relação a seu interlocutor. Costuma-se considerar que, em meio à intensa mobilização psíquica que o tomara, Freud encontra nesse interlocutor o depositário e o destinatário privilegiado dos estados transferenciais que tal mobilização implica.

Pode-se entrever, por muitas indicações, o imbricamento entre a análise de Freud e a análise de seus analisandos neste período. Freud foi auxiliado em sua própria análise pelo que encontrava na análise de seus pacientes e, com certeza, as condições em que se encontrava, propiciavam uma abertura ao que não podia ser previsto por nenhuma reflexão ou introspecção, e o tornavam especialmente permeável e capaz de ser receptivo aos efeitos ou emergências do inconsciente, nas análises destes.

Em 1887, Freud abandonou a teoria da sedução como causa, enquanto explorava toda a eficácia das fantasias, o seu caráter sexual, descobrindo-as exuberantes já na infância, mesmo na mais tenra infância. Até então ele partilhava da opinião comum que a sexualidade só passava a existir a partir da puberdade. O centro da descoberta foi o complexo de Édipo, testemunha da vida amorosa e de desejos assassinos na criança.

No livro A interpretação dos sonhos, de 1900, Freud expõe, sempre com a meticulosidade do cientista, grande parte desse trabalho, sui generis pela fina articulação que o atravessa de ponta a ponta, entre a ousada e precisa inventividade do intelecto e os mais comezinhos episódios da vida, em geral a sua própria, permeada por desejos mesquinhos e pueris. Encontramos ali uma inédita produção de fragmentos, em cortes verticais, de torções e tensões, daquilo que se agita sob a lençol bordado da vida de uma alma. A explícita intimidade que encontramos nessa obra entre o trabalho do intelecto e o trabalho psíquico caracteriza, desde então, todo trabalho psicanalítico.

Uma fala ou um escrito de um paciente ou de um colega, ou de quem quer que seja, que discorra com impecável clareza sobre um assunto de forma que tudo se encaixe, tudo se encontre explicado com admirável justeza e engenhosidade, poderá ser apreciado pelo didatismo e pela inteligência do autor, pelo pedaço de saber que tão bem transmite, mas não despertará nada, além disso, no analista. Este é sensível às fissuras, aos restos clandestinos, a alguma hesitação inesperada, às falhas… a um ato falho, por exemplo. Se, em meio a uma conferência interessante, o conferencista fizer um lapso, este poderá causar risos divertidos quebrando, seja por um momento, a atenção e a seriedade com que o público seguia a exposição. O que Freud e a psicanálise chamam de inconsciente estará nessas paragens.

Mas, se radicalizarmos esta perspectiva, poderíamos perguntar se é no erro, na falha, que se encontra o que realmente importa, o essencial para o sujeito que fala e para os que o ouvem. A verdade de verdade para ele. Se isso não for apenas uma piada, se for para valer, estaríamos minando o templo da Razão, estaríamos dizendo que a verdade não está onde parece estar, mas onde parece não estar? Teria o bem-comportado médico de Viena, ao querer achar um tratamento para os neuróticos, encontrado coisas que afetam, que interpelam até a nossa tradição filosófica, bem como as bases da ciência que tanto nos tem beneficiado? Com certeza, mas deixemos isso de lado para perguntar a mesma coisa de modo diferente.

O mais importante para cada um de nós não está naquilo que falamos sobre nossas intenções, sobre quem somos, sobre o que queremos, mas em algo marginal ao que dizemos?  A resposta aqui é direta e categórica, pois é essa convicção que fundamenta o fazer clínico do psicanalista e a experiência da análise. Somente que ninguém tem condições de dizer esse “mais importante”, “esta verdade” senão o próprio sujeito que fala, e esse ninguém inclui, antes de mais nada, o próprio analista. O analista não dispõe a priori da verdade do analisando, pois nesse caso estaria no lugar do hipnotizador que age por sugestão, desconsiderando o tempo psíquico da resistência, um tempo necessário: só será analista enquanto for capaz de suspender qualquer saber, com isso propiciando que no processo de análise, fragmentos significativos, emudecidos, do desejo e de dores ignoradas do analisando tomem vida e fala.

Freud não é Dali, nem Breton. O sonho não é para ele o paradigma de uma vida mais intensa, mais exuberante. Ao contrário. Ele o desmonta impiedosamente trazendo-o para os fatos mais corriqueiros e modestos da vida e do corpo, só que, de fato, ali encontra, em meio a pequenas coisas, a possibilidade de resgatar o que há de mais significativo e importante e que se mostra ser único para cada um. A vida poderá tornar-se sim mais intensa, mas com a discrição do que tem a ver com o íntimo, por natureza pouco afeito às miragens alheias.

