A PSICANÁLISE, UM ESTRANHO NO NINHO

*Luís Carlos Menezes

Freud não é Dali. Quando o movimento surrealista, sob a batuta de André Breton (1896-1966), declarava com ardor sua afinidade com as ideias desenvolvidas por Sigmund Freud, em particular em relação aos sonhos, o jovem médico protestava. Foi com indiferença que ele recebeu o emissário, Salvador Dali (1904-1989), enviado a Viena para encontrá-lo. Freud não se propunha a criar um movimento intelectual com a intenção de incomodar, provocar, contestar e inovar parâmetros estabelecidos da ciência, da moral e da religião na cultura ocidental.

Freud foi um estudante de Medicina e um jovem médico com ambições grandes, alguém que desejava se tornar famoso fazendo descobertas importantes, mas certamente situadas dentro dos marcos estritos da pesquisa científica clássica. Foi assim que, com 20 anos, fez suas primeiras pesquisas dissecando as glândulas sexuais das enguias, em Trieste, sendo então admitido no laboratório de Ernst von Brücke (1819-1892), considerado o pai da Fisiologia na Áustria.  Trabalhou durante alguns anos ali. Fez estudos anatômicos sobre o sistema nervoso da lampreia, tendo chegado perto da descoberta do que Heinrich Wilhelm von Waldeyer (1836-1921), alguns anos depois (1891), chamaria de neurônio. Brücke era o representante em Viena de um grupo de cientistas que, em torno de Hermann Helmholtz (1821-1894)  e de Emil du Bois-Reymond (1818-1896), afirmavam a convicção de que não só é possível, mas necessário chegar ao conhecimento de fenômenos de qualquer natureza, portanto biológicos e também psicológicos, estabelecendo os seus fundamentos com base na Física e na Química.

Foi a contragosto que o rapaz teve de deixar a carreira incipiente e promissora na pesquisa científica. Freud não tinha condições financeiras para viver, queria se casar e constituir família. Tornou-se amigo de um conhecido neurologista, 14 anos mais velho que ele, Josef Breuer (1842-1925). Este encontrou no jovem um excelente interlocutor para suas ideias, passando a dar precioso apoio material e humano para ele.

Uma vez formado em Medicina, aos 26 anos, Freud passou a trabalhar também como neurologista, recebendo pacientes de Breuer. Eles discutiam com frequência seus casos clínicos e suas teorias. Foi assim que, quando Breuer passou a atender, em 1882, uma mocinha, Berta Pappenheim, tornada célebre na psicanálise sob o pseudônimo de Anna. O., não deixou de reportar o caso ao seu jovem protegido. Breuer a visitava diariamente. Em sua presença, ela entrava em transe, um estado auto-hipnótico, pondo-se a dizer coisas as mais variadas, sobre as quais, num segundo tempo, conversavam, ela já tendo recobrado seu estado normal de consciência, conversavam. Chegavam, desta maneira, a acontecimentos carregados de emoção e que, uma vez falados, resultavam no progressivo desaparecimento dos sintomas e numa nítida melhora do estado da paciente.

Breuer estava muito envolvido com esse tratamento sem imaginar que ele próprio poderia se tornar objeto das fantasias da paciente. A descoberta da transferência só seria feita por Freud por volta de 1895. O fato é que ela acabou se declarando grávida do médico. Assustado com a situação criada, que ameaçava tanto a sua reputação profissional como o seu casamento, Breuer interrompeu de imediato e de forma definitiva o atendimento da jovem e viajou com sua mulher para Veneza. Ele guardava cuidadosas anotações desse estranho tratamento, mas só iria retomá-las uma década depois, por insistência de Freud, que percebeu nelas a descoberta de um método revolucionário para o tratamento da histeria.

Eles o chamaram de método catártico, em uma publicação conjunta de 1893. Sustentaram a tese de que a causa do sintoma era o represamento de ideias e de afetos ligados a um acontecimento penoso ocorrido em um momento em que o paciente não tivera condições para pensar,  por não estar em plena posse de seus meios, por encontrar-se em um estado alterado de consciência, do qual o estado crepuscular, hipnoide, de Bertha Pappenheim era o protótipo. Quer pelo uso da hipnose, quer pela insistência do médico, era possível chegar à lembrança do acontecido, detalhe por detalhe, fazendo ressurgir toda a carga de afeto implicada. A lembrança patógena tornava-se, dessa maneira, acessível ao fluxo normal da atividade de pensamento do qual estava cortada, isto é, passava a ser pensada como qualquer outro acontecimento da vida, o que resultava no desaparecimento do sintoma, como, por exemplo, a paralisia de um membro.

O estágio de Freud no serviço de Jean-Martin Charcot (1825-1893), no Hospital da Salpêtrière em Paris, alguns anos antes (1885/86) teve uma influência decisiva nesta evolução. O grande neurologista, do alto de seu prestígio, ousara dedicar-se ao estudo das neuroses, das doenças nervosas, das histerias que, por não poderem ser relacionadas a qualquer lesão ou alteração observável do cérebro, não mereciam no estado de espírito da época o interesse da ciência médica. Eram falsas doenças, doenças imaginárias, que não deviam ser levadas a sério.

Charcot reproduzia por indução hipnótica, sintomas (a paralisia de um braço, por exemplo) ou crises histéricas “completas”, semelhantes às crises epilépticas, e as fazia desaparecer da mesma maneira: por vezes as ordens hipnóticas não eram senão ideias da quais a paciente nada sabia, palavras com as quais ele criava e fazia desaparecer sintomas. Impôs-se de forma definitiva para Freud a certeza de que pensamentos separados da consciência podiam existir e produzir tanto efeitos patogênicos como curativos. Estava entusiasmado e impressionado.

Em uma carta à sua noiva, Freud escreveu de Paris: “Nenhum ser humano jamais me afetou dessa maneira”, referindo-se ao neurologista francês. De volta a Viena, aos 30 anos, passou a dedicar-se, em sua atividade clínica, às doenças nervosas, às neuroses, fazendo palestras na Sociedade Médica sobre o pensamento e a prática de Charcot, cujas Conferências traduziu para o alemão. Deixou de lado a eletroterapia, os banhos terapêuticos em estações de água e coisas assim, únicos recursos então disponíveis para o tratamento de tais pacientes. Passou a tentar um caminho terapêutico, usando em particular a hipnose para chegar aos elementos causais, na linha da terapia catártica.  Na França, em Nancy, um grupo de médicos, em torno de Hippolyte Bernheim (1840-1919), estava usando a sugestão sob hipnose para tratar esses pacientes, os sintomas sendo eliminados por ordem hipnótica, o que era diferente do caminho que Freud tomava. Mas ele foi a Nancy ver de perto o que estavam fazendo e teve longas conversas com Bernheim.

Freud escreveu ainda alguns artigos como neurologista, mas o interesse do jovem médico se deslocara definitivamente para o tratamento das neuroses. Exceção feita a um livro, publicado em 1891, sobre as afasias, isto é, enfermidades em que uma lesão cerebral causa perda da capacidade de compreensão da linguagem escrita ou falada, ou da capacidade de expressão oral ou escrita. Contra as concepções “localizacionistas” dos centros da linguagem, argumenta em favor de uma concepção dinâmica e funcional do processamento das representações e da linguagem na área cortical, entrando em um debate de atualidade na época.

Em outra publicação, de 1890, Freud dá conta do andamento de sua prática clínica, mostrando-se decepcionado com o recurso à hipnose. Trata-se de um artigo que também diz respeito à linguagem, mas em outra perspectiva. O tratamento por meio da fala, tanto dos males da alma como do corpo, remonta à origem dos povos, ocorrendo hoje pelas curas milagrosas nos santuários, e os próprios benefícios propiciados pela Medicina vieram, em grande parte, mais dos efeitos do fala prestigiosa do médico do que da justeza de seu saber, em geral inoperante. Só mais recentemente, com o desenvolvimento das ciências, que a medicina encontrou um fundamento mais efetivo baseado no saber científico. Freud interessa-se por este poder curativo milenar da fala e apostava que, apesar do tratamento pela fala sob hipnose ter-se mostrado insuficiente, essa força poderia ainda vir a ser explorada de forma metódica para a cura das neuroses.

Aproximando-se dos 40 anos, Freud está na iminência de inventar este método. É neste momento que se situa o seu interesse pelo antigo caso clínico de Breuer.  Os estudos sobre a histeria, publicados em 1895, em co-autoria com Breuer, retomam o antigo caso de Anna O., além de vários casos dos últimos anos, tirados da clínica de Freud. Pode-se acompanhar essas mudanças no modo de fazer, correlatas de forma a compreender que vão se transformando ao longo destes relatos, nos quais a terapia catártica de Breuer, vai dando lugar à Psicanálise. A última parte, escrita por Freud, é uma exposição meticulosa do desenrolar de um processo analítico, incluindo os fenômenos por ele chamados de transferências, ou seja, dos envolvimentos com o médico, assim como o modo de pô-los a serviço do tratamento. Não tardarão a se tornar o seu eixo.

A mudança mais significativa é ideia de Freud de que as representações psíquicas patogênicas, inacessíveis normalmente à consciência, são assim mantidas por um esforço ativo, contínuo, ignorado pelo paciente. Esse esforço automático, compulsivo, é a defesa diante de um conflito intrapsíquico. A modalidade exemplar de defesa é o recalque.

