Notas Sobre o Tédio

Vera Lamanno-Adamo*                         

No texto Luto e Melancolia, Freud (1915) introduz o termo melancolia como uma forma patológica do luto. Para ele, no trabalho de luto, o sujeito consegue desligar-se progressivamente do objeto perdido. Na melancolia, ao contrário, o sujeito se supõe culpado pela morte acontecida, nega-se e se julga possuído pelo morto ou pela doença que acarretou sua morte. O eu se identifica com o objeto perdido, a ponto dele mesmo se perder no desespero infinito de um nada irremediável.

A identificação do eu com o objeto perdido acaba gerando apatia, torpor e ausência de sentido à existência, assim como ocorre com um eu dominado pelo tédio. No entanto, no tédio não encontramos lamentos, incriminalização e culpabilização.

O tédio diz respeito à perda do significado pessoal diante da vida, do mundo e da realidade: resulta desta perda sentimentos de vazio, desânimo, falta de vontade de realizar atividades rotineiras e desinteresse pela realidade vivida.

Sob o domínio do tédio, o eu se vê esvaziado de significado pessoal à existência. O tédio revela o tempo que nos arrasta para um mundo desprovido de significação e esvaziado de sentido.  

Vou me valer do segundo episódio da primeira temporada do seriado Black Mirror, intitulado Fifteen Million Merits, para ilustrar a vida e relações de indivíduos sob a égide do tédio.

Quinze Milhões de Méritos

Ambientado em um futuro high-tech, o episódio traz como protagonista o jovem Bing (Daniel Kaluuya), apenas mais um entre milhões de indivíduos autômatos que habitam uma colônia onde nada fazem além de pedalar em bicicletas geradoras de energia.

Energia consumida pela sociedade e pelos próprios “pedaladores”.

A única maneira de se distrair é assistindo a infindáveis programas de TV ou adquirindo novos aplicativos para serem utilizados em seus avatares.

Quanto mais pedalam mais merits conseguem em troca. Todos brigam para ter mais merits, para assim terem a chance de dar um upgrade em seus avatares, comprar aplicativos diferentes e também para ignorar anúncios que aparecem a qualquer momento em seus quartos.

O contato interpessoal é praticamente nulo.

Um dia, chega ao local a bela Abi (Jessica Brown Findlay) que, de imediato, chama a atenção de Bing. Ele se sente atraído por ela, mas não chega a conversar, até o dia em que ele a ouve cantar e fica impressionado com sua voz. Então, cria coragem e vai ao seu encontro.

Bing estimula Abi a participar do show de calouros para que mostre seu talento, mas ela não tem merits o suficiente para comprar sua participação. Ele oferece os seus a ela, dando-lhe de presente quinze mil merits.

Ser bem-sucedido em um reality show é a única maneira de sair da colônia, ou seja, parar de pedalar para gerar energia e morar em um quarto maior e mais bem equipado com black mirrors.

Abi consegue ir ao show de talentos, o programa de calouros Hot Shots, que faz lembrar os realities American Idol ou The Voice. Após uma brilhante apresentação, os jurados dizem sarcasticamente que, embora seja muito bonita e capaz de gerar pensamentos maliciosos, sua voz é mediana.

Propõem que ela trabalhe no canal erótico ou volte para a colônia. Ela decide aceitar, já que não sabe se terá outra oportunidade de sair de lá um dia.

Bing fica inconformado com o destino de Abi e começa a trabalhar na bicicleta para reduzir seus gastos e também conseguir ir ao show de calouros. Faz inicialmente uma apresentação de dança e então, aos berros, saca um pedaço de vidro que conseguiu quando quebrou uma das telas de LCD de seu quarto, após um ataque de raiva. Frente ao jurado e à plateia, Bing ameaça se cortar caso não o escutem.

Após discursar de forma incisiva e forte sobre a falta de intimidade, privacidade e a vida controlada da colônia, os jurados oferecem um programa só para ele em um canal da colônia.

Bing se torna uma espécie de herói que expõe críticas sobre o sistema, sempre com o pedaço de vidro nas mãos. Mas o seu discurso, programa após programa, a sua fala estridente e violenta torna-se uma performance.  Não promove reflexão e pensamento. Uma espécie de válvula de escape para a colônia.

Está assim instituído um campo fértil para a proliferação do tédio e de ferramentas poderosas para se livrar dele: extremismo e excitabilidade.

Numa cultura determinada por pura funcionalidade e eficiência, o tédio dominará porque a qualidade do mundo desaparece na visibilidade extrema que tudo engloba. Numa cultura assim, experimentos com sexo e drogas – ou fugas para o nevoeiro de uma nova religião – parecerão tentadores, porque parecem oferecer uma maneira de escapar de uma vida cotidiana penosamente entediante e de descobrir novos horizontes bem mais excitantes. O triste é que esses excessos nunca conseguem satisfazer o anseio de que se originaram (Svendsen, 1999, p.96).

Quinze milhões de Méritos evidencia uma ética contrária à reflexão em um mundo povoado por “pedaladores”. Resulta daí, relações estáticas e estereotipadas que não promovem experiências significativas, gerando cada vez mais esgotamento dos sentidos e indiferença perante a vida.

No entanto, o tédio não é em si um sinal de psicopatologia.

O tédio é um fenômeno tipicamente humano que carrega em seu bojo a noção de subjetividade enquanto manifestação da consciência de si, demandando sentido à vida e significado pessoal à existência.  

Frente à sensação de vacuidade, o tédio estimula a busca de sentido e significado à existência.

Reconhecer o tédio como uma presença não necessariamente insuportável possibilita que o transformemos em fonte de sentido para a vida. Ao tentar anulá-lo a qualquer custo, corre-se o risco de uma existência insignificante, povoada por extremismo e excitabilidade.

Gradativa e penosamente, o tédio pode ser suportado e em função disso ocorrer um reinvestimento no seu par antitético: a curiosidade.

Curiosidade que nos move em busca de conhecer o modo como nos colocamos diante de nós mesmos, diante dos outros e diante do mundo em que vivemos, para dar sentido ao que somos e ao que nos acontece.

 

Referência

Freud, S. (1915) Luto e Melancolia. Standard Edition XIV. Rio de Janeiro: Imago Editora.

Lamanno-Adamo, V. L. C. (2017) Tédio, luto e melancolia. Rev. Bras. Psicanal. vol.51, n. 3 (p.79-90).

Svendsen, L. (1999) Filosofia do tédio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

 

Vera Lamanno-Adamo é membro efetivo, analista didata e docente do GEPCampinas e da SBPSP.

Memórias coloniais

*Olívia Falavina

O livro “Caderno de Memórias Coloniais” da moçambicana Isabela Figueiredo discorre sobre lembranças e acontecimentos ocorridos na Maputo de 1960, durante o processo de descolonização. Filha de pais portugueses que migraram para a África, a autora disseca, em formato de um diário autoficcional, as relações racistas entre europeus e africanos, sob o olhar perturbador e investigativo da criança que era na época. Descrevendo essas tensas e intensas vivências, a garota permanece na cidade até os doze anos, quando é enviada sozinha e repentinamente para Lisboa durante a turbulenta independência de Moçambique. A violência normatizada da convivência cotidiana transparece no fato de que nenhum negro poderia jamais encostar em um branco ou olhá-lo diretamente nos olhos, ou ainda, de que deveria sempre manter uma postura curvada diante de um colonizador. Crianças brancas e negras do mesmo modo não se misturavam – as primeiras têm calçados, brincam trancafiadas em casa e vestem rendas alvas lusitanas, já as segundas vagam soltas, esfarrapadas, à procura de comida e pequenos serviços gerais. Universos intransponíveis, exceto pelas grades que os separam.

“Eu e eles não falávamos a mesma língua. Apenas umas palavras soltas. Olhava-os muito, e eles a mim. Por exemplo, neste momento estou a olhá-los através do tempo, e há uma perplexidade nos seus olhos, um vazio, uma fome, e nos meus uma impotência, uma incompreensão que nenhuma razão poderá explicar.”(Figueiredo, p. 167, 2018)

O ambiente infantil da autora-criança é moldado pelas marcas escravagistas ainda presentes, que ditavam o cenário micropolítico doméstico. Seus registros são um acerto de contas com suas origens, a matriz portuguesa e seu pai, cuja ternura e violência eram imiscuídas na intimidade do lar. O que ouvimos no decorrer do diário é a combinação singular de suas vozes infantil e adulta, provocando uma imersão no leitor em toda a ambiguidade dos afetos humanos. Quem nos escreve é uma menina crescida. Lugar duplo e paradoxal devido também a sua condição de retornada[1], a exilada africana que regressa à pátria sem nunca ter estado lá.

Por meio de memórias sensoriais, conhecemos sua Maputo do solo vermelho e seco, vemos as cores exuberantes e sensuais das roupas femininas, derretemos com o calor escaldante e provamos a inflamante aguardente de cajú. Na geografia da cidade e das pessoas, bem delimitada pela disposição precisa dos corpos negros e brancos nos espaços públicos e privados, a cisão é desde o começo condição e ferramenta fundamental de sobrevivência.

Há uma passagem comovente no diário em que a autora-criança seleciona as mais suculentas mangas de seu quintal e vai para a frente de sua casa vendê-las, atividade reservada exclusivamente às mulheres negras. Essa brincadeira subversiva ganha tons ainda mais interessantes quando descobrimos que o preço das mangas é bastante inferior ao das próprias negras. Ela se coloca, portanto, a ser “explorada”. Em sua brincadeira consegue uma proeza, reunir em si mesma por um momento a culpada colona branca e a aphartada africana negra. A comunhão desses papéis talvez não fosse possível em nenhuma outra circunstância. Ao brincar, torna-se a rapariga de cachos loiros e pele negra. E ri, se diverte e se sente livre por agora estar finalmente na rua, descalça, onde sempre quis estar: do outro lado da grade.

Sua brincadeira pôde, ao menos em fantasia, fazer uma ponte entre mundos antagônicos. Identificações paradoxais, como as de opressor e oprimido, se justapõem e convergem simultaneamente no ato lúdico simbolizante. Em uma tentativa infantil de atravessar abismos vemos em curso uma incipiente elaboração de traumas sociais e íntimos aos quais se encontrava exposta.

Esta contundente obra literária contribui para pensarmos sobre a miséria psíquica daquele que perpetua a violência, pois é também assolado pela cisão que constitui o fenômeno. Este se revela pela incapacidade do indivíduo constituir-se como si mesmo a não ser pela exclusão do outro e de sua fabricação complementar como um inimigo. Se o sofrimento dos colonizadores não é (e não deve ser) comparável ao das vítimas que padecem dos efeitos devastadores do racismo, ele, entretanto, nos aponta novamente como perdemos todos com a barbárie.

Os paralelos com nosso país, e com as outras antigas colônias, são inevitáveis. Moçambique é aqui e agora. Talvez possamos, assim como a autora menina, com suas mangas e cadernos, buscar meios próprios para tratar de nossas cicatrizes. Resta a esperança de que o brincar e a cultura possam continuar sendo meio de expressão e reparação de dores, as da nossa história pessoal e coletiva.

[1]          Como são chamados os filhos de portugueses que regressaram à pátria nos anos 1970.

 

Referências Bibliográficas:

FIGUEIREDO, I. Caderno de memórias coloniais. São Paulo: Todavia, 1a ed., 2018.

 

Olivia Pala Falavina é psicóloga, psicanalista, aspirante a membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e membro filiado do Instituto Durval Marcondes da SBPSP.

 

 

 

Comissão Arns: direitos humanos sempre e sem retrocesso

* Laura Greenhalgh

Celebramos o 70º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas (1948-2018) em meio a muitas incertezas – como equacionar a crise imigratória que afeta tantos países e consome milhares vidas? Como diminuir a desigualdade no planeta? Como imaginar um futuro sustentável para as nossas crianças com a destruição irresponsável do meio-ambiente? São ameaças àquelas mesmas garantias de ¨liberdade e dignidade para todos¨, estabelecidas na Carta da ONU.

No Brasil, doses extras de ceticismo e preocupação. Numa sociedade bastante polarizada, onde a ideia de bem-estar social tem sido erodida pela voracidade do mercado com o beneplácito das classes dirigentes, falar em direitos humanos tornou-se convite para a retaliação. A desqualificação. A destruição do ¨outro¨. A violência. Não são poucos os que conjugam o bordão da intolerância: ¨direitos humanos só para humanos direitos¨.

Foi nesse contexto que um grupo de brasileiros de gerações, biografias e trajetórias distintas, mas cujo elo comum tem sido a permanente defesa dos direitos humanos, organizou-se para constituir a Comissão Arns, instalada oficialmente na manhã de 20 de fevereiro de 2019, em ato na Faculdade de Direito da USP.

Não se trata de uma comissão com filiação político-partidária. Nem antigovernista, por definição. Somos uma comissão suprapartidária que atua em rede com entidades na defesa dos direitos humanos. Olhamos para graves violações cometidas contra mulheres, crianças, adolescentes, negros, a população LGBT, os indígenas e outros grupos discriminados.

Muito há por fazer nessa vasta arena de conflitos. De saída, para que não haja retrocesso em marcos legais e institucionais firmados pelo Brasil quanto à proteção desses direitos. E para denunciar violações graves numa conjuntura de poder que propagandeia excentricidades via redes sociais, ocultando uma agenda de interesses ainda não tão visíveis, talvez inconfessáveis.

É nesse campo de atuação coletiva e cidadã que a Comissão Arns pretende atuar, tomando como inspiração o seu patrono, Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns. Acreditamos que Dom Paulo deve ser lembrado não só como o líder religioso de visão ecumênica que foi; mas, sobretudo, como o defensor incansável de todos aqueles que se encontram privados de direitos.

Laura Greenhalgh é jornalista e membro da Comissão Arns.

Foto: Anistia Internacional

COMO PENSAR SOBRE ADOÇÃO NA TRAGÉDIA DE BRUMADINHO… E NA VIDA

Ante a tragédia de Brumadinho e a orfandade como consequência dos progenitores mortos e desaparecidos,  a adoção pensada e elaborada pelos futuros pais adotantes destes bebês, crianças e adolescentes (B.C.A.) surge como alternativa válida e urgente. Evitar os efeitos perigosos – ora da institucionalização desses seres, ora da privação das funções parentais – permitirá transformar riscos psíquicos em esperança de desenvolvimento.

Importa pensar:

