Posicionamento do psicanalista sobre a liminar que permite tratar homossexualidade como doença

Oswaldo Ferreira Leite Netto

Não há fundamentação psicanalítica para algo que possa ser denominado cura gay. Psicanalistas, de posse de uma teoria científica que fundamenta uma prática clínica, voltam-se radicalmente para a singularidade da vida mental de cada sujeito; nossos resultados buscados relacionam-se às verdades de cada um, para serem vividas com autenticidade, liberdade, autonomia e responsabilidade.

Freud com suas observações clínicas construiu uma teoria e esclareceu desde o início que a sexualidade humana não é natural, senão diretamente ligada à fantasia; cada um pode buscar o objeto de satisfação de seu desejo, na obtenção de seu prazer nas formas mais variadas. Do ponto de vista psicanalítico, torna-se difícil engajarmo-nos em propostas normatizadoras no tocante à busca de satisfação sexual, visto não estarmos determinados pela natureza, como no instinto que opera nos animais. A vida sexual dos humanos é independente da procriação.

Aos analistas compete esclarecer e compreender as fontes de angústia em cada um de seus pacientes e ajudar a combater forças repressivas que tolhem as buscas de prazer, a liberdade e a criatividade. O controle da moral, dos costumes e o cumprimento da lei competem a outras instâncias de nossas organizações sociais.

Oswaldo Ferreira Leite Netto é coordenador do grupo de estudos Psicanálise e Homossexualidade da SBPSP. Confira também o texto de sua autoria publicado no blog da SBPSP em 3 de março de 2017.

Erotização precoce, infância roubada

Karin Szapiro     

– Vovó, eu tenho um namorado. Ele se chama João.

Gabriela de 6 anos se aproxima do ouvido da avó e, com a mãozinha na frente, conta baixinho a novidade. A avó acha graça e abre um largo sorriso para a netinha.

Há algo de errado nisso? Não, não há. Para o entendimento da pequena Gabriela, “namorar” é simplesmente brincar e se divertir com o amigo predileto. Como nos contos de fada ou nas histórias infantis, João é o príncipe encantado e ela, a princesa. Suas referências dizem respeito ao universo infantil e nem de longe têm a conotação dos adultos. A malícia, muitas vezes, está nos olhos de quem vê.

Gabriela e João passam a tarde juntos e brincam sem parar. As brincadeiras são inúmeras e transcorrem livremente. Crianças saudáveis são assim: gostam de imitar os adultos, têm amigos imaginários e revestem-se de vários personagens. Brincam de faz de conta, fazem-se de bichos, de super-heróis, príncipe e princesa, mamãe e papai. Quando uma menina pequena brinca com sua boneca, ela imita a mãe com seu bebê. Quando ela experimenta os seus saltos altos e o seu batom, ela simplesmente brinca de ser a figura que lhe é tão admirada. Com a sua imaginação, a criança se transporta para o mundo adulto e depois retorna ao seu estado original, o da curiosidade.

Por que as crianças brincam? Brincam porque gostam e sentem prazer em todo tipo de brincadeira física e emocional. Com o brincar, elas aprendem a lidar com suas angústias, ansiedades e medos. Elas elaboram de maneira lúdica questões subjetivas que lhes surgem ao longo da vida e tornam-se capazes de descobrir a si mesmas e aprender a viver criativamente.

O ser humano é um ser criativo, em um sentido próprio em que a subjetividade se constitui pela possibilidade de criar o mundo em que habita. O brincar é, ao mesmo tempo, o elo entre o indivíduo e a realidade interior, e o indivíduo e a realidade exterior compartilhada. A brincadeira é própria da saúde, ajuda o crescimento e facilita a comunicação consigo mesmo e com o grupo.

À medida que crescem, as crianças preparam-se para desafios cada vez maiores e lidam com a sexualidade que surge. Quando tudo corre bem, os conhecimentos sobre si e sobre seu corpo se ampliam aos poucos, dentro de um tempo próprio. Seja sozinha ou em grupo, crianças precisam se sentir livres para brincar tranquilamente, sob a supervisão dos adultos.

Diferente de Gabriela, desde cedo Roberta vivia uma outra realidade. Enquanto a mãe trabalhava como empregada doméstica numa região nobre da cidade, ela era cuidada por seus irmãos mais velhos, filhos de outro pai, em um bairro mais carente. Desde pequena, ela acompanhava os irmãos no baile funk da vizinhança aos finais de semana e seu pai, quando a buscava para passear, a levava a um bar onde bebia noite adentro, acompanhado por todo tipo de gente.

O excesso do mundo adulto erotizado atravessou Roberta desde cedo. A menina “novinha” perdia a inocência da infância enquanto seus pais se distraíam. Roberta foi exposta a cenas, imagens, músicas, histórias e acontecimentos de cunho sexual e erótico inapropriados. A erotização vivida tão precocemente feriu-lhe a alma e a deixou em carne viva e a excitação experimentada foi demasiada. Hoje, aos 12 anos, a menina esconde que está grávida. Uma maternidade que chega fora de hora e compromete sua vida e a chance de um bom futuro.

Apesar de morarem na mesma cidade, as duas vivem em mundos diferentes. Gabriela tem sua infância protegida e cuidada enquanto Roberta vive uma vida solta e exposta a um excesso de estímulos inadequados para a tão pouca idade. O certo é que nenhuma criança está pronta para estas experiências precoces. Roberta viu-se compelida a queimar etapas do seu processo de desenvolvimento. Com a infância roubada, acaba por repetir o destino de sua mãe e engravida prematuramente. Nem mesmo seu corpo está pronto para lidar com esse turbilhão de acontecimentos.

Para Freud, trauma é o acontecimento na vida de uma pessoa que se define por sua intensidade e por sua incapacidade de reagir de forma adequada. É um transtorno, um atropelamento, um “excesso” de efeitos prejudiciais duradouros na organização psíquica do sujeito. Sendo assim, a erotização precoce é um fenômeno de natureza traumática, gerado por situações de acionamento dos impulsos sexuais de maneira inapropriada. Conduz a criança a entrar no mundo sexual adulto muito precocemente, atropelando fases do amadurecimento e desenvolvimento e prejudicando o processo de aprendizagem afetiva dos pequenos.

