Um novo Admirável mundo novo*?

* Marilsa Tafarel

Quando, no filme sobre a vida de Elizabeth II, ela, ainda menina, recebeu a notícia de que como seria a próxima rainha não poderia socializar com qualquer pessoa, a intérprete “interpretou” tristeza em seu semblante.

Nós, que talvez não seremos nada além do que já somos, pós-Covid-19, recebemos a notícia de que não podemos mais socializar com NINGUÉM. Só virtualmente. Estamos no momento mais incerto jamais vivido de uma pandemia.

A primeira morte próxima me trouxe para a realidade da peste. Este impacto surgiu quando fiquei sabendo que Naomi Munakata, a maestrina que regeu por duas décadas o Coro da Osesp, morreu. Ah! Sim, ela tinha saúde frágil, ouvi dizer. Um argumento um tanto defensivo. A grande maestrina Naomi Munakata morreu, é isso que importa. “(…) quanto vale essa vida em percentual de desemprego ou do PIB?”, comentou Aimar Labaki, diretor e dramaturgo.

E todos que morrerão serão Naomi Munakata, nascidos em Hiroshima, como ela. Não queria dizer que todos que morrerem serão Naomi Munakata, nascidos em Hiroshima. Mas disse.

Não seria, no mínimo curioso, a maestrina ter nascido em Hiroshima? A cidade “da rosa radioativa, estúpida e inválida” como escreveu o poeta Vinicius de Moraes sobre a primeira bomba atômica da história, que arrasou Hiroshima (e depois Nagasaki), no período final da segunda grande guerra. Bomba lançada por um avião americano. Cento e quarenta e cinco mil pessoas se desintegraram, principalmente, crianças e mulheres. Teria sido esse o custo para derrotar o Eixo, o pacto entre Itália, Alemanha e o Império Japonês.

Alguns, mais velhos, viveram a guerra fria e seu pânico prolongado de um final do planeta para os humanos com a ameaça da guerra atômica. Outros, mais jovens, foram poupados disso. Puderam ou não se esquivar do final triste da Primavera de Praga, com a invasão massacrante dos tanques do Pacto de Varsóvia (1968), da crueldade inédita reeditada com o agente laranja, herbicida cancerígeno jogado pelos aviões americanos, que devastou boa parte das matas do Vietnã e deixou milhares de futuras crianças vietnamitas absurdamente deformadas. Tivemos depois a queda da União Soviética que derrubou a esperança de um socialismo melhor e assim seguimos…com outras primaveras que tornaram-se invernos…com a Bósnia…com a Síria…com os emigrados em massa.

Corre por vários canais a ideia de que o novo coronavírus não permitirá virar facilmente a página desse tempo. Uma das hipóteses é cairmos num mundo verdadeiramente orwelliano e huxleyniano, na medida, entre outras coisas, em que poderemos ser obrigados a aceitar um passaporte digital sob a forma de um nanochip, com todos nossos dados de vacinas etc. Teríamos implantados em nós um panóptico digital, na expressão de Pepe Escobar, que retoma Foucault em Vigiar e Punir. No entanto, tudo poderá seguir noutra direção.

O fato é que, nesse momento, estamos solitariamente, sem nenhuma atitude heroica, sentindo-nos, às vezes, mais como anti-heróis. Cuidando da casa, acompanhando as notícias das evoluções dos protocolos, sofrendo com a incerteza. E, atendendo os pacientes por plataformas da internet que dificultam, a meu ver, nossa escuta analítica porque alteram nosso olhar que precisa ser também flutuante. Mesmo assim, temos a surpresa de análises que ganharam muito na abertura para o desejo. Procuramos, por outro lado, lutar um pouco, talvez muito pouco, pela distribuição menos desigual das chances de vida na pandemia.

Contudo, podemos usar essa angústia da urgência para investigações que nos concernem, o que vem sendo feito, aliás.

Parece um bom momento para nos perguntarmos o que nos levou a reconstruir, depois da primeira grande guerra, depois da bomba, dos campos de concentração e extermínio etc, a mesma estrutura social em que cada um colocou seu tijolinho. E assim mantivemos o que Ailton Krenak, em seu livro “Ideias para Adiar o Fim do Mundo”, chama de “clube da humanidade”. Do qual 70% dos habitantes do planeta estão totalmente excluídos, tratados como a sub-humanidade.

Pesquisadores, médicos da linha de frente e biólogos e epidemiologistas e infectologistas que fazem um trabalho multicêntrico, apesar dos desmandos dos interesses da chamada necropolítica, põem a ciência a favor da vida. Como escreve A. Huxley, refletindo duas décadas depois do lançamento de seu livro “Admirável Mundo Novo”, poderemos ter uma ciência a favor do homem e não necessariamente apenas um mundo distópico.

O filósofo Slavoj Zizek, em um texto sobre a Covid-19, em janeiro desse ano, chama atenção para o fato de que o termo viral tão aplicado nos últimos tempos para ameaças na esfera da internet voltou a designar o que anteriormente designava, esse elemento que não é e é um ser vivo.

A caracterização do que, afinal, é um vírus é ainda controversa. Hoje, no entanto, os biólogos tendem a classificá-lo como ser vivo. Os vírus são capazes de evoluir e, graças ao genoma, transmitir suas características a seus descendentes. São unidades acelulares degeneradas com capacidade de interagir com a estrutura celular do hospedeiro. Porém, a definição mais forte que encontrei é: são seres mortos que ganham vida ao interagir com a célula hospedeira. Uma espécie de zumbi?

O verdadeiro admirável mundo novo, com nova economia redistributiva, com uma nova política, uma nova ética mundial, uma ciência não dominada pelos interesses econômicos dos Big Pharma…uma sociedade não utópica, mas livre poderia passar a existir para além da pandemia, se algo em nós, de fato, encontrasse a chave que se conecta com o desejo de uma ordem nova e “viralizasse”. Tal como o vírus, mas em direção oposta, que, por possuir a chave de conexão, pode ficar morto por milênios e voltar à vida ao encontrar uma célula de um ser vivo.

Krenak se pergunta, em seu livro citado acima, por que durante três mil anos nossas instituições construíram e alimentaram uma concepção de ser humano e de planeta que só limitam “nossa capacidade de invenção, criação, existência e liberdade? “Nosso tempo é especialista em criar ausências: do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida.” Estamos criando, escreve ele ainda, uma espécie de humanidade zumbi que não tolera a fruição da vida. (pg. 26/27)

A psicanalista argentina Marian Alizade inventou um conceito que permanece tendo valor. Concebeu um narcisismo terciário que nos levaria a investir libidinalmente pessoas para além das que nos cercam imediatamente, daquelas que pertencem ao “clube da humanidade”. Seríamos, então, levados a investir fortemente aqueles que se situam social e economicamente muito aquém de nós. Assim romperíamos com uma máxima do capitalismo selvagem: tudo que importa somos nós e nossa família.

Pergunto: não haverá em nós um desejo de solidariedade fundado em investimentos desejantes que vão, desde o início da vida, para além da família, que se dariam sob a forma rizomática e não arborizante, no dizer de Deleuze e Guattari?

Desejo negado que só vem à consciência, quando vem, em situações de urgência social, aquelas situações que provocam uma ruptura com nosso quotidiano e com nosso narcisismo habitual que estreita nossa subjetividade?

Nota – Admirável Mundo Novo (Brave New World na versão original em língua inglesa), romance escrito em 1931 pelo escritor inglês Aldous Huxley e publicado em 1932.

* Marilsa Tafarel é psiquiatra e psicanalista. Membro e professora da SBPSP. Doutora em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Autora de inúmeros artigos, capítulos em livros e do livro “Isaías Melsohn: a Psicanálise e a Vida”, em coautoria com Bela Sister.

Considerações sobre “Aberfan” e as catástrofes sociais em tempos de Covid-19

Episódio (T3, E3) do seriado “The Crown”[1]

 *Bernardo Tanis

Em 1966, o deslizamento de um aterro de uma mina de carvão causou uma tragédia de proporções gigantescas na vila de Aberfan, no sul do país de Gales, resultando em 140 mortes, das quais 116 eram crianças que estavam na escola Pantglas, a um dia de iniciarem o período de férias.