  • Por melhor que seja o abrigo, ele não pode substituir uma família suficientemente boa.
  • O ser adotado dará mais trabalho pelos traumas sofridos. Os pais serão testados pelos filhos adotados, para saberem se eles realmente desejam serem pais desse filho.
  • Fantasmas como “Eu não serei rejeitado, expulso, devolvido?” são frequentes.
  • Facilitar o surgimento das questões profundas, mesmo que dolorosas, no dialogo entre pais e filhos.
  • Abordar a verdade possível, dosada com amor, para que o filho a possa assimilar e elaborar.
  • Quando há filhos biológicos na família que adota uma criança, o complexo fraterno – a relação entre os irmãos – pode vir a ser complicada.
  • A necessária diferença entre os irmãos não pode ser interpretada pelos pais como desqualificação do ser adotado: “o coitadinho”.
  • O nome é o berço da identidade do sujeito. O bebê foi envolvido com esse manto sonoro no apogeu da sensorialidade. Por isto, importa não mudar o nome do ser adotado.
  • Ante a aparição dos transtornos psíquicos, será possível fazer uma avaliação psicanalítica e ela consiste em certas entrevistas com os pais, o filho, a família, por um psicanalista especializado em crianças e adolescentes.
  • Hipóteses aparecem nesse trabalho compartilhado com o profisional, para compreender em profundidade a queixa apresentada e o sofrimento tanto do paciente quanto dos pais e irmãos.
  • Como perceber a presença de transtornos psíquicos? Quando há na relação entre pais e filhos um mal-estar quase permanente, preocupações intensas, mentiras, falta de alegria na relação, um estranhamento na convivência, provocações agressivas, violência, entre outras questões.
  • Os transtornos emocionais aparecem nos sintomas físicos reiterados, nos problemas no aprendizado, nas condutas antissociais – como roubos e mentiras –, nas adições, nos terrores noturnos, na enurese e ecoprese, na anorexia e bulimia, nos TICs reiterados, na apatia.
  • No bebê, como detectar os sinais de risco psíquico? O bebê que não olha nos olhos, não sorri, não balbucia, não brinca; que apresenta dificuldades na alimentação, no sono, recusa o contato humano, prefere objetos especialmente duros; o bebê apático, passivo, aquele que não dá trabalho; ou aquele ser ansioso, hiperativo e com condutas estranhas, estereotipadas.
  • Os transtornos emocionais são como um câncer, por isso importa a urgência do atendimento específico. Abaixo, cito alguns lugares onde os interessados podem procurar ajuda psicoanalítica.
  • O tempo não resolve a falta de estruturação da subjetividade e suas perturbações. O perigo é a cronificação desses transtornos.
  • Sempre que seja possível, priorizar uma família acolhedora para a criança órfã, que cuide dela temporariamente sem o compromisso de adotá-la, até que a adoção seja legalizada numa outra família. Esse caminho pode evitar o trauma da institucionalização.
  • Os vínculos afetivos criados nessa família acolhedora – mesmo que temporários – podem permitir:
  • O desenvolvimento emocional do ser em orfandade;
  • O necessário investimento para que esse ser, quando pequeno, seja o centro das atenções para construir a autoestima;
  • O reconhecimento de suas potencialidades;
  • O permanente convite para criar vínculos afetivos;
  • O brincar compartilhado;
  • A narração de relatos, contos, que permitam criar a história da criança incluindo o antes e o após a tragédia,
  • A criação de dramatizações que permitam elaborar o trauma;
  • A expressão artística através do desenho, a pintura, a modelagem em argila, massinha, a escrita nos adolescentes, a composição de músicas de protesto;
  • A realização de um álbum, um vídeo com os membros da família biológica, da família acolhedora e da família adotante, com cenas significativas da convivência em cada um destes lares;
  • Elaborar a separação, a perda, o luto quando a criança deixe a família acolhedora para ir à família adotante;
  • Facilitar a visita ao lugar para chorar e homenagear os seres mortos;
  • Que a tragédia e suas consequências entre na roda das conversas familiares, ao invés de ser silenciada;
  • Propiciar a relação entre a família acolhedora e a família adotante;
  • Outras possibilidades a pensar.

Este video que gravei na SBPSP para os colegas que estão trabalhando em campo, com o sofrimento e os múltiplos traumas em Brumadinho, pretende oferecer, humildemente, certas ideias fundamentadas na experiência e no conhecimento do pensamento psicanalítico.

Onde os interessados ​​podem buscar ajuda:

FEBRAPSI (FEDERAÇÃO BRASILEIRA DE PSICANÁLISE)

Congregação das sociedades psicanalíticas brasileiras filiadas à Associação Internacional de Psicanálise (IPA), organiza e fortalece suas atividades de divulgação, e ensino da psicanálise em nosso território, além de participação na Federação Psicanalítica da América Latina (FEPAL).

Entre em contato: (21) 2235-5922; contato@febrapsi.org

SBPMG (SOCIEDADE BRASILEIRA DE PSICANÁLISE DE MINAS GERAIS)

A Sociedade Psicanalítica de Minas Gerais é filiada à Federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI) e à Associação Psicanalítica da América Latina (FEPAL) e à componente psicanalítica internacional (UIE), a única instituição mineira a oferecer treinamento psicanalítico nos padrões exigido pelo IPA.

Entre em contato: (31) 3224-5405

GRUPO DE ADOÇÃO E PARENTALIDADE SBPSP

Este Grupo Coordenado por Gina Levinzon e Alicia Lisondo se reúne o segundo sábado de cada mes das 11:30hs às 13hs na SBPSP, Av. Cardoso de Melo 1450, 9° piso – Vila Olimpia / SP. Os professionais podem presentar suas experiencias de trabalho nos abrigos, Poder Judiciario, sessões de Picoterapia, Relatos de Observação de Bebês Método Esther Bick. È preciso se contactar previamente com as coordenadoras, e   enviar uma presentacão por escrito para a posterior discussão neste grupo.

ALICIA BEATRIZ DORADO DE LISONDO

Oferece uma hora e um mês para falar sobre as preocupações, problemas, discussões da B.A.N. com um grupo de 6 a 8 participantes – professores, voluntários, agentes de saúde, familiares, trabalhadores do Judiciário – pela SKYPE, na última sexta-feira do mês, das 10h30 às 12h00.

Alicia Beatriz Dorado de Lisondo é psicanalista Didata, Docente, Psicanalista de Crianças e Adolescentes pela IPA do GEP Campinas e da SBPSP; filiada à International Psychoanalytic Association; Cofundadora do Núcleo de Estudos Psicanalíticos de Campinas – Atualmente GEP Campinas. alicia.beatriz.lisondo@gmail.com

As marcas de um massacre. E o sentido de comunidade

Em entrevista ao Nexo Jornal, Bernardo Tanis, psicanalista e presidente da SBPSP, faz uma análise sobre os fenômenos de violência e as tragédias que acometem o Brasil e o mundo, bem como o longo caminho de reconstrução das comunidades após tais acontecimentos.

“O luto deve ser uma ação coletiva: a sociedade precisa digerir o que aconteceu, elaborar alternativas e se reerguer coletivamente […] Isto diz respeito ao Brasil: precisamos reconstruir o mínimo de confiança no coletivo. A ausência desse elo é muitas vezes explorada por extremistas”.

Confira:

As marcas de um massacre. E o sentido de comunidade 

Para Bernardo Tanis, atentados como o de Suzano podem abalar a confiança no coletivo e abrir uma brecha explorada por extremistas, provocando mais atos de violência

Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2019/03/15/As-marcas-de-um-massacre.-E-o-sentido-de-comunidade

Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

 

 

Revisitando Adão e Eva

* Susana Muszkat

Um dos principais mitos constitutivos da cultura ocidental, repetido sem qualquer constrangimento ou questionamento, é o de Adão e Eva. Adão, idealizado e produzido por ninguém menos do que Deus, é criado à sua imagem e semelhança! Para apaziguar seu tédio solitário, de um pedaço de sua costela – região sem qualquer nobreza especial – é feita Eva, com quem, então, inaugura a espécie humana.

É notável tal versão inaugural da humanidade, na qual uma inversão absolutamente naturalizada retira da mulher sua condição de quem gesta e pare sujeitos, e torna-a um ser gerada do e feita para o homem.

Que consequências subjetivantes terá esse mito fundante exercido em nossa cultura? Ou será que a própria construção do mito é reveladora dos desejos e lugares atribuídos a uns e outros?

À mulher caberia estar a serviço do homem? Seria uma categoria humana secundária à masculina? Ou o mito apontaria, ainda, para outra inversão – esta, podemos dizer, de cunho reparador: a de que o homem fálico e autossuficiente não se sustenta, sendo a introdução da mulher em sua vida não a prova do poder de Deus a serviço do gozo masculino, mas sim a constatação da fragilidade humana e sua dependência de um outro para sobreviver e criar descendentes? Enfim, teria nosso mito civilizatório comprometido gravemente a condição mesma de civilidade, ou seria sua formulação o indicador dessa impossibilidade?

Freud, ainda distante do atual debate de gênero, mas, não neguemos, já trazendo subsídios, refere, no artigo “Moral sexual ‘civilizada’ e doença nervosa moderna” (1908), um filósofo e psicólogo de nome Von Ehrenfels. Cito-o: “Não é arriscado supor que sob o regime de uma moral sexual civilizada, a saúde e a eficiência dos indivíduos esteja sujeita a danos, e que tais prejuízos causados pelos sacrifícios que lhes são exigidos terminem por atingir um grau tão elevado, que indiretamente ‘cheguem a colocar também em perigo os objetivos culturais’”. E mais adiante, “No entanto, ‘as diferenças naturais entre os sexos’ impõem sanções menos severas às transgressões masculinas, tornando mesmo necessário admitir uma moral ‘dupla’”.

Qual será essa dupla moral sexual em que o desejo de poder (fantasia de antídoto contra o desamparo e impotência) autoriza uns à objetalização e/ou desqualificação de outros, transformando-nos todos em qualquer coisa menos civilizados?

Durante mais de dez anos trabalhando numa ONG cujo objetivo era a reflexão sobre lugares e papéis de gênero, coordenei grupos de discussão de homens envolvidos em algum tipo de violência praticada contra mulheres. Tais atribuições de lugares e papéis têm, como consequência, que muitas das violências praticadas no âmbito familiar se mantenham e/ou justifiquem, sustentadas nessas mesmas atribuições, ganhando caráter normativo. Ou seja, a construção das identidades de gênero, no mais das vezes, está ligada à ideologia predominante vigente num determinado grupo social, e diretamente relacionadas aos preconceitos, definindo como se deve ser naquele grupo particular. Essas ideias, não nos deixemos enganar, são partilhadas e perpetuadas tanto por homens quanto por mulheres, adquirindo força controladora e aprisionadora dos sujeitos.

Podemos pensar que a perpetuação da dupla moral, que é expressa na disputa pela manutenção de lugares de poder, seja a manifestação disfarçada do temor ao desamparo e à impotência. A eterna busca de completude narcísica às custas de um outro, feito de bode expiatório.

Respostas violentas de homens em relação às suas companheiras, assim como contra gays, trans e todas as identidades não-heteronormativas, apontam para valores vigentes em nossa cultura, em que o sentimento de humilhação, para muitos, não pode ser admitido como algo do universo masculino. A resposta violenta visa o resgate imaginado da autoestima por meio de uma demonstração de poder sobre a mulher, condição entendida como essencial e natural para a manutenção da virilidade dentro do sistema de valores predominante em nossa cultura.

Venho afirmando há alguns anos que, inversamente ao que possa parecer, a necessidade de manutenção de dominação e de poderes fixos constituídos não representa uma condição de poder; pelo contrário, revela a falta do mesmo. Em trabalho anterior, cunhei a expressão “desamparo identitário” para definir um tipo de violência que é praticada não como resultado de sentimento de força e poder de um sobre o outro, mas em função de um sentimento muito desnorteador de precariedade pessoal, de fracasso, de perda de identidade. Assim, o ato violento visa, de forma efêmera e enganosa evidentemente, recuperar o sentimento de virilidade, definido por qualificadores como força, poder e superioridade, que, por sua vez, são traduzidos como elementos definidores da masculinidade. Trocando em miúdos, alguém cuja única fonte garantidora de autoestima é sua posição de superioridade em relação a um outro precisa acreditar que esse outro tenha menos, ou nenhum valor. Dentro da cultura predominante de masculinidade hegemônica, essa crença pode ser sustentada sem muito questionamento… até recentemente, pelo menos. Isso vem mudando!

Há um outro tipo de violência, praticada de maneira mais prevalente por homens, que se confunde ao pensar-se “autorizada” pela cultura de masculinidade hegemônica: a violência perversa.

Proponho aqui minha leitura sobre esse fenômeno: o primeiro objeto de amor do bebê é, via de regra, a mãe. Mas o que chamamos de amor nessa fase da vida não é exatamente o tipo de relação amorosa que conhecemos quando nos tornamos adultos. O bebezinho não percebe que sua mãe é outra pessoa, diferente dele. Sente, isto sim, que a mãe é um objeto de sua propriedade, sua extensão, que está onde ele o deseja, como já teorizado pelo psicanalista inglês, de bebês e crianças, Donald Winnicott.

A “mãe suficientemente boa”, expressão cunhada por ele, presta-se a ser esse objeto que atende às demandas do bebê. Trata-se de um estado de ilusão necessária na vida precoce do bebê. À medida que cresce, se tudo se der de maneira satisfatória em seu desenvolvimento, a criança, e depois o adulto, deve ser capaz de entender que aquela pessoa, sua mãe, é um sujeito diferente dele, com desejos e mente próprios. Entendendo isso, ele deverá, então, ser capaz de tolerar a frustração de abdicar da mãe como um objeto que lhe pertence, depois como objeto de amor propriamente dito e, finalmente, escolher outra pessoa, um/a companheiro/a, com quem poderá ter uma relação de trocas e parceria amorosa.

Desse modo, se na infância precoce de todo ser humano é natural e desejável que a mãe se preste a ser objeto do desejo do bebê, na vida adulta a perpetuação desse tipo de comportamento configura perversão. Perversão é o ato de transformar outra pessoa, com singularidade própria, em objeto de uso de prazer pessoal, sem o consentimento dela. Ao fazer isso, a pessoa é destituída de sua condição de sujeito e tratada como objeto. Esse é exatamente o caso de todos os atos onde mulheres, meninas ou qualquer pessoa em desigualdade de poderes são colocados em situação de objeto, a serviço do desejo exclusivo de alguém, sem que sua condição de sujeito de direito e mente própria seja reconhecido.

Ainda, o modelo de sociedade patriarcal, que autoriza o homem a funcionar regido pela pulsão infantil – embora travestido de adulto –, sustenta e mantém esse código perverso de violência endêmica contra mulheres. Ou seja, leva o homem adulto a confundir-se e acreditar que a mulher – representante da mãe arcaica, aquela mãe da primeira infância – lhe pertence.

Ainda, em tempo: vale ressaltar a brutal defasagem dos lugares atribuídos a homens e mulheres no imaginário cultural, que não correspondem às práticas sociais de fato. Estatísticas revelam que metade da força de trabalho do país é composta por mulheres, sendo elas mesmas as responsáveis exclusivas pelo sustento de quase metade das famílias brasileiras.

É imprescindível que revisitemos e debatamos o mito de Adão e Eva!

Susana Muszkat é psicanalista e membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

CRÉDITO: Parte do dossiê “Cartografias da masculinidade”, este texto foi publicado na edição 242 da Revista CULT, em Fevereiro de 2019. A edição impressa está disponível para compra na loja online da revista: https://www.cultloja.com.br/produto/masculinidade-cult-242/.

 

Uma crônica com veias psicanalíticas. Se não houver lamparina, escuridão. Se houver lamparina, o romance (compreensões sobre a vida subjetiva).

* Carla Oléa

A pequena Ana que completava naquele dia 6 anos chegara da escola.

A mãe à mesa do almoço aguardava os filhos para compartilharem a refeição.

A menina entrou pela porta e avistou a mãe, na mornidão do meio-dia, mergulhando vagarosamente a concha na tigela de feijão fumegante e caseiro.

A pequena trazia o olhar perdido e apressado – aquele que aguarda ser resgatado.

Caminhou por cima de passos firmes até a mãe e, impaciente, entregou-lhe um cartão.

A mãe tomou-o nas mãos e logo reconheceu que se tratava de um presente oferecido pela escola, no qual os colegas haviam escrito mensagens de aniversário à pequena menina.

Ana – entre aflita e envergonhada – tentava adentrar a bruma que se formara e se assegurar no olhar da mãe.

Lívida e aspirada num vácuo, onde não mora pensamento, a mãe deparou-se com uma imagem surpreendente.

A menina havia riscado o cartão à tinta de piche.

Cobriu cada mensagem com a aspereza de quem estava acompanhada pelos ciclopes.

Um detalhe chamou a atenção – o nome de uma das crianças que era o mesmo da mãe, havia sido preservado.

A mãe hesitante perguntou à Ana:

– Por que você fez isso?

A pequena, ainda analfabeta da linguagem íntima e subjetiva, respondeu o que lhe foi possível:

– Porque sim!

– Mas você riscou o cartão na frente dos seus colegas? – questionou a mãe.

– Sim, eu risquei.

A mãe, zelosa timoneira, convicta de sua função em conduzir a nau para um bom destino seguiu apreensiva e se aviou em corrigir a filha.