A sexualidade, entendida como elemento presente em todos os estágios de desenvolvimento da vida do indivíduo, acaba sendo desviada prematuramente para o erótico, o excitante, o sensual, quando na realidade deveria ser canalizada para a construção das emoções, das relações sociais, da experimentação de papéis e do desenvolvimento da afetividade.

A erotização precoce de uma criança rouba a sua infância. Cabe aos pais ou os adultos responsáveis protegerem os seus pequenos.

Karin Szapiro é psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, coordenadora do blog da SBPSP e atende em consultório particular. E-mail: karinszapiro@hotmail.com

 

 

 

O Mal-Estar na Adolescência: Dos Sofrimentos do Jovem Werther à Baleia Azul

Ana Maria Stucchi Vannucchi

“Eu tenho medo de morrer sem ter vivido”

 Joana, 16 anos

 

Qual seria a tarefa do adolescente? Em que turbilhão se move? Temos que multiplicar por mil as observações de Freud sobre o sofrimento humano, o conflito entre o indivíduo e a cultura e sobretudo, o confronto entre impulsos de vida e morte, para nos aproximarmos das vivências do adolescente em seu processo de vir a ser  e de construir-se como pessoa. Que tarefa difícil! Quantos caminhos e descaminhos encontramos!

Temos primeiramente as mudanças corporais, que apontam a necessidade de considerar o emergir da sexualidade e da agressividade. Neste momento, o adolescente precisa construir uma nova mente, elaborando as perdas das vivências e do corpo infantil. Esta tarefa não é fácil, envolve muito sofrimento e muitas inseguranças, além de muitas aventuras e experiências novas, que geralmente implicam um perigoso limite entre vida e morte.

Quem não viveu situações limite entre a vida e a morte? Quem não viveu sonhos delirantes de mudar o mundo? Quem não pensou em desistir de tudo e morrer? Quem não pensou que o amor poderia  salvar o mundo? Quem não “tomou todas” para esquecer as mágoas? Estas experiências são fundamentais para que possamos aproximar-nos desta ponte longa e estreita, sem corrimão, que descreve a travessia adolescente. Como acompanhar alguém sem segurá-lo ou empurrá-lo? Como conversar com alguém que parou no meio da ponte e tem medo de continuar? Ou que quer se jogar da ponte para sumir desta vida? Como criar uma conversa possível, mesmo com a distância  geracional que nos separa?

Vou deter-me em três situações clínicas, ficcionalizadas por razões de sigilo e ética, para poder expressar meu pensamento e minha maneira de trabalhar com jovens.

Bárbara (22 anos) tem sua vida afetiva gravitando em torno da mãe morta, evidenciando profunda melancolia e culpa por estar viva e ter sobrevivido à mãe. Ana (15 anos) odeia os humanos e vive em guerra com todos, família, colegas, embora sinta-se muito só e excluída. Quando não suporta mais a dor mental, refugia-se no “quarto branco”, expressão suprema de desobjetalização. Luna (18 anos), ambiciosa e orgulhosa, vê-se estraçalhada  e feita em pedaços  depois de ser reprovada no vestibular. Sente que a vida perdeu o sentido e começa a “namorar a morte”.

Acredito que nestas travessias, estamos mais intensamente às voltas com o binômio morte/vida, como vemos nestes casos clínicos que menciono. Acredito que não se trata de algo próprio da contemporaneidade, mas sim próprio deste momento de mudança catastrófica em que o Ego desorganiza-se e fragiliza-se para acolher novas identificações, que lhe facultam des-envolver-se da mente infantil, e aproximar-se do  que Freud chamava de Principio de Realidade (1911). Como recuperar a esperança ao lidar com as questões do binômio ilusão desilusão? Como facilitar o surgimento de uma esperança realista, ligada à capacidade de enfrentar as dificuldades da vida?

Do meu ponto de vista, esta questão não é contemporânea, mas vem desde a Antiga Grécia, com Sófocles, em ‘Édipo em Colono’ e ‘Antígona’, com Sheakspeare em ‘Hamlet’,  com Goethe em ‘Os sofrimentos do Jovem Werther’, com Salinger, em ‘O apanhador no Campo de Centeio’, etc..Clássicos protagonizados por adolescentes que nos mostram como o trágico é constitutivo da adolescência.

Considero que a possibilidade do jovem ter um analista,  um terapeuta  ou mesmo alguém que o acompanhe nestes momentos de sofrimento, faz enorme  diferença, pois mitiga a solidão e oferece  uma oportunidade de encontro e vinculação afetiva.  Além disso, permite outros vértices de observação da experiência vivida, ampliando a capacidade de  sonhar/pensar, conter e transformar as emoções e recuperar o prazer de viver.

Ana Maria Stucchi Vannucchi é membro efetivo e analista didata da SBPSP.

 

Precisamos falar sobre Perversão

Susana Muszkat

O caso recente do homem que ejaculou no pescoço de uma mulher num ônibus em São Paulo e foi liberado pelo juiz sob a alegação de que “não houve constrangimento, tampouco violência ou grave ameaça, pois a vítima estava sentada em um banco do ônibus, quando foi surpreendida pela ejaculação” (O Estado de S. Paulo, 1/9/17), disparou uma enxurrada de manifestações. Muitas de indignação com a sentença. Muitas outras endossando a decisão do juiz, justificando-a como absolutamente técnica, ao sentenciar o acontecido como uma “contravenção penal por ato obsceno”, ou ainda, na mesma linha, classificando-o como, o mais do que ultrapassado, “atentado ao pudor”.

Noticia-se, então, inúmeros outros casos de natureza semelhante. Na mesma semana, os jornais haviam noticiado o índice alarmante de estupros coletivos praticados em mulheres e meninas no Nordeste, bem como, o também revoltante número de abusos praticados diariamente no país, principalmente contra meninas.   

No caso que aqui tratamos, a moça do ônibus, logo após o ocorrido, foi colocada na mesma sala com seu agressor, num Juizado Especial Criminal, e submetida a uma série de perguntas altamente constrangedoras como: ‘você de fato viu o pênis do homem? ’ ou ‘ ele chegou a encostar o pênis em você? ’, cujo intuito alegado, era o de verificar se se poderia ou não caracterizar o ocorrido como violência de fato!

Ou seja, uma sequência de violências tiveram início dentro do ônibus e prosseguiram no âmbito do poder público, justamente aquele encarregado de zelar pela proteção e segurança do cidadão. Mas o que explica que haja tamanha dificuldade em reconhecer e caracterizar a violência contra a mulher como tal, mesmo quando praticada de maneira tão explícita? O que justifica que convivamos com uma condição endêmica de tais práticas? Penso que ambas perguntas apontam para um sintoma social.

Proponho aqui minha leitura sobre este fenômeno: o primeiro objeto de amor do bebê é, via de regra, a mãe. Mas o que chamamos de amor nesta fase da vida não é exatamente o tipo de ligação de amor romântico que conhecemos quando nos tornamos adultos. O bebezinho não percebe que sua mãe é uma outra pessoa, diferente dele. Sente, isto sim, que a mãe é um objeto de sua propriedade, uma extensão dele e que está lá onde ele o deseja, como já teorizado por um psicanalista de bebês e crianças inglês chamado Winnicott.

A mãe suficientemente boa, expressão cunhada pelo autor, se presta a ser este objeto que atende às demandas do bebê. Este é um estado de ilusão necessária na vida precoce do bebê. À medida em que cresce, se tudo se der de maneira satisfatória em seu desenvolvimento, a criança e depois o adulto, deve ser capaz de entender que aquela pessoa, sua mãe, é um sujeito diferente dele, com desejos e mente próprios, distintos dos dele. Entendendo isso, ele deverá então, ser capaz de tolerar a frustração de abdicar da mãe como um objeto que lhe pertence e escolher uma outra pessoa, um/a parceiro/a, com quem poderá, então, ter uma relação de trocas e parceria amorosa. A relação amorosa não pode ser uma relação de posse, uma vez que o outro não é um objeto e sim um sujeito.

Então, se na infância precoce de todo ser humano, é natural e desejável que a mãe se preste a ser objeto do desejo do bebê, na vida adulta, a perpetuação deste tipo de comportamento  configura perversão. Perversão é o ato de transformar uma outra pessoa, com uma singularidade própria, em objeto de uso de prazer pessoal, sem o consentimento desta.  Ao fazer isso, a pessoa é destituída de sua condição de sujeito e tratada como objeto. Esse é exatamente o caso de todos estes atos em que mulheres, meninas – ou qualquer pessoa em desigualdade de poderes -, são colocadas em situação de objeto, a serviço do desejo exclusivo de alguém, sem que sejam consideradas como um sujeito com vontades e direitos próprios.

O que isso tudo revela sobre a sentença do juiz no caso do ônibus?  Do meu ponto de vista revela que, quando um juiz julga um ato perverso como um ato menor, ele não está regido pelas leis que garantem a justiça e a ordem social, mas sim, pelas leis do infantil, que, quando atuadas pelo adulto, é perversa. Assim, ele é o ator que reproduz um sistema social.  

Outros dois elementos dão sustentação à manutenção deste código perverso, de violência endêmica contra mulheres. Um deles é o modelo da sociedade patriarcal que autoriza o homem a funcionar regido pela pulsão infantil, embora travestido de adulto. Ou seja, autoriza o homem adulto a acreditar que a mulher – representante da mãe – lhe pertence como objeto. Deste modo, o juiz no lugar de suposto saber, colabora na manutenção das crenças que regem as práticas entre homens e mulheres.

Outro elemento diz respeito à brutal defasagem dos lugares atribuídos a homens e mulheres no imaginário cultural. Este não corresponde às práticas sociais de fato. Estatísticas revelam que metade da força de trabalho do país é composta por mulheres, sendo ainda as mulheres, responsáveis exclusivas pelo sustento de quase metade das famílias brasileiras. O lugar infantilizado e fragilizado tantas vezes atribuído à mulher, não se verifica na sociedade contemporânea. Esses elementos associados, a meu ver, garantem a condição endêmica de violência no país.

Como nota final, vale dizer que na perversão, impera a vivência do indivíduo de que seu desejo e seu gozo pessoal estejam acima de tudo e sejam realizados independentemente dos possíveis danos ao próximo. Esse modelo, também endêmico no país como temos tristemente assistido nos últimos tempos, talvez nos dê pistas para entender o porquê da impossibilidade em verdadeiramente lutarmos para instaurar um modelo de igualdade e respeito entre todas as pessoas, a despeito do gênero.

 

Susana Muszkat é psicanalista e membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. E-mail: sumuszkat@gmail.com.

Setembro Amarelo

Leda Beolchi Spessoto

Atualmente, setembro é o mês de uma campanha mundial de prevenção ao suicídio. O assunto entra na lista de problemas que a OMS (Organização Mundial de Saúde) considera prioritários em suas ações, devido à sua significativa incidência em diferentes países e culturas. O mês colorido de amarelo, cor cheia de vida e calor, conclama e põe em alerta as pessoas para superarem medos e preconceitos e reconhecerem o problema e os sinais de quem corre risco de tirar a própria vida.

Dia 10 de Setembro foi oficialmente designado como Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. No Brasil, desde 2014, a ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria), o CFM (Conselho Federal de Medicina) e o CVV (Centro de Valorização da Vida) promovem eventos como parte de uma campanha que procura abrir espaço para debates e discussão deste importante tema. Há levantamentos indicando que muitos casos de suicídio podem ser evitados quando há possibilidade de serem detectados e encaminhados para tratamento. Também é possível evitar o desenlace fatal quando a pessoa pode contar com acolhimento de alguém que receba a angústia e pedido de ajuda em momentos críticos. As motivações para um ato suicida são inúmeras e o perfil psicológico muito distinto em cada caso, ainda que se possa considerar a existência de certos grupos de maior risco.

Recentes, episódios de suicídio em jovens ganharam repercussão internacional pela difusão na Internet do jogo conhecido como Baleia Azul, em que este comportamento era induzido. Muitas informações vieram à tona, inclusive a constatação do aumento de suicídio na população jovem como um fenômeno mundial e uma questão de saúde pública. Dados divulgados pela BBC Brasil em 2017 indicam que entre 1980 e 2014 a taxa de suicídio entre jovens de 15 a 29 anos de idade aumentou 27,2% no Brasil. Alguns estudos apontam como fatores que contribuem para o aumento do suicídio o uso de drogas, o bullying e a violência doméstica.

Gostaria de chamar a atenção para o comportamento suicida que também ocorre em jovens que não apresentam história de pertencer a um grupo de risco ou tampouco ter uma patologia grave. O aspecto predominante em suas ações parece fruto de uma grande impulsividade com poucos recursos contensores da mesma. Uma observação do cenário cultural onde se inserem mostra características da era digital contemporânea em que se desenvolveram, com incremento da ação sobre a contenção ou reflexão, gerando muitas vezes um curto-circuito impulsivo e intolerante frente aos desafios e frustrações. Esta característica aumenta a vulnerabilidade dos indivíduos diante dos desafios que a vida traz consigo. A morte passa a ser buscada de forma impulsiva para se livrar de sentimentos desagradáveis e sem levar em conta as perdas e o sofrimento atrelados ao ato suicida. Neste contexto, a psicanálise seria um contraponto a este tipo de movimento, oferecendo a oportunidade de desenvolver outros aspectos da personalidade.

Como psicanalista, reconheço que cada cultura tem recursos próprios a serem explorados para contribuir com a contenção da impulsividade e desenvolvimento de aspectos criativos dos indivíduos, atenuando e transformando seus sofrimentos, assim como entendo que a psicanálise pode oferecer ajuda aos pacientes e profissionais que atuam na área de saúde para lidar com os desafios que estas dolorosas situações nos apresentam.

Este breve artigo não pretende esgotar o complexo exame do suicídio, mas espero com ele estimular outras reflexões sobre o tema e contribuir com os objetivos do Setembro Amarelo, fazendo girar as apreensões e ideias num movimento de vida:

“Cycle Around the Globe 2017- World Suicide Prevention Day”. Esse é o lema do IASP-International Association for Suicide Prevention- para este 10 de Setembro).

Leda Beolchi Spessoto é psiquiatra e psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Amamentação: você tem fome de quê?

Elisabeth Antonelli

Alimento e amor. Disso dependemos para nosso desenvolvimento físico e emocional. “O estômago é, pois, como uma miniatura interna de boa mãe” (Winnicott, 1979, p39). Agosto ficou conhecido como “Agosto Dourado”, simbolizando a luta pelo incentivo à amamentação. O dourado está relacionado ao padrão ouro de qualidade do leite materno. É uma cor toda especial, associada no mundo inteiro ao laço simbólico. São trinta e um dias em que são celebrados a promoção, a proteção e o apoio ao aleitamento, chamando nossa atenção para refletir acerca de um ciclo universal que acompanha gerações.

Quando falamos em amamentação, falamos dos primórdios da constituição do sujeito, momento privilegiado, quando ainda não existe uma separação entre o bebê e a sua mãe. Nascemos indiferenciados e imaturos se comparados, por exemplo, a um filhote de cachorro que, em pouco tempo, adquire sua independência a partir dos reflexos prévios. Por sermos dotados de um sistema de linguagem, não existimos sem o outro. Os cuidados nesse começo da vida são decisivos para o nosso desenvolvimento mental.

O cuidado materno é fundamental para o desenvolvimento do psiquismo do lactente. Junto com o leite, o bebê recebe o amor da sua mãe e, neste mesmo ato, o bebê pode participar do desenvolvimento na mãe da capacidade de decifrar os estados penosos vivenciados por ele.

A alimentação do filhote humano depende de todo o aparato psíquico da mãe, que servirá de suporte para o desenvolvimento do aparato psíquico do bebê. Embora o aleitamento no peito seja o mais desejável, as mesmas condições precisarão ser mantidas no aleitamento na mamadeira. É certo que as mesmas dificuldades brotarão.

Ainda na gravidez, a mãe percebe que uma nova realidade se aproxima: para gerar um filho precisará aprender a lidar com a dependência que a maternidade impõe. Não há preparação anterior quando se trata de gerar uma vida. Do mesmo modo que muito se espera de uma futura mãe, são negadas as condições necessárias para que ela possa sustentar tal papel. Nesse momento, o pai, que pode ou não ser seu marido, precisaria ter asas grandes o suficiente para proteger este ninho que vai ser inaugurado.

Somos seres desamparados que temos crias desamparadas que precisam de nós. Esse fato pode fundar uma tragédia ou pode construir a preciosidade do humano. Winnicott (2000. p401) chama de “Preocupação Materna Primária” o estado que a mãe vivencia perto do parto e nas primeiras semanas a partir do nascimento do bebê. Nesta fase de adaptação ao bebê, a mãe entra num estado muito especial, de uma espécie de retraimento ou dissociação, ou fuga, semelhante a um estado esquizoide. O autor descreve tal estado:gradualmente, esse estado passa a ser o de uma sensibilidade exacerbada durante e principalmente ao final da gravidez. Sua duração é de algumas semanas após o nascimento do bebê. Dificilmente as mães o recordam depois que o ultrapassaram. Eu daria um passo a mais e diria que a memória das mães a esse respeito tende a ser reprimida”.

Os primeiros momentos da vida de um bebê carecem de toda atenção da mãe que precisaria também contar com a atenção redobrada do marido e demais membros da família. A sociedade deveria ser convocada a acolher as parturientes amamentadoras para que esse processo pudesse ocorrer da melhor forma possível. Estamos falando de dificuldades simples e situações normais. Eventualmente, poderá haver outras questões mais complexas trazidas pelo bebê.

Falar em amamentação necessariamente é uma convocação às condições necessárias para que a mãe possa produzir leite, o que é um ato de amor por excelência!