O episódio a que assistimos retrata a escola no dia que antecede a avalanche de 110.000 metros cúbicos de rejeitos que arrombou suas paredes e soterrou as crianças e professores. Na sequência, vemos imagens assombrosas de pais e familiares buscando nos escombros os sobreviventes. Logo vem o pronunciamento de dirigentes do National Coal Board (NCB), corporação estatutária criada para administrar a indústria nacional de mineração de carvão no Reino Unido, tentando se eximir da responsabilidade pela tragédia, atribuída às “intensas chuvas”. E, então, escutamos falas de famílias de vítimas denunciando que há anos alertavam as autoridades sobre o risco do desastre. Depois disso, vieram os posicionamentos e ações do primeiro ministro do Reino Unido, Wilson, e da rainha Elizabeth, sobre os quais falaremos mais adiante.

Em 2015, vivemos no Brasil uma tragédia semelhante, de ainda maior dimensão, com o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana. Considerado o desastre industrial  que causou maior impacto ambiental da história brasileira e o maior do mundo envolvendo barragens de rejeitos, teve um volume total despejado de 62 milhões de metros cúbicos e deixou 19 mortos. Análises realizadas em Governador Valadares encontraram na massa de lama quantidades superiores aos valores aceitáveis de metais pesados como arsênio, chumbo e mercúrio. Esses metais, possivelmente utilizados em garimpos ilegais ao longo do rio Gualaxo do Norte, foram carregados pela torrente de lama.

O Brasil viu também, em 2019, o rompimento de uma barragem em Brumadinho, que resultou em um desastre de grandes proporções no âmbito industrial, humanitário e ambiental, com 259 mortos e 11 desaparecidos. Foi considerado o segundo maior desastre industrial do século e o maior acidente de trabalho do Brasil.

Mas não vamos hoje falar de todo o show de horrores destas terríveis e abomináveis catástrofes nem é o objetivo desse comentário tratar do comportamento das autoridades no nosso país. Qualquer um de nós pode dar um Google e saber mais sobre elas.  Farei aqui algumas considerações desde a perspectiva psicanalítica, para a qual fui convidado a falar, para podermos ampliá-las no debate.

Os vértices de análise e comentários que esses desastres despertam são vários. Humanitários, ecológicos, psicológicos. No entanto, como disse no início do episódio o primeiro ministro Wilson, devemos lembrar que sem nenhuma dúvida “Tudo é político”. Isso significa que, na esfera da humanidade, nada escapa ao modo como os homens organizam a vida social e econômica das nações. Quando e por que certas áreas e populações são objeto de descuido ou negligência. Muitos governantes preferem naturalizar as catástrofes de modo a não assumir responsabilidades que, como estados e municípios, têm para com os seus habitantes.

Mas antes de adentrar no assunto das atitudes dos líderes políticos perante o desastre, quero falar um pouco do efeito do desastre, do trauma subjetivo e social que ele produz, pois acredito que apenas se compreendermos algo da catástrofe humanitária poderemos vislumbrar o que possa ser um mínimo sentido reparatório. Chamamos de reparação em psicanálise o ato ou o pensamento que visa a reparar um dano real o fantasiado.

Frente a essas catástrofes ecológicas e humanitárias, a pergunta é: há reparação, há perdão, há justiça possível?

Há várias definições para trauma, mas todas concordam que se trata do efeito da incidência de um acontecimento singular (individual ou coletivo) que impacta a subjetividade a ponto de desestruturar o psiquismo, de questionar os alicerces da subjetividade que se constrói na confiança no outro para mitigar o desamparo constitucional do ser humano.

Perante a fragilidade do bebê humano, o outro significativo provê as condições de um vínculo que não apenas ajuda a subsistência biológica, a conservação da vida, mas cria a base da esperança de poder ser acolhido e protegido no mundo, assim como as condições de desenvolver um ego capaz de utilizar os próprios recursos internos no futuro.

Nós, seres humanos, criamos vínculos afetivos, sociais, parcerias de trabalho. Fazemos parte de estruturas mais e mais complexas para existir enquanto grupo na pólis, no mundo social e político. O Estado moderno, além de figura de autoridade, tem como função auxiliar na regulação da vida coletiva, na construção de normas e obrigações, no sentido de zelar pelos seus habitantes, pelo povo e pela nação. Não se trata de bravatas ou sofismas, mas de atos concretos que garantam o amparo social. Assim como o fazem nossos progenitores.

O que esses desastres evidenciam é a falência do Estado e a manifestação de um governo submetido a interesses de determinados grupos, que não se importa em colocar o planeta ou a população em condição de risco. Seja no País de Gales, em Mariana, Brumadinho ou tantas outras regiões do planeta. Essa lógica predatória dizima populações, recursos naturais e gera ainda a desesperança e o trauma social, e com eles o ódio, o ressentimento, a violência.

Como seguir em frente quando a realidade se mostra tão avassaladora? Como se sobrepor ao sentimento de impotência frente ao desamparo? Como poder elaborar o luto quando o ódio e o ressentimento são o oxigênio que alimenta a chama viva da perda?

Nesses momentos de trauma social, a sociedade percebe o que muitas vezes prefere silenciar: a falta das mínimas condições de uma vida digna para grande parte da população, privada de moradia, saneamento, segurança e renda.

Caros ouvintes, não podemos confundir o traumático com o acontecimento. Quero frisar este ponto. O acontecimento é da ordem do factual. O trauma é da ordem do desmantelamento das referências subjetivas que nos conferem nossa identidade, nossa noção de tempo e continuidade, nossos sonhos e projetos. É como se suspendesse a noção de continuidade da vida: parece que tudo congela ou explode em inúmeros fragmentos. Demanda recompor um tecido mental esgarçado, recuperar a confiança, a vontade de viver e de produzir.

Como recompor esses vínculos e ligações, intrapsiquicamente e com o mundo? Essa é a tarefa que temos de enfrentar.

Na psicanálise, a negação dos fatos, recurso empregado frequentemente por líderes autoritários, é conhecida como o mecanismo psíquico da desmentida. Ao seu lado, a hipocrisia e o cinismo do discurso dissociado da ação muitas vezes são encarnados pelas autoridades.

Já o ódio e o ressentimento, experimentados por aqueles que foram afetados, impedem a superação de traumas coletivos porque também funcionam como formas de negação. O luto só começa após o reconhecimento da situação por todos os envolvidos. Significa que é possível seguir adiante, reconhecendo a perda e a dor. Não é possível elaborar o luto enquanto há um apego a essas paixões negativas.

Pois bem, se me alonguei neste ponto é porque penso que os líderes de uma nação, embora nem sempre tenhamos líderes que mereçam ser assim chamados, têm o dever de compreender não apenas o dano material, mas também o dano subjetivo dessas catástrofes sociais, ecológicas e humanitárias. Os líderes de uma nação não podem apenas fazer contas nem podem olhar a realidade como pura estatística. Os líderes de uma nação precisam, quando dispõem de um mínimo de empatia pela dor do outro, agir de modo a acolher e conter a angústia inominável do sofrimento pela perda real e imaginária que a catástrofe produziu.

No episódio a que assistimos há duas figuras paradigmáticas de liderança. O primeiro ministro Wilson, representado como uma figura sensível, tomada por uma consternação, dor e um sentimento de culpa pela falha do Estado. A rainha encarna aqueles que, perante a catástrofe, não conseguem empatizar ou se condoer. É interessante observar sua travessia ao longo do episódio, a partir da presença de um Wilson “terapêutico” que, sem acusar, ajuda-a a descobrir que não se trata apenas da razão, mas também do afeto. Não se trata de montar um espetáculo, mas sim de poder demonstrar uma emoção genuína.

Aos poucos percebemos que a rainha não é indiferente à dor e ao sofrimento gerado pela catástrofe, mas há uma limitação inerente a sua personalidade, que procurará reparar ao longo dos anos. A série sugere que ela sentiu remorso pela inação pessoal no momento da crise. Desde o ocorrido, Aberfan se tornou a cidade que ela mais visitou no Reino Unido.

A população de um país se sente desamparada quando seu ou sua líder falha em reconhecer a gravidade de uma crise humanitária e a ruptura que ela provoca no tecido social e da subjetividade. Ele precisa ao lado da demonstração de empatia, oferecer à população respostas concretas. O líder que não dá conta desse desafio não pode oferecer um futuro. Se os governantes e a sociedade não reconhecem e assumem as respectivas responsabilidades por aquilo que foi provocado, dificilmente o trauma poderá ser superado.

 

[1] Participação no debate sobre “Aberfan”, episódio da série “The Crown” (T3 E3) que dramatiza a semana seguinte à tragédia galesa. “Aberfan” foi discutido à distância, na edição de abril do Ciclo de Cinema e Psicanálise, evento promovido pela Diretoria de Comunidade e Cultura, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), pela Folha de S. Paulo e pelo MIS. O vídeo do debate está disponível no YouTube (clique aqui)

 

* Bernardo Tanis é psicanalista, Doutor em Psicologia Clínica. Presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

 

Excesso de realidade

*Magda Guimarães Khouri

No mundo da globalização, o filósofo coreano Byung-Chul Han, em seu ensaio Sociedade do Cansaço, aponta que há um excesso de positividade, que faz surgir novas formas de violência que, pela superprodução, superdesempenho ou supercomunicação, provocam a exaustão, o esgotamento e o sufocamento frente à demasia. Nesse contexto, guerrearemos contra nós mesmos e não contra um inimigo externo, sendo, por exemplo, a depressão uma das fortes manifestações emocionais observadas na atualidade. O autor, que, há 10 anos, curiosamente desenvolveu a tese de que o século XX foi uma época bacteriológica, com o seu fim a partir da descoberta do antibiótico.

A esta época, que o filósofo denominou de imunológica, se estabeleceu uma divisão nítida entre o dentro e o fora, amigo e inimigo. Acrescenta que o paradigma imunológico foi dominado pelo vocabulário da Guerra Fria: mesmo que o estranho não represente nenhum perigo, ele será eliminado devido a sua alteridade. Assim, o princípio da negatividade regeria a imunização, no sentido que a violência viria do outro, de um vírus a ser atacado.

Seguindo esse modelo de pensamento, numa sociedade de um excesso de igual, aparentemente sem fronteiras pelo alcance das redes sociais, a Covid-19 surge como um novo inimigo a ser derrotado, reestabelecendo uma reação imunitária, que se caracteriza por criar cercas, barreiras e muros.

Na nossa era virtual, que nos posiciona de forma mais passiva diante do bombardeamento de informações, o vírus surge como um golpe radical de realidade. O psicanalista Fabio Herrmann, em suas reflexões sobre a teoria da crença, escreve que quando a continuidade do cotidiano se quebra e somos capturados por questionamentos inesperados, rompe-se o campo das representações, daí vive-se um estado provisório de não-representabilidade.

Difícil nomear o que está se passando. Pouco se sabe. Em um primeiro momento parece que estamos vivendo aquilo que chamam de realidade paralela. De tão real parece ficção.

Todos nós no isolamento social, temos certa liberdade em flutuar entre os campos da ficção e da realidade, escapes até podem ser criados para as angústias geradas pela incerteza, pelo perigo da doença. Experiências sobre as mais variadas formas para atravessar as dores da crise, não cessam de serem relatadas. Ora perturbador, ora paralisante, tudo merece atenção e espaço de compartilhamento entre os grupos.

Em outro território estão os profissionais de saúde que vivem o excesso de realidade, de situações muitas vezes incontornáveis. O depoimento de um médico, da linha de frente ao combate da Covid-19, que infelizmente no Brasil ainda se encontra no seu início, demonstra o trágico da experiência: vive um pesadelo, quer acordar, quer sair e não consegue.

De acordo com um estudo publicado pela American Medical Association, os autores destacam fatores que geram sofrimento psíquico para os profissionais de saúde durante a pandemia, tais como, alto risco de exposição, medo de ser infectado, cargas extremas de trabalho, dilemas morais, exigência de práticas que diferem das que estão acostumados, sobrecarga de tarefas.

Entre as demandas, ainda está lidar com a família. Durante a internação cabe aos profissionais se isolarem com seus pacientes e barrar os familiares do contato com os parentes. Além da experiência de ver uma pessoa entrar no hospital e ao morrer é como se os corpos desaparecessem: caixão lacrado, sem nenhum ritual, sem despedidas, sem espaço de luto. Um processo que coisifica a vida.

A todos esses profissionais de saúde que se dirigem as várias plataformas de atendimento formadas no país, como uma grande demonstração de solidariedade. A Sociedade Brasileira de Psicanálise se une a esse movimento por meio do programa Rede SBPSP: Escuta psicanalítica aos profissionais de saúde, que oferece atendimentos online, gratuitos e pontuais.  O projeto se estende também aos membros das equipes, tais como vigias, motoristas, agentes de apoio, entre outros. A proposta é cuidar de quem está numa situação de alto risco, dar suporte emocional para quem cuida da população.

A escuta psicanalítica pode construir um momento de introspecção, de recuo da linha de frente, ao gerar uma conversa, que pode dar expressão à angústia subjacente a toda essa circunstância. E se a impotência atual é de todos nós, quem sabe se dê uma cura a dois.

Saindo do campo da urgência a que esses profissionais estão submetidos sem cessar, de alguma maneira que se recupere a possibilidade de sustentar a estranheza e dar brechas a busca de sentidos. E que tudo isso acabe logo.

 

Referências bibliográficas:

Han, Byung-Chul. (2015). Sociedade do Cansaço. (Trad. Enio Paulo Giachini) Petrópolis, RJ: Vozes.

Byung-Chul Han. La emergencia viral y el mundo de mañana, (Publicado no El País 22 de março de 2020) in Sopa de Wuhan – Pensamento Contemporâneo em Tempos de Pandemia. P. 97-111.

http://tiempodecrisis.org/wp-content/uploads/2020/03/Sopa-de-Wuhan-ASPO.pdf

Recuperado em 16 de abril de 2020.

Herrmann, F. Andaimes do Real: Psicanálise da crença. 1ªed. (2007). São Paulo, Casa do Psicólogo,

Downloaded From: https://jamanetwork.com/ on 04/12/2020

Understanding and Addressing Sources of Anxiety Among Health Care Professionals During the COVID-19 Pandemic

JAMA Published online April 7, 2020

Tait Shanafelt, Jonathan Ripp, Mickey Trockel

 

*Magda Guimarães Khouri é psicanalista, membro associado e diretora de Atendimento à Comunidade  da SBPSP. Organizadora com Bernardo Tanis do livro A Trama das Cidades, Ed. Casa do Psicólogo.

A Psicanálise em tempos difíceis

* Anne Lise Scappaticci

Temos vivenciado dias difíceis, ultimamente, nos quais nossa rotina mudou, sem pré-aviso. Perdemos nossos hábitos, algo que nos estruturava, nossa segurança, nossas referências estão desaparecendo. Visto que ao nosso redor o mundo inteiro está sem respostas, as autoridades vão tateando por tentativas, acerto e erro, a cada notícia provamos assombro, perplexidade. Inundados de informações permanecemos na obscuridade. O inimigo é invisível! O contexto que vivemos pode ser sentido como o nosso pior pesadelo. Diante de tanta angústia, vulnerabilidade, qual é a contribuição da psicanálise? O que os psicanalistas teriam a dizer?

A psicanálise não é um mero instrumento externo destinado a incrementar a capacidade de adaptação do indivíduo, como um aparato da psicologia comportamental. Mas, ao contrário, consiste no despertar de uma abertura, uma abertura para o psíquico promovendo um contato consigo mesmo, a psicanálise dentro de cada um. Este período é de tumulto, “too much”, assim, pelo excesso, pela violência, nossa condição humana de desamparo, solidão, dependência e incerteza é despertada. O temor de morrer, o entrar em contato com nossa finitude, é a “raspa de tacho” de nossa alma que está exposta, é tanta dor e frustração. É possível estar consigo mesmo? É possível acompanhar-se? Ter acesso à psicanálise dentro de nós mesmos?  Quando não é possível entrar em contato com estes sentimentos, com a experiência emocional, instala-se uma dinâmica psíquica de ameaça e persecutoriedade. A pessoa acaba evadindo-se, fugindo da própria existência, “des-existindo”…A dor é insuportável e assim, recorre às defesas que se interpõe à experiência de estar consigo mesma, a mente permanece paralisada, ocupada pela onipotência, arrogância, negação… Tomada pelo estado de guerra, as referências internas ficam perdidas…

“Fluctuat nec mergitur” é o mote de Paris que tanto encantou Freud, “Açoitado pela tempestade, mas não submerso”.  O psicanalista é uma pessoa real que, portanto, sente, sofre seus sentimentos. Nós, psicanalistas, assim como nossos pacientes tememos permanecer envoltos na turbulência tempestuosa das ansiedades primitivas que o sentir convoca diante da ameaça que estamos vivendo; afinal, na pandemia o real e o imaginário parecem que coincidem, algo assustador. “Não se espera que um oficial esteja inconsciente de uma situação aterrorizadora e perigosa; espera-se, no entanto, que ele seja capaz de continuar pensando caso se encontre em uma posição em que surja o pânico, o medo…” (Bion, 1979, p. 171). E, para isto, complementaria, é necessário que ele esteja em sua própria companhia.

Nesta pequena contribuição decidi minha escrita a partir do que sinto e então, do que consigo pensar: arrisco diante de algo inusitado para mim, para todos nós. Acho de fundamental importância para o psicanalista fazê-lo, visto os ataques que temos sofrido a nossa capacidade de pensar. É procurar expandir nossa solidariedade propiciando nesta conversa uma interlocução interna, única e preciosa para cada um. Afinal, o isolamento físico não precisa ser psíquico ou, como dizia meu primeiro analista, muitos anos atrás, a pior solidão é não estar acompanhado de si mesmo. Por outro lado, penso que nós, que tivemos o privilégio de ter tido contato mais profundo com a psicanálise, precisamos eticamente oferecer nosso depoimento exercendo nossa cidadania em tempos tão difíceis como este!

 

* Anne Lise Sandoval Silveira Scappaticci é psicanalista, membro Efetivo Didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Doutora e Mestre em Psicologia Médica pelo Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp). Psicóloga clínica formada pela PUC-SP e pela Università degli Studi La Sapienza di Roma. Terapeuta familiar pela Scuola Romana di Terapia familiare e Psicanalista Infantil pela Tavistock.

O que será que será?

*Luciana Saddi

Como falar de algo que não sabemos definir?

2020, tempos de Covid-19, dias de isolamento ou do eufemismo “afastamento social”. O frenesi habitual das ruas diminui, raros automóveis, baixos e esparsos ruídos. Comércio fechado, ruas vazias. A lentidão urbana prevalece em contraponto às palpitações diárias da população.  Jornalistas, políticos, colegas de profissão e pacientes falam que estamos em guerra como referência ao presente. “Front”, inimigo, ataque, defesa, insumos, armas químicas e biológicas, hospitais de campanha tornaram-se vocabulários frequentes, assim como vitória, derrota e terror. Escolher entre aqueles que podem viver e os que podem morrer se tornou assombração, fantasma, para muitos de nós – seja porque temos parentes trabalhando em hospitais, seja porque alguns de nós, possivelmente, enfrentarão tais desafios. A vida, hoje, imita a arte dos roteiros de filmes de terror e de guerra.

Mas se é guerra, qual o cenário de operações? Hospitais, enfermarias, UTIs. O contingente: enfermeiros e técnicos de saúde; os que estão na “linha de frente”. Na operação de logística e suprimentos, que sustenta as tropas. Cientistas, incansavelmente, vasculham soluções tecnológicas para cuidar dos doentes e diminuir o grau de letalidade. Uma hipotética vacina, ainda que esteja no futuro, é o graal da atualidade! Epidemiologistas, matemáticos, sociólogos e demógrafos são parte integrante do setor de inteligência e planejamento. Testes de laboratório são munição para a informação. Cloroquina? Tiro de festim. Isolamento é tática e estratégia.  O “esforço de guerra” agora é antítese, deve-se paralisar boa parte da atividade econômica.

Estranho, se guerra, sem um único disparo. Há, porém, outras dificuldades para manter a “guerra” como metáfora apropriada.  O isolamento independe da coerção do Estado, o medo nos empurra.  O “exército” ainda não nos tomou como inimigos, nos antecipamos às ordens e entendemos que é o melhor a fazer – talvez a única e desesperada opção no momento em que a propagação do vírus ameaça toda a sociedade. O vírus é o inimigo comum e apenas cooperação, articulação e solidariedade entre países, políticos, cientistas, laboratórios da indústria farmacêutica e, surpresa, até bancos podem contribuir para o enfrentamento da ameaça.

Antigamente, os jornalistas de guerra diziam que a verdade é a primeira vítima nos conflitos. A liberdade associa-se à verdade dessa maneira, ambas são as primeiras baixas do presente.  Em tempos de Covid-19 verdade, liberdade e solidariedade estão unidas. Não há como esconder as mortes e disfarçar os erros estratégicos cometidos pelos países e cidades no combate ao vírus. Como expressa o pensador italiano, Massimo Recalcati (jornal La Repubblica, 14 de março): “a liberdade em tempo de coronavírus não pode ser vivida sem o sentido da solidariedade. Eu me isolo por mim e por você. Você se isola por você e por mim.”

Refletindo, ainda, sobre a dificuldade em encontrar metáforas para tempos de Covid-19 impossível não lembrar das palavras de Svetlana Alexandrovna Aleksiévitch, escritora e jornalista bielorrussa, ganhadora do Nobel de Literatura em 2015. No livro “Vozes de Tchernóbil – A história oral do desastre nuclear”, Svetlana argumenta que a palavra guerra foi usada para designar a luta contra a radiação e seus efeitos. No entanto, se pergunta, que guerra foi capaz de contaminar o solo e as águas de todo um país por um ou dois mil anos? Tornar um território completamente morto, embora plantas e animais insistissem em permanecer e prosseguir. Que guerra impediu para sempre a entrada de pessoas nesse território ou dele retirou todos os seres humanos sem nenhum pertence? Nem em Hiroshima e Nagasaki, segundo Aleksiévitch, as consequências foram tão duradoras. O tempo adquiriu um outro sentido e a palavra guerra não pode dar conta desses acontecimentos. A escritora consumiu mais de vinte anos para escrever sobre o desastre atômico. Faltavam palavras, faltava compreensão. Foi preciso esperar o assombro decantar.

Como falar do novo desconhecido? Do que não tem nome, nem nuca terá? A poesia como transcendência cria novos sentidos.

Espero que o “novo” coronavírus e suas consequências não traga, nem de longe, o caráter de destruição que Svetlana expõe em sua obra. Não conheço a economia parada, o silêncio do mundo. Nunca vivi tal tempo nem conheço quem o tenha vivido antes. Os antigos que experimentaram as guerras do século XX já se foram, quase todos. Havia o “blackout”, mas por quanto tempo? Desconheço o isolamento social, o confinamento como política de Estado. A distância envergonhada e medrosa que temos uns dos outros. A solidariedade com os mais velhos e vulneráveis preenche a vida de jovens que até ontem queriam apenas se divertir – também desconhecia essa forma da força de vida se expressar. Nunca estive na guerra. Nunca vi São Paulo em tempo de espera. Um mundo sem consumo e comércio de futilidades. O que importa é comida e remédios. Ainda não chegamos ao “salve-se quem puder”, pelo menos até agora. As oscilações vertiginosas da Bolsa talvez não sejam a metáfora indicadora da retração econômica de agora nem da que virá.  Pouco sabemos sobre o hoje e menos sobre o amanhã. Como cantou o poeta: “amanhã ninguém sabe.”

Talvez a metáfora da guerra não seja adequada ao presente. Mais parece com um trapo do que uma roupa, somente esconde partes do corpo, não serve para vestir. Entendo que o presente sempre nos escapa. Precisaremos, de mais tempo ainda para encontrar as melhores palavras e designar o momento e responder: o que foi feito da vida?

O conceito psicanalítico de elaboração trata da procura de sentido para uma experiência traumática. O trauma percorre um longo caminho até que a elaboração o dome minimamente, o civilize. A prática nos ensina que algumas experiências adquirem tal magnitude, causam tantos danos, que a elaboração nunca termina. Nesse sentido o Covid-19 veio para ficar. No sentido biológico desejo vida breve ao vírus.

*Luciana Saddi é escritora e psicanalista, membro efetivo, docente e diretora de Cultura e Comunidade da SBPSP. Mestre em Psicologia Clínica pela PUC/SP. Autora de Educação para a Morte, ed. Patuá, coautora de Alcoolismo, Ed. Blucher, dentre outros livros e artigos publicados em revistas especializadas. Coordena junto ao MIS, com apoio da Folha de S. Paulo, o Ciclo de Cinema e Psicanálise “Mal-Estar na Civilização e Formas Contemporâneas de Sofrimento”. Também coordena junto à Livraria da Vila a série “Encontros sobre o Mal-Estar na Civilização”.

