Freud na casa de Adélia – uma conversa entre “Luto e melancolia” e o poema “Leitura”

Vanessa Figueiredo Corrêa 

Leitura

Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras.
As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha
de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas
fora do seu tempo desejadas.
Ao longo do muro eram talhas de barro.
Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo
que lá fora o mundo havia parado de calor.
Depois encontrei meu pai, que me fez festa
e não estava doente e nem tinha morrido, por isso ria,
os lábios de novo e a cara circulados de sangue,
caçava o que fazer pra gastar sua alegria:
onde está meu formão, minha vara de pescar,
cadê minha binga, meu vidro de café?
Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.

Adélia Prado 

 

No livro Literacura – Psicanálise como forma literária, de Fernanda Sofio, a autora sugere que o leitor reproduza o texto literário em sua mente e assim “distorça-o” e o recrie de acordo com a experiência subjetiva. Dessa forma, a leitura de uma obra literária pelo vértice psicanalítico pode ter características de um diálogo e não de uma análise. Aqui, além do exercício teórico, deseja-se sobretudo convidar o leitor a sentir em si o poema, ou seja, percebê-lo por meio dos sentidos.

Os dois textos, “Luto e melancolia”, de Freud, e o poema “Leitura”, de Adélia Prado, dialogam por meio da temática que têm em comum: as perdas e os possíveis caminhos para se lidar com elas.

Já que se trata de uma conversa, vem ao caso o contexto em que os autores produziram esses escritos. Adélia ficou órfã de mãe aos 15 anos, em 1950. Teve uma relação próxima com o pai, que faleceu em 1972, sendo que o poema “Leitura” foi mandado para a editora em 1975, ou seja, três anos depois.

Freud escreveu “Luto e melancolia” em 1915, e publicou em 1917, em plena Primeira Guerra Mundial, num momento em que, contra a sua vontade, dois de seus filhos se apresentaram de forma voluntária para o serviço militar e combateram na linha de frente.

Num exercício imaginativo, pode-se supor que as perdas, ou ameaças reais de perda, na vida desses dois autores foram usadas de maneira criativa e contribuíram para que as duas obras fossem escritas.

Em “Luto e melancolia”, é postulado que a perda de um objeto de amor (que não se restringe à morte de um ente querido) leva a um estado inicial de “desânimo doloroso profundo, falta de interesse no mundo externo, perda da capacidade de amor, inibição de toda atividade” (Freud). A obra, então, explora dois possíveis caminhos que a mente percorre após o dano: o primeiro seria o luto normal – um trabalho psicológico processual que “absorve, enquanto dura, todas as energias do Eu”. Mas, “a cada uma das recordações e expectativas que mostram a libido ligada ao objeto perdido, a realidade traz o veredicto de que o objeto não mais existe, e o Eu (…) é convencido a romper seu vínculo com o objeto perdido” (Freud). Ao final do processo, o indivíduo aceita a morte do objeto e segue o movimento de sua própria vida.

O segundo caminho seria o da melancolia: o indivíduo se torna incapacitado de fazer o trabalho psicológico do luto, pois fica identificado com o objeto perdido, e não consegue aceitar a perda. O melancólico sente que foi abandonado pelo objeto amado e o sentimento de abandono provoca ódio. No entanto, o objeto perdido ainda é o alvo de amor, e o ódio gera culpa, acabando por voltar-se para o próprio Eu daquele que perdeu, o que leva a uma ambivalência paralisante entre amor e ódio. Tal conflito está condensado na famosa frase de Freud:  “a sombra do objeto recai sobre o Eu”. Usando uma expressão poética, dir-se-ia que essa pessoa não pode ficar ensolarada, nem iluminada pelos objetos da realidade, está impedida de sentir alegria de viver. Preso na interação com a sombra (inanimada) do que foi o objeto amado, não há espaço para que o Eu volte a ligar a libido a objetos vivos.

Convém lembrar que em “Luto e melancolia” Freud toca pela primeira vez na noção de objeto interno, o que faz dessa obra um divisor de águas para a psicanálise (Ogden).

Caminhando dentro do poema: luto ou melancolia?

O título do poema de Adélia Prado, “Leitura”, entre outras possibilidades, pode ser pensado como uma preparação do terreno para uma “interpretação”, uma leitura dos fatos que serão apresentados.

O primeiro verso, “Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras”, descreve um ambiente fechado e ensombrado, sugerindo a existência de aspectos melancólicos em que, como discutido, “a sombra do objeto recai sobre o Eu”. Mas em seguida:

As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha
de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas
fora do seu tempo desejadas.

Surgem sinais de que há vida frutífera dentro dos muros. As maçãs são temporãs e, por isso, ainda mais desejadas, criando uma expectativa de prazer, reforçada pela construção “gosto caprichado”.

Ao longo do muro eram talhas de barros

As “talhas”, vasos de barro onde se guarda a água, combinadas com a palavra “vinho”, que está no terceiro verso, remetem à passagem bíblica em que Jesus realiza o milagre da transformação da água das talhas em vinho, nas bodas de Caná. O que faz sentido, levando em consideração a profunda influência de elementos bíblicos na obra de Adélia.

Então o leitor é convidado a experimentar sensações gustativas prazerosas:

“Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo
que lá fora o mundo havia parado de calor.

Aparece aí a oposição entre “dentro” e “fora”, que remete à existência de “objetos internos”. No poema, a paralisação está fora e não dentro, há um mundo interno povoado de movimento e de objetos vivos. Preparando o terreno para a alegria que surge nos próximos versos:

Depois encontrei meu pai, que me fez festa
e não estava doente e nem tinha morrido
por isso ria – sentia prazer em estar vivo
os lábios de novo e a cara circulados de sangue
caçava o que fazer pra gastar sua alegria:
onde está meu formão, minha vara de pescar,
cadê minha binga, meu vidro de café?”

São versos “circulados” pela alegria simples e cotidiana do pai, “joie de vivre”. Este é descrito como alguém desejante e o eu-lírico, após narrar o encontro com esse pai que lhe “fez festa”, conclui:

Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera
.”

A palavra “sonho”, por si só, dentro da leitura freudiana, tem múltiplas camadas de sentido e já sugere que foi realizado um trabalho de elaboração. Aqui, abre-se a perspectiva de todo o poema ser lido como um sonho: a realização de um desejo.

Portanto, o poema não segue pelo caminho da melancolia. Nesses quatro versos, está formulado o processo de transformação, da realização verdadeira do trabalho do luto. Do retorno cíclico e da aceitação da natureza: a morte adubando a vida.

Formulação rica para o uso na clínica psicanalítica e na vida.

 

BIBLIOGRAFIA

  1. FREUD, S., Obras completas, volume 12. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 170-94 (Luto e Melancolia – 1917 [1915]).
  2. OGDEN, T. H., “’Luto e Melancolia’” de Freud e as origens da teoria de relações de objeto”. In: ______, Leituras criativas: ensaios sobre obras analíticas seminais. São Paulo: Escuta, 2014, p. 33-60.
  3. PRADO, A., Poesia reunida, 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 2016, p. 22 (Leitura).
  4. SOFIO, F., Psicanálise como forma literária. São Paulo: FAP-Unifesp, 2015.

 

* Vanessa Figueiredo Corrêa, psiquiatra, membro filiado ao Instituto da SBPSP e membro do GEP São José do Rio Preto e Região.

O Estranho, inconfidências

Daniel Delouya

O XXVII Congresso Brasileiro de Psicanálise que acontecerá entre os dias 19 e 22 deste mês homenageia, em seu tema, o centenário da publicação do texto de Freud Unheimliche, e o associa, de outro, com a inconfidência mineira, história marcante da região onde o congresso se realiza este ano. Curioso, porém, o elo entre uma dimensão estética do mundo psíquico e o universo político. Seria um acaso? As circunstâncias da redação deste ensaio são eminentemente políticas: ocorre no final de 1912, com a eclosão da crise com Jung, após Freud desmaiar na sua presença. Um ataque parecido, e no mesmo local, acometeu Freud quando da ruptura definitiva com Fliess, em 1904, na sequência da qual sofreu o distúrbio de despersonalização em Acrópoles, que elaborara durante três décadas antes de publicá-lo em 1936. Já nesse período, em 1913, o estranho surge sob sua pena n’O tema dos três cofrinhos, no Totem e Tabu e no Moisés de Michelangelo. Nesses delineia-se a vivência do estranho pela ameaça narcísica de assassinato e aniquilamento associados ao destronamento do lugar de poder, às inconfidências. O termo Unheimliche significa aquilo que não é de casa, não é familiar e, na trama do rei Lear, essa inconfidência em relação ao pai (do complexo de castração)  é  remontado a posteriori à deposição original da primeira casa, do ventre materno e de sua restauração sucessiva nos cuidados maternos, no leito da mulher que esposamos e no retorno final, à morte, para a terra mãe, pela filha fiel Cordélia. Esse caminho, que o analista acompanha, desde o nascimento e até a inserção no mundo dos homens através das coordenadas propostas pela lei paterna é uma trajetória política penosa de diferenciação, de inconfidência, adquirindo um lugar na pólis do mundo humano. A escuta e o cuidado tanto do sujeito, assim como da cultura que o abriga, se faz pelo analista e pela psicanálise dentro de uma dimensão estética do sentir dessa dialética entre o familiar e não familiar, entre a confidência e a inconfidência. Heimliche-Unhemliche é o norteador, bússola da escuta psicanalítica, desde as nuances mais suteis do discurso do que destoa e desponta do recalcado, passando por aqueles inquietantes que nos desnorteiam e até os abalos das manifestações lúgubres francamente estranhos, de susto e despersonalização que acometem a dupla, o analista e o sujeito em relação a si, ao seu entorno e à cultura que habita. Essas espécies de vivências demarcam as agitações do conflito do eu com o seu recalcado, e os narcísicos entre o eu e o seu entorno. Em uma das últimas menções do estranho, Freud nos permite iluminar as turbulências do cenário atual, nacional e internacional. O fanatismo como o retorno da salvaguarda primária diante de nosso desamparo ao cair na vida, fora do recinto materno. Trata-se deste poder hipnótico responsável pela criação da massa primordial, do sujeito com o outro, o grande. Esse poder carrega, afirma Freud, o efeito estético enigmático, misterioso, unheimlich, nos remetendo, forçosamente, ao recalcado, o mais familiar do primeiro laço humano, do duplo constitutivo da horda primitiva (Freud, 1921). Tal fuga da pólis, da diferenciação e do convívio democrático em direção ao fanatismo, tem reincidindo no cenário ocidental com o colapso, o terceiro desde 1850, da promessa ilusória do neoliberalismo de independência econômica e de soberania da razão e da moral. O unheimliche da psicanálise o desmente!

Daniel Delouya é membro com funções didáticas da SBPSP e autor de vários livros, entre os quais Torções na razão freudiana (2 ed. pela Blucher, 2019)

A vida como ela é: Ser psicanalista hoje

Talya S. Candi

Por que perseverar no nosso impossível ofício de psicanalista?   E mais ainda, o que significa ser psicanalista hoje, no final da segunda década do século XXI?

Somos forçados a aceitar que hoje em dia a denominação de psicanalista não parece mais significar grande coisa. Esta denominação recobre um grupo de professionais profundamente variado e diferente tanto nos critérios de seleção e de habilitação, quanto na própria atuação e na formação teórica, cujo arcabouço conceitual acabou se transformando ao longo dos anos num corpo heterógeno atravessado por oposição por vezes fundamentais e irreconciliáveis. Consequentemente surge a interrogação: o que é ser psicanalista hoje?

Passada a grande febre do final do século XX, a psicanálise se estende hoje nos mais diversos centros de estudos, universidades e grandes centros hospitalares, permitindo que os estudantes interessados na ciência do inconsciente possam ter uma capacitação.  Esta fragmentação do campo tem sido em parte nefasta, mas também, acredito eu, necessária, pois permitiu uma ampla desidealização do fazer psicanalítico. O psicanalista de hoje é um professional como tanto outros que precisa estar inserido na sociedade de mercado e mostrar que seu saber é de valia tanto no campo do conhecimento científico como da terapêutica. No caso contrário, ficaríamos isolados esperando pacientes ideais, que fariam análises ideais e obteriam resultados ideias para não dizer idealizados.

Inspirada pelo psicanalista André Green, tenho me dedicado a pesquisar e trabalhar com os casos limites, casos que hoje prefiro denominar de não-neuróticos, porque desafiam o enquadre clássico (criado para tratar das neuroses) e se encontram nos limites da possibilidade de analisabilidade.  Trata-se de pacientes que parecem ter uma relação de extrema ambivalência com o psicanalista e a psicanálise. Eles experimentam por um lado, a análise como se ela fosse tão necessária quanto o ar que respiram, mas, por outro lado, acreditam (e insistem em dizer em voz alta)  que a psicanálise não pode fazer nada para aliviar o seu sofrimento. Assim vivem um impasse transferencial provocado por um negativismo feroz pelo qual se recusam tanto a largar quanto a melhorar e que, acreditamos, repete uma vivência de fracasso fundamental.

Um paciente que hoje perdi de vista, me perguntava frequentemente por que queria que ele fizesse análise?    A análise que ele foi fazendo contra a sua vontade o ajudou a recuperar sua vitalidade questionadora e me levou a repensar acerca do meu desejo de ser psicanalista.

Numa conferência já antiga que tive a oportunidade de escutar em Paris, Daniel Widlocher diz que o desejo do psicanalista se concentra em três áreas: o desejo de curar, o desejo de conhecer, e o desejo ligado à apreensão do humano. Os pacientes limites desafiam nosso desejo de curar, mas nos permitem conhecer e talvez compreender a complexidade dos dilemas e dos conflitos que nos tornam humanos.

Eles nos forçam a inserir conflitos lá onde frequentemente existem somente atos impensados que escapam a qualquer coisa que poderíamos chamar de humano.  Conflitos que hoje em dia se mostram cada vez mais ligados a impulsos destrutivos indomáveis, que aniquilam a essência do humano e apontam para lados obscuros e perversos da nossa humanidade que qualificaríamos de inumano. Como inserir humanidade lá onde vemos somente arrogância, destrutividade, violência e negação da alteridade? Em 2005, André Green[1]  escreve  um curto texto intitulado ‘’A humanidade do inumano‘’ à guisa de prefácio para o livro de Claude Balier: “A violência em abismo: ensaio de psico-criminologia”.  Uma das facetas do inumano, diz André Green, consiste na capacidade de anular qualquer questionamento e curiosidade, exterminando o sentido da vida,  transformando  qualquer  outro e o próprio Eu, em  “nada”  em “ninguém”,  como se qualquer tentativa de dar nome e significado  ao mundo no qual vivemos fosse violentamente exterminado.” O mal, o inumano é sem porque, diz ele, ele escapa a qualquer compreensão ao não ser se erguer enquanto mal, ele é uma força bruta que visa na sua essência a destruir o sentido e os porquês, os quando e os quem.”  (Green 1988, pg 370).

Acredito que o psicanalista de hoje deve poder estar preparado para ser confrontado com os aspectos mais obscuros e inumanos de nossa humanidade, que visam a aniquilar o sentido e o interesse da própria vida.

Como explicar a proliferação das patologias limites?  Existem vários modelos para explicar a origem das patologias não-neuróticas. A  grosso modo, podemos destacar dois modelos: O modelo do “conflito psíquico”  que remonta à teorização de Melanie Klein e de Kernberg, que vai enfatizar o papel da agressividade, da inveja inata e do conflito psíquico (entre a parte da personalidade  dominada pela posição esquizo-paranóide  que não suporta reconhecer a alteridade do outro e a posição depressiva que aceita a alteridade) e o modelo do déficit  que, a partir de Ferenczi e de Winnciott, destaca  a falta de sintonia do ambiente às necessidades primarias do bebê.

Este último modelo, enfatiza as dificuldades do self de se autorregular e atingir um nível de coesão de organização interna estável quando o ambiente externo não proporciona um suporte suficientemente bom, confiável e continente. Ao longo do tempo estes modelos têm levados a pontos de vista divergentes na ação terapêutica.  O modelo do conflito, coloca a ênfase na estabilidade do setting (que assegura que a análise possa sobreviver à ambivalência e agressividade do paciente) e na interpretação do conflito psíquico, possibilitando assim confrontar o paciente com a sua própria destrutividade.

O modelo do déficit, por sua vez, ressalta a necessidade de proporcionar continência e holding para possibilitar que as áreas que permaneceram indisponíveis para representação possam ser consolidadas. Esta parte do trabalho consiste em criar a tessitura de uma tela branca psíquica   que sirva de pano de fundo para que a história do paciente possa ser desenhada e inscrita.

Entre as múltiplas dificuldades que o analista deve enfrentar para levar a cabo este trabalho, destacamos a intensa quota de destrutividade que os pacientes não-neuróticos trazem e ativam na relação com o analista. Seja ela determinada por uma questão constitucional ou por uma falha dos objetos primários, a continência da agressividade constitui um nó técnico inevitável e um teste difícil.