– Ana, você não pode agir assim. Você precisa ser grata. Precisa aprender a receber.

Fez-se noite.

A mãe repousou a cabeça no travesseiro que, naquela comprida noite, ainda era pedra.

Perguntou-se o que teria ocorrido? O que dera errado? Não estaria conseguindo levar sua pequena menina à construção de uma capacidade para relacionar-se?

Fizeram-se muitas noites.

Ao lado da cama, no criado mudo que herdou da avó, morava uma lamparina.

Havia luz.

À noite, enquanto a mãe dormia entre pedras, a lamparina acendia sua luz tênue, permanecia acesa durante a longa noite e se apagava antes do sol despertar.

A mãe não lhe suspeitava a presença, porém, certo dia, ao abrir os olhos um pensamento a acolheu.

Ela, então, compreendeu algo da pequena Ana.

Ela disse à filha:

– Sabe aquele dia em que era seu aniversário e que você recebeu um lindo cartão das crianças da sua sala e, furiosa, riscou as mensagens e o entregou a mim?

Então, eu lhe expliquei que aquela não era uma maneira afetuosa de retribuir. Disse-lhe que foi uma atitude descuidada. Mas eu entendi algo mais profundo no meu coração e quero dizer-te.

– Você está sentindo uma força aí dentro, uma vontade de fazer amigos, uma vontade de encantar-se com outras pessoas que não só sua mamãe.

– E isso dá medo.

– Isso dá culpa.

– Você teme que isso te separe de mim.

– Teme me fazer mal.

– Mas eu quero te dizer algo.

– Você pode gostar de outras pessoas. E pode querer estar perto delas. Pode querer viver momentos bons e que não sejam comigo.

– E isso é bom. Isso é bonito em você .

– E nós continuaremos assim de mãos dadas.

– No coração da mamãe também vivem muitos amores. Mas há nele um lugar que é só seu.

A pequena menina compreendeu.

Ela se juntou – como acontece ao pequeno pinguim personagem da autora e ilustradora alemã Jutta Bauer no imperdível livro ilustrado “Mamãe zangada”.

Alumiou-se a escuridão.

A escuridão que é grávida de certezas, verdades incontestes, entendimentos lógicos, mas que mantém a vivência órfã de compreensão emocional.

Conheci essa mãe. Ela trazia consigo a lamparina psicanalítica.

Capaz de suportar a escassez de respostas, permanecer envolta em dúvidas, deitar-se sobre pedra e mergulhar na escuridão. Ela era socorrida por essa função dentro da mente capaz de aclarar as profundezas e trazer de lá o que faz sentido.

Se um artista houvesse se sentado à mesa de almoço – e essa cena o incomodasse, o convocasse, o arremessasse para a arte –, ele poderia tê-la registrado em imagens, em música, em poesia, em literatura, em escultura.

Sua lamparina alumbraria a vivência e ele (a) reproduziria na arte: a pequena menina angustiada e afogada pelo conflitivo desejo de querer além da mãe.

Ilustrações do livro “Mamãe zangada”, de Jutta Bauer

Dizia Winnicott sobre as descobertas psicanalíticas:

“Naturalmente, se o que digo tem em si verdade, esta já terá sido tratada pelos poetas do mundo, mas os clarões de insight, que surgem na poesia, não podem absolver-nos de proceder à penosa tarefa de nos afastar passo a passo da ignorância, em direção ao nosso objetivo”. (in o Medo do Colapso – 1963)

O fato substancial é que essa experiência poderia ter se perdido na escuridão da razão. Desafortunadamente, nesse caso, o entendimento estaria a quilômetros daquilo que de fato pulsava no âmago da experiência. Ao invés de ser um ato recepcionado nas searas do acolhimento, teria, entrementes, sido transformado num acontecimento insólito e barulhento. Nada mais.

Ao abeiramento da lamparina, não obstante, constituiu-se o romance.

Carla Oléa é psicóloga e escritora. Gerencia um blog literário que contém coletânea própria de ensaios, crônicas e poemas. É mestre em psicologia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp – Campus Assis – SP) e membro filiado à Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

Bibliografia:

  1. O medo do colapso in Explorações Psicanalíticas. Donald Winnicott. Artes Médicas.1994
  2. Mamãe zangada. Jutta Bauer. Ed. Cosace Naify. 2008.

Imagens:

  1. La Petite Châtelaine 1892-1896. Camille Claudel. Musée Joseph-Denais.

A escultura é referente a uma fase do trabalho de Claudel em que se evidencia a criança surpreendida pelo desconhecido.

  1. Montagem com ilustrações do livro Mamãe zangada, de Jutta Bauer.

Ficção ou realidade: quando a vida imita a arte

* Julio Hirschhorn Gheller

Tomo para reflexão a premiada série americana “The Handmaid’s Tale” (O Conto da Aia), baseada no romance de mesmo nome, lançado em 1985 pela escritora canadense Margareth Atwood.

A história se passa em um futuro distópico, em que os Estados Unidos sofreram um golpe liderado por uma facção fundamentalista cristã, que tomou o poder, matando o presidente e membros do Congresso. Foi instaurado um governo autoritário, a nova República de Gilead, uma ditadura fortemente militarizada, que faz uso da doutrina religiosa para estabelecer um draconiano código de leis e costumes. As punições para dissidentes e infratores são severas: amputação de membros, fuzilamentos, apedrejamentos e enforcamentos. Os corpos dos enforcados permanecem dependurados em praça pública como macabra advertência para toda a população. Tudo é controlado por uma casta de comandantes – todos eles do sexo masculino – que constituem o alto escalão, detentor do poder de legislar, julgar e condenar.

Por força da poluição e degradação do ambiente, a maioria das mulheres ficou infértil, inclusive as esposas dos comandantes. Daí que, para permitir a procriação, as poucas mulheres férteis são sequestradas, separadas de suas famílias e destinadas a servir aos comandantes como fêmeas reprodutoras. São destituídas de seu nome de origem. Tornando-se propriedade do senhor que as fecundará, adotam o nome dele, precedido da palavra of, enfatizando o caráter de pertencimento e submissão do vínculo que os liga.

A protagonista do seriado é a aia Offred. Ela é “posse” de Fred até cumprir o seu papel de engravidar e parir um filho. Depois de dar à luz, será separada do bebê para cumprir a mesma função em outra casa. Mensalmente, no período fértil, repete-se um ritual para lá de bizarro, denominado de “Cerimônia”, o procedimento específico para se alcançar o objetivo pretendido. A aia se deita entre as pernas da esposa do comandante, assumindo a posição em que será por ele penetrada em um verdadeiro estupro, devidamente endossado pela lei e glorificado pela religião por cumprir os “desígnios divinos”. A esposa participa do ato como espectadora do coito, que, se bem-sucedido, resultará em um bebê considerado como uma bênção para o casal.

Interessante notar que todas as mulheres usam vestimentas iguais no modelo e na cor, identificando sua classe social. É um sinal de que desejos e gostos pessoais, indicativos de liberdade individual, devem ser esmagados. As aias usam uma túnica vermelha com chapéu branco de largas abas, dificultando a visão de seus rostos. As mulheres inférteis, as marthas, que trabalham como empregadas domésticas, usam vestido cinza com um lenço da mesma cor na cabeça. As senhoras da elite portam vestidos verdes. Mesmo estas devem permanecer sempre obedientes e discretas, à sombra dos maridos.

Outro personagem de destaque na série, Serena Joy, esposa de Fred, é uma personalidade complexa e multifacetada.  Foi uma das idealizadoras do sistema vigente em Gilead. Sendo dotada de inteligência e sensibilidade, vai, aos poucos, questionando as regras rígidas e inflexíveis. Pensa em revogar a lei que proíbe as mulheres de ler, condenando-as a um estado de permanente inferioridade diante dos homens. Entretanto, será vítima do monstro que ajudou a criar. Defendendo a ideia diante do alto comando, é punida pela ousadia e insurgência com a amputação de um dedo, em decisão corroborada pelo próprio marido.

