sexualidade

Vamos conversar

*Any Trajber Waisbich

“Ver a representação da mulher de forma tão exposta e sensual pode parecer inadequada na atualidade, se considerarmos os movimentos feministas… Entretanto é necessário considerar a produção artística a partir de seu contexto, tomando cuidado quando fazemos análises do passado a partir de critérios do presente.”

José Augusto Ribeiro,  curador da exposição “No subúrbio da modernidade – Di Cavalcante 120 anos”. Pinacoteca do Estado de São Paulo, Set/2017-Jan/2018

 

Esta exposição poderia ser interditada a menores, ou nem ocorrer. Vivemos numa época perigosa para as liberdades.

Como psicanalista e mulher não me calo frente a este conflito, esta polêmica a respeito de assédio, estupro e violência contra a mulher nos mais diversos ambientes perpetuados por homens poderosos e nem tanto. Deixo claro que o poder exercido por um indivíduo sobre outro é prejudicial e possui consequências inimagináveis naquele que sofre maus tratos. Muitas vezes, o poder manifesta-se de formas violentas ou criminosas.

Falo sim de um lugar de privilégio. Sou branca, nasci numa metrópole, estudei em colégio público quando entrar neles era uma façanha para poucos. Estudei em uma Universidade de renome e me tornei psicanalista. Não vivi na pele encoxamentos diários e nem fui insultada por vestir o que achava bonito e o outro poderia ver como provocativo. Por não ser negra, pobre e não morar na periferia sempre andei no contrafluxo, este entendido não só literalmente. Locomovia-me desde muito cedo por meio de transportes públicos e fui encoxada, várias vezes.

Lembro-me ainda de um episódio ocorrido quando tinha uns 10 anos. Estava eu andando na rua onde nasci ao encontro de uma amiga quando um Fusca parou e pensei que queria alguma informação. O motorista abriu a porta do passageiro e vi a braguilha de sua calça aberta e um enorme pinto do lado de fora da cueca. Bom, acredito que vi, acho que era grande e o que me ficou disso foi uma enorme curiosidade e susto. Lembro-me de sair correndo. Como bem sabemos, a memória é fugidia e se atualiza constantemente.

Ao ler o artigo de Lilia Schwarcz no Jornal NEXO no final do ano passado, a respeito de sua experiência ao ser abordada por um homem no ônibus, lhe escrevi contando minha história. Respondeu-me dizendo que muitas mulheres estavam se pronunciando sobre as suas histórias secretas de violência quando adolescentes. Ao contrário de culpa, tema abordado pela autora, o que senti foi algo mais mundano e erótico. Espanto sim, interesse nascido do meu corpo que dizia algo que desconhecia com tanta intensidade. Não falei disto antes, vejo agora, por conta das emoções que aquele momento me proporcionou. Culpa não estava no cardápio.

Lembremos que, como dizia Freud, já em janeiro de 1905 em seu artigo “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”, (In Sigmund Freud, Edição Standart Brasieleira das obras completas de Sigmund Freud. Vol. XII. Pg. 149-159. Rio de Janeiro. Editora Imago. : Editora Imago. Trabalho original de 1912) que o desejo é perverso, infantil e polimorfo. E vai adiante, teoriza a partir da prática que a única forma de termos acesso a ele é por intermédio de fantasias, sonhos e atos falhos além é claro, dos chistes e jogos de palavras. Fantasias não são controladas por decretos, elas simplesmente ocorrem e são poderosas, disruptivas e causam desconforto no indivíduo. Invadir o território do outro tende a ser visto como invasivo.

Agora, a Psicanálise é transgressora, ela questiona o sujeito e o coloca frente a frente com seus desejos, pulsões e tudo aquilo que ignora. A Psicanálise não explica nada, ela intermedeia, por meio de seu Método, o contato do indivíduo consigo mesmo.

