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Novos diálogos

Livro de Marion Minerbo atualiza reflexões sobre a clínica psicanalítica no mundo contemporâneo

*Matéria publicada na revista Vila Cultural edição 184 (Agosto/2019)

Três anos depois da publicação de Diálogos sobre a clínica psicanalítica, a psicanalista Marion Minerbo apresenta outro título que segue mobilizando uma audiência diversa, entre estudantes de psicologia, analistas e leigos sabidamente interessados em psicanálise. Lançado há pouco, Novos diálogos sobre a clínica psicanalítica (Blucher) foi escrito a seis mãos, como diz Marion para fazer referência a AnaLisa, sua interlocutora predileta. Trata-se da persona que ganha voz graças às irmãs Isabel Botter e Luciana Botter, colaboradoras do livro. Juntas, elas participam de conversas instigantes sobre temas significativos para a compreensão, reflexão e vivência da psicanálise neste século 21. “Com a teoria encarnada na clínica”, como escreve Ruggero Levy na contracapa do livro.

Marion e AnaLisa – ou Isabel e Luciana, que são formadas em psicologia e assumem o lugar de “jovens colegas” de profissão – dialogam com fluência capaz de “simplificar” conceitos e raciocínios dos mais complexos. Como pensa um psicanalista?, O supereu cruel, Depressão sem tristeza, com tristeza e melancólica e Ser e sofrer hoje são alguns dos capítulos do livro, que também revela possibilidades de comunicação, empatia e parceria típicas da nossa época, já que Marion conheceu Luciana virtualmente, quando ela editava o blog da Sociedade Brasileira de Psicanálise. A conversa entre as duas correu tão solta que evoluiu para uma parceria intelectual. Com igual interesse pelos temas em pauta, Isabel agregou-se à dupla e enriqueceu o encontro. “Para além das ideias e do texto, as duas sustentavam afetivamente meu esforço e investimento na escrita. E reciprocamente eu sentia que valia a pena me esforçar e produzir para essas leitoras perspicazes e generosas”, diz Marion, que é doutora em psicanálise, em entrevista à Vila Cultural.

Vila Cultural. O que distingue e o que há em comum entre os Novos diálogos e os que foram publicados em 2016?
Marion Minerbo. O primeiro volume, de 2016, nasceu graças a um convite feito pela editora do Jornal de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise, Marina Massi. Um dia mandei para ela um texto escrito como um diálogo, meio assim, do nada. Uma brincadeira. Ela se entusiasmou com forma e conteúdo, disse que era um “achado” e sugeriu que eu escrevesse uma série para ser publicada no Jornal. Então, os capítulos do Diálogos já nasceram sob forma de diálogos. E os temas eram os mais básicos. Este volume de 2019 teve outra origem. Quando pensei numa coletânea com minhas publicações mais importantes, era evidente que eu deveria continuar explorando a forma diálogo – que tinha dado tão certo no primeiro volume. Mas eu não tinha tempo nem forças para pegar esses textos e transformá-los em diálogos. Para começar, tenho horror a reler meus textos antigos. Conheci Luciana Botter quando ela cuidava do blog da Sociedade de Psicanálise. Na época, reconhecera o talento dela como leitora, crítica e editora. Foi por isso que, em meados de 2017, convidei-a para criar comigo o blog Loucuras Cotidianas. Tive, então, a brilhante ideia de convidá-la, e à sua irmã Isabel, para verterem minhas publicações da forma corrida para a forma diálogo. As duas tinham estudado psicologia. Isabel tinha também um trânsito pela psicanálise. Conhecendo o talento de ambas, eu apostava que elas conseguiriam fazer isso. Além disso, elas eram o próprio jovem colega! Quem melhor do que elas/ele para dialogar de verdade com as ideias do texto, para formular dúvidas, para fazer observações? Outra vantagem: eu conseguiria ler meus textos contanto que tivessem sido lidos amorosamente por elas. Se conseguissem transformá-los em diálogo é porque sua leitura teria sido, pelo menos, generosa. Fizemos um teste. Precisávamos saber se elas se sentiriam com autonomia suficiente para criar outro texto, e se eu conseguiria me reconhecer no trabalho delas. A questão era em parte técnica, mas sobretudo emocional: eu teria que dar a elas autoria suficiente para que tivessem prazer em trabalhar, e elas precisariam me conceder a possibilidade de reescrever o texto delas como eu achasse melhor. Deu certo porque para todas nós o mais importante era a qualidade do texto. O trabalho a seis mãos foi muito prazeroso. No meio do caminho surgiu a ideia de transformar o “jovem colega” genérico em AnaLisa – anagrama de análise –, minha interlocutora no blog. Por um lado, hoje em dia a proporção de psis mulheres é imensamente maior do que a de homens. Por outro, dava uma cara mais pessoal e verossímil aos diálogos. AnaLisa se tornou tão verdadeira para nós que foi natural convidá-la para escrever o prefácio. Afinal, quem melhor do que Bel e Lu para apresentar o livro? Uma palavra sobre os temas: se os dos Diálogos são 1.0, os dos Novos Diálogos 2.0.

VC. Guardadas as proporções, como você diz, por que AnaLisa, a voz das irmãs Botter, foi para você, na interlocução do livro, o que Fliess foi para Freud?
MM. Freud e Wilhelm Fliess se encontraram pouco durante os muitos anos de correspondência em que o fundador da psicanálise produziu intensamente. Também eu me correspondi por e-mail e WhatsApp sem conhecê-las pessoalmente. Só conhecia as fotos no Zap, com um gorro enfiado até o nariz. Eu me lembrei daquele filme Nunca te vi, sempre te amei. Mas o ponto em comum (com Freud e Fliess) mais importante foi a amizade amorosa que se estabeleceu entre nós. Para além das ideias e do texto, as duas sustentavam afetivamente meu esforço e investimento na escrita. E reciprocamente eu sentia que valia a pena me esforçar e produzir para essas leitoras perspicazes e generosas. Quando comentavam os textos eram, ao mesmo tempo, estrangeiras, com um olhar diferente do meu, e íntimas, capazes de compartilhar minha maneira de pensar. Na amizade amorosa, cada um se esforça para dar o melhor de si e para fazer brotar o melhor do outro. Ambos crescem, ambos saem transformados.

VC. O que é necessário para manter a disposição e a disponibilidade para o diálogo em uma época e uma sociedade que parecem tão pouco interessadas em dialogar?
MM. Dialogar de verdade implica em reconhecer no interlocutor alguém diferente de você, mas tão digno de valor como você. Um semelhante-diferente. Quando nos sentimos ameaçados, nos defendemos da ameaça com duas estratégias mentais: negamos ao outro o direito de ser diferente e negamos ao outro a condição de semelhante. Hoje, vivemos todos ameaçados, e isso em vários fronts ao mesmo tempo. Em tais condições de “salve-se quem puder” a disposição para o diálogo fica prejudicada.

VC. Quando você diz/escreve, entre outras coisas, que o inconsciente foi banalizado inclusive pelos analistas, como reflete sobre o futuro e os rumos da psicanálise?
MM. Se não me engano, escrevi que o inconsciente corre o risco de ser banalizado pelos próprios analistas. O inconsciente é um conceito complexo. Ele não tem existência concreta, material, mas produz efeitos concretos, muitas vezes absolutamente trágicos, na vida das pessoas. O psicanalista lê as relações entre pessoas e os fenômenos humanos com base neste pressuposto. Só que é uma leitura que subverte o senso comum. Por exemplo, um marido não bate na esposa porque é mais forte, mas porque se sente mais fraco. Essa leitura muda a abordagem do problema. Ora, o senso comum é poderoso, ele se impõe também sobre os psicanalistas. Nesse sentido, a escuta analítica é um instrumento que pode facilmente perder o gume. É preciso cuidar para mantê-lo afiado.