A nova concepção é congruente com a constatação nos tratamentos do que Freud chamou de resistência. À medida que o paciente é convidado a falar “o que lhe ocorrer”, ao se aproximar de certas zonas, a fala vai escasseando, não ocorrem pensamentos, o paciente vai ficando evasivo, por estar tocando em algo que tem alguma conexão com o recalcado. Freud  convenceu-se de que é preciso ter muita paciência ao esbarrar na resistência, pois a necessidade de manter silenciado o que está recalcado é a mesma que suscita angústia e evitamento na sessão, sob forma de resistência. Ele entendeu que se forçasse o paciente, ou se insistisse em lhe fazer interpretações, estas funcionariam como sugestão ou como as ordens do tratamento hipnótico. É preciso que o paciente tenha o tempo e as condições psíquicas para achar com suas palavras, com suas imagens, em uma rede significativa de falas, algo que faça pleno sentido para ele, em relação com o hipotético recalcado ou inconsciente.

Impacientar-se, atropelá-lo, só reforçaria sua defesa, pois ele ficaria mais preocupado em atender à necessidade do médico e em agradá-lo. Até diria coisas na direção buscada pelo médico, melhoraria por amor transferencial a ele, como ocorre sempre na vida, mas continuaria privado deste pedaço essencial do seu ser que, alguns anos depois, no livro sobre os sonhos, Freud chamou de desejo inconsciente. Será paulatinamente, seguindo vias associativas em uma fala não dirigida e em uma escuta também não dirigida, que a resistência poderá ser aos poucos vencida, dando margem para que a fala diga coisas que soam tão verdadeiras quanto estranhas, ao mesmo tempo que dizem respeito a episódios ou fantasias muitas vezes minúsculos e que parecem sempre ter estado por ali, no entanto, sem nunca terem sido ditas ou pensadas.

O método psicanalítico tinha sido inventado e estava estreitamente sustentado por uma rede coerente de hipóteses e conceitos, a que Freud chamou de metapsicologia, herdeira das especulações neurológicas sobre o funcionamento do cérebro. No livro sobre os sonhos, de 1900 (A interpretação dos sonhos), Freud, retomando hipóteses elaboradas em 1895, descreveu um dispositivo chamado por ele de aparelho psíquico que comporta uma diferenciação espacial de lugares, uma tópica (consciente, pré-consciente e inconsciente), atravessada por tensões e movimentos decorrentes da conflitualidade intrapsíquica, uma dinâmica e uma quantidade de energia que adquire a qualidade de afetos ou da libido (“energia” das pulsões sexuais), quantidade que se desloca, se transforma, se condensa, caracterizando a dimensão econômica do funcionamento desse aparelho.

Tais hipóteses evocadas de forma tão ampla devem, sem dúvida, dar a impressão de uma compreensão árida e muito redutora, mecânica, da alma humana transformada em uma máquina de sonhar, de sofrer, de rir, de amar. Testemunha da presença em Freud do imperativo de construir uma Psicologia com base em um dispositivo nocional que atendesse aos pressupostos da Física, na linha do que foi dito antes sobre a influência de Brücke e Helmholtz.

Para além disso, porém,  a metapsicologia é indispensável em função da natureza do que a psicanálise se propõe a elucidar, ou seja, uma gama de fatos psíquicos não acessíveis de maneira direta à auto-observação, à introspecção consciente. O imediatamente acessível, o mundo das motivações conscientes com as quais estamos familiarizados, não permite o entendimento nem a resolução do sofrimento neurótico, apenas racionalizações defensivas, também não fornecem meios para abordar a experiência do sonho e a interrogação sobre sua natureza, sobre como se produz, de que se trata, a não ser fabricar alguma compreensão sumária, com explicações redutoras de pouco alcance; também não são adequadas para o entendimento do próprio processo analítico, do que ali ocorre, do que nele se transforma. A metapsicologia corresponde a hipóteses, conceitos e modelos auxiliares, com os quais a psicanálise procura dar alguma inteligibilidade à experiência clínica, na extrema diversidade de suas configurações.

Naturalmente que toda esta rede nocional é especulativa, fictícia, hipotética e opera colada na experiência, ou seja, no “objeto” que está sendo pensado. Movimenta-se continuamente com a linguagem e a inteligência imaginativa de quem nela toma pé. A força de convicção que poderá produzir não é em sua natureza diferente da força de convicção de um momento “de verdade” vivido pelo analisando em sua análise. A metapsicologia não opera tanto como recurso explicativo, mas sobretudo como suporte para a inventividade teórico-clínica do analista. Ou seja, só se tornaria redutora, mecanicista, se fosse considerada dissociada da experiência, sob um modo realista.

A psicanálise, sendo um tratamento pela linguagem, a linguagem com a qual é dita, precisa a cada vez reencontrar o seu fôlego no modo particular de dizer, tanto mais que seu “objeto” é subjetivo por natureza e remete ao que está no âmago da vivência subjetiva de si e do outro. Toda objetivação que se cristalize perde o essencial daquilo que se está pretendendo dizer. Isto vale tanto para as teorizações em psicanálise, como para as falas no interior do processo analítico.

Deixamos Freud no momento em que chegava aos fundamentos metodológicos e teóricos da psicanálise. É conhecida sua teoria da sedução sexual das crianças pelos adultos como um acontecimento traumático, patogênico e que estaria na origem das neuroses. Não é o momento de nos determos nas sutilezas dessa teoria, nem nas intuições que se revelaram justas posteriormente – ainda que a ideia de um acontecimento causal nunca deixe de nutrir a imaginação clínica e teórica dos analistas e dos analisandos. O fato é que teve vida curta, ao menos nesta forma inicial.

Freud mergulhou no que chamou posteriormente de auto-análise, para a qual a via régia parece de fato terem sido os seus sonhos e o desencadeante, a morte de seu pai, em 1897. Passa a dedicar grande interesse aos seus sonhos, anotando-os, assim como toda sorte de fatos e ideias, por mais corriqueiros e sem significado. Uma coisa leva à outra, e por via associativa criam-se sequências de sentido que se entrecruzam em um ponto que insiste e de onde, em dado momento, chega ao equivalente de uma interpretação, de uma ideia inesperada referente ao desejo operante no sonho; não há ponto final, ponto de chegada neste trabalho interpretativo, que poderá prosseguir com novas linhas associativas.

 

Nesses exercícios surgem muitos fatos corriqueiros acontecidos na véspera ou nos últimos dias, mas também ressurgem fragmentos de memória de outros tempos, por vezes da mais longínqua infância, e que, provavelmente, jamais lhe tivessem ocorrido de outra forma. Nesse processo analítico, a correspondência com um colega mais ou menos da sua idade, um médico otorrino de Berlim, Wilhelm Fliess (1858-1928), se intensifica tanto em quantidade de cartas, como na clara necessidade e dependência que ele passa a demonstrar em relação a seu interlocutor. Costuma-se considerar que, em meio à intensa mobilização psíquica que o tomara, Freud encontra nesse interlocutor o depositário e o destinatário privilegiado dos estados transferenciais que tal mobilização implica.

Pode-se entrever, por muitas indicações, o imbricamento entre a análise de Freud e a análise de seus analisandos neste período. Freud foi auxiliado em sua própria análise pelo que encontrava na análise de seus pacientes e, com certeza, as condições em que se encontrava, propiciavam uma abertura ao que não podia ser previsto por nenhuma reflexão ou introspecção, e o tornavam especialmente permeável e capaz de ser receptivo aos efeitos ou emergências do inconsciente, nas análises destes.

Em 1887, Freud abandonou a teoria da sedução como causa, enquanto explorava toda a eficácia das fantasias, o seu caráter sexual, descobrindo-as exuberantes já na infância, mesmo na mais tenra infância. Até então ele partilhava da opinião comum que a sexualidade só passava a existir a partir da puberdade. O centro da descoberta foi o complexo de Édipo, testemunha da vida amorosa e de desejos assassinos na criança.

No livro A interpretação dos sonhos, de 1900, Freud expõe, sempre com a meticulosidade do cientista, grande parte desse trabalho, sui generis pela fina articulação que o atravessa de ponta a ponta, entre a ousada e precisa inventividade do intelecto e os mais comezinhos episódios da vida, em geral a sua própria, permeada por desejos mesquinhos e pueris. Encontramos ali uma inédita produção de fragmentos, em cortes verticais, de torções e tensões, daquilo que se agita sob a lençol bordado da vida de uma alma. A explícita intimidade que encontramos nessa obra entre o trabalho do intelecto e o trabalho psíquico caracteriza, desde então, todo trabalho psicanalítico.

Uma fala ou um escrito de um paciente ou de um colega, ou de quem quer que seja, que discorra com impecável clareza sobre um assunto de forma que tudo se encaixe, tudo se encontre explicado com admirável justeza e engenhosidade, poderá ser apreciado pelo didatismo e pela inteligência do autor, pelo pedaço de saber que tão bem transmite, mas não despertará nada, além disso, no analista. Este é sensível às fissuras, aos restos clandestinos, a alguma hesitação inesperada, às falhas… a um ato falho, por exemplo. Se, em meio a uma conferência interessante, o conferencista fizer um lapso, este poderá causar risos divertidos quebrando, seja por um momento, a atenção e a seriedade com que o público seguia a exposição. O que Freud e a psicanálise chamam de inconsciente estará nessas paragens.

Mas, se radicalizarmos esta perspectiva, poderíamos perguntar se é no erro, na falha, que se encontra o que realmente importa, o essencial para o sujeito que fala e para os que o ouvem. A verdade de verdade para ele. Se isso não for apenas uma piada, se for para valer, estaríamos minando o templo da Razão, estaríamos dizendo que a verdade não está onde parece estar, mas onde parece não estar? Teria o bem-comportado médico de Viena, ao querer achar um tratamento para os neuróticos, encontrado coisas que afetam, que interpelam até a nossa tradição filosófica, bem como as bases da ciência que tanto nos tem beneficiado? Com certeza, mas deixemos isso de lado para perguntar a mesma coisa de modo diferente.

O mais importante para cada um de nós não está naquilo que falamos sobre nossas intenções, sobre quem somos, sobre o que queremos, mas em algo marginal ao que dizemos?  A resposta aqui é direta e categórica, pois é essa convicção que fundamenta o fazer clínico do psicanalista e a experiência da análise. Somente que ninguém tem condições de dizer esse “mais importante”, “esta verdade” senão o próprio sujeito que fala, e esse ninguém inclui, antes de mais nada, o próprio analista. O analista não dispõe a priori da verdade do analisando, pois nesse caso estaria no lugar do hipnotizador que age por sugestão, desconsiderando o tempo psíquico da resistência, um tempo necessário: só será analista enquanto for capaz de suspender qualquer saber, com isso propiciando que no processo de análise, fragmentos significativos, emudecidos, do desejo e de dores ignoradas do analisando tomem vida e fala.

Freud não é Dali, nem Breton. O sonho não é para ele o paradigma de uma vida mais intensa, mais exuberante. Ao contrário. Ele o desmonta impiedosamente trazendo-o para os fatos mais corriqueiros e modestos da vida e do corpo, só que, de fato, ali encontra, em meio a pequenas coisas, a possibilidade de resgatar o que há de mais significativo e importante e que se mostra ser único para cada um. A vida poderá tornar-se sim mais intensa, mas com a discrição do que tem a ver com o íntimo, por natureza pouco afeito às miragens alheias.

Em descompasso com todo saber constituído, a psicanálise, criada por um cientista convicto, não pode ser considerada ciência no sentido convencional, com certeza não é uma filosofia, nem uma religião, nem uma arte. Mas foi engendrada no âmago da cultura ocidental, em uma densa encruzilhada da ciência, da filosofia, das artes e das religiões e de todas elas se nutriu para surgir e delas se nutre, sobre elas diz coisas que nunca foram ditas antes. Mas, sempre em descompasso. Estranho no ninho que, no momento que deixa de sê-lo, tal é a natureza de sua prática e daquilo que visa, deixa de ser psicanálise. Pois o que busca é sempre o que é, em cada um, estranho/familiar.

 

*Luís Carlos Menezes é psicanalista, membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

**Esse artigo integra uma compilação de textos publicados ao longo da história da Revista Cult sobre a vida e obra do criador da psicanálise, Sigmund Freud, que foi destaque na edição 253, de janeiro de 2020.  https://revistacult.uol.com.br/home/categoria/edicoes/cult-253-sigmund-freud/

Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu…

Observatório Psicanalítico – 139/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo

*Raya Angel Zonana

Há momentos vertiginosos na vida. Hoje, eu quase concordei com Olavo de Carvalho! E, mesmo com a palavra quase, este é um fato assustador. Difícil organizar pensamentos diante da barbárie.

Mas devo, também desta vez, discordar dele. Referindo-se a Alvim, após o discurso deste, “cola” de um dos discursos de Goebbels, o astrólogo profetiza: “É cedo para julgar, mas Roberto Alvim talvez não esteja muito bem da cabeça”.

Discordo desta afirmação por dois motivos: não é cedo para perceber o que, infelizmente, se passa nestes tristes trópicos, e não parece que o problema do (ex) secretário especial seja “não estar bem”. Sua doença é mais grave. Ele, e todo o governo do qual até há pouco fazia parte, sofre de ódio. Ódio ao conhecimento, ódio ao pensamento, ódio àquilo que para Freud, e para nós psicanalistas, retira o homem da barbárie: a ciência e a arte.

Surpreende que o discurso de um componente do atual governo seja copiado ao do ministro da propaganda de Hitler? Não. Nem surpreende a presença no cenário da Cruz de Caravaca, trazida ao Brasil pelos Jesuítas, tão empenhados em catequizar os índios. Estes, por não ter alma, encontrariam a salvação ao abraçar a fé cristã – ainda que isto tenha vindo a custar milhares de vidas. Quem serão agora os sem alma “merecedores” de catequese?

O que horroriza, e causa vertigem, é a atitude explicita, sem constrangimento ou tentativa de disfarce. Muito pelo contrário. O claro tom de orgulho e prazer de Alvim, nos leva a pensar, sem medo de errar, que este, ao discursar, estava coberto de puro gozo! Mas, era só mais um ato de ‘siga o chefe’. Ou é difícil perceber o tom exaltado e ufanístico com que, repetidas vezes, o chefe deste governo se refere ao seu ídolo, o torturador General Brilhante Ustra? Homem brilhante em subjugar, torturar o “outro”, fazê-lo objeto de prazer pessoal.

Ou, estávamos distraídos quando ao assumir o governo, o Presidente, após orar, pronunciou: “Brasil acima de tudo e Deus acima de todos.”

Seria coincidência a semelhança com o Deutschland über alles, gritado de punho em riste pelo Führer, seguido por toda uma nação?

Umberto Eco (1995/2018), em O Fascismo Eterno, nos solicita ‘não esquecer’. Que não pensemos ser o fascismo um mal superado, ele ainda está ao nosso redor ao se apresentar com certas características como o ódio ao diferente e à diversidade de pensamento, oposição à crítica, controle da sexualidade, machismo e exaltação de um líder que salve o povo e o represente. Nem haveria necessidade de representações democráticas como o Congresso: o líder saberia do que o povo necessita.

O hipnotismo, sedução, fascínio exercidos pelo líder sobre a massa, dos quais Freud fala em Psicologia das massas e Análise do Ego (1921), ganham forma no discurso do secretário especial da subpasta da Cultura – a denominação especial e subpasta não são aleatórias – quando este explicita o pedido do presidente: “que a cultura não destrua, mas salve a nossa juventude na luta contra o Mal, com uma arte para o povo para o qual é criada”.

Não há aí uma inversão? Não é o povo de um país que constrói sua cultura, sua arte?

Anunciavam-se prêmios para arte não “degenerada”. Arte suavizada como o Presidente sugeriu que fossem os livros escolares, que “têm muita coisa escrita”.

Umberto Eco nos lembra que os textos escolares nazistas e fascistas usavam um léxico pobre, uma sintaxe elementar para assim limitar “os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico”. Simplificar a complexidade da palavra, evitar a capacidade crítica, formas de criar cada vez menos sujeitos, cada vez mais objetos…

Eco ainda nos diz que o fascismo aparece de maneira sutil. Seria fácil identificá-lo, diz o autor, se alguém bradasse livremente coisas óbvias como: “Quero reabrir Auschwitz”.

Absurdo? Mas, não teríamos ouvido algo semelhante na frase: “Melhor filho morto do que filho gay!”? Isto não seria reabrir Auschwitz, onde foram confinados e mortos milhares de homossexuais, ciganos, comunistas, judeus ou quem quer que perturbasse o tom ariano desejado pelo nazismo?

Plagiar Goebbels mostra alguma sutileza? Ou é mais do mesmo, entre os tantos fatos grotescos e abusivos que nos atropelam, diariamente, há cerca de um ano?

Corremos o risco de naturalizar estas situações. Começamos achando graça nas bobagens e impropérios ouvidos, mas o riso há tempos tornou-se esgar de medo e horror. A tranquilidade, a naturalidade com que frases e discursos são exalados sobre nós não impedem que nos cheguem como gás venenoso. Não podemos nos permitir a indiferença, devemos estar atentos à instalação lenta e mortal da banalidade do mal.

Se escrita e o pensamento são os instrumentos que temos para fazer frente à barbárie, se é a possibilidade de reflexão o que temos à mão, cabe-nos fazer uso destas verdadeiras ferramentas do analista: escuta e reflexão. Apesar dos livros queimados, Freud e muitos outros escritores continuaram a escrever.

Não nos enganemos, portanto.

Para nós psicanalistas, atentos aos movimentos do humano, a repetição, em seu caminho pulsional mortífero, não é surpresa.

Cabe-nos, sim, poder recordar. E insistir!

“…A gente vai contra a corrente…”

*Raya Angel Zonana é psiquiatra pela FMUSP, psicanalista, membro da SBPSP, Editora da Revista Calibán, Revista Latino Americana de Psicanálise da FEPAL. Integra a Diretoria de Comunidade e Cultura da SBPSP e a Diretoria de Atendimento à Comunidade da SBPSP.

 

**Uma versão deste texto está publicada no Observatório Psicanalítico no site da FEBRAPSI. Clique aqui.

 

Nara: a menina invisível dos olhos fugitivos

Prefácio

Mirian Malzyner, autora e ilustradora deste belo livro para crianças, remete-nos à estória de Nara e nos conduz de forma lúdica a entrar na vida real da autora por meio da imaginação.

Nara enfrenta o estrabismo e a timidez, desafios que a fazem sentir-se diferente de outras crianças. Com belíssimas ilustrações e enredo, os conflitos e a imagem de si mesma vão sendo apresentados. Há uma questão física e uma psicológica. O “olhar fugitivo” – forma brincalhona que Mirian usa para ilustrar o estrabismo – torna-se um problema. O olhar da mãe reflete sua preocupação, o que contribui para a timidez da menina. É quando a busca pela invisibilidade surge como forma de proteção. Por meio dos sonhos e de sua capacidade imaginativa, Nara, que só era colorida pelo lápis vermelho em seu rostinho, descobre como usar outras cores e desenvolve o desejo de tornar-se visível.

Os olhos fugitivos de Nara contam a história de Mirian, que passada a experiência da infância, mergulha na profundidade e complexidade do mundo psíquico do ser humano, pois se torna psicanalista. O tempo passou, mas a imaginação ainda potencializa sua capacidade artística. Usando cores, pintando quadros, escrevendo livros… Criando um universo em que lápis de cor e tintas coloridas apontam para sua vitalidade e visibilidade.

Acompanho Mirian há muitos anos e é visível sua dedicação a tudo que se propõe e ama. Sempre interessada em pintar figuras humanas, com estilo próprio, onírico e singular. Como artista plástica e psicanalista faz uma ótima combinação entre razão e imaginação.

Este livro, além de encantador, pode ser útil, pois possibilita diálogos que fortalecem a autoestima de crianças que vivem numa condição que as difere das demais. A criança pode sentir-se inadequada por ser diferente, tende a se apagar e a tornar-se invisível. Talvez, o lápis vermelho da timidez tenha sido amigo de Nara, já que, mesmo de uma forma difícil, mostrava que algo acontecia dentro dela. Vermelho é cor de emoção e é preciso confiança para permitir que outras cores apareçam.

Quando Nara se torna colorida, pode rir e gargalhar pela “simples” alegria de se sentir viva e visível. Penso que só é possível sentir a felicidade quando a vida ganha sentido e quando a criança pode ser e existir, para si e para o outro.

Marlene Rozenberg

Psicanalista, membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

Antonin Artaud e a Psicanálise

* Daniel Dimand

Antonin Artaud nasceu em Marselha, em 1896, e morreu em Paris, em 1948. Foi poeta, ator, escritor, dramaturgo, roteirista e diretor de teatro. Ligado ao movimento surrealista, seus escritos sobre teatro são considerados dos mais influentes sobre o assunto no século XX. As suas correspondências “revelam um homem em terrível estado de sofrimento, falando de sua dor, através de uma escritura mais íntima e espontânea”. Passou os últimos anos de sua vida internado em hospitais psiquiátricos.

Seria impossível abordar de forma abrangente uma vida e obra tão diversa e rica como a de Artaud. Aproveitando que, através de suas cartas, podemos recuperar algo da sua voz, considero que vale a pena apresentar um pequeno recorte delas, tentando uma relação com o olhar psicanalítico.

Na correspondência com Jacques Rivière, editor de uma importante publicação francesa, Artaud busca um interlocutor, alguém que o escute, com quem possa estabelecer uma relação de pessoalidade:

“Minha questão era talvez especial, mas era a você que eu a colocava, a você e a mais ninguém, por causa da sensibilidade extrema, da penetração quase doentia do seu espírito.”

Artaud se oferece de forma íntima e despojada nessa relação e mesmo o interesse literário fica em segundo plano:

“Você colocou o dedo em parte de mim; a literatura propriamente dita não me interessa muito (…)”

 A valorização do mundo interno surge de forma espontânea:

“Sei o tráfico das coisas aqui dentro”, ele declara com simplicidade para Rivière.

A dor da alma tem grande destaque, uma dor que ele não quer deixar de compartilhar:

“Sou um homem que sofreu muito do espírito, e por isso tenho o direito a falar.”

Sofrimento que, como ele enfatiza, também está no corpo, faz parte do seu dia a dia:

“Resta que eles não sofrem e eu sofro, não somente com o espírito, mas na carne e na alma cotidianas.”

O contato com o outro ser humano tem uma grande importância, mas ele não pode se dar de qualquer maneira. Há em suas palavras um clamor por uma escuta que não julgue, não confine, não reduza. Escreve ao editor:

“Eu me ofereci a você como um caso mental, uma verdadeira anomalia psíquica, e você me responde através de um julgamento literário de poemas aos quais eu não me apegava.”

A ideia de uma escuta isenta de julgamentos prévios é consideravelmente relevante. Tanto que reaparece em outra passagem, da mesma forma categórica como a anterior:

“É preciso não se antecipar a julgar os homens, é preciso dar-lhes crédito até no absurdo, até a borra.”

A singularidade do ser humano é também reivindicada. Assim ele se refere a si próprio:

“Esse homem, no entanto, existe. Digo que ele tem uma realidade distinta e que lhe dá um valor. Vamos condená-lo ao nada sob o pretexto de que ele só oferece fragmentos dele mesmo?”

Os escritos de Artaud nos desafiam constantemente a indagar sobre os limites que nos cercam: vida e obra, corpo e alma, palco e plateia, sanidade e loucura…

Esse últimos, assim como a fragmentação que Artaud identifica em si próprio e o conhecimento da própria realidade interna, psíquica, o aproximam novamente da psicanálise. O trecho seguinte de Freud apresenta esses elementos reunidos de uma forma que também desafia os limites preestabelecidos e nos faz questionar sobre as relações entre sanidade e loucura:

“(…) achamo-nos familiarizados com a noção de que a patologia, na medida em que aumenta e torna grosseiro, pode chamar a atenção para condições normais que de outra maneira não perceberíamos. Ali onde ela nos mostra uma ruptura ou uma fenda pode haver normalmente uma articulação. Se lançamos um cristal ao chão, ele se quebra, mas não arbitrariamente; ele se parte conforme suas linhas de separação, em fragmentos cuja delimitação, embora invisível, é predeterminada pela estrutura do cristal. Os doentes mentais são estruturas assim, fendidas e despedaçadas. Também não podemos lhes negar um tanto de temor reverencial que os povos antigos demonstravam para com os loucos. Eles deram as costas à realidade externa, mas justamente por causa disso sabem mais da realidade interna, psíquica, e podem nos revelar coisas que de outro modo nos seriam inacessíveis.”

Bibliografia:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Antonin_Artaud

A perda de si: cartas de Antonin Artaud, Seleção, organização e prefácio: Ana Kiffer; Tradução: Ana Kiffer e Mariana Patrício Fernandes. – 1ª ed. – Rio de Janeiro: Rocco, 2017 (Marginália)

Freud, S. (2006). Novas Conferências Introdutórias Sobre A Psicanálise, Conferência XXXI: A Dissecção da Personalidade Psíquica. In: Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro, Imago, v. XXII [1933 (1932)]

* Daniel Dimand Pereira de Azevedo é médico pela UFSCar, membro filiado ao Instituto de Psicanálise Durval Marcondes da SBPSP, voluntário no Serviço de Psicoterapia do IPq-HCFMUSP.

ALGORITMOS = SIGNIFICANTES ENIGMÁTICOS? CONTRIBUIÇÕES DE LAPLANCHE

* Dora Tognolli

O professor  israelense Yuval Harari, autor do best-seller Sapiens, trata da história da humanidade de forma clara e instigante. Um de seus focos é a importância da informação, dos dados e do poder que gravita a seu redor. Explica como os algorítmos nos conduzem a decisões, consumos, escolhas, como se as operações matemáticas que ocorrem nas redes, abastecidas por nós, soubessem de nós o que ainda desconhecemos. Numa recente entrevista no programa Roda Viva, o Prof. Harari dá um exemplo: um sujeito que desconhece seu desejo homoerótico ao se relacionar com as redes fornece inputs que permitem que o algoritmo perceba antes dele esse desejo. Parece assustador, mas ele não oferece nenhuma explicação mística: trata-se de mistérios do algoritmo, que acompanha o passo a passo do qual o sujeito não se dá conta. A matemática explica, a lógica também. E a Psicanálise trata disto: desde sua constituição.

***

Caminho de Laplanche

Laplanche nada mais é do que um grande admirador de Freud, que usa de seu rigor e inteligência para iluminar conceitos que ele coloca no rol dos fundamentos, do que é fundante, que não pode se perder dentre tantos escritos, comunicações e cartas de Freud. Laplanche chega a admitir que pratica uma espécie de “fidelidade infiel” a Freud: ignora certas considerações, enquanto que valoriza ou transforma outras, sempre baseado no próprio Freud, tomando em conta o conceito de tradução, que Freud e ele próprio problematizam.

A partir da correspondência de Freud, da tradução do alemão, do vocabulário de Psicanálise, em parceria com Pontalis, Laplanche tem na mão os roteiros que Freud trilhou e construiu, que merecem ser olhados em toda a dinâmica e complexidade. E os textos de Freud, como todos sabemos, contêm uma potência que permite que a cada leitura nossos sentidos avancem em direções inusitadas ou criem novos circuitos de entendimento.

O salto do Projeto (corpo biológico) para o capítulo 7 da Interpretação dos Sonhos (corpo erógeno), sem perder o corpo (sexualidade), é considerado um desses fundamentos. Nesses textos vão se estabelecendo a indestrutibilidade do desejo, seus caminhos diversos e o estatuto do inconsciente, um outro em nós, o estranho – Unheimlich, recentemente traduzido como  Infamiliar.

Conceitos interessantes de Freud são retomados, por exemplo, desamparo (Hilflosigkeit), temporalidade em duas fases (Nachträglichkeit que quer dizer, mais ou menos, carregar/trazer, depois; ou acrescentar algo a um escrito ou fala; ou numa outra direção, guardar rancor, não esquecer), tudo a ver com recalcado, resto, retorno do recalcado.

A ideia de situação originária ou fantasia originária, retomada por Laplanche, tem a ver com a origem, fundação, e não causa primeira. Essa situação é o mero confronto do recém-nascido (Hilflos = desamparado, abandonado) com o mundo adulto. Com a introdução do conceito de metábola coloca-se um hiato entre o inconsciente da mãe (que também lhe é estranho e enigmático) e sua cria, momento de fundação, onde se constitui um recalque primário.

Exemplo interessante trazido por Freud nos Três Ensaios, o aleitamento: o seio, que veicula alimento e significados eróticos e sexuais, dos quais nem a mãe se dá conta. Enigmas também para o adulto…

A sexualidade humana é portadora de mensagens enigmáticas para a criança que a recebe e por elas é marcada, e para o adulto que as emite, sem se dar conta do resto que também porta. A criança presente no adulto guarda essa marca do enigma e essa é a matéria-prima de suas mensagens.

Temos um primeiro tempo, anódino, de inscrição, reativado por um segundo tempo: daí o trauma em dois tempos. O segundo trauma ou acontecimento, que encontra o sujeito mais preparado, reativa o primeiro, ressignificado.  Laplanche nos lembra que o ataque vem da lembrança, vem de dentro e não do acontecimento. A transferência, na análise, seria um caso particular dessa revivescência. Em Freud, como bem aponta Laplanche, há sempre uma tensão entre a cena antiga e o roteiro recente: dois tempos.

Na carta de Freud a Fliess, de 21 de setembro de 1897, lemos: “não acredito mais na minha neurótica” – momento marcante, em que Freud coloca em questão os relatos de abusos de crianças por um adulto, muito frequentemente os pais, que surgiam no tratamento das histéricas. Laplanche volta-se a esse momento, em que o sexual está no cerne do conflito: presença marcante  do mundo interno, esse desconhecido produtor de fantasias que borram a realidade, o factual.

Ao tratar do sexual, da pulsional, Freud assumirá a etiologia sexual, subjacente ao conflito humano e ao sintoma, que escapa à compreensão do sujeito. Podemos afirmar, com Freud e Laplanche, que a sexualidade é traumática, deixa restos, em busca de retraduções e coloca em movimento o aparelho precário infantil, que assim se constitui. A figura do outro (mãe, por exemplo), surge para dar sentido, traduzir, incluir na cultura e, também traumatizar, uma vez que esse outro também porta seus próprios significantes enigmáticos. Caminho necessário para a entrada no mundo. De certa forma, saímos da sedução tout court, factual, para uma sedução generalizada, inexorável.

Cabe aqui uma expressão utilizada por Melanie Klein, que a partir do tratamento de crianças muito pequenas e com sua capacidade de observação, percebeu que o corpo infantil é uma espécie de bólido incandescente que no contato com a mãe [adulto] vai progressivamente esfriando.

Fogo, corpo, adulto-criança, trauma, enigmas, prematuridade, infans = sem fala: terreno propício por Laplanche retomar o conceito de sedução, necessário à constituição do psiquismo, e tratar dos significantes enigmáticos, como destino de todos nós. Eis aqui alguns dos fundamentos do psiquismo, que Laplanche toma como pilares, para tecer sua teoria.

Retornando aos algoritmos, medidas externas de nosso estranho, que escapa, Freud percebeu desde cedo que algo em nós tem um quê de estranhamento, de enigmático. E é essa matéria-prima de nosso ofício “impossível”, mas necessário, em especial nos dias atuais, em que o outro é facilmente confundido com o inimigo, que precisa ser aniquilado.

Dora Tognolli é psicóloga e psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) e mestre em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (USP).

A importância da noção de apoio na teoria freudiana

* Eduardo Zaidan 

Um conceito de suma importância na teoria das pulsões de Freud é o apoio (anaclisis, na tradução de Strachey).

Este conceito aparece nos Três ensaios, quando Freud escreve que: “Assim como a zona labial, a localização da zona anal a torna adequada para favorecer um apoio da sexualidade em outras funções do corpo” (Freud, 1905/2016, p. 91).

Na terceira edição dos Três ensaios, em 1915, Freud afirma que: “No começo, a satisfação da zona erógena estava provavelmente ligada à satisfação da necessidade de alimento. A atividade sexual se apoia primeiro numa das funções que servem à conservação da vida, e somente depois se torna independente dela” (Freud, 1905/2016, p. 85-86). Isto é, inicialmente havia uma necessidade de nutrição, da qual a necessidade de repetir a satisfação sexual se descola (Freud, 1905/2016, p. 86).

Nessa mesma edição, Freud adiciona que uma das características essenciais da manifestação sexual infantil é que “surge apoiando-se numa das funções vitais do corpo […]” (Freud, 1905/2016, p. 87).

No segundo artigo sobre a Psicologia do amor, Freud pontua que: “As pulsões sexuais acham seus primeiros objetos apoiando-se nas avaliações das pulsões do Eu, exatamente como as primeiras satisfações sexuais são experimentadas apoiando-se nas funções corporais necessárias à conservação da vida” (Freud, 1912/2013, p. 349-350).

Freud voltará a discutir a noção de apoio em Introdução ao narcisismo, para apresentar a escolha de objeto por apoio. Neste caso, percebe-se que o sujeito se apoia no objeto das pulsões de autoconservação para a escolha de um objeto de amor (Freud, 1914/2010, p. 31-32). Ou seja, a mãe que nutre e o pai que protege – os objetos das pulsões de autoconservação ou pulsões do Eu – serão os modelos da escolha do objeto de amor (Freud, 1914/2010, p. 36).

Mas qual é, afinal, a importância desse conceito que foi negligenciado por parte significativa da psicanálise pós-freudiana? Laplanche e Pontalis (1967/2001) resgataram o conceito de apoio para assim evitar a ideia de uma sexualidade endógena, natural, uma vez que, com a noção de apoio, se assegura a origem infantil e intersubjetiva da pulsão.

Em outras palavras, a sexualidade se desenvolve na relação com um outro – esta ideia é elementar.

Portanto, não se trata de negar o instinto, nem de que este tem um objeto natural, como por exemplo a fome, mas de que a pulsão, apoiada no instinto, se descola deste. Este é um dos pilares da teoria das pulsões de Freud: a pulsão não tem um objeto a priori, o que significa que o desejo, diferentemente do instinto, não é natural.

Se o desejo não é natural, é porque não está presente no nascimento, mas é animado na vivência de satisfação. O desejo, portanto, corresponde a um impulso psíquico que anseia a repetição da situação da primeira satisfação (Freud, 1900/2019, p. 617-618).

O sexual, no sentido freudiano, por conseguinte, não pode ser confundido com o instinto ou com qualquer função biológica.

Freud revolucionou a concepção de sexualidade ao afirmar o polimorfismo sexual na criança (Freud, 1905/2016, p. 98). Sobre isso, escreve Lacan: “Desde os Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, Freud pôde colocar a sexualidade como essencialmente polimorfa, aberrante” (Lacan, 1964/2008, p. 174).

Esta revolução na maneira de compreender a sexualidade humana é um verdadeiro novo aporte ético. A concepção científica da sexualidade, no século XVIII, assumia que a sexualidade era o instrumento biológico da propagação das espécies. Para esta concepção, a sexualidade teria uma função biológica (Monzani & Bocca, 2015, p. 22).

A psicanálise freudiana é uma subversão dessa compreensão dita “científica”, na medida em que entende o desejo como um circuito paralelo e independente do biológico. Portanto, a sexualidade humana não tem nada a ver com o instinto reprodutor, com o qual a pulsão pode eventualmente se encontrar, mas não necessariamente (Monzani & Bocca, 2015, p. 41).

É preciso reiterar que a leitura da sexualidade infantil como perversa polimorfa é mais do que um aporte conceitual, é um aporte ético. Isto significa que, na clínica psicanalítica, não há lugar para a patologização do desejo, uma vez que a pulsão é independente de qualquer função biológica.

Este é um dos cernes da clínica psicanalítica: a oposição conceitual e ética a qualquer clínica normatizante do desejo.

 

Referências

Freud, S. (1900). A interpretação dos sonhos. Obras completas, volume 4. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

Freud, S. (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Obras completas, volume 6. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

______. (1912). Sobre a mais comum depreciação na vida amorosa (Contribuições à psicologia do amor II). Obras completas, volume 9. São Paulo: Companhia das letras, 2013.

______. (1914). Introdução ao narcisismo. Obras completas, volume 12. São Paulo: Companhia das letras, 2010.

Lacan, J. (1964). O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Laplanche, J. & Pontalis, J.-B. (1967). Vocabulário da psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

Monzani, L. & Bocca, F. Novo aporte ético em face da concepção freudiana da sexualidade. Ipseitas, São Carlos, vol. 1, n. 1, p. 21-44, jan-jun, 2015.

 

* Eduardo Zaidan é psicanalista, membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) e mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP.

 

 

O psicanalista nas fronteiras

 Entre o sonho e a dor

 * Talya S. Candi

 O limite e a psicanálise contemporânea

A psicanálise contemporânea avança firmemente rumo às fronteiras e nos obriga a debruçarmos sobre o que o psicanalista André Green denominou de metapsicologia dos limites. É o que indicam os múltiplos colóquios e ciclos de conferências organizados pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) e pela Federação Psicanalítica da América Latina (Fepal) que abordam este tema.

O conceito de “fronteira” surge em 1975, a partir da noção de “limites da analisabilidade”, (título da revista Nouvelle Revue de Psychanalyse n°10, editada pelo psicanalista J.B Pontalis com a colaboração de A. Green).   A partir deste momento começa a surgir uma  clínica  psicanalítica ampliada dos  estados limites  que  não designa uma nova categoria clínica (o paciente borderline,  não neuróticos ou psicossomático), mas  propõe trabalhar  a partir de uma  nova tópica:  uma tópica  que coloca o trabalho analítico no limite do funcionamento mental do analista,   entre a possibilidade de escuta dele próprio  e  do paciente. Tratam-se, por definição de pacientes, situações, estados, experiências que põem em xeque o método interpretativo psicanalítico clássico e exigem por parte do analista uma   firme implicação afetiva e uma elasticidade técnica.

Percebendo a potência heurística da noção de limite e das áreas fronteiriças, André Green, incorpora, em 1976, a noção de limite ao arsenal metapsicológico freudiano e a transforma num dos conceitos mais fundamentais da psicanálise contemporânea. Diz ele: “Devemos considerar o limite como uma fronteira móvel e flexível, tanto na normalidade quanto na patologia. O limite é, talvez, o conceito mais fundamental da psicanálise contemporânea. Ele não deve ser formulado em termos de representação figurada, mas em termos de processos de transformação de energia e de simbolização” (1976, p. 126).

A metapsicologia dos limites  é  uma quarta dimensão metapsicológica  que se soma à dimensão econômica, topológica e dinâmica, e instrumentaliza o psicanalista para que possa se  debruçar  sobre  as mudanças  psíquicas  e  as transformações  que acontecem entre o Id, Ego e Superego, entre o inconsciente e o consciente, entre o dentro e o fora, tanto do lado paciente quanto do lado  analista.

Entre o sonho e a dor: O duplo limite

Neste novo contexto, a própria concepção do aparelho psíquico começa a ser vista a partir da referência ao limite, pois a funcionalidade do aparelho mental, a sua plasticidade e a sua capacidade de se movimentar, reside em suas duas áreas fronteiriças. A primeira área intersubjetiva permite a delimitação e a interação do mundo de dentro e do mundo de fora, a segunda intrapsíquica  (que pode ser comparada ao pré-consciente) serve de barreira de contato entre os conteúdos conscientes e inconscientes, funcionando como uma pele psíquica porosa para a vida fantasmática do inconsciente e do sonho, na interseção destes dois eixos encontram-se os processos de pensamento[1].

Surge assim um modelo original de um aparelho psíquico contemporâneo formado por um duplo limite (Green, 1982) idealizado pelo A. Green a partir da metapsicologia dos limites.

Sem fronteiras funcionando adequadamente, o psiquismo se estrutura precariamente, mantém-se a impossibilidade de organizar o tempo e o espaço, domina a bidimensionalidade (particularmente no âmbito edípico) e a circularidade temporal. Nesta configuração, a capacidade de sonhar é frágil, o pensamento não consegue se desenvolver como um meio capaz de produzir mudanças psíquicas, transformar a realidade e torna-se uma ruminação interminável, onde predominam afetos fragmentados tais como o isolamento e o ressentimento.

Green insiste repetidamente na necessidade de trabalhar a partir de uma dupla referência ao limite formada por dois polos complementares e antagônicos (uma dupla significância, dupla representância), já que na psicanálise o polo interno ligado ao inconsciente é constitutivo da percepção da realidade e, inversamente os conflitos que vivemos na realidade externa, vai construir nosso inconsciente.

 Novos caminhos para pesquisa psicanalítica contemporânea

Gostaríamos de sugerir que o modelo greeniano do duplo limite aponta para duas direções de pesquisa teórico-clínica, dois campos complementares e antagônicos que não se confundem entre si, mas que trabalham em ressonância e ecoam inevitavelmente entre si.

Por um lado, temos o trabalho na vertente do limite intersubjetivo, dentro e fora, que aponta para a pesquisa da psicanálise extramuros e dos pacientes não-neuróticos. Para realizar tal tipo de pesquisa o analista contemporâneo deve estar preparado para trabalhar em situações concretas de carências e desamparo, trabalhando na comunidade, em parceria com a saúde pública em instituições variadas (creches, escolas, hospitais, presídios), com populações que frequentemente não teriam condições de chegar para o consultório.

Denominamos este tipo de trabalho:  trabalho da dor.  O analista terá que perder a sua identidade e mergulhar nas vivências traumáticas e nas transferências dolorosas para representar o irrepresentável, criar sentido, elaborar a sua impotência e insuflar vida em situações extremas.

Ora este campo intersubjetivo no limite da analisabilidade somente pode percorrer o caminho das transformações se é elaborado pelo limite interno intrapsíquico regido pelo trabalho do sonho, que outorga figurabilidade e representação a dor psíquica.  

Abre-se assim um segundo campo de pesquisa tão importante quanto o primeiro ligada ao limite intrapsíquico que se inaugura na própria análise do analista.  Esta segunda frente de pesquisa teórico-clínico instrumentaliza o analista para lidar com os conflitos internos, ampliando a sua imaginação clínica, a sua capacidade de sentir, viver os afetos catastróficos e perturbadores e de pensar o impensável usando símbolos para sonhar e brincar com as experiências. É a capacidade de sonhar as experiências que permite representar e transformar os afetos agônicos em pensamento, ampliando a espessura do limite pré-consciente e inconsciente.

Somente por meio desta dupla pesquisa, sonho e dor que o analista contemporânea poderá ampliar seu poder de ação e avançar nos territórios dos limites da analisabilidade, usando da transferência para deixar se colocar entre sonho e realidade, dentro e fora, passado e futuro.

O psicanalista nas fronteiras é um sujeito aberto às transformações, que se debruça sobre as vicissitudes das mudanças psíquicas que acontecem nele próprio e no seu paciente.  É a capacidade de sonhar nossas experiências que dá sentido para nossa precária humanidade, através dos múltiplos cortes e suturas que transformam a repetição em memória e viabilizam o desenrolar de criação de sentido da nossa experiência de vida.

Neste novo mundo sem  sentido no qual a concretude ganha cada vez mais espaço, cabe ao psicanalista a difícil tarefa de ter uma identidade fluida, uma escuta polifônica que possibilite  criar um diálogo entre  os nossos anseios  mais internos ligados à nossa fragilidade, desamparo e dor, que caracteriza o humano e as exigências de uma  realidade externa cada vez mais cruel e exigente.

Bibliografia

C, Botella (organizador): Penser les limites:  Ecrit en honneur dAndré Green, Ed Delachaux et niesttle, Paris, 2002

  1. Candi: O Duplo Limite: O aparelho psíquico de André Green, ed. Escuta, 2010
  2. Green, 1982: O duplo limite. in a Loucura privada: psicanálise dos casos limites, Ed Escuta, 2017

 

* Talya Saadia Candi é psicanalista, Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), autora do livro “O Duplo Limite: O Aparelho Psíquico de André Green” e organizadora do livro “Diálogos Psicanalíticos Contemporâneos”, ambos da ed. Escuta.

 [1] Remeto o leitor interessado ao texto de André Green intitulado “O duplo limite”, 1982

A estrada da vida

Luciana Slaviero Pinheiro

 

“O que faz andar a estrada? É o sonho.

Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva.

É para isso que servem os caminhos,

para nos fazerem parentes do futuro

(FALA DE TUAHIR)”.

 Mia Couto em “Terra Sonâmbula” (1993).

 

Mia Couto, com sua escrita poética e sensível, relaciona o sonhar com movimento, com um entrelaçamento entre o passado, o presente e o futuro. O sonhar com existir, pertencer, ser e tornar-se, “indispensável para seguir vivendo, mesmo nas condições mais adversas”, como destacado na contracapa de seu livro “Terra Sonâmbula” que fala de guerra, violência, identidade e esperança.

“Os sonhos são importantes. Eles podem ser uma maneira de abrir uma janela, deixando o ar tóxico sair”. Esta frase, do filme “A Cabana (The Shack)” baseado no livro de  William P. Young (2007), que traz o dolorido processo de luto de um pai com a morte da filha, refere-se à importância do sonhar no turbulento processo de luto, que envolve o contato com agonias, fantasmas, deuses e demônios. Com a passagem do tempo, a possibilidade de uma elaboração pode iluminar a escuridão e o momento preciso de onde se está.

Normalmente, associamos o luto à morte de alguém, mas o luto é uma experiência bastante ampla e complexa, presente nas mais diversas situações da vida, desde a infância até a vida adulta.  Envolve mudanças, separações, perdas e transformações, a partir das quais se dá a maturação de nosso desenvolvimento emocional.

Nossa primeira experiência de desamparo e separação (do corpo materno) é o nascimento. Embora o bebê ainda não se perceba separado da mãe, a experiência do nascimento deixa marcas inconscientes, pois introduz mudanças significativas no ritmo vivido durante a gestação: o bebê passa a ter que respirar com os próprios pulmões, sugar o leite materno, além de viver uma mudança gravitacional quando deixa de ser sustentado por todos os lados pelo líquido amniótico para ser sustentado de baixo para cima por quem cuida dele.

Desde bebê, somos convocados a elaborar muitos lutos. Quando ocorre o desmame, no nascimento de um irmãozinho e consequente perda do lugar de “filho único”, na volta dos pais ao trabalho, na pré-escola com a percepção de sermos, apesar de nosso valor, “mais um no grupo”, onde é necessário conviver, compartilhar, esperar, conceder, negociar, conciliar, etc.  Situações que promovem o desenvolvimento de recursos para o enfrentamento da vida.

Um período bastante conhecido de crise, angústia, confusão, escolhas e luto, é a adolescência, transição da infância perdida para a maturidade ainda não atingida em que o adolescente se pergunta: “Quem sou eu?”.

O processo de crescimento e desenvolvimento não é simples e indolor, envolve continência, tolerância, permeabilidade, transformação e expansão, acompanhados de incertezas, múltiplas possibilidades, ganhos e perdas. Como diz Guimarães Rosa: “a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.

Uma desilusão, uma separação, a morte de alguém querido, a perda do emprego, da liberdade, de habilidades físicas… o processo de luto, conforme destaca Freud, é penoso, sofrido, lento, gradual e necessário, pede delicadeza e vagareza… Envolve tristeza, reclusão e perda de interesse temporária pelo mundo externo, sendo inútil ou mesmo prejudicial qualquer interferência em relação a ele, pois precisa de seu próprio tempo, que é muito particular, para a realização e a aceitação da realidade. O respeito à realidade acontece pouco a pouco e com grande dispêndio de energia e quando o luto é elaborado e concluído, o ego volta a ficar livre outra vez para se abrir para novas ligações e para a vida. E novamente sonhar.

Na melancolia, embora tenha as mesmas causas que o luto, o desamparo e a desesperança vividos envolvem um processo diferente e patológico que pode durar uma vida toda se não cuidado. A melancolia diferencia-se do luto por ser acompanhada de um forte sentimento de desvalor e inferioridade, de uma extrema diminuição da autoestima, de autorrecriminação e autodepreciação, e de uma expectativa delirante de ser culpado e punido. É infrutífero contradizer o melancólico das próprias acusações, sua companhia costuma ser acompanhada de uma “pesada atmosfera”. Em psicanálise costuma-se referir-se à melancolia como um processo onde “a sombra do objeto recai sobre o ego”, retirando toda sua vitalidade. No filme “Melancolia” (2011), aclamado por críticos e foco de controvérsias, Lars Von Trier representa, através da obscura imagem da aproximação e expectativa de colisão do planeta “Melancolia” com o planeta Terra, uma tragédia anunciada: um final apocalíptico quando não é mais possível sonhar.

Na clínica psicanalítica, os sonhos surgem como parte de uma experiência emocional compartilhada que demanda confiança, afrouxamento de defesas, empatia, mutualidade e esperança para que se possa desenvolver recursos e um radar e, assim como os morcegos, sair da caverna e da escuridão e seguir em movimento. Às vezes, nos sentimos mesmo como os morcegos, voando com as mãos, enxergando com os ouvidos e dormindo de cabeça para baixo.

Recentemente, tive a oportunidade de assistir novamente à peça “A Alma Imoral” (2006), adaptação de Clarice Niskier do livro homônimo do rabino Nilton Bonder, convidada por uma pessoa muito querida, que tenho tido o privilégio de ter como interlocutora, amiga e parceira na estrada da vida. Compartilho um trecho da peça ligado à esperança e à possibilidade de seguir sonhando:

“Todo lugar onde o homem cresceu e se desenvolveu, um dia se torna estreito, nenhum lugar pode ser amplo pra sempre. O ventre materno é o primeiro grande exemplo. E saber entregar-se às contrações do lugar estreito, rumo ao lugar amplo, é um processo, é um processo assustador, avassalador… e mágico!
O que fazer quando os portões do passado se fecham e os do futuro não estão abertos? O corpo experimenta a mais temida das sensações, o pânico de se extinguir. O futuro existe se vocês marcharem, é a resposta de Deus. O futuro está ligado ao presente pela alma. Marchem… a alma guiará o caminho seco através do molhado. O mar vermelho não se abre para o povo hebreu passar. O povo marcha e Deus, comovido com a confiança nele depositada, então oferece passagem entre as águas do mar”.

Referências

Couto, Mia. Terra Sonâmbula (1993). Brasil, Companhia de Bolso (2015).

Freud, Sigmund. Luto e melancolia. In: Freud, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. 14. Rio de Janeiro, Imago, 1976, 243-263.

Rosa, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas (1956). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

Niskier, Clarice. A Alma Imoral (2006). Rio de Janeiro, adaptação do livro homônimo de Milton Bonder, 1998.

 

* Luciana Slaviero Pinheiro é psicanalista, Membro Filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).


 

João, de Deus?

* Rafael Privatto Tinelli

No dia 25 de julho deste ano, a equipe de sete advogados do famoso médium João de Deus, anunciou que não iria mais trabalhar em sua defesa, abandonando a causa.

João de Deus foi preso, preventivamente, em dezembro de 2018 e desde então, está aguardando julgamento.

A primeira denúncia contra o médium veio de forma midiática por Zahira Mous, em entrevista para um programa de televisão. Na sequência, centenas de mulheres que se sentiram encorajadas por Zahira, vieram a público para também relatar os abusos que sofreram do médium. Foram mais de 300 mulheres que apareceram para compor estas denúncias de abuso sexual e estupro. O Ministério Público de Goiás apresentou 11 denúncias contra ele. Aparentemente, dessas mais de 300 mulheres que se apresentaram, 11 tinham provas suficientemente contundentes para tentarem condenar João de Deus.

Algumas semanas após o escândalo, a jornalista e ativista Sabrina Bittencourt fez acusações por meio de um vídeo na internet, em que diz que João de Deus estava diretamente envolvido com cárcere privado de mulheres que eram forçadas a engravidar para que ele e sua quadrilha vendessem os bebês no mercado internacional. Destas acusações, João só assumiu o porte ilegal de armas, depois que as tais foram encontradas em sua casa, em um armário com fundo falso.

No livro escrito por Heather Cumming e Karen Leffler (2008) sobre a vida de João Teixeira de Faria, o João de Deus, as autoras afirmam que o médium já contribuiu para a cura de mais de oito milhões de pessoas. O currículo apresentado por elas impressiona com um longo histórico de curas para diversos tipos de câncer, paraplegias, cegueiras, dores crônicas e até AIDS.

O livro parece ter várias funções. De início, temos uma pequena biografia do médium e a experiência de dividir algumas refeições com ele durante um dia. Também parece oferecer uma propaganda da Casa, onde são feitos os tratamentos milagrosos em Abadiânia, no Estado de Goiás. Além disso, parece servir como uma espécie de guia de visitação da mesma, trazendo um mapa e algumas dicas importantes sobre os trajes adequados e as condutas esperadas.

De acordo com as autoras, o médium João participou “do começo ao fim” da produção do livro, e “contribuiu com numerosas ideias e detalhes” (p.15). Podemos imaginar quão árdua deve ter sido esta operação para João, que se diz analfabeto a ponto de ser incapaz de preencher um cheque. Sua primeira sugestão, de acordo com as autoras, foi a de incluir um capítulo que narrasse a pobreza na infância e juventude. O caminho do herói.

Aparentemente, a pobre família só dispunha de um pequeno hotelzinho dirigido pela mãe e de uma alfaiataria, que era do pai. Teve que começar a trabalhar cedo. Seus primeiros ganhos como clarividente eram usados para jogar no “salão de sinuca”. Bar? João precisava sustentar sua família e por isto, foi para Brasília oferecer seus serviços de alfaiate para os militares que tinham acabado de tomar o poder. A partir daí, João se tornou o médium dos militares que o acolheram e o promoveram a mestre alfaiate tendo sido “protegido deles por nove anos (p.27).”

Desde então, parece que a vida de João decolou. Apesar de ser incapaz de preencher cheques, João já foi dono de algumas mineradoras de ouro e pedras preciosas, além de ter mais de 600 alqueires de fazendas.

No prefácio do livro, o físico Amit Goswami escreve: João de Deus é mais do que uma pessoa, é um fenômeno científico de suma importância (…) O médium João canaliza a memória quântica de outra pessoa que viveu antes dele e já morreu. Na verdade, enquanto João canaliza, ele transforma abruptamente o seu caráter e passa a irradiar amor incondicional que promove a cura daqueles que precisam dela”

De fato, João de Deus parece compor um fenômeno intrigante. Ele parece nos apresentar com relativa clareza os espectros de Deus e do Diabo na mesma pessoa.

Freud já nos presenteou com a ideia de uma pulsão de vida – Eros – que nos impulsionaria a construção e o desenvolvimento pessoal, e a de uma pulsão de morte – Tânatos – que visaria a desconstrução e a paralisação do crescimento e desenvolvimento (Freud,1920). Neste sentido, poderíamos associar Deus e o Diabo como partes constituintes dos seres humanos. Uma parte construtiva e evolutiva e outra destrutiva e paralisante.

Seria possível que tais pulsões fossem as principais responsáveis por estes comportamentos de João? Da produção de um bem tão grandioso e de um mal igualmente assombroso?

Outra hipótese, talvez se refira mais ao Diabo do que a Deus.

Seria possível que João Teixeira de Faria fosse um psicopata?

Na literatura científica nós temos muitas referências que descrevem tais personalidades com uma grande dificuldade de perceber e conhecer os próprios sentimentos, bem como a incapacidade de sentir empatia e culpa.  Da mesma forma a ausência desses sentimentos seriam compensadas pela tentativa de imitá-los (Hare,1993). Como um ator ruim que imita sentimentos sem de fato senti-los. Talvez, João seja um ótimo ator? Ou mesmo que fosse um ator ruim, seria possível que sua má performance ou características estranhas fossem associadas e percebidas como a manifestação de seus poderes paranormais?

Afinal, o que seria tal mediunidade? O poder de ver o que ninguém mais vê? Ouvir o que ninguém mais ouve? Ter poderes de se comunicar com Deus? Talvez os descrentes pudessem dizer que há semelhanças com uma forma de psicose, não?

E como se explica as milhões de pessoas que acreditaram junto com ele nestes poderes? Mesmo estas centenas que foram abusadas e que levaram anos, por vezes, décadas para se manifestarem? Estariam elas com medo do castigo divino? Castigo que viria de Deus ou do Diabo?

Bem, e se considerássemos que ambos os lados estão sendo verdadeiros?

Ou seja, que João de Deus realmente foi a figura responsável pela cura de milhões de pessoas, e que este mesmo João também tenha sido o estuprador destas outras tantas mulheres.

Ter a si a atribuição de algo que existe dentro do outro…

Ser o bem que o outro precisa que eu seja. Possuir o bem para poder oferecê-lo a quem pedir ou a quem quiser comprar.

Penso que algo parecido com isto é chamado pela psicanálise de Transferência.

Talvez, João de Deus seja Deus para que nós possamos ver Deus. Para que possamos falar com ele e ter com quem reclamar… Será possível que para que nós possamos sentir o amor divino e incondicional, nós criamos João de Deus?

Em nossas clínicas podemos observar o poder das transferências. Doenças que somem em apenas algumas sessões de análise não são incomuns.

Bion traz no termo “preconcepção”, algo que constituiria a mente humana, e utiliza o modelo mãe-bebê para caracterizar a busca do bebê pela mente da mãe, e para que ela então possa conduzi-lo ao seio que o alimentará.

Chuster (2014) descreve: “A preconcepção pode ser definida como uma expectativa vaga de que, no futuro, exista um objeto onipotente e psiquicamente acolhedor capaz de preencher as necessidades e incompletudes humanas” (p.66)

Talvez João de Deus nos ofereça o alívio para esta busca.

Um psicopata, com ótimas habilidades teatrais…

O depositário de uma necessidade de vermos e tocarmos Deus e de assim termos encontrado o paraíso do amor incondicional. O seio que está sempre disponível…

Um homem que faria uso disto para enriquecer e abusar de adolescentes e mulheres…

Um médium com poderes sobrenaturais que canalizaria a energia de espíritos mais evoluídos para curar doenças…

Talvez, João Teixeira de Faria seja tudo isto. Talvez não seja nada disto. De qualquer forma, parece um fenômeno extraordinário e que, possivelmente, fale mais sobre nós como espécie do que de João.

Bibliografia:

Chuster (2014). A Preconcepção, Passagem Pré-humano/Humano: Uma mudança de Paradigma na Psicanálise. In Soares, G. & Trachtenberg, R. W.R. Bion: A Obra Complexa (2014) Porto Alegre. Editora Sulina.

Cumming,H. & Leffler, K. (2008) João de Deus: O Médium de Cura Brasileiro que Transformou a Vida de Milhões. São Paulo. Pensamento.

Freud, S.(1976). Além do Princípio do Prazer. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, Trad., Vol18) (pp. 17-88). Rio de Janeiro: Imago. (trabalho original publicado em 1920)

Hare, R.D. (1993). Without Conscience: The Disturbing World of Psychopaths Among Us. The Guilford Press. New York.

*Rafael Privatto Tinelli é psicoterapeuta psicanalista, Membro Filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)

 

Conversando com Shakespeare e Freud

* Heloisa Helena Sitrângulo Ditolvo

Você conhece Shakespeare? E Freud? Em diferentes instâncias, todos conhecemos um pouco. Em poucas linhas, selecionei apenas alguns aspectos, em função da importância e grandeza desses dois autores. Um é poeta e dramaturgo inglês, o outro, neurologista e psiquiatra austríaco, criador da psicanálise, o pai da psicanálise, como é chamado. Posso assegurar que tão logo qualquer um de nós penetre no universo de suas obras, não sairá mais. Faço aqui um convite e um alerta: somos aos poucos enredados pelo prazer e curiosidade cada vez maior, que ambas as produções vão disparando em nós leitores, estudantes, espectadores.

São fascinantes tanto as peças de Shakespeare, como a teoria psicanalítica que Freud em 40 anos construiu e nos presenteou.

É fácil compreender porque Shakespeare (1564-1616) é tão atual e frequentemente encenado no mundo inteiro. Basta iniciar a leitura. Assim como muitos dos conceitos trazidos por Freud (1856-1939), entraram em nosso vocabulário e definitivamente fazem parte da nossa cultura.

Apenas três peças são originalmente escritas por Shakespeare: Sonho de Uma Noite de Verão (1595), As Alegres Comadres de Windsor (1597-8) e A Tempestade (1611). Todas as outras peças foram retiradas e transformadas a partir de obras já existentes, de diversos autores, onde o Bardo imprime profundidade e dá a elas nova finalização e beleza.

Quando os teatros ingleses foram fechados por dez anos, em função do alastramento da peste negra que dizimou quase um terço da população da Europa, Shakespeare passou a escrever os famosos sonetos. Foram 154 sonetos, em sua maioria, de amor.

Podemos encontrar nossa originalidade nas produções artísticas, assim como podemos encontrar novas formas de expressão e criação, diante do imprevisível, do inusitado. Quero me referir às transformações que sofremos a partir das experiências pelas quais passamos e da nossa própria capacidade exploratória e resiliente.

Freud identificou o processo no qual o homem transforma os estímulos sensoriais em qualidades psíquicas. Shakespeare transformou narrativas ficcionais em arte, por meio de sua imaginação criativa e de seu grande domínio da retórica.

Shakespeare subverte a condição do homem medieval, sujeito às leis e normas da Igreja e reduzido definitivamente a pertencer, ou a ser do bem ou do mal. Ele quebra o maniqueísmo religioso e em suas peças todos os personagens podem ser bons e maus. Surge a possibilidade da reparação e principalmente da interioridade, quando o indivíduo passa a ser constituído por todas as formas e intensidades do sentir, do fantasiar, podendo haver um lugar legítimo para o desejo. Harold Bloom em seu livro Shakespeare: a invenção do humano diz que “as peças nos leem de maneira definitiva”. E vai além, ao afirmar que “os personagens não se revelam, mas se desenvolvem, e o fazem porque têm a capacidade de se auto recriarem”.

Freud ao assegurar que somos regidos por impulsos inconscientes e não somente por princípios racionais, propõe uma nova ordem para o existir. Ele diz que o “Ego não é rei em sua própria casa”, avisa que somos neuróticos inconformados com nossas limitações e principalmente com a finitude. É muito fácil nos reconhecermos nessas condições, não é? Basta olharmos para nossos medos, desamparos, angústias. O susto frente ao desconhecido.

Humberto Eco, numa visão pancalista do mundo (a visão pancalista entende que tudo no mundo é belo) afirma que “A beleza que é disseminada por Deus é a causa da harmonia e do esplendor de todas as coisas”.

E nós, como ficamos diante dos ideais inatingíveis?

Freud, buscou em Ricardo III, o exemplo da recusa narcísica diante do “feio, imperfeito” para ilustrar seu texto As exceções. Ele certamente, se utilizou da produção shakespeariana para compor sua teoria psicanalítica. Hamlet faz parte da A Interpretação dos sonhos. E em diversos textos se valeu de Otelo, Rei Lear, Macbeth, O mercador de Veneza, entre outras.

Assim como numa experiência analítica, Shakespeare nos coloca diante de nós mesmos, ficamos expostos, através de suas personagens aos mais sublimes e terríveis sentimentos. Aos poucos reconhecemos do que somos feitos. É surpreendente, angustiante, desafiador, apaixonante.

Cada vez mais encurtamos o tempo necessário para vivermos as experiências, senti-las e processá-las. Não há espaço de elaboração, os registros se sobrepõem e quando olhamos para trás, lá se foram as memórias que poderiam ter sido guardadas. Como um balão que escapa da mão, sobe, sobe e desaparece. Não há mais balão. Sentimento de vazio.

A psicanálise oferece, no encontro do analista e analisando, a criação de um campo capaz de favorecer o conhecimento de aspectos reprimidos, obscuros ou ameaçadores, lidar com nossas tragédias internas e tecer uma nova configuração psíquica, onde o indivíduo possa ser mais senhor de seu próprio destino.

Na era medieval, o poder era exercido pelo indivíduo, seguindo uma posição hierárquica e era autorizado político e socialmente, mesmo que ele não tivesse capacidade para esse lugar.

Quando o homem se vê poderoso, outorga-se direitos correspondentes ao cargo que ocupa, sem se dar conta que os cargos podem se esvair e então, o que resta dessa criatura? Despido de todos os símbolos de poder, o ser humano é essencialmente regido por pulsionalidade, amor e ódio, Eros e Tânatos.

Poder, gratidão, inveja, ciúme, ambição, lealdade, traição, amor, ódio, vingança, redenção, fracasso, morte, fazem parte da extraordinária tragédia humana, que Shakespeare nos apresentou entre 1590 e 1613. Quatro séculos se passaram e a história nos é tão familiar e atual.

Somos reféns da nossa natureza que, apesar do imenso avanço científico, tecnológico e filosófico, obedece a primitivos e imperativos desejos de poder e soberania dos desejos individuais. Não aceitamos a incompletude!

O que fazer com nossas insuficiências?

Reparem nesta linda frase, da peça A Tempestade: “Somos feitos da matéria de que são feitos os sonhos”.

E como somos! Os sonhos que sonhamos dormindo, os sonhos que sonhamos acordados, nossos devaneios, os sonhos que sonhamos a dois, os sonhos sonhados nas sessões de análise pelo analisando e seu analista. O sonho nos constitui.

O universo simbólico e a renúncia ao desejo nos configura como humanos.

Freud afirma que o sonho é a tentativa de elaboração dos conflitos pulsionais, a realização dos desejos infantis. Hoje, vamos além ao entender que o sonho já é a elaboração dos conflitos.

O que seria da humanidade se não houvesse os sonhos? Se não houvesse as artes, o teatro, a literatura, a beleza?

Precisamos de Freud! Precisamos de Shakespeare!

Há 16 anos, faço parte e coordeno o grupo de estudo Conversando com Shakespeare, que se reúne mensalmente na sede da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Dessa experiência nasce o livro Shakespeare: paixões e psicanálise (Editora Blucher, 2019), composto por alguns integrantes do grupo e todos os profissionais que ao longo dos anos, nos apresentaram o Bardo e sua magistral obra.

 

*Heloisa Helena Sitrângulo Ditolvo é psicanalista, membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), da International Psychoanalytical Association (IPA), da Federação Psicanalítica da América Latina (Fepal) e da Federação Brasileira de Psicanálise (Febrapsi). É coordenadora do setor de simpósios, cursos e jornadas da Diretoria de Atendimento à Comunidade da SBPSP (DAC) e do Grupo de Estudos Conversando com Shakespeare, da SBPSP.