Como profissional, trabalhei na periferia com homens e mulheres excluídos que me viam com desconfiança e descrédito. Várias vezes fui questionada a respeito de minha função e da transformação que poderia surgir daqueles encontros em grupos, discutindo questões que não me eram familiares por serem eventuais. Pela primeira vez, deparei-me com questões sociais importantes de difícil solução e sem respostas fáceis. Aliás, respostas simples não existem.

Kaes, psicanalista francês preocupado com o lugar do subjetivo no sujeito e das relações intersubjetivas que formam o indivíduo, auxilia-me a trabalhar o que é singular a cada um, daquilo que é dado a partir da relação, do contexto social e principalmente das Ideologias por trás destas construções. (Kaes, R.; Um singular Plural, 2011, tradução Rouanet, L.P. Edições Loyola).

Longe de defender abusos, compartilho com intelectuais francesas o desconforto de se discutir algo tão radical com esta frugalidade de slogans assistidos por milhões de pessoas na entrega do Globo de Ouro. Manifestações referendadas por feministas mundo afora. Como apontou Pedro Diniz na Folha de S. Paulo, o preto nada básico deu lugar aos troféus que artistas empunharam e mostraram com glamour; acontece que eram pessoas, ativistas negras, representantes de minorias e que serão esquecidas na próxima onda.

No livro “A Violência Familiar” (Editora Edgar Blucher, 2016), Susana e Malvina Muszkat trabalharam o lugar da violência contra o masculino nas comunidades carentes e o desmembramento desta função e seus desdobramentos. Não posso deixar de pensar no sentido de fatos como estes virem à tona neste momento e desta forma.  O que o debate feminista tem a dizer sobre a violência de gênero contra homens?

O mundo do cinema é conhecido pelos seus abusos, contaram-me de Oprah ter saído numa ou em muitas fotos com o produtor Weinstein e ao lado de garotinhas ditas indefesas. Aí estava tudo bem, pode-se alegar sempre que não sabia da coerção e da força daquele poder. Estes atos de macho predador sempre foram utilizados como forma de submissão. E com isso não menosprezo a elucidação tardia, ela veio para ficar.

Estamos aqui numa área controversa: por um lado a sociedade civil exige um comportamento adequado e civilizatório de seus membros, como nos lembram  sociólogos e antropólogos em suas pesquisas; por outro o que dizer de todas estas regras que estão em voga hoje em dia? Homens execrados e considerados inimigos.

Regras estas que, do meu ponto de vista, servem para apartar, cercear e controlar de maneira perniciosa o encontro de seres humanos. Não devemos nos eximir de conversar sobre as leis que, por exemplo, vigoram na França onde a burca, vestimenta feminina em sinal de recato, é proibida nos locais públicos e com isso inviabiliza a liberdade de ir e vir às mulheres mulçumanas.

Não nos esqueçamos de que a Suécia é um dos países onde o suicídio é um dos mais altos do mundo e neste mesmo país pode passar uma lei onde tudo que for considerado sexual tem que ser consentido e falado entre as partes. Onde vai parar o imaginário? Sedução não deveria ser confundida com agressão.

Onde ficará o erotismo? Onde se alocará a sensualidade? E o véu que encobre e desvela os sentimentos e os relacionamentos? Toda vez que um homem se colocar na posição de demandante será interpretado com assombro e desconfiança? E quando mulheres quiserem se manifestar corporalmente e presencialmente seus desejos mais recônditos, terão espaço para se expressarem? É possível conciliar as demandas por relações menos desiguais com este erotismo e sensualidade?

Finalizando, seria possível avançarmos no debate e na prática, para uma conciliação entre estes mundos? Poderia a Psicanálise aportar este tipo de insumo? Acredito que sim, esta é a função da Psicanálise fora das fronteiras seguras para ela.

 

Any Trajber Waisbich é psicanalista da SBPSP, analista de adolescentes e adultos, membro efetivo, coordenadora de seminário temático sobre Psicanálise de Grupo no Instituto de Psicanálise. Secretária da diretoria, cargo eletivo.

*Foto: VejaSP/ “Bordel”, de Di Cavalcanti, integra a mostra “No subúrbio da modernidade – Di Cavalcante 120 anos”.

 

 

Bissexualidade, narcisismo, identidade e a escuta psicanalítica do nosso tempo

Patrícia Cabianca Gazire

Sobre a bissexualidade

A incerteza de ser homem ou mulher, nenhum dos dois, ou ambos, é própria das neuroses estudadas por Freud, histeria ou neurose obsessiva. A incerteza expande-se, porém, e ultrapassa a questão das neuroses se tomamos o ser humano no sentido ontológico e nos propomos a pensar questões atuais que se impõem aos psicanalistas, como a identidade de gênero, por exemplo.

O tema da diferença sexual colocou-se como o enigma fundamental e constitutivo do sujeito freudiano. Enigma esse que impulsiona o sujeito a uma ou mais “escolhas” sexuais que, em seguida, marcam sua identidade (sexual ou de gênero). Escolha, aqui, não deve ser entendida no sentido intelectual, mas, antes, envolvendo uma série de processos inconscientes que conduzem o sujeito a uma ou outra direção na vida emocional.

Tudo começa com a bissexualidade psíquica. Ao passar pelo processo de castração ou complexo de Édipo a pessoa vive uma série de experiências traumatizantes em que intervém um elemento de perda, de separação em relação a um objeto amado. Essa “falta” impele o sujeito a assumir seu desejo. Mas, nesse momento, ele é lançado diante de um impasse que nunca se conclui: a elaboração da bissexualidade originária.

Há duas maneiras de compreender o complexo de Édipo. Uma delas é a forma simples, baseada na experiência do menino, que nutre sentimentos ambivalentes (de amor e ódio) pelo pai, já que tem desejos incestuosos pela mãe. Nesse processo, as semelhanças e diferenças entre masculino e feminino deixam de ser atribuídas à presença ou ausência do pênis. Ao pênis é conferido o valor de símbolo e, tanto para o menino, como para a menina, a questão passa a ser a ausência ou presença não do órgão sexual anatômico, mas do falo, que simboliza poder, fertilidade, autoridade, etc. Da mesma forma, a ameaça de castração não é o medo concreto de ter o pênis amputado, mas ocorre no plano da fantasia, relacionando-se à função de interdição da realização do desejo.

A segunda maneira de entender o complexo de Édipo é pensá-lo como completo, não partindo do menino, nem da menina, mas da bissexualidade. A ideia é que o complexo de Édipo é bissexual, na medida em que, seja o sujeito biologicamente menino ou menina, todas as relações são perfeitamente possíveis com as figuras parentais no plano da fantasia. Portanto, anatomia não é destino, todo ser humano tem a possibilidade de passear livremente pelo masculino e feminino quando nos afastamos do sexo – ligado à atividade e à satisfação das necessidades fisiológicas – e entramos no registro do sexual – entendido aqui como o pulsional, uma série de excitações que envolvem todo o corpo, desde a infância.

A possibilidade elaborar o complexo de Édipo e de atravessar a “crise” da castração – ou seja, de abdicar de desejos incestuosos, de ter esses desejos interditados e de, com isso, incarnar a função da lei e da ordem necessárias para a vida em civilização –, essa possibilidade só é viável na confrontação com a bissexualidade. E essa confrontação, e a concomitante elaboração da castração produzem um impacto direto no narcisismo, pois perder o pênis – ou falo – põe em perigo a imagem do eu de que a criança dispõe. Muitas vezes, é por meio de um narcisismo exacerbado (posturas onipotentes, arrogância e intransigência em relação ao diferente) que o sujeito se defende da angústia de castração deflagrada diante da necessidade de transformação da bissexualidade originária.