VC. O que lhe parece mais fundamental para a prática da psicanálise hoje?
MM. Hoje falamos em práticas da psicanálise, pois ela tem sido praticada em enquadres muito diversos, bem além do consultório. Acho que é preciso ter criatividade clínica. E quais são as condições para isso? De um lado, o psicanalista precisa ter internalizado muito bem o método da psicanálise, que tem como pressupostos inconsciente e transferência. De outro, ter um repertório teórico amplo. Precisa conhecer vários autores. Não é o paciente que tem que se encaixar na “linha” do analista. É ele que tem que conseguir ir até onde o paciente está.

VC. Que critérios usou para selecionar as dez crônicas do Loucuras cotidianas?
MM. Eliminei as crônicas que falavam de temas que apareciam nos outros capítulos do livro: Depressões, É muita areia para meu caminhãozinho, Não fui com a sua cara. Dei preferência a temas que mostrassem como a psicanálise interpreta certos fenômenos sociais que poderiam ser vistos como banais: gostar de cozinhar, a gourmetização da vida, vegetarianismo, o sucesso do funk Que tiro foi esse. Na mesma linha, mas abordando temas mais sérios, escolhi o fanatismo, o neoconservadorismo, a polarização. Aqui, meu interesse foi mostrar que, por mais que os detestemos, não adianta xingar o fenômeno social. Se ele está aí, é por algum motivo. É preciso interpretá-lo como sintoma social. Quando interpretado, revela qual é o sofrimento psíquico que está em sua origem. Por fim, escolhi temas de “utilidade pública”, como Você sabe colocar limites?, Brincar para se tratar e Você está podendo? (sobre empoderamento e autoestima). Teria colocado outras, gosto de todas, mas o livro ia ficar muito grosso e muito caro [risos].

Foto: A psicanalista Marion Minerbo entre as irmãs Luciana e Isabel Botter. Crédito: Michele Minerbo / Divulgação

O Estranho, inconfidências

Daniel Delouya

O XXVII Congresso Brasileiro de Psicanálise que acontecerá entre os dias 19 e 22 deste mês homenageia, em seu tema, o centenário da publicação do texto de Freud Unheimliche, e o associa, de outro, com a inconfidência mineira, história marcante da região onde o congresso se realiza este ano. Curioso, porém, o elo entre uma dimensão estética do mundo psíquico e o universo político. Seria um acaso? As circunstâncias da redação deste ensaio são eminentemente políticas: ocorre no final de 1912, com a eclosão da crise com Jung, após Freud desmaiar na sua presença. Um ataque parecido, e no mesmo local, acometeu Freud quando da ruptura definitiva com Fliess, em 1904, na sequência da qual sofreu o distúrbio de despersonalização em Acrópoles, que elaborara durante três décadas antes de publicá-lo em 1936. Já nesse período, em 1913, o estranho surge sob sua pena n’O tema dos três cofrinhos, no Totem e Tabu e no Moisés de Michelangelo. Nesses delineia-se a vivência do estranho pela ameaça narcísica de assassinato e aniquilamento associados ao destronamento do lugar de poder, às inconfidências. O termo Unheimliche significa aquilo que não é de casa, não é familiar e, na trama do rei Lear, essa inconfidência em relação ao pai (do complexo de castração)  é  remontado a posteriori à deposição original da primeira casa, do ventre materno e de sua restauração sucessiva nos cuidados maternos, no leito da mulher que esposamos e no retorno final, à morte, para a terra mãe, pela filha fiel Cordélia. Esse caminho, que o analista acompanha, desde o nascimento e até a inserção no mundo dos homens através das coordenadas propostas pela lei paterna é uma trajetória política penosa de diferenciação, de inconfidência, adquirindo um lugar na pólis do mundo humano. A escuta e o cuidado tanto do sujeito, assim como da cultura que o abriga, se faz pelo analista e pela psicanálise dentro de uma dimensão estética do sentir dessa dialética entre o familiar e não familiar, entre a confidência e a inconfidência. Heimliche-Unhemliche é o norteador, bússola da escuta psicanalítica, desde as nuances mais suteis do discurso do que destoa e desponta do recalcado, passando por aqueles inquietantes que nos desnorteiam e até os abalos das manifestações lúgubres francamente estranhos, de susto e despersonalização que acometem a dupla, o analista e o sujeito em relação a si, ao seu entorno e à cultura que habita. Essas espécies de vivências demarcam as agitações do conflito do eu com o seu recalcado, e os narcísicos entre o eu e o seu entorno. Em uma das últimas menções do estranho, Freud nos permite iluminar as turbulências do cenário atual, nacional e internacional. O fanatismo como o retorno da salvaguarda primária diante de nosso desamparo ao cair na vida, fora do recinto materno. Trata-se deste poder hipnótico responsável pela criação da massa primordial, do sujeito com o outro, o grande. Esse poder carrega, afirma Freud, o efeito estético enigmático, misterioso, unheimlich, nos remetendo, forçosamente, ao recalcado, o mais familiar do primeiro laço humano, do duplo constitutivo da horda primitiva (Freud, 1921). Tal fuga da pólis, da diferenciação e do convívio democrático em direção ao fanatismo, tem reincidindo no cenário ocidental com o colapso, o terceiro desde 1850, da promessa ilusória do neoliberalismo de independência econômica e de soberania da razão e da moral. O unheimliche da psicanálise o desmente!

