transcultural

Somos mais realistas que os reis?

* Noemi Moritz Kon

19 de maio deste ano foi marcado pela transmissão midiática em escala planetária da cerimônia de casamento entre o príncipe Harry e a atriz Meghan Markle na Capela St. George, em Windsor, Inglaterra. Foram muitos os detalhes que desafiaram simbolicamente convenções antes inquestionáveis de eventos deste porte envolvendo a Coroa britânica, talvez hoje a mais tradicional e cultuada das realezas que ainda subsistem nos Estados modernos. Uma linda princesa norte-americana, trajando um vestido esteticamente simples, sem brilhos ou adereços, chega acompanhada exclusivamente pela mãe, Doria Ragland, professora de ioga, que, com seu penteado rastafári, vestia um traje de cor semelhante ao da rainha.

Meghan Markle atravessa a nave da Capela St. George sozinha, sem a presença usual do pai – branco – ou qualquer outra pessoa. Durante a cerimônia, o coral gospel The Kingdom Choir, formado majoritariamente por músicos negros, entoa Stand by Me, do cantor de soul Ben E. King, conduzido pela maestrina Karen Gibson, também negra. Ouvimos surpresos, ainda, o sermão do reverendo Michael Curry – ele também negro – que inicia sua fala citando o maior ícone da militância pacífica negra dos Estados Unidos, Martin Luther King Jr.: “Nós precisamos descobrir a força redentora do amor e, quando fizermos isso, faremos desse velho mundo um mundo novo”.

Que beleza! Que espetáculo! Quantos marcadores sociais de opressão, raça/cor, gênero e classe foram colocados em evidência e, de alguma forma, em xeque nesse momento de comoção ritual! (Evidentemente, nada do que foi exibido escapou aos rigores do protocolo da realeza. Nenhum desses detalhes foi mera coincidência).

Para além de um possível e esplêndido golpe publicitário, minha ingenuidade fez-me pensar em como nós da colônia, nós psicanalistas brasileiros, temos sido mais realistas, mais embevecidos com as insígnias da realeza e da aristocracia, do que os próprios reis. Em como nossa comunidade tem se mostrado conservadora, desatualizada, mantendo-se presa ao “Velho Mundo”. Em como sustentamos, cultivamos e promovemos, naquilo que temos produzido – ou no que não temos produzido –, uma teoria, uma ação e um discurso eivado de valores ideológicos elitistas e meritocráticos, que se protege e se justifica ao fazer-se passar por um discurso científico, a-histórico e universal, um discurso neutro, não contaminado pelas variáveis raça/cor, gênero/orientação sexual e classe.

Ora, não há mais como manter e defender esse tipo de posição; precisamos retomar urgentemente nossas reflexões críticas.

Não somos tão multicoloridos como deveríamos ou poderíamos ser; não somos tão abertos à sexualidade e às suas manifestações, nem mesmo à equidade entre gêneros, como deveríamos ou poderíamos ser; não somos tão receptivos à diferença de classe como poderíamos ou deveríamos ser.

Basta observar o público de nossos encontros e congressos – os nossos rituais -, para verificar que não correspondem à proporcionalidade da distribuição demográfica racial brasileira, com seus mais de 50% de negros e pardos, e que tampouco correspondem aos índices de distribuição de renda, pois somos uma elite também econômica, e congregamos uma porcentagem bem maior de pessoas que recebem mais de 27 mil reais ao mês, o que nas estatísticas da população brasileira conforma seu 1% mais rico.

As mulheres são hoje 51% da população do país, mas entre nós, psicanalistas, a distribuição parece ser bastante diferente: o número de mulheres que preenche os assentos das plateias em nossas reuniões e aulas é bem maior do que a de homens. O mesmo não parece acontecer com relação à distribuição dos lugares de poder e fala, ocupados, preferencialmente, por homens, brancos e, provavelmente, héteros e cis. Neste quesito, em particular, nossos indicadores não diferem sobremaneira dos da nossa sociedade patriarcal e falocêntrica.

Nossa produção teórica, nossa clínica e o funcionamento de nossos centros, departamentos e sociedades parecem também não se coadunar muito bem com o retrato obtido pelos institutos de pesquisas socioeconômicas: quem são nossos analisandos, qual é a sua renda, a sua profissão, o seu nível educacional, a sua cor? Quem são os que procuram as instituições psicanalíticas para avançar em sua formação? Quem prioritariamente ocupa os lugares de poder em tais instituições? Sobre quem falamos em nossos textos? Onde se localizam nossos consultórios? Qual o valor cobrado em nossos cursos e em nossas consultas e supervisões?

