relações humanas

Psicanálise e formação de massa

*José Martins Canelas Neto

“A meu ver a questão decisiva para a espécie humana é saber se, e em que medida, a sua evolução cultural poderá controlar as perturbações trazidas à vida em comum pelas pulsões humanas de agressão e autodestruição.” (S. Freud, O mal-estar na civilização, 1930).

Diante da preocupante onda de ódio e violência que estamos vivendo no Brasil atualmente, proponho trazer algumas reflexões psicanalíticas que podem nos ajudar a compreender esse sombrio momento que vivemos.

Freud foi um importante pensador da cultura humana e publicou muitos livros e textos sobre o assunto. O mais famoso deles é O mal-estar na civilização, de 1930. Nessa obra o inventor da psicanálise se pergunta: como os homens, em suas condutas, revelam algo sobre a finalidade da vida? Para ele a resposta é simples: eles buscam a felicidade. No entanto, é bem mais comum experimentarmos a infelicidade. Esta é proveniente de três fontes: do próprio corpo, do mundo externo e das relações com outros humanos. O sofrimento provocado por essa última fonte de infelicidade é, para Freud, aquele que experimentamos mais dolorosamente. Isso tem sido verificado por vários psicanalistas atualmente, devido ao clima de ódio e horror que se instalou no país.

Em 1921, numa obra quase premonitória quanto à ascensão do nazismo na Alemanha, Psicologia das massas e análise do Eu, Freud mostra que a psicologia individual e a psicologia social não se opõem na medida em que “na vida psíquica do ser individual, o Outro é via de regra considerado enquanto modelo, objeto, auxiliador e adversário, e portanto, a psicologia individual é também, desde o início, uma psicologia social.” A psicanálise provocou uma ferida no amor-próprio do homem, ao mostrar que o Eu não é mais o senhor em sua própria casa. A questão da alteridade, assim como a do diferente, fazem parte da essência do ser humano. Um outro interno, constituído pelo nosso inconsciente e nosso corpo (que é um outro para nós) e o outro externo, o semelhante. Nesse texto Freud estuda o que chamou de formação de massa. Trata-se de uma formação que pode aparecer com diferentes formas e durações em diferentes tipos de grupo. No fascismo, o papel do líder, para o qual é transferida toda a autoridade, é fundamental para instigar a formação de massa. A massa assim formada é impulsiva, volúvel e excitável. Freud enumera algumas características da formação de massa: “a massa não tolera qualquer demora entre seu desejo e sua realização, tem o sentimento da onipotência, a noção do impossível desaparece para o indivíduo na massa. A massa é extraordinariamente crédula e influenciável, é acrítica, pensa em imagens que evocam umas às outras associativamente… e não têm sua coincidência com a realidade por uma instância razoável. Ao se reunirem os indivíduos numa massa, todas as inibições individuais caem por terra e todos os instintos cruéis, brutais, destrutivos, que dormitam no ser humano, como vestígio dos primórdios do tempo, são despertados para a livre satisfação instintiva.”

Vemos nessa descrição um modelo para pensarmos a disseminação do ódio por meio de notícias falsas (fake news) e, em geral, violentas, que se estabelecem como verdades absolutas. O indivíduo dentro da formação de massa não consegue ter um trabalho de pensamento crítico. Estamos vendo nessas eleições no Brasil o papel proeminente das redes sociais dentro do ciberespaço. O ciberespaço favorece um fracasso do trabalho de pensamento crítico das pessoas, na medida em que se trata de um mundo real, embora virtual, no qual não existe temporalidade, nem espacialidade. O trabalho de pensamento se faz numa temporalidade, com pequenas quantidades de energia, e é muito diferente das concepções passionais nas quais é o afeto de ódio, trabalhando com grandes quantidades de energia, que conduz o pensamento.

A contaminação do pensamento pelo ódio perturba a possibilidade de se desenvolver um verdadeiro trabalho do pensar, para o qual necessitamos que as palavras não sejam banalizadas. Trabalho do pensar que é fundamental na sustentação da democracia num sentido amplo. A democracia não se limita à existência de eleições livres por voto secreto de todos os cidadãos. Ela necessita que haja um clima de tolerância ao outro e às diferenças para que o debate de propostas possa ocorrer entre as forças políticas que estão em jogo num determinado momento. Quando afirmações homofóbicas, racistas, de incentivo à violência e à tortura, por parte do líder são banalizadas, abrimos a porta para o que Hanna Arendt chamou de “banalidade do mal”. As palavras perdem seu valor e seu papel de único meio para evitarmos o confronto violento. Não há mais espaço algum para o debate de ideias, uma vez que incitações ao mal não são levadas a sério.

O psicanalista francês Charles Melman, em seu livro O homem sem gravidade, considera que atualmente vivemos numa cultura que sofreu importante mutação em sua economia psíquica passando de uma economia organizada pelo recalque a uma economia organizada pela exibição do gozo. Essa lógica do gozo tem relação profunda com um além do prazer e com a pulsão de morte e nela impera o imediatismo da necessidade e não o desejo.
Freud supõe a existência no homem de um fator hostil à civilização. Supõe que uma profunda insatisfação com a civilização existente, em determinadas situações históricas, originou uma condenação da civilização.

A cultura, conclui Freud, é edificada sobre a renúncia pulsional, pressupõe a não satisfação de poderosas pulsões. Esse fato leva à frustração causada pela cultura. Essa frustração é causa de todas as hostilidades que a cultura tem de combater. (p.60)

O sentido da evolução cultural é que ela nos apresenta a luta entre Éros e morte, pulsão de vida e pulsão de destruição, tal como se desenrola na espécie humana. Essa luta é o conteúdo essencial da vida e, por isso, a evolução cultural pode ser designada brevemente como a luta vital da espécie humana. (p.90-91)

Freud introduz a noção de narcisismo das pequenas diferenças. O mal-estar na civilização mostra de maneira detalhada como a agressividade primária e o narcisismo das pequenas diferenças (diferenças de cor da pele, de orientação sexual, de classes, etc) se opõem à identificação mútua: por que preferiria eu um estrangeiro aos meus próximos, por que amaria eu um estrangeiro que está prestes a me detestar e a me maltratar? Esse é o pressuposto que sustenta esse narcisismo das pequenas diferenças e que se exprime na intolerância com o outro diferente de mim.

A limitação do narcisismo é produzida apenas por um fator, pela ligação libidinal a outras pessoas. O amor a si encontra limite apenas no amor ao outro, amor aos objetos. (p.58) Essa condição é necessária para a evolução cultural e do trabalho em comum. Esse é o papel das pulsões de vida e do amor num sentido ampliado.

O escritor, prêmio Nobel de Literatura, Elias Canetti, escreveu um livro – Massa e poder (1960) – para pensar as diferentes formações de massa para compreender as que surgiram durante o nazismo. Descreve em seu livro um tipo extremo de formação de massa que chama de malta. Na malta é a lógica da sobrevivência pura que impera: O momento do sobreviver é o momento do poder. O horror ante a visão da morte desfaz-se em satisfação pelo fato de não se ser o morto. Este jaz, ao passo que o sobrevivente permanece em pé[…] A forma mais baixa do sobreviver é o matar. (p.227)

Será preciso sempre um grande esforço daqueles que acreditam nas pulsões de vida, na tolerância, na democracia para lutarmos contra as tendências maléficas da alma humana. Cito, para terminar o poema de Schiller, citado por Freud em O mal-estar na civilização:
Que se alegre,
Aquele que respira no alto na rósea luz!
Porque embaixo, é o horror,
E o homem não deve tentar os deuses
Nem nunca, para um sempre nunca, desejar ver
O que eles se dignam cobrir de noite e de terror.

 

Referências:
Canetti, E. (1960). Massa e poder. São Paulo, Companhia das Letras, 2008.
Freud, S. (1921). Psicologia das massas e análise do Eu, tradução de Paulo César de Souza, São Paulo, Companhia das Letras, 2011.
Freud, S. (1930). O mal-estar na civilização, tradução de Paulo César de Souza, São Paulo, Companhia das Letras, 2010.
Melman, Ch. (2002). L’homme sans gravité. Éditions Denoël, Paris, 2005.

 

José Canelas é membro efetivo e analista didata da SBPSP, psiquiatra formado pela Universidade de Paris, tendo feito sua formação psicanalítica na França, na Sociedade Psicanalítica de Paris, onde residiu entre 1983 e 1997.

(Poder) chorar as dores do mundo

*Eduardo de São Thiago Martins

 

Estupefato com o retrocesso civilizatório que estamos vivendo, mesmo conhecendo o vai-e-vem do pêndulo da História, me peguei imaginando como diria a uma criança de quatro anos (e meio!) – inteligente, corajosa, curiosa e sensível –  o porquê que ela, que será o futuro, ainda não pode agir sobre ele.

Diria assim:

“Sabe, sentir ódio é humano.
Mas pensar sobre o ódio que se sente, sem disseminá-lo, sem partir para a ação violenta, é mais que humano – é o trabalho da civilização.”

Foi assim que saímos da Idade Média, a Era das Trevas. Foi assim que algumas pessoas sobreviveram a guerras terríveis, ao fascismo, ao holocausto, aos ataques atômicos, aos exílios, censuras, torturas e assassinatos das ditaduras militares – sim, tudo isso aconteceu, de verdade. E é por isso, por conseguirmos ir aprendendo a conter as violências e os discursos de ódio, dia após dia, que muitos de nós tivemos o privilégio de não ter de enfrentar nenhum destes terrores.

Tudo aquilo que nós não conhecemos e não dominamos – dentro e fora da gente – dá medo. As doenças, as pobrezas, as violências, os desejos proibidos, e também as pessoas, todos aqueles que são diferentes de nós – seja pelo tom da pele, pelo jeito de amar, pelos hábitos, pelo jeito de pensar, pelo formato do corpo – aqueles que não conseguimos entender; tudo isso pode dar muito medo.

Fobia!

Quando somos crianças e sentimos medo, rapidamente, buscamos a proteção que está mais perto; a proteção de um adulto, que julgamos ser seguro, forte e confiável.

Mas quando nos tornamos adultos, percebemos que esse adulto-herói em quem acreditávamos, era só uma ilusão. Porque agora os adultos somos nós e continuamos sentindo muito medo e insegurança, por nós e por todos que amamos.

Então, se é assim, qual é a diferença entre adultos e crianças?

A diferença é que a criança se assusta e logo chora; sente raiva e logo bate; quando quer alguma coisa, pega logo sem pedir, tanto faz se é dos outros; e quando a criança não quer alguma coisa, quando se incomoda com alguma coisa, ela joga fora, quebra, destrói, pisa em cima. E neste momento, a criança fica com medo até dela mesma, medo do que é capaz de fazer contra os outros.

Por isso, a criança só confia no adulto porque supõe que ele não vai fazer igual. Supõe que ele pode se conter, vai parar para pensar, vai tentar entender e explicar o que está se passando.

Frente ao ódio e ao medo, essa é a diferença entre eles. Fora isso, o adulto continua sentindo tudo o que sentia quando era criança, e quando age com violência e intolerância, quando pega em armas, está sendo apenas uma criança grande.

É por estes motivos que criança não pode votar… E nem se candidatar ao governo. Porque ela ainda acredita na ilusão do superadulto. Ela ainda não consegue pensar sozinha em tudo o que sente, ainda não é capaz de buscar soluções mais elaboradas para os problemas do mundo; aliás, a criança ainda não pensa muito no mundo, pensa mais nela mesma, porque ainda precisa que seja assim.

O poder, nas mãos de quem ainda não pode, é sempre perigoso demais.

Explode.

Democracia, então, é um complicado projeto dos adultos.

Direitos Humanos são frutos de muito trabalho e pensamento, daqueles que, além da própria dor, um dia se viram chorando diferente porque choravam as dores do mundo.

E liberdade é diferente de fazer tudo o que queremos ou exterminar tudo o que não queremos; liberdade é poder sentir, tolerar, pensar bem e, finalmente, – e isso é muito importante – escolher as melhores ações. Poder se posicionar.

Tornar-se civil é aprender a considerar a necessidade do outro, é enxergar e cuidar dos diferentes mundos que cabem num só, por mais estranhos que possam parecer, por mais medo e ódio que possam gerar.

Democracia e Direitos Humanos, sim.

Violência e discriminação, não!

Não mais.

Eduardo de São Thiago Martins é psicanalista e psiquiatra, atual presidente da Associação dos Membros Filiados ao Instituto Durval Marcondes da SBPSP e colaborador do núcleo de psicanálise do serviço de psicoterapia do IPq-HC FMUSP.

Narciso sob a tinta

*Vera Lamanno Adamo

Por que publicamos experiências vividas na clínica? Escrevemos porque aquele algo da experiência vivida pode ser útil para pensarmos o que falta, o que ainda não foi dito? Escrevemos por conta do espanto? Para abrir um espaço onde se está sempre a desaparecer?

Uma paciente frequentemente dizia que a grande preocupação de um poeta era saber se aquilo que havia escrito era poesia. Na poesia, salientava, o autor está praticamente imperceptível. Por isso, insistia em afirmar que: “a crônica, uma espécie de diário, é considerada uma escrita de segunda categoria. Na crônica, o escritor está todo lá, sem nenhuma invisibilidade”. Para ela, poesia era fruto de um processo intelectivo altamente planejado e consciente, completamente desligado da pessoa do autor. O autor estaria completamente desaparecido por trás de sua obra.

Este argumento sobre o que considerava ser poesia era condizente com o seu ideal de eu fundamentado numa espécie de assepsia do ser. Obstinada a rejeitar qualquer alteração em si, nunca ou muito raramente perdia a paciência. Jamais uma palavra áspera para alguém. Não se queixava, não reclamava, não criticava ninguém, não se zangava com ninguém de maneira evidente. Não mostrava qualquer desapontamento em relação a mim ou em relação às pessoas de sua convivência.

Um dia ela me trouxe uma de suas poesias e ficou absolutamente inquieta ao perceber a totalidade de sua presença naquilo que escrevera. Desejo, conflito e fantasia estavam todos lá. É certo que sob a tinta e meio de canto, nas entrelinhas, enviesados. Mas estavam todos lá.

Cada vez que colocamos no papel uma experiência clínica, a questão da inclusão e exclusão do narrador naquilo que escreve se apresenta. Tomado por um ideal de assepsia, envolto numa espécie de armadura, escreve-se um texto inteligente, erudito, controlado. Quase nada se transmite de si para si, de si para o outro. Uma escrita imóvel, estática, uma narrativa que não abre para o desconhecido, aquele desconhecido que entra e atrapalha.

Se eu tivesse que advogar sobre a escrita psicanalítica, defenderia a ideia de que fosse feita com menos erudição e mais crônica.

A palavra crônica se origina do latim Chronica e do grego Khrónos (tempo). O significado principal neste tipo de texto é precisamente o conceito de tempo, ou seja, é o relato de um ou mais acontecimentos em um determinado período. É a narração do cotidiano das pessoas, fazendo com que se veja de uma forma diferente aquilo que parece óbvio demais para ser observado. Uma boa crônica é rica nos detalhes, descritos pelo cronista de forma bem particular, com originalidade.

A crônica, na maioria dos casos, é narrada em primeira pessoa, ou seja, o próprio escritor está “dialogando” com o leitor, não está falando do “alto”, está sentado ao lado do leitor num meio-fio.

Geralmente, as crônicas apresentam linguagem simples, espontânea, situada entre a oral e a literária. Isso contribui também para que o leitor se identifique com o cronista, que acaba se tornando o porta-voz daquele que lê. Com base nisso, o cronista pode ser considerado o poeta dos acontecimentos do dia-a-dia.

O cronista Werneck (2011), na abertura de seu livro Esse inferno vai acabar, afirma que em Minas Gerais não acontece nada, mas o pessoal se lembra de tudo. Nesta frase, está contida uma das mais instigantes definições do gênero. O não acontecimento, o comezinho, a miudeza que são a matéria prima da crônica.

A repórter Eliane Brum, anos atrás, foi escolhida por Marcelo Rech um diretor de redação que buscava inovação para o jornalismo brasileiro, para um desafio: extrair crônicas reais de pessoas comuns e situações corriqueiras. Ela capturou a ideia e escreveu uma série de reportagens sobre personagens e cenas cotidianas em forma de crônicas da vida real, transformando-as numa coletânea de quarenta e seis colunas por quase onze meses.

Aí encontramos uma repórter que não está à procura do espetacular, mas à procura de histórias escondidas na vida anônima de cada um. A vida que ninguém vê (2006), mas que Eliane viu, é um mergulho no cotidiano para provar que não existem vidas banais.

Assim como o cronista, o psicanalista escreve sobre o humano inspirado nos acontecimentos diários de um processo de análise. Com o olhar inspirado no cotidiano de sua clínica, as histórias de um paciente ou de um processo de análise nos inquietam e nos despertam para outras histórias, ideias, pensamentos. O resultado, quando tudo corre bem, é uma espécie de conversa que revela a humanidade dos personagens e a nossa própria.

A escrita psicanalítica com mais crônica e menos erudição é móvel, transitiva, inquietante, se cumpre sem um total planejamento intelectual e consciente, inspirando continuar falando de uma voz que não quer se apagar. Quanto mais se vê, mais se quer enxergar.

*Texto publicado na íntegra no Jornal de Psicanálise 50 (92), 91-97, 2017

Referências
Brum, E. (2006). A vida que ninguém vê. Porto Alegre: Editorial Arquipélago.
Werneck, H. (2011). Esse inferno vai acabar. Porto Alegre: Arquipélago Editorial.

*Vera Lamanno Adamo é membro efetivo e analista didata do GEPCampinas e da SBPSP.

 

 

 

Solidão em cena

Ontem pela manhã eu saí sozinha. Tinha coisas para fazer  e aproveitei para ir a uma exposição. Tive ímpetos de chamar amigas, amigos, até tentei, estavam ocupados. Não me sentia sozinha, estava acompanhada pelos amigos, pelos meus pensamentos, por cada artista sobre cuja obra me detinha, com quem eu parecia estabelecer uma comunicação, não virtual, anímica, se posso chamar assim. A semana passada, porém, não fora tão animada assim. Em um dos meus grupos de WhatsApp a discussão sobre política ferveu. Até tentei acalmar os ânimos – inutilmente, devo confessar, propondo que as diferenças fossem respeitadas. Nesse momento, o sentimento de solidão abateu-se sobre mim: quem eram aquelas pessoas? Que orientação de vida tão diferente da nossa juventude de militância universitária.

Gostaria de discorrer sobre o sentimento de solidão, que não está apoiado na ausência de pessoas, mas antes na qualidade de relação estabelecida e internalizada. Melanie Klein tem um texto “Sobre o sentimento de solidão” (1963), no qual tece elaborações sobre a fonte do sentimento de solidão, referindo-se não à situação objetiva de privação de companhia externa, mas, antes ao sentimento de solidão interior, que pode surgir mesmo em companhia. Para a autora, a relação inicial com a mãe implica um contato íntimo entre o inconsciente da mãe e o da criança e este contato será o alicerce para a vivência de compreender e ser compreendido. Porém, como esta vivência está baseada no estágio pré-verbal, geraria um anseio futuramente de uma compreensão sem palavras, que contribui para o sentimento de solidão e, derivado de um sentimento de perda irrecuperável. O que pretendo enfatizar é a necessidade de um bom contato inicial (que depende tanto das condições da mãe, quanto das do bebê) para garantir a introjeção de um bom objeto que será futuramente um bom objeto interno, que poderemos contar na vida adulta. Para que o outro  me acompanhe, é vital que eu esteja “de bem” com este objeto interno.

Antes, porém, necessito situar nossa subjetividade historicamente. Para Kollontai, na base da nossa psique está a forja individualista que começa na família e estende-se a todos os aparelhos ideológicos do poder capitalista, da escola à Igreja, à mídia e por todos os poros. Esse é o ar que nossa subjetividade respira. A base do capitalismo está ancorada no individualismo: elementos importantes da vida comunal ou tribal ancestral, não são substituídos por relações sociais coletivas, de aproximação espiritual entre as pessoas: isto é, nas grandes e pequenas metrópoles do capital emergem e prevalecem relações humanas que, em regra, nada se parecem com solidariedade nem camaradagem. Ao contrário disso, desde o berço até o final da vida adulta, o imperativo de relações de propriedade, de competição e mesmo de posse entre pessoas e obviamente opressão, passa a ser uma norma. Uma espécie de “lei da selva” passa a ser naturalizada. O processo de acumulação do capital necessita, retroalimenta e se funda nesse marco, e assim funciona o mercado, a mercadoria. (http://www.esquerdadiario.com.br/Alexandra-Kollontai-e-a-solidao-da-sociedade-moderna).

Uma expectativa de um sujeito centrado, autossuficiente, capaz de ser produtivo full time! Ora, sabemos desde que Freud construiu a psicanálise, que existem condições extremamente delicadas para que o infans possa chegar ao estatuto de sujeito. Nossa constituição depende e se direciona para o outro. Para Freud (1972, p.118), o mal-estar a que o sujeito se vê submetido para ingressar na civilização está relacionado à repressão de suas pulsões·. Acontecimentos de toda sorte ameaçam a integridade de cada um de nós, e a ocorrência de fatos traumáticos – que excedem a capacidade psíquica do indivíduo avolumam-se de tal maneira com a desestruturação da família e dos costumes, que nos vemos assoberbados por questões que certamente não inquietavam os contemporâneos de Freud, na sociedade austríaca do começo do século XX.

Para restringir um pouco o problema, vou tratar de duas repostagens recentes que me chamaram muito a atenção e que trazem as duas populações mais desfavorecidas: os bebês e os idosos.

Tomemos o caso de uma mãe, cujo bebê nasceu prematuro (com apenas 12 semanas de gestação, devido a uma pré-eclampsia, pressão alta, etc.). Esta mãe , doutora em ergonomia e em franca sintonia com seu filho, criou uma luva preenchida com sementes, que serviria de consolo ao filho na sua ausência. Ela carregava a luva consigo para impregná-la com seu próprio aroma, afim de que bebê pudesse sentir sua presença pelo olfato. A luva forneceu conforto ao bebê e também ajudou na autorregulação da respiração, bem como reduziu os episódios de falta de oxigênio. Então esta mãe pensou nos outros bebês  criou o site:

Esta mãe criou condições para que o bebê , sentindo a presença dela, pudesse ter experiências positivas, de modo a desenvolver um bom objeto interno.

No extremo oposto, observamos que a população de idosos vem crescendo mundialmente e a solidão é um grande problema a ser encarado. Podemos pensar quantos sujeitos atravessam a vida de modo precário, em termos psíquicos, contando sabe-se lá com quais defesas, muitas vezes criando família e restringindo-se a ela. Outras vezes desentendendo-se com as pessoas e isolando-se progressivamente. Criar laços de amizade duradouros implica em capacidade psíquica para tolerar altos e baixos, frustrações e gratificações, encontros e separações.

