Arte e interrogação

*Silvana Rea

Ao surpreender-se com aquilo que escapa ao estabelecido como os lapsos de memória, a troca de palavras, os sonhos, Freud construiu a Psicanálise e assim ultrapassou os limites do conhecimento. Por sua vez, a Psicanálise sofreu forte reação na comunidade científica do início do século XX, ao abalar a convicção na supremacia da racionalidade. O desejo, a sexualidade infantil e a noção de inconsciente provocaram escândalo e, para surpresa nossa, mesmo hoje desconcerta certos setores da sociedade.

Ainda que as gravuras eróticas de Hokusai tenham sido apreciadas desde o século XVIII e que o conjunto dosTemplos do Kama Sutra, em Khajuraho, na Índia, reverenciados nos anos 950, foram declarados patrimônio mundial pela Unesco. E ainda que as fotografias do contemporâneo Robert Mapplethorpe, merecessem concorrida retrospectiva no Jeu de Pomme, muitos foram os artistas injustiçados pela postura de intolerância ao novo. O trabalho de Egon Schiele, um dos grandes do Expressionismo, levou-o à prisão em 1912 por ser considerado pornográfico. No Brasil de 1931o painel de Cicero Dias Eu vi o mundo… ele começava no Recife,  referência na história da arte brasileira, teve cortados fora os três metros que representavam nus. A dimensão da obra e sua mutilação deixaram Mário de Andrade boquiaberto, como escreve a Tarsila do Amaral. Do mesmo modo que ele se chocara em 1915 diante de Homem Amarelo de Anita Malfatti – trabalho que adquiriu durante a exposição antes que a maior parte dos quadros fosse destruída a bengaladas, apesar de não terem conteúdo sexual. Esta atitudes de reação ao ineditismo da   arte lembram que em 1937 Adolf Hitler expôs obras expressionistas na célebre mostra “Arte Degenerada”, como parte de seu bárbaro projeto de eugenia.

A noção de inconsciente e do desejo como motor do psiquismo concebem um homem em direção a algo que o transcende e a algo que sempre ultrapassa o instituído. E que quando segue seu caminho em direção do simbólico, afasta-se dos riscos de ser realizado em ato. É esta uma das funções do trabalho artístico: romper com o estabelecido, transgredir para construir um universo representacional que passa a ser repertório cultural da humanidade. Porque como na Psicanálise, é vocação da Arte manter-se em permanente postura de interrogação daquilo que é dado. Impossível reduzi-las à normatização e regular as suas possibilidades de experimentação.

Silvana Rea é Diretora Científica da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Mestre e Doutora em Psicologia da Arte pela Universidade de São Paulo.

 

 

 

 

 

 

A fronteira entre a internação compulsória e a involuntária

A Sociedade Brasileira de Psicanálise colabora com a revista Psique.

 

Abaixo, trechos do artigo de Gustavo Gil Alarcão* para revista Psique nº 139, de setembro de 2017

 

“A internação voluntária, involuntária ou compulsória é sempre insuficiente no laborioso trabalho de integração psíquica que precisa, necessariamente, ocorrer em cada um, o que não retira completamente o valor dessa prática”.

 

“Pode ser chocante imaginar alguém enraizado em um mundo muito diferente do meu e daquele que idealizo como bom. Pode ser impactante imaginar que alguém encontre seu lugar no mundo que parece degradado, violento, insensível. A questão que se coloca é: como compreender esse processo para cada pessoa?”

 

“Com prática da internação, o mal, que antes era exorcizado, hoje foi deslocado para a noção de gravidade, de agravo à vida. Em Medicina qualquer noção de gravidade significa o risco de perder a vida, logo se cria um estado de emergência. Nesse contexto praticamente qualquer ato está naturalmente autorizado, já que ele se coloca como um ato de proteção da vida, um ato de legítima defesa da vida. A Medicina contemporânea usa e abusa dessa noção para se consolidar como o campo de discursos sobre a vida. (…) No campo da construção da subjetividade e, portanto, das autonomias, os estados de emergência dificultam muito o desenvolvimento do pensamento e da reflexão”.

 

Gustavo Gil Alarcão, membro filiado ao Instituto de Psicanálise SBPSP, psiquiatra Colaborador do Serviço de Psiquiatria IPQ HC FMUSP e Doutorando Departamento de Medicina Preventiva FMUSP.

 

 

Uma abordagem psicanalítica do filme ‘O Minimo para Viver’

Cássia A.N.Barreto Bruno

O fato é que vivemos num mundo onde os fenômenos surgem tão rapidamente que não temos tempo de assimilá-los e ficamos sem saber o que fazer diante do novo. Esse é o caso das novas doenças da alma, como diz Piera Aulagnier.