Bion, Melanie Klein, Winnicott, Searles, Green, Pontalis  entre  muitos outros parecem ter percebido o tamanho do problema que significava para  um analista  engajar-se na análise de tais pacientes: O analista precisa num primeiro momento se implicar, ser utilizado pelas suas carências, se deixar vampirizar pelo paciente, sobreviver,  imaginar as coisas mais improváveis, as mais loucas e irracionais, aceitar errar e sentir-se completamente impotente, ser pisoteado no seu narcisismo e, finalmente, se precisar, saber desistir e aceitar recuar e…. mesmo assim continuar firme com a psicanálise.

Baita de uma tarefa!!

Para se engajar num tal desafio, o analista de hoje precisa mais do nunca estar profundamente familiarizado com seus próprias conflitos e dores, enfim, com sua vida psíquica e “sua loucura pessoal “(Green). Estes pacientes que nos desafiam com um funcionamento psíquico à beira da loucura, exigem que tenhamos  como instrumento  uma imaginação clínica para  intuir e apreender os conflitos  e não nos deixar levar pela manipulações, uma agilidade mental para não  enlouquecer com o sofrimento e,  uma firmeza  e serenidade  interna para  não desistir.

O método analítico, a associação livre e o enquadre são nosso porto seguro nesta árdua tarefa… Claro que eles serão inevitavelmente perdidos no decorrer do caminho, mas eles devem sempre nortear nossa caminhada. Cabe aqui alertar os analistas contra manipulações transferenciais que poderiam levar a situação perigosas de atuação e desfechos catastróficos.

Compreendemos que face a estas situações limites paradoxais (Roussillon) que questionam os limites da própria razão de ser da psicanálise, cabe recorrer à “loucura pessoal”(Green)  do analista que ao entrar  em ressonância com a  vida emocional do paciente, responde com flexibilidade e  rigor, a partir do espirito analítico,  inserindo sentido.

Diremos finalmente que a história da psicanálise nos ensinou que o único que garante a situação analítica é o próprio analista, a sua pessoa e a sua ética.  Neste sentido, não temos como não insistir na necessidade de uma formação sólida e de uma análise pessoal longa que formaram os pilares do ser psicanalista no passado e que permanecem, todavia mais indispensável hoje e   provavelmente amanhã.

Ser psicanalista hoje exige uma formação dupla.  Por um lado, estar atento, como no passado, a sutis manifestações do inconsciente e quando as circunstâncias o exigem, com pacientes não-neuróticos, poder acolher modos de pensamento paradoxais ou, por vezes, modos de pensamentos inexistentes   e inventar respostas apropriadas que possam abrir caminhos nunca antes imaginados.

[1] André Green, « Préface. L’humanité de l’inhumain », in Claude Balier, La violence en Abyme, Presses Universitaires de France « Le fil rouge », 2005 (), p. XI-XVII.

Talya S. Candi, Membro associado da SBPSP, filiada à International Psychoanalytic association, doutora pela PUC-SP, autora de varios artigos em revistas cientificas e do livro; O duplo Limite: o aparelho psiquico de André Green, ed Escuta e organizadora de “Dialogos psicanaliticos contemporaneos” publicado  tambem pela ed. Escuta. Talyasc@uol.com.br

 

Notas sobre Religião, Psicanálise e Vulnerabilidade

Cássia Barreto Bruno

Fala-se, hoje em dia, sobre o retorno das religiões. A Jihad, os escândalos da Igreja de Roma e a prisão de lider religioso no Brasil trazem à tona o debate sobre qual é o lugar da fé laica e da religião no século XXI. Ao levar em conta a complexidade do tema, a psicanálise pode dar alguma contribuição em sintonia com   antropólogos, teólogos e filósofos que trabalham nessa área. (Levi-Strauss, Viveiros, Derrida, para falar de autores recentes).

Na psicanálise, nós poderíamos pensar, por exemplo, em qual lugar da mente se situa esse fascínio pelo sagrado e pelo desconhecido? Podemos dizer que estaria no inconsciente profundo, segundo o modelo freudiano? Podemos ter acesso aos riscos que corremos quando falamos de áreas inconscientes e indizíveis? Serão mesmo inacessíveis? Qual seria o caminho de acessibilidade?

Lancemos alguma luz sobre essa questão. O fato de o inconsciente ser de difícil acesso e o fato de ser o reservatórios das paixões e dos sentimentos que nos assolam e sobre os quais não temos controle, nos deixa intrigados, assustados, mas, acima de tudo, vulneráveis à manipulação.

Nessa área profunda da mente, aquém da palavra, somos frágeis e vulneráveis, tanto no aspecto mais amplo da vida social, expostos à vida Politica, no sentido amplo da palavra, caso das religiões e do Estado, quanto na intimidade da família e do casal.

Após os avanços da teoria psicanalítica, sabemos hoje que, em relação às fantasias e afetos inconscientes, podemos desenvolver uma sensibilidade para esse campo de sentimentos desconhecidos. É possível apurar nossa intuição e ter acesso consciente sobre muitos dos sentimentos que não notamos no corre-corre do cotidiano. Ao se tornarem conscientes, podemos administrá-los de um modo mais racional e proveitoso, digamos assim.

Como desenvolver essa sensibilidade para o desconhecido? Após os estudos de Francis Tustin com autistas, sabemos da importância dos órgãos dos sentidos para a acessibilidade à mente mais primeva.

Se dirigirmos nossa atenção para os indícios que se nos apresentam diariamente e que ficam perdidos no corre-corre do cotidiano, qual seja um gesto, um olhar, um cheiro, uma sensação, podemos dar crédito às nossa intuições. Intuições baseadas em dados de realidade, em observação de nuances e detalhes, tal como Sherlock Holmes fazia ao ter fé e acreditar no que observava.

Nossos órgãos dos sentidos, sob império do olhar, estão subutilizados. Não sabemos qual é o cheiro da raiva, qual é a temperatura do amor, qual o significado desse retorcer de boca, dessa gargalhada fora de hora, desse leve toque de braço.

Assim, urge que fiquemos atentos para estas área da mente e tentemos sentí-las, intuí-las, percebê-las.

Precisamos estar alertas para nos defender de situações que, por estarem em áreas profundas da mente, que é o território do sagrado, do mito, da arte, do inconsciente, do não dito, das sombras, essas áreas, tanto podem abrigar nossas maiores felicidades, quanto nossos maiores sofrimentos.

No mundo atual, a Jihad, o poder das religiões e o abuso dentro das famílias é a violência mais terrível porque é praticada contra a fé e a crença, contra a situação de entrega do mais profundo do ser humano. Justamente quando o ser humano se assume como demasiadamente humano, com suas mais profundas maravilhas e fraquezas, dores e felicidades, justamente nesse momento a pessoa é roubada do que lhe é mais caro, que é sua verdade e seu compromisso consigo própria.

Ou fugimos dessa área profunda do sagrado e nos tornamos racionais qual robô, ou nos deixamos envolver por esses sentimentos brutos, primitivos, maravilhosos, sagrados e aprendemos a administrá-los. Ou fugimos ou corajosamente enfrentamos nosso humano. O que será do mundo sem a poesia, sem a arte, sem o sagrado, sem o amor? Sem o mistério?

Convido-os a ouvir a Quarta Sinfonia de Mahler.

Cássia A.N.Barreto Bruno é psicanalista. Membro Efetivo da SBPSP, Analista Didata,Training Analist da International Psycholoanalytic Association, Docente do Instituto de Psicanálise da SBPSP.

Kolossós de Maio: Presente!

Raya Angel Zonana

O olhar humano necessita da concretude de um vestígio, um resto, um corpo, para poder admitir a morte, esta idéia da qual não se tem representação mental.

O desejo e a fantasia da infinitude ilusória que preenche cada um de nós, estremece diante da percepção de nossa própria finitude e a dos nossos entes queridos, da transitoriedade da vida.

Enterrarmos nossos mortos é parte do legado cultural que desde a antiguidade nos mantém humanos. Na Grécia Antiga, os mortos para os quais não se prestassem as honras fúnebres, estariam condenados a vagar cem anos nas margens do rio que levava ao Hades, mundo dos mortos, sem poder fazer a travessia do Lethes, o rio do esquecimento. A morte passa pelo esquecimento. Quando não se tinha o corpo do morto, erguia-se uma pedra, o kolossós, que enterrada no solo permitia estabelecer contato entre os vivos, luz do dia e sons, e o morto, escuridão e silêncio. Assim o invisível se manifestava por meio de uma presença insólita e ambígua, que era também o sinal de sua ausência. Um símbolo, e assim, preservado na memória dos vivos, o morto vive. Kolossós é também um duplo, o que resta do que já existiu.