As ruas são patrulhadas por militares armados, prontos para entrar em ação à menor manifestação de rebeldia, seguindo ordens superiores. Existe ainda a figura do “Olho”, indivíduo treinado para espionar, mesmo entre as altas esferas, com vistas a apontar quem se desvia dos preceitos vigentes. Tudo converge para um clima de paranoia que a todos atinge. A atmosfera das cenas é sempre angustiante, pesada e sufocante, ressaltada por uma iluminação sombria.

É interessante pensar no caminho que levaria a uma situação de tamanha opressão como a descrita. Quais são os ingredientes para o caldo de cultura favorável à instalação de um regime caracterizado por tamanho horror? Não estaremos distantes de uma resposta acertada se elencarmos fatores como o predomínio de estupidez, arrogância, boçalidade, preconceito, misoginia, xenofobia, homofobia e racismo. Tudo isto conflui para uma naturalização da brutalidade e violência destrutivas. Significa o perigo da barbárie vir a derrotar a civilização, um dos aspectos abordados por Freud ao discutir a inclinação do ser humano para a agressão. É algo que a história da humanidade registra de tempos em tempos, em assustadoras proporções, como nas grandes guerras do século passado. Todavia, também está presente em episódios registrados cotidianamente nas páginas dos jornais e na internet, quando não ao nosso redor. Basta olhar para enxergar.

Tendo assistido a alguns episódios da série, não pude deixar de me lembrar do filme “O Ovo da Serpente”, do grande cineasta sueco Ingmar Bergman, ambientado na Alemanha dos anos que antecedem a ascensão do nazismo, e que mostra o recrudescimento do antissemitismo.  Ele ilustra como aspectos perversos e tirânicos, latentes na sociedade, podem ser cultivados e instrumentalizados por líderes messiânicos, que pretendem representar uma promessa de redenção, em geral, ilusória e enganosa. Encontrar um culpado pelas mazelas de uma nação e, em seguida, transformá-lo em inimigo pode, no limite, conduzir à solução de eliminá-lo. Hitler, com suas ideias radicais e seus maneirismos histriônicos, era até ridicularizado pela classe conservadora que o apoiou, imaginando que poderia controlá-lo e manipulá-lo para atender aos seus interesses. Deu no que deu, como bem sabemos.

Para finalizar, vale acrescentar outra referência importante do mundo do cinema. O genial Chaplin, em 1940, fez sua primeira incursão em filmes sonoros com a obra-prima “O Grande Ditador”. Trata-se de uma impiedosa sátira contra o nazismo e o fascismo. Com ironia cáustica focaliza especialmente a figura do “Führer” Hitler, mas não poupa o “Duce” Mussolini, outro tirano da época. O clima de paródia corrosiva percorre o roteiro todo, sendo interrompido no final por um emocionado e comovente discurso em prol da igualdade e democracia.

Já que a vida pode imitar a arte, esperemos que a profecia do “Conto da Aia” não se realize.

Julio Hirschhorn Gheller é psiquiatra, psicanalista, membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

O desejo segundo Jacques Lacan

* Marilsa Taffarel

Lacan, em seu seminário proferido em 1964, declara: “Não há meio de me seguir sem passar por meus significantes…” (pg. 206). Para compreender o que é o desejo, precisaremos considerar alguns “significantes” de eleição para o autor: demanda, gozo, Outro, alienação, separação, fantasia fundamental, objeto a… Nem sempre questionamos o emprego da palavra desejo que a psicanálise, Freud e, posteriormente, Lacan, tratou de definir, circunscrever e relacionar com outras formulações conceituais. Ambos consideram o desejo um elemento central, nodal do ser humano.

Tomamos como sinônimo de desejo um querer muito forte – a insistência da criança, pequena ainda, que foi proibida de terminar o desenho de um ursinho na parede da sala e que, pé ante pé, à noite, vai completá-lo. Como poderia deixar o ursinho sem suas orelhinhas?  Ela desejava muito tal coisa. Sem dúvida, um desejo está ali presente porque houve a interdição. Um desejo pode ser suscitado pela proibição.

Em Freud, o desejo, que é inconsciente, é designado pelo vocábulo alemão Wunsch, cuja tradução é anelo, aspiração. O desejo não se mostra claramente e, como sabemos, tudo que é cifrado, ambíguo ou obscuro exige interpretação. E é essa a condição de sua manifestação no sonho, concebido por Freud como realização de desejos, nos lapsos, nos sintomas, na fantasia de cada um.

Para Freud, o desejo é um movimento em direção à marca psíquica deixada pela vivência de satisfação primeira que acalmou uma necessidade, como a fome, no bebê. Através dessa inscrição mnêmica poderá então a criança reeditar a satisfação de forma alucinatória, nessa pouco duradoura autonomia que a alucinação fornece. Seria essa a realização do desejo. Contudo, a tensão da necessidade que persiste conduz à ação de esperneio ou choro. A necessidade se impõe e a criança precisa de um adulto capaz da ação específica de dar leite, de cuidar.

Lacan escolhe outro vocábulo alemão para designar o desejo: Begierde, que, segundo o dicionário alemão-português, significa cobiça, anseio, desejo veemente.  Como costuma ser apontado, essa escolha marca suas influências (Hegel) para além de Freud e marca sua contribuição quanto a esse crucial conceito para o pensamento psicanalítico e para a prática analítica. Não iremos tratar disso nesse momento.

O desejo e a linguagem

Lacan – tendo o propósito de, finalmente, dar fundamentos sólidos, cientificamente, para a psicanalise, propósito de toda sua vida – apoia-se na linguística de F. Saussure.  A linguagem passa a ser fundamental em sua reconstrução do inconsciente, do recalcamento, do desejo.

Lacan irá articular o desejo com a linguagem. O adulto que cuida, que exerce a função materna, fala. Sua importância se destaca sobretudo por ser o transmissor do grande mediador simbólico que é a linguagem, a qual possibilita ao bebê o acesso a nosso mundo simbólico. A criança irá registrar suas primeiras experiências através dos elementos linguísticos – significantes – emitidos pela mãe. Lacan chama atenção para o fato de que, de forma inevitável, a criança irá se alienar nesses significantes. É essa a única maneira de entrar na linguagem.

Lacan irá marcar, desdobrar, esquadrinhar a função do adulto indispensável para a passagem ao mundo intersubjetivo da linguagem. Mundo da incompletude, da falta, do desejo e de sua alienação.

A mãe tanto interpreta os movimentos e expressões da criança quando lhe oferece alimento e irá entender como mensagens as manifestações da satisfação da necessidade. É o desejo da mãe que assim se manifesta. Ela, ao falar com o bebê, irá inserir uma satisfação de espécie diferente da satisfação da necessidade corporal, uma satisfação que prolonga a corporal. Esse acréscimo de satisfação que a criança não demandou, ela a recebeu sem pedir, sem usar a linguagem. Lacan chama essa satisfação de gozo, um gozo primordial.

Contudo, é através da interpretação, da atribuição de sentido às manifestações de apaziguamento corporal da criança que essa vai deixando o âmbito da necessidade e entrando para o mundo da linguagem, o mundo simbólico. O espernear e chorar quando a tensão se reestabelece, que não tinham inicialmente um alvo, passam a se dirigir ao Outro.

A criança demanda ao Outro não só a satisfação da necessidade, ela demanda o plus que recebeu da mãe satisfeita com a satisfação da criança. Aquele primeiro plus que recebeu sem demandar não irá se repetir após a criança aprender a se manifestar, a fazer apelos à mãe através de quaisquer elementos da linguagem.

O desejo deve ser discernido da necessidade e também da demanda. Ele está, para o autor, entre elas e tem uma relação intrínseca com a incompletude, com a falta. Com um apelo, um pedido que esconde e indica uma demanda, faz-se a tentativa de alcançar um preenchimento que, nessa concepção, está sempre além.

Referindo-se ao sonho da filha de Freud, Anna, sonhado quando essa era ainda bem pequena, Lacan diz que nele se manifesta o desejo do impossível. Anna teria comido muito de suas frutas e doces preferidos no dia anterior. Passou mal, vomitou.  Então, só poderia ingerir alimentos leves. À noite tem um sonho, exemplo para Freud de sonho infantil, simples. Diz ela no sonho algo como: framboesas, morangos bem grandes, flan: delicias que adora. Para Lacan, que não considera o sonho simples, esses objetos mencionados já são objetos transcendentes, já entraram na ordem simbólica. São cerejas e flans, mas são, sobretudo, aquilo que não posso ter.

Uma outra interpretação desse sonho, feita por Slavoj Zizek, em seu livro Como ler Lacan, é a de que o desejo da pequena Ana era de satisfazer o desejo de seus pais de ter nela uma menina que se deliciasse com essas guloseimas que eles lhe ofereciam. Dessa maneira, Zizek introduz a questão essencial para Lacan concernente ao desejo: qual é o desejo dos que me cercam para que eu possa ser o objeto desse desejo? Ou para que possa ser o desejo desse desejo?

Lacan expressa esse anseio de se posicionar como objeto do desejo do Outro (na grafia de Lacan a letra maiúscula indica a decalagem de posição, de pertinência ao mundo social de quem desempenha a função materna em relação à criança) em seu seminário sobre os quatro

conceitos fundamentais da psicanalise, dizendo: “O desejo do homem é o desejo do Outro”. (pg.223)

Nessa primeira relação com quem desempenha a função materna, outro elemento é de fundamental importância: o Outro precisa ser desejante, a criança precisa experimentar o Outro como desejante, não completo ou como diz Lacan o Outro precisa estar barrado. O que verdadeiramente a mãe deseja permanecerá enigmático para a criança no processo de instauração de sua posição como sujeito.

O desejo é um fluir metonímico. O que quer dizer isso? Ele estará – dentro dessa concepção – sempre se deslocando em direção ao que aparenta ser o objeto perdido se não estiver, como soe acontecer, aprisionado numa vã tentativa de obturar a falta constitutiva. Essa é uma das maneiras de entendermos porque Lacan diz que a ordem simbólica é intrinsicamente decepcionante.

O objeto do desejo, designado como objeto a, é um objeto perdido. O que o caracteriza e distingue de outras concepções de objeto na psicanalise é exatamente não ter qualquer objetividade, existir independentemente das percepções do sujeito.

O que suscita meu desejo em um objeto do mundo ou uma pessoa? Algo indecifrável. Um brilho, uma textura, um som, um significante. Esses são, para Lacan, faces simbólicas ou imaginarias do objeto a. Aparências. Como diz Lacan de forma brilhante, “(…) o que o sujeito reencontra não é o que anima seu movimento de tornar a achar.” (pg.207).  Além de ser o alvo do desejo, o objeto a é concebido como um concentrado de gozo que causa o desejo.

O desejo e a função do pai        

Em um primeiro tempo de sua existência, a criança tenta se colocar como o objeto do desejo da mãe, como aquele que preenche a mãe, isto é, como o falo. Contudo, o que a mãe, de fato, deseja permanece enigmático para a criança.

A ultrapassagem dessa relação primeira é condição para que a criança deixe de ser objeto do desejo da mãe e passe a ser sujeito do desejo.  É pela intervenção da função do pai através da linguagem que a sinaliza que esse corte se dá. O registro da proibição da relação incestuosa com a mãe, registro da lei que a proíbe, é considerado um evento psíquico estruturante e fundamental para a criança. Em terminologia lacaniana expressa-se como simbolização primordial da Lei (de interdição do incesto). Essa interdição recalca, torna inacessível o significante fálico, cujo sentido enigmático guiará e determinará sua busca infinda.

Na analise, o desejo é o que gera a demanda que se expressa em apelos ao analista, é o que sustenta a transferência. O analisando busca a análise por acreditar que ela o levará ao desejo inconsciente. Tal coisa é, muitas vezes, expressa pela frase que ouvimos direta ou indiretamente de nossos analisandos “quero me encontrar”.

Para Lacan, o princípio que rege uma análise é a liberação do desejo em relação à sua alienação. Talvez esse propósito de uma análise, essa espécie de consigna, tenha transbordado mais rapidamente do que outras para universos psicanalíticos vários e para além do campo psicanalítico. Bem recebida por aqueles que esperavam da psicanalise uma teoria do sujeito como contendo um elemento intrínseco de caráter libertário.  Mal compreendida por muitos que viam nessa espécie de consigna uma licença para o descompromisso com o contrato civilizatório. Portanto, libertar o desejo alienado em formas imaginárias, nas repetições da demanda e contido na fantasia fundamental é o fito de uma análise.

A interrogação que resta é: podemos libertar o desejo também da função paterna, do Édipo? Pergunta que interessa cada vez mais a uma sociedade que põe em questão o patriarcado, que põe em evidência novas formas de investimentos libidinais – investimentos ditos rizomáticos ou horizontais e não verticais e hierarquizantes -, e, como consequência, uma sociedade que se amedronta com tais transformações.

O Édipo, ou seja, a função paterna na produção de um sujeito desejante, para Lacan, é a condição da forma normal do desejo. Contudo, Jacques-Alan-Miller, em uma entrevista para a Opção Lacaniana (ano 4, n.12) fala do desejo ligado à interdição do pai como um desejo “normalizado”. A ênfase na função do pai seria um legado de Freud em relação ao qual Lacan operaria um distanciamento. Não poderia deixar de levar em conta, justamente, o declínio da sociedade patriarcal com seus padrões de investimentos libidinais.

Marilsa Taffarel é membro efetivo e professora da SBPSP, mestre em filosofia da psicanálise pela PUC-SP, doutora pelo núcleo de psicanálise da PUC-SP e coautora do livro “Isaias Melsohn, a psicanálise e a vida”.

A PRESENÇA DA PSICANÁLISE NA TRAGÉDIA DE BRUMADINHO

* Alicia Beatriz Dorado de Lisondo

Denunciar o crime cometido pela irresponsabilidade da empresa Vale com a cumplicidade dos órgãos governamentais, ironicamente encarregados de zelar pela segurança da população e do meio ambiente, também passa a ser nossa responsabilidade enquanto analistas. Também passa a ser importante ação social dos psicanalistas, o cuidado para com a vida psíquica dos sobreviventes de Brumadinho, um dever cívico de todo brasileiro, de todo cidadão deste mundo.

Desse modo, o pensamento psicanalítico pode, fora dos muros do consultório, ajudar a lidar com bebês, crianças e adolescentes (B.A.C.) em profundo sofrimento.

A presença da psicanálise com voz, espaço e um melhor esclarecimento à comunidade sobre sua essência e epistemologia para marcar às diferenças com a psicologia e a psiquiatria, poderão ser um caminho e modelo de atendimento da população atingida.

Segue o formato e as principais considerações  tratamento de Bebês, Crianças e Adolescentes em situações de trauma e tragédia:

-> Pensar em cada B.A.C. como um sujeito e/ou uma pessoa na sua singularidade. O cuidado com a vida emocional com eles é fundamental. O corpo não está separado da alma assim como a consciência não está desligada do inconsciente.

-> A aproximação à verdade dosada, passo a passo, revelada com amor e na medida que o outro a possa assimilar, alimenta a alma humana.

-> As mentiras, os segredos, o não dito, intoxicam a mente. Os B.A.C. sabem mais do que nós, adultos, podemos imaginar. Eles têm radares e antenas parabólicas para captarem as emoções presentes no ambiente. Quando a criança indaga: “Por que você está chorando?” e escuta: “Por nada!!!”, sua percepção é desqualificada. A oportunidade para uma alfabetização emocional foi perdida: “Estou muito triste!!”, “Estou com raiva!!”.

-> Sabemos os efeitos devastadores que um trauma pode provocar na personalidade em formação de B.A.C. dificultando ou paralisando o desenvolvimento emocional. As barreiras protetoras do psiquismo não podem conter a dor, a angústia, o desespero e o ódio. As feridas na alma podem piorar e os buracos no tecido mental podem se ampliar. Por isto importa criar as possibilidades, para o inicio do processo de cicatrização para cerzir com delicadeza o tecido esgarçado. É necessário dar palavras plenas de sentido, expressivas da emoção, ao sofrimento, ao pesadelo, ao tremor do corpo ante a comoção!! “Estou com saudade de X!!”, “Dói, dói demais meu coração. Dói de saudades!!”…

-> Não confundir o ódio, indignação, revolta; com a destrutividade. Seria prudente discriminar e compreender as diferentes manifestações emocionais dos B.A.C.

-> A expressão do ódio é tão necessária quanto a do amor, por isso é importante não a sufocar e permitir que cada criança escolha seu repertório para expressar sua fúria, respeitando os limites colocados pelo adulto de forma clara e consciente.

-> É preciso viabilizar as possibilidades de sua manifestação, acompanhando as vítimas:

  • A armar e permitir que derrubem casas, torres, construções de plástico, massinha, cartões, palitos de sorvete etc;
  • A enterrar embaixo de lama, areia, terra, galhos, fotos plastificadas dos seres perdidos, animais de plástico, bonecos humanos, carros, bicicletas, brinquedos etc;
  • A cortar, picar, rabiscar, pintar, recortes representativos da tragédia;
  • Estimular a escrita de manifestos, músicas, cartas abertas, livros, solicitações.

-> Os bebês, capazes de brincar às escondidas com seis meses de idade, podem vir a compreender que mamãe não está e não voltará, que papai foi embora de carro e não voltará, mas que agora X cuidará dele. O ato de brincar, tantas vezes quanto necessário sobre os “desaparecimentos” ajudará a dar forma e nome ao terror outrora sem nome.

-> Incentivar os familiares, voluntários, educadores, agentes de saúde a oferecer uma atenção qualificada e espontânea aos B.A.C., com disponibilidade para criar vínculos tão estáveis e constantes quanto seja possível. Elas podem tentar compreender, brincar, escutar, conversar, compartilhar a dor com as lembranças dos seres que já não estão corporalmente presentes com os B.A.C., buscar  as fotos, vídeos, gravações dos seres mortos, desenhar, pintar, cantar, contar histórias, dramatizar, montar peças de teatro,  incentivar aos adolescentes nas varias formas de escrita sobre temas relacionados com este crime.

-> A tragédia, no dia 25/01/2019, em Brumadinho, faz parte da vida desses B.A.C. Familiares, pessoas conhecidas, casas, animais de estimação, brinquedos, computadores, celulares, foram abruptamente destruídos, sepultados pela onda de lama. É importante que esse momento entre num processo de historização. As fotos, os recortes de jornal, as notícias, os depoimentos, as entrevistas, a história desta cidade, a legislação existente, podem constar num álbum. Este será um suporte, para dar figurabilidade, forma, palavra, ao horror quase impensável e indizível.

-> Os B.A.C. expressam as dores da alma de várias formas, às vezes, numa linguagem pré-verbal. Dessa forma, os bebês podem apresentar sinais de risco psíquico como: não olhar nos olhos do outro ser humano, não balbuciar, não brincar, inapetência, evitar morder e mastigar alimentos sólidos a partir dos seis meses de idade, ritmo do sono alterado, terrores noturnos, preferência por segurar objetos duros e inanimados, evitação do contato humano, deixar de rir, quietude, passividade, entre outros. Fazem parte desse vocabulário pré-verbal, as doenças psicossomáticas, a incontinência urinária e/ou fecal, problemas escolares, tentativas de suicídio, anorexia, bulimia, vícios em drogas, tédio, condutas antissociais e delinquenciais. Estes berros silenciosos, eloquentes pedidos de socorro, exigem uma escuta e observação, aguda dos adultos.

-> Uma avaliação psicanalítica levantará hipóteses diagnósticas e orientará sobre os caminhos a seguir, para evitar a calcificação dos transtornos e sintomas.

-> A psicanálise tem um poder preventivo! Futuras gerações podem receber as consequências desta tragédia se ela não for elaborada.

-> Quando for necessária uma adoção, ante a orfandade dos B.A.C., será necessária uma intervenção rápida do Poder Judiciário para evitar o trauma da institucionalização destas criaturas em risco psíquico. Legalizar o processo de adoção é importante para que os pais adotantes legitimem este novo lugar com firmeza amorosa e autoridade para exercer as funções parentais.

-> Enterrar simbolicamente os “desaparecidos” – os mortos sem cadáver – com todos os rituais e cerimonias, respeitando a religião, os costumes, a tradição de cada família, permite entrar em contato com a dolorosa realidade da morte e ajuda a elaborar o luto. Sábio legado de Antígona! Quando se perpetua a crença sobre o desaparecimento, a temida realidade da morte do ser querido é negada, como no quadro de Monet. A fantasia de reencontrar o sobrevivente estará presente. Não será possível iniciar o árduo trabalho do luto. A culpa inconsciente é potencializada ante a fantasia de matar – deixar de buscar – um ser que poderia estar vivo.

-> Uma caixa com a foto do ser morto, velado e enterrado, num espaço a criar sobre os escombros, numa praça, museu, pode ser uma oportunidade para realizar a terrível despedida.

-> Um memorial pode vir a ser construído com as com as fotos e os nomes dos mortos, as obras das crianças e adolescentes, com toda a documentação sobre esta hecatombe. Este espaço pode exercer a função de rêverie para esta sofrida comunidade e para todos nós!

Enfim, este espaço pode exercer a função de rêverie para essa sofrida comunidade e para todos nós!

Onde os interessados podem procurar ajuda:

FEDERAÇÃO BRASILEIRA DE PSICANÁLISE (FEBRAPSI)

Congregando as sociedades psicanalíticas brasileiras filiadas à Associação Psicanalítica Internacional (IPA), organiza e fortalece suas atividades de divulgação, difusão e ensino da psicanálise em nosso território, assim como a participação na Federação Psicanalítica da América Latina (FEPAL).

Contato: (21) 2235-5922; contato@febrapsi.org

SOCIEDADE BRASILEIRA DE PSICANÁLISE DE MINAS GERAIS (SBPMG)

A Sociedade Brasileira de Psicanálise de Minas Gerais é filiada à Federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI) e à Federação Psicanalítica da América Latina (FEPAL), além de componente da International Psychoanalytical Association (IPA), sendo a única instituição em Minas Gerais a oferecer formação psicanalítica nos padrões exigidos pela IPA.

Contato: (31) 3224-5405

GRUPO DE ADOÇÃO E PARENTALIDADE DA SBPSP

Este Grupo Coordenado por Gina Levinzon e Alicia Lisondo se reúne o segundo sábado de cada mês das 11h30 às 13h na SBPSP, Av. Cardoso de Melo, 9° andar – Vila Olímpia/SP. Profissionais podem apresentar experiências, situações relacionadas com os temas do grupo, avaliações e/ou sessões de psicoterapia psicanalítica. É preciso conectar-se previamente com as coordenadoras e enviar por escrito a apresentação para a discussão grupal.

ALICIA BEATRIZ DORADO DE LISONDO

Oferece 1h30 mensal para conversas sobre às inquietações, questões, discussão dos B.A.C. com um grupo entre 6 e 8 integrantes – professores, voluntários, agentes de saúde, familiares, profissionais do Poder Judicial – por SKYPE, na última sexta feira do mês das 10h30 às 12h. Contato: alicia.beatriz.lisondo@gmail.com

Alicia Beatriz Dorado de Lisondo é analista didata e docente do GEP Campinas e da SBPSP, filiada à International Psychoanalytic Association, co-fundadora do Grupo de Estudos Psicanalíticos de Campinas, membro de ALOBB, integrante da Comisión de Niños y Adolescentes de FEPAL, co-coordenadora do Grupo de Adoção e Parentalidade da SBPSP e analista de Crianças, Adolescentes e Adultos.

Acompanhe também o vídeo publicado no canal da SBPSP no YouTube:

 

Imagens:

  1. “Le Balcon”, Edouard Manet (1868-69) e “Perspective II, La balcon de Manet”, René Magritte (1950)
  2. “As Cruzes”, Cândido Portinari