Daniel Delouya é membro com funções didáticas da SBPSP e autor de vários livros, entre os quais Torções na razão freudiana (2 ed. pela Blucher, 2019)

Reflexões sobre identidade sexual

**Por Maria Thereza de Barros França

Desde inícios do século XX Freud nos apresentou suas teorias acerca da sexualidade infantil. Certamente organizou observações que já vinham sendo feitas por outros autores da época, entretanto inovou e propôs pensarmos a sexualidade em termos de libido – algo que transcende em muito a experiência do ato sexual. Nossa identidade sexual se firma na adolescência, mas desde muito cedo o processo de seu desenvolvimento está em andamento.

Freud nos colocou em contato com a bissexualidade presente em todos os seres humanos e ressaltou sua força na tenra infância. É um longo processo de amadurecimento emocional a ser percorrido, para que possamos transformar aspectos onipotentes da nossa mente infantil e nos tornarmos adultos, encontrando formas de compor dentro de nós nossos aspectos femininos e masculinos, os quais nunca deixarão de existir: o que se passa é que o desenvolvimento promove o predomínio e a identificação com uma dessas vertentes.

Neste sentido as relações afetivas, especialmente com mãe, pai e familiares, modelos que são para nossa constituição, são de extrema importância. Os bebês humanos não nascem prontos: nossos corpos continuam se constituindo após o nascimento; o mesmo se dá com nossa mente e também com nossos cérebros: as experiências emocionais esculpem nosso Sistema Nervoso, como demonstra Iole Cunha em seus interessantes trabalhos.

Certamente há muita distância entre nosso sexo biológico e a sexualidade psíquica. A desarmonia mente/corpo leva a sofrimentos intensos. Muitas vezes para lidarmos com dor, mobilizamos mecanismos de defesa em que idealizamos situações nas quais estaríamos livres de sofrimento. O que se passa, entretanto, é que apenas iremos gerar outros tipos de angústia.

Para lidar com nossas crianças e jovens às voltas com desarmonias em sua relação mente/corpo, não basta nomeá-los transgêneros, conforme fez o programa Fantástico. Sabemos que rótulos muitas vezes trazem algum alívio. Mas e o que isso quer dizer? Aceitar e respeitar é importante, mas NÃO BASTA! É fundamental que possamos buscar o entendimento amplo sobre os profundos processos inconscientes que se dão em nossas mentes, muitas vezes desconsiderados pelos desenvolvimentos científicos.

Winnicott há muito já dizia que a humanidade paga um preço muito caro por desconsiderar as pesquisas psicanalíticas.

 

** Maria Thereza de Barros França é psiquiatra e psicanalista. Membro efetivo da SBPSP, especialista em psicanálise de crianças e adolescentes pela IPA, docente do Instituto de Psicanálise Durval Marcondes, coordenadora do CINAPSIA, integrante da Secretaria de Psicanálise de Crianças e Adolescentes da SBPSP.