Precisamos estar mais próximos de nós mesmos

Luiz Tenório Oliveira Lima mantém, em sua mesinha de cabeceira, um tomo de (ou sobre) Sigmund Freud, o pai da psicanálise, outro do francês Marcel Proust e um terceiro do poeta inglês W. H. Auden – porque, para ele, “razão e emoção não são incompatíveis”. Nestes tempos de isolamento social forçado pelo coronavírus, ambas precisam se equilibrar. Psicanalista, médico psiquiatra, escritor, professor e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Tenório também pode ser visto na Casa do Saber – não neste momento de quarentena. Lá, ele já ministrou cursos a respeito de a razão e a emoção andarem juntas, para que as pessoas possam enfrentar o presente distópico, o futuro freudiano e… a melancolia, a doença da bile negra, segundo Hipócrates. O remédio para a sensação de vazio e de estar em busca de um tempo perdido? Manter uma rotina de cuidados com a mente (“Tom Jobim aguçava a imaginação lavando a louça”) e disciplina – “a mesma que muita gente tem quando faz exercícios por conta própria”, afirma.

Tenório defende que aqueles que estão em análise continuem por vias digitais, como o WhatsApp, por exemplo, com o qual vem atendendo seus pacientes. A histeria, em muitos casos, parece investir sobre pessoas menos conectadas às suas emoções. “Essa falta de conexão leva à sensação de onipotência, e quando uma pessoa assim se vê confrontada com a realidade de estar só, geralmente entra em pânico”.

Auden, o poeta, perguntou certa vez: “O que fará o homem capaz de assobiar na solidão?”. Pois o freudiano Luiz Tenório tem algumas respostas. Aqui vão trechos da entrevista.

Como combater a angústia que surge em momentos como este, forçados a uma quarentena e com medo do novo coronavírus?
Em um momento como este, as angústias são ativadas em todos nós. Angústias antigas, de desamparo, de medo, de medo da morte. Grande parte das pessoas têm algum tipo de convivência, de contato, com essas angústias. Mas muitas outras não têm. São pessoas cujas angústias estão postas de lado, como se fossem negadas, em nome, talvez, de um sentimento de que a pessoa é inexpugnável. Essas pessoas, sem treino com a própria angústia, quando se encontram em situações como atual, assumem uma proporção, às vezes, histérica, excessiva. Excessiva no sentido de que a pessoa não percebe que a fatalidade existe, e que as limitações podem existir de maneira inexorável.

Essas limitações desencadeiam um certo desequilíbrio entre razão e emoção?
A questão que precisa ser posta é que razão e emoção não precisam ser incompatíveis. Se a razão aceita as emoções, se aceita o coração, como se diz, então se estabelece um contato com essas emoções. Quando a razão não aceita a emoção, então, por trás dessa razão, se esconde um sentimento terrível, que é o da onipotência. Quando uma pessoa que se imagina onipotente se vê confrontando a realidade, ela geralmente entra em pânico.

As pessoas estão em pânico por estarem enclausuradas ao mesmo tempo que não conseguem prever o futuro ou não?
Uma explicação possível diz respeito a isso, sim. A pessoa não tem o devido treino com as próprias emoções. O que significa isso? Para usar uma linguagem comum, o treino com a emoção acontece quando a pessoa, todos os dias, entra em contato com essa emoção, com os seus sentimentos – para que a razão, isto é, todo o aspecto racional dessa pessoa, possa acolher esses sentimentos. O que vemos em momentos como este é que um grande número de pessoas não tem esse treino e acaba “perdendo” o sentimento de onipotência, de invulnerabilidade. E isso é muito crítico.

Por quê?
Porque a pessoa acaba ficando alheada de si mesma, que é o pior tipo de alheamento. Você pode ser alheio a tudo, mas não de si mesmo. Caso contrário, esse feixe de emoções que cada um carrega fica sujeito, em determinadas situações, ao pânico. Em uma situação como esta da covid-19, que é muito grave, pelas consequências econômicas e pessoais, desestabiliza as pessoas. Se você não tem dentro de si algo estável, fatalmente vai se desesperar.

Tem mantido seus pacientes com sessões virtuais?
Estou trabalhando com quase todos os meus clientes por WhatsApp, cada um na sua casa. E esse contato faz todo o sentido. As pessoas estão com medo. E, quando estamos com medo, esse contato é fundamental. Estar em contato garante uma espécie de consciência de si próprio.

Como o senhor encara o seu trabalho, quando atende pessoas incapazes de entrar em contato com as próprias emoções?
Infelizmente, isso ocorre com frequência, ou com mais frequência do que se imagina. Muitas pessoas dizem “mas eu sou analisado”, “eu fiz análise tantos anos”. Mas isso não significa que desenvolveram o contato com as emoções. Porque uma terapia pode contribuir para o restabelecimento de uma pessoa em situação de crise pessoal, por exemplo. Mas, dependendo do caso, isso pode até reforçar nela o sentimento de onipotência, a menos que continue na análise. Isso eu posso dizer pela minha experiência, pelo tempo de trabalho. Análise não é coisa fácil, requer disciplina, requer que a pessoa se comprometa a ir às sessões. E nem sempre ela quer ir.

Só funciona quando o cliente/paciente passa a gostar da terapia?
Quando ele percebe que seus esforços estão enriquecendo sua experiência, quando ele se interessa pela análise, passa a se interessar também pela própria mente. Por exemplo: neste momento de confinamento, de isolamento, uma pessoa que tem a capacidade de conviver com a própria mente tem muito mais ferramentas para se proteger.

É como o trabalho do personal trainer para as pessoas que querem entrar em forma?
Essa é uma analogia muito boa. O personal te ajuda, há contato seu com os movimentos e o dinamismo do seu corpo, a flexibilidade e tudo mais. Com a terapia é a mesma coisa. Corpo são é sempre bom, mas a mente precisa de muito mais cuidados do que o corpo.

Como encarar este momento de quarentena?
É tudo questão de disciplina. Funciona para o corpo e funciona para a mente. E ter as ferramentas mentais certas. Por exemplo, em uma das últimas entrevistas do Tom Jobim, na casa dele, um jornalista perguntou como era seu ritual para compor. Ele respondeu: “Olha, uma das coisas de que mais gosto é lavar louça. Quando preciso de ideias, vou para a pia da cozinha. Começo a lavar alguns pratos e a minha imaginação voa”. Ou seja, se a pessoa tem o recurso mental, se valoriza a própria mente, imediatamente ela vai ser criativa, vai ter devaneios, vai usar a imaginação. Isso é possível para qualquer um de nós, contanto que tenhamos essa condição. Lembro-me de que o jornalista ficou um pouco desapontado, porque esperava que o Tom respondesse com poesia. Mas não. Bastavam algumas bolhas de detergente.

O ferramental ajuda, não?
Principalmente para evitar a histeria, o pânico, que são frutos do sentimento de onipotência. Que também é uma sensação de desamparo. Essa palavra é perfeita. Todos somos desamparados quando nascemos, mas recebemos amparo dos nossos pais, da família, das pessoas em torno. Então, nossas angústias encontram acolhimento. Quando crescemos, o desamparo se torna bem maior, porque não tem mais pai, não tem mais mãe. Podem estar vivos, mas não estão mais lá para nos acolher, pois nossas questões se tornaram por demais pessoais, e acabamos nos sentindo sozinhos.

Daí a necessidade do treino da mente e da terapia?
É preciso aprender a aceitar a dor, a amar a dor. Caso contrário, você se torna vítima do desamparo. Porque você não suporta, você tende a achar que a dor lhe é imposta de fora, por uma circunstância, pelo vírus, por exemplo. Não é o vírus que impõe às pessoas a dor mental, essa dor está presente o tempo todo na nossa mente.  O vírus está deixando muita gente sem dormir, com medo do desemprego e da paralisação da economia.

O que é fundamental para o ser humano?
O sono. Aliás, hoje isso é consensual entre os próprios médicos: o sono é a base, porque é a partir do sono que se sonha, e o sonho tem uma função mental importantíssima para estabilizar a pessoa, ou seja, tem uma base química também.

