EXISTE RELACIONAMENTO AMOROSO SEM SOFRIMENTO PSÍQUICO?

*Patricia Vianna Getlinger

Será que é possível minimizar ou eliminar a angústia e o sofrimento nas relações amorosas? Será que os casais contemporâneos que decidem abolir contratos preestabelecidos sofrem menos? Ou os acordos feitos “sob medida” por cada casal resultam em maior liberdade e felicidade?

Por outro lado, o que pensar quando os “novos” acertos entre o casal falham? Quando mesmo tentando criar modelos mais livres para os relacionamentos, alguém se sente “de fora” e se incomoda em não ser o único nem o preferido? Afinal, o ciúme é uma emoção legítima, ou é vergonhoso ser ciumento? E indo além, é errado pretender um amor exclusivo?

Temos visto surgir um número crescente de relacionamentos “abertos”, em que os parceiros (seja nas relações hétero, seja nas homoeróticas) buscam rever e redefinir conceitos como fidelidade e exclusividade sexual, abrindo a relação para a entrada de terceiros. Isso também ocorre nos casos de poliamor, que quando pretendem ser relações amorosas estáveis, pressupõem de forma mais evidente ainda a reconsideração da monogamia. Uma das observações mais interessantes quanto à dinâmica das relações abertas, é que elas costumam ter parâmetros particulares, criados pela dupla ou pelo grupo, que regulam e relativizam a “liberdade total”. Por que isso costuma acontecer?

O que se observa é que em cada caso, embora geralmente se parta da intenção de não ter regras, acaba surgindo a necessidade de se estabelecer um acordo específico. Alguns preceitos organizadores de um relacionamento aberto, por exemplo, podem determinar que ter relações sexuais com outras pessoas não será considerado traição desde que todos estejam presentes na cena; ou que a intenção seja comunicada antes ao parceiro ou parceira; ou que tudo seja relatado depois; ou ainda, que não se chegue ao orgasmo com terceiros. Esses são alguns padrões cerceadores, mas o que nos interessa discutir, é: por que esses parâmetros se tornam necessários? Ou seja, por que, mesmo quando se tenta evitar certas convenções, elas são reinseridas pelos mesmos sujeitos que as tinham abolido?

O que se verifica em qualquer relação amorosa, especialmente as não monogâmicas, é que prever ou controlar sentimentos como ciúme não é possível. Como saber se o “terceiro incluído” no casal não vai despertar uma paixão no meu companheiro ou companheira? E se eu flagrar um olhar mais intenso do que eu gostaria entre eles? No fim, sempre corremos o risco de que alguém se sinta menos importante, menos amado ou mesmo excluído. Mas, afinal, por que é tão desconfortável ficar de fora?

Desde a situação infantil de exclusão do casal parental, presente no modelo freudiano do filho fora do quarto dos pais, temos que lidar com esse desconforto e com a angústia que ele causa. A resolução do complexo de Édipo passa por adiar a fantasia infantil de parear com um dos pais e de deixar o outro de fora. Suportar a condição da própria exclusão exige da criança (e continua exigindo do adulto) que todos lidemos com o desejo onipotente de ser o mais especial e o centro das atenções. Requer que aceitemos a incompletude ou, em outras palavras, que elaboremos a castração simbólica.

Mas o processo de luto dessa posição onipotente é sempre inconcluso. E isso mantém a posição infantil sempre “à espreita”, buscando uma possível satisfação, que quando ocorre é muito prazerosa e de certo modo faz parte do equilíbrio psíquico. Assim, todos guardamos resquícios desse momento inicial de vida, que são reativados ao longo da infância e em muitas experiências ulteriores: querer ser o preferido dos pais com relação aos irmãos, tornar-se o queridinho da professora, atrair a admiração do chefe, ou mesmo chamar a atenção pelo aspecto inverso: ser o que dá mais trabalho, o que sempre perturba e recebe críticas etc. Em um caso e no outro, o que é satisfeito é o desejo infantil de sentir-se único, ser o eleito ou manter-se em evidência.

Com o fim da infância, fazemos o luto (incompleto) dessa posição onipotente e mesmo percebendo, com maior ou menor dor, que os pais têm um ao outro, que os irmãos também são amados, que há outros alunos que cativam a professora e que não somos o eleito pelo chefe, continuamos precisando de reasseguramentos narcísicos desse tipo. E qual é a experiência posterior com maior potencial de restaurar os sentimentos de estar incluído e de ser sui generis para alguém?

O apaixonamento. Esse estado recupera a sensação prazerosa de ser o escolhido e de ser mais encantador do que todas as outras pessoas.  Ou seja, a paixão e o amar e ser amado restituem parte da ferida narcísica operada pela castração. Até aí, isso nos ajuda a compreender porque é tão bom se apaixonar. Mas, de onde vêm a angústia e o sofrimento nas relações amorosas, sejam elas “abertas” ou “fechadas”?

Da ameaça de que esse estado idílico seja ameaçado e perdido. A alegria de reviver a ilusão de completude narcísica promovida pela paixão pode ser simultânea ao temor de sua perda. De fato, esse efeito paradoxal decorre dos indícios de que a sensação tão maravilhosa de reviver a onipotência infantil pode acabar, comprometida pela entrada de um terceiro que roube o nosso lugar e corte essa utopia, transformando-a num engodo.

Talvez os novos relacionamentos abertos sejam uma tentativa interessante de tentar diminuir os efeitos nocivos da exclusão, definindo que ela não deve incomodar. O equilíbrio, entretanto, mostra-se instável, como demonstram o surgimento (e muitas vezes o aumento crescente) dos acordos particulares que dão contorno à liberdade total. Esses limites restabelecem o que fica “de dentro” e o que fica “de fora”, reeditando as fronteiras simbólicas do triângulo edípico e evidenciando seja a dificuldade de se relacionar com absoluta soltura, seja certo conforto diante de fronteiras claras. Negar a dependência afetiva e o prazer da exclusividade, buscando ser “evoluído” e não sentir ciúme, pode funcionar por um tempo. Mas não garante menos sofrimento nas relações amorosas. E, afinal, se podemos restaurar a experiência de ser único, mesmo sabendo que é ilusória, por que recusá-la?

*Patricia Vianna Getlinger é membro associado da SBPSP-SP e membro do Departamento de psicanálise do instituto Sedes Sapientiae

 

Imagem: “Couple”, de Jarek Puczel.

Big Eyes e a Perversão Narcísica

*Vera Lamanno Adamo

A perversão narcísica diz respeito a um modo de se equilibrar fazendo valer à custa de um outro.

Enquanto, na estrutura perversa, o outro é desumanizado, isto é, o outro é coisificado, na perversão narcísica, o indivíduo recusa o valor do outro, para manter-se imune ao conflito e à dor mental.

Na perversão narcísica, o indivíduo usurpa o lugar e o valor do outro, negando ao outro o direito ao próprio narcisismo. O narcísico perverso sequestra o narcisismo do outro. Acredita que para não se sentir perdido e sem saída (embora não o assuma ou admita) é preciso se valer da vitalidade e criatividade do outro, sugá-lo, desrespeitá-lo, para submetê-lo ao seu domínio.

No entanto, a violência cotidiana exercida pelo perverso narcísico não é do mesmo tipo de uma relação sadomasoquista, não é uma perversão explícita, ela entra no dia a dia de forma silenciosa, velada e enganadora, passando quase despercebida.

Enquanto o sádico experimenta prazer humilhando e maltratando o outro, o perverso narcísico age por intimidação, produzindo perplexidade, paralisia e desvalorização, invadindo a mente de sua vítima/cúmplice por produção de culpa.

A vítima/cúmplice acaba aceitando todo tipo de compromisso em detrimento da própria autoestima, executando, muitas vezes, atos contrários à sua moral, pois se sente como um herói chamado a um grande combate, onde suas virtudes reparadoras poderão ser postas à prova.

A história real de Walter e Margaret Keane, retratada no filme Big Eyes, de Tim Burton (2014), ilustra bem a dinâmica do narcísico perverso e sua vítima/cúmplice.

Na década de 1960, Walter Keane foi homenageado por seus retratos sentimentais – crianças com grandes olhos – que vendiam aos milhões. Mas, na verdade, Margaret, sua esposa, era a artista que trabalhava, em virtual escravidão, para manter o sucesso do marido.

Eles se conheceram, aparentemente, em uma exposição de arte ao ar livre, em São Francisco. Mais tarde, à noite, se encontraram.  Casaram-se pouco tempo depois. Margaret estava se sentindo culpada pela separação, insegura e incapacitada para criar sua filha sozinha.

Os dois primeiros anos de casamento foram bons, mas tudo mudou na noite em que Margaret descobriu que Walter estava vendendo suas “crianças de grandes olhos” como se fossem suas produções. Eles estavam em uma espécie de salão, em São Francisco, Walter estava vendendo os quadros, quando alguém de repente perguntou à Margaret: “Você também pinta?”. Ela ficou chocada ao descobrir que o marido levava todo o crédito do trabalho dela, para si mesmo.

Em casa, ela pediu para desmanchar esta mentira, para que ele revelasse a verdade, e Walter, se justificando, disse: “nós precisamos do dinheiro, as pessoas tendem a comprar quadros quando acham que estão conversando com o artista, elas não querem saber que não sou eu o pintor e que preciso que minha mulher pinte, as pessoas já acreditam que eu sou o pintor das “crianças de grandes olhos”, se eu, de repente, disser que é você, eles irão nos processar”.

Margaret cedeu à mentira.

Walter ofereceu uma solução: “ensine-me como pintar essas crianças de olhos grandes”. Ela tentou, mas ele não conseguiu e dizia que era por culpa dela que não tinha paciência para ensiná-lo.

Margaret sentiu-se cada vez mais trapaceada e incomodada com aquela fraude. Querendo se livrar desta impostura, solicitava a Walter que dissesse a verdade e ele reagia cada vez mais com ameaças de violência.

Margaret se intimidava e acabava levando a situação adiante.

Nos anos 60, as pinturas, pôsteres e postcards de Margaret ganharam fama internacional e estavam em todos os lugares, como livrarias, shoppings, museus, mas ela não tinha acesso ao dinheiro. Eles se mudaram para uma bela casa com piscina e empregados, Margaret não precisava fazer nada, exceto pintar. Nesta casa, ela ficava trancada em seu atelier, onde ninguém podia entrar nem mesmo sua filha. Até mesmo os empregados não sabiam disto e quando Walter saia, ligava, de hora em hora, para saber se ela estava em casa. Margaret sempre pintava em segredo em seu atelier, com portas fechadas e a cortina cerrada.

Depois de dez anos casados, oito deles terríficos, Margaret pediu o divórcio. Walter se desesperou: “Você vai destruir tudo… você vai me destruir… eu só queria ser um pintor, só isto.”. Margaret não cedia e, com a desenvoltura de um showman e a frieza de um impostor, Walter dizia: “ninguém saberá a diferença entre a cópia e o original”.

Margaret sustentou sua decisão, mas prometeu a Walter que continuaria pintando por ele. Depois de ter lhe enviado umas vinte ou trinta pinturas, decidiu que não iria mais compactuar com aquela farsa e que dali em diante só falaria a verdade. Levou um longo tempo para Margareth reconhecer que estava sendo cúmplice de uma violência silenciosa e que, ao longo do tempo, foi ruindo ainda mais a sua autoestima e paz interior.

A história de Margareth e Walter Kane, a dinâmica vampiresca que se estabeleceu entre eles, está pintada em cores fortes. No entanto, esta dinâmica, na maioria das vezes, é muito mais camuflada.

O vampiro, figura mitológica, como sugerem as abundantes histórias na literatura, apresenta-se desde uma aparência repugnante, representada nas lendas de diferentes povos da antiguidade, até a figura aristocrática, carismática e sofisticada, descrita no romance de John Polidori, The Vampire. Cada um deles apresenta diferentes graus de sofisticação nos atos de sedução, manipulação e indução de culpa, com o objetivo de sugar a essência vital de sua vítima/cúmplice.

 

Referências

Martins, A. (2009) – Uma violência silenciosa: considerações sobre a perversão narcísica. Cad. Psicanal. – CPRJ. v.31, n.22, 37-56.

Parttrey, A., Nelson, C. (2014)- Citizen Kane: the big lies behind the big eyes. Feral House.

Racamier, P.C. (1992) – On Narcisistic Perversion. Int. Journal. Psychoanal., vol 95, 1, 119-132, 2014.

 

*Vera Adamo é membro efetivo, analista didata e docente do Grupo de Estudos Psicanalíticos de Campinas e da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Trauma: um conceito para o pensamento clínico contemporâneo

*Berta Hoffmann Azevedo

Comecemos com um paradoxo: sem assombro não há trabalho de representação, muito embora esse trabalho possa ficar impedido justamente por ele.
Assombro, palavra que tomo emprestado de Leopold Nosek, livre de conotações conceituais já circunscritas, que permite abraçar a exigência de trabalho psíquico que o novo impõe. É a falta que, ao assombrar a continuidade fusional, pode ser capaz de abrir espaço ao processo representativo. Ou o enigma sintomático, que pode colocar em marcha o processo analítico, e a busca por dar sentidos para o que assombra.

Por outro lado, há também um tipo de assombro que emudece, que impede qualquer narrativa, rompendo o tecido representacional e o trabalho de simbolização.
Freud em sua conferência 18 das Conferencias introdutórias (1916-1917) fala dos soldados que, retornando da I Guerra, repetiam em sonhos a situação traumática. Fenômeno próximo ao que nos conta Walter Benjamim sobre o silêncio dos que voltavam do horror.

A alteridade, aquela cuja aproximação pressupõe um desconhecimento irredutível, como outro universo, implica incursões arriscadas e aproximadas. Nossos instrumentos de apreensão sempre um tanto insuficientes.

O trabalho analítico aposta nisso, numa alteridade que está na base mesma do psíquico, cuja constituição passa pelo outro, sendo, portanto, cultural e mantendo em si mesmo o alheio, não apenas em um desconhecido inconsciente que emerge para retraduções, como também naquilo que precisa ser construído para ganhar qualquer sentido pela primeira vez.

A criação de sentido passa necessariamente por uma novidade, passa pelo contato com o outro que pode aportar significação, palavra, forma. Mas não só. Muitas vezes um encontro porta o traumático.

Desde as formulações de 20 em Freud, o trânsito no par representação de coisa- representação de palavra deixa de ser o único desafio do trabalho psicanalítico.

Freud nos lembra que o psiquismo não se organiza de antemão orientado pelo princípio de prazer, há condições prévias a essa configuração: a saber, a necessidade de ligação.

