subjetividade

Entre o singular e o plural: identificação

Não é simples compreender a interface entre as esferas pública e privada e como ela afeta a subjetividade de cada indivíduo. De forma às vezes sutil, tudo o que acontece no mundo externo e objetivo afeta – de uma maneira ou de outra – aquilo que somos, nosso mundo interno. No cerne dessa interação encontra-se o fenômeno da identificação, que funciona tanto de fora para dentro, fazendo com que cada indivíduo incorpore aquilo que considera de valor; como de dentro para fora, atribuindo a pessoas ou coisas aspectos e características que apreciamos ou não. Sobre o tema, vale conferir o artigo abaixo, da psicanalista e membro da SBPSP, Ester Sandler.

Entre o singular e o plural: identificação

Por Ester Sandler*

Relações de causa e efeito não dão conta da interação entre o que se passa dentro de nós, nosso mundo interno e subjetivo, e o mundo externo, de realidade aparentemente objetiva. Os mesmos acontecimentos afetam cada indivíduo de forma diferente, e um mesmo indivíduo pode reagir a um mesmo estímulo de forma variada.

Tomo como exemplo as imagens impressionantes da maior manifestação já ocorrida na França. 3,7 milhões de pessoas se reuniram em Paris e outras cidades da França e do mundo; levavam cartazes com a frase “Je suis Charlie”, em desagravo ao atentado que não só matara 17 pessoas como ultrajara a França e seus ideais de: liberdade, igualdade, fraternidade. Mas o que foi capaz de mobilizar tantas pessoas, e com tanta rapidez, quando diariamente notícias de atrocidades de guerra e terrorismo, de violência urbana, envolvendo milhares de vítimas despertam pouco interesse e uma quase indiferença?

No Brasil, em 2013, um grupo de ativistas protestou contra o acréscimo de vinte centavos na tarifa do transporte público e, de repente, milhões de pessoas ocuparam as ruas de várias cidades do país durante meses, com as mais diferentes reivindicações. O preço da condução foi a gota d’água que transbordou o copo de insatisfações e indignações até então silenciosas. O que fez, nesse momento, que as pessoas sentissem necessidade e possibilidade de protestar?

A frase “Je suis Charlie” teve uma propagação viral e um papel vital nesses acontecimentos. Charlie não é o nome de uma pessoa, mas do cândido personagem Charlie Brown. A construção da frase, omitindo “revista” e usando a palavra “sou” mudou seu possível sentido, algo como “eu me solidarizo com os editores da revista Charlie”, ou “hoje eu me sinto atacado como eles foram”; contagiou milhões de pessoas por meio de um processo de identificação. Charlie virou uma pessoa, uma boa pessoa, próxima a mim, como eu e, finalmente, virou “eu mesmo fui atacado”.

No cotidiano, um mesmo gesto ou evento pode catalisar reações poderosas como esse slogan foi capaz de fazer. Às vezes um acontecimento de grande magnitude pode ser elaborado pelo indivíduo como uma experiência constitutiva e enriquecedora. Outras vezes, acontecimentos aparentemente insignificantes podem mobilizar emoções e reações violentas, incompreensíveis à primeira vista.

No indivíduo e no grupo a identificação é um fenômeno chave e funciona em dupla mão, de fora para dentro, incorporando aquilo que consideramos de valor, fundamentando a empatia. De dentro para fora, atribuindo a pessoas ou coisas aspectos que apreciamos ou não. Construímos assim, com esses filtros, nossa identidade e simultaneamente a concepção do mundo em que vivemos e das pessoas a nosso redor. Esse mecanismo, quando desbalanceado, é responsável pela formação de sintomas no indivíduo, e nos grupos: fobias, sentimentos de perseguição, preconceitos, bodes-expiatórios.