Atendo-me aqui no marcador de diferença raça/cor, com o qual venho trabalhando mais detidamente nos últimos tempos – mas o raciocínio poderia ser também aplicado aos outros marcadores de desigualdade -, é possível perceber como temos abusado do “esquecimento” de nossa história, da barbárie brasileira que se instaurou com o genocídio dos índios – 5 milhões em 1500, não mais de 850 mil hoje, segundo dados do IBGE – habitantes destas terras, que se prorrogou nos quase 400 anos de escravização mercantil, e que transformou mulheres e homens em objetos, em mercadorias (bens semoventes, como os escravizados eram denominados). Como temos trabalhado tão pouco as questões contemporâneas derivadas de tais processos históricos que conformaram tanta disparidade de oportunidades, e como temos, assim, acalentado por meio da negação e da recusa, a manutenção de privilégios – nossas casas grandes e nossas senzalas -, justificando a desigualdade como o simples resultado de diferenças individuais naturais que, obviamente, se presentificariam em nosso dia a dia.

Não devemos fazer pouco do que aprendemos em nossas boas escolas e, dessa forma, esquecer que o sistema escravocrata, pilar da economia colonial que sequestrou e trouxe ao Brasil mais de 4,5 milhões de africanos – cifra que representa 46% dos que foram escravizados naquele momento –, cerca de 12,5 milhões de africanos e africanas entre os séculos XVI e XIX, fundou e estruturou, desde nossa origem, um estado de violência e exploração, que produziu e continua produzindo marcas profundas em todos nós brasileiros, mas que recaem discriminatoriamente sobre os mais de setenta milhões de cidadãos negros e pardos – que de acordo com o atual senso demográfico conforma a maior população negra fora da África, o segundo maior contingente de afrodescendentes do mundo, número só inferior ao da Nigéria –, estabelecendo uma condição inescapável e inaceitável de desigualdade e subjugação, que arma nosso cotidiano público e doméstico e que é evidenciada, de maneira inequívoca, em todos os indicadores sociais: saúde, longevidade, salário, emprego, distribuição de renda, educação, moradia, transporte, segurança, justiça e direitos civis1.

Nós, o último país a abolir a escravidão mercantil da era moderna – dois anos depois de Cuba e mais de 20 anos depois dos EUA –, ao que parece, temos apenas ampliado as mesmas estatísticas, estabelecendo mais e mais desigualdades entre nós, dando corpo ao racismo estrutural que vigora em nosso país e que estabeleceu nosso modo de convivência mesmo depois de 130 anos da promulgação da Lei Áurea.

Como podemos nos organizar diante de tudo isso? Qual pode ser nossa participação? Pois sabemos que estamos matando gerações de negros e negras (e indígenas) no Brasil e não apenas por dar fim a seus corpos2. Temos assassinado, igualmente, suas almas, seu psiquismo.

O evento O racismo e o negro no Brasil: questões para a psicanálise promovido pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, em 2012, e o livro que dele se originou, lançado pela editora Perspectiva em 20173, são parte de um movimento, ainda incipiente, para tornar mais evidentes as marcas do racismo institucional que se revela também entre nós, psicanalistas brasileiros.

Foram ambos frutos de um grande esforço de superação de resistências para que pudéssemos assumir o quanto temos negligenciado pensar sobre a potência de destruição e morte que compõem as formas de preconceito e discriminação estabelecidos contra grupos que são ativamente excluídos, excluídos também da oportunidade de desfrutar do que a psicanálise tem para oferecer: a liberdade possível e a ética de nosso desejo. Raros eram (e ainda são) os estudos psicanalíticossobre o preconceito contra o negro no Brasil; pudemos, naquele momento, contar com a reflexão oferecida por outras disciplinas – a história, a sociologia, a política, a educação e as artes – para, aos poucos, nos localizar e iniciar um movimento de apropriação, desalienação e, tomara, de contribuição. Esse meu texto, escrito a convite do blog da Sociedade Brasileira de Psicanálise, ao qual agradeço, tem a ver com o reconhecimento da relevância desse movimento para além da comunidade de psicanalistas formada pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. E isso é importante.

Temos procurado dialogar mais, aprender mais com nossos colegas engajados nos movimentos de proteção e valorização do negro para, a partir dessa nova qualificação, construir parcerias e ações que viabilizem a formação de um número maior de psicanalistas atentos à questão racial e a seus efeitos sobre o psiquismo de todos os brasileiros. É só um começo, e ainda há muito a fazer.