 

 

Elisabeth Antonelli é psicóloga, psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, membro associada da Sociedade Brasileira de Psicanálise, professora do COGEAE, da PUC-SP e do Instituto Sedes Sapientiae, autora do livro: “Os Sentimentos do Analista: A Contratransferência em Casos de Difícil Acesso”, ed. Zagodoni, além de artigos em revistas científicas.

 

 

 

Referências bibliográficas

https://www.marinha.mil.br/saudenaval/aleitamento-materno

Winnicott, D.W:  Da Pediatria à Psicanálise. RJ,Imago Ed.,2000

_____________: Tudo Começa em casa, SP. Martins Fontes, 1989

_____________: A criança e o seu mundo, RJ, Zahar, Ed. 1977

Racismo

Any Trajber Waisbich

“Devo fazer uma confissão – começou Ivan – nunca consegui entender como se pode amar o outro. A meu ver, é justamente o próximo que não se pode amar, só os distantes é possível amar…Para amar uma pessoa é preciso que ela esteja escondida, porque mal ela mostra o rosto o amor acaba”. Dostoiévski, F. (2012) Os Irmãos Karamázov; Vol. I Traduzido por Paulo Bezerra. São Paulo, Editora 34. Pg. 326.

Por que falar de assassinato, racismo, agressões, ódio, intolerância, terror, fanatismo, aversão ao outro e protestos em Charlottesville (USA) se estamos em São Paulo? Uma mulher de 32 anos foi recentemente atropelada e morta quando participava de um comício contra uma manifestação organizada por um grupo composto por brancos racistas, neonazistas e membros da Ku Klux Klan numa cidade do estado da Virgínia no sul dos Estados Unidos.

Temos aqui ingredientes suficientes para desencadear sentimentos díspares em cada um de nós.  De um lado, acompanhados pelo artista russo sentimos o alerta para o perigo ao descrever o que vai na alma humana sem subterfúgios. De outro, a ação violenta confirma a digressão sem poesia e distanciamento. Amamos aquilo que nos é familiar.

Freud escreve em 1921 um artigo intitulado “Psicologia das Massas e Análise do Eu” em que, como em textos anteriores e posteriores, raramente deixa de incluir a relação do indivíduo com o grupo ao qual pertence e as implicações decorrentes deste acordo tácito de convivência entre os humanos. Dialoga com este sujeito influenciado pelo grupo que altera sua forma de pensar e agir quando em bando. Este homem, ele mesmo sem face, fica sujeito a condições que lhe permitem livrar-se das amarras e manifestar, de forma aberta, suas predisposições para tudo o que é mau e que se esconde na alma humana.

Este homem, que por vezes renuncia à violência e à destruição pelo bem comum para poder ter momentos de satisfação na convivência com outros, também deflagra atos irreconciliáveis com o viver num mundo civilizado. Aliás, civilidade implica conviver com o diferente.

O homem é um ser em conflito, que ao mesmo tempo em que é capaz de conquistas em diversas frentes – tecnológicas,  sobrevivência diante de catástrofes e a luta contra a própria morte – também é capaz de lidar com esta dificuldade em aceitar regras sociais que restringem sua autonomia e condiciona o sujeito a viver em comunidade, porém em companhia de outros. Não subestimemos o sacrifício necessário, o de abrir mão da felicidade pessoal em favor do grupo.

Voltemos à cena em Charlottesville, como se não bastasse, o chefe do Estado Americano, Donald Trump, aponta uma equivalência moral entre estes dois grupos que colidiram na cidade, os perpetuadores da violência e os ativistas de diretos humanos. Pronto, reforço necessário para podermos discutir o papel da massa e seu líder nestas ações violentas em que o sujeito não se implica. E mais grave ainda, desculpa-se.

O comunicado sugere serem as brigas de caráter semelhante e, portanto, não haveria perdedores. Teríamos um conflito como tantos outros, de ideias, por assim dizer, que acabou mal para uma pessoa e resultou em alguns feridos.

Passemos a averiguar o papel do líder neste contexto.  O líder tem por atribuições ser o depositário de um saber inquestionável, ser o depositário desse sentimento tão caro ao homem que é a necessidade de ser protegido. O líder ocupa este lugar de facilitador de ligações afetivas entre seus membros e, portanto, é responsável pela fraternidade de iguais. Além disso, o indivíduo delega ao líder sua capacidade de discernimento, sua autonomia e sua moral – sempre individual – enfraquece-se.

Este mesmo líder, imbuído de tal poderes, naturaliza atos violentos contra outros grupos diversos do seu. Era o que faltava: pessoas autorizadas a odiar seus semelhantes por pequenas diferenças, como cor, raça, gênero, religião, e tudo aquilo que os faz singulares. Aquilo que agrega, segrega.

Então, qual o sentido de se falar destes atos violentos sem cairmos em respostas simplistas para problemas complexos?  Temos aqui, bem próximos de nós, questões similares àquelas desnudadas em Charlottesville.  Candidatos a líderes que constroem suas plataformas valendo-se da segregação entre nós e eles. Temos assassinatos em massa de índios e de quilombolas. Temos prisões repletas de jovens negros sem possibilidade de justiça.  Temos, ainda, lutas por terras e por dominação.  Temos a tendência a nos distanciarmos dos fatos banalizando-os, transformando-os em corriqueiros e vistos, muitas vezes, como lutas econômicas puramente.

Freud diria a partir do estudo da alma humana que não existe otimismo nesta relação entre o homem e seu meio. O que há, sim, é um descontentamento pelas frustrações impostas pelo coletivo à liberdade pessoal que a sociedade exige destes indivíduos. Como contrapartida à barbárie surge a Civilização quando os homens abrem mão de fazer “justiça com as próprias mãos”.

Foto: The Huffington Post

Any Trajber Waisbich é psicanalista e membro efetivo da SBPSP, professora junto ao Instituto de Psicanálise e membro da diretoria da SBPSP. Participou da equipe editorial do Jornal de Psicanálise nos anos 2012- 2016, contribuiu com resenhas de livros para a Revista Brasileira de Psicanálise, entre outras atividades.