As primeiras cidades foram construídas em torno dos cemitérios para que os vivos pudessem cultuar seus mortos, e pelos seus mortos cultivar sua própria memória. É o que nós humanos somos: memória e símbolo. Traçamos nossa história a partir de lembranças, a matéria que mantem a vida.

Os sonhos, como um caldeirão em fogo lento no qual, noite após noite, apuramos nossa história, são uma forma de travestir em simples restos diurnos, nossas delicadas lembranças. São uma forma de kolossós, que presentifica em imagens o que já lá não está visível. Sonhamos para lembrar e para poder esquecer. Nos textos que toda noite escrevemos em sonhos, nas imagens que desenhamos, guardamos com cuidado a memória do que somos. É deste texto que os escritores retiram palavras, imagens, com as quais formam a memória da humanidade. É também esta a matéria das narrativas daqueles que buscam a escuta do psicanalista.

Em Freud, lemos que se adoece por reminiscências. Lembranças que constroem a subjetividade que nos singulariza. É esta a riqueza do humano.

Puxo este fio e lembro-me do texto freudiano Nota sobre o bloco mágico (1925). Neste antigo brinquedo infantil, uma fina película cobre uma superfície porosa. Escreve-se sobre a película, que depois, ao ser puxada, apaga o que ali estava inscrito. Na parte porosa do bloco, no entanto, restam marcas da escritura. Neste brinquedo, Freud imagina o aparelho psíquico, onde uma vez inscrito um texto, ainda que este seja totalmente apagado (da película consciente), e necessariamente “esquecido”, restará sempre o vestígio da escritura no inconsciente atemporal, poroso.

Somos todos parte de um imenso bloco mágico onde as escrituras humanas são preservadas e passadas de geração a geração, por narrativas e histórias que contamos aos nossos filhos, por textos escritos em livros, em espaços virtuais, nuvens que guardam nossas memórias, minúsculos chips. A herança do homem preserva-se gravada em cada ser humano, na sutileza e intensidade de seus traços de memória. Por viver em um tempo finito é que o homem necessita de marcas que percorrem a humanidade, de símbolos para lembrar de momentos inesquecíveis, mas já esquecidos. Somos somente guardiões temporários e artesãos da teia que é a humanidade e que permanece através dos séculos.  O homem se constrói pelas marcas que faz, ao desenhar o que observa, inventar palavras, nomear o que vê e o que vive, talvez em busca de que algo seu, além do biológico das espécies, permaneça eterno. O kolossós, os rituais que se executam para “ninar” os mortos, buscam manter um fio que tece a passagem de cada um de nós e nos torna legado da humanidade.

Se na Grécia o kolossós era uma pesada pedra, com o passar das épocas, outros símbolos se apresentaram. Algo mais leve, muito sutil, mas encarnado é hoje usado como kolossós: cobrindo as cabeças das mães e avós, uma fralda branca, símbolo dos filhos e netos desaparecidos durante o período da ditadura argentina é o kolossós usado pelas Mães da Plaza de Mayo, contra o esquecimento.

No Brasil, no Chile, no Uruguai, na América Latina de tantas dores, ditaduras do final do século passado criaram a categoria de desaparecidos. Pessoas que, na memória de seus familiares e amigos, vagam sem sepultura, sem que deles se tenha rastros, matéria de memória.

Neste mês de maio, em Montevidéu, no dia 20, realiza-se a Marcha do Silêncio., “contra o esquecimento, pela verdade, justiça e memória”. Nesta marcha, que acontece há décadas, após o fim da ditadura no Uruguai. uma multidão reúne-se, e em silêncio marcha por duas horas em direção à Plaza de La Libertad, centro da cidade; ali se detém e nomeia um a um os que ainda estão desaparecidos. A cada nome a multidão responde com um forte e sonoro “Presente”. Este Presente, é a palavra que se faz kolossós. Alguns parentes de desaparecidos, já bastante idosos, levam cartazes com suas fotos, estas que eternizam algo que já foi e que nunca mais será.

Façamos eco a cada um dos gritos de presente que a multidão reunida em Montevidéu neste 20 de maio deixar escapar junto à dor pela perda de seus desaparecidos. De nossos desaparecidos, já que a perda não é de cada um, é da humanidade diante da barbárie que retorna em meio a lampejos de civilidade.

No Brasil, durante os trabalhos da Comissão da verdade, o documento Infância roubada conta a história de crianças presas com seus pais, exiladas, banidas ou, que foram tiradas de seus pais e entregues a pessoas ligadas aos órgãos da repressão, como relata o jornalista Eduardo Reina (Cativeiro sem fim, Ed. Alameda) sobre os “bebês malditos”e “filhos de subversivos”, como eram nomeados.

No entanto, se temos recebido ordens de mudar nossa memória, se como em Blade Runner (Ridley Scott, 1982), tivermos que conviver com uma memória implantada imposta pelo poder, temos também o conhecimento, como psicanalistas, de que a desmentida é mortífera.

O poeta, melhor do que ninguém o expressa, como o fazem Chico Buarque e Gilberto Gil em Cálice:

            Como beber dessa bebida amarga

            Tragar a dor, engolir a labuta

            Mesmo calada a boca, resta o peito

            Silêncio na cidade não se escuta.

Cabe a nós neste momento, como psicanalistas e como cidadãos, não fazer silêncio, não deixar de recordar a pequena história diária com que construímos a vida, nossa e daqueles que ouvimos em nosso trabalho. Poder honrar nosso legado é usar da escuta e da palavra, nossos instrumentos de trabalho, para atravessar o perigoso cristal do esquecimento e da mentira, e manter a possibilidade da narrativa de cada um que nos procura em busca de alguma esperança, da construção de um espaço que permita evocar novos sentidos, novas histórias.

Raya Angel Zonana é psicanalista, Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, editora de Calibán, Revista Latino Americana de Psicanálise da Federação de Psicanálise da America Latina (FEPAL). Integra a Diretoria de Cultura e Comunidade da SBPSP e a Diretoria de Atendimento à Comunidade da SBPSP.

SOFRIMENTO NA ADOLESCÊNCIA: RECONHECENDO SINAIS DE RISCO

Denise de Sousa Feliciano

Recentemente fomos impactados pela notícia de que uma escola de segundo grau em Suzano, um município próximo à capital paulista, havia sido palco de uma inimaginável tragédia: dois ex-alunos adolescentes entraram tranquilamente pelo portão e vitimaram colegas e professores a tiros e machadadas antes de cometerem suicídio. Comoção nacional e a pergunta latejante sobre o que teria levado dois jovens sem histórico de delinquência a cometerem um crime de tal crueldade.

Investigações mostraram indícios de que o crime havia sido premeditado e inspirado em outros similares acontecidos nos Estados Unidos, com destaque para o de Columbine, ocorrido há 20 anos, muito similar ao que se passou em Suzano e também em 2011 em uma escola no bairro de Realengo-RJ.

Tanto a polícia quanto o público buscam compreender as motivações que estão na base desses crimes como uma forma de dar sentido para talvez amenizar o terror sem nome que esses episódios suscitam. Entretanto as explicações e motivos encontrados na maioria das vezes são insuficientes para a intensidade da ação.

O que está em questão é exatamente a falta de sentido, o vazio e outras nuances de uma vida mental de extrema pobreza e sofrimento que escapa à compreensão de uma lógica consciente.

Lionel Shriver reproduziu no livro Precisamos falar sobre Kevin, que em 2011 foi produzido para o cinema na direção de Lynne Ramsay, uma ficção que tenta reconstruir a genealogia de um assassino similar a tantas dessas tragédias ocorridas em escolas americanas. Kevin é tanto o bebê que não se acalma, a criança que não olha nem se vincula com a mãe, quanto o adolescente que aos 15 anos vitima seus colegas, professores, pai e irmã. Resta uma mãe amargurada e sem respostas.

O ódio que esses crimes despertam talvez seja a única forma encontrada inconscientemente por esses jovens de nos comunicar seu próprio ódio por si mesmos e pelo outro. Um sentimento muitas vezes sem contornos para o qual eles constroem uma história intrapsíquica ficcional, mas que se torna sua realidade. É a realidade psíquica que está na base de quem de fato somos.

Dostoiévski em Crime e Castigo, narrativa primorosa, nos oferece a incursão no conflito de uma mente perturbada pela aflição e o desamparo, mediados pela culpa. Nele, o ex-estudante Ródion Ramanovich Raskolnikov assassina uma velha senhora e sua irmã com machadadas a sangue frio, ancorado pelo delírio de representar uma atitude grandiosa para a humanidade. A personagem vive uma vida de miséria. Mas a falta de recursos econômicos é apenas a concretização de sua miséria psíquica que, paradoxalmente parece encontrar sentido no tormento moral que o invade após o crime.

Em termos psíquicos, o que está em pauta é a percepção do mundo e das relações atravessadas por uma mente que não tem instrumentos para processar as dores humanas, imposta a todos nós. Frustrações, decepções ou perdas são congeladas num universo imaginário paralelo no qual o sofrimento é distorcido e representado como resultado de um mundo cruel e perseguidor do qual precisam se defender.

E quais terão sido os delírios dos jovens protagonistas das nossas tragédias? Nunca saberemos. Eles mesmos se incumbiram de suas próprias penas e ao mesmo tempo da libertação de uma provável vida de dor sem fim.

Mais do que buscar o motivo disparador para um crime hediondo entre adolescentes, é reconhecer sinais que possam indicar riscos e ajudá-los. Reconhecer ao nosso lado uma miséria semelhante torna-se cada vez mais urgente. E para nos oferecermos para enxergá-los e resgatá-los da solidão de uma existência vazia é preciso estar disposto a observar e agir. Para isso, é preciso estar perto para ver os sinais de alerta nas sutilezas da convivência e, sobretudo, enfrentar a proximidade com estados mentais sombrios.

Apesar das aparências, o adolescente ainda não se consolidou num funcionamento adulto. É uma identidade em construção. Muitas vezes os pais, acreditando que seus filhos já são capazes de cuidar de si, os deixam à própria sorte, liberando de uma hora para outra tudo o que até então não lhes era permitido: álcool, noitadas sem fim, viagens sem notícias, etc. Entretanto, eles não estão preparados para não terem a tutela dos pais. Ainda não têm estofo para a responsabilidade de cuidarem de si.  Ante a sensação de onipotência que se ergue para compensar a impotência de suas fragilidades colocam-se à mercê do perigo, para si e o outro.

A outra face desse desamparo são os, cada vez mais frequentes suicídios entre adolescentes. A pobreza individual pode se camuflar quer seja no silêncio da reclusão em telas de computador ou smartphones, ou na falsa aparência do jovem descolado e poderoso, amado por todos e sempre feliz. O excesso, seja de tristeza ou alegria, de comer demais ou não comer, de estudar demais ou só dormir, é um dos indícios importantes de sofrimento.

Os jovens de Suzano costumavam passar horas em lan house, perdidos num mundo incógnito de uma internet obscura chamada deep web, na qual “conversavam” com interlocutores anônimos. Sem rosto. Sem nome. Sem voz. Sem existência como possivelmente se sentiam.

Frequentemente após as tragédias, as testemunhas de suas vidas cotidianas reconhecem os tais sinais que sempre estiveram lá, mas não puderam ser vistos. É o que tenta mostrar o filme de Kevin nos incômodos que acompanharam sua existência desde o berço, mas que seus pais não puderam levar a sério para cuidar.

A adolescência traz de volta e reabre muitas dores e vivências de sofrimentos vividos na infância, muitos deles na mais tenra idade. Nessas etapas de vida, as experiências e seus afetos não podem nem mesmo ser nomeadas pela falta de linguagem e permanecem represadas num registro primitivo da mente. É necessário um trabalho psíquico que seja capaz de acessar essas esferas mentais para uma nova reformulação e processos mentais que permitam que haja elaboração e consequente fortalecimento do eu.

Enfim sempre há esperança quando é possível ver e socorrer.

Denise de Sousa Feliciano é psicanalista, Membro Associado na SBPSP, filiada à International Psychoanalytic Association. Mestre e doutora pelo IPUSP, docente no Departamento de Psicanálise com Crianças do Sedes. Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria e Sociedade de Pediatria de São Paulo. 
denisefeliciano@uol.com.br

“Ora direis- Interpretar”: Revendo o conceito de interpretação na clínica do não representado

Audrey Setton Lopes de Souza

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo,

Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,

Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto

E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite,

enquanto a Via-Láctea, como um pálio aberto,

Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,

Inda as procuro pelo céu deserto……

Olavo Bilac       

Algumas experiências clínicas nos confrontam com dificuldades no processo analítico nas quais as palavras se mostram insuficientes – tanto para os pacientes transmitirem o que precisam, quanto para o analista entender e comunicar a eles alguma forma de compreensão dessas experiências. É preciso encontrar outros modos de escuta e de interpretação.

A noção de interpretação, fundada a partir do trabalho com pacientes neuróticos adultos, apoia-se em certa concepção do funcionamento psíquico: devido ao recalcamento, apareceriam sintomas cuja função seria encobrir e disfarçar aquilo que foi perdido e que agora não pode mais ser conhecido, sob a ameaça de invasão pela angústia. Nesse modelo, a função primordial da interpretação seria tornar o sujeito mais capaz de reencontrar-se com o que foi perdido. A clínica atual nos coloca frequentemente diante de pacientes que demandam não um trabalho com o que foi perdido, mas com o que aparentemente nem chegou a existir, o não representado ou o irrepresentável.

Em “Construções em análise” (1937), Freud já chamava a atenção para a existência de experiências de natureza traumática que não podem ser evocadas pela lembrança e que demandam novas formas de intervenção. Diferentemente do trabalho interpretativo com pacientes neuróticos para os quais a análise opera na linha do “per levare”, estes pacientes necessitam de um trabalho de “per puore”. A questão que se coloca é sobre que tipo de inscrição adquirem estas experiências e como acessá-las em análise.

Como destacou Tanis (2018) “se o modelo freudiano inicial focava na pulsão e o desejo como forças motivadoras que animavam a vida psíquica ele se enriqueceu com a inclusão do objeto, seja no reconhecimento dos modelos identificatórios, das vicissitudes da trama edípica, na constituição das instancias ideais e nos processos de luto”. Ele chama a atenção para teorizações pós-freudianas que passam a introduzir o foco no objeto como elemento regulador das emoções mais arcaicas do infant: seja na perspectiva da revêrie do Bion, do holding de Winnicott ou de Lacan quando nos fala da alienação no desejo do outro. O que Tanis realça é que “tudo isso não deixou incólume o lugar do analista no devir de uma análise, passou a convocá-lo de novas maneiras e assim as formulações sobre contratransferência e o desejo do analista ganharam força ao mesmo tempo em que o analista intérprete cedia, mas sem renunciar a ele, espaço às outras formas de intervenção e presença, o que nos convoca a renovar a reflexão em torno da abstinência e da postura ética do analista” .

Autores como Botella e Botella (2002), Green (2003, 2008, 1993/2010), Marucco (2007), Ogden (2006) e Roussillon (1991/2005) chamam a atenção para os efeitos psíquicos dessas experiências traumáticas que não alcançam qualquer representação – e portanto não podem ser evocadas –, propondo reflexões sobre novas formas de intervenção.

Uma vivência será experimentada como traumática no momento em que o sistema de representações não consegue captá-la, dar sentido ou torná-la simbólica. Essa vivência, quando não transformada, torna-se excesso de energia causando uma fratura, um vazio na trama de representações trazendo novos desafios para a atividade psicanalítica.

Para Marucco (2007), o trabalho com esses pacientes nos coloca mais próximos do caldeirão do id e mais longe do inconsciente reprimido, que aparece como repetições irrepresentáveis, marcas que ele denomina trauma psíquico/pré-psíquico e que escapam a qualquer possível significação. Assim, a ideia de não representação e de aspectos cindidos do ego coloca novos objetivos para a psicanálise, pois são aspectos que o paciente não poderá relembrar, e sim viver pela primeira vez – experiências que não puderam ser abarcadas pelas representações e que trazem reflexos para a técnica psicanalítica. A insuficiência de simbolização, que implica o predomínio de manifestações através do corpo ou do ato, frequentemente confronta o enquadre analítico e seus recursos, como a clássica posição de neutralidade, o silêncio e a inatividade do analista, as regras do setting, etc.

A necessidade de o paciente vivenciar pela primeira vez os conteúdos cindidos significa uma participação diferente do analista. Seu funcionamento mental torna-se importante. É preciso ajudar o paciente a encontrar algo novo, um objeto analítico – que não é de um e não é de outro – que promova ligaduras com potencial transformador da realidade psíquica (Marucco, 2002, 2007).

A noção de trabalho do negativo, de André Green (1993/2010), também vai nessa direção: esse conceito implica a existência de algo mais do que a ausência, uma presença não presente, um registro apresentado pelo elemento psíquico inexistente, uma qualidade psíquica que se registra pelo negativo. Tal condição, de perda de sentido da representação interna, será considerada por Green como constituindo a representação interna do negativo; uma presença da ausência do objeto e da ausência de sentido, criando um buraco representacional e produzindo estados de esvaziamento e de falta de sentido.