Ou seja: a bissexualidade originária expressa-se por meio do sentimento de ambivalência afetiva (amor e ódio por todos os objetos), sentimento este que tem de ser transformado para que se institua a criação de laços sociais entre as pessoas. Isso implica renúncia ao narcisismo, à onipotência, e aceitação do outro como separado do eu.

Bissexualidade não é polimorfismo. A ideia de bissexualidade parte do pressuposto de que a vida psicossexual ignora a contradição. A bissexualidade não nega que existam dois sexos, ela os acumula. A bissexualidade não reconhece a diferença entre os sexos, ela desempenha as mesmas. O indivíduo que fantasia a noite sexual na cena primária se identifica com os dois protagonistas, ele é um E o outro.

Alguém pode viver a bissexualidade com toda liberdade: ser homem e mulher, em todas as posições identificatórias que os investimentos pulsionais, edípicos ou não, permitem. Essa aparente plasticidade psíquica não impede, no entanto, que a pessoa se sinta oprimida por essa mesma “escolha” que é, na verdade, expressão do determinismo inconsciente. No inconsciente, não há certo, nem errado, nem masculino e feminino; as leis que o regem não são movidas pelas regras da moral e da ética. Quando o inconsciente se faz notar, em um tempo que não pode ser compreendido senão à posteriori, como um segundo tempo, o conflito já está fixado, o caminho do desejo já está traçado e o sintoma já está constituído. Portanto, não há, na verdade, possibilidade de “escolha”. Em sua “escolha”, o sujeito se vê preso, “levado a…”. E precisa poder vir à análise tratar do seu impasse essencial: não há prazer sem desprazer, não há realização de desejo sem sintoma, não há criação sem destrutividade, não há vida psíquica sem conflito, não há conflito sem inconsciente. É isso que nos propomos a escutar como psicanalistas.

 

Um pouco mais sobre o narcisismo

A saída narcísica exacerbada acima referida é resultante do enfraquecimento do eu e não de seu amadurecimento e equilíbrio. O indivíduo “muito” narcísico é aquele que, diante de situações que ameaçam suas certezas e crenças, ou quando perde algo ou alguém, sente-se ameaçado, não tolerando outra saída que não a onipotência: o conhecimento absoluto de si e do outro, o conhecimento absoluto de modo geral, de tudo e todos, o enrijecimento em uma determinada posição social, com posturas arrogantes e intransigentes. A onipotência pode se manifestar ao se querer SER os dois sexos. Minha identidade sexual pode resultar da imagem concretizada do desejo de quem me “olha”: se meu namorado é homossexual, sou homem; mas se meu namorado gostar de mulheres, sou mulher.

Há, aqui, uma relação direta com a instância psíquica que costumamos chamar de supereu – as censura ou consciência moral, o “juiz”. O supereu, herdeiro do complexo de Édipo, forma-se a partir das identificações do eu com a figura paterna de autoridade que são projetadas no exterior – nas leis, na cultura, nos líderes religiosos ou políticos. Se o eu é mal formado ou apresenta problemas em suas fronteiras, o supereu não adquire função recalcante dos conteúdos psíquicos. O funcionamento por meio do recalque seria a saída “amorosa”, construtiva, não narcísica do complexo de Édipo, em que o sujeito se relaciona com líderes que ao mesmo tempo protegem e sancionam, garantindo a convivência em grupo e laços sociais saudáveis. Ao contrário, quando as identificações do supereu fixam-se em imagos fracas, porosas, há um declínio das funções da lei, dos limites e das possibilidades sublimatórias. Os indivíduos ficam presos em uma posição de submissão e obediência cegas a figuras autoritárias – um exemplo disso são os líderes dos regimes totalitários que levam seus discípulos a práticas cruéis sem a possibilidade de discriminação e questionamento. Em termos teóricos, o regime econômico das pulsões entra em uma espécie de colapso e, sem a proteção do recalque, passa a funcionar por meio de intensas descargas, observadas em comportamentos como uso de drogas, automutilação, tentativas de suicídio, atitudes extremadas de amor e ódio etc.

Estamos longe de pensar que “os narcisistas não sabem amar”, afirmação muitas vezes encontrada em discussões envolvendo a ambivalência sexual ou uma indefinição na escolha de gênero. Lembramos que entre um “narcisismo positivo”, ligado à vida e ao desenvolvimento das potencialidades individuais, e um “narcisismo negativo” próprio de comportamentos autodestrutivos, há uma série de possibilidades de amor. Encontramos muitas pessoas cuja bissexualidade não impede de manterem relações afetivas conjugais ao longo de muito tempo.

 

Sobre a questão da identidade

Nós, psicanalistas, com frequência discutimos a questão da identidade imersos numa cultura em que impera o eu. Não podemos esquecer que tanto as “múltiplas identificações”, como a “bissexualidade psíquica”, quanto às divisões da tópica psíquica (eu, id e supereu) recusam toda concepção de cunho identitário. Lembremos ainda que, em Freud, a palavra “identidade” é encontrada nos processos de formação dos sonhos. “Identidade” está a serviço de algo que ainda vai se realizar, algo que se encontra “em processo”. Portanto, a identidade é mais o objeto de uma busca do que a definição de um estado. Talvez seja essa uma proposta de como posicionar nossa escuta na sala de análise, quando nos propomos a tratar pacientes imersos na dissolução/desconstrução da “identidade psíquica”.

 

Referências bibliográficas

André GREEN (1983) Narcisismo de vida, narcisismo de morte, trad. Cláudia Berliner, São Paulo:Escuta, 1988.

Jacques LACAN (1938) “Os complexos familiares na formação do indivíduo” trad. Vera Ribeiro et al, in Outros escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, pp. 29-90.

Sigmund FREUD (1908)“As fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade”, Obras Completas, trad. Paulo César de Souza, São Paulo: Cia das Letras, volume 9, 2013.

__________ (1923) ),“A organização genital infantil: uma interpolação na teoria da sexualidade”. Edição Standard Brasileira das Obras Completas,volume XIX, Rio de Janeiro: Imago, 1969.

_________________(1923) “O Eu e o id”, Obras Completas, trad. Paulo César de Souza, São Paulo: Cia das Letras, vol. 16,2011.

________________ (1924), “A dissolução do Complexo de Édipo”, Obras Completas, trad. Paulo César deSouza, São Paulo: Cia das Letras, vol. 16,2011

________________(1925-1931) “Algumas consequências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos”, Obras Completas, trad. Paulo César de Souza, São Paulo: Cia das Letras, vol. 16,2011.

 

Patrícia Cabianca Gazire é psicanalista e escritora, professora e supervisora de psicanálise do Departamento de Psiquiatria da Unifesp/Epm. Membro Associado da SBPSP, Doutora em Psicanálise pela Université Paris Diderot (Paris 7) e pela USP, doutoranda em Escrita Criativa pela PUC-RS. Autora do livro “Objeto: modo de usar” pela Editora Blucher (no prelo). Possui vários artigos publicados em psicanálise e seus textos literários podem ser lidos no blog Saperlipopettehttps://patriciacabiancagazire.wordpress.com/

Arte e interrogação

*Silvana Rea

Ao surpreender-se com aquilo que escapa ao estabelecido como os lapsos de memória, a troca de palavras, os sonhos, Freud construiu a Psicanálise e assim ultrapassou os limites do conhecimento. Por sua vez, a Psicanálise sofreu forte reação na comunidade científica do início do século XX, ao abalar a convicção na supremacia da racionalidade. O desejo, a sexualidade infantil e a noção de inconsciente provocaram escândalo e, para surpresa nossa, mesmo hoje desconcerta certos setores da sociedade.

