Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

O Estranho, inconfidências

Daniel Delouya

O XXVII Congresso Brasileiro de Psicanálise que acontecerá entre os dias 19 e 22 deste mês homenageia, em seu tema, o centenário da publicação do texto de Freud Unheimliche, e o associa, de outro, com a inconfidência mineira, história marcante da região onde o congresso se realiza este ano. Curioso, porém, o elo entre uma dimensão estética do mundo psíquico e o universo político. Seria um acaso? As circunstâncias da redação deste ensaio são eminentemente políticas: ocorre no final de 1912, com a eclosão da crise com Jung, após Freud desmaiar na sua presença. Um ataque parecido, e no mesmo local, acometeu Freud quando da ruptura definitiva com Fliess, em 1904, na sequência da qual sofreu o distúrbio de despersonalização em Acrópoles, que elaborara durante três décadas antes de publicá-lo em 1936. Já nesse período, em 1913, o estranho surge sob sua pena n’O tema dos três cofrinhos, no Totem e Tabu e no Moisés de Michelangelo. Nesses delineia-se a vivência do estranho pela ameaça narcísica de assassinato e aniquilamento associados ao destronamento do lugar de poder, às inconfidências. O termo Unheimliche significa aquilo que não é de casa, não é familiar e, na trama do rei Lear, essa inconfidência em relação ao pai (do complexo de castração)  é  remontado a posteriori à deposição original da primeira casa, do ventre materno e de sua restauração sucessiva nos cuidados maternos, no leito da mulher que esposamos e no retorno final, à morte, para a terra mãe, pela filha fiel Cordélia. Esse caminho, que o analista acompanha, desde o nascimento e até a inserção no mundo dos homens através das coordenadas propostas pela lei paterna é uma trajetória política penosa de diferenciação, de inconfidência, adquirindo um lugar na pólis do mundo humano. A escuta e o cuidado tanto do sujeito, assim como da cultura que o abriga, se faz pelo analista e pela psicanálise dentro de uma dimensão estética do sentir dessa dialética entre o familiar e não familiar, entre a confidência e a inconfidência. Heimliche-Unhemliche é o norteador, bússola da escuta psicanalítica, desde as nuances mais suteis do discurso do que destoa e desponta do recalcado, passando por aqueles inquietantes que nos desnorteiam e até os abalos das manifestações lúgubres francamente estranhos, de susto e despersonalização que acometem a dupla, o analista e o sujeito em relação a si, ao seu entorno e à cultura que habita. Essas espécies de vivências demarcam as agitações do conflito do eu com o seu recalcado, e os narcísicos entre o eu e o seu entorno. Em uma das últimas menções do estranho, Freud nos permite iluminar as turbulências do cenário atual, nacional e internacional. O fanatismo como o retorno da salvaguarda primária diante de nosso desamparo ao cair na vida, fora do recinto materno. Trata-se deste poder hipnótico responsável pela criação da massa primordial, do sujeito com o outro, o grande. Esse poder carrega, afirma Freud, o efeito estético enigmático, misterioso, unheimlich, nos remetendo, forçosamente, ao recalcado, o mais familiar do primeiro laço humano, do duplo constitutivo da horda primitiva (Freud, 1921). Tal fuga da pólis, da diferenciação e do convívio democrático em direção ao fanatismo, tem reincidindo no cenário ocidental com o colapso, o terceiro desde 1850, da promessa ilusória do neoliberalismo de independência econômica e de soberania da razão e da moral. O unheimliche da psicanálise o desmente!

Daniel Delouya é membro com funções didáticas da SBPSP e autor de vários livros, entre os quais Torções na razão freudiana (2 ed. pela Blucher, 2019)

Há 90 anos, um evento social em São Paulo colocava a psicanálise em evidência

O dia 24 de novembro de 1927 foi importante para o movimento psicanalítico no Brasil. Há exatos 90 anos, Durval Marcondes, médico paulista considerado um dos precursores da psicanálise no Brasil, organizava um evento na Rua Doutor Villa Nova, sede do Colégio Rio Branco, em São Paulo, reunindo intelectuais, artistas e políticos para a fundação de uma associação de psicanálise no Brasil.

Durval, ainda estudante da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, teve o primeiro contato com a psicanálise ao ler um artigo do neurologista Francisco Franco da Rocha, publicado no jornal O Estado de S. Paulo, em 1919, intitulado “Do Delírio em Geral”. O fascínio com as premissas da psicanálise e as ideias de Freud foi imediato. Não só Durval Marcondes, mas outros grupos sentiram-se tocados pelos métodos desenvolvidos pelo médico vienense.

A teoria de Freud cruzou o oceano e na década de 20 começou a chacoalhar a sociedade paulistana e o resto do Brasil. Em 1920, Franco da Rocha publica “O Pansexualismo na Doutrina de Freud”. Os artistas organizadores da Semana de Arte Moderna de 1922, Mário de Andrade e Oswald de Andrade, a essa altura já se inspiravam clara e fortemente nas teorias freudianas. Em 1925, a publicação mineira “A Revista”, editada por Carlos Drummond de Andrade, trouxe um artigo assinado por Iago Pimentel chamado “Sobre a psycho-analyse”, baseado em uma série de conferências feitas por Freud na Universidade de Clark, nos Estados Unidos, em 1909. O artigo trazia as bases da teoria freudiana:

“Freud tem uma concepção dynamica da vida psychica, que elle considera como um  systema em evolução de forças antagonistas ou componentes; só uma pequena parte dessas forças constitui o consciente do indivíduo, em oposição, a outra parte, o inconsciente, composto de elementos muito mais numerosos e, sobretudo, muito mais activos no determinismo da atividade mental”.

Grupo de estudos

O fato é que, apesar do evento de 1927 organizado por Durval Marcondes ser considerado um marco do movimento psicanalítico em São Paulo, ele não significa a formação da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo ainda, mas era o seu embrião. Durante alguns anos, esse grupo que reunia nomes como Franco da Rocha, Osório César, Raul Briquet, Pedro de Alcântara Marcondes Machado, Menotti Del Picchia, Cândido Motta Filho e Lourenço Filho, promoveu frequentes conferências sobre o tema, bastante noticiadas pelos jornais da época. Em 1928, Durval lança a Revista Brasileira de Psychanalise e envia a Freud um exemplar. O pai da psicanálise lhe devolve uma carta de agradecimento com votos de que um fecundo futuro lhe seja reservado. Nesse primeiro momento, no entanto, a publicação tem vida curta, voltando a ser publicada ininterruptamente a partir de 1967.

Em determinado momento da década de 30, o próprio Durval chega à conclusão de que a formação de um psicanalista exigia bem mais que o estudo da obra de Freud. Ele havia lido uma publicação sobre o modelo de formação psicanalítica do Instituto de Piscanálise de Berlim, baseado em análise didática, supervisão de casos clínicos e cursos teóricos-técnicos. A partir daí ele começa a articular com Ernest Jones a vinda de um profissional para o Brasil e chega ao nome de Adelheid Koch, didata formada pela Sociedade Psicanalítica de Berlim.

Adelheid chega a São Paulo em 1936, dedica-se aos estudos do português durante um ano e então inicia o atendimento de pacientes. Havia sido formado um grupo de estudos com potenciais candidatos à formação. Além de Durval, participavam do grupo Virgínia Leone Bicudo, Flavio Dias, Darcy Mendonça Uchoa e Frank Philips.

Em 1943, Adelheid Koch solicita à International Psychoanalytical Association (IPA) o reconhecimento oficial das atividades desse grupo. A resposta positiva é datada de 9 de dezembro de 1943, mas só chega ao Brasil em 1944. O grupo recebe o nome de Grupo Pshychoanalytico de São Paulo e o seu reconhecimento foi um importante passo na direção da institucionalização da psicanálise no Brasil. O presidente nesse momento será Durval Marcondes. Adelheid Koch assume a comissão de ensino; Frank Philips é o secretário e Virgínia Bicudo tesoureira.

Na década de 50, Adelheid Koch traz Theon Spanudis, médico turco com formação feita na Associação Psicanalítica de Viena para ajudá-la com a formação. Em 1951, em Amsterdã, no XVII Congresso Internacional da IPA, Adelheid Koch e sua analisanda Lygia Alcântara do Amaral ouvem a ratificação da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Sâo Paulo, como membro da IPA. As bases sólidas e a força desse grupo que vem se estruturando desde 1927 são elementos fundamentais para a consistência, o respeito e o reconhecimento social que a SBPSP tem como instituição.

Nota oficial da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

A Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, através de sua diretoria, vem esclarecer à população que é contrária às propostas que visam qualquer tipo de cura da orientação sexual das  pessoas. Consideramos que tais propostas revelam posturas discriminatórias e ideológicas alheias à clínica e ao pensamento psicanalíticos.

Sigmund Freud e seus continuadores foram pioneiros em reconhecer a diversidade do desejo humano abrindo espaço para  declarações como a da OMS, que descarta a tese de que a orientação sexual dos indivíduos esteja relacionada a uma doença.

O psicanalista, através da sua escuta clínica, promove a aproximação à singularidade do desejo de quem o procura, acolhe e  busca compreender as fontes da sua angústia e sofrimento psíquico. Propicia a construção de um saber próprio que diz respeito a cada indivíduo e que contribui, na medida das possibilidades, para um viver mais livre e criativo.  Fiéis a esta ética  psicanalítica não cabe a nós, psicanalistas, adotar qualquer postura normatizadora em relação ao comportamento ou à sexualidade de nossos pacientes.

Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo