psicopatologia

Como funciona a mente de um corrupto

Coordenadora da Comissão de Ética da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, a psicanalista Cibele Maria Moraes di Battista Brandão concedeu uma entrevista de fôlego ao jornal mineiro “Diário de Caratinga”, que propôs a Cibele o desafio de traçar o perfil de quem pratica atos de corrupção, tema que continua como pauta prioritária na imprensa brasileira.

Leia a seguir a íntegra da entrevista.

Do ponto de vista da psicanálise, como pode ser interpretada a corrupção?

A corrupção pode ser vista a princípio como um tipo de loucura, de comportamento desviante, antissocial e perigoso. Nesse sentido, o sujeito privilegia só a si, até mesmo em situações em que ele foi escolhido ou eleito para trabalhar pelo bem comum. A corrupção se define pela perversão – ao invés de procurar o bem comum, ele busca tão somente seu enriquecimento e interesses individuais. A corrupção de objetivos não é só um fenômeno social e nem só um fenômeno individual. Podemos pensar no dito popular que diz “a ocasião faz o ladrão”. Precisamos da ocasião e precisamos do ladrão em potencial. Ladrão de que? Ladrão de uma falsa segurança.

O corrupto age motivado por um fator emocional ou ele é extremamente calculista/racional?

As duas coisas. Ele age motivado por um fator emocional que o faz ser calculista. Ele quer alcançar poder, dinheiro, prestígio. Como o “drogadito” que necessita da droga, ele não pensa. Age só em busca de seu objetivo. Ele quer o objeto que imagina lhe trará a solução de todas as suas aspirações narcísicas. Ele apenas quer alcançar seu objeto de desejo por idealizá-lo. A droga trará a solução mágica de tudo, assim como para o corrupto o poder,o dinheiro, o prestígio, o salvarão de todos as dores e inseguranças que o viver traz para qualquer ser humano. Ele não prioriza e nem valoriza o aprender pensar, construir recursos, viver uma vida ética. Esses valores tornam-se para ele pueris e ingênuos. A palavra ética deriva do grego “éthiké”, derivada por sua vez de ethos que significa caráter, hábito, modo de vida. A eticidade constitui-se da formação do caráter de cada indivíduo.

O corrupto tem a consciência de que está cometendo um ato que é amplamente reprovado pela sociedade?

A Psicanálise em sua prática procura compreensão de cada indivíduo como sendo único e exclusivo. Há pessoas que podem ter consciência e outras que absolutamente vivem como sendo natural participar de um esquema vigente. Na base do sempre foi assim e assim será… Se o corrupto vem de um meio que tenha regras sociais que advogam pela ideia da vantagem a consciência fica alterada. Ele passa a viver como sendo natural receber vantagens, sempre. É diferente o processo de conscientização de uma criança cujos pais desde cedo ensinam que o que pertence ao outro, ao coleguinha, é do outro… Os traços anti-sociais de um indivíduo, tais como não entender que seus atos são antiéticos e reprováveis, são resultantes de um déficit na estruturação do superego, instância da mente que tem um papel assimilável ao de um juiz ou censor interno, que tem consciência moral na auto observação, na formação de ideias e princípios. Essa instância constitui-se pela interiorização das exigências e interdições parentais. Esse déficit faz com que a consciência moral e ética não se instalem adequadamente. Não há o medo da autoridade externa, que é entendida como inexistente ou permeável conforme o seu desejo.

As pequenas “trapaças” diárias que usamos como comprar produto pirata ou apresentar um atestado falso podem ser consideradas como atos de corrupção?

A corrupção deve ser considerada não apenas nas investigações que vemos desfilar toda noite na nossa sala de TV, justamente no momento de descanso após exaustivo o dia de trabalho, quando nos sentamos para relaxar. A corrupção não está só nos macro acontecimentos, mas também nos pequenos delitos do cidadão comum, que se desvia da verdade para obter às vezes inúteis vantagens. Precisamos pensar que nessas pequenas situações, se bem conduzidas, trazem sementes de prevenção. É prevenção quando ensinamos um filho a não pagar “propinas” para favorecer trâmites burocráticos. Tendemos a pensar que é corrupto apenas quem recebe a propina e nos esquecemos de quem dá a propina. Destruímos nesse momento a possibilidade de se ter o contato com a verdade, que pode ser difícil, mas traz o germe do fortalecimento quando é enfrentada.

Se compararmos o corrupto que atua individualmente àquele que atua em conjunto (por exemplo, em uma quadrilha) podemos considerar que o comportamento de ambos seja o mesmo?

Em 1930, em seu importante trabalho o Mal-estar na Civilização, Sigmund Freud descrevia três motivos para o homem ter dificuldade no convívio social e também para a impossibilidade de ser feliz:

1 – Pela fraqueza humana frente às forças da natureza impossíveis de serem dominadas.

2 – Pela fragilidade de nossa constituição física que nos leva a adoecer, envelhecer e morrer.

3 – E por fim, pelo sofrimento advindo da convivência com os outros seres humanos.

Nessa constelação proposta, o ser humano está fadado a conviver com o medo, a insatisfação e a insegurança. O corrupto, seja ação individual ou em conjunto, tenta fugir dessa condição. Mas foge buscando meios mágicos como o enriquecimento ilícito que na verdade o enfraquece e expõe. Em uma vida assim, não há espaço para falarmos em crescimento, transformação ou criação de recursos mentais para lidar com a vida, que não é fácil. A busca pela felicidade tem que passar por algo que não seja só o que venha do externo. Há alguns meses atrás circula no youtube uma belíssima entrevista do ator argentino Ricardo Darin a um repórter da TV espanhola. Esse repórter surpreendeu-se com a recusa de Darin a um trabalho que veio de Hollywood. Darin não quis aceitar só porque poderia ganhar uma soma considerável de dinheiro. Ele queria mais do que tudo voltar para casa e estar com a família, com sua rotina… A entrevista vale a pena ser vista.

Muitas pessoas dizem que não existe político que não seja corrupto, pois ao serem eleitos, acabam “caindo” no sistema. Do ponto de vista da psicanálise, como a senhora analisa essa afirmação?

Como dissemos, a Psicanálise em sua prática tenta aproximar-se para conhecer aquilo que é único e exclusivo para cada pessoa. A Psicanálise não generaliza ou rotula. Não descreve afirmando que o corrupto é assim…. Entende que cada pessoa tem uma estruturação própria. Dizer que não existe político correto seria uma generalização preconceituosa. Em qualquer atividade ou profissão há todo tipo de pessoa. Não estamos aqui dividindo em duas categorias: os mocinhos e os bandidos. Dentro de todo ser humano há uma gama de bondade e maldade, desenvolvimento e decadência, etc., mas muito importante é a direção que se quer dar para a própria evolução. Todas as pessoas estão sob a égide de uma dualidade instintual. Por um lado, estão imbuídas de amor e construtividade e, por outro, mesmo involuntariamente, são constituídas por ódio e destrutividade. O que determinará uma boa evolução será uma interação entre o ambiente propiciador de crescimento e, internamente, seu desejo de se aproveitar do potencial de evolução. Acrescento que um excesso de ambição e desejo de enriquecer muito pode levar o ser humano a um lugar obscuro.

O corrupto acredita que possa ser responsabilizado por seus atos ou ele age pensado na impunidade?

No começo dessa entrevista dissemos que a corrupção é uma espécie de loucura e, como tal, afasta o indivíduo da realidade. Se uma pessoa é “ousada” acima do bem e do mal, podemos dizer que sua consciência é deteriorada. Mas o que dizer de uma realidade vivida até recentemente em que havia a impunidade? E que essa realidade não era um delírio e sim uma constatação que nos fazia afirmar sempre que a cadeia seria somente para pessoas socialmente desfavorecidas.

A corrupção pode ser considerada uma doença?

Sem dúvida nenhuma. E justifico. Tudo aquilo que se afasta da realidade e aproxima do mágico e do idealizado prejudica imensamente a pessoa, que crê, assim, que desse modo estaria encontrando a realização e a felicidade. Penso também ser necessário para responder essa questão que tentássemos definir o que é uma doença do ponto de vista da mente. A psicopatologia é um termo utilizado para designar os distúrbios do psiquismo humano. Uma das causas desses distúrbios originam-se de um sofrimento intenso frente ao qual a pessoa não consegue construir recursos para lidar com a demanda da vida. Porém, não é só isso. O assunto é muito amplo. Há outras causas para os distúrbios da mente, inclusive causas de desequilíbrio bioquímico que necessitam serem medicadas. De qualquer forma, um desequilíbrio leva a uma interrupção do desenvolvimento e evolução da pessoa e essa quebra caracteriza uma doença pois prejudica o indivíduo na sua aquisição de recursos para enfrentar a vida que, a cada etapa, torna-se mais complexa. O propósito fundamental de uma relação terapêutica seria o de ajudar a pessoa que busca esse tratamento a fazer mudanças que lhe possibilitem viver sua vida de modo mais plenamente humano, e que a pessoa possa retomar seu desenvolvimento.

Cibele M. M. Di Battista Brandão é membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), membro do Núcleo de Psicanálise de Marília e Região NPMR) e docente dessas instituições. Atualmente, coordena a Comissão de Ética da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Minha vida (não) é um tédio

A sensação de vazio entediante que faz a existência parecer uma sequência estéril de dias sem qualquer sentido tem a ver com a falta de “criatividade psíquica”, que destrói a imaginação e o interesse real pelas coisas da vida.

Minha vida (não) é um tédio

Por Marion Minerbo*

Todos nós nos entediamos em situações específicas como passar horas no trânsito, num aeroporto, ou em uma festa em que não conhecemos ninguém. Mas o tédio que interessa ao psicanalista é aquele ligado à sensação crônica de vazio existencial: a pessoa sente que a vida não tem sentido, nada é vivido como significativo nem parece valer a pena. A vida é uma sequência estéril de dias e a pessoa não sabe o que fazer consigo mesma. Há um sentimento penoso e estranho de que o eu é construído artificialmente “de fora para dentro”, e não “de dentro para fora” com experiências genuínas, verdadeiras, com lastro.

O tédio costuma ser confundido com a depressão, mas são vivências diferentes. Na depressão o sentimento é de perda e de tristeza: havia algo que iluminava a existência, e este algo foi perdido. O deprimido não se sente vazio, mas “cheio de tristeza”, o que pode ser uma reação muito saudável diante de uma perda. Ele continua sonhando em recuperar aquilo que perdeu, enquanto o problema do entediado é que ele não sonha com nada. O mesmo afeto também costuma ser confundido com uma insatisfação com a vida. Até certo ponto, ela é positiva porque pode ajudar o insatisfeito a mudar de vida. Já a pessoa entediada vive um simulacro de vida. Ela ainda não conseguiu criar uma vida própria “de verdade”. Se “mudar de vida”, provavelmente em pouco tempo voltará a se sentir entediada.

Para não sofrer de tédio, muitas pessoas se lançam em atividades frenéticas, ou ao contrário, desligam-se dormindo muito. Podem usar drogas, ou então parasitar a vida dos outros. Celulares e redes sociais podem ser usados para disfarçar a sensação de vida vazia e sem sentido. (Note, porém, que esses mesmos estímulos podem ser usados de modo muito criativo). Quando, por qualquer motivo, esses recursos não estão disponíveis, o tédio se agudiza. Isso porque eles funcionam como “acompanhantes” que dão uma sustentação psíquica no tempo e no espaço. Quando faltam, a pessoa se sente largada de repente: ela cai e se esborracha brutalmente no vazio.