Ainda que as gravuras eróticas de Hokusai tenham sido apreciadas desde o século XVIII e que o conjunto dosTemplos do Kama Sutra, em Khajuraho, na Índia, reverenciados nos anos 950, foram declarados patrimônio mundial pela Unesco. E ainda que as fotografias do contemporâneo Robert Mapplethorpe, merecessem concorrida retrospectiva no Jeu de Pomme, muitos foram os artistas injustiçados pela postura de intolerância ao novo. O trabalho de Egon Schiele, um dos grandes do Expressionismo, levou-o à prisão em 1912 por ser considerado pornográfico. No Brasil de 1931o painel de Cicero Dias Eu vi o mundo… ele começava no Recife,  referência na história da arte brasileira, teve cortados fora os três metros que representavam nus. A dimensão da obra e sua mutilação deixaram Mário de Andrade boquiaberto, como escreve a Tarsila do Amaral. Do mesmo modo que ele se chocara em 1915 diante de Homem Amarelo de Anita Malfatti – trabalho que adquiriu durante a exposição antes que a maior parte dos quadros fosse destruída a bengaladas, apesar de não terem conteúdo sexual. Esta atitudes de reação ao ineditismo da   arte lembram que em 1937 Adolf Hitler expôs obras expressionistas na célebre mostra “Arte Degenerada”, como parte de seu bárbaro projeto de eugenia.

A noção de inconsciente e do desejo como motor do psiquismo concebem um homem em direção a algo que o transcende e a algo que sempre ultrapassa o instituído. E que quando segue seu caminho em direção do simbólico, afasta-se dos riscos de ser realizado em ato. É esta uma das funções do trabalho artístico: romper com o estabelecido, transgredir para construir um universo representacional que passa a ser repertório cultural da humanidade. Porque como na Psicanálise, é vocação da Arte manter-se em permanente postura de interrogação daquilo que é dado. Impossível reduzi-las à normatização e regular as suas possibilidades de experimentação.

Silvana Rea é Diretora Científica da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Mestre e Doutora em Psicologia da Arte pela Universidade de São Paulo.

 

 

 

 

 

 

Sexo anatômico e identidade sexual

Não é exclusividade de nossos tempos a existência de pessoas que sofrem do sentimento de incompatibilidade entre o seu sexo anatômico e a sua identidade sexual. A crescente liberdade sexual conquistada pelas sociedades ocidentais – impulsionada sobretudo pela mudança da posição da mulher na sociedade – tem contribuído para uma maior aceitação e visibilidade de práticas sociais e sexuais que se afastam dos conceitos tradicionais e de sofrimentos que até então tinham pouco espaço para se manifestar.

A legalização do casamento gay e a adoção de crianças por casais do mesmo sexo têm estimulado o questionamento das noções tradicionais de gênero e tornado possível a manifestações de diversas identidades sexuais.

Transgeneralidade é um termo que abarca as pessoas que ultrapassam as normas de gênero baseada na equivalência pênis – macho – homem – masculino e vagina – fêmea- mulher – feminina.  Entre eles podemos citar os travestis, drag queens, drag kings, crossdressings e os transexuais. Denominamos de transexuais aqueles que se identificam com o sexo oposto àquele de seu nascimento. Nessa entrevista concedida ao blog da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, a psicanalista Marcella Monteiro de Souza e Silva* fala sobre os dilemas entre sexo anatômico e identidade sexual, questão despertada principalmente na adolescência, e o papel dos pais, da família e do processo terapêutico nessa jornada que envolve profundas mudanças psíquicas.

Como a Psicanálise vê a questão do sentimento de inadequação entre o sexo biológico e a identidade sexual?