A curiosidade na adoção

Gina Khafif Levinzon

A curiosidade é compreendida, segundo o vértice psicanalítico, como uma função de saúde psíquica. Está associada ao impulso natural para o crescimento, mas depende de condições ambientais para que possa manifestar-se na sua plenitude. Klein (1921) associa a curiosidade ao instinto epistemofílico. Bion (1962) denomina Vínculo K a relação que existe entre um sujeito que busca conhecer um objeto e um objeto que busca ser conhecido. Identificamos já no bebê pequeno a exploração contínua de um mundo a descobrir e consideramos que nas crianças de todas as idades é natural haver perguntas sobre os assuntos mais diversos.

Quando falamos em crianças adotivas encontramos esse mesmo movimento no sentido de desbravar o desconhecido, acrescido de indagações sobre a história de sua família de origem genética. À pergunta: “De onde vim?”, somam-se várias outras: “Por que minha mãe não ficou comigo?”; “Fui amado?”; “Sou o causador da separação?”; “Matei minha mãe com meu nascimento?”; “Quem são meus pais?”; ”O que aconteceu?”…  Explorar esse universo da origem expõe a criança a situações de dor, por vezes de mágoa, e de contato com um campo cheio de lacunas incompreensíveis. Por outro lado, essa investigação permite que o adotado construa de forma sólida um sentimento de identidade, baseado na realidade. De modo geral, quando tudo corre bem, a dor é contrabalançada pela estabilidade e harmonia do lar adotivo. Ao explorar sua história e seus sentimentos, a criança fica livre para explorar o mundo.

Uma das dúvidas e angústias mais frequentes dos pais adotivos é quando e como contar à criança que ela é adotada. Há hoje um consenso geral de que a criança precisa saber de sua condição de adoção. Em geral, isso ocorre a partir das próprias indagações da criança sobre sexualidade, por volta dos três ou quatro anos de idade, quando ela quer saber de onde vêm os bebês. Essa pergunta a remete, assim como aos pais, diretamente à questão de sua origem. Costumamos dizer que o melhor para a criança é ter a ideia de que “sempre soube que era adotada”, que não houve o “dia da revelação”.

A experiência clínica mostra que as perguntas do filho sobre adoção são feitas quando há espaço psíquico para essa investigação.  Pais muito angustiados com relação à sua parentalidade podem reprimir, de forma consciente ou inconsciente, a busca de uma história anterior ou de um sentido para a separação da criança ou do adolescente em relação à sua herança biológica. Quando a esterilidade do casal adotivo não está bem elaborada, conversar com a criança sobre sua origem biológica significa assumir sua impossibilidade de gerar filhos. Nestes casos, há uma ferida narcísica difícil de ser superada, acompanhada pelo sentimento de castração da fantasia de continuidade biológica e da imortalidade dos pais (Levinzon, 2004).

Pesquisas realizadas mostram os prejuízos causados na aprendizagem pela dificuldade em lidar com a investigação sobre a adoção. Como estar aberto para aprender se há portas e janelas importantes fechadas no caminho do conhecimento?

Segundo Winnicott (1955), mais do que informações, as crianças precisam de pais confiáveis, que estejam ao seu lado na busca da verdade e que compreendam sua necessidade de viver as emoções apropriadas às situações reais. Elas têm uma capacidade incrível de descobrir os fatos, que são simplesmente aceitos como fatos. O mistério pode gerar um problema muito maior, e permite a criação de fantasias perturbadoras.

O medo de perder o filho inclui muitas vezes a ideia de que, sabendo de sua história, ele irá procurar os genitores. Afinal, quem são os pais verdadeiros? A insegurança dos pais adotivos não se sustenta na realidade. Os pais verdadeiros são aqueles que criam a criança por toda uma vida, que lhe dão seu nome, suas horas de sono, seus valores, seu amor, seus limites e seus cuidados. Em condições normais, o filho não irá questionar sua importância. Sua investigação servirá para que tenha uma noção mais inteira de si mesmo.

No campo da adoção, a curiosidade pode ser perturbadora para todas as partes da família, mas é essencial na constituição de bases verdadeiras. Nosso trabalho, como analistas, é auxiliar todos neste trajeto precioso que é a apropriação de si mesmo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Bion, W. – (1962) O aprender com a experiência. In: Os Elementos da Psicanálise. Trad. Jayme Salomão e Paulo Dias Corrêa.  Rio de Janeiro, Zahar ed., 1966. p.11-117.

Klein, M. – (1921) O desenvolvimento de uma criança. In: _______ Contribuições à Psicanálise.   Trad. Miguel Maillet.  São Paulo, Mestre Jou Ed., 1981. p.15-85.

Levinzon, G. K. –  Adoção. São Paulo, Casa do Psicólogo, 2004.

Winnicott, D. W. – (1955) A adolescência das crianças adotadas. In: In: Sheferd, R. – D.W.Winnicott- Pensando sobre crianças. Trad. Maria Adriana V. Veronese. Porto Alegre, Artes Médicas, 1997, p. 131- 140.

 

 

Gina Khafif Levinzon é psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, doutora em Psicologia Clínica pela USP, professora do Curso de Especialização em Psicoterapia Psicanalítica da CEPSI-UNIP e autora dos livros: “A criança adotiva na psicoterapia psicanalítica”, “Adoção” e “Tornando-se pais: a adoção em todos os seus passos”. E-mail: ginalevinzon@gmail.com

Paternidade e função paterna

Ricardo T Trinca*

Toda criança ao nascer é órfã. Ter um pai e uma mãe são conquistas e aquisições posteriores, mas que podem não ocorrer. É necessário que o bebê se torne filho de alguém, ou seja, que uma mente possa se dedicar à tarefa de recebê-lo no mundo. Mas, se por um lado o bebê é um órfão, por outro ele nasce com preconcepções do encontro com um seio (Bion, 1962/1991) para o qual se dirigirá, e sobre sua recepção, ou melhor, sobre a presença de alguém a partir do qual poderá haver alguma ancoragem e encontro. Mas a preconcepção pode ser frustrada, dependendo das circunstâncias deste momento inicial, criando dificuldades significativas para os próximos passos do bebê.

