Sobre os dias de hoje

* Gizela Turkiewicz

Na política e na vida cotidiana, vivemos tempos de intolerância e de polarizações. Quando alguém vem ao nosso encontro, traz consigo uma parte do seu mundo lá de fora, e nós, analistas, também somos permeados por nossas experiências. A escuta analítica não se restringe à sala de análise, mas pode ser ampliada ao nos atentarmos para os acontecimentos do mundo ao redor, numa espécie de escuta da cultura, da qual todos somos sujeitos. Qualquer ameaça à democracia, ao livre pensamento e aos direitos básicos da humanidade, afeta a todos nós.

Hoje, eu atendi uma menina, uma moça, uma mulher. Ela chorou pela travesti do Arouche, pelo estudante queimado com ferro, pela mulher marcada com a suástica, por alguém morrendo a facadas. Como alguém é capaz de perseguir outro alguém e o matar com facadas? Será que eles não veem?

Chorou de medo e de decepção. Medo de ser atacada, violentada, de ter seus direitos roubados, de perder a liberdade, de não poder decidir. Medo de não mais existir. Não era medo da morte morrida, mas de ser apagada, anulada, desconsiderada, exilada. Exilada sem sair do país, exilada num isolamento onde ninguém a vê ou escuta.

Decepcionada, horrorizada com a liberdade ameaçada, a violência amenizada, com a relativização da barbárie, com o lugar a que já estamos. A que ponto chegamos? Isso já é triste, é muito triste termos chegado até aqui.

No divã, ela chorou lágrimas de decepção, de medo, de indignação; por não acreditar. Lágrimas de preocupação pelo amigo gay, pela mãe ativista, pelo pai professor, pelo namorado ateu, pela turma feminista, pelo colega cotista, por aqueles que não sabem o que estão fazendo.

Eu gostaria de ter algo a dizer. Eu gostaria de poder fazer uma associação que falasse sobre seu mundo interno, ou sobre algo que lhe fosse muito particular. Mas eu não pude. A única coisa que eu poderia oferecer a ela naquele momento era minha solidariedade.

Essa mulher poderia ser minha filha, minha mãe, minha irmã, minha melhor amiga ou uma desconhecida. Poderia ser eu ou você. Poderia ser todas e qualquer uma nós. Isso nos diz respeito.

Gizela Turkiewicz é psiquiatra e psicanalista, membro filiado do Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Entre heteros, homos, cis, x e trans…

*Cecília Orsini

Caro leitor, você sabia que esta verdadeira revolução dos costumes na sociedade ocidental, no que diz respeito às opções sexuais, começa em fins do século XIX, com Freud?

Bem, seria um tanto restritivo atribuir somente a Freud o início dessa revolução, já que muitas coisas concorreram para isso. Um pensador recolhe os elementos de época, os articula e os coloca na vanguarda de uma transformação que virá. Portanto, vou me ater a expor como a questão da sexualidade humana é captada, recolhida e transformada radicalmente a partir de Freud.

Como essa história começa? Corria no meio médico de meados do século 19 que a masturbação infantil era uma das fontes privilegiadas da loucura. Foi um século prolífico em tratados sobre os “desvios” sexuais. Em contrapartida, também se dizia à boca pequena que as histéricas (que respondiam pela maior parte dos casos de neurose) adoeciam por falta de relações sexuais normais. Enfim, sexo estava na cabeça dos puritanos da era vitoriana.

A partir da instauração da escuta analítica no tratamento das neuroses, Freud passa a dar importância aos relatos de qualquer natureza, sobretudo aqueles que davam passagem aos conteúdos inconscientes, motores da neurose: sonhos, atos falhos e rememorações da infância. Enfim, o lado avesso da vida de vigília… De um lado Freud tinha essa ferramenta em mão, mais o caldo de cultura referente à preocupação com a sexualidade e sua repressão. Por outro lado, observava-se a exigência de relações sexuais normais para que não se adoecesse. Tudo isso somado concorreu para que Freud escutasse a neurose a partir desse lugar. Assim, surgiam nos relatos os mais diferentes tipos de manisfestação sexual, incluindo a infância, em pacientes insuspeitos de uma conduta sexual “desviante”.

Assim, para dar conta desse fenômeno, Freud vai elaborar uma nova e revolucionária teoria da sexualidade humana. Num golpe de gênio, Freud descola a libido, ou pulsão sexual – concebida como a expressão psíquica da energia sexual – de qualquer objeto de satisfação pré-determinado. Ou seja, não há nada no ser humano que garanta a heterossexualidade e nem a fidelidade a um mesmo parceiro como um padrão biológico da espécie. Aliás, Freud vai demonstrar que não existe um instinto sexual que oriente as opções sexuais.

Para dar conta dessa tese, Freud monta seu argumento de maneira radical e sagaz, na obra seminal “Três ensaios para uma teoria da sexualidade”. Ele começa por fazer um inventário de variações sexuais, como homossexualidade, pedofilia, zoofilia, fetichismo.  Com isso vai desmontando a exclusividade de um objeto sexual convencionado como o correto, ou seja, o sexo oposto. Radicalizando ao máximo, Freud vai apelar para as mais repulsivas atividades sexuais, a necrofilia ou lamber excrementos, para demonstrar quão longe vai a distância da pulsão sexual em relação à heterossexualidade. A necrofilia seria o argumento decisivo onde se constata que a sexualidade pode abrigar objetos surpreendentes. E mais, ou o mais importante, é que as diferenças em relação à norma são encontráveis em pessoas comuns, em nada diferentes dos demais seres humanos, no que diz respeito a outros aspectos de seu comportamento. Freud convida o leitor a constatar a legitimidade das diferentes práticas sexuais que variam de acordo com a cultura, como a aceitação da homossexualidade na Grécia clássica. Ou da zoofilia no campo. Nos povos tutsis, o recém-nascido é recebido na comunidade numa cerimônia em que se serve uma refeição ritual preparada com as fezes do bebê…

O relativismo cultural, somado à constatação da variedade de escolhas, separa radicalmente libido e objeto de satisfação. Do ponto de vista da psicanálise, toda e qualquer atividade sexual é legítima, ainda que seja vista como imoral e condenável juridicamente, a depender dos valores éticos que cada sociedade estabelece (como a pedofilia ou a homossexualidade que até há pouco era criminalizada juridicamente). Para a psicanálise, dirá Freud, qualquer conduta está sujeita a explicações no interior de uma análise, até mesmo a escolha exclusiva de um parceiro do sexo oposto. A moralidade é uma convenção que se estabelece no contrato social, mas ela não elimina as peculiaridades do desejo humano. A libido é uma força plástica e elástica, capaz até de ser sublimada em atividades valorizadas pela cultura em tela. Colocam o bebezinho para manusear areia ou massinha, substituindo as fezes que costumam ser sua diversão.  E o bebê pode crescer e tornar-se um ceramista ou um escultor.

A questão é que – e esta é a outra face do argumento – o desejo tem uma história singular que começa no nascimento. É o que Freud vai chamar de sexualidade infantil, ou seja, a sexualidade não começa na puberdade. O que encontramos em nível do desejo sexual, são práticas cujo mapa da mina, ou do tesouro que é o prazer, encontram-se marcadas pela experiência da criança no encontro com o desejo daqueles que dela cuidam. O prazer acompanha as atividades de mamar, no primeiro ano de vida, que perduram no beijo e no sexo oral. Depois, no segundo ano de vida, reforça-se o interesse prazenteiro pelos movimentos esfincterianos, que perduram nos rituais de evacuação e no sexo anal. Vem a seguir, a partir de dois ou três anos, a  masturbação dos genitais que perduram no sexo solitário e, na criança, vinculam-se a  fantasias ligadas aos genitores, alvos das paixões da criança, que serão reprimidas pela educação e recalcadas no inconsciente. Essas chamadas fases do desenvolvimento psicossexual não são exatamente passagens de uma fase a outra, onde a anterior é eliminada. Pelo contrário, elas coexistem colorindo a sexualidade. De outro lado – e este aspecto é revolucionário e perturbador: o adulto cuidador traz as marcas de seu próprio desejo e lida com o corpo da criança orientado pelas mesmas. É desse encontro singular que se constrói a sexualidade, em conflito e na estreita dependência daquilo que é aceito socialmente.

Embora até a década de 70 a opção heterossexual fosse a única legítima, a revolução dos costumes foi se impondo.  Esse descolamento entre libido e escolha de objeto foi crucial. Foi revelado, construído como argumento e assim legitimado pela psicanálise. Na sua radicalidade, leva ao ponto em que estamos: pessoas que não querem definir-se nem sexualmente, nem enquanto gênero, instaurando o gênero neutro. Países que não colocam o gênero da criança em seu registro civil, creches em países escandinavos que usam o gênero neutro em suas práticas, como banheiros unissex com portas abertas. Como também se observa o aumento do número de pais que dão nomes unissex aos seus filhos.

No entanto, curiosamente, ou nem tanto, aquele que abriu as comportas dessa revolução, em seu tempo capitulou: afinal, porque na maioria casamos com alguém do sexo oposto e fazemos filhos? Para surpresa do leitor, Freud, nos seus “Três ensaios”, responde: pela necessidade biológica da espécie humana de “crescer e se multiplicar”… Era demais exigir que um único pensador, na alvorada do século 20, sustentasse sozinho uma revolução coletiva, que só viria a acontecer plenamente 120 anos depois…

Cecília Orsini é psicanalista e membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e professora de Freud no Instituto de Psicanálise da SBPSP.

(Imagem: Haafiz Shahimi – Confused Sexuality)

Sobre o Ressentimento

*Nilde J. Parada Franch

Tenho observado nos muitos anos de experiência clínica que o ressentimento é um fator bastante presente nas situações de parada e fixação em certas etapas do desenvolvimento emocional.

Os efeitos devastadores do rancor consequente ao ressentimento já foram assinalados há 25 séculos por Heráclito de Éfeso (540 AC): “Há que mostrar maior rapidez em acalmar um ressentimento do que em apagar um incêndio, pois as consequências do primeiro são infinitamente mais perigosas do que os resultados do último”.

O ressentimento provoca a permanência em um tempo de ruminação indigesta de uma ofensa que não cessa, de um luto que não se consegue elaborar, podendo trazer consigo a sede de vingança. Por outro lado, o ressentimento também pode abrigar uma esperança de o indivíduo lutar para instalar ou reinstalar o sentido da dignidade ferida.

O rancor pode mobilizar fantasias e ideias destrutivas, mas também favorecer o aparecimento de uma rebeldia e de um trabalho psíquico sublimatório que poderiam levar a restaurar as feridas provenientes de situações traumáticas.

Sándor Márai, escritor húngaro, aborda em seus livros temas sobre amor, segredos, ofensas, traições, perdão, vingança, compaixão e também ressentimento. Em “As Brasas”, conta-nos o último encontro de dois homens de mais de 75 anos, amigos inseparáveis na juventude. Depois de um afastamento de 41 anos, em consequência da traição do amigo com sua esposa, encontram-se para uma última conversa. Desde o momento da ruptura, interpuseram-se na linha do tempo as memórias do rancor e da dor, sem que pudessem falar sobre a situação. A traição da amizade, a infelicidade e o desconhecimento em relação à verdade fizeram com que Henrik, o ressentido, o desejante de vingança, aquele que se refugiava no rancor e na dor, permanecesse sequestrado por um ressentimento interminável, habitado por lutos patológicos que detiveram a passagem do tempo e o retiveram numa posição de reclamante litigioso, queixoso e reivindicativo. Não podia olhar para frente; seus olhos estavam como que “em sua nuca”, olhando apenas para a ofensa passada.

A grande amizade que os unira no passado mantinha alguma esperança de entendimento entre eles.

Márai e outros autores, como o filósofo Agamben e o escritor Octavio Paz, destacam a amizade como importantíssimo sentimento que marca a sensação de ser e de existir. ,

Através da memória da traição, do desapontamento, a pessoa permanece atada a situações traumáticas. Os sentimentos permanecem no campo do automatismo de repetição, sem poder reviver os afetos, integrando-os numa nova estrutura. O passado assombra e não há espaço para uma perspectiva diferente, para um futuro a ser construído. A pessoa vive em estado de precariedade, pois falta-lhe o sentimento de pertinência e de confiança. Não consegue estabelecer vínculos confiáveis e estáveis, já que está sempre presente o pavor de um novo trauma. Não consegue viver em paz. “Sinto-me como alguém que foi atirado em uma cela, como vítima, pois não fui consultado, não escolhi isso. Tenho que esperar o tempo de cumprir a pena” – são palavras que revelam o sofrimento e a consciência do tempo que leva à elaboração de tantos sentimentos contraditórios!

A memória da dor não implica a desvalorização do passado, nem a amnésia do traumático, nem mesmo a absolvição superficial do traumatizador, mas sim a aceitação com pena, ódio e dor pela situação imodificável, pela perda sofrida, pela frustração vivida, o que possibilitaria o processamento de um luto normal. Entretanto, a pulsão de vida, pode utilizar o não esquecimento como algo estruturante, como aprendizado para proteger o sujeito e evitar situações que poderiam ser evitadas. O passado pode ser transformado em uma experiência de aprendizado.

Aprender o quê? O mais importante, de meu ponto de vista, é o aprendizado sobre a presença de um outro, diferente e singular – e, portanto, não necessariamente disponível para atender às nossas expectativas, necessidades e desejos. Como se costuma dizer: aprender que “os olmos não dão peras” é necessário, ainda que muito sofrido, desidealizar o outro e aceitar suas limitações… Difícil trabalho diante de tanta dor!

Milan Kundera, em “A Brincadeira”, coloca-nos diante do personagem que, conseguindo perpetrar sua vingança, pergunta-se o que fará agora de sua vida, como preencherá o espaço que durante anos foi ocupado pelo ressentimento e alimentado por ideais de vingança. Passara anos de sua vida imaginando como fazer o outro sofrer o que havia sofrido, e agora?

Na clínica, enfrentamos situações bastante difíceis e dolorosas. O paciente sofre de um ressentimento absolutamente compreensível por expectativas não cumpridas. Como evitar o conluio culpabilizador e propiciador de estagnação na situação vitimizante, sem desqualificar o enorme sofrimento, as vivências de falta, o ódio?

Outra dificuldade frequente é a desconfiança sempre presente, como que à espera onipresente do momento de outra traição, incompreensão ou maus tratos.  Da idealização possível, quando o paciente se sente bem tratado e compreendido, rapidamente um buraco pode abrir-se quando há momentos de incompreensão ou falha do analista. E, nesse processo que vai passo a passo, sessão por sessão, momento a momento, a dupla vai caminhando na esperança de poder encontrar possibilidades de elaboração do luto, de encontrar palavras para dizer o ainda não dito, emoções que possam ser pensadas e que indiquem o caminho a seguir.

Nilde Parada Franch é psicanalista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, analista de crianças, adolescentes e adultos.

O Desamparo na Cidade

* Adriana Casagrande e Rita Andréa Alcântara de Mello

Como descrever uma cidade? Como descrever uma experiência com a cidade?

Vem à cabeça a personagem de Saint-Preux em A nova Heloisa, de Rousseau, quando narra sua experiência com uma cidade grande pela primeira vez: “Eu começo a sentir a embriaguez a que essa vida agitada e tumultuosa me condena. Com tal quantidade de objetos desfilando diante dos meus olhos, eu vou ficando aturdido…perturbam meus sentimentos, de modo a fazer com que eu esqueça o que sou e qual o meu lugar”.

Essa vivência pode ocorrer quando nos defrontamos com qualquer metrópole como Tóquio, Deli, Nova York, Cidade do México ou Pequim. Segundo a ONU, a previsão para 2050 é que seremos cerca de 9,8 bilhões de habitantes no planeta e, nas próximas décadas, as principais cidades terão mais de 10 milhões de habitantes.

Na década de 60, quando comecei a conhecer São Paulo, a cidade possuía aproximadamente quatro milhões de habitantes. Hoje, em um pouco mais de meio século, a população e a cidade mais que triplicaram, multiplicando, e muito, os seus problemas.

A cidade, com suas referências históricas, cedeu lugar a conglomerados indiferenciados. O espaço coletivo foi diminuindo, favorecendo o anonimato de pessoas e lugares. O crescimento, desordenado e desenfreado, favoreceu o rompimento das possibilidades de troca, de construções e de elaboração no tecido cultural da cidade.

Com esses problemas, como deixar de associar condições da vida urbana com condições de humanidade da população?

A cidade foi mudando para dar mais mobilidade e escoamento em suas vias. Surgiram grandes avenidas, marginais e calçadões dificultando o contato, a troca e a noção de individualidade; transformamo-nos em uma grande massa compactada, onde o tempo é sempre escasso, a correria é cotidiana, as pessoas são anônimas e os lugares sem narrativa.

O coração de São Paulo foi se transformando em um lugar frio e vazio, e essa “desordenação” deu lugar a uma cidade fragmentada, quebrando elos de comunicação e gerando grupos de pessoas isoladas, que sobrevivem num meio cultural empobrecido.

No último século, a cidade, relativamente segura, passou a ser relacionada a um lugar perigoso.  Os sociólogos B. Diken e C. Laustsen chegam a sugerir que o milenar “vínculo entre civilização e barbárie se inverteu. A vida urbana se transformou num estado de natureza caracterizado pelo domínio do terror, acompanhado pelo medo onipresente”.

Quando a cidade deixa de exercer sua função geradora e organizadora de sentidos, há a possibilidade de uma desagregação da rede simbólica que sustenta as trocas intersubjetivas, voltando a modos de funcionamento primitivos, formando aglomerações instáveis, desestabilizadoras e refratárias nas relações entre seus habitantes.

A cidade é o palco dos nossos dramas cotidianos; podemos fazer um paralelo dessa cidade fria, vazia, insegura e assustadora com os sentimentos despertos no morador da megalópole – a vivência do drama do vazio, da falta de sentido, do medo e do desamparo.

Em uma entrevista recente, o sociólogo Danilo Lima fala da cidade como ‘pessoa’; se a cidade é uma pessoa, que pessoa nossa cidade se tornou? Caótica, violenta, sem história, culturalmente empobrecida, sem condições de acolher seus filhos-cidadãos. Uma cidade em crise que espelha a crise que estamos vivendo psiquicamente.

Através de Winnicott conhecemos a mãe suficientemente boa, que oferece ao bebê condições para desenvolver seu potencial de vida. Sim, nascemos com um potencial e necessitamos de um espaço, onde possamos dar continuidade a esse desenvolvimento. Esse espaço é conquistado na relação mãe-bebê, mas não podemos esquecer que se faz necessária a presença de objetos e experiências culturais significativas para o amadurecimento. Se houver a ausência dessas experiências tão necessárias, o desamparo pode se instalar.