A Psicanálise aproxima o indivíduo de quem ele de fato é, fortalece sua identidade e também sua capacidade para se relacionar e respeitar diferenças. Pensar e refletir preponderam sobre o reagir. A capacidade para ver a vida como ela é não significa resignação, mas possibilidade de construção.

*Ester Sandler é psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Vida escolar, crescimento e constituição da subjetividade

A educação dos filhos é um processo complexo e não há fórmulas preconcebidas que ditam um suposto caminho “certo”. Apesar disso, há questões e aspectos sobre os quais podemos e devemos refletir quando testemunhamos – no papel de pais ou de analistas – o desenvolvimento emocional e físico das crianças.
No artigo abaixo, a psicanalista Alicia Lisondo faz exatamente isso, abordando com profundidade o momento de ingresso das crianças numa instituição escolar e os principais fatores implicados nesse processo.

O filho na escola: quando iniciar a inclusão da criança numa instituição escolar? Por que tomar esta decisão? Está na hora?

Por Alicia Beatriz Dorado de Lisondo*

Nossa ciência-arte, a psicanálise, estuda a singularidade do processo de constituição da subjetividade de um ser humano, num ambiente específico e único. O bebê humano não nasce maduro, pelo contrário, muito vulnerável, com potencialidades a realizar graças às funções parentais. Minha intenção não é dar respostas normativas, contrárias ao espírito da psicanálise, mas sim ajudar a pensar.

A creche e/ou escola é uma instituição com cultura e normas próprias. Um espaço diferente do lar. Mas para que a criança vivencie uma certa continuidade entre a família e a escola, os pais podem escolher um lugar em sintonia com seus valores, com sua postura ante o mundo, com condições reais de arcar com a distância geográfica e os custos econômicos, tendo em conta o bom senso. O que seria melhor para esta criança, neste momento de sua vida, com estes pais, nesta família? Qualquer decisão implica enfrentar riscos, lutos por aquilo que não foi escolhido, turbulência diante do novo e do desconhecido.

A instituição escolar precisa ser coerente com seus princípios formativos e pedagógicos. Eles não podem ser palavras vazias, protocolares e sim palavras encarnadas no dia a dia, plenas de sentido. Não ceder às pressões dos pais e da sociedade neste mundo pós-moderno não é tarefa fácil quando, às vezes, a infância é sacrificada e a adolescência sufocada. A aprovação no vestibular, por exemplo, pode tornar-se a única meta a alcançar, limitando atividades artísticas, sociais, esportivas, políticas, procura de eficiência competitiva e um lugar no mercado de trabalho.

CRECHES E ESCOLAS MATERNAIS

Para se desenvolver, o bebê precisa que as funções parentais possam lhe oferecer, por meio de um vínculo real e mental, uma experiência de segurança básica, de continuidade entre a vida pré-natal e pós-natal, um ritmo estável, uma estimulação adequada. Essas funções como “pais suficientemente bons”, no dizer de Winnicott, surgem espontaneamente, tendo a intuição como bússola privilegiada. Os pais modulam as terríveis ansiedades do bebê e são catalizadores semânticos para dar significação às expressões corporais, gestuais e sensoriais do filho por meio da linguagem pré-verbal. Se quando surge o laleio: “Ah!Ah!Ah”, este é escutado e interpretado pelos pais como MAMÃE, PAPAI ou PAPAR, a comunicação não cai no vazio.

Numa profunda relação misteriosa e inconsciente, assim, o bebê constrói seu SER, apropria-se da linguagem, dos valores e ideais da cultura apresentados pelos pais. Realiza as potencialidades presentes no seu repertório tecendo, com os fios do reconhecimento e da valorização do ambiente que festeja cada conquista, a autoestima.

O chute na bola de um toquinho de gente pode ser celebrado como o gol do ídolo. E diante da festa, o filho repete a façanha, uma e outra vez. Também pode aprender, muito além do exercício motor necessário para permitir experimentar distâncias e forças no espaço, a perder, a tolerar frustrações, a esperar a vez de uma próxima tentativa; a potência masculina está presente no acerto festejado e na perda suportada. A criança ganha confiança e segurança no exercício de suas reais possibilidades e o primeiro ano de vida é fundamental para construir os alicerces da personalidade.

A criança pequena precisa construir temporalidade e espacialidade. Então ela não percebe, não realiza a duração do período escolar. Seu frágil psiquismo não pode imaginar o retorno dos pais antes da possibilidade de simbolizar, há como que um desaparecimento dos seres conhecidos, um “nunca mais”, porque não há reversibilidade entre idas e voltas, partidas e chegadas, encontros e despedidas. Quando em sofrimento, um minuto pode ser eterno.

Quando a criança não tem as figuras primordiais introjetadas na sua mente e não pode simbolizar, ou seja, re-criar a presença dessas figuras quando ausentes, a separação dos pais pode ser vivida como um esfacelamento, uma queda sem fim no abismo infernal, uma aniquilação ou fragmentação do ser. A imagem da criança agarrada, colada ao corpo dos cuidadores em desespero evidencia essas agonias primitivas. Diferente da criança capaz de dizer tchau e se despedir, se separar, que segura um objeto acompanhante, “transicional”, que lhe ajuda a realizar a passagem entre o conhecido mundo familiar e o estranho mundo escolar.

Não menos preocupante é a criança que aparenta indiferença, apatia, desinteresse nos contatos humanos, porque se refugia em barreiras de diversas espessuras, fronteiras dos refúgios, como ocorre quando há estados autistas, de gravidade muito variada, em curso.

O bebê bem dotado tem radares para perceber os estados mentais inconscientes das pessoas próximas. Para garantir AMOR pode vir a se sobre-adaptar aos valores e ideais parentais impostos, numa submissão que pode aplastar desejos e manifestações do verdadeiro self. Exemplo em sala de análise: uma menina de 2 anos e 7 meses, hipotônica pela privação da exercitação do corpo no espaço (rastejar, engatinhar, explorar o ambiente, manusear objetos, brincar de jogar objetos de certa altura e ou a certa distância, etc.); quando a mãe a deixou no chão ante minha interpretação, ela olhava para a mãe e logo me olhava como que pedindo permissão para cada movimento que ousava realizar, timidamente. Pensei que minha paciente inibia a exploração motora do novo ambiente para obedecer a normas implícitas que proibiam o movimento, a fim de evitar TODOS os perigos e a ameaça de uma nova convulsão. Só que assim agindo, os pais, inconscientemente, freavam seu crescimento. Além das questões neurológicas, a convulsão era uma explosão da excitação que ela não tinha podido metabolizar.

Adaptação e sobre-adaptação são estados mentais diferentes. O primeiro pode indicar que a criança é capaz de assimilar o NOVO, aprender com as novas experiências, ampliar o mundo com as relações com outras crianças e professores.

Já na sobre-adaptação, no interjogo entre o nível de exigência imposto pelos pais e a qualidade da personalidade em formação, há uma obediência submissa, que deforma ao aplastar o SER. A criança se adapta ou silencia as emoções por que está sobre-adaptada? A criança quando chora, protesta, esperneia diante de cada separação, ou adoece repetidamente, estaria expressando a imaturidade para ingressar/e ou continuar numa escolinha maternal-creche? São conciliáveis: expectativas, exigências, desejos, obrigações, realizações, sonhos da mãe (laborais, profissionais, econômicos, pessoais) com os cuidados psíquicos de um filho na primeira infância? Como?

QUESTÕES PARA PENSAR:
– Quanto menor é a criança, mais ela precisa da convivência num ambiente que propicie o desenvolvimento da personalidade, através das funções parentais maduras.

– Quando necessário, apelar a uma instituição é importante, mesmo que seja por períodos os mais breves possíveis. Quais os critérios para buscar essa instituição escolar?