 

As moções pulsionais passam a ser pensadas como tendo destinos possíveis, sendo a elaboração representativa apenas um deles. Os autores da chamada Psicanálise contemporânea, nos termos que propõe André Green, debruçam-se sobre outras saídas para o representante psíquico da pulsão, que pode manifestar-se em ato, pela via alucinatória ou também no corpo, não apenas como conversão histérica, como também em formas mais próximas do que Freud propunha como neurose atual.

O sonho na neurose traumática é o exemplo da repetição incansável sem transformação elaborativa, que não alcança cumprir o papel de realização de desejo, até que a primeira tarefa de ligar possa ser realizada.

Há, portanto, funcionamentos psíquicos que não respondem ao princípio de prazer, seja por que ele é momentaneamente posto fora de ação, seja por que não pôde se instituir como organizador do psiquismo.

São movimentos que deram lugar à segunda tópica freudiana, sem que a primeira tenha por sua vez se tornado obsoleta. A escuta do que está no campo psíquico, do que diz respeito ao desejo e suas representações segue válido. Nem todo sonho é traumático, e nem todo sintoma é pura descarga. Nossa clínica diária dá provas disso.

Mas alguns o são. E a disposição para escutar aquilo que engancha na cicatriz do trauma e põe em xeque o princípio de prazer estende o alcance da Psicanálise para situações clínicas limites.

O traumático, presente em Freud já em seu Projeto para uma Psicologia científica, volta com força em suas teorizações após a experiência com a neurose traumática em seu Além do Princípio de Prazer, com o recorte clínico da compulsão à repetição. Junto dele, o conceito de dor também proposto por Freud, e muito valorizado por Pontalis, nos ajuda a elucidar essas situações limites na clínica.

Freud, em 1895, já falava que a dor causa no psiquismo um efeito tal como o de ser atingido por um raio, de maneira que uma facilitação é criada entre a inclinação à descarga e a imagem-mnêmica do objeto que excita a dor, e se essa imagem é em algum momento reinvestida, despertará como a original, a mesma tendência à fuga.

As vivências de dor e desamparo podem atrair o psiquismo sem, à diferença da fixação de prazer, permitir substituições e deslocamentos. Em algumas situações, o modelo da vivência de satisfação como organizador das repetições de prazer, é substituído pelo da dor.

Estamos num campo de excesso de intensidades que inunda o psíquico e coloca de lado o princípio de prazer. Há um rasgo na malha representativa, um furo, que, se reinvestido, causa dor, como bem argumenta Green para pensar o trabalho do negativo contra o próprio processo de representação.

Há em Freud mais de uma noção de traumático, ambas envolvendo conotações econômicas de excesso. Numa primeira formulação, ele está ligado ao après-coup, a esse golpe que dá origem ao sintoma. Em outra mais tardia, ele sublinha a tarefa urgente de ligação que fica por ser realizada e a compulsão à repetição instaurada como consequência. Tais formulações não refletem apenas tempos teóricos diversos, como respondem a problemas clínicos diferentes, ambos presentes em nosso fazer psicanalítico.

Será que o embaraço sexual histérico de um adolescente deve ser nomeado como traumático? Para o Freud da primeira tópica, certamente sim. Mas seria ele da mesma espessura que aquele de um paciente que nos chega com sentimentos de vazio e branco ou com uma tendência ao ato sem abertura associativa?

Num ou noutro sentido não me parece um evento corriqueiro, cuja radicalidade valha a pena ser perdida.

O traumático atuou como mola propulsora de teorizações importantes de autores como André Green, que ressaltam estar em jogo não apenas a existência do irrepresentado, e do irrepresentável, mas também do desinvestimento do processo representativo como consequência possível do traumático. São áreas que funcionam como disco riscado, áreas destruídas do psíquico sem marcas mnêmicas disponíveis, cujas cicatrizes tendem a irromper nas sessões de maneira desavisada, na forma de acontecimentos atuais. Áreas em que é preciso criar temporalidade psíquica ali onde encontramos tempo morto. Os vividos traumáticos, como sabemos, emergem na sessão, e há um valor de testemunho que a análise pode alcançar, ao afirmar o que se passou, nos termos que forem possíveis de se apresentar. Esses momentos resistem ao efeito de desmentido e podem levar à retomada de um movimento simbolizante.

O reconhecimento da heterogeneidade psíquica me parece imprescindível. Ela nos permite reconhecer a diferença em manejar a prisão de sentidos e o sem sentido. Para esse último é fundamental o analista implicado, no aspecto de contar com suas próprias associações e não apenas acompanhar o deslizamento de sentido que a associação do paciente possa conduzir. Assumir a complexidade oferecida pelas formulações de 1920, sem para isso abandonar a radicalidade das descobertas da chamada primeira tópica. É preciso articulá-las: um desafio ao pensamento clínico contemporâneo.

 

REFERÊNCIAS

Freud, S. (2001) Proyecto de psicología. In. S. Freud. Obras Completas. Buenos Aires: Amorrortu, V.1. (Trabalho original publicado em 1950 [1895])

Freud, S. (2000) Conferencias de introducción al psicoanálisis. In. S. Freud. Obras Completas. Buenos Aires: Amorrortu. (Trabalho original publicado em 1916-1917)

Freud, S. (2001) Más allá del principio de placer. In. S. Freud. Obras Completas. Buenos Aires: Amorrortu. (Trabalho original publicado em 1920)

Green, A. (2001) El tiempo fragmentado. Buenos Aires: Amorrortu. (Trabalho original publicado em 2000)

Nosek, L. A disposição para o assombro. São Paulo: Perspectiva, 2017.

Pontalis, J-B. (2005) Entre o sonho e a dor. Aparecida: Ideias & Letras (Trabalho original publicado em 1977).

 

Berta Hoffmann Azevedo é psicóloga, psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, membro associado à Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Docente nos cursos “André Green e a Psicanálise Contemporânea”, da SBPSP, e “Introdução à Psicanálise: Teoria e Clínica“, da Santa Casa de São Paulo. Autora do livro “Crise Pseudoepiléptica”, Coleção Clínica Psicanalítica, ed. Casa do Psicólogo.

Psicanálise e formação de massa

*José Martins Canelas Neto

“A meu ver a questão decisiva para a espécie humana é saber se, e em que medida, a sua evolução cultural poderá controlar as perturbações trazidas à vida em comum pelas pulsões humanas de agressão e autodestruição.” (S. Freud, O mal-estar na civilização, 1930).

Diante da preocupante onda de ódio e violência que estamos vivendo no Brasil atualmente, proponho trazer algumas reflexões psicanalíticas que podem nos ajudar a compreender esse sombrio momento que vivemos.

Freud foi um importante pensador da cultura humana e publicou muitos livros e textos sobre o assunto. O mais famoso deles é O mal-estar na civilização, de 1930. Nessa obra o inventor da psicanálise se pergunta: como os homens, em suas condutas, revelam algo sobre a finalidade da vida? Para ele a resposta é simples: eles buscam a felicidade. No entanto, é bem mais comum experimentarmos a infelicidade. Esta é proveniente de três fontes: do próprio corpo, do mundo externo e das relações com outros humanos. O sofrimento provocado por essa última fonte de infelicidade é, para Freud, aquele que experimentamos mais dolorosamente. Isso tem sido verificado por vários psicanalistas atualmente, devido ao clima de ódio e horror que se instalou no país.

