A moda está fora de moda

Luciana Saddi, Miriam Tawil e Sylvia Pupo*

Acontece até 5 de maio em Nova York no museu do Fashion Institute of Technology  a exposição ”The Body: Fashion and Physique” , algo como “O corpo: a moda e o físico”, aludindo a suas dimensões – coberta e descoberta. O FIT é uma renomada escola de design, moda, artes, comunicação e negócios e teve como alunos Calvin Klein e Carolina Herrera, entre outros fashionistas famosos.

A indústria da moda tratou historicamente o corpo feminino como se fosse maleável, moldável e modificável, como matéria de escultura. Isso se dá até os dias de hoje, por meio da modelagem das vestimentas, as dietas, cirurgias, procedimentos de beleza e incentivos exagerados a exercícios físicos que deixam, muitas vezes, de levar em conta as possibilidades individuais.

A exposição percorre a história das “torturas” impostas às mulheres ao longo dos séculos, apoiadas em padrões de beleza que oscilaram de acordo com os ditames da moda e, consequentemente, da Cultura.

Antes do século 20 a figura feminina ideal era madura e curvilínea, muito diferente do ideal estético de hoje. Espartilhos, ombreiras, cinturas altas e baixas, convidaram mulheres ao longo dos tempos a mutilarem-se, espremerem-se, para corresponder aos padrões estéticos esperados, no anseio de sentirem-se atraentes e aceitas.

Por que valorizamos tanto a beleza? De onde surgem os critérios que demandam a necessidade de submetimento tirânico por parte dos indivíduos aos ideais estéticos de cada época?

Desde que o homem começou a cobrir suas partes íntimas, a roupa passou a funcionar como uma segunda pele, protegendo-o das condições climáticas adversas. A vestimenta também nos possibilita conviver socialmente. O vestir, entretanto, se tornou algo muito além da necessidade de cobrir-se; os trapos deixaram de bastar e a roupa adquiriu um estatuto de desejo, marca de identidade, caracterização de grupo de pertencimento ou de classe social.

A moda é o principal meio para pensarmos e apresentarmos o nosso corpo. A moda engessa, uniformiza ou liberta?

Alguns usam a moda – e fazem moda – para comunicar algo particular e único. Outros, por meio  da moda, apagam qualquer traço de singularidade;  perguntam : – “o que está na moda?”, revelando sujeitos que olham para fora de si, que buscam a impressão que causam refletida no olhar de outro. A aparência tem impacto. Quem não deseja ser atraente e irresistível? A moda serve também para fazer-se notar, age como uma extensão do Eu daquele que se veste. Um recurso para atrair o outro, para ser objeto de seu desejo.

Muitas pessoas são levadas a acreditar que estão de fora ou por fora, que não cabem em nenhum lugar, que são indesejáveis, pois seus corpos e sua aparência não seguem os padrões ideais que, na atualidade, envolvem ser magro, branco e jovem.

A intolerância à diversidade dos corpos é fomentada diariamente pelos meios de comunicação, mensageiros da cultura. Isso vale tanto para a aparência na sua estrutura (o físico) quanto na sua cobertura (a moda).

Outro dia a filha adolescente de uma amiga foi brutalmente humilhada ao pedir um vestido numa loja. O vendedor disse que não tinha o seu tamanho pois não trabalhavam com vestidos para mulheres gordas. Um momento gostoso, de comprar uma roupa, tornou-se fonte de angústia e dor. Mulheres e meninas são maltratadas constantemente em ocasiões como essas; são constrangidas pela enorme indústria do preconceito que fomenta a vergonha e o repúdio ao próprio corpo.

Em vez de a moda nos servir, adequar-se aos nossos corpos, os corpos são obrigados a adequar-se à moda. Talvez fosse o caso de responder: – “uma pena que sua marca não tenha criatividade o suficiente para vestir as mulheres como elas são!”

O sofrimento que a moda causa está ficando fora de moda. Mas ao contrário, o que nunca vai sair de moda, é cada um poder ser e se expressar como é.

Nós, Luciana Saddi, Miriam Tawil e Sylvia Pupo, autoras desse texto, somos psicanalistas da SBPSP, integrantes do Grupo Corpo e Cultura e representantes do Movimento Endangered Bodies em São Paulo.

O Grupo Corpo e Cultura promove campanhas de conscientização e prevenção em relação a quaisquer formas de autoagressão, incluindo corpos e mentes. Entre as iniciativas estão as campanhas “Cirurgia não é brinquedo” (http: //change.org/cirurgianaoebrincadeira), que retirou da Apple aplicativos infantis para realizar cirurgias plásticas foi um sucesso, com mais de cem mil assinaturas;  Love your Body – be you inside & out (www.endangeredbodies.org), contra a cultura do ódio ao corpo e The Real You is Sexy (https://www.theodysseyonline.com/the-real-you-is-sexy), que elimina o uso de Photoshop nas fotos dos modelos, também combatem o mito da perfeição dos corpos e oferecem diversidade. Todas elas alertam quanto à violência silenciosa da ditadura da imagem e seu impacto na autoestima e no prazer.

Luciana Saddi, Miriam Tawil e Sylvia Pupo são psicanalistas, membros da SBPSP, integrantes do Grupo Corpo e Cultura e representantes do Movimento Endangered Bodies em São Paulo (http://www.saopaulo.endangeredbodies.org/).

O primeiro sutiã…a gente nunca esquece!

Karin Szapiro*

Quem viu, lembra. A famosa campanha publicitária de Washington Olivetto para a marca Valisere em 1987. Trata-se de uma menina de uns 12 anos que ganha seu primeiro sutiã. Ela chega no quarto e surpreende-se com uma caixa de presentes deixada sobre a cama. Ao abrir a caixa, fica maravilhada com seu primeiro sutiã. Veste-se delicadamente, olha-se com encanto e poesia e suspira: “Como é lindo! Como esse sutiã me deixa feminina!”

Já vestida com seu sutiã, a menina então desfila na rua pela primeira vez, um tanto deslumbrada e ao mesmo tempo acanhada com sua entrada no mundo adulto. O filme é inesquecível, e passados 30 anos dessa campanha premiadíssima, o encanto de tornar-se mulher continua o mesmo. Afinal, não se nasce mulher, torna-se.

É um devir delicado e cheio de contradições. A menina que brincou todo o tempo de ser a mocinha, que sonhou com esse momento mágico, é tomada de emoção ao perceber que seus mamilos crescem, os seios despontam, seu bumbum esta cada vez mais arredondado e seu quadril mais volumoso.

Chega a menarca, a primeira menstruação, ela experimenta então o primeiro absorvente. É um turbilhão de sensações que acompanham tantas transformações e novidades do seu corpo. Era uma vez uma menina. Agora, abre-se o lugar para uma mulher que vai surgindo.

A menina da propaganda se encanta com o novo, mas também se assusta na rua ao se perceber admirada por um rapaz. Logo esconde seus seios por detrás de um caderno. O mundo é algo a ser descoberto, encanta, excita e amedronta ao mesmo tempo.