A mídia tem ajudado as pessoas nesse período difícil?
Acho que sim. Tenho visto muitas entrevistas com infectologistas, epidemiologistas, gestores da área de saúde, psicólogos, todas muito boas. Porque há muita necessidade de informação e ela precisa chegar às pessoas com uma linguagem que seja inteligível.

As pessoas hoje, ante as redes sociais, estão mais distantes de si mesmas?
Cada vez mais distantes. E a questão é que todos nós precisamos (ou precisaríamos) estar mais próximos de nós mesmos. Toda tecnologia, com as redes sociais, distancia a pessoa dela mesma. E isso é muito ruim. Não tem a ver com egoísmo, mas com sanidade, proteção. Uma pessoa só se é capaz de enxergar a outra quando consegue enxergar a si mesma.

Foto: Casa do Saber

Psicanálise em tempos de coronavírus

* Dora Tognolli

  • The storm will pass … and… each one of us?

Torna-se bastante difícil escrever algo no auge da pandemia, no auge da semana em que novas práticas estão nos desafiando. Inexoravelmente, somos “bypassados” pela dinâmica dos fatos externos e de nossas próprias elaborações que não param de nos invadir, pelo bem e pelo mal, mesmo porque muitos pensamentos ativados pela situação traumática não acabam sendo boas companhias…

Nesse momento, tenho o privilégio de estar acompanhada de outros pensamentos, de psicanalistas, jornalistas, escritores, economistas, humoristas, cronistas, familiares, amigos frequentes e atuais, e os que retornaram das nuvens dos tempos em busca de contato. Minha reflexão não é só minha: fruto de uma colagem que está sendo útil, fazendo boa companhia.

  • Isolados…mas não sozinhos!

Curioso o nome que demos a essa temporada forjada pelo Covid-19: isolamento. Cada um no seu pedaço, comprometido em não disseminar a peste, não transmitir e nem ser alvo da transmissão, mas muito conectados, em uso pleno das modernas tecnologias de redes. Alguns de nós reconhecemos que estamos usufruindo bastante, dos dias calmos, da parada da desmesura e do excesso, das paisagens desertas e silentes. Tudo parou: será? Se alguém pudesse capturar o movimento das nuvens e ondas de transmissão, teríamos um espetáculo colorido e pulsante sobre nossas cabeças.

  • Fazer nada … não parece uma boa escolha…

Ficar em casa, sem sair, com todo o tempo para si… pode ser perigoso…Pode convocar o pecado da preguiça no seu sentido mais nefasto: cansaço psíquico, apatia, desinteresse… melancolia…Não estamos em férias, portanto, há trabalho. Não o trabalho na estreita acepção capitalista, atrelado à produtividade, grana, ambição, acúmulo, competição. O sentido freudiano de trabalho cabe bem aqui: trabalho do sonho; trabalho da memória: alude a um processo interno intangível, que põe em movimento o sistema psíquico, em conversa dentro, fora, consciente, inconsciente, presente, passado, fantasia, realidade, o eu e o outro. Momento de uso criativo de ferramentas que estavam adormecidas em nós, muitas vezes, massacradas pela visão estreita de trabalho que nos acompanha. Convite a cozinhar, ler, arrumar a casa, dialogar, contar estórias, exercitar os músculos, tocar piano, aprender um idioma online, atender pacientes etc.

  • Não estamos em tempos normais… estamos em regime de exceção…

Sim: exceção tem parentesco com trauma, com estímulos de magnitude e tempo de existência incomensuráveis. Racionalmente, ok: somos obedientes, marcados por solidariedade e cidadania, mas essa insegurança deixa restos enigmáticos, que não entram na corrente de ideias e se manifestam de formas insidiosas. Angústia, sim: muita angústia. Angústia que busca expressão, vira medo: medo de falir, de deprimir, de não ter comida em casa, de perder nossos pacientes, de contaminar os mais idosos de nossas famílias, do Bolsonaro, dos generais, do Trump, do Posto Ypiranga, do desgoverno, anterior ao vírus…

Desamparo. Ódio. Depressão. Juntos e amalgamados. Com certa dose de esperança e calma, não podemos esquecer…

Nesse momento, parece que a solidão não é uma boa companhia: pode chegar com seus polos de onipotência (Não conto com ninguém! Nem preciso!) ou de impotência, em que o desamparo dá sinal de vida. Em conjunto, em comunhão, parece que unimos nossos conhecimentos dispersos e fragmentados, e que podem propiciar uma organização social, ares civilizatórios diante do caráter implacável da natureza: agora do vírus e de certos representantes do poder que não participam desse possível refúgio civilizatório.

O filme “Melancolia”, de Lars von Trier, é aqui lembrado: curiosamente, o personagem mais racional, mais informado, o geômetra, diante do caos, sucumbe: acaba se suicidando, deixando a fortaleza segura onde vivia com sua família. Nosso lado onírico, mais louco e caótico, pode nos fazer bem, num momento onde os instrumentos tradicionais de controle falham…

  • Esquecer/ neutralizar a ignorância e o obscurantismo

Em se tratando de Brasil, além do vírus, nosso outro inimigo está encalacrado no Governo, na figura do Presidente, que nos apresenta outra classe de vírus, cujos sintomas são o obscurantismo, o ódio, o desrespeito, a irresponsabilidade. Parece que estamos sendo criativos, na medida do possível, e coletivamente, manifestando nas varandas, nos panelaços, nossa desobediência e protesto diante de uma figura que não merece nosso respeito. Vamos continuar nossos levantes, contando que outros representantes políticos ignorem cada vez mais este ser abjeto, derretendo seu lugar e decretando simbolicamente sua inexistência. Onipotente, essa ideia, mas esperançosa: levantes são assim…

  • Ao trabalho

Muitos de nós precisamos trabalhar, queremos trabalhar, em todos os sentidos, e estão pedindo nosso trabalho. Em outros moldes, outro setting, outra dinâmica. E agora, José? Mais uma vez, estamos sendo convidados a nos reinventar e permanecer com nossas ferramentas ativas. Por todas as questões anteriores, nossa profissão tem utilidade pública, nossa conversa acessa os mais recônditos lugares de desamparo e angústia. Muitos colegas já trabalhavam em modo virtual, e sua experiência pode nos ajudar a repensar as práticas. Porém, este momento tem um ar especial, porque não se trata de escolha, mas a única forma de não paralisar o trabalho das análises. Hoje, na cidade de São Paulo, o Estádio do Pacaembu, bem como o Parque Anhembi estão se transformando em “hospitais de campanha”, metáfora interessante, onde as condições ideais não podem estar presentes, mas a iniciativa garante que médicos trabalhem e pacientes sejam atendidos, num espaço de acolhimento, ética e respeito.

As instituições possuem protocolos e normas que pautam os ofícios. No caso da nossa Instituição, é a IPA que rege essas normas, às quais estamos todos submetidos. Mas, por se tratar de um momento de exceção, a manutenção da prática, a meu ver, deverá ser propiciada por uma conversa em tempo real entre profissionais e órgãos reguladores. O analista experiente, numa época de exceção, talvez não seja apenas o mais velho, mais titulado e reconhecido: esse também precisará dialogar com seus pares, na tentativa de manter o atendimento sem prejuízos do ponto de vista da ética e da confiabilidade.

Além do método psicanalítico (livre associação – atenção flutuante, que depende de dois na sala, física ou virtual), ferramenta que aprendemos a cultivar e aperfeiçoar, o momento nos convida a pensar com cuidado nos dispositivos de segurança que precisaremos usar, e também que nossos pacientes utilizarão.

Estas semanas serão um grande laboratório para todos nós, em que definiremos os horários, as plataformas (Skype, WhatsApp – voz apenas, ou imagem e voz, Zoom, Hangouts, telefone celular ou comum) e se há resistências intransponíveis de certos pacientes, e de certos analistas, diante desse novo setting virtual.

  • Tem adulto na sala…

Gostaria de compartilhar algumas experiências bem recentes: quando meu consultório se transformou em virtual, uma vez que encerrei os atendimentos presenciais no dia 18 de março, experimentei um enorme cansaço, após um dia de trabalho virtual, em modalidades variadas: voz, imagem, ambas, troca durante o atendimento por falha na transmissão. Algumas questões surgiram: a necessidade de espaçar mais os horários e flexibilizar opções para pacientes que estão em casa como eu. Alguns, com dificuldades enormes em manter um espaço privado, em função de suas pequenas moradias, e presença da família o tempo todo em conjunto. Eis aí uma questão operacional, nem tão difícil de resolver, que merece tempo e atenção.