Azevedo (2009) aponta que Green parte do conceito de negativo em Winnicott, condição considerada normal no desenvolvimento infantil, ligada a uma qualidade do funcionamento psíquico, que pode alcançar a noção de que tudo o que constitui o não eu (aquilo que não é possuído) é o negativo do eu. Essa condição depende da existência de um objeto transicional que perdure como vivo, apesar de ausente. A falha do objeto externo produz um estado de persecutoriedade intolerável e a morte desse frágil objeto interno; como resultado, haveria uma retirada de catexia do objeto que corresponderia ao que Green denomina de função des/objetivante e que atuaria como contrária à vida.

O que Green (2003) aponta é que tal identificação da vida pulsional com um objeto que jamais irá satisfazer o sujeito levaria a uma reivindicação de autonomia cuja meta seria atingir um estado de separação, independência e autossuficiência que se manifestaria na clínica como reações terapêuticas negativas e vivências de branco sem palavras, exigindo do analista uma maior tolerância a certo modo de atividade psíquica para poder desempenhar o papel de receptor de complementaridade e ser capaz de “apreender o que não se soube ou não se pode dizer e que se exprime, então, nas formas extraverbais” (Green, 2003, p. 481). Esses pacientes demonstram grande dificuldade para tolerar o enquadre clássico e exigem do analista certa margem de manobra.

“Nestas condições, o analista deve abster-se de deixar o paciente viver experiências que terminarão por revelarem-se mais esterilizantes que fecundas, com a análise tornando-se cronicamente traumática. É nestes casos em que aquilo que foi muito a propósito denominado de “presença” do analista, adquire pleno significado” (Green, 2008 pg 115.)

Roussillon (1991/2005) também observa que devemos localizar a raiz dessas dificuldades nas falhas das experiências iniciais mãe-bebê, na elaboração dos paradoxos da destrutividade ou do uso do objeto e do objeto transicional. As manifestações clínicas desses pacientes são reações à revivescência de experiências infantis marcadas pela ausência de respostas maternas e por certa desqualificação de suas necessidades. O lugar da “matriz original do fantasma” é então deixado vazio; as pacientes são confrontadas a um branco, representando a ausência de representações, vivido como uma profunda ferida narcísica. A angústia assim mobilizada só pode ser contida na urgência do adormecimento ou numa hiperatividade que mantém e evacua, ao mesmo tempo, a excitação não ligável. (p. 210)

Ele acrescenta que, assim como Winnicott propõe que devemos ensinar os pacientes a brincar, nessa clínica somos levados, nem sempre de forma consciente, a “presentear” (formular, pôr em forma) uma atividade comparada ao que Bion descreve como a capacidade de rêverie materna.

Roussillon (2007) aponta que com estes pacientes o “analista pode avançar apenas lentamente e segundo o afrouxamento progressivo das defesas, sendo obrigado a encontrar modos de presença e modalidades técnicas de intervenção, que asseguram uma presença ou mesmo um acompanhamento suficiente, mas à distância e sem comprometer a análise da configuração transferencial”.

Em suas teorizações, tanto Green quanto Roussillon destacam as contribuições de Bion na área do pensamento e não pensamento e do conhecimento negativo (Bion, 1959/1988a) e o conceito de identificação projetiva proposto por Klein (1946/1991).

Klein, no seu trabalho com crianças, também nos mostra que o analista defronta-se frequentemente com crianças com dificuldades  de simbolização apontando para os efeitos devastadores da identificação projetivas maciças  que geram uma escotomização da vida psíquica. Suas contribuições abriram caminhos para modificações técnicas que consideram a importância do papel do analista na função de acolher e significar estas identificações projetivas.

Ampliando as concepções de Klein, Bick (1991) destaca a importância das primeiras situações. Segundo ela,  anteriores à posição esquizoparanoide, para a possibilidade de construção de um objeto continente capaz de acolher as identificações projetivas. Cito aqui a descrição da Izelinda Barros deste processo “Antes da introjeção deste objeto continente, isto é, antes da constituição de um continente interno, e das possibilidades comunicativas oferecidas pela identificação projetiva, a segurança do bebê está depositada nas qualidades sensoriais do objeto materno e self e objeto são experimentados como superfícies sensíveis e contíguas. Nesta fase a dependência do objeto é absoluta; a separação é experimentada como a perda de partes do próprio corpo.”

Ela destaca que o bebê, no início de sua vida, graças ao uso da identificação projetiva e às qualidades de rêverie da mãe, vive uma ilusão de continuidade com ela e, portanto, não é confrontado com a realidade da separação. Por outro lado, repetidos descompassos afetivos na dupla trazem à luz, precocemente, a realidade de corpos e mentes separadas entre o bebê e sua mãe; provocam perturbações no desenvolvimento da pele psíquica e podem levar à constituição de uma “segunda pele” por meio da qual “ a dependência do objeto é substituída por uma pseudoindependência, pelo uso inapropriado de certas funções mentais, com o propósito de criar um substituto para esta função de pele continente” … Bick (op.cit. p197).

Devemos a Bion a apropriação do conceito de identificação projetiva e sua dimensão comunicativa, enfatizando a função de rêverie (Bion, 1962/1988b), primordial para o trabalho com o que Bion denominou  elementos beta: experiências sensoriais brutas e não processadas e que são incapazes de vincular-se umas às outras e, portanto, tornam-se impróprias para o pensar, o sonhar, ou mesmo para guardar como lembrança (Ogden, 2006).  É a partir da transformação operada pela função alfa que essas experiências podem vincular-se e ser usadas para sonhar e pensar. Esse modelo de interação não verbal, característico da relação mãe-bebê, põe o analista no lugar daquele que exerce a função de acolher e transformar as experiências não digeridas de seus pacientes, num trabalho muitas vezes para além das palavras.

No trabalho com pacientes psicóticos, Bion questiona a função da interpretação introduzindo a ideia das funções alfa e beta, e da função de metabolização dos afetos; enfatiza, assim, a importância do objeto real (do analista real e da mãe real) nesse processo, colocando o analista na função de acolher e significar experiências. Sua concepção de função alfa evoca a função mental de transformar as impressões sensoriais brutas, denominadas elementos beta, em elementos alfa. A ideia de elementos beta também aponta para o irrepresentável, pois essas experiências sensoriais brutas e não processadas são incapazes de vincular-se umas às outras e, portanto, tornam-se impróprias para o pensar, o sonhar, ou mesmo para guardar como lembrança (Ogden, 2006). É a partir da transformação operada pela função alfa que essas experiências podem vincular-se e ser usadas para sonhar e pensar.

A função de rêverie (Bion, 1962/1988b) torna-se primordial para o trabalho com os elementos beta. Esse modelo de interação não verbal, característico da relação mãe-bebê, põe o analista no lugar daquele que exerce a função de acolher e transformar as experiências não digeridas de seus pacientes, num trabalho muitas vezes para além das palavras.

Os autores citados se propuseram a pensar a clínica dos pacientes-limite, o campo dos pacientes psicossomáticos, borderline, da angústia do vazio e das dificuldades de simbolização. Nesses casos, o analista é convocado a trabalhar para preencher o vazio, suprimindo o vazio imaginativo do paciente e a ausência simbólica da elaboração psíquica que este foi incapaz de realizar. Eles ressaltam como o analista é, de alguma forma, levado a desenhar imagens que correspondam à vida mental do paciente, ajustando suas possibilidades simbólicas às do paciente.

Na construção de uma história analítica, buscamos desenvolver, dentro da relação, um aparato psíquico capaz de pensar e transformar as experiências emocionais vividas pelos dois membros do par e o que introduz a consideração da disponibilidade analítica para suportar as rupturas do enquadre clássico, utilizando-se de sua capacidade de sonhar.

É necessário conceber a análise como um campo de construção de um objeto continente, que possibilite oferecer a experiência de reconhecimento e de esperança que não pôde ser encontrada na relação com os objetos iniciais.

Com estes pacientes, é necessário rever o conceito de interpretação para além do tornar consciente o inconsciente, abandonar o lugar ascético do analista decifrador de enigmas e encontrar novas formas de intervenção para poder alcançar a experiência em curso.(Souza,2016) Do ponto de vista da experiência como analista, torna-se evidente que não se trata de observar e interpretar o que se passa; é necessário viver e sobreviver ao intenso campo emocional que se forma, acolhendo-o com nossa capacidade de rêverie e ajudando nesse processo de sonhar os sonhos não sonhados.

Bibliografia

Azevedo, A. M. A. (2009). Por que Green? Psicanálise: Revista da SBPdePA, 11(2), 233-244.

Barros, I.G. (2013) Os primórdios da estruturação psíquica como se apresentam na clínica. Revista de Psicanálise de Ribeirão Preto- Bergasse 19; vol. IV nº 1

Bick, E. (1991). A experiência da pele em relações de objeto arcaicas. In E. B. Spillius (Ed.), Melanie Klein Hoje (B. H. Mandelbaum, Trad., pp. 194-198). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1967)

Bion, W. R. (1988a). Ataques ao elo de ligação. In W. R. Bion, Estudos psicanalíticos revisados (W. M. de M. Dantas, Trad., pp. 87-100). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1959)

Bion, W. R. (1988b). Uma teoria sobre o processo de pensar. In W. R. Bion, Estudos psicanalíticos revisados (W. M. de M. Dantas, Trad., pp. 101-109). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1962)

Botella, C. & Botella, S. (2002). Irrepresentável: mais além da representação (M. E. Schneider, P. Ramos & V. Dresch, Trads.). Porto Alegre: Criação Humana; Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul.

Ferro, A. (1998). Na sala de análise: emoções, relatos e transformações (M. Justum, Trad.). Rio de Janeiro: Imago.

Green, A. (2003). A crise do entendimento psicanalítico. In A. Green (Org.), Psicanálise contemporânea: Revista Francesa de Psicanálise, número especial, 2001 (A. Cabral et al., Trads., pp. 477-491). Rio de Janeiro: Imago; São Paulo: SBPSP.

Green, A. (2008). Orientações para uma psicanálise contemporânea (A. M. R. Rivarola et al., Trads.). Rio de Janeiro: Imago; São Paulo: SBPSP.

Green, A. (2010). O trabalho do negativo (F. Murad, Trad.). Porto Alegre: Artmed. (Trabalho original publicado em 1993)

Klein, M. (1991). Notas sobre alguns mecanismos esquizoides. In M. Klein, Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963) (B. H. Mandelbaum et al., Trads., pp. 17-43). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1946)

Klein, M. (1996). O luto e suas relações com os estados maníaco-depressivos. In M. Klein, Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945) (A. Cardoso, Trad., pp. 385-412). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1940)

Marucco, N. (2002). De ayer a hoy, de nosotros a los pioneros: qué escuchamos y cómo intervenimos. Trabalho apresentado na Associação Psicanalítica Argentina.

Marucco, N. (2007). Entre a recordação e o destino: a repetição. Revista Brasileira de Psicanálise, 41(1), 121-136.

Ogden, T. (2006). Esta arte da psicanálise: sonhando sonhos não sonhados e choros interrompidos. In Livro Anual de Psicanálise (Vol. 20, pp. 173-189). São Paulo: Escuta.

Roussillon, R. (2005). Paradoxos e situações limites da psicanálise (P. Neves, Trad.). São Leopoldo: Unisinos. (Trabalho original publicado em 1991)

Souza, A.L.S. (2016). Construindo formas de comunicação: revendo o conceito de interpretação na clínica do não representado.  Revista Brasileira de Psicanálise, 50(3), 60-75.

Tanis, B. (2017)- Psicanálise e suas clínicas- Plenária Simpósio Bienal- O mesmo e o outro in http://pdf.blucher.com.br.s3-sa-east-1.amazonaws.com/socialsciencesproceedings/isbsbpsp/28.pdf

 

Audrey Setton Lopes de Souza é psicanalista, Membro efetivo da SBPSP; Professora Doutora do IPUSP- SP e Professora do Departamento de psicanálise da criança DO sedes. asetton@uol.com.br

 

 

Notas Sobre o Tédio

Vera Lamanno-Adamo*                         

No texto Luto e Melancolia, Freud (1915) introduz o termo melancolia como uma forma patológica do luto. Para ele, no trabalho de luto, o sujeito consegue desligar-se progressivamente do objeto perdido. Na melancolia, ao contrário, o sujeito se supõe culpado pela morte acontecida, nega-se e se julga possuído pelo morto ou pela doença que acarretou sua morte. O eu se identifica com o objeto perdido, a ponto dele mesmo se perder no desespero infinito de um nada irremediável.

A identificação do eu com o objeto perdido acaba gerando apatia, torpor e ausência de sentido à existência, assim como ocorre com um eu dominado pelo tédio. No entanto, no tédio não encontramos lamentos, incriminalização e culpabilização.

O tédio diz respeito à perda do significado pessoal diante da vida, do mundo e da realidade: resulta desta perda sentimentos de vazio, desânimo, falta de vontade de realizar atividades rotineiras e desinteresse pela realidade vivida.

Sob o domínio do tédio, o eu se vê esvaziado de significado pessoal à existência. O tédio revela o tempo que nos arrasta para um mundo desprovido de significação e esvaziado de sentido.  

Vou me valer do segundo episódio da primeira temporada do seriado Black Mirror, intitulado Fifteen Million Merits, para ilustrar a vida e relações de indivíduos sob a égide do tédio.

Quinze Milhões de Méritos

Ambientado em um futuro high-tech, o episódio traz como protagonista o jovem Bing (Daniel Kaluuya), apenas mais um entre milhões de indivíduos autômatos que habitam uma colônia onde nada fazem além de pedalar em bicicletas geradoras de energia.

Energia consumida pela sociedade e pelos próprios “pedaladores”.

A única maneira de se distrair é assistindo a infindáveis programas de TV ou adquirindo novos aplicativos para serem utilizados em seus avatares.

Quanto mais pedalam mais merits conseguem em troca. Todos brigam para ter mais merits, para assim terem a chance de dar um upgrade em seus avatares, comprar aplicativos diferentes e também para ignorar anúncios que aparecem a qualquer momento em seus quartos.

O contato interpessoal é praticamente nulo.

Um dia, chega ao local a bela Abi (Jessica Brown Findlay) que, de imediato, chama a atenção de Bing. Ele se sente atraído por ela, mas não chega a conversar, até o dia em que ele a ouve cantar e fica impressionado com sua voz. Então, cria coragem e vai ao seu encontro.

Bing estimula Abi a participar do show de calouros para que mostre seu talento, mas ela não tem merits o suficiente para comprar sua participação. Ele oferece os seus a ela, dando-lhe de presente quinze mil merits.

Ser bem-sucedido em um reality show é a única maneira de sair da colônia, ou seja, parar de pedalar para gerar energia e morar em um quarto maior e mais bem equipado com black mirrors.

Abi consegue ir ao show de talentos, o programa de calouros Hot Shots, que faz lembrar os realities American Idol ou The Voice. Após uma brilhante apresentação, os jurados dizem sarcasticamente que, embora seja muito bonita e capaz de gerar pensamentos maliciosos, sua voz é mediana.

Propõem que ela trabalhe no canal erótico ou volte para a colônia. Ela decide aceitar, já que não sabe se terá outra oportunidade de sair de lá um dia.

Bing fica inconformado com o destino de Abi e começa a trabalhar na bicicleta para reduzir seus gastos e também conseguir ir ao show de calouros. Faz inicialmente uma apresentação de dança e então, aos berros, saca um pedaço de vidro que conseguiu quando quebrou uma das telas de LCD de seu quarto, após um ataque de raiva. Frente ao jurado e à plateia, Bing ameaça se cortar caso não o escutem.

Após discursar de forma incisiva e forte sobre a falta de intimidade, privacidade e a vida controlada da colônia, os jurados oferecem um programa só para ele em um canal da colônia.

Bing se torna uma espécie de herói que expõe críticas sobre o sistema, sempre com o pedaço de vidro nas mãos. Mas o seu discurso, programa após programa, a sua fala estridente e violenta torna-se uma performance.  Não promove reflexão e pensamento. Uma espécie de válvula de escape para a colônia.

Está assim instituído um campo fértil para a proliferação do tédio e de ferramentas poderosas para se livrar dele: extremismo e excitabilidade.

Numa cultura determinada por pura funcionalidade e eficiência, o tédio dominará porque a qualidade do mundo desaparece na visibilidade extrema que tudo engloba. Numa cultura assim, experimentos com sexo e drogas – ou fugas para o nevoeiro de uma nova religião – parecerão tentadores, porque parecem oferecer uma maneira de escapar de uma vida cotidiana penosamente entediante e de descobrir novos horizontes bem mais excitantes. O triste é que esses excessos nunca conseguem satisfazer o anseio de que se originaram (Svendsen, 1999, p.96).

Quinze milhões de Méritos evidencia uma ética contrária à reflexão em um mundo povoado por “pedaladores”. Resulta daí, relações estáticas e estereotipadas que não promovem experiências significativas, gerando cada vez mais esgotamento dos sentidos e indiferença perante a vida.

No entanto, o tédio não é em si um sinal de psicopatologia.

O tédio é um fenômeno tipicamente humano que carrega em seu bojo a noção de subjetividade enquanto manifestação da consciência de si, demandando sentido à vida e significado pessoal à existência.  

Frente à sensação de vacuidade, o tédio estimula a busca de sentido e significado à existência.

Reconhecer o tédio como uma presença não necessariamente insuportável possibilita que o transformemos em fonte de sentido para a vida. Ao tentar anulá-lo a qualquer custo, corre-se o risco de uma existência insignificante, povoada por extremismo e excitabilidade.

Gradativa e penosamente, o tédio pode ser suportado e em função disso ocorrer um reinvestimento no seu par antitético: a curiosidade.

Curiosidade que nos move em busca de conhecer o modo como nos colocamos diante de nós mesmos, diante dos outros e diante do mundo em que vivemos, para dar sentido ao que somos e ao que nos acontece.

 

Referência

Freud, S. (1915) Luto e Melancolia. Standard Edition XIV. Rio de Janeiro: Imago Editora.

Lamanno-Adamo, V. L. C. (2017) Tédio, luto e melancolia. Rev. Bras. Psicanal. vol.51, n. 3 (p.79-90).

Svendsen, L. (1999) Filosofia do tédio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

 

Vera Lamanno-Adamo é membro efetivo, analista didata e docente do GEPCampinas e da SBPSP.

Memórias coloniais

*Olívia Falavina

O livro “Caderno de Memórias Coloniais” da moçambicana Isabela Figueiredo discorre sobre lembranças e acontecimentos ocorridos na Maputo de 1960, durante o processo de descolonização. Filha de pais portugueses que migraram para a África, a autora disseca, em formato de um diário autoficcional, as relações racistas entre europeus e africanos, sob o olhar perturbador e investigativo da criança que era na época. Descrevendo essas tensas e intensas vivências, a garota permanece na cidade até os doze anos, quando é enviada sozinha e repentinamente para Lisboa durante a turbulenta independência de Moçambique. A violência normatizada da convivência cotidiana transparece no fato de que nenhum negro poderia jamais encostar em um branco ou olhá-lo diretamente nos olhos, ou ainda, de que deveria sempre manter uma postura curvada diante de um colonizador. Crianças brancas e negras do mesmo modo não se misturavam – as primeiras têm calçados, brincam trancafiadas em casa e vestem rendas alvas lusitanas, já as segundas vagam soltas, esfarrapadas, à procura de comida e pequenos serviços gerais. Universos intransponíveis, exceto pelas grades que os separam.

“Eu e eles não falávamos a mesma língua. Apenas umas palavras soltas. Olhava-os muito, e eles a mim. Por exemplo, neste momento estou a olhá-los através do tempo, e há uma perplexidade nos seus olhos, um vazio, uma fome, e nos meus uma impotência, uma incompreensão que nenhuma razão poderá explicar.”(Figueiredo, p. 167, 2018)

O ambiente infantil da autora-criança é moldado pelas marcas escravagistas ainda presentes, que ditavam o cenário micropolítico doméstico. Seus registros são um acerto de contas com suas origens, a matriz portuguesa e seu pai, cuja ternura e violência eram imiscuídas na intimidade do lar. O que ouvimos no decorrer do diário é a combinação singular de suas vozes infantil e adulta, provocando uma imersão no leitor em toda a ambiguidade dos afetos humanos. Quem nos escreve é uma menina crescida. Lugar duplo e paradoxal devido também a sua condição de retornada[1], a exilada africana que regressa à pátria sem nunca ter estado lá.

Por meio de memórias sensoriais, conhecemos sua Maputo do solo vermelho e seco, vemos as cores exuberantes e sensuais das roupas femininas, derretemos com o calor escaldante e provamos a inflamante aguardente de cajú. Na geografia da cidade e das pessoas, bem delimitada pela disposição precisa dos corpos negros e brancos nos espaços públicos e privados, a cisão é desde o começo condição e ferramenta fundamental de sobrevivência.

Há uma passagem comovente no diário em que a autora-criança seleciona as mais suculentas mangas de seu quintal e vai para a frente de sua casa vendê-las, atividade reservada exclusivamente às mulheres negras. Essa brincadeira subversiva ganha tons ainda mais interessantes quando descobrimos que o preço das mangas é bastante inferior ao das próprias negras. Ela se coloca, portanto, a ser “explorada”. Em sua brincadeira consegue uma proeza, reunir em si mesma por um momento a culpada colona branca e a aphartada africana negra. A comunhão desses papéis talvez não fosse possível em nenhuma outra circunstância. Ao brincar, torna-se a rapariga de cachos loiros e pele negra. E ri, se diverte e se sente livre por agora estar finalmente na rua, descalça, onde sempre quis estar: do outro lado da grade.

Sua brincadeira pôde, ao menos em fantasia, fazer uma ponte entre mundos antagônicos. Identificações paradoxais, como as de opressor e oprimido, se justapõem e convergem simultaneamente no ato lúdico simbolizante. Em uma tentativa infantil de atravessar abismos vemos em curso uma incipiente elaboração de traumas sociais e íntimos aos quais se encontrava exposta.

Esta contundente obra literária contribui para pensarmos sobre a miséria psíquica daquele que perpetua a violência, pois é também assolado pela cisão que constitui o fenômeno. Este se revela pela incapacidade do indivíduo constituir-se como si mesmo a não ser pela exclusão do outro e de sua fabricação complementar como um inimigo. Se o sofrimento dos colonizadores não é (e não deve ser) comparável ao das vítimas que padecem dos efeitos devastadores do racismo, ele, entretanto, nos aponta novamente como perdemos todos com a barbárie.

Os paralelos com nosso país, e com as outras antigas colônias, são inevitáveis. Moçambique é aqui e agora. Talvez possamos, assim como a autora menina, com suas mangas e cadernos, buscar meios próprios para tratar de nossas cicatrizes. Resta a esperança de que o brincar e a cultura possam continuar sendo meio de expressão e reparação de dores, as da nossa história pessoal e coletiva.

[1]          Como são chamados os filhos de portugueses que regressaram à pátria nos anos 1970.

 

Referências Bibliográficas:

FIGUEIREDO, I. Caderno de memórias coloniais. São Paulo: Todavia, 1a ed., 2018.

 

Olivia Pala Falavina é psicóloga, psicanalista, aspirante a membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e membro filiado do Instituto Durval Marcondes da SBPSP.

 

 

 

Comissão Arns: direitos humanos sempre e sem retrocesso

* Laura Greenhalgh

Celebramos o 70º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas (1948-2018) em meio a muitas incertezas – como equacionar a crise imigratória que afeta tantos países e consome milhares vidas? Como diminuir a desigualdade no planeta? Como imaginar um futuro sustentável para as nossas crianças com a destruição irresponsável do meio-ambiente? São ameaças àquelas mesmas garantias de ¨liberdade e dignidade para todos¨, estabelecidas na Carta da ONU.

No Brasil, doses extras de ceticismo e preocupação. Numa sociedade bastante polarizada, onde a ideia de bem-estar social tem sido erodida pela voracidade do mercado com o beneplácito das classes dirigentes, falar em direitos humanos tornou-se convite para a retaliação. A desqualificação. A destruição do ¨outro¨. A violência. Não são poucos os que conjugam o bordão da intolerância: ¨direitos humanos só para humanos direitos¨.

Foi nesse contexto que um grupo de brasileiros de gerações, biografias e trajetórias distintas, mas cujo elo comum tem sido a permanente defesa dos direitos humanos, organizou-se para constituir a Comissão Arns, instalada oficialmente na manhã de 20 de fevereiro de 2019, em ato na Faculdade de Direito da USP.

Não se trata de uma comissão com filiação político-partidária. Nem antigovernista, por definição. Somos uma comissão suprapartidária que atua em rede com entidades na defesa dos direitos humanos. Olhamos para graves violações cometidas contra mulheres, crianças, adolescentes, negros, a população LGBT, os indígenas e outros grupos discriminados.

Muito há por fazer nessa vasta arena de conflitos. De saída, para que não haja retrocesso em marcos legais e institucionais firmados pelo Brasil quanto à proteção desses direitos. E para denunciar violações graves numa conjuntura de poder que propagandeia excentricidades via redes sociais, ocultando uma agenda de interesses ainda não tão visíveis, talvez inconfessáveis.

É nesse campo de atuação coletiva e cidadã que a Comissão Arns pretende atuar, tomando como inspiração o seu patrono, Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns. Acreditamos que Dom Paulo deve ser lembrado não só como o líder religioso de visão ecumênica que foi; mas, sobretudo, como o defensor incansável de todos aqueles que se encontram privados de direitos.

Laura Greenhalgh é jornalista e membro da Comissão Arns.

Foto: Anistia Internacional