Os pais recebem esse bebê, um ilustre desconhecido, que vai – aos poucos – se tornando familiar. A familiaridade é um processo complexo associado com a possibilidade tanto do bebê ser sonhado, quanto do estabelecimento de ritmos orgânicos da sua vida, com improvisações e melodias análogas às de uma banda de jazz. A amamentação, a troca de fraldas, o sono e o mimo são estabelecidos em um ritmo peculiar, relacionado tanto com as características inatas daquele bebê, quanto ao modo como ele é sonhado pelos pais. Ser sonhado significa participar da vida mental do outro; em última instância, existir.

Nesse momento inicial da vida, a função materna é a mais importante: ela é a função psíquica relacionada com a recepção da orfandade de um bebê que é pressentido como absolutamente dependente e que necessita de acolhimento, cuidados e continência. Mas, desde esse momento inicial da vida, a função paterna e a função materna estão interligadas e se tornam complementares. São funções mentais e não estão relacionadas diretamente com um ou outro gênero sexual, que desempenhe uma ou outra função necessariamente. Uma mãe tem função paterna, assim como um pai tem sua função materna e vice versa. Ser pai, portanto, é poder flutuar em um espectro de possibilidades formado entre essas duas funções. Não é mais novidade um homem ser predominantemente materno, ou um casal homoparental desempenhar, cada um, funções distintas ou ambas as funções. Também uma avó ou um avô pode desempenhar relativamente bem a função paterna ou a função materna. Culturalmente elas tendem a ser associadas ao pai e à mãe.

A função paterna nesse início da vida do bebê relaciona-se com dar condições de segurança, apoio e estabilidade para que aquele que desempenha a função materna possa fazê-lo integralmente. O bebê, neste momento, é o reflexo do desejo dos seus pais, desejo desconhecido, mas que aparentemente se tornou encarnado e vivo; é um ser-para-si (ser para a mãe), carecendo ainda de um mundo pessoal. Ele é o investimento narcísico daqueles que cuidam do bebê, e o reflexo deste investimento libidinal e imaginário. Bebês lindos e mães extenuadas e descuidadas são, muitas vezes, a cara e a coroa de uma mesma moeda. O bebê e a mãe, nesse sentido, são indistinguíveis. Não existe alguma coisa como um bebê independente, destituído de uma função materna que o acompanhe.

Mas, ao longo do crescimento do bebê, a função paterna passa a ser não mais periférica, assumindo um posto de maior centralidade na vida da mãe (ou daquele que representa a função materna) e, também, da criança. O cuidador do bebê precisa se haver com os desenvolvimentos motores e, portanto, com uma maior preocupação com o mundo, já que o bebê passa a adquirir paulatinamente maior autonomia. Mas ainda não é, de fato, uma verdadeira autonomia; assim o “não” surge como a primeira expressão nítida e fundamental da função paterna dirigida diretamente para o bebê. Ela tem a função de limitar os seus avanços no mundo que são feitos naturalmente, mas de modo pouco cuidadoso. Portanto, a função paterna tem como objetivo apresentar o mundo para a criança pequena, mas um mundo que se torne seguro para ela.

O “não” inicial limita certos avanços perigosos da criança (Winnicott, 1993/1999), mas é preciso levar em conta que um “sim” da relação desta criança com o mundo já foi, portanto, formado na mente desses pais. O “não” verdadeiro denota a formulação de um “sim” anterior. Esse “sim” é o desejo de que essa criança possa ter um mundo. O “não” passa a ser expressão do desejo de que a criança constitua um mundo, que vá além da relação com a função materna; um mundo relativamente seguro. Essa separação para com a “mãe” ou ampliação do universo da criança pequena é realizado pela função paterna, um verdadeiro ser-para-o-mundo. A função paterna é a função que separa mãe e bebê para poder dar as bases da simbolização, pelo início das relações triangulares, ou a base do pensamento simbólico. A função paterna, desse modo, separa a mãe da criança para incluí-la num mundo mais amplo, o mundo do universo simbólico e da castração. A função paterna, portanto, separa para incluir. E a função paterna melhor consegue fazer isso, quanto mais valorizada é a cultura e a alteridade na mente da mãe; ou o quanto a função paterna está interligada à função materna na sua vida mental.

A presença da função paterna e materna se mantém ao longo da vida dos pais, mudando de intensidade e de importância de acordo com as circunstâncias da vida do filho. Mas também são funções que se transmitem, de modo que um jovem adulto pode ter o seu próprio filho e valer-se das funções materna e paterna prontas para serem desempenhadas com uma nova criança, quando elas puderam ser incorporadas como parte da sua personalidade. Quando isso acontece, o filho pode prescindir dos seus pais.

A autonomia, portanto, é a finalidade da realização satisfatória da função paterna e materna na vida mental do filho. Os filhos, desse ponto de vista, podem ir adiante, fazendo com que os pais se tornem menos importantes. Deixar ser suplantado, tornado desimportante e poder orgulhar-se da autonomia do filho e da possibilidade de ser desimportante é o último bastião da função paterna. Trata-se de confiar que aquilo que foi transmitido poderá ser retransmitido nas futuras gerações; decididamente a função paterna é uma função associada com o mundo da cultura.

Um filho é tanto algo profundamente pessoal quanto um ser que se transforma em algo da cultura e do mundo. É um modo de presentear a cultura com nosso amor, deixando o filho ser no mundo aquilo que ele está, por alguma razão, destinado a ser além de nós.

 

Referências

Bion, W. R. (1991). O Aprender com a Experiência. Rio de Janeiro: Imago (Trabalho Original publicado em 1962).

Winnicott, D. W. (1999) Dizer “não”. In D. W. Winnicott, conversando com os pais (2 ed) São Paulo (SP): Martins Fontes (Trabalho Original publicado em 1993).

*Ricardo T Trinca é psicanalista, doutor em psicologia clínica pela USP, membro filiado ao instituto “Durval Marcondes” da SBPSP e autor do livro “A Visitação do Real nos Fatos Clínicos Psicanalíticos” (Edusp). E-mail: ricardotrinca@hotmail.com

 

As novas etapas do envelhecimento: o desafio de viver muito

Por Telma Weiss*

“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. 