Em descompasso com todo saber constituído, a psicanálise, criada por um cientista convicto, não pode ser considerada ciência no sentido convencional, com certeza não é uma filosofia, nem uma religião, nem uma arte. Mas foi engendrada no âmago da cultura ocidental, em uma densa encruzilhada da ciência, da filosofia, das artes e das religiões e de todas elas se nutriu para surgir e delas se nutre, sobre elas diz coisas que nunca foram ditas antes. Mas, sempre em descompasso. Estranho no ninho que, no momento que deixa de sê-lo, tal é a natureza de sua prática e daquilo que visa, deixa de ser psicanálise. Pois o que busca é sempre o que é, em cada um, estranho/familiar.

 

*Luís Carlos Menezes é psicanalista, membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

**Esse artigo integra uma compilação de textos publicados ao longo da história da Revista Cult sobre a vida e obra do criador da psicanálise, Sigmund Freud, que foi destaque na edição 253, de janeiro de 2020.  https://revistacult.uol.com.br/home/categoria/edicoes/cult-253-sigmund-freud/

Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu…

Observatório Psicanalítico – 139/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo

*Raya Angel Zonana

Há momentos vertiginosos na vida. Hoje, eu quase concordei com Olavo de Carvalho! E, mesmo com a palavra quase, este é um fato assustador. Difícil organizar pensamentos diante da barbárie.

Mas devo, também desta vez, discordar dele. Referindo-se a Alvim, após o discurso deste, “cola” de um dos discursos de Goebbels, o astrólogo profetiza: “É cedo para julgar, mas Roberto Alvim talvez não esteja muito bem da cabeça”.

Discordo desta afirmação por dois motivos: não é cedo para perceber o que, infelizmente, se passa nestes tristes trópicos, e não parece que o problema do (ex) secretário especial seja “não estar bem”. Sua doença é mais grave. Ele, e todo o governo do qual até há pouco fazia parte, sofre de ódio. Ódio ao conhecimento, ódio ao pensamento, ódio àquilo que para Freud, e para nós psicanalistas, retira o homem da barbárie: a ciência e a arte.

Surpreende que o discurso de um componente do atual governo seja copiado ao do ministro da propaganda de Hitler? Não. Nem surpreende a presença no cenário da Cruz de Caravaca, trazida ao Brasil pelos Jesuítas, tão empenhados em catequizar os índios. Estes, por não ter alma, encontrariam a salvação ao abraçar a fé cristã – ainda que isto tenha vindo a custar milhares de vidas. Quem serão agora os sem alma “merecedores” de catequese?

O que horroriza, e causa vertigem, é a atitude explicita, sem constrangimento ou tentativa de disfarce. Muito pelo contrário. O claro tom de orgulho e prazer de Alvim, nos leva a pensar, sem medo de errar, que este, ao discursar, estava coberto de puro gozo! Mas, era só mais um ato de ‘siga o chefe’. Ou é difícil perceber o tom exaltado e ufanístico com que, repetidas vezes, o chefe deste governo se refere ao seu ídolo, o torturador General Brilhante Ustra? Homem brilhante em subjugar, torturar o “outro”, fazê-lo objeto de prazer pessoal.

Ou, estávamos distraídos quando ao assumir o governo, o Presidente, após orar, pronunciou: “Brasil acima de tudo e Deus acima de todos.”

Seria coincidência a semelhança com o Deutschland über alles, gritado de punho em riste pelo Führer, seguido por toda uma nação?

Umberto Eco (1995/2018), em O Fascismo Eterno, nos solicita ‘não esquecer’. Que não pensemos ser o fascismo um mal superado, ele ainda está ao nosso redor ao se apresentar com certas características como o ódio ao diferente e à diversidade de pensamento, oposição à crítica, controle da sexualidade, machismo e exaltação de um líder que salve o povo e o represente. Nem haveria necessidade de representações democráticas como o Congresso: o líder saberia do que o povo necessita.

O hipnotismo, sedução, fascínio exercidos pelo líder sobre a massa, dos quais Freud fala em Psicologia das massas e Análise do Ego (1921), ganham forma no discurso do secretário especial da subpasta da Cultura – a denominação especial e subpasta não são aleatórias – quando este explicita o pedido do presidente: “que a cultura não destrua, mas salve a nossa juventude na luta contra o Mal, com uma arte para o povo para o qual é criada”.

Não há aí uma inversão? Não é o povo de um país que constrói sua cultura, sua arte?

Anunciavam-se prêmios para arte não “degenerada”. Arte suavizada como o Presidente sugeriu que fossem os livros escolares, que “têm muita coisa escrita”.

Umberto Eco nos lembra que os textos escolares nazistas e fascistas usavam um léxico pobre, uma sintaxe elementar para assim limitar “os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico”. Simplificar a complexidade da palavra, evitar a capacidade crítica, formas de criar cada vez menos sujeitos, cada vez mais objetos…

Eco ainda nos diz que o fascismo aparece de maneira sutil. Seria fácil identificá-lo, diz o autor, se alguém bradasse livremente coisas óbvias como: “Quero reabrir Auschwitz”.