Voltando ao personagem de Nova Heloisa, que traz o contraste entre a pureza da vida – em contato com a natureza – e a corrupção da sociedade urbana; Rousseau apresenta o sentimento de embriaguez de Saint-Preux ao se defrontar, pela primeira vez, com a agitação e tumulto de Paris. Por vezes somos invadidos por esse sentimento frente ao ritmo alucinado da “cidade que nunca dorme” e da violência presente em seu dia a dia. Cotidianamente, vamos mantendo uma relação desumanizada com a cidade, tornando-nos desconectados das pessoas, do meio e de nós mesmos. O desamparo que experimentamos com essa desconexão pode nos paralisar. Passamos a sobreviver, e não mais viver todo o nosso potencial de vida.

Será que assim como Saint-Preux, estamos perto de esquecer quem somos, ou qual é o nosso lugar?

 

Adriana Casagrande é membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e especialista em Psicoterapia Psicanalítica pelo CEPSI

Rita Andréa Alcântara de Mello é membro filiado do Instituto Durval Marcondes da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e membro do Departamento de Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.

Sobre-humanos

*Adriana Rotelli Resende Rapeli

Recebi de meu filho mais novo uma mensagem: ele estava de luto pois Stan Lee, criador de super-heróis da Marvel, havia morrido aos 95 anos. Sei que ele tem gostado mais de Homem -Aranha. Como se fosse o próprio, cruza os prédios da grande cidade nos vertiginosos movimentos que o videogame lhe proporciona. Ele também está na fase de sua vida em que, como Peter Parker, ouve do tio: “Quanto mais poderes, maiores responsabilidades”. Vestir o traje de adulto, lançar suas teias e expandir seus domínios (sair da casa dos pais e da cidade natal, entrar na faculdade, escolher profissão, tirar sua habilitação de motorista, escolher outros amigos, namorar) é mesmo quase sobre-humano.

Os super-heróis de Stan Lee não são mera diversão. São pura diversão, aquela que não nos tira da realidade, mas como boas ficções, nos ligam à nossa realidade interna por outros caminhos. Parábolas para nossos próprias percalços, metáforas de nossa desafiante aventura de viver e de nos apossarmos de nossas capacidades e nossas fraquezas. A aventura de viver e assumir os riscos de existir com sua individualidade, nossa criatividade é a originalidade com que cada um desenvolve o que traz em si potencialmente.

Os heróis humanizados, como qualquer adulto, têm responsabilidades e ações consequentes. Eles são capazes de perder e ganhar, caírem muitas vezes e se levantarem –  talvez por isso, na ideia freudiana de um superego mais integrado, eles são capazes de rir e fazer rir. Eles têm o superpoder do bom humor, de rir de si mesmos, a capacidade de existirem apesar e por causa de suas diferenças: são aranhas, formigas ou panteras, são verdes ou negros, são feitos de pedra ou de ferro, são deste ou de outro planeta, são invisíveis, ou mudam de forma, viram fogo, voam, são estranhos ou são só o Coisa.  A possibilidade de identificação é gigantesca, a inevitável referência com o mundo globalizado que tem em sua sociedade – não só a americana –conflitos e a convivência democrática decorrentes da diversidade social e de raça, gênero e talentos. Ganhos e perdas de uma guerra infinita: o mundo eternamente precisando de salvação.

O dia que Stan Lee morreu foi o dia em que também fui assistir ao “Bohemian Rhapsody”, uma biografia de Freddie Mercury, o músico vocalista da banda de rock Queen. De ascendência paquistanesa – parsis que foram para a Índia – Farrouk Bulsara, nascido na África, estudou em Bombaim, tendo depois fugindo da guerra da Tanzânia e migrado para Inglaterra, para o subúrbio de Londres. Além de talentoso, era gay. São muitas as suas diferenças que Mercury ativamente se coloca e pode viver a excentricidade como talento de falar aos outros, de se mostrar no centro do palco como objeto de identificações.

A voz poderosa, seus gritos e gestos hiperbólicos marcam sua diferença que parece ter sido assumida com a força ativa do querer. Assenhorando-se dela, como majestade, o vôo de Mercury –  como o deus mitológico Hermes/ Mercúrio precisou ser mais rápido que os colegas de sua banda. Estes, também geniais, criativos, mas vindos socialmente de uma maior estabilidade, ingleses que estudavam engenharia, odontologia… Sim, todos eles precisaram pôr os pés na estrada e criaram um mundo em que as diferenças se fertilizam em arte.  É tudo fantasia ou a vida real?

De qualquer modo, fidedigno ou não aos fatos, o que se mostra no filme é que a performance musical da banda não é um escape à realidade. O processo criativo que culmina na música título do filme, por exemplo, é uma aventura que vai da lama criativa à fama. E nos divertimos com a confecção da colcha de retalhos que a música- eclética mistura de rock, ópera e o que mais vier – celebra em sua diversidade rítmica e sonora.  No meio de tudo, um filho que grita o perdão da sua mãe por ter se perdido no início de sua vida, despede-se do passado e encara a verdade.  “Is this real life? Is this just fantasy?”. 

Nosso herói, demasiado humano, sai da epopeia e entra na tragédia. Depois de também, como Peter Parker, ter sua Mary, ser o maior entre os seus, ele vive o drama de perder- se de si mesmo e fazer o penoso caminho de se reencontrar. Então, faz o caminho inverso agora da fama à lama, da adoração ao escárnio, do sucesso planetário à impotência diante de um vírus fatal. Indefeso, sofrendo da falta de imunidade, em sua via crucis, ele morre de seus próprios poderes. Nosso herói, como o nosso Cazuza fez e cantou, morre de overdose do mesmo vigor que lhe fez um rei. Como Freud nos lembra de nossas entidades míticas, Eros e Thânatos nos habitam, aqui e ali travam conflitos mortais.

Quando Queen e Freddie Mercury ficaram conhecidos mundialmente nos anos 1970 e 80, eu própria engatinhava nos passos que hoje meu filho faz e fui embalada pelo maestro da multidão que cantava que éramos todos os campeões. Viver é perigoso, dizia o herói do grande sertão de Guimarães Rosa. Como um homem comum, recuperado em sua humanidade, depois das multidões lhe aclamando, ele só precisa do prêmio de um amigo, de um amor. Afinal,  “é sobre-humano amar, sentir, doer, gozar, sentir, ser feliz”.[1]

[1]  Mais Simples,  canção de José Miguel Wisnick, de 1993, gravação de Zizi Possi, no CD Mais Simples, de 1996.

 

REFERÊNCIAS

  • FREUD, S. Além do Princípio do Prazer (1920). In: _-. Edição standard das obras psicológicas completas, vol. XVIII. Rio de Janeiro, Imago, 1996
  • ________ O humor (1927). In: _-. Edição standard das obras psicológicas completas, vol. XXI. Rio de Janeiro, Imago, 1996
  • ROSA, J.G. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986

Adriana Rotelli Resende Rapeli é psiquiatra e psicanalista.

 

PENSAMENTOS SELVAGENS

*João Carlos Braga

Como muitos conceitos e formulações, a expressão pensamentos selvagens é encontrada tanto sendo utilizada como parte do pensamento psicanalítico quanto em linguagem leiga. Em ambas utilizações, o significado da expressão é convergente, mas há especificidades em seu uso como um referente em Psicanálise. Será este último o enquadre do que se segue.

 A) COLOCANDO EM PERSPECTIVA.

A contribuição de Wilfred R. Bion (1897-1978) à Psicanálise pode ser resumida na proposta de estudar o papel do pensar e dos pensamentos na teoria e na prática psicanalítica. Para isso, delimita a atividade do analista à observação e formulação da experiência que vive com seu (sua) analisando(a) na sessão analítica; ou seja, o campo de formação, captação e operacionalização de pensamentos, assim como os processos do pensar.

Em sua teoria do pensar (1962), Bion propôs uma inversão na forma tradicional de compreendermos os pensamentos e sua gênese: os pensamentos existem antes do pensar e é sua existência que cria a necessidade de desenvolvermos um “aparelho para pensar”. Esta teoria limita-se aos pensamentos formados a partir da experiência do indivíduo, ou seja, os pensamentos de um pensador.

Após fazer expansões em sua visão da mente com a teoria das transformações (1965), Bion propõe um novo parâmetro para os pensamentos, possivelmente apoiando-se em Gotlob Frege (1918): pensamentos existem independentemente dos pensadores. São realidades com existência própria e cabe ao pensador deixar-se acessar por eles. Mais uma vez, uma inversão na perspectiva tradicional.

Refere-se a esta visão de pensamentos sem pensador em poucos trabalhos subsequentes. Dentre estes, em um momento de livre pensar, gravado em fita cassete ao se preparar para os seminários que iria fazer em Roma (1977), faz uma espécie de classificação dos pensamentos sem pensador: pensamentos extraviados, pensamentos com nome e endereço do autor e pensamentos selvagens.

B) PENSAMENTOS SELVAGENS

Em Domesticando pensamentos selvagens [1977 (2016), p.39] descreve os pensamentos selvagens como a nomeação de uma conjunção constante que reúne um grupo de pensamentos com as seguintes características: i) para os quais não há possibilidade  de traçar de imediato qualquer tipo de propriedade (autor) e ii) para os quais não há possibilidade de se tomar conhecimento da genealogia deste pensamento.

Além destas características descritas por Bion, gostaria de acrescentar que são pensamentos que irrompem na mente subvertendo a camada de pensamentos organizados (civilizados, então), advindos de um contato direto com a realidade ou do funcionamento somático-fisiológico do indivíduo (mente primordial), provocando estranhamento, estados de repulsa, de medo ou mesmo de terror.

Em Psicanálise, o pensamento pensamentos selvagens permanece sem uma conceituação suficiente para reivindicar um valor científico. Penso que foi uma tentativa de Bion de abarcar, em um nível de maior abstração, diferentes manifestações diretas de pensamentos sem pensador. Penso também que o curto período em que esta concepção aparece em suas formulações (maio de 1977 a abril de 1978), deixa entrever o pequeno interesse do autor por ela. Por exemplo, não identifiquei registros de que ele a tenha utilizado, explicitamente, em supervisões em 1978, em São Paulo. Pode, porém, deliberadamente, tê-la deixado obscura, evitando conceituá-la para não a engessar, como nos apontou em várias passagens sobre cuidados na apropriação de pensamentos com características não simbólicas; ou que não identificou nela um maior potencial para explorações psicanalíticas. De fato, a aquisição de uma condição científica tornaria esta concepção pouco útil na prática clínica voltada ao tornar-se a realidade, embora seja útil para a comunicação entre psicanalistas – a dimensão do conhecer, pois.

Há três concepções de pensamentos selvagens que podemos deduzir convivendo nesta conjectura de Bion:

  1. Pensamentos selvagens são pensamentos sem pensador capturados por um pensador – ou que capturam o pensador – sem história prévia de fazer parte do campo de conhecimento humano. Neste sentido, psicanálise, ao ser concebida e formulada por Freud, seria um exemplo. Situações clínicas em sessões analíticas, próprias a um evento único, seriam outros exemplos.
  2. Pensamentos selvagens são pensamentos sem pensador que se extraviaram na dimensão do conhecer, que ainda não foram domesticados pelo indivíduo que os captura (ou que por eles é capturado), embora já tenham sido anteriormente domesticados e formulados por autores conhecidos pelo pensador. O próprio pensamento pensamento selvagem pode ser um bom exemplo desta compreensão: um pensamento sem pensador extraviado, com proprietário (Bion) e endereço (Domesticando pensamentos selvagens, 1977), mas que é selvagem para o indivíduo que ainda não tomou conhecimento desta formulação.
  3. Pensamentos selvagens são pensamento sem um pensador que se extraviaram e que aparecem no campo do conhecer, sem que nele tenham adquirido um pensador ou que por este ainda não tenham sido adquiridos. Nesta compreensão, pensamentos selvagens seriam equacionados a coisas-em-si, a pensamentos sem pensador em estado originário, fora de nosso alcance e assim também fora de nossas possibilidades de com eles operar.

C) UM EXEMPLO CLÍNICO

Amália entra na sala de sessões, após nos encontrarmos na sala de espera, em um contato em que nada em especial chamara minha atenção. Seguindo-a, vejo-a sentada na beirada do divã fazendo movimentos de arrumar a blusa, ajeitando-a em torno do pescoço, com cuidado, para em seguida deitar-se. Cruza-me um pensamento inesperado: “arruma a gravata”. Fico surpreso e me percebo em um trabalho mental de fazer associações, de buscar significados em minha experiência de análise com ela. Ao tomar consciência deste esforço, busco manter minha mente livre, mas disponível para algum elemento que venha a surgir durante a sessão e que possa se conjugar com este pensamento e dar-lhe algum sentido. Nada digo a Amália sobre meu pensamento estranho.

João Carlos Braga é membro efetivo e analista didata da SBPSP e GPC.

 

O Duplo: permanência e transitoriedade

*Ignácio Paim Filho

XXVII Congresso Brasileiro de Psicanálise – 2019

O Estranho – Inconfidências

 

A verdade, porém, é que o escritor verdadeiramente criativo jamais obedece a essa injunção. A descrição da mente humana é, na verdade, seu campo mais legitimo; desde tempos imemoriais ele tem sido um precursor da ciência e, portanto, também da psicologia cientifica (Freud. 1907,)

 

São Paulo, 30 de novembro e 01 de dezembro de 2018. Nestas datas, a FEBRAPSI e a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo promoverão uma atividade conjunta, com o objetivo de trabalhar a temática do próximo congresso brasileiro, que ocorrerá em Belo Horizonte, de 19 a 22 de junho de 2019.

Nessa oportunidade abordaremos, com especial atenção, o intrigante fenômeno do Duplo (alma imortal?) exercitando um diálogo interrogativo entre a metapsicologia, a clínica e a literatura. Por esse intercurso pretendemos abordar o estranho processo pelo qual ocorre a constituição do Eu, no seu trânsito entre Narciso e Édipo, com seus mandatos endogâmicos e exogâmicos.

Freud (1919), com um objetivo semelhante, faz uma interlocução com Hoffmann, através do Homem de Areia, que legitima sua sinistra afirmação de 1907, em relação os escritores criativos: precursor da ciência, ou ainda, da psicologia cientifica. Prenuncio da sua celebre confidência, com certa dose de inconfidência, de 1922, em relação à Schnitzler: Acho que evitei o senhor por causa de uma espécie de relutância em conhecer o meu duplo. Modo próprio, de usar si como objeto de estudo, visando ratificar a sua busca, para fazer do estranho, exemplificado no duplo, um conceito especifico. Nesse sentido segue: […] suas reflexões sobre a polaridade do amor e a morte, tudo isso me comoveu com inquietante familiaridade (Freud, 1922).

Por meio de uma fértil interação com o mestre da literatura fantástica, Freud, tal qual Schnitzler, vai explorar as profundezas psicológicas que estão implicadas nas vicissitudes pulsionais de Natanael: do representável ao irrepresentável. O estranho se apresentado em suas diferentes roupagens, desacomodando a lógica do processo secundário, permitindo que venha a luz o secreto, de forma clandestina, com seus inebriantes mistérios. Nosso enigmático protagonista desliza em meio a figuras – Pai/Coppelius; Olímpia/Clara; Coppola/Spalanzani – com os quais estabelece uma relação de complementariedade, que dão voz ao conhecido/desconhecido em si: revelando o duplo, em seu aspecto protetor, garantia de viabilizar uma existência para Eu e o tanático, quando da sua persistência não metabolizada (sombra do objeto?). Por esses caminhos a temática da cisão, o mais além do recalque, se presentifica. A renegação começa a desenhar o seu lugar na estruturação anímica: enérgico desmentido do poder da morte (Rank, 1914). Diante dessas considerações poderíamos compreender o duplo como tendo seu destino determinado pela pulsão de apoderamento das figuras parentais? Império do ser em detrimento do ter? Permanência e transitoriedade tecendo o elo entre Eros e destrutividade?

Na narrativa do Das Unheimliche (1919), o escritor/analista Freud, tal quais os escritores criativos, vai convidando o leitor a deixar-se levar por essa experiência estética: a importância de viver em si essa peculiar sensação. A qualidade do sentir no intercâmbio entre o repulsivo e o doloroso, vai gerando estranhamentos e anunciando a problemática da eterna repetição do mesmo. A castração, marca do corte, vai sendo teatralizada, entre ser reconhecida e não conhecida, na vida fantasmática dos personagens do conto de Amadeus Hoffmann, gerando dúvidas quanto à veracidade dos fatos: fantasia ou realidade?

Esses são alguns apontamentos, que deixo registrado, na expectativa que sejam propulsores do desejo de revisitar o pensamento freudiano. Tendo como sinalizador a inquietante recomendação: Olhar as mesmas coisas repetidas vezes até que elas comecem a falar por si mesma (Charcot, citado por Freud, 1914).

Abraços, até breve.

Aguardamos vocês

Ignácio Paim Filho é psicanalista, membro titular da  SBPdePA (Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre) e diretor cientifico da FEBRAPSI.   

Sobre a série Escrita Psicanalítica

*Marina Massi

O projeto de uma série com livros de autores da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) é fruto da pesquisa de doutorado Trinta anos de história da Revista Brasileira de Psicanálise: um recorte paulista. Nessa tese, abordei os artigos publicados na revista, de 1967 a 1996, por psicanalistas da SBPSP.

Entre os vários aspectos que pude observar, destacou-se a necessidade de organizar a produção psicanalítica dessa instituição, de seus primórdios aos dias de hoje, divulgada em revistas especializadas, atividades científicas ou aulas ministradas nos institutos de formação, influenciando várias gerações de profissionais ligados à Associação Psicanalítica Internacional (IPA).

A série Escrita Psicanalítica tem justamente a ambiciosa proposta de reunir, organizar, registrar, publicar, divulgar e consolidar a produção dos pioneiros e das gerações posteriores da SBPSP. Busca também retratar, para a própria instituição, o que nela foi criado de importante desde a sua fundação. Conta, assim, a história da SBPSP pelo veio da produção e da criação psicanalítica.

Esta série lança um olhar para o passado, pois organiza o que de melhor já foi feito, e um olhar para o futuro, pois transmite a fortuna da SBPSP não só como memória, mas como um importante material de estudo para os diferentes institutos de formação psicanalítica e cursos de pós-graduação no Brasil, além de para o público interessado.

Esta é uma oportunidade de promover uma leitura da história das ideias psicanalíticas – uma leitura crítica, comparada – e, ao mesmo tempo, permitir que os psicanalistas aqui apresentados sejam considerados enquanto autores, produtores de ideias e teorias; é uma oportunidade de sair do campo transferencial institucional e passar ao campo das ideias, da reflexão e do debate para além da pessoa do psicanalista.

A ciência e a arte necessitam de organização (ou curadoria) da contribuição que o ser humano foi e é capaz de realizar. Espero que esta série cumpra o objetivo de ser a história das ideias de muitos colegas brasileiros no âmbito da IPA, alguns infelizmente não estão mais entre nós, outros ainda estão em plena produção.