Nem sempre crescer é prazeroso, por vezes, é sofrido. Quando aparecem as espinhas que cobrem o delicado rosto, quando vêm as infindáveis angústias e indagações dessa fase e assim por diante.

E o primeiro beijo? Quando virá?

Será que vou ser admirada e desejada?”

Como vou lidar com tantas sensações novas que surgem dentro de mim?

Como vou conter tantas excitações que me tiram do prumo?

Como serão os primeiros passos para fora do universo que eu conheço?

Eu quero e temo, tudo ao mesmo tempo.”

Nem tudo é encanto como no filme da Valisere, nem sempre é fácil. São anos de transformações, dramas, distanciamentos, estranhamentos, aproximações e reaproximações. Inevitavelmente, uma revolução doméstica se dá e todos precisam se haver com tantas mudanças.

A adolescência tem um caráter transitório. É uma fase caótica, de comportamentos estranhos que estariam fadados a desaparecer logo ao despertar do adulto, é como uma vivência onírica que se desmancha ao longo do tempo. A menina fica para trás e surge a mulher.

Esta passagem da infância à idade adulta envolve as perdas das identificações infantis, é a entrada para um mundo social mais amplo, a novos agrupamentos sociais, à iniciação sexual e a novos vínculos afetivos. É a construção de um novo “eu”, uma nova identidade, dessa vez afastada do mundo mágico e protegido da infância.

 

Referências:

Favilli, Myrna Pia. O agir criativo: o adolescente que se faz adulto.  Boletim do Núcleo de Psicanálise de Campinas e Região, v.8, n.13, Edição comemorativa, p. 41-50, 2005.  ( Apresentado em: Jornada de Psicanálise da Criança e do Adolescente, 1; Campinas, 24 Set. 2005).

 

Karin Szapiro é psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, coordenadora do blog da SBPSP e atende em consultório particular. E-mail: karinszapiro@hotmail.com

 

Tudo sobre a Formação Psicanalítica da SBPSP

Tornar-se analista é um processo que envolve aproximar-se do próprio mundo interno para poder se aproximar do mundo interno do outro. A formação psicanalítica de SBPSP busca desenvolver no postulante as condições para que este processo ocorra, a partir do tripé da análise pessoal, seminários teóricos e supervisões.

As inscrições estarão abertas de 1º a 30 de março de 2018 (confira aqui). Nesse post, buscamos apresentar as propostas da formação psicanalítica e esclarecer as principais dúvidas sobre os processos.

Histórico

A Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo começou a ser organizada em 1927 e, em 1951, foi reconhecida pela Associação Psicanalítica Internacional. Pouco tempo depois, em setembro/outubro de 1958, foi criado o Instituto de Psicanálise da SBPSP, que recebeu posteriormente o nome de “Durval Marcondes”, como homenagem a seu fundador. O Instituto é o órgão da SBPSP que coordena as atividades do corpo docente e discente na finalidade de formar psicanalistas.

Composta atualmente por 470 membros efetivos e associados da SBPSP e 349 membros filiados ao Instituto Durval Marcondes, a Sociedade de São Paulo busca manter o pluralismo teórico-clínico, a interação entre psicanalistas com orientações diversas e também estimular férteis diálogos com outras áreas do conhecimento e da cultura. Para tanto, mantém um notável fluxo permanente de atividades científicas e publicações, como o Jornal de Psicanálise e a Revista Ide.

Seleção

A maior parte dos pretendentes à formação no Instituto Durval Marcondes tende a ser de graduados em medicina ou em psicologia, desde que devidamente habilitados para o exercício profissional perante seus conselhos profissionais. No entanto, candidatos vindos de outras áreas de formação também podem se apresentar para a seleção. A única diferença é que estes últimos terão seus currículos e memoriais discutidos na Comissão de Ensino para uma avaliação preliminar de sua trajetória e da compatibilidade com o que consideramos ser essencial no perfil de um futuro psicanalista. Passando nessa primeira etapa, eles prosseguem no processo comum a todos. Portadores de diplomas de universidades estrangeiras devem apresentar prova de revalidação dos mesmos. Entre os candidatos de outras áreas, já foram aprovados profissionais de economia, direito, farmácia, hotelaria e serviço social.

A seleção propriamente dita consiste no exame do currículo e dos memoriais dos candidatos, com vistas a conhecer a pessoa e sua motivação para se tornar psicanalista. Em seguida, o pretendente passa por três entrevistas com psicanalistas da SBPSP. Cada trio de entrevistadores terá a oportunidade de conhecer a pessoa ao vivo e complementar, esclarecer ou aprofundar as informações enviadas por escrito. Tais impressões serão discutidas em seguida para se decidir pela aprovação ou não do candidato.

Currículo

Nosso currículo propõe uma base de autores considerados essenciais para a clínica psicanalítica contemporânea, e ao mesmo tempo, abre um espaço para contemplar os interesses singulares de cada membro filiado. Nesse sentido, 72% dos seminários são obrigatórios e 28% são eletivos, ou seja, fazem parte da grade curricular, mas são de escolha do membro filiado. Entre os créditos obrigatórios há 10 seminários clínicos, espaços em que a clínica e a teoria se reinventam reciprocamente e no qual os membros apresentam um caso para discussão com o grupo.

Além dos seminários obrigatórios, os docentes têm a possibilidade de propor eletivos sobre temas ou autores de seu interesse, assim como os membros filiados também podem sugerir um tema e convidar um coordenador para tal seminário. Desta maneira, acreditamos contemplar tanto a pluralidade teórico-clínica praticada na instituição, como a diversidade do pensamento psicanalítico atual.

O tempo da formação depende do cumprimento do tripé: análise didática, seminários clínicos e teóricos e duas supervisões individuais. Após a aprovação no processo seletivo, o pretendente tem no máximo um ano para iniciar sua análise didática, que terá duração mínima de cinco anos. A partir de seis meses do início da análise didática, é possível a matrícula nos seminários oferecidos pelo Instituto. O tempo mínimo para conclusão da formação é de cinco anos, que coincide com a exigência de análise didática. O tempo total da formação é flexível para cada membro filiado. Se os seminários clínicos e teóricos forem concluídos, mas os relatórios não tiverem ainda sido apresentados, o Instituto tem como requisito que seja cursado no mínimo um seminário por semestre. Tal processo tem o nome de formação continuada, que significa uma elasticidade no tempo de formação, até que o segundo relatório seja apresentado no Instituto e a qualificação seja solicitada pelo membro filiado.

Supervisão e análise didática

Como dito acima, para alcançar sua qualificação como analista da SBPSP, é necessário que o membro filiado, além dos seminários, supervisione dois casos de pacientes adultos, cada qual durante 80 horas. Ele terá, assim, contato mais regular e próximo com dois analistas didatas da sociedade, discutindo a fundo seu próprio trabalho clínico e o processo analítico. É uma oportunidade única de unir técnica e teoria, o que culminará com o exercício da escrita do relatório.

A análise didática é, em sua essência, idêntica a qualquer análise. Entretanto, sendo uma parte fundamental da formação do analista, tem algumas características formais que a distinguem: a duração mínima de cinco anos, a frequência de quatro sessões semanais e o fato de ser realizada por um analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. O didata é um membro efetivo da sociedade, que, tendo passado por um longo processo de qualificação, é avalizado pela instituição para exercer a função de analisar os futuros analistas.