Freud, no início do século XX, provoca uma revolução na ideia de sexualidade vigente na sua época, afirmando não só a existência da sexualidade infantil como também apontando para o fato de que possuímos uma bissexualidade originária. Com isso, ele queria dizer que apesar de nascermos com um sexo anatômico definido, temos, inicialmente, uma disposição bissexual e só nos constituímos como homens ou mulheres através de um longo processo de identificação com as pessoas significativas com as quais nos relacionamos. Com essa colocação Freud inclui a dimensão social e psicológica na formação da nossa identidade sexual que passa a ser vista como uma construção, não se reduzindo e, portanto, nem sempre coincidindo com o nosso sexo biológico. Em 1964, o psicanalista Robert Stoller contribuiu para a discussão do assunto introduzindo a noção de “gênero” ou “identidade de gênero” na psicanálise. Com isso, ele propõe pensarmos a masculinidade e a feminilidade como aspectos psicológicos, sociais e históricos diferenciando-as do sexo no sentido biológico. Assim, vemos que a teoria psicanalítica já aponta para o fato de que a identidade sexual não se encontra soldada ao sexo biológico

 Os indícios do desejo de mudança de sexo costumam manifestar-se em que idade?

É importante termos em mente que não existe “o transexual” como uma categoria única, pois cada pessoa (seja ela transexual ou não) é um ser humano singular que vive e sofre a sua própria maneira. Daí a importância de levarmos em conta a diversidade e a singularidade das histórias vividas pelos adolescentes ou adultos que desejam a “mudança de sexo”.

Muitas pessoas que sofrem com o sentimento de inadequação de seu sexo anatômico e sua identidade de gênero afirmam que desde muito cedo, ainda crianças, sentiam-se desconfortáveis com seu sexo biológico e identificavam-se com o sexo oposto ao seu de nascimento. Porém, é geralmente na adolescência, quando há uma segunda eclosão da sexualidade (sendo a primeira na infância, na época do complexo de Édipo), que esse sentimento de fato “ganha corpo”e que, geralmente, surge a vontade de “mudança de sexo”.

Vale lembrar que até mesmo o tratamento cirúrgico, chamado cirurgia de redesignação sexual, não altera efetivamente o sexo da pessoa, uma vez que ela não altera o material genético do indivíduo (XX nas mulheres e XY nos homens). Atualmente, a cirurgia, possível de ser realizada a partir dos 21 anos de idade no Brasil, só é indicada após um processo psicoterapêutico de alguns anos no qual essa decisão possa ser pensada e elaborada.

Muitos transexuais buscam apenas a terapia hormonal e não têm interesse em realizar a cirurgia para a redesignação sexual.  Esse método consiste na administração de progesterona e estrógeno para as transexuais com identidade de gênero feminina e testosterona para os transexuais com identidade de gênero masculina.

Essas duas possibilidades oferecidas pela medicina nos dias de hoje – a intervenção cirúrgica ou o tratamento hormonal – tornam possível a minimização do sofrimento de pessoas que sentem incongruência entre seu sexo anatômico e a sua identidade de gênero. Com esses recursos, o transexual pode ser ajudado na tentativa de adaptar seu corpo ao seu sentimento de identidade de gênero, ou seja, ao gênero ao qual sente que pertence.

Quais os principais dilemas de um adolescente que quer mudar de sexo?

A adolescência é uma fase de inúmeras mudanças corporais e esforços de adaptação a elas. No caso de um adolescente que não se identifica com o seu sexo anatômico os desafios são ainda maiores.

Geralmente, nessa época os adolescentes sentem muito intensamente o desejo de reconhecimento segundo o gênero que eles próprios sentem ser o seu. Ou seja, eles desejam serem designados na escola e na família, segundo o gênero que lhes corresponde psicologicamente. Assim, muitos deles lutam por mudar o nome social, na lista de chamada da escola, por exemplo, e na família.

Embora os pais e as escolas estejam cada vez mais conscientes e sensíveis ao assunto, ainda é muito grande a resistência que os adolescentes encontram nessa área. Surgem receios de como serão vistos e aceitos pela comunidade e de como será sua vida afetiva e sexual.

Como os pais podem apoiar e se preparar para esse processo?

O apoio dos pais é fundamental para o adolescente que deseja “mudar de sexo”. Quanto mais os pais podem suportar e acolher o desejo do filho, maior será a possibilidade de o adolescente entrar em contato com seu desejo e tentar elaborá-lo de maneira a tomar as decisões que mais lhe convêm. E caso opte, de fato, pela cirurgia ou tratamento hormonal, ele poderá enfrentar as dificuldades da mudança corporal e dos desdobramentos emocionais que elas trarão.

Alguns pais podem ter dificuldade em aceitar o filho que manifesta tais desejos, vendo-o muito distante daquele filho que eles gostariam de ter. É importante que os pais possam elaborar o luto pelo filho desejado para que possam acompanhar o filho real na descoberta da pessoa que ele é. Muitas vezes o acompanhamento psicoterapêutico dos pais pode ajudá-los a estar mais próximo ao filho nesse processo.

Muitos pais inicialmente sentem-se culpados, atribuindo algum erro na sua criação do filho como determinante do desejo dele pela mudança de gênero. É importante que os pais possam ter em mente que a vida mental, psíquica é de tal complexidade que não é um fator exclusivo que determina nossos desejos e necessidades e sim uma série de elementos que, conjuntamente, nos fazem ser quem somos. O sentimento de culpa dos pais pode ser um entrave para a aceitação do filho.

E a escola, amigos e sociedade? Qual o papel desses relacionamentos nesse contexto?

Qualquer mudança corporal, seja ela apenas de aparência ou fruto do tratamento hormonal, tem uma repercussão psíquica muito grande no adolescente, por isso, a importância de ambiente de parceria entre a escola, a família e o adolescente.

A escola costuma ser o ambiente público mais importante do adolescente. É fundamental que ele possa sentir que neste lugar ele é respeitado e aceito segundo a designação que ele deseja. Assim, ser chamado pelo nome social na chamada escolar, pelos professores, por exemplo, pode significar muito para o adolescente. É importante também a escola estar atenta de como a comunidade escolar aceita e respeita o aluno e dá espaço para ele existir de acordo com o gênero que deseja.

O principal desejo do adolescente neste contexto é o reconhecimento e o sentimento de pertencimento.

De que forma a análise poderia ajudar o adolescente e/ou família nesse processo nesse momento?

Uma vez que todas as nossas manifestações psicológicas têm como base elementos conscientes e inconscientes, uma análise pode beneficiar muitíssimo tanto a família quanto o próprio adolescente ou criança que se sente desconfortável com a sua identidade de gênero.

Para o adolescente, a análise pode auxiliá-lo a discriminar se o que ele sente é um real desejo de mudança de gênero ou apenas uma enorme admiração pelo sexo oposto, pois muitas vezes essas duas coisas encontram-se imbricadas e de difícil discriminação sem um trabalho analítico. Este processo de autoconhecimento é muito importante pois muitas vezes pode-se definir precocemente que se trata de uma questão identitária enquanto o que está em jogo é somente uma fase da construção de identidade de gênero que, como vimos, passa pelos caminhos identificatórios do indivíduo. Por isso, pode ser temerária uma definição e intervenção em crianças, por exemplo.

O processo analítico pode contribuir também para desvendar fantasias que muitas vezes estão em jogo. Alguns indivíduos idealizam a mudança de gênero, acreditando que com ela estarão livres de sofrimentos que muitas vezes são inerentes à condição humana. Por isso, o trabalho sobre as expectativas em relação à mudança de gênero é importante.

Por propiciar um contato maior do indivíduo com ele mesmo, a análise pode ajudá-lo a fazer escolhas e tomar decisões mais conscientes para, inclusive, poder lidar com as consequências dessas escolhas como o autorreconhecimento no gênero escolhido, o processo de inserção social e ainda a relação com o próprio corpo.

A família pode ser beneficiada pela análise uma vez que essa pode ajudá-la a rever seus próprios valores, crenças e certezas e assim poder acompanhar o adolescente de maneira mais próxima e livre de preconceitos.

 

 

 

Marcella Monteiro de Souza e Silva é psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e professora de psicologia no Colégio Oswald de Andrade.