– No lar é aconselhável que os pais entrem em contato emocional com o filho oferecendo uma atenção qualificada para, espontaneamente, brincar, desenhar, pintar, cantar, dançar, conversar, colocar limites, num vínculo verdadeiro que contemple o amor, o ódio, a ternura, o sofrimento, a alegria. Limitar o uso de TV e aparelhos eletrônicos é necessário para privilegiar os contatos humanos.

– Os pais, como seres humanos, fazem o possível e não podem exigir para si próprios, a perfeição. A culpa é uma má companhia. A superproteção, a pretensão de evitar sofrimentos necessários para o filho, as falsas compensações, as seduções e as chantagens não ajudam a crescer.

– Há sinais que podem revelar o mal-estar psíquico de um filho: doenças frequentes do psicossoma, alteração dos ritmos fisiológicos (sono, alimentação, controle esfincteriano): apatia, tristeza, desinteresse, dificuldades ou recusa nos contatos humanos; exigência de ficar aderido, colado nos cuidadores; terrores noturnos; ataques de pânico ou de raiva prolongados e frequentes sem motivo aparente; impossibilidade de aceitar limites e frustrações dosadas; graves fobias; transtornos no desenvolvimento etc. Então que fazer além de observar, sofrer, insistir?

– Diante da consciência desse mal-estar é oportuno consultar um psicanalista de crianças e adolescentes para investigar a situação. O tempo não resolve perturbações mentais. O tempo pode potencializar fatores patogênicos.

Uma avaliação psicanalítica levantará hipóteses diagnósticas sobre a criança e seus vínculos, convocando os pais a pensarem sobre as transformações necessárias na personalidade do paciente e na família.
Na criança pequena as mudanças podem ser assombrosas pela força de vida do protagonista da consulta. E mais: as configurações que perturbam o desenvolvimento emocional podem não estar cristalizadas. O psicanalista tem a chance de entrar em cena antes das consequências perigosas da cronicidade do quadro.

*Alicia Beatriz Dorado de Lisondo é psicanalista e membro da SBPSP

“O FINAL DA NOSSA EXPLORAÇÃO É CHEGAR ONDE
INICIAMOS E CONHECER O LUGAR PELA PRIMEIRA VEZ”

T.S. ELIOT.

Vergonha: entre o afeto e a moralidade

O desconforto gerado pelo sentimento de vergonha não é algo que, de imediato, podemos explicar. Ninguém gosta de sentir vergonha e, embora seja um dos afetos mais comuns e universais, não é fácil descrever o que é e exatamente de onde vem esse sentimento. No artigo abaixo, a psicanalista e membro da SBPSP, Marina K. Bilenky, desvela de forma concisa e ao mesmo tempo profunda o que é, qual é a origem e qual a importância desse afeto.

Vergonha

Por Marina K. Bilenky*

A vergonha é um sentimento doloroso. De origem narcísica, é ferida difícil de cicatrizar, permanece indelével na memória e está relacionada muitas vezes a situações de impotência. Sentimento social, surge quando o olhar do outro vê o que não deveria ser visto. É o rubor inoportuno, a umidade da pele, a tremedeira, o gaguejar, o branco. Revelação de uma falha sem reparação. A imagem manchada, a desqualificação. A vontade de sumir da face da terra. É a exposição de uma fraqueza, a perda das aparências e da dignidade – o mundo interior desmascarado aos olhos do outro.

A vergonha confunde-se com a culpa, mas são diferentes. Ambos são afetos relacionados à moralidade e servem como reguladores sociais do comportamento humano. Porém, a culpa é resultado de um mal causado ao outro, é dirigida a quem foi lesado, imaginaria ou verdadeiramente. Na vergonha, a imagem da própria pessoa é atingida. Na culpa, há reparação; na vergonha, não há como consertar a imagem manchada.