Em 1921, numa obra quase premonitória quanto à ascensão do nazismo na Alemanha, Psicologia das massas e análise do Eu, Freud mostra que a psicologia individual e a psicologia social não se opõem na medida em que “na vida psíquica do ser individual, o Outro é via de regra considerado enquanto modelo, objeto, auxiliador e adversário, e portanto, a psicologia individual é também, desde o início, uma psicologia social.” A psicanálise provocou uma ferida no amor-próprio do homem, ao mostrar que o Eu não é mais o senhor em sua própria casa. A questão da alteridade, assim como a do diferente, fazem parte da essência do ser humano. Um outro interno, constituído pelo nosso inconsciente e nosso corpo (que é um outro para nós) e o outro externo, o semelhante. Nesse texto Freud estuda o que chamou de formação de massa. Trata-se de uma formação que pode aparecer com diferentes formas e durações em diferentes tipos de grupo. No fascismo, o papel do líder, para o qual é transferida toda a autoridade, é fundamental para instigar a formação de massa. A massa assim formada é impulsiva, volúvel e excitável. Freud enumera algumas características da formação de massa: “a massa não tolera qualquer demora entre seu desejo e sua realização, tem o sentimento da onipotência, a noção do impossível desaparece para o indivíduo na massa. A massa é extraordinariamente crédula e influenciável, é acrítica, pensa em imagens que evocam umas às outras associativamente… e não têm sua coincidência com a realidade por uma instância razoável. Ao se reunirem os indivíduos numa massa, todas as inibições individuais caem por terra e todos os instintos cruéis, brutais, destrutivos, que dormitam no ser humano, como vestígio dos primórdios do tempo, são despertados para a livre satisfação instintiva.”

Vemos nessa descrição um modelo para pensarmos a disseminação do ódio por meio de notícias falsas (fake news) e, em geral, violentas, que se estabelecem como verdades absolutas. O indivíduo dentro da formação de massa não consegue ter um trabalho de pensamento crítico. Estamos vendo nessas eleições no Brasil o papel proeminente das redes sociais dentro do ciberespaço. O ciberespaço favorece um fracasso do trabalho de pensamento crítico das pessoas, na medida em que se trata de um mundo real, embora virtual, no qual não existe temporalidade, nem espacialidade. O trabalho de pensamento se faz numa temporalidade, com pequenas quantidades de energia, e é muito diferente das concepções passionais nas quais é o afeto de ódio, trabalhando com grandes quantidades de energia, que conduz o pensamento.

A contaminação do pensamento pelo ódio perturba a possibilidade de se desenvolver um verdadeiro trabalho do pensar, para o qual necessitamos que as palavras não sejam banalizadas. Trabalho do pensar que é fundamental na sustentação da democracia num sentido amplo. A democracia não se limita à existência de eleições livres por voto secreto de todos os cidadãos. Ela necessita que haja um clima de tolerância ao outro e às diferenças para que o debate de propostas possa ocorrer entre as forças políticas que estão em jogo num determinado momento. Quando afirmações homofóbicas, racistas, de incentivo à violência e à tortura, por parte do líder são banalizadas, abrimos a porta para o que Hanna Arendt chamou de “banalidade do mal”. As palavras perdem seu valor e seu papel de único meio para evitarmos o confronto violento. Não há mais espaço algum para o debate de ideias, uma vez que incitações ao mal não são levadas a sério.

O psicanalista francês Charles Melman, em seu livro O homem sem gravidade, considera que atualmente vivemos numa cultura que sofreu importante mutação em sua economia psíquica passando de uma economia organizada pelo recalque a uma economia organizada pela exibição do gozo. Essa lógica do gozo tem relação profunda com um além do prazer e com a pulsão de morte e nela impera o imediatismo da necessidade e não o desejo.
Freud supõe a existência no homem de um fator hostil à civilização. Supõe que uma profunda insatisfação com a civilização existente, em determinadas situações históricas, originou uma condenação da civilização.

A cultura, conclui Freud, é edificada sobre a renúncia pulsional, pressupõe a não satisfação de poderosas pulsões. Esse fato leva à frustração causada pela cultura. Essa frustração é causa de todas as hostilidades que a cultura tem de combater. (p.60)

O sentido da evolução cultural é que ela nos apresenta a luta entre Éros e morte, pulsão de vida e pulsão de destruição, tal como se desenrola na espécie humana. Essa luta é o conteúdo essencial da vida e, por isso, a evolução cultural pode ser designada brevemente como a luta vital da espécie humana. (p.90-91)

Freud introduz a noção de narcisismo das pequenas diferenças. O mal-estar na civilização mostra de maneira detalhada como a agressividade primária e o narcisismo das pequenas diferenças (diferenças de cor da pele, de orientação sexual, de classes, etc) se opõem à identificação mútua: por que preferiria eu um estrangeiro aos meus próximos, por que amaria eu um estrangeiro que está prestes a me detestar e a me maltratar? Esse é o pressuposto que sustenta esse narcisismo das pequenas diferenças e que se exprime na intolerância com o outro diferente de mim.

A limitação do narcisismo é produzida apenas por um fator, pela ligação libidinal a outras pessoas. O amor a si encontra limite apenas no amor ao outro, amor aos objetos. (p.58) Essa condição é necessária para a evolução cultural e do trabalho em comum. Esse é o papel das pulsões de vida e do amor num sentido ampliado.

O escritor, prêmio Nobel de Literatura, Elias Canetti, escreveu um livro – Massa e poder (1960) – para pensar as diferentes formações de massa para compreender as que surgiram durante o nazismo. Descreve em seu livro um tipo extremo de formação de massa que chama de malta. Na malta é a lógica da sobrevivência pura que impera: O momento do sobreviver é o momento do poder. O horror ante a visão da morte desfaz-se em satisfação pelo fato de não se ser o morto. Este jaz, ao passo que o sobrevivente permanece em pé[…] A forma mais baixa do sobreviver é o matar. (p.227)

Será preciso sempre um grande esforço daqueles que acreditam nas pulsões de vida, na tolerância, na democracia para lutarmos contra as tendências maléficas da alma humana. Cito, para terminar o poema de Schiller, citado por Freud em O mal-estar na civilização:
Que se alegre,
Aquele que respira no alto na rósea luz!
Porque embaixo, é o horror,
E o homem não deve tentar os deuses
Nem nunca, para um sempre nunca, desejar ver
O que eles se dignam cobrir de noite e de terror.

 

Referências:
Canetti, E. (1960). Massa e poder. São Paulo, Companhia das Letras, 2008.
Freud, S. (1921). Psicologia das massas e análise do Eu, tradução de Paulo César de Souza, São Paulo, Companhia das Letras, 2011.
Freud, S. (1930). O mal-estar na civilização, tradução de Paulo César de Souza, São Paulo, Companhia das Letras, 2010.
Melman, Ch. (2002). L’homme sans gravité. Éditions Denoël, Paris, 2005.

 

José Canelas é membro efetivo e analista didata da SBPSP, psiquiatra formado pela Universidade de Paris, tendo feito sua formação psicanalítica na França, na Sociedade Psicanalítica de Paris, onde residiu entre 1983 e 1997.

(Poder) chorar as dores do mundo

*Eduardo de São Thiago Martins

 

Estupefato com o retrocesso civilizatório que estamos vivendo, mesmo conhecendo o vai-e-vem do pêndulo da História, me peguei imaginando como diria a uma criança de quatro anos (e meio!) – inteligente, corajosa, curiosa e sensível –  o porquê que ela, que será o futuro, ainda não pode agir sobre ele.

Diria assim:

“Sabe, sentir ódio é humano.
Mas pensar sobre o ódio que se sente, sem disseminá-lo, sem partir para a ação violenta, é mais que humano – é o trabalho da civilização.”