É a falta radical de criatividade psíquica que mata a imaginação e o interesse pelas coisas da vida, originando o vazio e o tédio. Criatividade, aqui, não tem nada a ver com ser artista ou descobrir soluções criativas para problemas. Trata-se da capacidade de criar algum sentido para a vida, de acreditar em um motivo para sair da cama cada manhã. Uma criança com um desenvolvimento psíquico normal não se entedia, pois é capaz de pegar qualquer coisa, uma tampinha de garrafa, e imaginar uma brincadeira com aquilo. A criatividade é a função psíquica mais importante porque “ilumina” nossas vidas. E então qualquer coisa pode se tornar interessante, envolvente e valiosa.

* Marion Minerbo é psicanalista, analista didata e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Autora dos livros Neurose e Não-Neurose (Ed. Casa do Psicólogo), Transferência e Contratransferência (Ed. Casa do Psicólogo) e Diálogos sobre a clínica psicanalítica (Ed. Blucher), que será publicado no início do segundo semestre.

Drogas, solidão e confusões

A dependência química é uma das mais graves formas de adoecimento mental e seus efeitos, geralmente, se alastram para muito além do indivíduo que consome a droga. Trata-se de uma questão de saúde pública, que repercute nas diferentes esferas sociais. Recentemente, o jornalista britânico Johann Hari publicou um segundo trabalho acerca do tema, sugerindo novas hipóteses sobre o vício que, se corretas, transformariam toda a estratégia dos profissionais envolvidos no combate às drogas. O artigo abaixo, da psiquiatra e psicanalista Adriana Rotelli Resende Rapeli, faz uma breve análise sobre o estudo e as suposições de Hari. Para quem se interessa pelo tema, vale a leitura!

Drogas, solidão e confusões.  

Por Adriana Rotelli Resende Rapeli*

Um amigo pediu minha opinião sobre o livro “Chasing the Scream”, do jornalista britânico Johann Hari, tal como vinculado pelas redes sociais há algumas semanas. Veja matéria aqui.

Pelo que li na internet, o jornalista entende que há razões sociais e políticas para que as drogas tenham sido proibidas nos EUA, há aproximadamente 100 anos. Os argumentos do artigo se baseiam em entrevistas que ele fez ao redor do mundo com pessoas que foram ou eram dependentes químicos e em resultados de experiências com ratos de laboratório, que mostravam que estes consumiam menos a água que continha substâncias químicas se houvesse mais ratos e opções de atividades em suas gaiolas. Completa citando a diminuição do consumo de heroína quando os soldados que lutaram no Vietnã voltavam para casa. Conclui que a dependência química seria causada pela solidão, pelo estresse e pela falta de opções sociais. E que a guerra às drogas, portanto, estaria usando estratégias equivocadas.

Eu me dispus a refletir sobre o assunto, sabendo que corro o risco de, do mesmo modo que a informação descontextualizada da internet e com objetivos de propaganda, causar efeitos reducionistas e simplificadores.

Na geração atual ou em antecedentes, raro é que alguma família em nosso meio não sofra com problemas mentais, entre eles a dependência química. O discurso de culpa está presente em muitas das famílias de dependentes químicos que atendi. Culpa que sobrepõe à rejeição, mágoas e ressentimentos que o dependente químico provocou ao longo de décadas. As frustrações repetidas tanto em relações familiares quanto na sociedade provocam o pior de nós mesmos, e as reações muitas vezes são de vingança, raiva e crueldade. Há um impasse: ou não conseguimos cuidar e daí somos mal cuidadores, ou a pessoa é má e merece o mau tratamento. Oscilamos entre a culpa e a raiva e desenvolvemos defesas emocionais diante de sofrimento, como a negação.

A situação não é simples. Não dá para equiparar humanos a ratos de laboratório. Embora essas experiências ampliem o entendimento dos mecanismos de ação de drogas, não dá para equiparar humanos a ratos, não somos só pavlovianos. Há que se considerar questões de personalidade e questões psiquiátricas que, juntas, desencadeiam, se somam ou pioram o quadro. Há fóbicos e deprimidos que desenvolvem dependência do álcool. Assim como indivíduos com transtornos de personalidade antissocial podem desenvolver múltiplas dependências. São tantas as variáveis que não se pode restringir a questões sociais mesmo que elas sejam sim importantes fatores que agravam tais condições. A solidão pode ser causa, mas também consequência da dependência química.

Do ponto de vista mais psicodinâmico, mesmo na dependência do cigarro vemos uma condição emocional de regressão, baixa tolerância a frustração, dependência e passividade (ainda que travestidas de hiperatividade). Débil vitalidade, histórias pessoais com retalhos de vivências de perda parcamente elaboradas e um escasso sentido de individualidade estão entre as configurações emocionais que comumente encontramos nos dependentes químicos.

Os casos mais benignos respondem positivamente – como na experiência do ratinho da gaiola –, quando expostos a uma maior diversidade de opções e atividades. Ou como os soldados que voltam da guerra e saem do medo e privações para uma estrutura social mais segura e confiável.

Mas a maioria das pessoas continua em sua guerra implacável, em que não há vencedores. E se restringem a comportamentos de adição de drogas que se tornam irracionais e limitadores, como o rato da gaiola vazia. Seu mundo assim se torna, vazio, nada existe, mesmo que a família, amigos e profissionais de saúde ainda estejam por perto.