E por que é exigido que o membro filiado passe pela análise didática? Porque acreditamos – e Freud nos iniciou nesta premissa – que apenas sendo analisado e vivenciando o processo de se aproximar do próprio mundo interno alguém estará apto a se aproximar do mundo interno do outro e fazer com que o processo analítico se coloque em marcha. Os vieses não são assim eliminados, mas podem ser escrutinizados pelo analista. Esta é a perna mais básica do que se convencionou chamar “tripé” do modelo de formação analítica que seguimos; os dois outros pés seriam a supervisão e os seminários.  Atualmente tende-se a considerar, informalmente, uma “quarta perna”: a vida institucional, que permite ao membro filiado estar em permanente processo de ser apresentado a novas ideias, para discussão e reflexão crítica.

Dicas

A psicanalista Vera Regina Jardim Ribeiro Marcondes Fonseca, diretora do Instituto Durval Marcondes, dá uma dica para os candidatos refletirem antes da inscrição. “É importante ter curiosidade pelo mundo mental, pela própria vida mental e pela vida mental dos outros. Também é desejável o interesse pela cultura, história, arte e ciência, ou seja, é fundamental a tendência a valorizar o que é humano”, destaca.

Outra dica de Vera é o cuidado com o memorial, pois, junto com as entrevistas, esse documento tem um peso importante para a seleção. “É importante que o candidato se dedique à escrita desse currículo comentado, sendo uma oportunidade para refletir sobre sua trajetória e apresentá-la à comissão de seleção”.

Contar um sonho ? Por quê? Para quem?

Talya S. Candi

Os sonhos ampliam nossa consciência do mundo, resgatam o potencial criativo infantil que permaneceu congelado à espera de respostas e permitem que nos apropriemos de pedaços desconhecidos ou até mortos da nossa personalidade. Sonhar enriquece nossa vida e torna o dia a dia mais pleno e interessante.

Mas, para que isso aconteça, não basta sonhar. Um sonho precisa ser lembrado, transformado em linguagem e contado para alguém que esteja disposto a escutar com atenção e interesse.

A Psicanálise nasce com a interpretação do sonho. O psicanalista, pela sua formação na ciência do inconsciente, está familiarizado com o trabalho mental que foi realizado e a força das resistências que foi vencida para lembrar e transformar os conteúdos dispersos e as imagens imprecisas e loucas que invadem nossa mente e povoam a vida noturna em algo que posso ser chamado de sonho.

Num lindo documentário sobre o psicanalista Jacques Lacan (que pode ser encontrado facilmente no YouTube), Gerard Miller conta que uma das maiores qualidades de Jacques Lacan era a sua capacidade ímpar de atenção e de escuta. Esta atenção viva ressoava intensamente (como um amplificador de som) e despertava nos pacientes um interesse às vezes inexistente na vida secreta das palavras. “A palavra analítica desenluta a linguagem”, nos diz o psicanalista André Green[1] . Ela desperta os afetos, os anseios e as histórias que jazem adormecidos na nossa fala.  A análise convoca a fala das origens, o nascimento da própria palavra que resulta de um luto primordial.

Esta escuta atenta que se debruça sobre a palavra na sua origem faz com que a lenta magia das palavras[2] passe a operar transformações: a pessoa sente-se repentinamente existindo por dentro e para dentro.

Este mundo fascinante e aterrorizante das histórias dos lutos escondidos nas palavras retorna nas imagens dos sonhos. É muito comum ouvir dizer: “ontem sonhei “. Comum também é a pessoa completar a frase com um: “mas não lembro do sonho”.  Os sonhos são feitos de imagens, na maioria das vezes imprecisas, obscuras que não obedecem à lógica comum. Por isso é difícil lembrá-los.

O que acontece para que nossa memória não guarde os sonhos? Recordar um sonho, deixar-se impregnar pelas imagens e deixar que imagens e cenas estranhas entrem na consciência, exige coragem e disposição para o assombro[3] . O sonho é o continente dos núcleos psicóticos das nossas dores profundamente humanas e revela nossa loucura privada do qual não queremos nos aproximar porque questionam nossas certezas e abalam nossa segurança. .

Em seu artigo de 1915 sobre o recalque, considerando dois tipos diferentes de representações, Freud diz:“A diferença não tem importância : ela equivale mais ou menos a saber se eu expulso um hóspede indesejado da minha sala de visitas ou se tendo-o reconhecido, não o deixo sequer transpor o limiar da minha residência “ .  As imagens do sonho são sempre hóspedes indesejáveis, por vezes aterrorizadores, que procuram entrar na sala de visita da nossa mente num momento em que nos encontramos dormindo e terrivelmente indefesos………

Grande parte da experiência emocional do sonho provem deste primeiro e corajoso passo que consiste em hospedar um estranho na nossa intimidade num momento de fragilidade.  Na maioria das vezes, não deixamos a representação sequer transpor o limiar da nossa mente e a empurramos para dentro  do porão do esquecimento. No entanto, a voz do afeto, a voz do impulso vital que criou o sonho, permanece viva, exigindo passagem e reconhecimento.  Por isso que sonhos podem permanecer em espera às vezes durante longos anos até poder ser lembrados e finalmente sonhados.

Como lembrar de imagem e histórias nas quais os personagens e os tempos se entrelaçam de um jeito irracional e assustador?  Como aceitar, por exemplo, que a voz de um tio muito querido desaparecido há anos possa reaparecer no latir de nosso cachorro de estimação?    Ou ainda como lidar na véspera do seu casamento com a imagem de um vestido branco cheio de lama?

Ao ser recordado, o sonho re-acorda a dor e a angustia da origem que as imagens são portadoras. Recordar é um elemento essencial de um processo constante de criação de significado e enriquecimento da significância no mundo interno. Neste sentido “recordar“ um sonho é um ato componente da nossa história pessoal em que se entrelaçam passado e presente, ajudando-nos a ter um sentimento subjetivo de nós mesmos mais coerente e coeso.

Cada vez que sonhamos e conseguimos lembrar e narrar o sonho, percorremos de novo o trajeto que fizemos outrora para aprender a falar, o trajeto que transformou as urgências vitais em afetos, imagens, palavras e finalmente em pensamento.

O sonho é o berço da nossa fertilidade mental, uma incubadora das formas simbólicas [4] ,  matéria prima da criatividade. Poder decifrar junto ao analista a questão que o sonho tenta resolver nos aproxima do pensamento inconsciente do sonho[5] . A escuta do analista transforma a narrativa do sonho: o que estava somente dentro pode ser visto de fora no contexto de uma relação afetiva significativa. O intrapsíquico entrelaça-se com um intersubjetivo, uma experiência emocional vivida e compartilhada que promove a capacidade de pensar.

 

[1] Green , André : O discurso vivo :   uma teoria psicanalítica do afeto  , ed Francisco Alves  , Sao Paulo , 1973 .