Foi assim que saímos da Idade Média, a Era das Trevas. Foi assim que algumas pessoas sobreviveram a guerras terríveis, ao fascismo, ao holocausto, aos ataques atômicos, aos exílios, censuras, torturas e assassinatos das ditaduras militares – sim, tudo isso aconteceu, de verdade. E é por isso, por conseguirmos ir aprendendo a conter as violências e os discursos de ódio, dia após dia, que muitos de nós tivemos o privilégio de não ter de enfrentar nenhum destes terrores.

Tudo aquilo que nós não conhecemos e não dominamos – dentro e fora da gente – dá medo. As doenças, as pobrezas, as violências, os desejos proibidos, e também as pessoas, todos aqueles que são diferentes de nós – seja pelo tom da pele, pelo jeito de amar, pelos hábitos, pelo jeito de pensar, pelo formato do corpo – aqueles que não conseguimos entender; tudo isso pode dar muito medo.

Fobia!

Quando somos crianças e sentimos medo, rapidamente, buscamos a proteção que está mais perto; a proteção de um adulto, que julgamos ser seguro, forte e confiável.

Mas quando nos tornamos adultos, percebemos que esse adulto-herói em quem acreditávamos, era só uma ilusão. Porque agora os adultos somos nós e continuamos sentindo muito medo e insegurança, por nós e por todos que amamos.

Então, se é assim, qual é a diferença entre adultos e crianças?

A diferença é que a criança se assusta e logo chora; sente raiva e logo bate; quando quer alguma coisa, pega logo sem pedir, tanto faz se é dos outros; e quando a criança não quer alguma coisa, quando se incomoda com alguma coisa, ela joga fora, quebra, destrói, pisa em cima. E neste momento, a criança fica com medo até dela mesma, medo do que é capaz de fazer contra os outros.

Por isso, a criança só confia no adulto porque supõe que ele não vai fazer igual. Supõe que ele pode se conter, vai parar para pensar, vai tentar entender e explicar o que está se passando.

Frente ao ódio e ao medo, essa é a diferença entre eles. Fora isso, o adulto continua sentindo tudo o que sentia quando era criança, e quando age com violência e intolerância, quando pega em armas, está sendo apenas uma criança grande.

É por estes motivos que criança não pode votar… E nem se candidatar ao governo. Porque ela ainda acredita na ilusão do superadulto. Ela ainda não consegue pensar sozinha em tudo o que sente, ainda não é capaz de buscar soluções mais elaboradas para os problemas do mundo; aliás, a criança ainda não pensa muito no mundo, pensa mais nela mesma, porque ainda precisa que seja assim.

O poder, nas mãos de quem ainda não pode, é sempre perigoso demais.

Explode.

Democracia, então, é um complicado projeto dos adultos.

Direitos Humanos são frutos de muito trabalho e pensamento, daqueles que, além da própria dor, um dia se viram chorando diferente porque choravam as dores do mundo.

E liberdade é diferente de fazer tudo o que queremos ou exterminar tudo o que não queremos; liberdade é poder sentir, tolerar, pensar bem e, finalmente, – e isso é muito importante – escolher as melhores ações. Poder se posicionar.

Tornar-se civil é aprender a considerar a necessidade do outro, é enxergar e cuidar dos diferentes mundos que cabem num só, por mais estranhos que possam parecer, por mais medo e ódio que possam gerar.

Democracia e Direitos Humanos, sim.

Violência e discriminação, não!

Não mais.

Eduardo de São Thiago Martins é psicanalista e psiquiatra, atual presidente da Associação dos Membros Filiados ao Instituto Durval Marcondes da SBPSP e colaborador do núcleo de psicanálise do serviço de psicoterapia do IPq-HC FMUSP.

Quarta-feira de manhã

* Pedro Colli Badino de Souza Leite

           

            – Oi.

            – Oi.

            – Essa noite eu tive aquele sonho de novo.

Eu o conheço, já nos vimos algumas vezes, mas, apesar do meu esforço, ainda não consigo me lembrar de sua história ou de seu sonho repetido.

            – Você me conta o sonho de novo?

            – Eu sonhei que estava preso aqui mesmo, na Fundação [Casa], e eles tinham comprado espelhos pra pôr nos quartos. Mas quando eu me olhava, eu não tinha um rosto. Fiquei assustado e acordei.

Qual a prioridade desse rapaz ao me ver novamente depois de um mês? Falar sobre o seu sintoma? Sobre a medicação? Sobre as terríveis condições de sua internação? Sobre sua realidade socioeconômica, um pesadelo desperto? Sobre seus crimes, seu envolvimento com facções criminosas? Nada disso. Sua prioridade é me abraçar e me contar um sonho. O efeito da narração é imediato, a imagem que tenho dele se torna um tanto mais consistente e uma série de memórias sobre sua história passam a emergir dentro de mim. Respondo a partir do local onde fui colocado:

      – Agora eu me lembrei do seu sonho. Por que você acha que ele se repete tantas vezes?

      -Sei lá, talvez ele esteja me mandando alguma mensagem.

      -Qual mensagem?

      – Não sei… (algum tempo em silêncio). Essa semana eu estava vendo de novo uns episódios daquele seriado que eu gosto, aquele dos tronos, sabe? Então, tem uma parte que eu gosto bastante, é sobre uma menina que perde os pais e tem que se virar sozinha, esqueci o nome dela. Ela encontra uma grupo de assassinos que dão casa e comida pra ela, e que começam a treinar ela pra ser uma assassina também. Eles acreditam no Deus de Muitas Faces, que é um deus da morte. No treinamento, ela tem que esquecer que ela é ela, que ela tem um nome, que ela tinha pais, que ela tinha irmãos e amigos. Ela tem que se tornar Ninguém pra depois poder se disfarçar com qualquer identidade que ela queira. Esse é o melhor jeito pra poder se aproximar dos outros e matar quem precisa ser morto. Nesse treinamento, o mestre dela fica perguntando: “Qual é seu nome?”; ela responde: “Eu não tenho nome”. Daí, se ele acha que ela não acredita no que está dizendo, ele a espanca e diz que ela ainda acredita que é Alguém. E daí…doutor, posso tirar minha blusa, tô com calor…

    – Sim, claro.

Nos outros ambientes da Fundação ele não pode tirar a blusa, deve ficar uniformizado com o moletom azul comum a todos os adolescentes. Do meu ponto de vista, tal uniformização contribui bastante com o Deus de Muitas Faces. Ele tira a blusa e por baixo veste uma camiseta de mangas curtas. Tem braços fortes e os apoia sobre a mesa, na minha direção. Suas tatuagens se fazem presente ao meu olhar.

      – Você tem muitas tatuagens.

      – Ah, é verdade, quer saber o que elas significam?

      – Sim.

Ele começa a descrever os significados das tatuagens, uma a uma, e penso que elas poderiam ser reunidas em dois grupos diferentes. O primeiro grupo representa o processo de despersonalização. Tornar-se Ninguém, ser eficiente dentro de um grupo criminoso, adorar o deus da morte. Ele fala, um tanto desafetado:

      – Essa aqui significa que sou membro do grupo P. Essa aqui significa que um policial está cercado por quatro bandidos e que ele vai morrer. Essa aqui significa paciência para que o crime possa ser premeditado com frieza. Essa aqui significa que a vida é só um jogo, como um jogo de cartas ou de dados, então tanto faz viver ou morrer. Essa aqui significa o tráfico de drogas. Essa aqui…não, essa aqui deixa pra lá. Essa outra aqui significa…

       – Espera, por que você pulou essa aí?

       – Ah, é porque essa é triste, essa é pra lembrar de um amigo meu de infância que morreu no crime. A gente era muito parça [parceiro].

Ele se entristece, seus olhos ficam marejados. Ele tenta engolir o choro e continua a falar sobre o primeiro grupo de tatuagens. Tenta fazer a raiva triunfar sobre a tristeza mas já não consegue, começa a chorar bastante. A tatuagem do luto de seu parça é representante do segundo grupo. São tatuagens que erguem um espelho diante de si e lhe mostram que ele ainda acredita ser Alguém. Também nesse grupo estão tatuados: o nome de sua filha, o nome da sua mãe, o nome da sua avó, o nome das suas irmãs e irmãos (não há o nome do pai, e também nunca houve um pai), uma estrela que representa a mulher que ama (ele não sabe que ainda a ama, ficou revoltado com o afastamento dela depois de seu terceiro crime, mas fala dela quase o tempo todo quando conversamos), o time de coração (aquele que sabe ser o mesmo time de seu avô materno), uma lágrima tatuada logo abaixo do seu olho que significa a tristeza provocada em quem está lá fora.

O tempo da consulta já se esgotou há muito tempo, ouço vozes do lado de fora que estão interrogando sobre meu atraso. Apesar da pressão, sustento o espaço para que meu paciente possa elaborar um pouco mais em silêncio. Enquanto isso, reflito sobre o longo caminho que percorremos até aqui. De início, meses e meses diante de graves sintomas psiquiátricos e repetidas atuações autodestrutivas, até que um sonho pudesse ser constituído. Dali, mais uma travessia até hoje, quando o sonho repetido ganha significados que possam ser falados e escutados. E daí em diante não sei, veremos. Mas quando se sonha ser Ninguém, já não se é Ninguém. Neste momento, ele é Alguém que sonha ser Ninguém, e aqui se apresenta uma das potencialidades fundamentais do trabalho psicanalítico. A possibilidade da Fundação de uma Casa psíquica.

 

Este texto é um recorte do artigo “Quarta-feira de manhã”, publicado na Revista Brasileira de Psicanálise [Volume 51, n. 4, 107-21 · 2017]. O autor trabalhou por alguns anos como psiquiatra de adolescentes internados em diversas unidades da Fundação Casa. Invadido e pressionado por memórias daquele período, o trabalho da escrita se mostrou útil para elaborar suas experiências

 

Pedro Colli Badino de Souza Leite é membro filiado ao Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, psiquiatra pelo IPq-HCFMUSP e supervisor de médicos residentes em psiquiatra no estágio de psicoterapia.

 

Narcisismo terciário

*Marilsa Taffarel

No dia seguinte à manifestação “Ele não” era mais nítido o sentimento de alegria… contentamento… satisfação… realização de algo significativo… das pessoas próximas que continuavam a enviar mensagens, vídeos, fotos, relatos.

Após manifestações acontece isso, mas nessa, decididamente, aconteceu mais, aconteceu maior, aconteceu muito.

Uma placa indicativa nomeava o epicentro do acontecimento: Potato Square. Vem a calhar a indicação em inglês, língua ainda internacional, pensamos. Trata-se de uma manifestação que ganhou essa dimensão e, em consequência as praças de varias capitais do mundo ocidental.
Na verdade, o epicentro era apenas nominal, porque havia vários pequenos centros em torno de um som, de alguma banda. O Largo da Batata perdeu seus contornos, ampliou seus limites. O que nos chamou a atenção foi justamente a manifestação consistir em estar ali, caminhar por ali, sentar no meio fio ou em alguma mureta. Estar entre as pessoas.

A defesa da diversidade, da multiplicidades, das singularidades estava ali estampada em gentes tão diferentes nas roupas, nos gêneros, nos adereços, embora sempre em algum lugar no rosto, nos braços, nas costas, nas testas, nas camisetas, nos lenços estivesse o “ Ele não”.

Estávamos caminhando entre as pessoas, sentindo com todos os sentidos e nos perguntando o que é uma manifestação, além de ser isso mesmo: uma manifestação?
Muitos cartazes diziam: “não é uma manifestação política, é moral”, pelo direito de ser diverso. Diríamos: uma manifestação desconstrutiva de enunciados totalizantes, hierarquizantes e fundados no desejo de uniformização do humano.

No entanto, fica a pergunta: afinal o que é uma manifestação? O fato é que não há uma manifestação. Há manifestações. Muitas delas constituem-se como fenômenos de massa que Freud descreveu. Massas mesmerizadas por líderes que encarnam figuras onipotentes, oniscientes. Líderes que convocam o desejo de obediência. Assujeitados, acríticos e passionalizados, os liderados abdicam de sua condição de sujeitos na entrega ao líder que os conduzirá ao poder e extermínio dos opositores.

Nessa manifestação “desconstrutiva”, tratava-se do prazer de estar entre pessoas as mais diversas de seu gênero, de sua classe, de seu nível, de sua geração. Estar além de todos esses atributos.

Pensei, para caracterizá-la e diferenciá-la em um conceito que reencontrei há algum tempo: narcisismo terciário. Conceito formulado por Alcira Marian Alizade, psicanalista argentina, falecida em 2012 , cofundadora da COWAP, autora de diversos livros sobre seu pensamento psicanalítico e também de livros de ficção.

Como ela pensa esse, que ela chama de “novo ato psíquico”, sem medo de usar as mesmas palavras que Freud utiliza para designar o narcisismo que se instala unificando as pulsões autoeróticas?

O narcisismo terciário dependeria de haver um investimento de amor que se inscreveria no bebê. Tal moção seria o suporte de investimentos que, à diferença dos narcisismos primário e secundário, não retornam ao ego. Eles não estariam ligados à castração, ao Édipo. Seriam pré- edípicos ou para edípicos e assim se manteriam.

Trata-se para ela da condição de possibilidade do relacionamento com o alheio, o distante, o social. Com objetos que estão além dos limites e dos interesses do nosso entorno social, estético, financeiro imediato. A vivência e a experiência da contingência e da transitoriedade da vida fariam emergir com mais força as possibilidades transformadoras, a conquista de espaços da pulsão de vida. Alicira pensa também a clínica como conquista desses espaços.
Vemos que, de forma ousada, essa autora – conhecedora do pensamento freudiano, kleiniano e do pensamento psicanalítico francês contemporâneo – prioriza, nessa conceituação, a pulsão de vida, o corpo – o corpo impõe sua presença viva e mortal – e os investimentos não-edípicos.

O narcisismo terciário pode ajudar a compreender como descobrimos a condição humana mais do que atravessando barreiras estéticas, intelectuais, diferenças de gênero. E sim recuperando investimentos em sistemas não centrados, não hierárquicos. Investimentos nas coisas humanas, em todos os seres que constituem nosso pequeno e frágil planeta.

 

Imagem: AFP para a Revista Época.

 

Marilsa Taffarel é membro efetivo e professora da SBPSP, mestre em filosofia da psicanálise pela PUC-SP, doutora pelo núcleo de psicanálise da PUC-SP e co-autora do livro “Isaias Melsohn, a psicanálise e a vida”.

Manifesto da Diretoria da SBPSP pela defesa da democracia e contra o autoritarismo

A Diretoria da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo acredita ser importante e necessário se manifestar frente aos últimos acontecimentos e ao clima que se estabeleceu em nosso país.

A psicanálise sempre teve como valor máximo a coragem de enfrentar a verdade, defender a liberdade do indivíduo, o respeito ao grupo, e a tolerância em face às diferenças. Esta disposição é base de nosso trabalho clínico e do conhecimento que adquirimos, ao longo dos mais de cem anos de nossa história.

Estes valores são imprescindíveis para construção de uma sociedade democrática e da nossa prática; repudiamos toda e qualquer ameaça a estes princípios.

Assim, vimos reforçar nossa preocupação e necessidade de unirmos forças contra o perigo de perdermos nossos valores de base e, assim, nossas condições de exercício da cidadania e da psicanálise.

A história nos serve como alerta; saibamos levá-la em conta!

Diretoria
SBPSP

O “pensamento” fascista e a função po-ética da psicanálise

*Ricardo Trapé Trinca

Isso que escutamos é o estalar de nosso “Ovo da Serpente”[1]? Ah, mas que estranho fascínio é esse exercido sobre nós, que perturba com um choque inebriante! E, enquanto esperamos nascer um monstro horrível, o que vemos é um filhote chamado propaganda, uma sereia que cativa e engrandece… Ah, mas como nos atrai essa sedutora vontade de poder!

Para nós, psicanalistas interessados nas interfaces entre a sociedade e a clínica contemporânea, os tempos atuais têm sido extremamente inquietantes e perturbadores. Escutamos de nossos pacientes com frequência cada vez maior a ideia de que a vida pública e privada deveria ser organizada com autoritarismo e rigidez. De que é preciso se aliar às pessoas de “bem”, contra a corrupção, etc. O que nos faz apreender um espírito justiceiro, segregador e antidemocrático, que cresceu e se desenvolveu entre nós. Este texto é um pedido para que observemos tanto em nós mesmos como em nossos pacientes tal presença, digamos, funesta e dissociada.

Vamos tentar descrevê-la. Podemos observar inicialmente o predomínio de um intenso sentimento de frustração, no qual o orgulho pessoal parece ter sido ferido ou roubado. Trata-se de uma frustração pessoal, mas também social. Essa frustração associa-se à ideia de que algo ou alguém destruiu a esperança de se ter uma vida melhor. Uma vida em que não só haveria menor necessidade de negociação dos nossos impulsos com o mundo, mas no qual nosso autoritarismo pessoal encontraria finalmente a esperança de ser autorizado, como um direito. Esta maneira de pensar, que chamamos de fascista, surge como uma conclamação à recuperação, por meio da força, deste orgulho roubado por alguém que, por sua vez, se tornou um usurpador.

Com este conclame, o fascismo impõe-se com uma linguagem traumatizante, cuja presença torna-se ameaçadora. Ele cria repentinamente um impacto imprevisível. Enquanto aquele que escuta tal discurso tende a sofrer o golpe de certas palavras e a se demorar sobre elas, tentando questioná-las, o discurso já foi adiante, como uma metralhadora de disparos contínuos. Contra esse discurso não há conversa; não existe um diálogo ou ponderações a serem feitas. Ou se aceita ou não se aceita. Caso seja aceito, o discurso transforma-se em algo que serve para ser retransmitido. Caso não se aceite, uma reação violenta contra o discurso é frequente; e, assim, ele é reproduzido na forma de seu avesso, propagando o ódio e uma organização maniqueísta da realidade. O poder que dele surge, cooptando seguidores e divergentes numa empreitada beligerante, advém de sua sede por obtenção de justiça, ou seja, de que o autovalor ou a posição perdida deve ser recuperada a qualquer custo; comportamento que encontra eco na formulação winnicottiana de tendência antissocial. É um discurso que visa ao poder perdido e à subjugação do perdedor.

Esse discurso, como a correnteza de um rio, corre numa só direção. Diferentemente de outros discursos humanos, polifônicos, nele há uma simplificação de sentidos possíveis. Portanto, a fala humana se empobrece, como numa fala de propaganda. E, como um autofalante, o discurso fascista não tem nenhuma receptividade, é uma propagação sem audição, cujo objetivo é realizar um reclame e conclamar outros iguais para realizar uma espécie de polarização narcísica, na qual se tende a girar em torno de ideias desprovidas de amizade e negociação. Há enorme fragilidade no conteúdo que é propagado, porque ele não é dialógico, reflexivo, e sim uma enorme restrição do escopo do pensamento[2] e da história. Além disso – e talvez um dos seus principais aspectos – a forma do dizer, sua estética, tende a ser tão ou mais importante do que seu conteúdo. Como não se trata de uma experiência do pensar emocional que se pode ter com alguém, ele assume a forma de um discurso e o seu valor parece repousar justamente nisso, em uma fala que desconsidera a outra mente, e que se faz de cima para baixo, composta por autoritarismo, agressividade e empoderamento. O conteúdo, cujo valor de verdade inexiste, fica em segundo plano, já que o principal é a sua estética. Assim, o valor de verdade de uma afirmação é substituído pelo valor de seu espetáculo impactante, em uma espécie de estética do choque, mas destituída do poder emancipatório que essa estética trouxe para a modernidade, especialmente nas artes (Parente, 2018). Quase não precisamos dizer quanto esse discurso é sedutor; a história que nos diga [3]!

Nessa maneira de constituir um “pensamento”, ou uma fala desprovida de apreço com a verdade, o conteúdo que se propaga é autoengendrado. Ela não se torna apenas uma falsificação da realidade, mas uma nova realidade, cuja existência se baseia no número de apreciações ou visualizações que recebeu. Não é necessário que encontre correspondência no real. Qualquer coisa pode ser dita sem ser refutada, pois o importante é a sua força de caráter traumatizante. Como a verdade, assim, não tem referência na realidade, ou na experiência emocional, mas na repetição do “meme”, a verdade transmitida passa a ser a do choque, que é sentido como “estar se falando a verdade”. E, paradoxalmente, nesse discurso há um reclame contra a mentira, de modo que sua estética passa a ser considerada, por si só, a expressão de algo verdadeiro.

Mas esse discurso não estaria, por sua vez, tamponando sentimentos de desamparo? Acreditamos, no entanto, que tais sentimentos passam a ser atribuídos àqueles que sentem o seu impacto, em movimentos de identificação projetiva. E assim, essa maneira de não pensar acaba por se tornar propaganda de preconceitos (discriminação social, étnica, racial, de gênero, etc), de alguém “forte” para alguém “fraco”.  Essa é uma das razões pelas quais nessa forma de discurso não se permitem dúvidas, incertezas e insegurança. Elas são combatidas radicalmente, pois a dúvida abriria a percepção para a apreensão dos sentimentos de desamparo dos quais se pretende evadir.

Não podemos esquecer que estamos todos em igualdade de condições para nos tornarmos expressão de uma tendência humana como esta, que avista nossa maior desumanidade e barbárie. Precisamos constantemente pensar como, a cada dia, cada um de nós não se tornará um fascista[4]. Como fazer para que o nosso discurso não seja, ele mesmo, uma ferramenta de poder, cuja intenção seria impedir o encontro humano no qual o pensamento se desenvolva, envolvido pelo desconhecido das coisas. O encontro com o rosto do outro será sempre o encontro com o mistério. Por isso, é fundamental que possamos, a cada vez, reconhecer a presença de nosso próprio fascismo, podendo, por meio desse reconhecimento, dizer não a isso a cada vez, a cada instante de seu acontecimento. O problema, portanto, passa a não ser mais se somos ou não fascistas, mas quando somos, e reconhecer o momento de nosso enlouquecimento [5].