  • Marina Massi é Coordenadora da Série Escrita Psicanalítica.

EXISTE RELACIONAMENTO AMOROSO SEM SOFRIMENTO PSÍQUICO?

*Patricia Vianna Getlinger

Será que é possível minimizar ou eliminar a angústia e o sofrimento nas relações amorosas? Será que os casais contemporâneos que decidem abolir contratos preestabelecidos sofrem menos? Ou os acordos feitos “sob medida” por cada casal resultam em maior liberdade e felicidade?

Por outro lado, o que pensar quando os “novos” acertos entre o casal falham? Quando mesmo tentando criar modelos mais livres para os relacionamentos, alguém se sente “de fora” e se incomoda em não ser o único nem o preferido? Afinal, o ciúme é uma emoção legítima, ou é vergonhoso ser ciumento? E indo além, é errado pretender um amor exclusivo?

Temos visto surgir um número crescente de relacionamentos “abertos”, em que os parceiros (seja nas relações hétero, seja nas homoeróticas) buscam rever e redefinir conceitos como fidelidade e exclusividade sexual, abrindo a relação para a entrada de terceiros. Isso também ocorre nos casos de poliamor, que quando pretendem ser relações amorosas estáveis, pressupõem de forma mais evidente ainda a reconsideração da monogamia. Uma das observações mais interessantes quanto à dinâmica das relações abertas, é que elas costumam ter parâmetros particulares, criados pela dupla ou pelo grupo, que regulam e relativizam a “liberdade total”. Por que isso costuma acontecer?

O que se observa é que em cada caso, embora geralmente se parta da intenção de não ter regras, acaba surgindo a necessidade de se estabelecer um acordo específico. Alguns preceitos organizadores de um relacionamento aberto, por exemplo, podem determinar que ter relações sexuais com outras pessoas não será considerado traição desde que todos estejam presentes na cena; ou que a intenção seja comunicada antes ao parceiro ou parceira; ou que tudo seja relatado depois; ou ainda, que não se chegue ao orgasmo com terceiros. Esses são alguns padrões cerceadores, mas o que nos interessa discutir, é: por que esses parâmetros se tornam necessários? Ou seja, por que, mesmo quando se tenta evitar certas convenções, elas são reinseridas pelos mesmos sujeitos que as tinham abolido?

O que se verifica em qualquer relação amorosa, especialmente as não monogâmicas, é que prever ou controlar sentimentos como ciúme não é possível. Como saber se o “terceiro incluído” no casal não vai despertar uma paixão no meu companheiro ou companheira? E se eu flagrar um olhar mais intenso do que eu gostaria entre eles? No fim, sempre corremos o risco de que alguém se sinta menos importante, menos amado ou mesmo excluído. Mas, afinal, por que é tão desconfortável ficar de fora?

Desde a situação infantil de exclusão do casal parental, presente no modelo freudiano do filho fora do quarto dos pais, temos que lidar com esse desconforto e com a angústia que ele causa. A resolução do complexo de Édipo passa por adiar a fantasia infantil de parear com um dos pais e de deixar o outro de fora. Suportar a condição da própria exclusão exige da criança (e continua exigindo do adulto) que todos lidemos com o desejo onipotente de ser o mais especial e o centro das atenções. Requer que aceitemos a incompletude ou, em outras palavras, que elaboremos a castração simbólica.

Mas o processo de luto dessa posição onipotente é sempre inconcluso. E isso mantém a posição infantil sempre “à espreita”, buscando uma possível satisfação, que quando ocorre é muito prazerosa e de certo modo faz parte do equilíbrio psíquico. Assim, todos guardamos resquícios desse momento inicial de vida, que são reativados ao longo da infância e em muitas experiências ulteriores: querer ser o preferido dos pais com relação aos irmãos, tornar-se o queridinho da professora, atrair a admiração do chefe, ou mesmo chamar a atenção pelo aspecto inverso: ser o que dá mais trabalho, o que sempre perturba e recebe críticas etc. Em um caso e no outro, o que é satisfeito é o desejo infantil de sentir-se único, ser o eleito ou manter-se em evidência.

Com o fim da infância, fazemos o luto (incompleto) dessa posição onipotente e mesmo percebendo, com maior ou menor dor, que os pais têm um ao outro, que os irmãos também são amados, que há outros alunos que cativam a professora e que não somos o eleito pelo chefe, continuamos precisando de reasseguramentos narcísicos desse tipo. E qual é a experiência posterior com maior potencial de restaurar os sentimentos de estar incluído e de ser sui generis para alguém?

O apaixonamento. Esse estado recupera a sensação prazerosa de ser o escolhido e de ser mais encantador do que todas as outras pessoas.  Ou seja, a paixão e o amar e ser amado restituem parte da ferida narcísica operada pela castração. Até aí, isso nos ajuda a compreender porque é tão bom se apaixonar. Mas, de onde vêm a angústia e o sofrimento nas relações amorosas, sejam elas “abertas” ou “fechadas”?

Da ameaça de que esse estado idílico seja ameaçado e perdido. A alegria de reviver a ilusão de completude narcísica promovida pela paixão pode ser simultânea ao temor de sua perda. De fato, esse efeito paradoxal decorre dos indícios de que a sensação tão maravilhosa de reviver a onipotência infantil pode acabar, comprometida pela entrada de um terceiro que roube o nosso lugar e corte essa utopia, transformando-a num engodo.

Talvez os novos relacionamentos abertos sejam uma tentativa interessante de tentar diminuir os efeitos nocivos da exclusão, definindo que ela não deve incomodar. O equilíbrio, entretanto, mostra-se instável, como demonstram o surgimento (e muitas vezes o aumento crescente) dos acordos particulares que dão contorno à liberdade total. Esses limites restabelecem o que fica “de dentro” e o que fica “de fora”, reeditando as fronteiras simbólicas do triângulo edípico e evidenciando seja a dificuldade de se relacionar com absoluta soltura, seja certo conforto diante de fronteiras claras. Negar a dependência afetiva e o prazer da exclusividade, buscando ser “evoluído” e não sentir ciúme, pode funcionar por um tempo. Mas não garante menos sofrimento nas relações amorosas. E, afinal, se podemos restaurar a experiência de ser único, mesmo sabendo que é ilusória, por que recusá-la?

*Patricia Vianna Getlinger é membro associado da SBPSP-SP e membro do Departamento de psicanálise do instituto Sedes Sapientiae

 

Imagem: “Couple”, de Jarek Puczel.

Big Eyes e a Perversão Narcísica

*Vera Lamanno Adamo

A perversão narcísica diz respeito a um modo de se equilibrar fazendo valer à custa de um outro.

Enquanto, na estrutura perversa, o outro é desumanizado, isto é, o outro é coisificado, na perversão narcísica, o indivíduo recusa o valor do outro, para manter-se imune ao conflito e à dor mental.

Na perversão narcísica, o indivíduo usurpa o lugar e o valor do outro, negando ao outro o direito ao próprio narcisismo. O narcísico perverso sequestra o narcisismo do outro. Acredita que para não se sentir perdido e sem saída (embora não o assuma ou admita) é preciso se valer da vitalidade e criatividade do outro, sugá-lo, desrespeitá-lo, para submetê-lo ao seu domínio.

No entanto, a violência cotidiana exercida pelo perverso narcísico não é do mesmo tipo de uma relação sadomasoquista, não é uma perversão explícita, ela entra no dia a dia de forma silenciosa, velada e enganadora, passando quase despercebida.

Enquanto o sádico experimenta prazer humilhando e maltratando o outro, o perverso narcísico age por intimidação, produzindo perplexidade, paralisia e desvalorização, invadindo a mente de sua vítima/cúmplice por produção de culpa.

A vítima/cúmplice acaba aceitando todo tipo de compromisso em detrimento da própria autoestima, executando, muitas vezes, atos contrários à sua moral, pois se sente como um herói chamado a um grande combate, onde suas virtudes reparadoras poderão ser postas à prova.

A história real de Walter e Margaret Keane, retratada no filme Big Eyes, de Tim Burton (2014), ilustra bem a dinâmica do narcísico perverso e sua vítima/cúmplice.

Na década de 1960, Walter Keane foi homenageado por seus retratos sentimentais – crianças com grandes olhos – que vendiam aos milhões. Mas, na verdade, Margaret, sua esposa, era a artista que trabalhava, em virtual escravidão, para manter o sucesso do marido.

Eles se conheceram, aparentemente, em uma exposição de arte ao ar livre, em São Francisco. Mais tarde, à noite, se encontraram.  Casaram-se pouco tempo depois. Margaret estava se sentindo culpada pela separação, insegura e incapacitada para criar sua filha sozinha.

Os dois primeiros anos de casamento foram bons, mas tudo mudou na noite em que Margaret descobriu que Walter estava vendendo suas “crianças de grandes olhos” como se fossem suas produções. Eles estavam em uma espécie de salão, em São Francisco, Walter estava vendendo os quadros, quando alguém de repente perguntou à Margaret: “Você também pinta?”. Ela ficou chocada ao descobrir que o marido levava todo o crédito do trabalho dela, para si mesmo.

Em casa, ela pediu para desmanchar esta mentira, para que ele revelasse a verdade, e Walter, se justificando, disse: “nós precisamos do dinheiro, as pessoas tendem a comprar quadros quando acham que estão conversando com o artista, elas não querem saber que não sou eu o pintor e que preciso que minha mulher pinte, as pessoas já acreditam que eu sou o pintor das “crianças de grandes olhos”, se eu, de repente, disser que é você, eles irão nos processar”.

Margaret cedeu à mentira.

Walter ofereceu uma solução: “ensine-me como pintar essas crianças de olhos grandes”. Ela tentou, mas ele não conseguiu e dizia que era por culpa dela que não tinha paciência para ensiná-lo.

Margaret sentiu-se cada vez mais trapaceada e incomodada com aquela fraude. Querendo se livrar desta impostura, solicitava a Walter que dissesse a verdade e ele reagia cada vez mais com ameaças de violência.

Margaret se intimidava e acabava levando a situação adiante.

Nos anos 60, as pinturas, pôsteres e postcards de Margaret ganharam fama internacional e estavam em todos os lugares, como livrarias, shoppings, museus, mas ela não tinha acesso ao dinheiro. Eles se mudaram para uma bela casa com piscina e empregados, Margaret não precisava fazer nada, exceto pintar. Nesta casa, ela ficava trancada em seu atelier, onde ninguém podia entrar nem mesmo sua filha. Até mesmo os empregados não sabiam disto e quando Walter saia, ligava, de hora em hora, para saber se ela estava em casa. Margaret sempre pintava em segredo em seu atelier, com portas fechadas e a cortina cerrada.

Depois de dez anos casados, oito deles terríficos, Margaret pediu o divórcio. Walter se desesperou: “Você vai destruir tudo… você vai me destruir… eu só queria ser um pintor, só isto.”. Margaret não cedia e, com a desenvoltura de um showman e a frieza de um impostor, Walter dizia: “ninguém saberá a diferença entre a cópia e o original”.

Margaret sustentou sua decisão, mas prometeu a Walter que continuaria pintando por ele. Depois de ter lhe enviado umas vinte ou trinta pinturas, decidiu que não iria mais compactuar com aquela farsa e que dali em diante só falaria a verdade. Levou um longo tempo para Margareth reconhecer que estava sendo cúmplice de uma violência silenciosa e que, ao longo do tempo, foi ruindo ainda mais a sua autoestima e paz interior.

A história de Margareth e Walter Kane, a dinâmica vampiresca que se estabeleceu entre eles, está pintada em cores fortes. No entanto, esta dinâmica, na maioria das vezes, é muito mais camuflada.

O vampiro, figura mitológica, como sugerem as abundantes histórias na literatura, apresenta-se desde uma aparência repugnante, representada nas lendas de diferentes povos da antiguidade, até a figura aristocrática, carismática e sofisticada, descrita no romance de John Polidori, The Vampire. Cada um deles apresenta diferentes graus de sofisticação nos atos de sedução, manipulação e indução de culpa, com o objetivo de sugar a essência vital de sua vítima/cúmplice.

 

Referências

Martins, A. (2009) – Uma violência silenciosa: considerações sobre a perversão narcísica. Cad. Psicanal. – CPRJ. v.31, n.22, 37-56.

Parttrey, A., Nelson, C. (2014)- Citizen Kane: the big lies behind the big eyes. Feral House.

Racamier, P.C. (1992) – On Narcisistic Perversion. Int. Journal. Psychoanal., vol 95, 1, 119-132, 2014.

 

*Vera Adamo é membro efetivo, analista didata e docente do Grupo de Estudos Psicanalíticos de Campinas e da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.