suicídio

Setembro Amarelo

Leda Beolchi Spessoto

Atualmente, setembro é o mês de uma campanha mundial de prevenção ao suicídio. O assunto entra na lista de problemas que a OMS (Organização Mundial de Saúde) considera prioritários em suas ações, devido à sua significativa incidência em diferentes países e culturas. O mês colorido de amarelo, cor cheia de vida e calor, conclama e põe em alerta as pessoas para superarem medos e preconceitos e reconhecerem o problema e os sinais de quem corre risco de tirar a própria vida.

Dia 10 de Setembro foi oficialmente designado como Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. No Brasil, desde 2014, a ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria), o CFM (Conselho Federal de Medicina) e o CVV (Centro de Valorização da Vida) promovem eventos como parte de uma campanha que procura abrir espaço para debates e discussão deste importante tema. Há levantamentos indicando que muitos casos de suicídio podem ser evitados quando há possibilidade de serem detectados e encaminhados para tratamento. Também é possível evitar o desenlace fatal quando a pessoa pode contar com acolhimento de alguém que receba a angústia e pedido de ajuda em momentos críticos. As motivações para um ato suicida são inúmeras e o perfil psicológico muito distinto em cada caso, ainda que se possa considerar a existência de certos grupos de maior risco.

Recentes, episódios de suicídio em jovens ganharam repercussão internacional pela difusão na Internet do jogo conhecido como Baleia Azul, em que este comportamento era induzido. Muitas informações vieram à tona, inclusive a constatação do aumento de suicídio na população jovem como um fenômeno mundial e uma questão de saúde pública. Dados divulgados pela BBC Brasil em 2017 indicam que entre 1980 e 2014 a taxa de suicídio entre jovens de 15 a 29 anos de idade aumentou 27,2% no Brasil. Alguns estudos apontam como fatores que contribuem para o aumento do suicídio o uso de drogas, o bullying e a violência doméstica.

Gostaria de chamar a atenção para o comportamento suicida que também ocorre em jovens que não apresentam história de pertencer a um grupo de risco ou tampouco ter uma patologia grave. O aspecto predominante em suas ações parece fruto de uma grande impulsividade com poucos recursos contensores da mesma. Uma observação do cenário cultural onde se inserem mostra características da era digital contemporânea em que se desenvolveram, com incremento da ação sobre a contenção ou reflexão, gerando muitas vezes um curto-circuito impulsivo e intolerante frente aos desafios e frustrações. Esta característica aumenta a vulnerabilidade dos indivíduos diante dos desafios que a vida traz consigo. A morte passa a ser buscada de forma impulsiva para se livrar de sentimentos desagradáveis e sem levar em conta as perdas e o sofrimento atrelados ao ato suicida. Neste contexto, a psicanálise seria um contraponto a este tipo de movimento, oferecendo a oportunidade de desenvolver outros aspectos da personalidade.

Como psicanalista, reconheço que cada cultura tem recursos próprios a serem explorados para contribuir com a contenção da impulsividade e desenvolvimento de aspectos criativos dos indivíduos, atenuando e transformando seus sofrimentos, assim como entendo que a psicanálise pode oferecer ajuda aos pacientes e profissionais que atuam na área de saúde para lidar com os desafios que estas dolorosas situações nos apresentam.

Este breve artigo não pretende esgotar o complexo exame do suicídio, mas espero com ele estimular outras reflexões sobre o tema e contribuir com os objetivos do Setembro Amarelo, fazendo girar as apreensões e ideias num movimento de vida:

“Cycle Around the Globe 2017- World Suicide Prevention Day”. Esse é o lema do IASP-International Association for Suicide Prevention- para este 10 de Setembro).

Leda Beolchi Spessoto é psiquiatra e psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

FEELING BLUE – A TRISTEZA DE NOSSOS ADOLESCENTES

*Por Sylvia Pupo

A febre dos jogos e séries ligados à temática da morte parece ter dado voz ao apagamento gradual e silencioso do adolescente na nossa sociedade.

O jogo da Baleia Azul e a série 13 Reasons Why, exaustivamente abordados na mídia nas últimas semanas, geraram perplexidade e pânico a respeito de uma possível epidemia de futuros suicídios e uma controvérsia a respeito de ser ou não recomendada sua exibição ao seu público alvo. Havia o receio da indução a mais suicídios, já que a forma romantizada e detalhada com que o tema é abordado são fatores largamente desaconselhados pela Organização Mundial de Saúde. Tentativas prévias são consideradas um fator de risco importante na indução de mais suicídios.

Tanto o jogo quanto a série expõem a angústia e a desesperança dos adolescentes e os destinos possíveis, embora nem sempre desejáveis, para a sua dor. O suicídio é um deles. Retratam com crueza a violência da via-crucis percorrida pelos jovens – como as etapas do jogo – na sua transicionalidade e na busca de lugar no grupo social. Esta é uma violência que às vezes não notamos ou então subestimamos.

Já fomos adolescentes e sobrevivemos – alguns melhor do que outros, é bem verdade – às angústias e maldades, ao desprezo dos amores e à incompreensão dos pais, às incertezas e dúvidas. Até ocorreu a alguns tirar a própria vida em momentos de desespero, mas não o fizeram. O pensamento parece ter dado conta das angústias.

Dados alarmantes da OMS apontam o suicídio como a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. O que será que mudou?

Os motivos pelos quais pessoas tiram suas vidas são variados e individuais, mas supomos que a desesperança e a dor sejam denominadores comuns. Esses suicídios nos dizem que algo vai mal, que está difícil viver. Que não se tem mais esperança e se está muito só. São sintomas do social?

O que não estaríamos podendo escutar? O que as palavras não estão alcançando no uso do corpo nessa falta de nomeação? Nos perguntamos: onde é que falhamos?

Seja um ato impulsivo ou planejado, de vingança ou desespero, no suicídio há uma mensagem – ainda que enigmática – para quem fica. O que nos comunica essa onda de suicídios, sobre a relação dos jovens com a sociedade? Seria a cultura contemporânea que está destruindo os jovens ou seria o modo que interagimos com ela?

É fato que o psiquismo se apoia em traços da realidade, mas não será, necessariamente, uma reprodução dela. A cultura oferece veículos para a expressão da violência interna de cada um e o jogo é mais um deles.

Podemos ter mais de 13 razões e, mesmo assim, conseguirmos encontrar outras vias para processar nossa dor e dar a ela um destino. Aperta-se o botão delete para que o desconforto desapareça? Novas drogas nos deixam em êxtase permanente. Perdemos a capacidade de tolerar o mal-estar – necessário e estruturante do sujeito – inerente ao processo civilizatório, observado por Freud?

Ninguém pode mais esperar, tudo é para já. Há uma pressão contínua para que se “evolua” (o que será isso?) em uma escalada ascendente, mas não há tempo para aprofundar. Não se tem mais tempo a “perder”. Vemos um grande incômodo quando é necessário desacelerar,  “voltar duas casas no jogo da vida” que se torna, ela mesma, uma série de tarefas a serem cumpridas, em vez de uma experiência a ser vivida.

Não é o caso de procurarmos culpados, mas de pensarmos se estamos conseguindo ajudar os jovens a criarem recursos para lidar com as dificuldades da vida, mas, principalmente, com os próprios afetos.

Estaríamos reproduzindo certos valores e ideais que nos dificultam “re-conhecer” nossos filhos?  Seria bom se pudéssemos acreditar que ser feliz é muito mais do que atingirmos os padrões valorizados socialmente. Que é importante construirmos algo que exceda a nossa sobrevivência – algo para além dela, que nos dê prazer e possa ser um veículo para os nossos sonhos. Questionar o sentido de passarmos a mensagem a um adolescente que ele tem que trabalhar muito agora para ter mais trabalho no futuro e que isso é o que vai fazê-lo feliz.  Considerar que é bom buscarmos satisfação nas nossas escolhas e não apenas reconhecimento. Ensinar que podemos ter felicidade apesar de tantas faltas e limitações. Talvez isso soe mais possível.

O submetimento, também suicida, à tirania de ideais, mostra que essa necessidade de reconhecimento encobre, na verdade, uma carência de auto-reconhecimento.  As patologias contemporâneas têm aí suas raízes. Depressão, baixa auto-estima, as chamadas “patologias do vazio”, que se expressam na forma de distúrbios alimentares, compulsões, adicções, intervenções estéticas em excesso, refletem a insatisfação crônica do sujeito consigo mesmo. Ser feliz tornou-se um valor quase masoquista: ser o que não se é, ter o que não se tem… Não se tolera a falta, a incompletude, a imperfeição. Não se tolera mais o humano.

Esse assassinato das individualidades atinge, sobretudo, os adolescentes, que estão em pleno processo de consolidação pessoal. Qual é o preço de pertencer?

Como conseguir tolerar os vazios sem preenchê-los com drogas, comida, consumo, sexo? Essa parece ser uma das tarefas da atualidade – darmos conta das incertezas e dos vazios de maneira não destrutiva.

Infelizmente não podemos prever com certeza quais jovens vão aderir aos jogos mortais ou cometer suicídio. O que sabemos é que pessoas com uma auto- estima mais satisfatória e uma identidade estável e estruturada terão maior capacidade de julgamento, de tolerar a frustração, de acomodar conflitos e pensar. Esse vai ser um recurso importante  nos funcionamentos impulsivos, por exemplo, a capacidade de adiar a ação.

Nossa tarefa então, não será poupar os adolescentes das problemáticas e frustrações. Ao contrário, temos que ajudá-los a desenvolver recursos para que sustentem as idiossincrasias e possam pensar sobre elas.

Neste sentido, a Psicánalise tem muito a contribuir, já que a violência e a maldade vão continuar a existir em toda parte.

*Sylvia Pupo é psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

DEPRESSÃO

Com sintomas de depressão e tristeza, muitos adolescentes tem sido vítimas do “jogo” Baleia Azul, cujo fim culmina com o suicídio do participante. Depressão não é facilmente detectável, principalmente em crianças e adolescentes e, por essa razão, é preciso se informar a respeito e procurar ajuda quando necessário. A psicanalista Maria Thereza Barros França discute o tema no artigo “Depressão“, publicado originalmente no blog da SBPSP em 2014 e hoje mais atual do que nunca.

Blog de Psicanálise

Vincent van Gogh - Old Man in Sorrow Vincent van Gogh – Old Man in Sorrow

Para a Psiquiatria, a depressão é uma alteração do humor caracterizada por tristeza profunda, acompanhada de apatia, desânimo, inapetência, desinteresse sexual e pela higiene, insônia e um sentimento de falta de sentido na vida. Esses sintomas podem ou não se alternar com seus contrários: humor exaltado, denominado “mania”, ou em grau mais leve,hipomania. Se por um lado os sintomas depressivos nos fazem sentir pesados e pesando aos que convivem conosco, os de mania nos fazem sentir ótimos, não necessitando de nenhum tipo de ajuda, o que, entretanto já não se dá com os familiares, que podem perceber certas inadequações, falta de limites, gastos exagerados e assim por diante.

Esses quadros nos levam a perguntar: se eu tenho esses sintomas, sou doente? Estou doente? O que se passa comigo?

A Psicanálise traz sua contribuição no sentido de pensar estas questões.

Embora não seja…

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SUICÍDIO E PSICANÁLISE

Por Sandra Maria Gonçalves

Viver implica sentir prazer e dor. A ciência médica, hoje em dia, nos propõe alívio para qualquer dor física.

Quanto à dor psíquica, aquela angústia inerente às nossas perdas, frustrações, escolhas, imperfeições e limitações, a natureza nos dotou do sono para não termos que enfrentar a realidade o tempo todo, sendo que o sonhar nos ajuda a organizar e dar sentido às experiências prazerosas, enigmáticas ou dolorosas vividas durante o dia. Mesmo acordados não precisamos estar o tempo todo em contato com a realidade, podemos fantasiar, ou seja “sonhar acordado”.

O suicídio é um sono sem sonhos do qual não se acorda jamais.

Para algumas pessoas o sono e o sonhar são suficientes; outras buscam as opções criadas pela cultura: álcool, drogas, psicofármacos; para 3 mil, diariamente, segundo a Organização Mundial da Saúde, só o suicídio é visto como solução. Por quê? Porque a capacidade para lidar com os afetos dolorosos sem que o Eu se desagregue é extremamente variável entre as pessoas e também na mesma pessoa ao longo da vida.

Cada um comete o ato suicida por razões singulares. Vingança, raiva, autopunição, culpa, desesperança, vergonha, humilhação, inferioridade são estados afetivos comumente narrados pelas pessoas com ideias suicidas, mas sob estes subjazem outros que no momento não estão acessíveis à percepção da pessoa. Esses afetos vão se tornando intoleráveis, as ideias suicidas vão aparecendo, preparações para o ato começam a ser construídas e em determinado momento o controle egóico entra em falência e o ato ocorre.

A psicanálise nos ensina que em todo evento psíquico há conflito, há dois lados: no caso do suicida é entre a vontade de matar o corpo e a vontade de sobreviver. O suicida espera que vá existir um “estado de não sofrimento”, quando na realidade não existirá “estado” nenhum, apenas um puro corpo morto.

A lógica do suicida não é a lógica comum, mas para este faz todo o sentido. A pessoa deve ser levada a sério em suas ideias. Quanto antes estas forem identificadas maior é a possibilidade de ajudar a pessoa a se reconciliar com seu lado que quer sobreviver, dando significados que tornem suportáveis a dor de viver nesse mundo que ela quer deixar e, quem sabe, modificar sua convicção suicida.

*Sandra Maria Gonçalves é psicanalista, membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).