O filme ‘To the Bone’, do diretor Marti Noxon, realizado em 2017,  trata o tema  anorexia do ponto de vista da pessoa anoréxica, isso é, com a  indiferença afetiva que a caracteriza. Nesse sentido, não faz apologia  do mau relacionamento com a mãe e nem das dificuldades com a sexualidade, jargões que caminham juntos nesta questão.

Devemos entender que não estamos  preparados psicologicamente para os sofrimentos da alma, tais como sofrer o medo, a autoexigência, a inveja, a alegria, o amor. Temos medo desses sentimentos e recusamo-nos a vê-los e aceitá-los. É difícil  perceber que estamos apaixonados ou que estamos competindo com a mãe. Ficamos constrangidos, no mínimo.

É nesse contexto que o filme mostra uma jovem que, ao não poder elaborar situações complexas da vida, desenvolve recursos de sobrevivência psíquica utilizando o próprio corpo. Encarna no corpo e torna palpável aquele  afeto que na vida real não consegue enfrentar: controla o sistema digestivo, tomado na sua maior concretude, de tubo de entrada e saída de alimento, ali, onde o afeto não é digerido, é expelido para o corpo sem deixar marca psíquica.

Não tendo aparato mental que consiga fazer frente aos desafios do seu nível de exigência de ser a melhor profissional, de ser o ideal grego de beleza, já que ideal é por definição algo não atingível, a decepção consigo é repetidamente vivida no corpo, entre comer e vomitar, controlando severamente  e castigando seu corpo nos exercícios doloridos, para conseguir um pouco de paz mental.

Implícita está a fantasia inconsciente de que, ao exigir de seu corpo o impossível com os exercicios (quase um castigo), e privar-se dos alimentos (fonte da vida), seu ideal imaginário de perfeição será alcançado. Que perfeição é essa a ser alcançada? Em última instância, esta perfeição seria o encontro consigo mesma.

É poder ser verdadeira ao experimentar os afetos que são humanos: amor, ódio, conhecimento. Parece simples, mas afetos humanos são aterrorizantes, e exigem aprendizado de negociação com o real e também desenvolvimento de  vocabulário afetivo, o que implica em ambiente externo facilitador e amoroso, condição necessária para aprendizagem.

Nem sempre a  familia  é um ambiente facilitador de aprendizagens afetivas. Como é muito claro no filme, as angústias do grupo familiar  são projetadas na mocinha: ela é a doente, e as questões desse grupo sólido e assustado diante do mundo ficam  aglutinadas na jovem. Ela é a  expressão das angústias  culturais do grupo familiar.

Nesse caso, os pais ao não saberem  o que fazer porque também não têm vocabulário afetivo, não voltam sua atenção para dentro do grupo familiar e passam a  encarar o grito afetivo-corporal da adolescente como um problema só da filha e daí o passo seguinte e mais asséptico é a medicalização.

Ora, não existe uma parte separada do todo. No filme, isso é bem retratado. Quando a família interna a adolescente, o problema fica bem longe, bem circunscrito, na filha, e não na dinâmica familiar, “que alívio, não precisamos nos questionar”.

Lá, ela  encontra seus pares e, por meio da figura de um rapaz afetivo, verdadeiro nas suas idiossincrasias, verdadeiro consigo próprio antes de tudo,  ela encontra o  ambiente facilitador que é respeitar o ser humano como ele é, na sua verdade particular, no lugar de ficar exigindo que ele seja outra pessoa que não si proprio, ou pior, que seja um ideal de ego. Porque esse, nem com todo exercício do mundo será atingido. É um ideal. Só isso.

O humano é imperfeito, é real e não ideal. Se não amamos nossas imperfeições, estamos condenados a esse castigo de Tântalo.

O chefe da clínica, personagem de Keanu Reeves, trata a jovem como ser humano a ser preparado para o confronto entre afeto e real, entre processo primário e secundário, dirá Freud. O trabalho terapêutico por ele realizado é o de continência afetiva, de introdução ao processo civilizatório do vocabulário afetivo. Na clínica há um ambiente facilitador.

Uma última palavra: a anorexia atinge todas as idades e gêneros, casos muito graves devem ser tratados com equipes multiprofissionais, casos mais leves são bem tratados pela psicanálise. Há uma gradação de gravidade e o que vamos privilegiar na psicanálise é que a pessoa possa ter acesso a si própria com confiança. Que possa respeitar a sua verdade particular e amá-la.

 

Cássia Barreto Bruno é analista didata e docente da SBPSP, IPA. Organizadora do livro “Distúrbios Alimentares, uma contribuição da Psicanálise”. ed Imago.2011.

 

Nota oficial da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

A Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, através de sua diretoria, vem esclarecer à população que é contrária às propostas que visam qualquer tipo de cura da orientação sexual das  pessoas. Consideramos que tais propostas revelam posturas discriminatórias e ideológicas alheias à clínica e ao pensamento psicanalíticos.

Sigmund Freud e seus continuadores foram pioneiros em reconhecer a diversidade do desejo humano abrindo espaço para  declarações como a da OMS, que descarta a tese de que a orientação sexual dos indivíduos esteja relacionada a uma doença.

O psicanalista, através da sua escuta clínica, promove a aproximação à singularidade do desejo de quem o procura, acolhe e  busca compreender as fontes da sua angústia e sofrimento psíquico. Propicia a construção de um saber próprio que diz respeito a cada indivíduo e que contribui, na medida das possibilidades, para um viver mais livre e criativo.  Fiéis a esta ética  psicanalítica não cabe a nós, psicanalistas, adotar qualquer postura normatizadora em relação ao comportamento ou à sexualidade de nossos pacientes.

Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

Frida Sofia: um mito moderno?

Leda Beolchi Spessoto

Durante a tragédia do terremoto que atingiu o México, uma notícia ganhou contornos especiais e milhares de pessoas ao redor do mundo sofreram e se angustiaram na expectativa do resgate de Frida Sofia.

Enquanto muitos lutavam bravamente pelo resgate das vítimas, um desafio foi se impondo: sob os escombros de uma escola, Frida Sofia , uma menina de doze anos,  esperava pelo salvamento.

Com o passar do tempo, as versões da notícia iam se modificando: não seria mais uma menina apenas, mas três… depois cinco; Frida havia mexido a mão etc. Informações errôneas plantadas deliberadamente ou não se alastravam, dados contraditórios e não compatíveis com as buscas se acumulavam: não havia registros na escola de jovem com tal nome, não aprecia a família em nenhum momento,  entre outros.

Finalmente a constatação vem a público: Frida Sofia não existe!

Acusações e a procura dos possíveis responsáveis pela informação errada se tornam o novo alvo das notícias. Além de pessoas que isoladamente admitiram ter contribuído para a criação de Frida Sofia, vale destacar também a observação de uma construção coletiva simultânea, onde “cada um que conta um conto aumenta um ponto”. Se já existe até ditado popular com esta compreensão, provavelmente estamos diante de característica da mente humana que se manifesta nestas circunstâncias.

Em seu livro “Mitos de Guerra”, Marie Bonaparte, já em 1946, chamou a atenção para um fenômeno que denominou “Mitos Modernos”. Estes seriam rumores persistentes que adquirem uma rápida difusão oral e cuja análise de conteúdos latentes indica que servem para assimilar psicologicamente situações de angústia coletiva e os conflitos subjacentes, tendo assim um papel semelhante aos mitos no passado. Posteriormente Marie Langer também usa o mesmo conceito para analisar fenômeno semelhante ocorrido em Buenos Aires e relacionado a aspectos da sexualidade, muito bem apreciados em seu livro Maternidade e Sexo.

Retomo aqui esta abordagem  para nos lembrar de que a construção mitológica não foi somente realizada por antigas culturas. Ela pode também ser vista em operação contínua na mente humana que alcança, por meio desse recurso, uma narrativa  organizadora  atribuindo sentido ao que vivemos, sendo uma forma de lidar com angústias e realizar transformações.

Vista deste modo, Frida Sofia é um pedacinho de todos nós!

Por meio da comoção provocada, do resgate ansiado, o desamparo e o medo claustrofóbico tão primitivos que podem nos invadir,  se expressaram e  encontraram solidariedade e amparo emocional. Segue o desafio para partes soterradas de nossa mente que podem novamente necessitar de ajuda para sobreviver quando aprisionadas em terremotos emocionais que a vida nos traz. Precisamos, talvez mais do que gostaríamos, do gesto que nos ampara e da mente que nos acolhe.

Enquanto a condição sonhante da nossa mente estiver disponível para nos salvar das angústias e transformá-las, possivelmente os mitos estarão sempre se renovando de alguma forma.

Leda Beolchi Spessoto é psiquiatra  e psicanalista, membro efetivo da SBPSP e coordenadora de seminários teóricos do Instituto de Psicanálise  da SBPSP 

Homens do nosso tempo

Gustavo Gil Alarcão

Como psicanalista habituei-me a desconstruir generalizações e buscar as singularidades de cada um. Venho apreendendo ao longo dos anos que as generalizações tanto pressionam por normatizações individuais quanto podem servir de esconderijos. Freud chacoalhou o Ocidente quando evidenciou que não há nenhum caminho predeterminado na formação de uma pessoa porque ele desarticulou a equação entre a anatomia biológica, expressa em corpos e sexos de nascimento, e seus caminhos futuros.

Não há equação entre nascer masculino ou feminino e desempenhar esses ou aqueles papeis, buscar esses ou aqueles objetos de desejo. A psicanálise propõe que estejamos atentos às permanentes construções e desconstruções que vivemos marcadas pelas identificações e pelas faltas de identificação com as quais convivemos ao longo da vida, com especial importância para aquelas que nos receberam no mundo e cuidaram de nós enquanto bebês e crianças (foi da experiência que se construiu, se confirmou e continua a se confirmar essa hipótese).

Dito isso, entremos ao texto. Aceitei o convite para escrever um breve artigo sobre algumas características dos homens contemporâneos. Pai, relativamente jovem, psicanalista, psiquiatra, que posta fotos da família no Facebook, trabalha com adolescentes da Fundação Casa, convive e trabalha com muitas mulheres, casado etc. Partes da minha história pessoal que podem ter sido associadas às determinadas pressuposições que me colocariam em condições favoráveis de escrever sobre o tema proposto. O convite foi interessante porque partiu de uma equipe formada principalmente por mulheres e que, de certa forma, quase cem anos depois, recolocaria uma questão formulada pelo próprio Freud (1932), que já se indagava: “afinal, o que querem as mulheres?”. Hoje, em 2017, há mulheres perguntando: “afinal, o que querem os homens?”.

Não creio que se busque uma definição, o que seria tanto ingênuo quanto impossível. Mas essas questões indicam a existência de dúvidas e o questionamento acerca de identidades fixas e rígidas está posto. A maior variedade de possibilidades identificatórias é um traço de nossa época. Há condições para que as pessoas não tenham necessariamente que repetir passos e modelos. Essas possibilidades não baniram as tradicionais formas de existir, mas as ampliaram. Basta sair às ruas da maioria das cidades, para não dizer de todas, e observar a diversidade.

A diversidade sempre existiu, mas as possibilidades de expressão variam conforme o momento histórico de cada sociedade. Os filmes A Garota Dinamarquesa (2015,) Carol (2015) e Shame (2011) nos mostram exemplos disso. No primeiro, um homem que deseja se tornar uma mulher enfrenta as questões de seu tempo, os anos 1920-30. Em Carol temos um romance entre duas mulheres nos anos 1950 e Shame evidencia a vida de um homem contemporâneo cuja vida sexual compulsiva escondia uma rotina apática e entediante.

Os homens de hoje, mesmo querendo, não podem negar esses fatos. A liberdade de ser quem se é convoca a todos. Para alguns, existem possibilidades para que as escolhas feitas ao longo da vida (relembrando que somos atravessados pelo inconsciente) evoquem maior responsabilidade pessoal no sentido de se engajar consigo mesmo (se as imposições diminuíram, posso escolher mais). Para outros, a liberdade será assustadora e evocará defesas.

O mundo infelizmente ainda é muito hostil e bárbaro (vide o terrorismo, a violência policial, racismos e crimes contra minorias) e a liberdade que descrevo não pode ser exercida plenamente por muitas pessoas. As reações de intolerância daqueles que se sentem perturbados, literalmente perturbados, pela própria liberdade também estão explícitas. A liberdade do outro pode ser atacada com a violência. Os efeitos perturbadores da liberdade em si não podem ser banidos, podem ser negados ou deslocados. Provocarão sintomas desde o apego inseparável aos temas que tanto atacam (vide alguns políticos por aí, que falam mais de homossexualidade do que qualquer homossexual), ou gerando sintomas, dos quais a passagem aos atos –violência- tem sido o mais comum, havendo vários outros: as compulsões, o tédio, os pânicos e paranoias, etc.

Diante da possibilidade de sair do armário, cada um tem a efetiva possibilidade de assumir suas escolhas pensando em seus significados. Não podemos lidar sem problematização com a questão dos gêneros, tão debatida atualmente, afirmando que homens e mulheres não nascem prontos, constroem-se. Nesse sentido, se tomarmos como exemplo, para ficarmos no texto, pessoas do sexo masculino que se construíram como homens observaremos uma grande diversidade de vidas. Alguns mantiveram muito conservadas características possivelmente identificadas com as dos homens mais tradicionais de outras épocas. Ligados aos valores tradicionalmente veiculados como normas, apegam-se geralmente à moral religiosa, à família patriarcal e ao poder. Há homens que romperam radicalmente com valores tradicionais e adquiriram vidas próprias. Assistam Laerte-se (2017), De Gravata e Unha Vermelha (2014). Há vários outros: gays, homens casados, homossexuais que constroem famílias (por incrível que pareça, tradicionais), os solteiros convictos, homens que se casam com mulheres, homens que têm filhos; os que têm filhos e não se casam; os que não saem da casa dos pais; os que mudam de corpo; os que adquirem corpo; os que fogem e abandonam filhos etc. A relativização aqui não é estratégia para evitar o debate, mas é o seu argumento principal. Não se pode imaginar que determinada maneira de viver se imponha sobre as demais.

Voltando ao convite e imaginando os elementos da minha vida que possam ter sido levados em conta como representativos de certo grupo de homens, penso na paternidade e no casamento. Como um homem desse tempo e com as características do ambiente onde nasci e cresci, experimentei um caminho aberto para realizar minhas escolhas (aberto não significa fácil).  Na medida em que pude me dar conta do que significava estar vivo e ter consciência de nossa breve e única experiência de existir, angustiei-me e me pus a pensar (análises pessoais foram fundamentais, porque nossa mente é engenhosa em criar subterfúgios e fugas). Fui questionar meus desejos e encontrei meu desejo de ser pai, casar-me e viver em família.

Convivo com vários amigos que fizeram escolhas parecidas e com muitos que não fizeram (tenho sorte!). Entre todos, percebo que são, em geral, homens menos assustados com os seus sentimentos e com sentimentos dos outros. Quase todos repudiam a violência como modo de se relacionar. A maioria se esforça para conviver com as diferenças. Praticamente todos quiseram se tornar independentes de suas famílias, o que se traduz em ter trabalho e ganhar dinheiro – nem todos levaram em conta outros aspectos do que chamam maturidade. Alguns vivem para se entreter e evitam qualquer conflito ou assunto mais sério. Alguns desejam profundidade em suas vivências. Todos estão conectados na rapidez, na tecnologia e na internet. A lista poderia seguir, mas é suficiente.

Tentando ajudar na questão sobre o que querem os homens, me lembro de um filme. Em A vida é Bela (1997), Roberto Begnini e seu personagem Guido encarnam o que penso poder representar um ideal para alguns homens desse tempo: nos horrores da guerra e apaixonado por sua principessa é levado para um campo de concentração com seu filho. Amor, coragem, paciência e criatividade o ajudam a salvar o filho, mas não evitam sua própria morte. Guido tinha um filho e uma mulher, mas poderia não ter filhos e amar um homem. Ainda aposto no amor e no vínculo entre as pessoas como desejo de muitos, o que não exclui a legitimidade de outros amores e vínculos, como o que se observa no filme Her (2013), quando o protagonista se apaixona por um programa de computador (certo que sua angústia tem matizes diferentes), mas se opõe aos vários exemplos de mentes tirânicas que fazem do outro objeto inanimado de sua satisfação.

 

Gustavo Gil Alarcão, membro filiado ao Instituto de Psicanálise SBPSP, psiquiatra Colaborador do Serviço de Psiquiatria IPQ HC FMUSP e Doutorando Departamento de Medicina Preventiva FMUSP.

Posicionamento do psicanalista sobre a liminar que permite tratar homossexualidade como doença

Oswaldo Ferreira Leite Netto

Não há fundamentação psicanalítica para algo que possa ser denominado cura gay. Psicanalistas, de posse de uma teoria científica que fundamenta uma prática clínica, voltam-se radicalmente para a singularidade da vida mental de cada sujeito; nossos resultados buscados relacionam-se às verdades de cada um, para serem vividas com autenticidade, liberdade, autonomia e responsabilidade.

Freud com suas observações clínicas construiu uma teoria e esclareceu desde o início que a sexualidade humana não é natural, senão diretamente ligada à fantasia; cada um pode buscar o objeto de satisfação de seu desejo, na obtenção de seu prazer nas formas mais variadas. Do ponto de vista psicanalítico, torna-se difícil engajarmo-nos em propostas normatizadoras no tocante à busca de satisfação sexual, visto não estarmos determinados pela natureza, como no instinto que opera nos animais. A vida sexual dos humanos é independente da procriação.

Aos analistas compete esclarecer e compreender as fontes de angústia em cada um de seus pacientes e ajudar a combater forças repressivas que tolhem as buscas de prazer, a liberdade e a criatividade. O controle da moral, dos costumes e o cumprimento da lei competem a outras instâncias de nossas organizações sociais.

Oswaldo Ferreira Leite Netto é coordenador do grupo de estudos Psicanálise e Homossexualidade da SBPSP. Confira também o texto de sua autoria publicado no blog da SBPSP em 3 de março de 2017.

Erotização precoce, infância roubada

Karin Szapiro     

– Vovó, eu tenho um namorado. Ele se chama João.

Gabriela de 6 anos se aproxima do ouvido da avó e, com a mãozinha na frente, conta baixinho a novidade. A avó acha graça e abre um largo sorriso para a netinha.

Há algo de errado nisso? Não, não há. Para o entendimento da pequena Gabriela, “namorar” é simplesmente brincar e se divertir com o amigo predileto. Como nos contos de fada ou nas histórias infantis, João é o príncipe encantado e ela, a princesa. Suas referências dizem respeito ao universo infantil e nem de longe têm a conotação dos adultos. A malícia, muitas vezes, está nos olhos de quem vê.

Gabriela e João passam a tarde juntos e brincam sem parar. As brincadeiras são inúmeras e transcorrem livremente. Crianças saudáveis são assim: gostam de imitar os adultos, têm amigos imaginários e revestem-se de vários personagens. Brincam de faz de conta, fazem-se de bichos, de super-heróis, príncipe e princesa, mamãe e papai. Quando uma menina pequena brinca com sua boneca, ela imita a mãe com seu bebê. Quando ela experimenta os seus saltos altos e o seu batom, ela simplesmente brinca de ser a figura que lhe é tão admirada. Com a sua imaginação, a criança se transporta para o mundo adulto e depois retorna ao seu estado original, o da curiosidade.

Por que as crianças brincam? Brincam porque gostam e sentem prazer em todo tipo de brincadeira física e emocional. Com o brincar, elas aprendem a lidar com suas angústias, ansiedades e medos. Elas elaboram de maneira lúdica questões subjetivas que lhes surgem ao longo da vida e tornam-se capazes de descobrir a si mesmas e aprender a viver criativamente.

O ser humano é um ser criativo, em um sentido próprio em que a subjetividade se constitui pela possibilidade de criar o mundo em que habita. O brincar é, ao mesmo tempo, o elo entre o indivíduo e a realidade interior, e o indivíduo e a realidade exterior compartilhada. A brincadeira é própria da saúde, ajuda o crescimento e facilita a comunicação consigo mesmo e com o grupo.

À medida que crescem, as crianças preparam-se para desafios cada vez maiores e lidam com a sexualidade que surge. Quando tudo corre bem, os conhecimentos sobre si e sobre seu corpo se ampliam aos poucos, dentro de um tempo próprio. Seja sozinha ou em grupo, crianças precisam se sentir livres para brincar tranquilamente, sob a supervisão dos adultos.

Diferente de Gabriela, desde cedo Roberta vivia uma outra realidade. Enquanto a mãe trabalhava como empregada doméstica numa região nobre da cidade, ela era cuidada por seus irmãos mais velhos, filhos de outro pai, em um bairro mais carente. Desde pequena, ela acompanhava os irmãos no baile funk da vizinhança aos finais de semana e seu pai, quando a buscava para passear, a levava a um bar onde bebia noite adentro, acompanhado por todo tipo de gente.

O excesso do mundo adulto erotizado atravessou Roberta desde cedo. A menina “novinha” perdia a inocência da infância enquanto seus pais se distraíam. Roberta foi exposta a cenas, imagens, músicas, histórias e acontecimentos de cunho sexual e erótico inapropriados. A erotização vivida tão precocemente feriu-lhe a alma e a deixou em carne viva e a excitação experimentada foi demasiada. Hoje, aos 12 anos, a menina esconde que está grávida. Uma maternidade que chega fora de hora e compromete sua vida e a chance de um bom futuro.

Apesar de morarem na mesma cidade, as duas vivem em mundos diferentes. Gabriela tem sua infância protegida e cuidada enquanto Roberta vive uma vida solta e exposta a um excesso de estímulos inadequados para a tão pouca idade. O certo é que nenhuma criança está pronta para estas experiências precoces. Roberta viu-se compelida a queimar etapas do seu processo de desenvolvimento. Com a infância roubada, acaba por repetir o destino de sua mãe e engravida prematuramente. Nem mesmo seu corpo está pronto para lidar com esse turbilhão de acontecimentos.

Para Freud, trauma é o acontecimento na vida de uma pessoa que se define por sua intensidade e por sua incapacidade de reagir de forma adequada. É um transtorno, um atropelamento, um “excesso” de efeitos prejudiciais duradouros na organização psíquica do sujeito. Sendo assim, a erotização precoce é um fenômeno de natureza traumática, gerado por situações de acionamento dos impulsos sexuais de maneira inapropriada. Conduz a criança a entrar no mundo sexual adulto muito precocemente, atropelando fases do amadurecimento e desenvolvimento e prejudicando o processo de aprendizagem afetiva dos pequenos.

A sexualidade, entendida como elemento presente em todos os estágios de desenvolvimento da vida do indivíduo, acaba sendo desviada prematuramente para o erótico, o excitante, o sensual, quando na realidade deveria ser canalizada para a construção das emoções, das relações sociais, da experimentação de papéis e do desenvolvimento da afetividade.

A erotização precoce de uma criança rouba a sua infância. Cabe aos pais ou os adultos responsáveis protegerem os seus pequenos.

Karin Szapiro é psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, coordenadora do blog da SBPSP e atende em consultório particular. E-mail: karinszapiro@hotmail.com

 

 

 

O Mal-Estar na Adolescência: Dos Sofrimentos do Jovem Werther à Baleia Azul

Ana Maria Stucchi Vannucchi

“Eu tenho medo de morrer sem ter vivido”

 Joana, 16 anos

 

Qual seria a tarefa do adolescente? Em que turbilhão se move? Temos que multiplicar por mil as observações de Freud sobre o sofrimento humano, o conflito entre o indivíduo e a cultura e sobretudo, o confronto entre impulsos de vida e morte, para nos aproximarmos das vivências do adolescente em seu processo de vir a ser  e de construir-se como pessoa. Que tarefa difícil! Quantos caminhos e descaminhos encontramos!

Temos primeiramente as mudanças corporais, que apontam a necessidade de considerar o emergir da sexualidade e da agressividade. Neste momento, o adolescente precisa construir uma nova mente, elaborando as perdas das vivências e do corpo infantil. Esta tarefa não é fácil, envolve muito sofrimento e muitas inseguranças, além de muitas aventuras e experiências novas, que geralmente implicam um perigoso limite entre vida e morte.

Quem não viveu situações limite entre a vida e a morte? Quem não viveu sonhos delirantes de mudar o mundo? Quem não pensou em desistir de tudo e morrer? Quem não pensou que o amor poderia  salvar o mundo? Quem não “tomou todas” para esquecer as mágoas? Estas experiências são fundamentais para que possamos aproximar-nos desta ponte longa e estreita, sem corrimão, que descreve a travessia adolescente. Como acompanhar alguém sem segurá-lo ou empurrá-lo? Como conversar com alguém que parou no meio da ponte e tem medo de continuar? Ou que quer se jogar da ponte para sumir desta vida? Como criar uma conversa possível, mesmo com a distância  geracional que nos separa?

Vou deter-me em três situações clínicas, ficcionalizadas por razões de sigilo e ética, para poder expressar meu pensamento e minha maneira de trabalhar com jovens.

Bárbara (22 anos) tem sua vida afetiva gravitando em torno da mãe morta, evidenciando profunda melancolia e culpa por estar viva e ter sobrevivido à mãe. Ana (15 anos) odeia os humanos e vive em guerra com todos, família, colegas, embora sinta-se muito só e excluída. Quando não suporta mais a dor mental, refugia-se no “quarto branco”, expressão suprema de desobjetalização. Luna (18 anos), ambiciosa e orgulhosa, vê-se estraçalhada  e feita em pedaços  depois de ser reprovada no vestibular. Sente que a vida perdeu o sentido e começa a “namorar a morte”.

Acredito que nestas travessias, estamos mais intensamente às voltas com o binômio morte/vida, como vemos nestes casos clínicos que menciono. Acredito que não se trata de algo próprio da contemporaneidade, mas sim próprio deste momento de mudança catastrófica em que o Ego desorganiza-se e fragiliza-se para acolher novas identificações, que lhe facultam des-envolver-se da mente infantil, e aproximar-se do  que Freud chamava de Principio de Realidade (1911). Como recuperar a esperança ao lidar com as questões do binômio ilusão desilusão? Como facilitar o surgimento de uma esperança realista, ligada à capacidade de enfrentar as dificuldades da vida?

Do meu ponto de vista, esta questão não é contemporânea, mas vem desde a Antiga Grécia, com Sófocles, em ‘Édipo em Colono’ e ‘Antígona’, com Sheakspeare em ‘Hamlet’,  com Goethe em ‘Os sofrimentos do Jovem Werther’, com Salinger, em ‘O apanhador no Campo de Centeio’, etc..Clássicos protagonizados por adolescentes que nos mostram como o trágico é constitutivo da adolescência.

Considero que a possibilidade do jovem ter um analista,  um terapeuta  ou mesmo alguém que o acompanhe nestes momentos de sofrimento, faz enorme  diferença, pois mitiga a solidão e oferece  uma oportunidade de encontro e vinculação afetiva.  Além disso, permite outros vértices de observação da experiência vivida, ampliando a capacidade de  sonhar/pensar, conter e transformar as emoções e recuperar o prazer de viver.

Ana Maria Stucchi Vannucchi é membro efetivo e analista didata da SBPSP.

 

Precisamos falar sobre Perversão

Susana Muszkat

O caso recente do homem que ejaculou no pescoço de uma mulher num ônibus em São Paulo e foi liberado pelo juiz sob a alegação de que “não houve constrangimento, tampouco violência ou grave ameaça, pois a vítima estava sentada em um banco do ônibus, quando foi surpreendida pela ejaculação” (O Estado de S. Paulo, 1/9/17), disparou uma enxurrada de manifestações. Muitas de indignação com a sentença. Muitas outras endossando a decisão do juiz, justificando-a como absolutamente técnica, ao sentenciar o acontecido como uma “contravenção penal por ato obsceno”, ou ainda, na mesma linha, classificando-o como, o mais do que ultrapassado, “atentado ao pudor”.

Noticia-se, então, inúmeros outros casos de natureza semelhante. Na mesma semana, os jornais haviam noticiado o índice alarmante de estupros coletivos praticados em mulheres e meninas no Nordeste, bem como, o também revoltante número de abusos praticados diariamente no país, principalmente contra meninas.   

No caso que aqui tratamos, a moça do ônibus, logo após o ocorrido, foi colocada na mesma sala com seu agressor, num Juizado Especial Criminal, e submetida a uma série de perguntas altamente constrangedoras como: ‘você de fato viu o pênis do homem? ’ ou ‘ ele chegou a encostar o pênis em você? ’, cujo intuito alegado, era o de verificar se se poderia ou não caracterizar o ocorrido como violência de fato!

Ou seja, uma sequência de violências tiveram início dentro do ônibus e prosseguiram no âmbito do poder público, justamente aquele encarregado de zelar pela proteção e segurança do cidadão. Mas o que explica que haja tamanha dificuldade em reconhecer e caracterizar a violência contra a mulher como tal, mesmo quando praticada de maneira tão explícita? O que justifica que convivamos com uma condição endêmica de tais práticas? Penso que ambas perguntas apontam para um sintoma social.

Proponho aqui minha leitura sobre este fenômeno: o primeiro objeto de amor do bebê é, via de regra, a mãe. Mas o que chamamos de amor nesta fase da vida não é exatamente o tipo de ligação de amor romântico que conhecemos quando nos tornamos adultos. O bebezinho não percebe que sua mãe é uma outra pessoa, diferente dele. Sente, isto sim, que a mãe é um objeto de sua propriedade, uma extensão dele e que está lá onde ele o deseja, como já teorizado por um psicanalista de bebês e crianças inglês chamado Winnicott.

A mãe suficientemente boa, expressão cunhada pelo autor, se presta a ser este objeto que atende às demandas do bebê. Este é um estado de ilusão necessária na vida precoce do bebê. À medida em que cresce, se tudo se der de maneira satisfatória em seu desenvolvimento, a criança e depois o adulto, deve ser capaz de entender que aquela pessoa, sua mãe, é um sujeito diferente dele, com desejos e mente próprios, distintos dos dele. Entendendo isso, ele deverá então, ser capaz de tolerar a frustração de abdicar da mãe como um objeto que lhe pertence e escolher uma outra pessoa, um/a parceiro/a, com quem poderá, então, ter uma relação de trocas e parceria amorosa. A relação amorosa não pode ser uma relação de posse, uma vez que o outro não é um objeto e sim um sujeito.

Então, se na infância precoce de todo ser humano, é natural e desejável que a mãe se preste a ser objeto do desejo do bebê, na vida adulta, a perpetuação deste tipo de comportamento  configura perversão. Perversão é o ato de transformar uma outra pessoa, com uma singularidade própria, em objeto de uso de prazer pessoal, sem o consentimento desta.  Ao fazer isso, a pessoa é destituída de sua condição de sujeito e tratada como objeto. Esse é exatamente o caso de todos estes atos em que mulheres, meninas – ou qualquer pessoa em desigualdade de poderes -, são colocadas em situação de objeto, a serviço do desejo exclusivo de alguém, sem que sejam consideradas como um sujeito com vontades e direitos próprios.

O que isso tudo revela sobre a sentença do juiz no caso do ônibus?  Do meu ponto de vista revela que, quando um juiz julga um ato perverso como um ato menor, ele não está regido pelas leis que garantem a justiça e a ordem social, mas sim, pelas leis do infantil, que, quando atuadas pelo adulto, é perversa. Assim, ele é o ator que reproduz um sistema social.  

Outros dois elementos dão sustentação à manutenção deste código perverso, de violência endêmica contra mulheres. Um deles é o modelo da sociedade patriarcal que autoriza o homem a funcionar regido pela pulsão infantil, embora travestido de adulto. Ou seja, autoriza o homem adulto a acreditar que a mulher – representante da mãe – lhe pertence como objeto. Deste modo, o juiz no lugar de suposto saber, colabora na manutenção das crenças que regem as práticas entre homens e mulheres.

Outro elemento diz respeito à brutal defasagem dos lugares atribuídos a homens e mulheres no imaginário cultural. Este não corresponde às práticas sociais de fato. Estatísticas revelam que metade da força de trabalho do país é composta por mulheres, sendo ainda as mulheres, responsáveis exclusivas pelo sustento de quase metade das famílias brasileiras. O lugar infantilizado e fragilizado tantas vezes atribuído à mulher, não se verifica na sociedade contemporânea. Esses elementos associados, a meu ver, garantem a condição endêmica de violência no país.

Como nota final, vale dizer que na perversão, impera a vivência do indivíduo de que seu desejo e seu gozo pessoal estejam acima de tudo e sejam realizados independentemente dos possíveis danos ao próximo. Esse modelo, também endêmico no país como temos tristemente assistido nos últimos tempos, talvez nos dê pistas para entender o porquê da impossibilidade em verdadeiramente lutarmos para instaurar um modelo de igualdade e respeito entre todas as pessoas, a despeito do gênero.

 

Susana Muszkat é psicanalista e membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. E-mail: sumuszkat@gmail.com.