A vergonha aponta para uma falha na imagem do sujeito, como um defeito de fabricação. Já a culpa aponta para um ato humano ditado pela vontade e sempre relacionado a uma transgressão. A vergonha, mesmo quando aparece como resultado da exposição de uma transgressão, tem um caráter mais global — não é o ato em si que é julgado e, sim, a pessoa inteira.

A vergonha é um sentimento social. Surge diante do olhar do outro. Entra em cena quando o outro passa a existir conscientemente para a criança e, com ele, seu olhar. O olhar é parte fundamental do processo de constituição da subjetividade e a vergonha, que surge na tomada de consciência de si, é fundamental como sentimento que regula a relação do sujeito com o mundo que o cerca. Porém, um olhar muito crítico ou um olhar que não reconhece os desejos e necessidades da criança como legítimos e, portanto, merecedores de consideração e cuidados pode inibir ou prejudicar o desenvolvimento da criança.

É frequente o paciente evitar temas que lhe causem vergonha na análise. Mas também podemos assistir àqueles momentos em que ele se esforça para superá-la diante de alguém que se tornará testemunha daquilo que tão laboriosamente luta para esconder. Ao explorar esse sentimento, o sujeito amplia as possibilidades de lidar com suas questões, o que pode resultar em um aumento de suas relações pessoais dentro de seu meio social. Percebemos quanto o indivíduo se fecha e se protege por temer o julgamento e olhares críticos dos outros.

Aspectos importantes do mundo do paciente permanecem protegidos contra esse tipo de invasão e, consequentemente, tornam-se pouco acessíveis a ele próprio. Essa blindagem funciona como defesa contra qualquer aproximação que ameace a imagem desqualificada que o sujeito tem de si.

A vergonha, ao contrário da culpa, não pode ser recalcada nem esquecida. A saída é o encobrimento. O envergonhado procura esconder aquilo que provoca a vergonha, seja uma característica física ou de personalidade, seja uma situação que exponha, para ele, uma falha sua. A reação à exposição vem carregada de angústia e dá lugar a inibições, fechamento sobre si mesmo, impossibilidade de desenvolvimento.

O sofrimento dos indivíduos que têm dificuldade com a exposição se refere ao sentimento de que existe uma grande distância entre o que ele é e o que pensa que deveria ser para poder fazer parte do mundo ao qual deseja pertencer.

O envergonhado sente que os olhares o trespassam e que todos podem enxergar o que lhe vai por dentro. É vivência angustiante, pois o sujeito quer ser visto, mas teme ser visto demais. Assim, ele procura se tornar invisível e esconder qualquer coisa que possa ser considerada como imperfeição. Na impossibilidade de se arriscar, errar e aprender, a pessoa se paralisa.

A vergonha também pode surgir de repente, quando diante de alguma situação aparece uma fratura entre a imagem que se tem de si e a imagem ideal. O sujeito se vê em uma situação onde imagina que todos verão essa quebra. Devido a seu caráter cruel e castrador, a vergonha atua de modo a levá-lo a tentativas de inibir qualquer atividade que possa revelar essa falha.

A vergonha é sentimento multifacetado. Aparece com diferentes intensidades, podendo manifestar-se como simples pudor até atingir um grau de sofrimento intenso. Pode ser circunstancial ou existencial. A reação à vergonha, a depender de sua intensidade, pode causar desde bloqueios pontuais até impossibilidades de interação social.

Cabe a nós, psicanalistas, incluirmos em nosso trabalho uma escuta mais atenta para o sentimento de vergonha. Isto pode funcionar como porta de entrada para questões de ordem narcísica, iluminando aspectos do funcionamento psíquico do paciente que, muitas vezes, ficam protegidos devido a uma defesa mais ou menos intensa que leva ao isolamento e à inibição.

Mas não podemos esquecer que a vergonha é sentimento básico do ser humano, regulador dos vínculos sociais e mantenedor da dignidade.

*Marina Kon Bilenky é psicanalista e membro associado da SBPSP.

Psicanálise e Educação: construção de conhecimento, subjetividade e performance

Qual as interfaces entre Psicanálise e Educação? Em que pontos elas se encontram? Como permitir que a realidade de fantasias da criança não se perca diante da necessidade de aquisição de conhecimento científico? A lógica racional é incompatível com o universo da imaginação infantil?

De perspectivas diferentes, a Educação e a Psicanálise se ocupam do desenvolvimento humano e o diálogo entre as duas áreas tem se mostrado cada vez mais profícuo. A construção do conhecimento e a constituição subjetiva são processos que se comunicam, ao longo do crescimento. Daí a importância de refletirmos sobre essa interface.

Essas e outras questões serão debatidas na 4ª Jornada de Psicanálise e Educação, no dia de 27 de setembro, na sede da SBPSP.

Para quem quiser saber mais, leia abaixo a ótima conversa que tivemos com as psicanalistas e membros da SBPSP, Heloisa Ditolvo, Marina Bilenky e Silvia Deroualle, coordenadoras da Jornada.

1 – Por que uma jornada que reúne os temas psicanálise e educação?

A psicanálise e a educação são áreas de estudo que abordam questões que possuem intersecções. Ambas se interessam pelo desenvolvimento humano, partem de diferentes  perspectivas, porém dialogam muito bem, por entenderem a necessidade de se cuidar e de se criar condições favoráveis para que este desenvolvimento aconteça.

2 – Quais as principais interfaces entre ambas?

A escola está ocupada com a construção do conhecimento, formação da cidadania e da ética, de um ser social e criativo. A escola funciona como mecanismo de transmissão da cultura.

A psicanálise vai criar um campo de busca de conhecimento do sujeito, de suas demandas pessoais. Para isto, precisa pensar o indivíduo dentro de sua realidade, interna, e da realidade social, externa, para que possa instrumentalizar esse indivíduo portador dessa cultura, a ser reflexivo, crítico, pleno de suas potências, criativo.

Partindo de direções opostas, ambas procuram entender e trabalhar com o ser humano que vive dentro de uma cultura que lhe é própria.

3 – Do ponto de vista da psicanálise, como se dá a construção do conhecimento?

Diante de uma novidade, o sujeito passa por um processo de desestabilização. A partir desse desequilíbrio, ele precisará elaborar a nova informação, integrá-la ao conhecimento que já havia adquirido, atingindo uma nova estabilização, agora transformada e enriquecida.
Para que esse processo ocorra, o sujeito, num primeiro momento, precisa suportar manter-se num estado de não saber para, em seguida, encontrar um sentido e um lugar para este novo conteúdo, que passa a fazer parte do conjunto de conhecimentos que ele possui.
As informações recebidas precisam vir acompanhadas de significado para quem as recebe, e a partir daí se vinculam afetivamente ao sujeito. Esse patrimônio vai sendo constituído a partir de permanentes rupturas dos antigos saberes.

4 – Como ensinar uma criança a pensar, do ponto de vista da lógica racional, sem que ela perca aquilo que é da ordem da imaginação e do sonho?

Até mais ou menos 7 anos, a criança vive num mundo de fantasias. É a partir de sua imaginação, sonhos, brincadeiras e projetos que ela experimenta o mundo e vai construindo a realidade. O adulto deve aceitar o funcionamento da criança, partir da lógica que existe na fantasia para ensinar a lógica racional. Ao invés de dizer que algo é “besteira” ou errado, tentar compreender qual a lógica que norteou aquela resposta, para então apresentar outras possibilidades.

Por exemplo: uma criança, ao executar sua tarefa de escola em que lhe foi pedido desenhar 3 frutas diferentes na tigela, desenha 7 frutas.  A professora pode garantir o conhecimento aritmético de unidades, e também descobrir junto com seu aluno qual o sentido das outras 4 frutas que ele espontaneamente acrescentou à tarefa pedida. Dessa maneira, pode perceber se há ou não alguma outra lógica na resposta da criança, sem a necessidade de taxar a resposta de errada sem investigação.

5 – É possível conciliar o pensamento infantil com o conhecimento científico?

Quando Isaac Newton descobriu como a refração da luz branca solar incidindo na  atmosfera úmida provoca o arco-íris, não retirou a surpresa e o encanto que nos provoca a visão das cores que se descortinam diante de nossos olhos. Nem tampouco desfez  a fantasia de que o arco-íris ao tocar o chão, indica o local exato de onde se encontra um baú repleto de tesouros.

6 – Como evitar “enquadrar” o pensamento infantil e perder suas melhores qualidades?

Evitando dar  regras que formatem o curso do pensamento e taxar de erradas respostas que não se enquadram ao modelo de forma imediata.

Meltzer, psicanalista, afirma que nossa mente tem a função de gerar metáforas para podermos escrever a poesia e pintar o quadro de um mundo repleto de significados das nossas paixões relacionadas às belezas do mundo.
Essas metáforas são essenciais para o pensamento, são a expressão do desenvolvimento do simbólico, das associações, matéria prima para o aumento da capacidade de elaboração e consequente compreensão do mundo.

7 – Como manter e até incentivar a narrativa infantil e conciliá-la com a necessidade do discurso científico?

Garantindo situações que favoreçam a liberdade de perguntar, de exercer a curiosidade. É essencial sermos sujeitos da nossa experiência. Há que se garantir o projeto, a experimentação, o engano, a dúvida, o erro e a reparação, para podermos nos lançar em outras experiências. Quando somos autorizados a expressar ideias e a refletir, quando sentimos que nosso pensamento tem valor, continuamos formulando novas perguntas e demonstrando interesse em aprender novas formas de pensamento, inclusive o discurso científico.

A arte, o sonho e a fantasia são elementos que enriquecem a concepção do humano, ilumina e dá valiosas contribuições no sentido de suportarmos o impacto do cotidiano da vida. Quando isto está minimamente garantido, o indivíduo tem condições intelectuais e emocionais de lançar-se na aventura do conhecimento científico.

8 – Como conciliar a construção adequada de conhecimento com as necessidades do mundo atual, que exige, de todos, altas performances?

Será que podemos conciliar estas realidades? A exigência de eficiência a toda prova vai na contramão da construção de conhecimento tal como viemos tratando até aqui. A velocidade dos acontecimentos, a demanda por absorver inúmeras e tão variadas informações, objetivo praticamente impossível de ser cumprido, nos coloca num estado de insatisfação crônica que nos leva ao sentimento de estarmos permanentemente devendo ou de sermos insuficientes.

Nossa natureza carece de tempo e espaço para sentirmos, pensarmos, e refletirmos para compreendermos o que se passa dentro e fora de cada um de nós.

Talvez a saída para esse impasse seja uma reflexão profunda a respeito de  qual aspecto deve ser priorizado em cada etapa do processo educacional.

9 – O que dizer do alto índice de medicalização que existe entre as crianças e os jovens atualmente?

A medicalização precisa ser entendida como uma ferramenta auxiliar e não como a solução de todos os problemas e dificuldades que precisam ser enfrentados.

Em recente pesquisa constatou-se que, nos últimos 3 anos, houve um aumento de 775% no uso de Ritalina para crianças  e adolescentes em São Paulo. Precisamos analisar estes números para pensar se estamos nos defrontando com uma atitude de banalização da medicação ou se isso se deve à melhoria nos diagnósticos do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Esta é uma das perguntas que esperamos poder responder durante a Jornada.

Heloisa Helena Sitrângulo Ditolvo é psicanalista e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)

Marina Kon Bilenky é psicanalista e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) 

Silvia Martinelli Deroualle é psicanalista e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)