Como sabemos muito pouco sobre a nossa própria vida, estamos sempre rodeados por impotência, medos e sentimentos de desamparo. E, em face do desamparo, criamos ilusões alucinadas da realidade, com a intenção de nos protegermos dela. Se o desamparo, por um lado, é uma condição fundante do psiquismo humano, por outro, seu aparecimento pode revelar a ocorrência de fraturas éticas (Safra, 2004). Estas fraturas estão relacionadas a uma ruptura com a confiança e com a espera pela mente de um outro, condição indispensável – de amparo – para a ampliação das possibilidades psíquicas em face do desamparo.  A aliança com o pensar fascista é a expressão da desesperança em relação ao outro, como alteridade, mas ocorre quando, pela impotência, busca-se a onipotência. Trata-se, portanto, de um falso amparo narcísico, que pode ser buscado, como comportamento político, em qualquer ideologia.

Sabemos que a atividade psicanalítica sustenta as incertezas do não saber, para ser surpreendido com a aparição do pensamento numa relação dialógica. Na situação clínica, a função po-ética consiste na surpreendente criação ou revelação da alteridade. Uma alteridade concebida como uma nova formação de metáforas e de histórias possíveis para um sofrimento[6]. Trata-se de uma atividade que devolve o valor da verdade ao seu conteúdo correspondente e restabelece o valor estético da pesquisa e da incerteza em relação ao saber, tornando a ação política oposta ao discurso de poder. Isso porque as metáforas e histórias são sempre incapazes de expressar todo o sofrimento. Ou seja, trata-se de uma ação de des-empoderamento, que restabelece, assim, a força da verdade. A função po-ética tem implícita uma ética do cuidado e da atenção aos sofrimentos humanos, que são muitas vezes impensáveis, ainda mais quando associados à nossa condição de desamparo.

Num mundo em que o discurso fascista se propaga como rastilho de pólvora, com um encantamento pelo choque, com ares de espetáculo, a tarefa psicanalítica, como resistência ao fogo, é continuar a mostrar seus princípios po-éticos. Pois o alimento que nossa mente precisa é aquele do encontro com a alteridade, que nos nutre com o sentimento de verdade, mesmo que seja provisória e incompleta.

 

[1] Faço alusão ao filme de Ingmar Bergman “O Ovo da Serpente”, Das Schlangenei(1977), que tratado período de incubação do nacional-socialismo na Alemanha.

[2]George Orwell em seu livro 1984, descreve o controle sobre a linguagem como um dos modos de se restringir o escopo do pensamento. Orwell descreve a Novilíngua, uma língua cujo objetivo seria tornar impossível designar certas coisas, de modo que aquilo tenderia a se tornar inexistente pela impossibilidade de ser designada. Ou seja, ideias indesejáveis a um sistema fascista não teriam como surgir de dentro dele.

[3]Brun (2018): “Por que o fascismo continua sendo tão atraente? Em Israel se apresenta o fascismo como um monstro terrível. Creio que é um erro, porque como todo mal tem uma cara amável e sedutora. (…) Como é possível que milhões de alemães tenham apoiado Hitler? Deixaram-se levar porque os fazia se sentir especiais, importantes, belos. Por isso é tão atraente”. No filme de Peter Cohen, Arquitetura da Destruição (1992), logo no seu início, o narrador diz: ”Dizem que numa aldeia alemã dos anos trinta, o povo tinha um conceito próprio do que era o nacional-socialismo. Eles achavam que o nacional-socialismo tinha uma ligação com a pureza (…) o sonho de criar, através da pureza, um mundo mais harmonioso”.

[4] Em 1977, Foucault escreve o prefácio do Anti-Édipo, de Deleuze e Guattari, formulando que há um inimigo maior a ser combatido, o fascismo. “Não somente o fascismo histórico de Hitler e Mussolini – que soube tão bem mobilizar e utilizar o desejo das massas, mas também o fascismo que está em todos nós, que ronda nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz gostar de poder, desejar essa coisa mesma que nos domina e explora”.

[5] Na forma de transformações em alucinose (Bion, 1965/2004).

[6] Pensamos em Hanna Arendt: “Toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história”.

Imagem: Retirada do filme de Ingmar Bergman, “O Ovo da Serpente”.

Ricardo Trapé Trinca é psicanalista, doutor em Psicologia Clínica pela USP, mestre em Filosofia pela PUC-SP e membro filiado ao Instituto “Durval Marcondes” da SBPSP. 

Freud e a clínica do século XXI

*Claudia Suannes

Um homem só morre efetivamente depois que o último homem que o conheceu morre também. A frase de Borges, que serve como ponto de partida da biografia escrita por Elisabeth Roudinesco, soa oportuna para se pensar no aniversário de morte de Freud, dia 23 de setembro, e no lastro do pensamento freudiano na clínica dos tempos atuais.

A radicalidade do pensamento de Freud, que tira da consciência o eixo do funcionamento psíquico humano e marca a importância da sexualidade, produz um impacto que o situa como um dos grandes pensadores do século XX, cujo legado se estende para além da disciplina por ele criada.

São muitas as contribuições de Freud para se pensar a cultura, os fenômenos sociais e políticos, além da própria clínica psicanalítica.  Como é próprio a um pensador de sua envergadura, sua teoria também é objeto de crítica, sendo uma delas expressa no questionamento sobre a eficácia do método psicanalítico na clínica do século XXI.

Renato Mezan, no livro O tronco e os ramos, dedica-se ao estudo da história da psicanálise, tendo como eixo de seu estudo a relação entre o pensamento de Freud e seus sucessores. Partindo das diferenças entre as escolas de psicanálise, Mezan indaga-se como a partir de um tronco comum, Freud, as escolas possam ter produzido teorizações tão diferentes entre si, mantendo-se, ainda assim, em um campo que é reconhecidamente o campo da psicanálise.  Uma linha fecunda de análise que o autor nos apresenta, então, é a noção de “matriz clínica”, que consiste na base a partir da qual cada autor lê e indaga o texto freudiano. Dito de outro modo, no exercício de seu ofício, os psicanalistas têm contato com pacientes diferentes e é a partir de suas inquietações clínicas que cada analista/autor vai engendrar sua reflexão teórica, privilegiando, para tanto, aspectos da teoria freudiana que melhor permitem pensar os fenômenos com os quais se deparam.

O que me interessa marcar na citação do trabalho de Mezan é a consideração sobre a noção de matriz clínica como fonte de desenvolvimento do pensamento freudiano. Isto é, a radicalidade do método psicanalítico, que contém em seu bojo a possibilidade de escuta às diferentes expressões de sofrimento psíquico e aos modos particulares de se haver com este sofrimento. O subsequente esforço de teorização sobre esses fenômenos encontra na imagem do tronco e seus ramos a expressão de vigor e de possibilidade de constante renovação. Basta abrir os jornais, sair pelas ruas ou receber um novo paciente para constatamos que o terroir dos dias atuais constitui um terreno fértil para o desenvolvimento da psicanálise.

Em homenagem à sua contribuição para a psicanálise, escrevi breve reflexão sobre a influência de Freud para a clínica no século XXI neste outro artigo, publicado em 2015 no blog da AMF (Associação dos Membros Filiados ao Instituto de Psicanálise da SBPSP).

Cláudia Suannes é mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, membro filiado ao Instituto Durval Marcondes da SBPSP. Contato: clausuannes@gmail.com