Somos seres despreparados para a vida emocional, quando esta requer recursos ainda não desenvolvidos. Usamos drogas. E somos também seres despreparados para cuidar dos que estão sofrendo e adoecendo. Teremos que continuar buscando o grito (chasing the scream), ouvi-lo entendê-lo, traduzi-lo e talvez continuar colhendo mais perguntas do que respostas.

*Adriana Rotelli Resende Rapeli é psiquiatra, psicanalista pela SBPSP e SBPRJ.

Psiquiatria e psicanálise: É possível um diálogo?

Em que medida a psiquiatria e a psicanálise – campos de conhecimentos distintos – podem ser utilizados em conjunto no tratamento dos transtornos mentais? É possível um diálogo fecundo entre as duas disciplinas, tendo em vista os métodos próprios de cada uma delas?
Sobre o tema, vale conferir o ótimo e esclarecer artigo da psicanalista Thais Blucher, membro da SBPSP.

Psiquiatria e psicanálise: É possível um diálogo?

Por Thais Blucher*

Recentemente, numa reunião de psicanalistas, um colega foi criticado quando relatou que determinados pacientes em análise necessitavam de um acompanhamento psiquiátrico concomitante. Num outro evento, em conferência num hospital, ouviu de uma colega psiquiatra que ela contraindicava psicanálise para pacientes mais graves que poderiam piorar com o método.

Esse relato parece ilustrar a dificuldade de diálogo que se intensificou nos últimos anos – um confronto entre as correntes biológicas e as correntes psicológicas – no tratamento dos distúrbios mentais.

A psiquiatria e a psicanálise são disciplinas distintas.
A psiquiatria é uma especialidade médica que estuda e trata os transtornos mentais tanto com medicamentos quanto com métodos psicoterápicos. Os psiquiatras, em sua formação, estudam a anatomia, a fisiologia das estruturas neuronais e as patologias da mente. Aprendem a bioquímica do comportamento e toda a farmacologia. Têm durante sua formação um panorama geral das abordagens distintas de psicoterapia, sendo a psicanálise uma delas. Caso o psiquiatra tenha a intenção de se tornar psicanalista deverá fazer uma formação em psicanálise nas diversas instituições reconhecidas.

Já a psicanálise nasce da medicina, com Freud, médico neurologista de Viena que, na escassez de recursos para tratar o sofrimento de seus pacientes, cria uma nova abordagem terapêutica, descolada da anatomia e fisiologia. Já na sua origem, a psicanálise se distancia do modelo médico da época.

Baseado em observações clínicas, Freud elaborou um modelo para elucidar o funcionamento mental e a formação dos sintomas, embora acreditasse que as explicações biológicas pudessem um dia ser alcançadas para explicar as transformações numa análise. Já nos primórdios ele valorizava a filosofia e a literatura como importantes conhecimentos para a prática psicanalítica. Se no início da psicanálise seus interlocutores são médicos, rapidamente ela vai agregando vários interessados de outras áreas. Em 1926 Freud publica um artigo em que defende a prática da psicanálise por não médicos, distanciando ainda mais essa disciplina de uma prática médica.

Durante a primeira metade do século 20, houve um grande domínio da psicanálise nos tratamentos psiquiátricos ambulatoriais, particularmente a psiquiatria Americana.

Na década de 50, surgiram os primeiros medicamentos psicotrópicos e, nas décadas seguintes, ao mesmo tempo em que as drogas progressivamente entravam na prática ambulatorial, também aumentava a polarização da psiquiatria entre os campos “biológico” e “psicológico”. Com o avanço das diretrizes diagnósticas e da metodologia das pesquisas, a medicina cada vez mais passou a ser baseada em evidências, território no qual os estudos com psicofármacos desenvolveram-se imensamente (muito incentivados pelos recursos da indústria farmacêutica).

Desse modo, comparativamente, a psicanálise, apoiada num paradigma muito diferente do tratamento medicamentoso, pouco pode provar sobre o quanto ela conseguia curar, prevenir ou retardar o curso dos transtornos mentais. Como consequência, a psicanálise foi se distanciando da comunidade médica, dando espaço para psicoterapias mais breves, mais simples de serem avaliadas como, por exemplo, o método cognitivo.

Como será que estas disciplinas conversam?

A psicanálise se propõe a compreender os sintomas por meio do método da associação livre, em que o paciente fala o que lhe vem à mente e o psicanalista tenta dar sentido ao relato, supondo que desta forma o sofrimento ganhará uma compreensão e poderá ser elaborado. Um bom modelo seria o de um quebra-cabeça. O paciente traz vários relatos sobre si e juntos, paciente e analista, tentam encontrar a ligação entre as peças e assim dar instrumentos para o analisando lidar com as questões da vida.

Ora, se o paciente encontra-se numa crise intensa seja depressiva, maníaca, de ansiedade, num distúrbio alimentar ou outras, esse sofrimento pode retardar ou até impedir a evolução do processo.

Num texto interessante, dois colegas psiquiatras e psicanalistas Fiks e Santos Jr citam a pesquisadora Kay Redfield Jamison, uma das maiores especialistas no campo dos transtornos bipolares, ela mesma portadora da doença, que relata que quando estava em excitação ou depressão não conseguia produzir nada.

Ao contrário da cultura leiga que acredita que a aceleração produza mais ideias e a depressão mais conteúdo ao sofrimento, Jamison relata que a excitação é muito pueril e que a inibição depressiva traz um sofrimento exagerado. Dentro deste ponto de vista, a medicação psiquiátrica será um instrumento de colaboração ao atendimento psicanalítico, pois alivia o paciente do excesso de sofrimento e permite maior condição para o desenvolvimento da análise.

Por outro lado, as medicações psiquiátricas têm seus mecanismos de ação e sua farmacocinética bastante conhecidas, mas nem todos os sofrimentos são resolvidos com os psicofármacos, sugerindo que existam outros fatores, que não apenas os biológicos, contribuindo para o desencadeamento e manutenção dos sintomas.

A psicanálise poderá trazer outra versão para os acontecimentos da mente e buscar na compreensão dos processos mentais a origem e o desencadeamento dos sintomas. Pode inclusive contribuir na melhor aceitação do analisando para o uso da medicação, compreendendo as fantasias inconscientes que às vezes impedem a aderência ao tratamento.

Finalizarei citando Frey, Mabilde e Eizirik num artigo para Revista Brasileira de Psiquiatria: “acreditamos que, ao abordar os problemas mentais a partir de uma visão exclusivamente biológica ou psicológica, pode-se estar negando um tratamento mais adequado ao indivíduo que sofre. Um dos nossos desafios é reconhecer a complexidade e a multifatoriedade dos transtornos mentais e buscar meios em que se possa integrá-los ou, ao menos, desenvolver e manter um diálogo respeitando as especificidades de cada um. Talvez essa meta precise levar o tempo necessário para a elaboração do luto da perda da onipotência daqueles que (ainda) defendem o reducionismo”.

*Thais Blucher é psiquiatra, psicanalista e membro da SBPSP.

Pânico, desamparo e psicanálise

Dizem que somente quem já viveu uma crise de pânico sabe como é, dadas as dificuldades de se descrever em palavras o grau de angústia e sofrimento físico envolvidos. No contato com quem sofre do transtorno nós, psicanalistas, procuramos nos aproximar de sua experiência e fazê-lo reconhecer os sintomas e nomear os sentidos que deles advêm. Como isso pode ser feito? Veja abaixo o interessante artigo da psicanalista e membro da SBPSP, Norma Lottemberg Semer, sobre o tema.

Por Norma Lottemberg Semer*

O transtorno do pânico

Descrito pela psiquiatria contemporânea oficialmente desde 1980, quando apareceu no Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais (o DSM), o transtorno do pânico é também citado no Código Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (o CID-10), publicado pela Organização Mundial de Saúde.

O transtorno do pânico caracteriza-se por um período de intenso temor ou desconforto no qual quatro dos seguintes sintomas surgem abruptamente: palpitações ou ritmo cardíaco acelerado; sudorese; tremores ou abalos; sensação de falta de ar ou sufocamento; sensação de asfixia; dor ou desconforto torácico; náuseas ou desconforto abdominal; sensação de tontura, instabilidade, vertigem ou desmaio; desrealização (sensação de irrealidade) ou despersonalização (estar distanciado de si mesmo); medo de perder o controle ou enlouquecer; medo de morrer; anestesia ou sensação de formigamento e calafrios ou ondas de calor.

O pânico é uma reação de ansiedade em relação a sensações do próprio corpo. Enquanto nas fobias a pessoa sente ansiedade em relação a um objeto externo, no pânico ela fica ansiosa frente ao que sente em seu próprio corpo. Esta é uma das características centrais do pânico: os perigos vêm de dentro, vêm do próprio corpo, numa sensação de grande angústia.

Os sintomas sugerem que o indivíduo está sob ameaça de algo terrível, do qual precisa fugir, embora não haja perigo concreto aparente.

Em 1895, Freud descreveu a neurose de angústia nos mesmos moldes em que hoje é descrito o transtorno do pânico, com manifestações corporais e ataque de angústia, sem nenhuma representação psíquica, além de um sofrimento intenso. Freud assinala ser possível que o sujeito venha a recorrer “à interpretação que estiver mais à mão” (medo de morrer, loucura, crença no distúrbio de uma função corporal) como uma tentativa de configuração, de uma busca de explicação causal, que poderia reduzir sua angústia.

O transtorno do pânico pode parecer não possuir significado psicológico. Os ataques podem surgir “inesperadamente”, sem desencadeantes ambientais ou intrapsíquicos conhecidos. Por vezes a pessoa fala do pânico como algo totalmente alheio à sua experiência, à sua história, sem qualquer conexão com suas emoções ou com sua história de vida. Expressa-se como se tivesse uma virose ou sido contaminada por algo desconfortável, incômodo, estranho, alheio à sua pessoa.

Para a Psicanálise, entretanto, existe um sofrimento psíquico que precisa ser reconhecido, sobretudo pelo próprio paciente. É importante lembrar que Freud mostrou o desamparo como condição intrínseca do bebê humano ao lado da importância e da necessidade de um outro para que cada um de nós sobreviva e se desenvolva biológica e psiquicamente. Assim, o pânico corresponderia à angústia decorrente da percepção do desamparo e da impossibilidade de tolerar essa condição, algo sempre presente na experiência humana e não restrito aos tempos atuais.

Para o psicanalista, a tarefa seria levar o paciente a se envolver no seu sofrimento, a desenvolver interesse e curiosidade com o que acontece a si próprio, para que possa encontrar um significado nos seus sintomas.
Em geral os pacientes apresentam dificuldades frente à ameaça de perda de vínculos, intolerância às frustrações, dificuldade de pensar e conter seus estados emocionais, ao lado de fragilidade no senso de identidade pessoal e aspectos ligados à dependência.

O trabalho psicanalítico é uma experiência que pode auxiliar o desenvolvimento psíquico, expandir o mundo interno com maior participação de fantasias e de sentimentos. Assim, é possível que, ao longo do tempo, o paciente encontre outras formas de expressar e de lidar com seu sofrimento.

O objetivo do psicanalista é, então, despertar o interesse do paciente para seu próprio funcionamento psíquico, a partir de um encontro vivo entre duas pessoas que se comunicam. Por meio do acolhimento que ocorre nesta relação, espera-se que o paciente possa estabelecer vínculos mais consistentes consigo mesmo e com a vida.

*Norma Lottenberg Semer é psicanalista, membro associado da SBPSP, doutora em Saúde Mental e professora afiliada na UNIFESP.

PSICOSSOMÁTICA PSICANALÍTICA EM DEBATE

No dia 31 de outubro, a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo promoverá a 1ª Jornada de Psicossomática Psicanalítica. O encontro tem como objetivo apresentar os referenciais teórico e clínico desse campo de estudo que, além de nos oferecer novos vértices de observação, amplia a possibilidade de compreensão e do tratamento das psicopatologias contemporâneas.

O texto abaixo discute alguns dos conceitos principais dessa área de conhecimento e aborda qual a sua contribuição para uma compreensão mais ampla das patologias contemporâneas, nas quais o corpo está cada vez mais implicado.

1. Afinal, o que é a psicossomática psicanalítica?

Do ponto de vista teórico, a psicossomática psicanalítica constitui uma abordagem dos fenômenos psíquicos primitivos que podem ser observados nas psicopatologias psicanalíticas contemporâneas. Entre essas patologias, incluem-se as doenças psicossomáticas que se caracterizam por um comprometimento da constituição do narcisismo primário e do processo de simbolização. Há um déficit na transformação do corporal em psíquico, isto é, na aquisição da representação por meio da palavra. Em outras palavras, pode-se dizer que esta abordagem fornece ferramentas para a escuta corporal.

Nesse contexto, é fundamental reconhecer corpo e mente como uma unidade, um mesmo território, ocupado por estruturas psicossomáticas que se diferenciam pelos diferentes graus de complexidade psíquicas. Essa perspectiva de compreensão opõe-se às ideias vigentes da psicossomática médica, para a qual corpo e mente são tidos como duas estruturas separadas que se influenciam mutuamente.

De acordo com a Escola de Psicossomática de Paris, existe uma relação inversamente proporcional entre a gravidade dos sintomas somáticos e o grau de complexidade do funcionamento psíquico. Isso significa que, em quadros patológicos, quanto mais primitiva e menos complexa for a atividade psíquica e a capacidade de representação, mais poderemos observar alterações somáticas importantes.

Resumidamente, o princípio que rege o funcionamento psíquico dos pacientes que somatizam é a desorganização progressiva, um conjunto de movimentos profundos que atravessam toda a estrutura psicossomática e a negativizam. Ocorre uma espécie de apagamento gradual de todas as formações psíquicas, das mais às menos evoluídas, em consequência da fragmentação generalizada da rede representacional e da ruptura com as fontes pulsionais inconscientes, que pode se dar de forma mais ou menos acentuada. Para Pierre Marty, esses movimentos desorganizadores são decorrentes da pulsão de morte.

A desorganização progressiva desencadeia dois tipos de processos de somatização: a regressão somática e o desligamento psicossomático. Na regressão somática a desorganização se detém em determinado órgão ou segmento corporal, que serve de platô de fixação para que os movimentos evolutivos reorganizadores da pulsão de vida reconduzam aos níveis psíquicos mais complexos. A função do sintoma é deter o processo regressivo e criar as condições necessárias para que o psiquismo se reorganize. Ocorre nas organizações psíquicas neuróticas. Tais movimentos de regressão somática são sustentados pela libido.

Já o desligamento psicossomático refere-se a um processo de longa duração, no qual a regressão atinge os níveis mais primitivos da vida emocional inseridos no somático. Instala-se a doença somática que se cronifica e conduz o sujeito a graus significativos de incapacidade para a vida, podendo levá-lo à morte. Este processo decorre da perda dos valores libidinais e tem como maior consequência a liberação da destrutividade interna. Os parâmetros narcisista e quantitativo, por um lado, e a duração do estado de desligamento pulsional, por outro, concorrem para a instalação e a manutenção da doença somática.

As bases freudianas da psicossomática residem em dois conceitos fundamentais:
– a vida pulsional e as relações de estrutura e funcionamento das famílias de neuroses;
– a oposição entre neuroses atuais e psiconeuroses de defesa.
As pulsões são as operadoras da estrutura psicossomática: ao mesmo tempo a marca do orgânico e do psíquico, assegurando permanentemente o vínculo somato-psíquico. Isso se dá por meio de vias que se originam na geografia do corpo e que confluem ao psiquismo.

2. Como essa abordagem contribui para a compreensão e tratamento das patologias contemporâneas, nas quais o corpo está cada vez mais implicado?

A psicossomática psicanalítica, inicialmente, desenvolveu uma compreensão do funcionamento emocional nas somatizações. No entanto, com o decorrer do tempo, constatou-se seu maior potencial de abrangência. Seu corpo de teorias passou a dar conta também dos quadros psicopatológicos contemporâneos, nos quais há o comprometimento da constituição do narcisismo primário e falhas do processo de simbolização, o que dificulta a transformação do corporal em psíquico.

O corpo, assim, impera como palco da dor psíquica. Nas somatizações, o que se expressa é o corpo libidinal e o sintoma corporal não possui significado, uma vez que houve comprometimento na instauração do recalque primário, substituído pelos processos de recusa e cisão.

Tais conceitos nos auxiliam a compreender o funcionamento de indivíduos com dificuldade de sentirem e de se apropriarem das próprias emoções. Estas acabam por permanecer no corporal devido ao prejuízo da capacidade de representação. O mecanismo descrito é o que está na base das somatizações e dos quadros denominados de clinica contemporânea ou clinica do vazio.

Para os analistas, a dificuldade se encontra na precariedade dos processos de simbolização e mentalização que tais indivíduos geralmente apresentam. Em análise, isso se expressa na ausência da capacidade de associar e abstrair. O vazio interno é preenchido por uma verborragia sem fim, na qual não há espaço para, sequer, um momento de escuta. Fatos do cotidiano são contados sem ligação associativa, sem correlação, sem ligação afetiva. Pode-se observar ainda uma inercia total frente aos fatos da vida. Falta vitalidade, falta libido. Só há o corpo que dói e que se expressa por si, sem representação por meio da palavra. Denominamos esse quadro de depressão essencial, um importante referencial da psicossomática psicanalítica.

Nesses casos, uma das funções do analista é tentar estabelecer as correlações possíveis que se perderam.

3. Qual será o enfoque da Jornada e principais presenças/temas?

Nesta Jornada, duas conferências irão contextualizar a psicossomática psicanalítica na clínica contemporânea.

Diana Tabacof, membro da Sociedade Psicanalítica de Paris e do Instituto de Psicossomática de Paris, discorrerá sobre a psicossomática psicanalítica hoje: o modelo pulsional da Escola de Paris.

Mikel Zubiri, analista didata da Sociedade Psicanalítica de Madri, discutirá a abordagem psicanalítica dos pacientes somáticos graves.

Além das conferências, haverá três mesas redondas com a participação de colegas brasileiros que investigam e trabalham com este tema. O foco aqui é refletir sobre as relações da psicossomática com o narcisismo, com o meio ambiente e com a dor psíquica. Por fim, a apresentação de material clínico vai propiciar uma análise cuidadosa das vicissitudes da prática clinica, nesse campo.

Fontes:
Comissão Organizadora da 1ª Jornada de Psicossomática Psicanalítica da SBPSP: Victoria Regina Béjar, Candida Sé Holovko, Denise Aizemberg Steinwurz, Eliana Riberti Nazareth e Silvia Joas Erdos.

Schumann – sinfonia nº 2

Por Leopold Nosek

As biografias de Robert Schumann costumam oferecer um panorama romântico em que aspectos da subjetividade do compositor se mesclam com características de sua produção. Nascido em 1810, na Saxônia, temos em Schumann um gênio problemático que cresceu num lar altamente disruptivo. O pai, livreiro e romancista, tradutor de Walter Scott e Byron, tinha uma personalidade conturbada; a mãe é descrita como uma mulher violentamente apaixonada. Seus estudos iniciais de música se direcionaram para o piano. O interesse por literatura, latim e grego se desenvolveu cedo também, e datam de precoce juventude seus primeiros escritos. Aos 16 anos perde o pai, no mesmo mês em que sua irmã se suicida. Para fazer jus à herança, conforme as estipulações paternas, é obrigado a se matricular em direito na Universidade de Lepzig.

Por essa época, estuda piano com Johann Friedrich Wieck, cuja filha Clara, então com 9 anos, viria a ser sua esposa. Em 1830, aos 20 anos, abandona o direito. Já sabe que nunca se tornará um pianista virtuosístico. Uma das explicações seriam os problemas com um dedo da mão direita, consequência talvez de envenenamento por mercúrio, quando do tratamento da sífilis que adquiriu precocemente. Sífilis que pode estar no centro de seus futuros padecimentos psíquicos.

A década de 1830 será marcada por fortes desavenças com Wieck, motivadas tanto por questões musicais como pela ferrenha oposição deste ao relacionamento de Schumann com Clara. Desenvolve na época um trabalho intenso como crítico na Neue Zeitschrift fur Music, periódico do qual foi cofundador, em 1834, e no qual divulga suas ideias acerca da música. Nessa década, escreve a maioria das obras que o estabelecem como autor obrigatório na literatura para piano, tais como os Estudos sinfônicos, asCenas infantis e a Kreisleriana.

Em 1841 Robert se casa com Clara — ela, sim, aclamada como virtuose do piano —, depois de um tempestuoso processo legal contra seu professor e pai de Clara. Tomado de uma criatividade febril, compõe no ano dessa disputa cerca de 140 canções que são obras-primas do gênero. No ano seguinte, em estado de celebração, começa a escrever obras sinfônicas. São dessa época as Sinfonias no. 1 e no. 4, além da Fantasia em lá menor para orquestra e piano. Em seguida, dedica-se à música de câmara. Em 1844 o casal se transfere para Dresden, onde Robert terá uma de suas crises mais severas e criará, em poucos meses, a Sinfonia no. 2 em dó maior.

Dez anos depois, no inverno de 1854, a insanidade de Schumann se manifestará dramaticamente, culminando um longo histórico de crises de hipomania, melancolia e alucinações. Ouve vozes angélicas que logo se tornam ruídos infernais de tigres e hienas. Tenta o suicídio no Reno, e, resgatado, passa dois anos em isolamento num sanatório, proibido de ver Clara até uns poucos dias antes de morrer.

Temos aí o habitual terreno romântico onde se colore uma personalidade artística com altas doses de subjetividade e se define o gênio que surgirá da aguda introspecção, do sofrimento, do desespero. Faz parte desse hábito retratar o artista como o herói solitário cuja insatisfação se contrapõe a um mundo hostil.

Alguns biógrafos de Schumann dirão que, nesse momento, todo o seu ser respira música e que esta se mescla entranhadamente com fantasias, sonhos e delírios. Lida com suas ideias musicais de forma militante, criando, por exemplo, a “Liga de Davi”, grupo imaginário que se dispunha a combater os filisteus da música da época. Em mais um canônico expediente romântico, essas figuras se movem sob a tutela de duas personas de Schumann: o extrovertido e impetuoso Florestan e o pálido e tímido Eusebius. São personagens que também se reapresentam musicalmente, nomeando duas peças do Carnaval – Pequenas cenas sobre quatro notas. A vida é construída e encontra expressão programática na obra musical, que adquire então uma figuração peculiar.