Em matéria recente , temos a noticia que no Reino Unido acaba de ser criado um Ministério para Solidão. Thereza May classificou o problema como “triste realidade moderna”. Lá é estimado que quase nove milhões de pessoas sentem-se sozinhas, incluindo casos em que a pessoa pode ficar meses sem conversar com ninguém!

Dependemos do outro e da nossa capacidade de estabelecer uma boa relação por toda a nossa vida. O mundo humano é o mundo das relações que estabelecemos na vida e  carregamos dentro de nós.  Sem dúvida, a capacidade de amar é uma construção desde o nascimento. Pessoas que tiveram traumas importantes no começo da vida começam desfavorecidas; muitas vezes o caminho que encontram é o isolamento afetivo, porém é o que chamamos de solução defensiva. Crianças bem cuidadas aceitam melhor os cuidados de professores do que as que foram largadas à própria sorte. Como podemos ver tema extenso e complexo, porém fundamental!

 

Elisabeth Antonelli: psicóloga, psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, membro associada da Sociedade Brasileira de Psicanálise, professora do COGEAE, da PUC-SP e do Instituto Sedes Sapientiae, autora do livro: “Os Sentimentos do Analista: A Contratransferência em Casos de Difícil Acesso”, ed. Zagodoni, além de artigos em revistas científicas.

 

A instabilidade e o fracasso das negociações

A Sociedade Brasileira de Psicanálise colabora com a Revista Psique.  

Abaixo, trechos do artigo de Ricardo Trapé Trinca* para a revista Psique nº 140, de outubro de 2017

(…) a vida, inevitavelmente, impõe duas tendências conflitivas e antagônicas, com as quais todos têm de lidar: os desejos – e necessidades – de toda espécie, que são sentidos às vezes com grande intensidade, e uma realidade que constantemente frustra esses desejos e imputa condições nem sempre fáceis para suas realizações. E isso faz com que se tenha que negociar, a todo o tempo, entre o dentro e o fora (…)

Viver em nosso tempo é, inevitavelmente, negociar com uma pluralidade de situações e acontecimentos internos e externos. Vivemos em uma época histórica marcada pelo predomínio da negociação, como parte do espírito do capitalismo, e isso é também um modelo mental. Mas, dependendo das circunstâncias, torna-se muito difícil ou até mesmo impossível negociar. Os fracassos nas negociações são tema recorrente dos psicanalistas, nas formas de traumas psíquicos, splittings, neuroses de toda espécie e psicoses. O trabalho do psicanalista consiste em grande parte de cuidar das formas do mal-estar baseadas nos fracassos das negociações possíveis do sujeito consigo mesmo e com o mundo, não para torná-lo adaptado, mas para ajudá-lo a dar-se conta de sua diversidade interior e poder sê-la no mundo da cultura. No splitting, partes autônomas não se relacionam mais com o restante do psiquismo, procurando resolver suas necessidades de satisfação, independentemente de outras negociações.

A indústria da informação, na sociedade contemporânea, tende a se comportar como uma indústria do entretenimento (…) tendo a função de oferecer passatempo e prazer, ao invés de criar condições para que o homem contemporâneo conviva com a diversidade da cultura e de si mesmo (…) É improvável que uma pessoa que não consiga conviver com a alteridade cultural, possa ter um contato consigo mesmo que não seja derivado de formas de autoritarismo, um autoritarismo do eu, que procura afirmar sua hegemonia e força imaginando que, assim, se tornaria independente e autônomo. No entanto, aquilo que parece uma autonomia é, na verdade, uma alienação em relação a vida mental, que foi calada ou silenciada a ponto de não mais saber quais seriam suas reivindicações.

*Ricardo T Trinca é psicanalista, doutor em psicologia clínica pela USP, membro filiado ao instituto “Durval Marcondes” da SBPSP e autor do livro “A Visitação do Real nos Fatos Clínicos Psicanalíticos” (Edusp). E-mail: ricardotrinca@hotmail.com