A outra questão diz respeito ao momento em si, traumático e assustador para os dois: paciente e analista. Notei que foi um tanto quanto difícil sair do tema da pandemia, e possibilitar o estranhamento necessário ao encontro analítico, acessando os lados mais enigmáticos do paciente. Na pandemia, nos irmanamos, nos solidarizamos, nos familiarizamos com o paciente, e assim, ficamos mais distantes do dispositivo do método. Enredados nas conversas que ambos ouvimos, ficamos duas crianças na sala, desamparadas, em busca de um adulto, não necessariamente o “sujeito suposto saber”, mas aquele que acompanha a longa jornada ao mundo interno, que muitas vezes não tem as respostas nem as certezas, mas propicia a viagem.

Outra experiência significativa foi o apoio em redes de colegas, em reuniões virtuais, onde pudemos falar da experiência recente, numa espécie de supervisão horizontal, colocar nossas angústias num espaço ético e colaborativo.

A conversa continua, a pulsão não sossega, exige trabalho…

Dora Tognolli é psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) e mestre em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (USP).

Quando tudo isso passar, vai precisar de um outro carnaval!

Mariangela O. Kamnitzer Bracco

Com essa frase bem humorada Alice se despediu de mim. Durante a sessão havíamos combinado de começar nossa quarentena analítica e prosseguir, se possível, online. Uma experiência nova para nossa dupla antiga. O tom alegre da despedida me animou, e me senti cheia de boas perspectivas; não só para o prosseguimento dessa análise, como também para os dias vindouros, que até então me pareciam totalmente sinistros e sombrios.

A necessidade de recolhimento exigida pelo coronavírus implicou em inúmeras mudanças em um ano que já começava a tomar ritmo. E assim, semana passada, vi-me despedindo também de outros pacientes, de colegas de seminário, de grupos de trabalho, de familiares e amigos. E, last but not least, do meu analista. Ainda que o mundo virtual acenasse promissor, tudo aconteceu de forma rápida e avassaladora. E essa, penso ser a crueldade desse vírus; a velocidade e a forma insidiosa com que se espalha e que não dá tempo. Tempo para que os doentes sejam tratados e não se acumulem nos hospitais. Tempo, essa matéria prima fundamental no trabalho psíquico.

Nessa semana caótica, terminei uma sessão dizendo para meu analista: sem surto e sem surtar. E esse seria o mantra a ser entoado. Outra medida protetiva foi refugiar em meu narcisismo e me acalmar pensando que não pertencia ao grupo de risco. Mas vi em mim, em meus pacientes e em todos ao meu redor, fortes angústias emergirem. Angústias despertadas pelos ameaçadores fatos recentes que, de alguma forma, reavivavam angústias passadas, da história pessoal e coletiva.

Assolada por meus fantasmas persecutórios, recorri aos diários de Helene Lilly, minha avó judia-alemã.  Em 1938, morando em São Luís do Maranhão, ela escreveu com muita precisão e perspicácia sobre a crescente brutalidade dos nazistas, que tanto sofrimento infligiram também a nossa família. Depois dessa leitura, e, inspirada em Helene, desejei uma serenidade lúcida e decretei: não, não se trata de uma terceira guerra mundial – o vírus com todas mazelas sociais que promete acarretar, não vai ser tão devastador. Mas, metáforas de guerra, de hecatombes, de zumbis vagando pelas ruas povoavam o imaginário. Bruno Profeta, nosso colega, desabafou no grupo de WhatsApp da DC: “só rindo pra aguentar esse clima de mistura entre o Ensaio sobre a Cegueira e The Walking Dead…” Sim, o humor poderia ser um precioso aliado.

Minha angústia depressiva se manifestou quando corajosamente decidi sair do meu bunker para resgatar no consultório minhas plantas, alguns livros e o álcool gel que, no movimento de fuga, haviam ficado para trás. O prédio vazio, com apenas dois carros na garagem, me encheu de tristeza, não vi ninguém. Tudo muito unheimlich! Voltando para casa me senti mais aliviada, pois havia vida e uma família reorganizando sua rotina, com novos tempos, novos espaços.

Assim, com a ajuda da análise pessoal, com a confiança de ser neta de Helene, e no compartilhamento com os colegas e amigos, fui acalmando minhas angústias e tecendo uma narrativa para esse acontecimento inédito, chamado por muitos de peste. Outro ponto de apoio fundamental tem sido as supervisões com Sandra Schaffa, onde vemos que não bastam os cuidados sanitários, pois o vírus insidioso também pode vir de dentro. Fortalecida, penso estar trabalhando com muita disposição e desenvoltura no meu novo consultório/casa-online.

Hoje, Alice compareceu a sua segunda sessão nesse novo ambiente. Bastante alegre contou que ontem arriscou fazer um passeio e, na padaria, encontrou um andarilho que já havia visto algumas vezes antes. Ele se vestia de boiadeiro, com chapéu de cowboy e tudo. Ficou intrigada, quis conversar com ele, mas limitou-se a observar. Ele recebeu o pingado e o pão na chapa que pedira ao dono do estabelecimento. É uma figura popular, muito querida. Conversamos sobre a liberdade desse homem de vaguear e viver seu personagem sem constrangimento, numa cidade asfaltada e sem boiadas.  Alice que gosta de escrever e escreve lindamente, pensa deixar o emprego na empresa da família e lançar-se como escritora. Falamos sobre sua liberdade de escrever, de ser como esse andarilho muito bem acolhido pelo seu entorno. Mas, ao contrário dele, verteria suas fantasias em personagens e enredos a serem compartilhados.

Na sequência, Alice falou com apreensão de seus pais que ainda estão nos Estados Unidos, e com dificuldade de retornar ao Brasil. O seguro-saúde deles não cobre pandemias e a volta possível, requer um pernoite em Nova Iorque, hoje, a cidade-epicentro da doença, cujo sistema de saúde ameaça colapsar. A alternativa seria permanecer na cidade onde estão, na casa de uma irmã da igreja – mas aí havia o desconforto de ficar um longo tempo em casa alheia. Bela metáfora, e lhe digo minha percepção do seu impasse, entre ficar abrigada e protegida num lugar que não é seu (a empresa) ou voltar para o território em que se reconhece e se sente confortável: a escrita.  Contudo teria que passar por uma zona de risco, para a qual não havia proteção (cobertura do plano de saúde). Toda essa conversa se deu num contexto de muita soltura e mobilidade, dela e minha, no divã online. Penso que Alice já fez sua escolha. Agora é aguardar.

O que posso afirmar é que eu fiz a minha: sair da zona de conforto, abandonar o terreno dos grandes autores e publicar esse texto muito intimista. Quanto risco !

Antes de encerrar, relato aqui parte da conversa fluida e alegre que ocorreu via WhatsApp por ocasião da interrupção do seminário de Lacan. Havia pedido ao nosso colega e poeta Ricardo Biz, que nos enviasse um poema inspirador para os dias que se seguiriam. E, após algum tempo, ele respondeu: “Aceitei o desafio. Aí vai:”

O Agora é um alambrado

Que aprisiona meu vento,

Um vento nunca rumado,

Sem fim e sem nascimento.

Marilsa Taffarel, nossa querida coordenadora, que habilmente nos conduz por meio dos instigantes labirintos de Lacan, reagiu: “Ricardo, inspiração à prova de coronavírus!” E sem perder o gingado lacaniano acrescentou: “Bons tempos em que corona era uma marca de chuveiro! Lembra?”.  Ymara Victolo, por sua vez, concluiu: “Boa, Ricardo! Não aprisionou a liberdade de criar e pensar!”

Eu termino meu texto, desejando que esse período de recolhimento seja de muita libidinização e vitalidade. As próximas semanas serão muito duras. Precisamos reforçar nossa imunidade com fortes laços coletivos para resistir.  Resistir, não só ao vírus, mas também a toda uma politica ensandecida que não valoriza a vida humana. É hora de convocarmos Eros e realizar um pacto civilizatório, onde prevaleça a justiça e a fraternidade. Agora, juntos, cantemos o refrão: “é preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte!”

Quero citar as outras colegas que compõem o precioso grupo de Lacan: Alice Paes de Arruda Barros, Ana Maria Rosenzvaig, Fernanda C. S. Colonnese e Maria da Penha Lanzoni. Quero expressar também minha gratidão para a Ana Maria, que foi generosa interlocutora na realização desse texto. Sem seu incentivo, eu não o teria escrito.

 

* Mariangela O. Kamnitzer Bracco é psicanalista, membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

 

Caros Membros da SBPSP e Membros Filiados ao Instituto

Estamos vivendo um momento pleno de incertezas e inseguranças em múltiplos aspectos de nossas vidas. As medidas práticas tomadas por governos, estados, autoridades embora importantes e necessárias atendem a uma parte das demandas necessárias para conter a vertiginosa velocidade de contágio da pandemia que nos assola.

Como psicanalistas sabemos que a incerteza, o medo e a insegurança têm ressonância com angústias primárias e o nosso desamparo constitutivo e demandam também outras modalidades de contenção. O melhor e o pior da humanidade emergem nestas horas. Estamos acompanhando de perto o esforço dos colegas analistas e também dos analisandos no Brasil e no mundo, para manter as condições de escuta e de trabalho psicanalítico nas condições que a cada um lhe é possível.

O momento não é de heroísmo onipotente, mas também não de um niilismo catastrófico. Acredito que todos nós estamos cientes da importância de estarmos disponíveis para nossos analisandos, seja de modo presencial quando possível ou pelas ferramentas remotas ao nosso alcance.

Reconhecemos que em momentos como estes surgem dúvidas e inseguranças no modo de conduzir nossa tarefa analítica. Muitos nunca praticaram análises remotas, outros se interrogam sobre a possibilidade e dificuldade do trabalho com crianças nestas condições as perguntas são muitas.

Todos nós temos colegas e amigos analistas com quem podemos compartilhar as experiências, intercambiar ideias, manter um diálogo sincero e exercer um pensamento analítico vivo. O importante é que estejamos unidos como grupo e instituição, embora isolados fisicamente, de modo algum o estamos emocionalmente.

A solidariedade entre todos e para com o conjunto da sociedade são fundamentais para enfrentar o sofrimento psíquico, físico e econômico ao qual estamos todos sujeitos.

Um afetuoso e solidário abraço a todos,

 

Bernardo Tanis

Presidente da SBPSP

 

Pandemia do coronavírus, epidemia de pânico e a evolução da humanidade

Observatório Psicanalítico – 150/2020  

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo

*José Martins Canelas Neto

 

A meu ver a questão decisiva para a espécie humana é de saber se, e em que medida, a sua evolução cultural poderá controlar as perturbações trazidas à vida em comum pelas pulsões humanas de agressão e autodestruição. (Sigmund Freud, O mal-estar na civilização, 1930)

​Vivemos uma epidemia de pânico desencadeada pela grave pandemia do coronavírus. Diante da angústia de morte e das incertezas quanto à doença, o pânico aparece entre as pessoas e as reações são as mais variadas. Uma delas é a negação do problema. Vemos isso em todos os países, nos quais as pessoas minimizam o problema e não tomam os cuidados recomendados pelos especialistas e pelos sistemas de saúde, frequentando lugares com aglomeração de pessoas como bares, restaurantes, cinemas, shows, manifestações públicas, etc. De forma semelhante vemos reações de rebeldia, violência, segregação de pessoas que poderiam estar infectadas.

Já entramos numa crise mundial desencadeada por essa pandemia que apesar disso, paradoxalmente, pode nos ajudar a pensar e, quem sabe, começar a mudar nossa visão sobre esse mundo em que vivemos hoje.

Atravessamos um momento histórico sombrio da humanidade, no qual certas políticas e ideologias discriminatórias estão em ascensão; o conhecimento e a ciência são atacados, mesmo após as importantes lições que outras epidemias, o holocausto e outros genocídios nos deram.

Esse quadro é particularmente grave no Brasil onde observamos uma enorme regressão no que concerne nossa consideração e reconhecimento do outro como nosso semelhante, manifestações violentas, desqualificativas e de descaso e ódio em relação aos mais desfavorecidos e àqueles diferentes de nós.

Agora fica claro o que Freud já mostrou quando, a partir de 1920, no pós-Primeira Guerra Mundial, reformulou sua teoria das pulsões, introduzindo o novo dualismo pulsional: pulsão de vida e pulsão de morte. No texto Psicologia das massas e análise do Ego, e em outros textos, nos mostrou o quanto o ser humano tem nele, em seu âmago mais profundo, a possibilidade de destruição de si mesmo e dos seus semelhantes.

Todos nós estamos sendo forçados a aprender que só sobreviveremos enquanto espécie se realmente levarmos em consideração o outro. Não só o outro ser humano, mas os outros seres vivos e nossa mãe Terra. A ganância e o egoísmo, fomentados pelo “narcisismo das pequenas diferenças”, estão nos levando para a real possibilidade de destruição de nosso planeta e de nossa espécie.

Quando vemos no Brasil e em vários países as pessoas apresentando um comportamento, estimulado pelo pânico da morte, de completa desconsideração pelo ser humano próximo, enchendo os carrinhos nos supermercados de maneira irracional, tentando a todo custo levar vantagem sobre os outros, ficamos tristes e muito preocupados com o nosso futuro enquanto espécie. Mas talvez essa pandemia nos propicie indiretamente a oportunidade de refletir com nosso coração e exercer nossa capacidade de amar a vida e respeitar cada ser vivo.

A ameaça à vida pela pandemia não faz distinções de classe, de cor, de gênero, enfim das singularidades de cada um. Todos estamos ameaçados. Mesmo as classes mais favorecidas, num piscar de olhos, poderão se tornar discriminadas, por exemplo se não houver mais leitos de UTI nos melhores hospitais privados. De nada adianta estocar papel higiênico se o sistema de saúde não conseguir dar conta do atendimento das pessoas que necessitarem, sejam elas ricas ou pobres, homens ou mulheres, qualquer que seja seu gênero, cor ou outra singularidade.

Nossa sociedade baseada no individualismo, no lucro desenfreado, no consumismo sem limites, por vezes de produtos extremamente fúteis, essa sociedade será obrigada a ver que a natureza é mais forte, que um simples ser vivo como um vírus pode acabar com nossas vidas rapidamente. Esse é o momento em que será preciso mais do que nunca desenvolver nosso senso do coletivo, nossa solidariedade e nossa civilidade. Cada vida é um milagre precioso e deveríamos honrá-la e ter responsabilidade e respeito com ela.

No mundo atual, no qual a tecnologia nos permite conseguir tantos progressos, passamos mais tempo nos celulares, mergulhados em nosso universo narcísico individual, do que no cuidado com o outro, com o afeto e o amor pelo ser humano próximo.

Precisamos refletir como dispomos de nosso tempo. Que escolhas fazemos para usufruir de nossa vida. Paradoxalmente agora, com essa pandemia, só poderemos nos relacionar pelos meios virtuais. A necessidade premente do isolamento social vai nos mostrar, assim espero, o quanto o outro humano é importante. Será que conseguiremos aprender a fundamental lição de que o respeito e a responsabilidade pelos outros são essenciais para nosso futuro e o do planeta?

Espero que sim! Mas nada é certo. Estamos em um momento de profunda incerteza e precisamos aprender a lidar com ela. É preciso respirar profundamente e acolher uma nova maneira de pensar e ser criativo diante dessas limitações cotidianas que nos estão sendo impostas, podendo transformar então nossa organização da vida e das relações. O vírus nos mata pela impossibilidade de respirar, mas também pela nossa dificuldade de enxergar o outro em sua semelhança e humanidade, nos tornando irracionais e propagadores da morte. É o momento de nos elevarmos enquanto seres de luz e razão e não sucumbirmos ao que há de mais baixo em nós!

O momento do sobreviver é o momento do poder. O horror ante a visão da morte desfaz-se em satisfação pelo fato de não se ser o morto. Este jaz, ao passo que o sobrevivente permanece em pé. […] A forma mais baixa do sobreviver é o matar. (Elias Canetti, Massa e poder, 1960)

 

*José Martins Canelas Neto é psicanalista; membro e secretário geral da SBPSP.

 

**Uma versão deste texto está publicada no Observatório Psicanalítico no site da FEBRAPSI. Clique aqui.