2 Rolland , Jean Claude 2004 : Parler ,  renoncer  In Revue Francaise de Psychanalyse , 2004/3 ,  vol 68  ( pg 947, 962 )

3 Nosek , Leo : A Disposição para o assombro ; Ed Perspectiva , Sao Paulo 2017 ,

4 Rocha Barros Elias & Rocha Barros Elisabeth: a construção da interpretação no espaço da intersubjetividade, Texto para apresentação do congresso de Montreal: mundo interno e processo de Transformação, 2018

5 Meyer, L. (2015). Produção Onírica e Auto análise. In ED. Talya Candi (2015) Diálogos Psicanalíticos Contemporâneos. São Paulo: (Kultur) Editora Escuta.

 

 

Talya S. Candi é Membro associado da Sociedade Brasileiro de Psicanálise de São Paulo. Autora do livro: “o Duplo Limite; O aparelho Psíquico de André Green”, publicado pela Editora Escuta  e organizadora do livro : “Diálogos psicanalíticos contemporâneos”, publicado também pela editora Escuta .

 

Fotomontagem de Grete Stern

 

Solidão em cena

Ontem pela manhã eu saí sozinha. Tinha coisas para fazer  e aproveitei para ir a uma exposição. Tive ímpetos de chamar amigas, amigos, até tentei, estavam ocupados. Não me sentia sozinha, estava acompanhada pelos amigos, pelos meus pensamentos, por cada artista sobre cuja obra me detinha, com quem eu parecia estabelecer uma comunicação, não virtual, anímica, se posso chamar assim. A semana passada, porém, não fora tão animada assim. Em um dos meus grupos de WhatsApp a discussão sobre política ferveu. Até tentei acalmar os ânimos – inutilmente, devo confessar, propondo que as diferenças fossem respeitadas. Nesse momento, o sentimento de solidão abateu-se sobre mim: quem eram aquelas pessoas? Que orientação de vida tão diferente da nossa juventude de militância universitária.

Gostaria de discorrer sobre o sentimento de solidão, que não está apoiado na ausência de pessoas, mas antes na qualidade de relação estabelecida e internalizada. Melanie Klein tem um texto “Sobre o sentimento de solidão” (1963), no qual tece elaborações sobre a fonte do sentimento de solidão, referindo-se não à situação objetiva de privação de companhia externa, mas, antes ao sentimento de solidão interior, que pode surgir mesmo em companhia. Para a autora, a relação inicial com a mãe implica um contato íntimo entre o inconsciente da mãe e o da criança e este contato será o alicerce para a vivência de compreender e ser compreendido. Porém, como esta vivência está baseada no estágio pré-verbal, geraria um anseio futuramente de uma compreensão sem palavras, que contribui para o sentimento de solidão e, derivado de um sentimento de perda irrecuperável. O que pretendo enfatizar é a necessidade de um bom contato inicial (que depende tanto das condições da mãe, quanto das do bebê) para garantir a introjeção de um bom objeto que será futuramente um bom objeto interno, que poderemos contar na vida adulta. Para que o outro  me acompanhe, é vital que eu esteja “de bem” com este objeto interno.

Antes, porém, necessito situar nossa subjetividade historicamente. Para Kollontai, na base da nossa psique está a forja individualista que começa na família e estende-se a todos os aparelhos ideológicos do poder capitalista, da escola à Igreja, à mídia e por todos os poros. Esse é o ar que nossa subjetividade respira. A base do capitalismo está ancorada no individualismo: elementos importantes da vida comunal ou tribal ancestral, não são substituídos por relações sociais coletivas, de aproximação espiritual entre as pessoas: isto é, nas grandes e pequenas metrópoles do capital emergem e prevalecem relações humanas que, em regra, nada se parecem com solidariedade nem camaradagem. Ao contrário disso, desde o berço até o final da vida adulta, o imperativo de relações de propriedade, de competição e mesmo de posse entre pessoas e obviamente opressão, passa a ser uma norma. Uma espécie de “lei da selva” passa a ser naturalizada. O processo de acumulação do capital necessita, retroalimenta e se funda nesse marco, e assim funciona o mercado, a mercadoria. (http://www.esquerdadiario.com.br/Alexandra-Kollontai-e-a-solidao-da-sociedade-moderna).

Uma expectativa de um sujeito centrado, autossuficiente, capaz de ser produtivo full time! Ora, sabemos desde que Freud construiu a psicanálise, que existem condições extremamente delicadas para que o infans possa chegar ao estatuto de sujeito. Nossa constituição depende e se direciona para o outro. Para Freud (1972, p.118), o mal-estar a que o sujeito se vê submetido para ingressar na civilização está relacionado à repressão de suas pulsões·. Acontecimentos de toda sorte ameaçam a integridade de cada um de nós, e a ocorrência de fatos traumáticos – que excedem a capacidade psíquica do indivíduo avolumam-se de tal maneira com a desestruturação da família e dos costumes, que nos vemos assoberbados por questões que certamente não inquietavam os contemporâneos de Freud, na sociedade austríaca do começo do século XX.

Para restringir um pouco o problema, vou tratar de duas repostagens recentes que me chamaram muito a atenção e que trazem as duas populações mais desfavorecidas: os bebês e os idosos.

Tomemos o caso de uma mãe, cujo bebê nasceu prematuro (com apenas 12 semanas de gestação, devido a uma pré-eclampsia, pressão alta, etc.). Esta mãe , doutora em ergonomia e em franca sintonia com seu filho, criou uma luva preenchida com sementes, que serviria de consolo ao filho na sua ausência. Ela carregava a luva consigo para impregná-la com seu próprio aroma, afim de que bebê pudesse sentir sua presença pelo olfato. A luva forneceu conforto ao bebê e também ajudou na autorregulação da respiração, bem como reduziu os episódios de falta de oxigênio. Então esta mãe pensou nos outros bebês  criou o site:

Esta mãe criou condições para que o bebê , sentindo a presença dela, pudesse ter experiências positivas, de modo a desenvolver um bom objeto interno.

No extremo oposto, observamos que a população de idosos vem crescendo mundialmente e a solidão é um grande problema a ser encarado. Podemos pensar quantos sujeitos atravessam a vida de modo precário, em termos psíquicos, contando sabe-se lá com quais defesas, muitas vezes criando família e restringindo-se a ela. Outras vezes desentendendo-se com as pessoas e isolando-se progressivamente. Criar laços de amizade duradouros implica em capacidade psíquica para tolerar altos e baixos, frustrações e gratificações, encontros e separações.

Em matéria recente , temos a noticia que no Reino Unido acaba de ser criado um Ministério para Solidão. Thereza May classificou o problema como “triste realidade moderna”. Lá é estimado que quase nove milhões de pessoas sentem-se sozinhas, incluindo casos em que a pessoa pode ficar meses sem conversar com ninguém!

Dependemos do outro e da nossa capacidade de estabelecer uma boa relação por toda a nossa vida. O mundo humano é o mundo das relações que estabelecemos na vida e  carregamos dentro de nós.  Sem dúvida, a capacidade de amar é uma construção desde o nascimento. Pessoas que tiveram traumas importantes no começo da vida começam desfavorecidas; muitas vezes o caminho que encontram é o isolamento afetivo, porém é o que chamamos de solução defensiva. Crianças bem cuidadas aceitam melhor os cuidados de professores do que as que foram largadas à própria sorte. Como podemos ver tema extenso e complexo, porém fundamental!

 

Elisabeth Antonelli: psicóloga, psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, membro associada da Sociedade Brasileira de Psicanálise, professora do COGEAE, da PUC-SP e do Instituto Sedes Sapientiae, autora do livro: “Os Sentimentos do Analista: A Contratransferência em Casos de Difícil Acesso”, ed. Zagodoni, além de artigos em revistas científicas.

 

Por que os jovens bebem tanto?

Luciana Saddi e Maria de Lurdes Zemel

 

É tempo de carnaval!  “É tempo de encher a cara até desmaiar”.

Hoje a justificativa é essa. Amanhã pode ser o futebol, a balada ou a despedida de solteiro de um amigo.  Sempre haverá justificativas para encher a cara até desmaiar, afinal não faltam ocasiões festivas em nossas vidas. Supomos que sempre há tempo de modificar esse padrão, que sempre é possível beber menos ou parar de beber.

Quando somos jovens, temos a sensação de que nada vai nos acontecer – é a onipotência juvenil manifestando-se. Nunca vamos ficar doentes, não vamos morrer e muito menos vamos perder o controle só porque bebemos quatro latinhas de cerveja no bar, na sexta-feira.

É comum o jovem esquecer que é humano e, portanto, perecível. Afinal, na maioria das vezes, se encontra no ápice da força física e da saúde. Ele não pensa nos perigos, nem na fragilidade da vida. Acredita que pode tudo. Seu “prazo de validade” ainda não acabou. O tempo de se cuidar é o futuro.

A juventude, como sabemos, pode ser um período de vida bastante complexo e conflituoso. Período de formação e sofrimento. Marcado por conflito entre dependência e independência e pela dificuldade em se responsabilizar por si. É quando, muitas vezes, autonomia confunde-se com transgressão e limites precisam ser constantemente desafiados.

Os jovens fazem experimentações, querem saber quem são, como são, o que gostam, o que aguentam. Podem recorrer a drogas, sexo, força física e intelectual nessas experiências, chegando a correr riscos. Nessa fase da vida, a impulsividade é bastante elevada, o que os torna vulneráveis. Mas a força juvenil reside, justamente, na curiosidade e na impulsividade. As mesmas características que expressam a grande vitalidade da juventude podem causar prejuízos. Contradições como essas são diariamente vividas pelos jovens.

É na juventude que o álcool entra em nossas vida.  Parece “facilitar” o contato com o grupo. É um elemento conhecido, pois, em geral, é usado em casa. Está ligado à diversão e ao relaxamento, embora, muitas vezes, os pais abusem da bebida. Então, devido à familiaridade, os perigos não são considerados.

A interação com o álcool pode ser prazerosa e recreativa, mas, também pode tornar-se muito destrutiva. O álcool é uma droga como outra qualquer, atua no sistema nervoso central, é uma substância química, por isso, nesse texto e em nossos estudos, atribuímos importância ao sujeito que interage com a droga. A questão é procurar compreender o sujeito, o sujeito que bebe, como bebe, quanto bebe e quando bebe. De que maneira o álcool entra e permanece em sua vida.

Quem de nós encontra no álcool uma resposta, quem o usa para preencher vazios, amenizar angústias, driblar dificuldades como vergonha, medo, insegurança corre risco de desenvolver uso abusivo ou dependência. A juventude, por muitas razões, falaremos de algumas a seguir, está mais vulnerável, pois as mudanças corporais, os processos de transformação psíquica e física causam angústias constantes. A intensificação do desejo e da curiosidade sexual, bem como o medo de se relacionar apontam para inseguranças e conflitos intensos. O jovem está em processo de desenvolvimento, busca criar recursos para lidar com essa enormidade de questões, mas esses recursos nem de longe estão consolidados. Então, ele se vale de pensamentos mágicos, fantasias, racionalismos vazios, drogas e ações de fuga de problemas. Freud, ao se referir à adolescência, usava a imagem de um túnel sendo escavado por ambos os lados ao mesmo tempo, dando a entender os altos riscos de desmoronamento.

Não bastasse todas essas dificuldades, o jovem ainda precisa percorrer o caminho de se tornar adulto e se desvencilhar do âmbito protetor da família. Nesse processo de crescente socialização, o grupo ganha grande importância, substituindo a família e impondo novos parâmetros, novos gostos e modas. Muitos jovens passam a dizer não para suas famílias, acima de tudo estão revoltados com o sistema, com as instituições e com o poder consolidado, mas dizem sim e submetem-se aos seus grupos de amigos sem pestanejar, pois temem a exclusão e precisam, mais do que nunca, do reconhecimento de seus pares.

Em sociedades diferentes das nossas, nas quais as culturas permaneceram estáveis, o adolescente é submetido a rituais de iniciação e passagem; obrigado a enfrentar desafios, ao ultrapassar obstáculos, ingressa no mundo das responsabilidades, das obrigações e dos direitos reservados aos adultos.  Em nossa cultura não há rituais previamente definidos pela tradição, mesmo assim, observamos que começar a beber e fumar parece ser uma forma de introdução do jovem ao mundo adulto. Às vezes, essa introdução, quando precoce, o expõe a agressões.

Além, da falta de rituais sociais e familiares para ingressar no mundo adulto, há a dificuldade em identificar e nomear os sofrimentos; pouco falamos sobre nossas angústias, medos e incertezas. Somos muito exigidos e o adolescente se exige mais ainda devido às idealizações próprias da fase. Ele se sente obrigado a ser magro, bonito, alto, musculoso, eficiente, então, o álcool pode se tornar seu único amigo, pode lhe salvar do mundo de exigências, inseguranças e medos. Pode silenciar a dor no peito provocada pela angústia, fazer adormecer as vozes que não param de cobrar as coisas impossíveis de fazer e ser, calar os medos que nunca cessam e, lenta ou rapidamente, anestesiar o tormento até o sono ou a morte chegar.

A Organização Mundial de Saúde diz que, de cada 100 jovens que experimentam álcool, de 12 a 15 desenvolverão o alcoolismo.

Em nossa clínica é frequente escutar o jovem aos gritos dizer: “sim, vou beber no carnaval e vou beber muitas vezes até que você fale comigo de forma que eu possa entender sem me julgar…até eu encontrar meu caminho.”

Tomara que tenha tempo para esse encontro!

 

Luciana Saddi é psicanalista e escritora. Membro efetivo e docente da SBPSP, mestre em Psicologia Clínica – PUC/SP. Em coautoria com Maria de Lurdes Zemel escreveu: “Alcoolismo –série o que fazer?” (ed. Blucher). Autora dos livros: “O amor leva a um liquidificador” (ed. Casa do Psicólogo), “Perpétuo Socorro” (ed. Jaboticaba) e “Educação para a morte” (ed. Patuá).

Maria de Lurdes Zemel é psicanalista da SBPSP, membro da ABRAMD, membro da ABPCF, coautora dos livros: “Liberdade é poder decidir sobre drogas” (FTD) e “Alcoolismo – série o que fazer?” (ed. Blucher).

 

Internet: pais e filhos confusos entre verdades e mentiras

David Leo Levisky

O Homo Sapiens está vivendo um período complexo na História das Civilizações com mudanças tecnológicas e de valores muito rápidas entre guerras de informação e de contrainformação. Verdades e mentiras confundem-se entre ilusões e fatos produzidos pelos mundos real, subjetivo e virtual. As mídias sociais produzem notícias que adquirem caráter de verdade enquanto verdades são destruídas por grupos interessados em alterar a história, nutrientes da imaginação humana rica em fantasias.

O virtual ao ser tomado como real no imaginário humano pode substituir o factual, afetar e desvirtuar a capacidade crítico-analítica e interferir nos processos de percepção e de elaboração mental. Algumas pessoas investem o imaginário com tal intensidade, transformando-o em uma crença à qual se submetem compulsivamente. É o vício. Condição equivalente às demais formas de adição que podem levar à morte ou ao desespero como foi noticiado à respeito do game “a baleia azul”.

Em nossos consultórios, torna-se cada vez mais frequente a queixa de pais desesperados, pois não conseguem fazer seus filhos, crianças e adolescentes, abrirem mão da excitação causada pela luminosidade da telinha e seus atrativos. A evolução tecnológica, a globalização, uma sociedade liberal, democrática e fluida com o fim das utopias (Bauman, 2001) trouxeram uma nova possibilidade de dependência.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu, recentemente, que o uso abusivo, inadequado, da TV, videogames e computadores pode levar a um quadro patológico de compulsão. Este distúrbio mental será incluído na 11a. edição do Código Internacional de Doenças (CID) a sair ainda este ano (Saúde, 2018).

Equivalente ao workaholic e outras dependências, o uso abusivo da telinha passa a compor o quadro das “paixões tóxicas” descritas por Freud antes do livro dos sonhos (1900). A partir da dipsomania, ele chegou à paixão pelos jogos e formulou a ideia de uma base aditiva da sexualidade humana. A masturbação era o seu protótipo até chegar à teoria do narcisismo autoerótico, base das paixões tóxicas e das sexualidades aditivas. A toxicomania seria uma forma de defesa contra a depressão e a melancholia (Silva Bento, 2007).

As mídias sociais vêm adquirindo um papel ambíguo de formadoras e de deformadoras da opinião pública por suas mensagens e pela forma de uso que delas se fazem. Elas interferem na estruturação e funcionalidade do sistema nervoso central, em sua relação neuroquímica e psicológica, no aparelho de pensar e na mentalidade social individual e coletiva (Carr, 2011).

A telinha, entre os fanáticos, pode tornar-se uma espécie de devoção religiosa.  Com o mundo em suas mãos, luminosidade, movimentos e aplicativos projetam games e programas que promovem excitação, prazer, gozo e dependência tóxica, pois alteram a homeostasia psíquica, geram estados mentais primitivos que, se cristalizados como defesas irreversíveis, tornam-se traços de carácter, com alto custo para a saúde física e mental dos envolvidos e da sociedade. Estados nos quais emergem fantasias de poder, dominação, destruição, morte, hedonismo que interferem no equilíbrio do ego e das funções narcísicas. A excitação continuada tende a gerar um estado circular de mais excitação e de liberação de substâncias psicoativas até chegar à exaustão de múltiplos sistemas. Seu uso excessivo depende da personalidade, das relações familiares, das pressões do mercado entre outros elementos da cultura.

O seu uso inescrupuloso tende a mecanizar o público. Seduz, impõe, ilude, persuade, condiciona, influi no poder de decisão e no poder de compra do consumidor. Pode conduzir as fantasias e doutrinar o imaginário. Faz com que a pessoa perca a noção e a seletividade de seus próprios desejos. Essa indução inconsciente, se usada de modo contínuo e descontrolado, pode trazer graves consequências à formação do sujeito, ainda mais uma criança ou adolescente em processo de desenvolvimento. Afeta a capacidade de escolha; o espaço interno torna-se controlado pelos estímulos externos e não pelas manifestações autênticas e espontâneas da pessoa. A compulsão ao uso da telinha pode ter origem em falhas ocorridas no desenvolvimento do objeto transicional, no conjunto das atividades simbólicas e na relação self/objeto primitivo, durante o processo de formação da pele psíquica. Esta, em vez de produzir continência, leva à aderência a objetos idealizados na ilusão de encontrar continência, prazer, coragem e energia frente a um mundo fragmentado (Olievenstein, 1982).

Como psicanalistas, temos vivências clínicas e construímos teorias que, juntamente com as neurociências, nos ajudam a compreender a estruturação, a dinâmica e a economia do aparelho psíquico bem como as características das relações vinculares intrafamiliares e suas relações com os contextos socioculturais. Daí nossa responsabilidade em participar e colaborar no encontro de novos equilíbrios psíquicos, individuais, familiares e sociais.

Defendo a ideia de que tudo que se torna público e repetitivo tem grande probabilidade de se transformar em valor da cultura ao ampliar a massa de consumo, principalmente, entre adolescentes. Estes são mais vulneráveis pela maior fragilidade do ego inerente ao desenvolvimento. Motivados pela busca de experimentos, desafios, desejos de transgressão, revoltas, contestações, influenciados por grupos sociais, não se preocupam com os desdobramentos físicos e mentais. Não pensam ou não querem pensar no futuro. Prazeres imediatos, fantasias onipotentes, negação da realidade, do tempo, formas de transgressão aos pais prevalecem enquanto se escondem de fantasias de rejeição a si mesmos ou de aspectos de sua identidade ou no preenchimento de vazios internos. O gozo presente e eternizado na aparente ausência de medo prevalece com a consequente negação dos limites e da morte, da percepção do irreversível e do pouco valor que se pode dar à vida. Sentimentos de dissabor, de tristeza, de insatisfação para com a própria vida são comuns em meio a vivências de uma relação familiar conturbada. É frequente a presença de um superego punitivo carregado de elementos narcísicos nele projetados. Conluios intrafamiliares inconscientes podem estar presentes no uso indiscriminado das telinhas, não raro em meio a explicações racionais de uso apenas social, para se divertir, falar com amigos ou estudar. Dentro de uma cultura binária e eletrônica do sim e do não, do “enter” e do “delete”, processo sem maiores elaborações e criatividade, o “del” pode ser uma forma de se livrar da situação incômoda para não cair na depressão reflexiva, trabalhosa e que requer energia para se recuperar e dar a volta por cima ao lidar com frustrações.

Soifer (1975) alertou-nos para os riscos do uso inadequado da TV sobre o desenvolvimento das crianças. Levisky (1999) publicou: “The Media: Interference with the Psyche”, usadas pelos pais até como babás eletrônicas ou chupetas. Hoje, a comunidade internacional adquire consciência da necessidade de se tomar providências para atenuar as consequências do uso inadequado dos eletrônicos. Mas, ainda há muito por se fazer.

Bibliografia

BAUMAN, Z., Modernidade líquida, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2001.

CARR, N., O que a internet está fazendo com os nossos cérebros – A Geração Superficial, Rio de Janeiro, Agir, 2011.

LEVISKY, D.L., Reflexões psicanalíticas, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2009.

LEVISKY,D.L., “The Media: Interference with the Psyche”, Inter. J. Medicine and Health, vol. 11,1999, Freund Publishing House, England, pp. 327-333.

LOURENÇO MARTINS, A.G., 2007, “História Internacional da droga”, publicado em 17 de Dezembro de 2007 21:55, por encod . modificado em 18 de Dezembro de 2007 11:03

OLIEVENSTEIN, C., “A infância do toxicômano” In Olievenstein, C., La vie du toxicomane, Paris, PUF, 1982.

Saúde – iG @ http://saude.ig.com.br/2018-01-03/games-vicio-disturbio-mental.html

SILBA BENTO, V.E., “Para uma semiologia psicanalítica das toxicomanias: adicções e paixões tóxicas no Freud pré-psicanalítico” Revista  Mal-estar e  Subjetividade  – Fortaleza  – Vol . VII – Nº 1 – mar /2007 – p . 89-121.

SOIFER, R.:”A Criança e a TV – uma Visão Psicoanalítica”. Porto Alegre. ArtesMédicas. 1975.

 

David Leo Levisky  é psiquiatra, didata da SBPSP e PhD em História Social pela USP. É autor dos livros: “Adolescência- reflexões psicanálíticas”; “Adolescência e violência  – I, II e III”; “Um monge no diva”; “Entre elos perdidos; A vida? … é logo ali”.

Vamos conversar

*Any Trajber Waisbich

“Ver a representação da mulher de forma tão exposta e sensual pode parecer inadequada na atualidade, se considerarmos os movimentos feministas… Entretanto é necessário considerar a produção artística a partir de seu contexto, tomando cuidado quando fazemos análises do passado a partir de critérios do presente.”

José Augusto Ribeiro,  curador da exposição “No subúrbio da modernidade – Di Cavalcante 120 anos”. Pinacoteca do Estado de São Paulo, Set/2017-Jan/2018

 

Esta exposição poderia ser interditada a menores, ou nem ocorrer. Vivemos numa época perigosa para as liberdades.

Como psicanalista e mulher não me calo frente a este conflito, esta polêmica a respeito de assédio, estupro e violência contra a mulher nos mais diversos ambientes perpetuados por homens poderosos e nem tanto. Deixo claro que o poder exercido por um indivíduo sobre outro é prejudicial e possui consequências inimagináveis naquele que sofre maus tratos. Muitas vezes, o poder manifesta-se de formas violentas ou criminosas.

Falo sim de um lugar de privilégio. Sou branca, nasci numa metrópole, estudei em colégio público quando entrar neles era uma façanha para poucos. Estudei em uma Universidade de renome e me tornei psicanalista. Não vivi na pele encoxamentos diários e nem fui insultada por vestir o que achava bonito e o outro poderia ver como provocativo. Por não ser negra, pobre e não morar na periferia sempre andei no contrafluxo, este entendido não só literalmente. Locomovia-me desde muito cedo por meio de transportes públicos e fui encoxada, várias vezes.

Lembro-me ainda de um episódio ocorrido quando tinha uns 10 anos. Estava eu andando na rua onde nasci ao encontro de uma amiga quando um Fusca parou e pensei que queria alguma informação. O motorista abriu a porta do passageiro e vi a braguilha de sua calça aberta e um enorme pinto do lado de fora da cueca. Bom, acredito que vi, acho que era grande e o que me ficou disso foi uma enorme curiosidade e susto. Lembro-me de sair correndo. Como bem sabemos, a memória é fugidia e se atualiza constantemente.

Ao ler o artigo de Lilia Schwarcz no Jornal NEXO no final do ano passado, a respeito de sua experiência ao ser abordada por um homem no ônibus, lhe escrevi contando minha história. Respondeu-me dizendo que muitas mulheres estavam se pronunciando sobre as suas histórias secretas de violência quando adolescentes. Ao contrário de culpa, tema abordado pela autora, o que senti foi algo mais mundano e erótico. Espanto sim, interesse nascido do meu corpo que dizia algo que desconhecia com tanta intensidade. Não falei disto antes, vejo agora, por conta das emoções que aquele momento me proporcionou. Culpa não estava no cardápio.

Lembremos que, como dizia Freud, já em janeiro de 1905 em seu artigo “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”, (In Sigmund Freud, Edição Standart Brasieleira das obras completas de Sigmund Freud. Vol. XII. Pg. 149-159. Rio de Janeiro. Editora Imago. : Editora Imago. Trabalho original de 1912) que o desejo é perverso, infantil e polimorfo. E vai adiante, teoriza a partir da prática que a única forma de termos acesso a ele é por intermédio de fantasias, sonhos e atos falhos além é claro, dos chistes e jogos de palavras. Fantasias não são controladas por decretos, elas simplesmente ocorrem e são poderosas, disruptivas e causam desconforto no indivíduo. Invadir o território do outro tende a ser visto como invasivo.

Agora, a Psicanálise é transgressora, ela questiona o sujeito e o coloca frente a frente com seus desejos, pulsões e tudo aquilo que ignora. A Psicanálise não explica nada, ela intermedeia, por meio de seu Método, o contato do indivíduo consigo mesmo.

Como profissional, trabalhei na periferia com homens e mulheres excluídos que me viam com desconfiança e descrédito. Várias vezes fui questionada a respeito de minha função e da transformação que poderia surgir daqueles encontros em grupos, discutindo questões que não me eram familiares por serem eventuais. Pela primeira vez, deparei-me com questões sociais importantes de difícil solução e sem respostas fáceis. Aliás, respostas simples não existem.

Kaes, psicanalista francês preocupado com o lugar do subjetivo no sujeito e das relações intersubjetivas que formam o indivíduo, auxilia-me a trabalhar o que é singular a cada um, daquilo que é dado a partir da relação, do contexto social e principalmente das Ideologias por trás destas construções. (Kaes, R.; Um singular Plural, 2011, tradução Rouanet, L.P. Edições Loyola).

Longe de defender abusos, compartilho com intelectuais francesas o desconforto de se discutir algo tão radical com esta frugalidade de slogans assistidos por milhões de pessoas na entrega do Globo de Ouro. Manifestações referendadas por feministas mundo afora. Como apontou Pedro Diniz na Folha de S. Paulo, o preto nada básico deu lugar aos troféus que artistas empunharam e mostraram com glamour; acontece que eram pessoas, ativistas negras, representantes de minorias e que serão esquecidas na próxima onda.

No livro “A Violência Familiar” (Editora Edgar Blucher, 2016), Susana e Malvina Muszkat trabalharam o lugar da violência contra o masculino nas comunidades carentes e o desmembramento desta função e seus desdobramentos. Não posso deixar de pensar no sentido de fatos como estes virem à tona neste momento e desta forma.  O que o debate feminista tem a dizer sobre a violência de gênero contra homens?

O mundo do cinema é conhecido pelos seus abusos, contaram-me de Oprah ter saído numa ou em muitas fotos com o produtor Weinstein e ao lado de garotinhas ditas indefesas. Aí estava tudo bem, pode-se alegar sempre que não sabia da coerção e da força daquele poder. Estes atos de macho predador sempre foram utilizados como forma de submissão. E com isso não menosprezo a elucidação tardia, ela veio para ficar.

Estamos aqui numa área controversa: por um lado a sociedade civil exige um comportamento adequado e civilizatório de seus membros, como nos lembram  sociólogos e antropólogos em suas pesquisas; por outro o que dizer de todas estas regras que estão em voga hoje em dia? Homens execrados e considerados inimigos.

Regras estas que, do meu ponto de vista, servem para apartar, cercear e controlar de maneira perniciosa o encontro de seres humanos. Não devemos nos eximir de conversar sobre as leis que, por exemplo, vigoram na França onde a burca, vestimenta feminina em sinal de recato, é proibida nos locais públicos e com isso inviabiliza a liberdade de ir e vir às mulheres mulçumanas.

Não nos esqueçamos de que a Suécia é um dos países onde o suicídio é um dos mais altos do mundo e neste mesmo país pode passar uma lei onde tudo que for considerado sexual tem que ser consentido e falado entre as partes. Onde vai parar o imaginário? Sedução não deveria ser confundida com agressão.

Onde ficará o erotismo? Onde se alocará a sensualidade? E o véu que encobre e desvela os sentimentos e os relacionamentos? Toda vez que um homem se colocar na posição de demandante será interpretado com assombro e desconfiança? E quando mulheres quiserem se manifestar corporalmente e presencialmente seus desejos mais recônditos, terão espaço para se expressarem? É possível conciliar as demandas por relações menos desiguais com este erotismo e sensualidade?

Finalizando, seria possível avançarmos no debate e na prática, para uma conciliação entre estes mundos? Poderia a Psicanálise aportar este tipo de insumo? Acredito que sim, esta é a função da Psicanálise fora das fronteiras seguras para ela.

 

Any Trajber Waisbich é psicanalista da SBPSP, analista de adolescentes e adultos, membro efetivo, coordenadora de seminário temático sobre Psicanálise de Grupo no Instituto de Psicanálise. Secretária da diretoria, cargo eletivo.

*Foto: VejaSP/ “Bordel”, de Di Cavalcanti, integra a mostra “No subúrbio da modernidade – Di Cavalcante 120 anos”.

 

 

Sobre “Roda Gigante”, de Woody Allen

Algumas das minhas impressões sobre o filme “Roda Gigante”, de Woody Allen, em cartaz nos cinemas: pesado, muito bom, belo, fotografia, cores e roteiro inspirados nos grandes melodramas de Douglas Sirk da década de 50 (“Written in The Wind” e, sobretudo, “Imitação da Vida”, com Lana Turner). Kate Winslet dá um show de interpretação. Certamente, com a personagem e atuação de Winslet, Allen refere-se à de Blanche Dubois de Vivien Leigh, à Martha, de “Quem tem medo de Virgínia Woolf”, interpretada por Liz Taylor e, no final, à Norma Desmond, de “Sunset Boulevard”, papel de Glória Swanson (que também era uma espécie de Medéia). O filme tem impacto e fica na cabeça.

O roteiro é bastante previsível. O desenlace já se vislumbra desde o começo, como nas tragédias gregas em que já se sabe o fim. Justin Timberlake faz um dos personagens da história e também o papel do coro da tragédia aos modos da antiguidade. A grande diferença é que as personagens que sofrem ou protagonizam grandes atos de violência vivem depois como se nada tivesse ocorrido. O diretor já propôs tramas semelhantes em outros filmes anteriores como “Crimes and Misdemeanors” e “Match Point”. Essa é uma tecla em que ele tem batido com recorrência. Não que o desastre fique incólume – as gerações seguintes arcam pelos feitos das anteriores. À exemplo do que acontece nas tragédias gregas “Oresteia” e “Tebana” com o destino dos personagens Laio, Édipo e Antígona, o filme de Allen tem o garoto piromaníaco. Uma visão trágica da condição humana na dimensão particular e, analogamente, na social.

Claudio Castelo Filho é analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e professor livre docente em Psicologia Clínica pela USP.

I Encontro sobre escrita – DC

8 e 9 de junho de 2018

Nos dias 8 e 9 de junho de 2018, a Diretoria de Científica da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo promove o I Encontro sobre Escrita. Para inaugurar as comunicações que serão publicadas neste espaço até a data do evento, selecionamos um belo texto de Sonia Azambuja, publicado na revista Ide em 2010. Nele reconhecemos a parceria que a Psicanálise faz com a Literatura para expressar seu próprio pensamento.

 

Sobre cartas: uma garrafa lançada ao mar

Sonia Curvo de Azambuja

 

Em A interpretação dos sonhos (190011972), Freud, citando a Eneida de Virgílio, coloca: “Se não posso dobrar os poderes supremos, moverei o Aqueronte das regiões infernais”

Vemos aí como, na sua base, a psicanálise faz emergir aquilo que sempre foi considerado para a história da consciência uma categoria negativa.

Nesta comoção dos deuses demoníacos, com seu sonho da “Injeção de Irma”, sonho tido por ele como paradigmático, o que seria a excelência do sonhar, dos pensamentos oníricos, que nos levariam ao insondável, ao umbigo, por assim dizer, que é o seu ponto de contato com o desconhecido. Aí pulsa o que move o sonhar: o desejo inconsciente.

Nesse sonho há algo que paira, que é o escrito em negrito: a fórmula química da trimetilamina, que é uma referência à sexualidade como básica nas pulsões que nos habitam. Contudo, esta fórmula química é também uma inscrição simbólica e ela se dirige a nós: seus leitores. É como se Freud lançasse uma garrafa ao mar. Quem pegar, pegou. Quem puder lê-lo, verá que seu maior desejo inconsciente nesse sonho é que possamos aceitar a lógica do inconsciente. O destinatário desse sonho inaugural de Freud é a posteridade. O que move o sujeito para o inconsciente é a sexualidade, e o que se encontra nele é o simbólico que se dirige sempre ao outro. Como diz Ferenczi: “Eu durmo para mim e sonho para você”.

Esta necessidade profunda de formação de parceria, de encontrar um receptor, é o que nos faz sonhar e também é o que nos faz criar pensamentos e produzir tudo o que produzimos. A carta talvez seja o gênero literário que mais se aproxime desse desejo.

Em uma carta que escrevi para os jovens analistas, tomei como mote Rilke (1966) em suas Cartas a um jovem poeta, livro amado por mim na juventude e que, como em um sonho, fisgou-me na minha vocação de analista: porque o analista, como o poeta, percebe que o homem é um ser passional. Como um barquinho, ele é tocado por paixões: amor, ódio, medo, ciúme, inveja, ternura, sedução. E foi na companhia do poeta que eu pude me dirigir em uma carta aos meus colegas em 2007.