Quem sabe essas iniciativas permitam que nos próximos anos possamos estabelecer um verdadeiro encontro, mais colorido, mais equânime, mais vitalizado pelas diferentes diferenças, e que o som ao nosso redor , que tem nos ensurdecido em sua desarmonia, torne-se ato de tradução de Stand by Me, a canção entoada no casamento real, e que nos postemos todos juntos, lado a lado, um pelo outro, por sermos brasileiros, por sermos humanos, por sermos.

[1] Vale a pena conhecer o manual produzido pelo IPEA (Instituto de Política Econômica Aplicada), Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça in http://www.ipea.gov.br/retrato/pdf/revista.pdf

[2] O Atlas da violência 2017 do IPEA indica, por exemplo, que de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. http://www.ipea.gov.br/portal/images/170602_atlas_da_violencia_2017.pdf.

[3] Kon, N.M., Silva, M. L. e Abud, C.C., O racismo e no negro no Brasil: questões para a psicanálise, S. Paulo, Ed. Perspectiva, 2017.

[4] Vale a leitura de trabalhos inaugurais de Neusa Santos Souza e Isildinha Nogueira Baptista no campo da psicanálise: Souza, N.S.,Tornar-se negro, Ed. Graal, 1a.edição, Rio de Janeiro. 1982. https://escrevivencia.files.wordpress.com/2015/02/tornar-se-negro-neusa-santos-souza.pdf e Baptista, I. N. Significações do corpo negro, tese de doutorado defendida no IPUSP no Departamento de Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano, 1988. http://psicologiaecorpo.com.br/pdf/Isildinha%20Baptista%20Nogueira-Significacoes%20do%20Corpo%20Negro-1.pdf, acessado em 13/01/2016

 

*Noemi Moritz Kon é psicanalista, Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, Mestre e Doutora pelo Departamento de Psicologia Social do Instituto de Psicologia da USP e autora de Freud e seu Duplo. Reflexões entre Psicanálise e Arte, S. Paulo, Edusp/Fapesp, 1996, A Viagem: da Literatura à Psicanálise, São Paulo, Companhia das Letras, 2006 e organizadora de 125 contos de Guy de Maupassant, São Paulo, Companhia das Letras, 2009 e co-organizadora com Cristiane Curi Abud e Maria Lúcia da Silva de O racismo e no negro no Brasil: questões para a psicanálise, S. Paulo, Ed. Perspectiva, 2017. Professora do curso de pós-graduação: “Conflito e Sintoma: Clínica Psicanalítica” do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae

Para ser um adulto feliz, precisamos ser uma criança feliz

A psicanalista e psiquiatra infantil Marie Rose Moro estará no Brasil para a III Jornada da Clínica 0 a 3 – Intervenção nas Relações pais-bebê, que acontece na Sociedade Brasileira de Psicanálise São Paulo nos dias 17 a 18 de março. Na ocasião, ela compartilhará experiências e abordará temas relativos à criação de filhos no século XXI. Em entrevista à SBPSP, ela fala sobre alguns dos temas do encontro, em especial sobre a abordagem transcultural, uma linha de trabalho e pesquisa à qual vem se dedicando e é cada vez mais necessária em um cenário marcado por grandes correntes migratórias e imigratórias.

Quais são os principais desafios culturais para a maternidade e paternidade hoje em dia?

Nós não somos pais, nos tornamos pais! É uma construção complexa de parâmetros coletivos, sistêmicos e intrapsíquicos. Antes, nós tentávamos fazer como nossos pais fizeram conosco nas gerações anteriores. Mas agora isso não é possível. Nós temos que criar nosso próprio jeito de ser pai e mãe. É difícil porque não tem um único modelo a ser seguido. Nós temos que inventar e adaptar nosso self para cada criança, para ouvir as necessidades dele ou dela. Frequentemente nós temos que fazer isso sozinhos, sem outras gerações, sem um grupo. Solidão e dúvidas estão presentes e é por isso que é um desafio grande e extraordinário. Alguns filósofos europeus acham que criar filhos é um desafio enorme no século XXI. É desafiador tanto para a sociedade mas também para a clínica psicológica e para a psicanálise.

 

Você poderia explicar como os processos de migração e imigração influenciam na criação de filhos nos dias de hoje?