Guimarães Rosa – Grandes Sertões Veredas

 

Até a metade do século passado, fome, guerras e pestes eram questões reais que ameaçavam a vida dos homens. Morria-se de fome, pestes matavam e devastavam quase que populações inteiras e, durante vários séculos, guerras eram um fato tão “corriqueiro” que os momentos de paz eram intervalos entre um conflito e o próximo. (Harari)

Atualmente temos uma outra realidade, um cenário bem diferente do que tinham os nossos antepassados. Com o avanço das ciências, em especial da medicina, da tecnologia, da nutrição, da valorização da prática esportiva e de uma vida ativa, os desafios da longevidade tornaram-se realidade. Vivemos mais e com mais qualidade de vida.

Hoje em dia, pessoas entre 45 e 65 anos são ativas, trabalham e circulam no mundo com curiosidade, muito longe da imagem do sujeito aposentado, daquele que “foi para os aposentos”. Daquele que está à margem da sociedade.

Como nos situarmos nessa “nova” etapa, entre a vida adulta e a velhice? O escritor Mario Prata escreveu uma crônica provocativa no Estadão: “Você é um envelhescente? ”. O autor, com seu humor afiado, nos faz pensar no novo homem maduro, que ainda não é idoso, mas que também não é jovem. Ele compara a envelhescência com a adolescência. Uma fase de trânsito.

Sylvia Salles Godoy Soares escreveu o interessante livro “Envelhescência” em que discute o fenômeno do envelhecimento contemporâneo focando na identidade feminina. A autora descreve o desafio que a mente tem que fazer, como na adolescência, para entender o novo corpo e assim tentar criar um entendimento entre o físico e o psíquico.

Uma boa imagem para compreendermos e refletirmos sobre esse novo desafio da modernidade, a longevidade, é pensarmos em uma obra, em uma reforma. Precisamos nos reinventar, precisamos trabalhar para nos reconhecermos nesse novo lugar de vida. Como toda construção, primeiro temos que pensar no que queremos e no que não queremos mais, fazemos então um anteprojeto, um projeto e, se possível, chamarmos um bom profissional para nos acompanharmos nessa empreitada. E quais seriam os planos, os projetos para essa obra?

Freud nos disse que o ego é corporal (1923) – corpo e mente não são indissociáveis –   importante pensarmos em como entender as novas necessidades e os novos limites do corpo maduro: o cuidado com o bem-estar físico, o desafio de administrar as oscilações hormonais, em especial as mulheres. A dedicação com os exercícios físicos, a atenção a uma alimentação saudável e exames médicos preventivos serão decisões que terão como objetivo focar num corpo funcional que acompanhe a mente no reinventar da própria vida.

Do ponto de vista emocional, nosso desafio será refletir sobre nossa história, nosso percurso. É um momento de resgatarmos a própria identidade e pensarmos em como queremos envelhecer. O que podemos e o que não podemos mais fazer? Ou não devemos ou não queremos mais fazer. É tempo também de construir novos limites.

Vamos ter que dialogar com nosso narcisismo: refletir sobre o novo lugar que vamos ocupar na família com a chegada de uma nova geração: como ser pais e também agora ocupar o lugar de avós? Como fica o narcisismo quando a geração mais nova começa a ocupar a cena, eventualmente, ultrapassando os próprios pais?

Homens e mulheres começam a perder encantos físicos. Será que vão reagir diferentemente? Para as mulheres, a menopausa, sem dúvida, é um fato que coloca a feminilidade em crise. E o homem, ao perceber que sua potência sexual não é a mesma do jovem, sente-se em conflito em relação a sua masculinidade.

O envelhecimento é uma etapa da vida, não uma escolha. Se pensarmos bem, é um privilégio estarmos “bastante tempo na estrada”. Não é fácil notarmos que não somos mais jovens. Teremos que nos esforçar para elaborar o luto pela mudança de nosso corpo, de nosso lugar do mundo e aceitarmos esse novo horizonte que se apresenta. Pensar em novos trajetos. Novas trilhas. Uma tarefa árdua, porém, necessária. É, sem dúvida, uma fase angustiante.

E para que esse caminho seja interessante, precisamos esforçar-nos para renovar nosso repertório, ampliar nosso ponto de vista, nossa perspectiva e desapegar do modus operandi que já não estão mais em sintonia com o novo momento. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, poderá ser uma ótima oportunidade de nos sentirmos mais interessantes, mais vivos e, assim, administrarmos a nova fase de vida com disposição, criatividade e vivacidade.

A pessoa que consegue reorganizar-se, que consegue dar conta da “obra” e elaborar o luto da perda da juventude, terá mais possibilidades de sentir-se livre para usufruir esse momento da melhor maneira possível. Por outro lado, o sujeito que não consegue enfrentar a perda pela fase que passou, que não consegue compreender o seu novo lugar no mundo, pode tornar-se melancólico, ressentido, não enxergando as novas oportunidades que a vida apresenta.

“É preciso saber viver”… – como cantam Roberto Carlos e os Titãs. Isso é muito verdadeiro, principalmente agora que temos a possibilidade – não a garantia – de termos uma vida longa e de qualidade. A psicanálise, mais do que nunca, apresenta-se como um instrumento útil para ajudar no desafio de reinventarmos nosso projeto de vida.

 

Referências Bibliográficas

Freud, Sigmund (1923). O ego e o id. Ed. Imago, 1969 Rio de Janeiro.

Harari, Yuval Noah (2016) – Homo Deus: uma breve história do amanhã, Ed Companhia das Letras, 2016, São Paulo.

Prata, Mario (1993) Você é um envelhescente?  Jornal OEstado de São Paulo

Soares, Sylvia Salles de Godoy de Souza (2012) – Envelhescência: um fenômeno da modernidade,  Ed. Escuta 2012 São Paulo.

 

* Telma Kutnikas Weiss é psicanalista, membro associado e diretora da SBPSP. Publicou vários artigos entre eles “Guarda Compartilhada: uma breve visão psicanalítica”.