Absurdo? Mas, não teríamos ouvido algo semelhante na frase: “Melhor filho morto do que filho gay!”? Isto não seria reabrir Auschwitz, onde foram confinados e mortos milhares de homossexuais, ciganos, comunistas, judeus ou quem quer que perturbasse o tom ariano desejado pelo nazismo?

Plagiar Goebbels mostra alguma sutileza? Ou é mais do mesmo, entre os tantos fatos grotescos e abusivos que nos atropelam, diariamente, há cerca de um ano?

Corremos o risco de naturalizar estas situações. Começamos achando graça nas bobagens e impropérios ouvidos, mas o riso há tempos tornou-se esgar de medo e horror. A tranquilidade, a naturalidade com que frases e discursos são exalados sobre nós não impedem que nos cheguem como gás venenoso. Não podemos nos permitir a indiferença, devemos estar atentos à instalação lenta e mortal da banalidade do mal.

Se escrita e o pensamento são os instrumentos que temos para fazer frente à barbárie, se é a possibilidade de reflexão o que temos à mão, cabe-nos fazer uso destas verdadeiras ferramentas do analista: escuta e reflexão. Apesar dos livros queimados, Freud e muitos outros escritores continuaram a escrever.

Não nos enganemos, portanto.

Para nós psicanalistas, atentos aos movimentos do humano, a repetição, em seu caminho pulsional mortífero, não é surpresa.

Cabe-nos, sim, poder recordar. E insistir!

“…A gente vai contra a corrente…”

*Raya Angel Zonana é psiquiatra pela FMUSP, psicanalista, membro da SBPSP, Editora da Revista Calibán, Revista Latino Americana de Psicanálise da FEPAL. Integra a Diretoria de Comunidade e Cultura da SBPSP e a Diretoria de Atendimento à Comunidade da SBPSP.

 

**Uma versão deste texto está publicada no Observatório Psicanalítico no site da FEBRAPSI. Clique aqui.

 

Nara: a menina invisível dos olhos fugitivos

Prefácio

Mirian Malzyner, autora e ilustradora deste belo livro para crianças, remete-nos à estória de Nara e nos conduz de forma lúdica a entrar na vida real da autora por meio da imaginação.

Nara enfrenta o estrabismo e a timidez, desafios que a fazem sentir-se diferente de outras crianças. Com belíssimas ilustrações e enredo, os conflitos e a imagem de si mesma vão sendo apresentados. Há uma questão física e uma psicológica. O “olhar fugitivo” – forma brincalhona que Mirian usa para ilustrar o estrabismo – torna-se um problema. O olhar da mãe reflete sua preocupação, o que contribui para a timidez da menina. É quando a busca pela invisibilidade surge como forma de proteção. Por meio dos sonhos e de sua capacidade imaginativa, Nara, que só era colorida pelo lápis vermelho em seu rostinho, descobre como usar outras cores e desenvolve o desejo de tornar-se visível.

Os olhos fugitivos de Nara contam a história de Mirian, que passada a experiência da infância, mergulha na profundidade e complexidade do mundo psíquico do ser humano, pois se torna psicanalista. O tempo passou, mas a imaginação ainda potencializa sua capacidade artística. Usando cores, pintando quadros, escrevendo livros… Criando um universo em que lápis de cor e tintas coloridas apontam para sua vitalidade e visibilidade.

Acompanho Mirian há muitos anos e é visível sua dedicação a tudo que se propõe e ama. Sempre interessada em pintar figuras humanas, com estilo próprio, onírico e singular. Como artista plástica e psicanalista faz uma ótima combinação entre razão e imaginação.

Este livro, além de encantador, pode ser útil, pois possibilita diálogos que fortalecem a autoestima de crianças que vivem numa condição que as difere das demais. A criança pode sentir-se inadequada por ser diferente, tende a se apagar e a tornar-se invisível. Talvez, o lápis vermelho da timidez tenha sido amigo de Nara, já que, mesmo de uma forma difícil, mostrava que algo acontecia dentro dela. Vermelho é cor de emoção e é preciso confiança para permitir que outras cores apareçam.

Quando Nara se torna colorida, pode rir e gargalhar pela “simples” alegria de se sentir viva e visível. Penso que só é possível sentir a felicidade quando a vida ganha sentido e quando a criança pode ser e existir, para si e para o outro.

Marlene Rozenberg

Psicanalista, membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

Antonin Artaud e a Psicanálise

* Daniel Dimand

Antonin Artaud nasceu em Marselha, em 1896, e morreu em Paris, em 1948. Foi poeta, ator, escritor, dramaturgo, roteirista e diretor de teatro. Ligado ao movimento surrealista, seus escritos sobre teatro são considerados dos mais influentes sobre o assunto no século XX. As suas correspondências “revelam um homem em terrível estado de sofrimento, falando de sua dor, através de uma escritura mais íntima e espontânea”. Passou os últimos anos de sua vida internado em hospitais psiquiátricos.

Seria impossível abordar de forma abrangente uma vida e obra tão diversa e rica como a de Artaud. Aproveitando que, através de suas cartas, podemos recuperar algo da sua voz, considero que vale a pena apresentar um pequeno recorte delas, tentando uma relação com o olhar psicanalítico.

Na correspondência com Jacques Rivière, editor de uma importante publicação francesa, Artaud busca um interlocutor, alguém que o escute, com quem possa estabelecer uma relação de pessoalidade:

“Minha questão era talvez especial, mas era a você que eu a colocava, a você e a mais ninguém, por causa da sensibilidade extrema, da penetração quase doentia do seu espírito.”

Artaud se oferece de forma íntima e despojada nessa relação e mesmo o interesse literário fica em segundo plano:

“Você colocou o dedo em parte de mim; a literatura propriamente dita não me interessa muito (…)”

 A valorização do mundo interno surge de forma espontânea:

“Sei o tráfico das coisas aqui dentro”, ele declara com simplicidade para Rivière.

A dor da alma tem grande destaque, uma dor que ele não quer deixar de compartilhar:

“Sou um homem que sofreu muito do espírito, e por isso tenho o direito a falar.”

Sofrimento que, como ele enfatiza, também está no corpo, faz parte do seu dia a dia:

“Resta que eles não sofrem e eu sofro, não somente com o espírito, mas na carne e na alma cotidianas.”

O contato com o outro ser humano tem uma grande importância, mas ele não pode se dar de qualquer maneira. Há em suas palavras um clamor por uma escuta que não julgue, não confine, não reduza. Escreve ao editor:

“Eu me ofereci a você como um caso mental, uma verdadeira anomalia psíquica, e você me responde através de um julgamento literário de poemas aos quais eu não me apegava.”

A ideia de uma escuta isenta de julgamentos prévios é consideravelmente relevante. Tanto que reaparece em outra passagem, da mesma forma categórica como a anterior:

“É preciso não se antecipar a julgar os homens, é preciso dar-lhes crédito até no absurdo, até a borra.”

A singularidade do ser humano é também reivindicada. Assim ele se refere a si próprio:

“Esse homem, no entanto, existe. Digo que ele tem uma realidade distinta e que lhe dá um valor. Vamos condená-lo ao nada sob o pretexto de que ele só oferece fragmentos dele mesmo?”

Os escritos de Artaud nos desafiam constantemente a indagar sobre os limites que nos cercam: vida e obra, corpo e alma, palco e plateia, sanidade e loucura…

Esse últimos, assim como a fragmentação que Artaud identifica em si próprio e o conhecimento da própria realidade interna, psíquica, o aproximam novamente da psicanálise. O trecho seguinte de Freud apresenta esses elementos reunidos de uma forma que também desafia os limites preestabelecidos e nos faz questionar sobre as relações entre sanidade e loucura:

“(…) achamo-nos familiarizados com a noção de que a patologia, na medida em que aumenta e torna grosseiro, pode chamar a atenção para condições normais que de outra maneira não perceberíamos. Ali onde ela nos mostra uma ruptura ou uma fenda pode haver normalmente uma articulação. Se lançamos um cristal ao chão, ele se quebra, mas não arbitrariamente; ele se parte conforme suas linhas de separação, em fragmentos cuja delimitação, embora invisível, é predeterminada pela estrutura do cristal. Os doentes mentais são estruturas assim, fendidas e despedaçadas. Também não podemos lhes negar um tanto de temor reverencial que os povos antigos demonstravam para com os loucos. Eles deram as costas à realidade externa, mas justamente por causa disso sabem mais da realidade interna, psíquica, e podem nos revelar coisas que de outro modo nos seriam inacessíveis.”

Bibliografia:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Antonin_Artaud

A perda de si: cartas de Antonin Artaud, Seleção, organização e prefácio: Ana Kiffer; Tradução: Ana Kiffer e Mariana Patrício Fernandes. – 1ª ed. – Rio de Janeiro: Rocco, 2017 (Marginália)

Freud, S. (2006). Novas Conferências Introdutórias Sobre A Psicanálise, Conferência XXXI: A Dissecção da Personalidade Psíquica. In: Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro, Imago, v. XXII [1933 (1932)]

* Daniel Dimand Pereira de Azevedo é médico pela UFSCar, membro filiado ao Instituto de Psicanálise Durval Marcondes da SBPSP, voluntário no Serviço de Psicoterapia do IPq-HCFMUSP.