Deixar o lar, a família, os amigos e a língua, perder os aroma, cores e sabores familiares e migrar para outro mundo, geralmente sozinho, são experiências ao mesmo tempo corriqueiras, atemporais e extraordinárias. Migração não é simplesmente a jornada sensata e necessária de muitos Ulysses, mas também tem outras faces: basta ver os rostos atordoados de homens e mulheres chegando nas fronteiras da Europa do oeste africano e barrados no aeroporto, ou tentando cruzar o deserto pelo Mali, Algeria e Marrocos para chegar à costa da Espanha aflitos, explorados e, algumas vezes, mortos. Acontece o mesmo no Brasil. A necessidade vem de fora, mas também de dentro. O viajante moderno chegando na controlada Europa ou na América é mais parecido com o valente Don Quixote lutando contra moinhos de vento e adversidades do que com Ulysses, mesmo quando há um propósito. A jornada continua pela Espanha, Portugal, França e além. O processo é para pessoas e grupos um jeito de encontrar a liberdade, mas também é um trauma e uma dor. Você encontra novos valores e caminhos de viver, mas perde outros que podem ser muito importantes para você.

Estar no exílio é uma situação muito desafiadora para tornar-se mãe ou pai. Em um ambiente que você não conhece tão bem, você pode sentir-se não muito confortável e pode ser uma situação muito insegura sem família e grupos para te ajudar, modelos para te inspirar e por aí vai. E se o bebê chorar, o que fazer? E se o bebê não quiser comer ou dormir?  E se o desenvolvimento dele ou dela não for bom o suficiente? E se o bebê não quer comer ou dormir? E se uma doença ou morte acontecer? Nessa situação transcultural, precisamos ajudar os pais a serem pais nessa situação vulnerável. Imaginamos um cenário transcultural para os pais imigrantes.

Há diferenças para homens e mulheres na criação de filhos no século XXI? Quais são elas? Elas mudaram muito nos últimos anos? São igualmente importantes para o desenvolvimento do bebê?

Claro que ainda há muitas diferenças entre homens e mulheres na criação de filhos no século XXI. E as diferenças são boas para os bebês. Eles podem viver experiências e estímulos diferentes. As mães ainda estão mais envolvidas nos cuidados diários e passam mais tempo com os bebês do que os pais, mas podemos observar em partes diferentes do mundo que os papeis dos pais estão mudando. Os pais estão mais perto dos bebês do que antes e querem participar mais das experiências do dia a dia e dividir mais com as mães. Mas os bebês e as crianças precisam de ambos ao redor e interagindo com eles. Eu acho que o bebê também precisa de um grupo para ser apoiado e interagir.

 

 

Em que aspectos a relação entre pais e bebês nos primeiros anos de vida pode influenciar o desenvolvimento da personalidade da criança?

Nós sabemos bem que o primeiro ano de vida do bebê é crucial para toda sua vida porque é nele que o bebê precisa construir sua segurança, personalidade e maneira de interagir com o mundo. Muitos grandes psicanalistas e psiquiatras mostraram isso no século XX, como Selma Fraiberg e Daniel Stern, nos Estados Unidos; Serge Lebovici, Michel Soulé e René Diatkine, na França, e Donald Winnicott, no Reino Unido. Os bebês precisam de ajuda em momentos vulneráveis e os pais também. Levando em conta essa vulnerabilidade é uma necessidade hoje que reconheçamos suas necessidades e não deixemos os pais e os bebês sozinhos com o sofrimento deles. Essa também é uma necessidade para o futuro porque esse período tem uma enorme influência para a criança, o adolescente e o adulto que eles serão. Essas intervenções precoces têm grandes resultados no momento, mas também é um investimento para o futuro. Para ser um adulto feliz, precisamos ser um bebê feliz.

Claro que pais imigrantes que pertencem a grupos vulneráveis têm que ser ajudados nesse período muito específico e esse é o objetivo da nossa aproximação transcultural. Pesquisas atuais no campo da psiquiatria transcultural apontam que essa técnica é adequada à prática clínica com pais imigrantes, pois produz resultados terapêuticos que são profundos e duradouros.

 

Marie Rose Moro é chefe de departamento de medicina transcultural e psicopatologia do adolescente, Maison de Solenn, Maison des adolescents do Hospital Cochin (Paris, França); criou e é a responsável pelas consultas transculturais destinadas a bebês, crianças, adolescentes e suas famílias, Hospital Avicenne (Bobigny) e Cochin (Paris); é chefe de fila da psiquiatria transcultural na Europa; diretora da revista transcultural, L’autre. Clinicas, Culturas e Sociedades; presidente da Associação Internacional de Etnopsiquiatria (AIEP), e professora convidada para conferências em vários países do mundo.

 

Saiba mais sobre o trabalho de Marie Rose Moro: