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O ANALISTA DESCONCERTADO

*Silvana Rea

Em 1883, o jovem Freud escreve à sua então noiva, Martha Bernays: “Um fracasso em uma investigação estimula a criatividade. Cria um livre fluxo de associações, faz surgir uma ideia atrás de outra, ao passo que uma vez assumido o êxito, aparece com ele um estreitamento e torpor mental que obriga a retroceder ao estabelecido e impede uma nova combinação” (Caparrós, 1997, p. 309).

Poucos anos à frente, ele se desconcerta com as ideias de Charcot, em Salpêtrière. E no prefácio à tradução das conferências sobre as doenças do sistema nervoso, ele afirma que só pôde se dedicar a esta tarefa “após superar minha perplexidade inicial diante das novas descobertas de Charcot, e depois que aprendi a avaliar a sua grande importância…” (Freud, 1886/1969, p.53).

Podemos perceber que Freud considerou o desconcerto como algo útil por toda a sua vida. De fato, foi a sua capacidade de se surpreender com aquilo que escapa ao estabelecido, como os lapsos de memória, a troca de palavras, os sonhos, que permitiu que ele construísse a psicanálise. Dando atenção ao equívoco e ao inusitado, que neles encontrou o indício de que existe, no homem, uma comunicação que se subordina a outra ordem – o inconsciente conquista o estatuto de alteridade, com leis e lógica próprias.

Por sua vez, a psicanálise desconcertou a comunidade cientifica da época, ao abalar as convicções do século das luzes e sua defesa da racionalidade humana. Com ela, o homem racional e unitário deu lugar ao homem fendido do inconsciente. Algo que, para certa surpresa, ainda hoje desconcerta setores do conhecimento científico.

A Psicanálise supõe o desconcerto. O método psicanalítico leva a que o paciente se desconcerte de suas percepções cristalizadas, para que surja o novo. Mas não isenta o analista, porque o exercício clínico o convida a confrontar a alteridade do inconsciente nele mesmo e na relação com o paciente, que chega com suas questões e com sua proposta transferencial. E, como o encontro com o outro é sempre traumático, em algum momento algo desconcertante quebra as suas certezas, destrói a sensação de êxito e, por consequência, estimula a sua criatividade.

São muitas as situações que podem deixar o analista desconcertado. Um engano, uma provocação, uma quebra de setting. Pode ser um sobressalto que excede a sua possibilidade de representação. Ou o impacto da surpresa, do estranho que surge no familiar das sessões com determinado paciente. Algo que o leva a um acting-out. Ou o analista age guiado por um pensamento não pensado que só pode ser organizado a posteriori, muitas vezes depois da conversa com um colega, ou, talvez, de uma supervisão.

Do mesmo modo, o analista pode se desconcertar quando recebe seu jornal diário e o abre à leitura. Certos fenômenos nacionais e mundiais provocam a experiência de espanto, uma surpresa por muitas vezes desconfortável. Como compreender este choque em si? Como, pela psicanálise, compreender o mundo?

Qualquer analista já viveu algumas destas situações. São aquelas que não se aquietam; voltam à lembrança recorrentemente pois o espanto que elas causam produz uma memória que permanece incômoda (um fracasso?), exigindo alguma elaboração. Que nos exigem a ir além do estabelecido, criando novas combinações, como nas palavras de Freud. São oportunidades para a reflexão e a teorização psicanalítica.

O desconcerto é fundamental. De fato, na visão aristotélica, a origem e a evolução do pensamento dá-se a partir do espanto, momento no qual aquilo que era evidente torna-se inédito e incompreensível. O sentido da perplexidade leva a suspensão de certezas, incita o querer conhecer, exige uma reorganização do saber. Aqui o analista é aparentado do filósofo. Pois, como diz Kristeva (2000), é fundamental a qualquer psicanalista em seu exercício, a experiência de uma surpresa desconhecida e a posterior compreensão desse choque.  Eu completaria, fundamental para o analista em seu exercício e na vida.

Referências

Caparrós, N. (1997). Correspondencia de Sigmund Freud. Tomo I. Espanha. Biblioteca Nueva.

Freud, S. (1886/1969). “Prefácio à tradução das conferências sobre as doenças do sistema nervoso, de Charcot”. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Vol.II. Rio de Janeiro. Imago.

Kristeva, J. (2000). Sentido e contrassenso da revolta. Rio de Janeiro. Rocco.

Silvana Rea é Diretora Científica da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Mestre e Doutora em Psicologia da Arte pela Universidade de São Paulo.

 

Imagem: Olaf Hajek