Reflexões em torno da cura gay

A Sociedade Brasileira de Psicanálise colabora com a Revista Psique.

Abaixo, trechos do artigo de Oswaldo Ferreira Leite Netto* para a revista Psique de abril de 2018

Não há fundamentação psicanalítica para algo que possa ser denominado cura gay. Psicanalistas, de posse de uma teoria científica que fundamenta uma prática clínica voltam-se radicalmente para a singularidade da vida mental de cada sujeito; nossos resultados buscados relacionam-se às verdades de cada um, para serem vividas com autenticidade, liberdade, autonomia e responsabilidade.

Freud com suas observações clínicas construiu uma teoria e esclareceu desde o início que a sexualidade humana não é natural, está diretamente ligada a fantasia, cada um pode buscar o objeto de satisfação de seu desejo, na obtenção de seu prazer nas formas mais variadas. Do ponto de vista psicanalítico torna-se difícil engajarmo-nos em propostas normatizadoras no tocante a busca de satisfação sexual, visto que não estamos determinados pela natureza como no instinto que opera nos animais. A vida sexual dos humanos é independente da procriação.

Aos analistas compete esclarecer e compreender as fontes de angústia em cada um de seus pacientes e ajudar a combater forças repressivas que tolhem as buscas de prazer, a liberdade e a criatividade. O contôle da moral, dos costumes, o cumprimento da lei competem a outras instâncias de nossas organizações sociais.

Consideremos a questão terminológica: a palavra cura não significa necessariamente, nem em medicina, a erradição de um mal, como se costuma empregar. Curar é cuidar, acompanhar uma evolução: como um queijo curado, como um curador de uma exposição, como o “cura”, ou pastor religioso que se ocupa de suas “ovelhas” ou fiéis. É nesse sentido que um psicanalista a emprega. E, é nesse sentido que poderíamos falar da cura de alguém que se intitula gay; mas não há tratamento específico para o que possa estar sendo denominado assim; é gay, se denomina assim ou denominamos assim em nossa cultura pessoas, agora mais visíveis e assumidas, que escolhem como parceiros afetivos e sexuais pessoas do mesmo sexo.

Uma célebre carta de Freud, datada de 25 de novembro de 1928, dirigida ao pastor e psicanalista Oskar Pfister, termina com esse parágrafo:

Não sei se você adivinhou a relação oculta entre a “análise leiga” e a “ilusão”. Na primeira, quero proteger a análise frente aos médicos, e, na outra, frente aos sacerdotes. Gostaria de entregá-la a um grupo profissional que não existe ainda, o de pastores de almas profanos, que não necessitam ser médicos e não devem ser sacerdotes. Afetuosamente, seu velho Freud (Freud & Pfister, 1966 p. 121, tradução e itálicos meus).

Este pequeno, singelo e claríssimo parágrafo não dá margem a dúvidas por onde deve caminhar e evoluir essa clínica cujas bases Freud lançou.

Para que sejamos dignos da herança freudiana, não devemos estar comprometidos nem com salvação de almas nem com curas. Freud, revolucionariamente, desvincula-se da medicina, incompatibiliza-se com terapêuticas que visam ao alívio somente e ao ajustamento, e desinscreve do registro religioso as questões da pessoa, de sua autonomia, liberdade e responsabilidade ética.

Considero a psicanálise um instrumento que nos permite ir além de normal e patológico, adequado ou inadequado, numa clínica emancipadora de pessoas, para enxergar e fazer enxergar a vida como ela é.

Quer queiramos, quer não, no mundo em que vivemos surgem, visíveis e legalizadas, outras formas de relação entre os sexos, novas modalidades de aliança e filiação. Homoerotismo, homoafetividade e homoparentalidade estão aí e dirigem várias perguntas a nós e a nossos modelos. Pessoas do mesmo sexo podem casar-se, e casais homoafetivos podem adotar crianças. O mundo se transforma e se organiza. Como analistas podemos oferecer ajuda e contribuições psicanalíticas às pessoas que nos procuram – pessoas querendo atenção, afeto, consideração pessoal, envolvimento, implicação (demanda psicanalítica) e vivendo escolhas afetivas e eróticas satisfatórias fora do modelo da família conjugal, já legalizadas por providências da sociedade.

Sustentar uma posição psicanalítica não é coisa fácil. Nunca foi. Estar na contracorrente nos é familiar e próprio da psicanálise desde o seu início. Para Freud, foi fonte de preocupações, de muito trabalho e muita competência e seriedade para permanecer no campo científico com a especificidade própria. Jean Laplanche (2001/2003) chama de “descaminhos” certas apropriações, aplicações e desenvolvimentos que a obra de Freud toma, exigindo de nós analistas que voltemos sempre ao que é fundamental, ao que define primordialmente a psicanálise e que dá o caráter singular da descoberta freudiana.

Vivemos num mundo medicalizado e dominado pelo poder médico. Constato visões médicas e medicalizadas não apenas nos interessados em psicanálise originários de cursos médicos, mas também nos que vêm de outras áreas e da própria psicologia, o que me leva a falar em vícios ou “doenças”, entre aspas, profissionais: o médico, pelo poder próprio ao saber e às práticas ousadas e heroicas, inadvertidamente pode ser levado à arrogância e à onipotência, caracterizando-se um “complexo de superioridade”. Os outros profissionais, submetidos a esse poder, inferiorizam-se, acham que deveriam ser médicos, não valorizam a liberdade e a possibilidade de expansão num campo, criado e proposto por Freud, que pode deixar o organismo de lado, sem ignorá-lo, claro, mas corajosamente confiando na potência das propostas psicanalíticas.

Debruçando-nos sobre a questão da homossexualidade (ou das homossexualidades) na atualidade, constatamos uma mutação: esta forma de viver e se relacionar entre os humanos se torna visível, reinvidica direitos e status e, sobretudo, pessoas assim docilmente aproximam-se dos psicanalistas, para serem analisadas e eventualmente querendo se tornar analistas, não considerando sua condição como patológica nem desejando mudá-la. Ao contrário das propostas evangélicas e dos argumentos da Igreja católica, que não desistem de se apropriar dos conhecimentos psicanalíticos, de desejar o status e a qualificação profissional de psicanalistas e oferecer a famigerada “cura gay”.

A escuta do psicanalista é não moralista. Um psicanalista oferece uma oportunidade de alguém ser ouvido e considerado por quem não seja juiz, polícia, pai, mãe, nem médico, e que se implica para perceber o mundo interior do outro e ajudá-lo a conquistar autonomia, liberdade, compromisso com sua verdade interior, autoridade pessoal, emancipação, autenticidade.

Considerando a(s) homossexualidade(s), penso que a psicanálise pode contribuir para sua despatologização e ser fiel a seu campo e sua prática, emancipadora através da valorização das singularidades – dificilmente oferecendo convincentes teorias explicativas, etiopatogênicas, como a medicina tem feito e faz com muito mais propriedade.

Nossa sexualidade, diferentemente da dos animais, não se vincula à reprodução. Não é natural. É aí que Freud se opõe à moral, à religião, ao senso comum e inaugura uma possibilidade de examinar a sexualidade como algo que escapa a qualquer tentativa de normalização. Supostamente o objetivo seria a procriação, mas nós humanos buscamos o prazer através da sexualidade: subvertemos e pervertemos o objetivo natural.

A relação da psicanálise com a homossexualidade é mais a de analisar a hostilidade teórica, clínica, contratransferencial e subjetiva provocada por essa escolha de objeto do que a de especular e teorizar sobre sua origem e funcionamento.

O que deveríamos focar como patologia e tentar formas de combatê-la é a homofobia.

Oswaldo Ferreira Leite Netto  é psiquiatra e psicanalista membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, onde ocupou a Diretoria de Atendimento a Comunidade. Diretor do Serviço de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Manuscrito inédito de 1931

Elsa Vera Kunze Post Susemihl*

Em 2004, o historiador americano Paul Roazen encontrou um manuscrito de Freud em meio a uma série de outros documentos depositados na universidade americana de Yale pela filha do ex-embaixador americano William Bullit. Esse é o manuscrito que foi recém-traduzido por mim para o português, diretamente do alemão, e que foi publicado pela Editora Blucher (2017) com o nome de Manuscrito inédito de 1931, em edição bilíngue.

A história desse manuscrito nos leva para o início do século passado, quando Freud clinicava em Viena e quando Bullit, ao final da Primeira Guerra Mundial, acompanhou o então presidente americano Thomas Woodrow Wilson nas conversações de paz e na formulação do tratado de Versalhes. Freud e Bullit se conheceram nesses anos e compartilharam ideias e críticas semelhantes em relação ao presidente Wilson e sua atuação durante o estabelecimento desse tratado, o qual depois realmente se mostrou desastroso e levou a situações que culminaram com uma Segunda Guerra Mundial. Freud via em Wilson uma pessoa identificada com ideias messiânicas e que tomava suas ilusões religiosas literalmente, o que, a seu ver, o fazia uma pessoa inadequada para se relacionar com os `filhos comuns dos homens´ (2017/1931, p. 18).

Surgiu, então, um projeto entre ambos, Freud e Bullit, de escrever uma biografia do presidente americano Wilson, na qual Bullit, o ex-embaixador, contaria sua experiência política e Freud, o psicanalista, contribuiria com uma análise psicológica do caráter do presidente Wilson. O trabalhou iniciou-se em ritmo acelerado, mas em algum momento houve uma parada. Provavelmente em função de algumas divergências que surgiram e que não foram superadas. Anos mais tarde, com o avanço do nazismo na Áustria, Freud e sua família tiveram que fugir. Bullit, agora embaixador americano em Paris, tem um papel decisivo nesse momento, quando ajuda Freud e sua família por meio de seus contatos de embaixador na chegada em Paris e em seu caminho a Londres, o destino de seu exílio. Bullit aproveita a ocasião para retomar o projeto da biografia, e Freud concorda então com sua publicação após a morte da segunda esposa de Wilson. O livro é publicado finalmente em 1966, quando ambos os coautores, Bullit e Freud, já não estavam mais vivos. Estabelece-se nesse momento uma longa controvérsia, pois a comunidade psicanalítica, incluindo a filha de Freud, Anna Freud, não reconhece a autoria do pai. Ainda que algumas ideias descritas ali eram psicanalíticas, sua apresentação e seu estilo estavam longe daquele conhecido como sendo de Freud. Essa situação permaneceu não esclarecida por muitos anos. Finalmente, ao serem encontrados, em 2004, os referidos documentos, foi jogada alguma luz sobre essa situação.

Agora, com esse Manuscrito em mãos foi possível fazer um cotejamento com o livro publicado, e se notou que, de fato, esse Manuscrito não havia sido publicado na sua íntegra em nenhuma parte ao longo do livro. Porém, algumas passagens foram editadas e aproveitadas no livro. Ainda que as razões que levaram a tal edição, provavelmente por Bullit, só podem ser supostas, e ainda que não sabemos se o Manuscrito havia sido escrito para ser publicado como um capítulo do livro ou somente para ser aproveitado por Bullit como ele o desejasse, podemos agora usufruir do texto que, sem sombra de dúvida, vem da pena de Freud, e no qual prontamente o reconhecemos.

Nesse Manuscrito, Freud apresenta de forma resumida alguns conceitos fundamentais da Psicanálise, tais como a libido, a bissexualidade, a teoria dos instintos de vida e de morte, e descreve como estes elementos configuram por meio de identificações e relações de objeto as diferentes composições do complexo de Édipo. Talvez em nenhum outro lugar de toda a sua obra encontramos um texto que apresenta de uma forma tão clara, concisa e detalhada todas essas ideias psicanalíticas, sem que seja perdida, nessa breve exposição, a extensão e a profundida destas ideias. E ainda, deixa explícita a consciência da provisoriedade e da limitação de todas essas teorias ou modelos. Com seu estilo de escrita elegante e seu encadeamento brilhante de ideias, Freud nos guia com desenvoltura e tranquilidade ao longo do texto através de vários temas bastante complexos da teoria psicanalítica. Salvo no final, não encontramos ali nada de necessariamente novo, ainda assim somos surpreendidos por novas conexões e formulações. Nesse sentido, é um texto que, a meu ver, se presta para leigos como uma introdução a algumas ideias psicanalíticas, mas que, ao mesmo tempo, é muito rico e esclarecedor também para o psicanalista familiarizado com a sua obra, podendo este usufruir da capacidade de Freud apresentar suas ideias.

Logo no início, Freud estabelece a diferença entre um estudo psicológico do caráter de uma pessoa a partir de dados obtidos pela sua biografia, ou poderíamos dizer também de sua obra, com aquilo que considera uma psicanálise de fato, o que a seu ver somente é possível na presença real de duas pessoas, o analista e o analisando.

Ao longo do texto, Freud traz então uma pormenorizada descrição de como os fatores constitucionais de feminilidade e masculinidade, decorrentes da bissexualidade constituinte do ser humano e relacionadas, mas não determinadas, pelas diferenças anatômicas dos sexos, se relacionam com as experiências de vida na infância, resultando na maneira individual de cada um em se haver com os conflitos do complexo de Édipo e se tornar um indivíduo único e singular. A feminilidade e a masculinidade estão, desta maneira, na base dos conflitos do complexo de Édipo e, ao final, do complexo de Castração, quando estas diferentes tendências no indivíduo vão estabelecer relações conflitantes entre si diante das diferentes posições relacionais com o pai e a mãe. Conclui assim: `Podemos dizer para finalizar que cada eu de um ser humano é o resultado final do esforço por um equilíbrio de todos estes conflitos entre as diferentes correntes da libido com as exigências do supereu e com os fatos do mundo externo real. O tipo de equilíbrio que ao final será possível depende, por um lado, da extensão da masculinidade e da feminilidade inatas, e, por outro, das impressões que o ser humano recebeu durante a sua infância. O resultado final dessa tentativa de equilíbrio determina o que chamamos de caráter do eu´. (1931/2017, pp. 67-69)

A grande novidade do texto está ao final, quando Freud nos apresenta uma ideia a respeito de como compreender do ponto de vista psicanalítico a importância da figura de Cristo, mostrando que está contida na narrativa do Cristo uma possibilidade de harmonizar as diferentes tendências em conflito presentes no complexo de Édipo.

O Manuscrito de 1931 foi inicialmente publicado em alemão por Ilse Gubrich-Simites e em inglês por Mark Solms, que também o traduziu em 2006. Ambas as edições vieram acompanhadas de artigos comentando o texto e sua história. Em 2015, é publicada uma tradução para o italiano de S. Franchini em edição crítica com comentários de M. Hinz e R. Righi. Também, em início de 2017, surge uma tradução em francês com apresentação de Elisabeth Roudinesco.

Em 2017, Alexandre Socha e eu nos propusemos o projeto de organizar a publicação desse texto agora traduzido para o português, e assim o livro O Manuscrito inédito de 1931 foi publicado em edição bilíngue pela Editora Blucher no final de 2017. Além do texto de Freud com a minha tradução direto do alemão, o livro ainda conta com um prefácio de Alexandre Socha e um posfácio de Luís Carlos Menezes.

Sem dúvida, um texto que vale a leitura!

Freud, S (2017) O manuscrito inédito de 1931. São Paulo: Editora Blucher. (Tradução de Elsa Vera Kunze Post Susemihl). Texto original de 1931.

Elsa Vera Kunze Post Susemihl é psicóloga formada pela USP, membro efetivo e docente da SBPSP, IPA International Psychoanalytical Association, membro e professora no Departamento de Psicanálise da Criança Instituto Sedes Sapientiae.

O mal-estar na civilização brasileira

Freud, no ensaio “O mal-estar na civilização”, publicado em 1930, tece vários argumentos sobre a dificuldade dos homens em experimentar a felicidade. Ele afirma que o prazer é um sentimento que dura pouco, exige contraste, e costuma ser bastante restrito. Já, a infelicidade é mais fácil de experimentar e nos ameaçar a partir de 3 pontos:

 

1.    Do nosso próprio corpo condenado a decadência e à dissolução. Impossível evitar angústia e sofrimento decorrentes dessa ameaça constante.

2.    Do mundo externo que pode se voltar contra nós a qualquer momento. Mesmo que tenhamos erigido um mundo cada vez mais tecnológico para nos proteger dessa contingência, continuamos vulneráveis não apenas às forças da natureza, mas também vulneráveis aos acidentes decorrentes dos aparatos construídos para nos proteger.

3.    Dos relacionamentos com outros homens, afinal, os homens não são criaturas dóceis e bondosas, que reagem agressivamente apenas quando ameaçados.

 

 

A Diretoria de Cultura e Comunidade (DCC) irá investigar o mal-estar na civilização brasileira tendo como perspectiva o terceiro ponto levantado por Freud: o sofrimento causado pelos homens, e por suas estruturas sociais, aos homens. Afinal, é inegável que o brasileiro carrega em sua história marcas profundas da herança colonial e escravagista.


A violência subjacente a esse processo impregnou nossa subjetividade e imaginário cultural. Da relação com o conquistador permanecem como legados da sociedade patriarcal restos insolúveis – o racismo, a exclusão social e a melancolia. O que dizer, então, da sensualidade, ternura e melodia, características tão presentes em nossa cultura?

 

O mal-estar brasileiro será examinado nas Artes, a partir da representação dos corpos e em alguns estudos sociológicos, clássicos e contemporâneos.

 

Acreditamos que será um debate interessante, capaz de lançar alguma luz nos sofrimentos atuais. O método psicanalítico nos confere certa capacidade de ir além das perspectivas usuais, das respostas simples e autoritárias. Venham! Vamos refletir sobre algumas características de nossa história.

Nova coordenação de comunicação e editoria do blog da SBPSP

A partir desse mês, assumem a coordenação de comunicação e editoria do blog da SBPSP os psicanalistas Rodrigo Lage e Tiago Porto. Nesse último ano, estiveram à frente da função Telma Weiss e Karin Szapiro, que conduziram um intenso e desafiador trabalho de produção, sempre atentas aos acontecimentos cotidianos, prontas para mobilizar os membros da SBPSP para difundir o pensamento psicanalítico e associá-lo a assuntos do dia a dia das pessoas. O legado é evidente. Rodrigo e Tiago seguirão com esse propósito, trazendo algumas novas ideias e propostas e valendo-se do aprendizado. Acompanhem as novidades. Seguimos atentos a sugestões.

Desamparo e Dor

*Anna Veronica Mautner

Não ser autor da sua própria vida nem do seu próximo momento é angustiante. A dor de depender da visão de mundo do outro para resolver desde miudezas até grandes decisões eu diria que é insuportável.

Além de fome, além de frio o campo de concentração ou holocausto anexava esta angustia. Comerei o que me derem, descansarei no espaço que me for dado e eu não tenho com que cuidar de mim.

Num campo de concentração as pessoas estão à mercê de outros que no caso são inimigos: não gostam da gente.

Estes inimigos não querem nem se dar ao trabalho de matar ou aleijar. É uma relação muito estranha.

No holocausto o inimigo foi dono da minha vida e não apenas da minha morte.

Se todos morrêssemos, os guardas e policiais ficariam todos desempregados. O carrasco depende da existência da vítima para exercício de sua função. É uma estranha construção esta de ódio e dependência.

Sobre o Dia da Catástrofe:

No dia 11 de abril, judeus do mundo inteiro renderam tributo a memória das vítimas e dos mártires do Holocausto durante o Yom Hashoá (Dia da Catástrofe).  Seis milhões de judeus, incluindo familiares de Freud, e muitas outras vítimas foram exterminadas pelos nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial, no episódio mais sombrio da história contemporânea. Anna Veronica Mautner, sobrevivente do Holocausto, chegou ao Brasil no dia 23 de agosto de 1939, uma semana antes do início da guerra em 1º de setembro de 1939. Seu texto para o blog da SBPSP fala da dor e da angustia dessa terrível experiência de vida.

 

*Anna Verônica Mautner é psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e autora de “Cotidiano nas Entrelinhas” (Editora Ágora).

Como escolher uma profissão?

Maria Stella Sampaio Leite*

Ao longo da experiência de 30 anos com orientação profissional ou orientação vocacional, como é mais conhecida essa prática, escuto  inquietações de jovens e seus familiares sobre a escolha de uma profissão. Como fazer uma escolha profissional aos 17 anos para o resto da vida é uma questão muito frequente. O problema é que não se trata de uma escolha para o resto da vida. Trata-se da primeira escolha.

Nessa idade, o jovem realiza somente sua primeira escolha profissional, aquela que deve ser interessante a ponto de motivá-lo a conduzir os estudos com dedicação até sua conclusão. Isso porque, ao término dessa formação, em posse do seu diploma de graduação,  ele terá um leque de possibilidades de trabalho diante de si e aí, novas escolhas irão se impor.

As profissões hoje em dia têm fronteiras muito tênues e tangenciam várias outras áreas. Por exemplo, todas as áreas do conhecimento rapidamente farão uso dos avanços tecnológicos.

A escolha por uma profissão é temporária, a realidade muda e nós mudamos. Apesar disso, temos um fio condutor, ninguém acorda de um dia para o outro uma pessoa diferente. Há sempre uma continuidade, mesmo que às vezes esse intercurso dê muitas voltas.

Mas como fazer essa primeira escolha? Todos temos muitos interesses e aspectos. O importante é enumerá-los, estabelecendo prioridades. Na primeira escolha, ao término do Ensino Médio, escolhe-se aquela profissão que reúne o maior número de interesses, habilidades e oportunidades. Uma parte das opções ficará de lado, no aguardo de um segundo momento, quando entrará na composição da carreira profissional da pessoa. Ao longo da vida, parte dessas profissões que ficaram na gaveta, ou aspectos delas, entram na formação da identidade profissional da pessoa. Identidade profissional é aquele exercício profissional que nos cai sob medida,  algo que faz todo sentido. Dificilmente isso ocorre no início de uma faculdade ou no começo de um percurso profissional. A gente se dá conta de ter construído uma carreira quando olha para trás, após um tempo, como em uma visada no espelho retrovisor, e constata que juntou vários aspectos que tinham sido deixados de lado na época da primeira escolha.

O futuro é muito angustiante para todos nós, sobretudo para um jovem ainda com pouca experiência de vida. Todos queremos soluções que deem conta da angústia com relação ao futuro. Um dia desses um pai perguntou-me se diante de tantas reformulações das profissões “Como prever quais profissões estarão em alta daqui 20 anos?” “Não seria o caso de buscar formações muito mais funcionais ou aplicáveis, uma faculdade que fornecesse ferramentas para o jovem equipar-se para o futuro em constante mudança?” Não é bem assim que se forma um equipamento sólido e resistente a intempéries. Uma formação universitária tem que ajudar o jovem a pensar, analisar e ser crítico e, para isso, precisa ser desafiado em diferentes campos das humanidades, das ciências além das atualidades.

Um moço cursando engenharia, insatisfeito com a graduação escolhida, me fez a seguinte pergunta: “Você tem um truque, uma chave que, aplicada, resolva meu dilema sobre o que cursar em substituição à engenharia? Eu aprendo rápido o funcionamento das coisas é somente saber o truque”, diz ele. Ora, não há uma chave, nem mesmo testes que se consigam medir atributos das pessoas relacionando-os a diferentes profissões. A reflexão e análise são indispensáveis, porém, não dão respostas certeiras sem risco, preto no branco.

O fato de haver muitas alternativas de profissão na atualidade não é impedimento para escolher. Se observarmos com cuidado, parte dessas alternativas são desdobramento de profissões mais antigas, das profissões com maior história. Outras, têm currículos muito semelhantes umas das outras. Algumas delas são apelos mercadológicos. Contudo, principalmente em se tratando de áreas ligadas aos avanços tecnológicos, foram criados cursos novos com esse foco especifico. Há profissões mais práticas cuja formação se dá por cursos tecnológicos (aqueles cujos cursos têm de 2 a 3 anos de duração), indicadas aos jovens avessos ao estudo formal. Todavia, não há profissões blindadas contra crises. Um profissional muito identificado com sua escolha terá maiores chances de se manter atualizado. Com isso, encontrará frestas nas quais poderá atuar superando as dificuldades que a realidade da sua profissão for impondo.

 

Uma pessoa que goste do que faz tem maiores chances de ser bom no que faz, não digo ser o melhor no que faz porque isso é uma ilusão. Não há como ser o melhor no que faz, mas, sim, talvez ser sempre melhor na comparação consigo mesmo. Quando a ideia é ser o melhor, devemos nos perguntar sobre os critérios dessa classificação. Uma preocupação tão grande com resultados costuma desprezar o processo, o desenvolvimento.

O que esperar de uma profissão? Satisfação, felicidade, prazer, dinheiro, fazer a diferença na sociedade, o respeito dos familiares e amigos e conhecimento. Esses e outros retornos e outros, nos movem no exercício de uma profissão. Esses atributos podem ser conquistados independentemente da profissão escolhida porque cada um deles se relaciona às características da pessoa. Vejam por exemplo o dinheiro. Não há profissão que dê dinheiro, mas profissional que sabe ganhar dinheiro. São frequentes as idealizações e os preconceitos com respeito a profissões: as mais ou menos rentáveis, as mais ou menos respeitadas pela sociedade, mais ou menos criativas, mais ou menos práticas. Mas toda profissão tem sua importância para a sociedade.

Por tudo isso, escolher uma profissão não é uma tarefa simples e pode envolver sofrimento. Quando há incerteza quanto à melhor carreira a seguir, convém buscar ajuda de um profissional especializado em orientação vocacional/profissional.

Maria Stella Sampaio Leite é psicanalista pela SBPSP, orientadora profissional e autora do livro “Orientação Profissional”, Ed.Pearson, 2015.

Oficinas de Escrita: A passagem ao ato de escrever

“Nós, psicanalistas, conhecemos muito bem a dúvida certamente angustiante de tornar possível uma narrativa psicanalítica”. ( Buschinelli, C. 2017)

 

Tomar em consideração a angústia diante do papel em branco, tocada de forma sensível por Cintia Buschinelli na Circular II do I Encontro de Escrita, foi a pedra fundamental na construção deste projeto da Diretoria Científica.

Imediatamente após a fundação, a passagem ao ato de escrever surgiu como algo incontornável.

Dedicadas ao estudo de tal tema, a Comissão tem um encontro decisivo com o livro “A Voz do Escritor”, do poeta e crítico literário A. Alvarez, uma obra considerada “ …a fonte ideal para entendermos como escrever, ler, escutar, viver contribui para a arte do escritor.”

Selecionamos, para compartilhar com vocês, nossos leitores, o trecho do capítulo 1, que legitima a realização das Oficinas de Escrita:

“O escritor descobre essa relação estranhamente revigorante e libertadora entre a realidade física e o prazer estético quando encontra sua própria voz: é o que destranca cadeados, abre portas, e lhe permite começar a dizer o que ele quer dizer. Mas para encontrar essa voz, ele precisa antes dominar o estilo; e o estilo, nesse sentido, é uma disciplina que se pode obter por meio de um trabalho árduo, como a gramática e a pontuação”.

Referência Bibliográfica

– Alvarez, A. (Alfred), 1929-

A voz do escritor/ A. Alvarez; traduc,ào Luiz Antonio Aguiar.- Rio de       Janeiro: Civilizac,ão Brasileira, 2006.

– Buschineli, C. Circular 2 do projeto I Encontro de escrita- 27/11/2017

https://psicanaliseblog.com.br/category/.i-encontro-sobre-escrita

 

Expressões da intimidade na vida e no divã

Ruth Blay Levisky *

A palavra íntimo é derivada do latim, “intimus”, cujo prefixo “in” refere-se ao interior, ao profundo, ao intrínseco. Thymos para os gregos na antiguidade tinha o significado de alma, lugar em que habitam os desejos e as emoções.

Esse tema despertou meu interesse e inquietude ao perceber a complexidade que envolve a esfera da intimidade. Tenho me surpreendido, como alguns jovens são capazes de ter uma amizade profunda e duradoura e, ao mesmo tempo, beijar alguém que nem mesmo o nome sabem, pela satisfação de um desejo momentâneo. Novos tipos de relacionamentos amorosos surgem na contemporaneidade, como o “netloving”, em analogia ao “networking”. Ele é representado por relacionamentos com vários sujeitos ao mesmo tempo, providos ou não de sexualidade, criando poliamores, polifamílias e polifidelidades sejam nos espaços reais ou nos virtuais. As legislações sobre os direitos de famílias têm sido revisadas diante das demandas oriundas dessas novas formas de configurações vinculares. A qualidade e a natureza de como são formados os vínculos, a história da vida pessoal de cada uma das partes, os modelos identificatórios transmitidos pelas famílias, os modos de mostrar e lidar com os afetos são fatores que podem  facilitar ou impedir o desenvolvimento da intimidade entre  sujeitos. Os limites entre os espaços reais e virtuais podem ser confundidos, fenômeno que também ocorre com a troca de intimidades; por vezes, ela chega a ser compartilhada até com estranhos. Além dos aspectos positivos provenientes do uso da internet, ela também  representa uma busca ilusória de fuga da realidade, do sofrimento e da solidão.

Diante dos paradigmas contemporâneos, penso ser fundamental refletir nosso papel e prática como psicanalistas. A “escuta psicanalítica” atual requer do profissional o desenvolvimento de competências como flexibilidade, criatividade, espontaneidade e diálogo, para ampliar a capacidade de observação sem perder o sentido do “setting” analítico. É um desafio para os profissionais colaborarem para que os pacientes desenvolvam novas maneiras “de ser e de estar em família e na sociedade”, além de abrir espaço para dar sentido às fantasias e aos conteúdos reprimidos. Por meio da relação construída entre analista e pacientes pode-se atingir partes do íntimo e trazer à tona conteúdos encobertos. Mas, pessoas com estruturas mentais narcísicas e persecutórias podem sentir maior dificuldade para um compartilhamento íntimo. Outros mecanismos defensivos também colaboram para mascarar e trancafiar a esfera do íntimo.

Diante dessa vasta gama de variabilidade, sugiro o conceito de Complexo Íntimo, que se refere ao conjunto das múltiplas expressões da intimidade que sofrem transformações, dependendo das características de personalidade do sujeito, das vivências internalizadas, do contexto e do momento histórico, social e cultural (Blay Levisky, 2017).

BIBLIOGRAFIA:

Blay Levisky, R. (2017) Expressões da intimidade nos vínculos: inteferências da cultura. Rev. Ide (63), pág. 41

* Ruth Blay Levisky  é psicóloga, grupoanalista e psicanalista de casais e famílias. Membro efetivo da Associação Internacional de Psicanálise de Casal e Família. Presidente da Associação Brasileira de Psicanálise de Casal e Família. Tem Mestrado e Doutorado em Genética Humana (USP).

** Artigo originalmente publicado na revista IDE:

Levisky, Ruth Blay. Expressões da intimidade nos vínculos: interferências da cultura.  IDE: Psicanálise e Cultura, v.39, n.63, p. 41-58, 2017

Uma fábula de amor e medo

Adriana Rotelli Resende Rapeli*

” For You are everywhere…”

 

Triste essa a condição humana, em que prazer e tragédia andam juntas, diz Giles, no início do filme “A Forma da Água”, do diretor mexicano Guillermo del Toro.  Seres em mal-estar, porque convive em nós dimensões diversas, porque espécie ainda despreparada para a evolução que nos atropela. Incompletos, guardando resquícios primitivos, somos anfíbios: compostos de medo e de amor.

O medo é ancestral pré-verbal, pré-simbólico, regressivo à condição não humana de nossa herança, redutor de mentes a corpos pelo excludente foco para a sobrevivência, condenados a  inglórias e eternas guerras. O clima da Guerra Fria e da corrida espacial retrata no filme tal situação persecutória: o inimigo está em algum lugar, o território disputado.  Em ameaça constante à vida, como animais na savana fugindo de predadores, em lutas titânicas ou em meio à sofisticada civilização, o outro é o inferno.

O outro que ameaça minha existência, o outro cuja existência eu usufruo ou até me aproprio.  O outro que trato com desprezo, superioridade. Afinal, o outro que desconsidero, que escravizo, é o outro que, ainda que valentemente, temo. O estranho repelido por sua familiaridade incômoda, perturbadora, nos apontaria Freud. A singularidade que, no comportamento de grupo, é rejeitada como diferença, Bion nos lembraria.

Já o amor, ao contrário, é a superação do medo, sua transformação em sentimento, é nascedouro da condição para pensar, preconcepção de mentes, criador de humanidade.  O amor é sonho e a única vida humana de fato, porque a compreensão do outro, de seu medo, pode ser vivida como solidão da existência que, força vital, liga e cria almas. São duas em uma alma. O outro existe então, a seu modo, não à imagem e semelhança de deuses, mas na sua diferença e formas, em um universo diverso de possibilidades de encontros e de criatividade.

Se, como a personagem Elisa, me demoro na frente no estrito aquário-casulo que o medo me confina e faço contato com o olhar suplicante do outro, eu vejo, além das aparências e envoltórios, a alma. E é a minha alma que então sobreviveu ao medo de existir. Eu convido o outro a nascer, quebrar delicadamente a casca do ovo e respirar o ar que do mundo emana.  O mundo pode ser um lugar habitável. E a minha casa-mente pode ser o habitat de sonhos. Como na cena inicial, mergulhamos no ambiente onírico-cinematográfico de azuis esverdeados, intensos e inusitados. Um ar-mar fluido, diferente da realidade fática, feito da matéria dos sonhos que compõe a nossa alma, da rica fantasia que pode habitar a intimidade de uma pessoa. De qualquer uma pessoa.

A visão redentora de pequenos grandes personagens neste filme faz dele uma ode aos outsiders, aos incompreendidos, aos desajustados de um sistema que padroniza a felicidade a um retrato de família ideal. A protagonista do filme, uma tímida fair lady, evoca-nos com sua mudez a sereia que perde a voz ao viver na terra. Talvez como nós todos, que, depois de nascidos, ainda procuramos o lugar perdido de nossa infância pré-natal, aquática, thalássica. Erótica, Elisa busca o amor, o elo vital, preservado dentro dela como linguagem apesar de incompreensível, inaudível aos outros. Além do medo, o reencontro com as origens em uma nova dimensão. Assim é a simbolização, a linguagem que integra todos os níveis de nossa estrutura. Uma linguagem que, sendo também imagem, música, movimento, é como o cinema em sua plena realização.

O cinema guarda essa polivalência, talvez por isto seja a arte que ganhou rapidamente a universalidade, que rompe fronteiras e culturas. E são filmes como “A Forma da Água” que revitalizam o cinema. Valeria só pela cena em que do amor da mulher com o homem-peixe, o casal é a fantástica criatura que se forma na água que destila, dissolve barreiras e, como chuva fértil e respinga na plateia vazia do Cine Orpheu. O Oscar de melhor filme deste ano é ótimo cinema.

 

Adriana Rotelli Resende Rapeli é Membro Associado da SBPSP e SBPRJ.

Autismo e seus transtornos

Vera Regina J.R.M.Fonseca*

O termo Transtornos do Espectro Autista, bastante usado pelos especialistas na atualidade, significa que não apenas há graus variados de manifestação e gravidade do transtorno, mas também que se trata de uma designação muito ampla, que contém possivelmente diferentes condições, de causas diversas e diversas evoluções.

Poucos são os estudiosos do assunto que ainda acreditam que haja uma causa única para o autismo; o consenso é que vários fatores se combinam para que o transtorno se manifeste. Mesmo os fatores genéticos, que parecem ter um papel importante, não podem ser responsabilizados de forma idêntica por todos os quadros. Vários genes parecem estar envolvidos nos vários casos; além disso, sabemos agora que os genes não se manifestam incondicionalmente: há fatores no ambiente externo e interno que favorecem ou dificultam sua manifestação.

Assim sendo, temos uma condição que interfere no desenvolvimento da criança, particularmente na sua interação social e na comunicação, com efeitos importantes na capacidade de aceitar mudanças e novidades, de simbolizar e brincar. Este último, o brincar, é substituído por rituais ou “manias” e, por vezes, por um apego excessivo a certos objetos concretos. Como nossa espécie é eminentemente social, é possível imaginar a profundidade e abrangência dos prejuízos que a dificuldade precoce de interação acarreta no desenvolvimento.

Nas últimas décadas tem se notado um aumento importante na prevalência dos transtornos autísticos nas culturas ocidentalizadas. Muito se discute se tal aumento se deve à maior conscientização dos serviços médicos em particular e das famílias em geral e à maior sensibilidade dos questionários diagnósticos; entretanto, mesmo quando se desconta tal fato, não se pode explicar o aumento em sua totalidade. O que estará acontecendo em nosso mundo atual? Esta é uma pergunta que tem instigado inúmeros pesquisadores e profissionais, demandando atenção, estudos imparciais e dedicação constante.

O diagnóstico dos transtornos autísticos é eminentemente clínico. Não há exames para se chegar a ele, sendo necessárias a observação atenciosa e longa da criança, uma entrevista cuidadosa com os pais sobre o comportamento da mesma e seus antecedentes e, quando houver, uma análise dos vídeos domésticos e do histórico médico.

Há um outro consenso entre os profissionais que lidam com o transtorno autístico: quanto mais cedo for iniciada a reabilitação e o tratamento, maiores as chances de melhora. Como os primeiros anos são um período crítico do desenvolvimento psíquico e cerebral, é fundamental facilitar as interações para que a criança não viva no vácuo de experiências com as outras pessoas. Quanto mais tempo ela ficar isolada das transações com os outros, mais profundos serão os prejuízos em seu cérebro/mente.

E qual é o prognóstico? A evolução dependerá de vários fatores: em boa parte, da intervenção precoce, que implica tanto ajuda de profissionais como mudanças importantes na vida e na rotina da criança em casa, mas também de elementos da própria criança, como a rigidez dos comportamentos autísticos, a permeabilidade à presença e influência das outras pessoas e o grau de isolamento.

Qual tratamento é indicado? Há várias abordagens terapêuticas frente aos TAs; algumas focalizam as mudanças no comportamento da criança e outras, como a psicanálise, buscam mudanças na estrutura do funcionamento mental. A meu ver, as duas formas não são incompatíveis, desde que haja uma equipe disposta a um trabalho de colaboração mútua. Mas qualquer destas duas vertentes, de modo geral, vai demandar acompanhamento dos pais para auxiliá-los na compreensão da mente daquela criança em particular e no encontro de estratégias eficazes para estimulá-la para o contato, na contramão dos comportamentos autísticos rígidos e restritivos, marcados por rituais e preferências que impedem a relação da criança com as outras pessoas.

Vera Regina Jardim Ribeiro Marcondes Fonseca é médica graduada pela Faculdade de Medicina da USP- Residência em Psiquiatria no HCFMUSP, analista didata e atual diretora do Instituto de Psicanálise da SBPSP, doutora e pós-doutora pelo Instituto de Psicologia da USP- Depto de Psicologia Experimental