Assim, na Sinfonia no. 2, de 1845-46, é comum que se identifique uma luta titânica contra a insanidade nos dois primeiros movimentos, passando a um profundo estado melancólico no terceiro movimento e terminando com um quarto movimento que celebra a vitória sobre o sofrimento. Thomas Mann não resistiu a esse apelo quando, no Dr. Fausto, associou o adoecimento do compositor Adrian Leverkühn — o protagonista dessa espécie de biografia musical fictícia — à genialidade de sua produção. Criara-se o costume de ver a paralisia geral progressiva, loucura sifilítica muito comum até o advento da penincilina, em 1942, como um evento dionisíaco, próprio a engendrar a originalidade. Mann se baseou nos diários de Nietzsche, que, como se sabe, viveu seus últimos anos acometido pelos tormentos dessa manifestação da doença. À parte incitar suicídios, o Treponema pallidumda sífilis e o bacilo de Koch da tuberculose sempre agiram poderosamente sobre a imaginação romântica. Esses organismos invisíveis seriam os responsáveis por trazer Mefistófeles, profeta da criação e da consciência, para o centro da cena.

Mas acompanhemos agora T. S. Eliot em seu ensaio “A música da poesia”, que integra o volume De poesia e poetas: “[…] a linguagem do poeta precisa estar de tal modo relacionada à linguagem de sua época que o ouvinte ou leitor possa dizer: assim é que eu falaria se pudesse falar em verso”. Adiante, reafirma: “A música da poesia deve ser, portanto, a música latente na fala comum de sua época”. Por esse caminho, podemos pensar que a música deve conter a poesia do presente, ser um modo de dar expressividade ao seu tempo.

Não pretenderia jamais fazer uma impossível paráfrase da Sinfonia no. 2 de Schumann neste texto que quer apenas fazer alguma companhia enquanto se espera a música. Mas é possível aproveitar este breve momento para construir um sonho — não será o que todos nós fazemos quando nos deixamos impregnar de música (em vez de nos entregarmos à preguiça de um simplório devaneio embalado em sonoridades)? Tampouco pretenderia fazer uma dissecção anatômica, escudado no que Eliot afirma com baixos teores líricos: “A anatomia não pode nos ensinar o que é preciso para uma galinha botar ovos”.

Ouvimos os acordes iniciais da sinfonia, os metais ecoam, começa o primeiro movimento. A lenta evolução nos faz escutar o espectro que assombrava Schumann, Brahms e tantos outros: Beethoven! Agora, entretanto, estamos em outro registro de conflito e representação. Continua a existir como que um apelo à grandeza do humano, mas desta vez a crença não se faz acompanhar da força de uma ideia que acaba de vir ao mundo. A decepção, por outro lado, não será acompanhada da indignação que fez Beethoven rasgar a dedicatória da Eroica a Napoleão Bonaparte, que abandonara a revolução e se coroara imperador. Agora quem se coroará será Luís Bonaparte, seu sobrinho. Serão tempos de um outro 18 Brumário, não mais a tragédia que arrebata, mas a farsa que despedaça a alma. Conduzidas pelas cordas, loucas e sombrias sonoridades chegam rapidamente e se sobrepõem aos metais.

A subjetividade de Schumann se corresponde de alguma forma com o drama de uma época. Uma enorme aventura fora anunciada: a secularização do mundo — Deus exilado, ou quando muito habitando o foro íntimo, a Razão seguindo firme em suas conquistas, a Ciência como nova avalizadora da verdade, a História caminhando para sua realização triunfal. A esperança, reapresentada, recuperaria o tempo perdido e as promessas acumuladas se cumpririam. Rasgada a dedicatória a Bonaparte, contudo, Beethoven se dirige a territórios introspectivos que, cada vez mais remotos, no século seguinte seriam objeto da maior de todas as aventuras: Ulisses fará seu périplo no espaço de horas, nos domínios do mundo interno.

Outro é o tempo de Schumann. Com a aproximação de Luís Bonaparte, o artista se recolhe, se retrai diante de promessas heróicas que não se cumprirão. Seu isolamento terá como corolorário um novo sentimento, uma nostalgia de tempos que supostamente existiram — nós nos tornamos agudamente melancólicos. Uma longa série de projetos se reapresenta, e cada um deles é sucessivamente “esperado”, “ansiado” no passado. Cada época faz isto: cria novos estados de alma. Hoje somos contemplados com o que poderíamos chamar de estado “antideprimido”. Quem o conheceu no passado?

O segundo movimento, ao contrário do andamento lento habitual, nos traz um scherzo em que Schumann, como observam os comentadores, evoca Bach, retomando os estudos que escrevera antes desta sinfonia e que teriam tido um papel relevante nos meses de 1845, quando se recuperava da grande crise. Esse movimento, que tem aspectos virtuosísticos importantes, se encerra em triunfo.

Chegamos ao adágio em dó menor, expressão talvez da essência do romantismo. Em clima de beleza sublime, o dilaceramento da alma e a melancolia atingem uma representação raramente alcançada. Como as gerações que nos precederam, somos profundamente afetados por ele. Soa como se tivéssemos sido construídos sobre esses alicerces e fundações, que não são o passado: são a raiz do presente, que se assenta sobre elas. Continuamos a esperar, e nossas decepções atingem outras intensidades. Depois da criação e da revelação, ainda e sempre nos faltará a redenção. Somos feitos desse material, do sonho religioso que constrói nosso mundo “quase” desencantado, e assim mergulhamos no universo desse comovente terceiro movimento. Somos nostálgicos do mundo que nós mesmos nos prometemos, no qual encontraríamos o Alle Menschen werden Brüder anunciado pelaNona de Beethoven, um mundo de fraternidade. Somos nostálgicos de todos os amores que encontram sua plena realização.

O quarto movimento, que retoma trechos do primeiro e do terceiro, geralmente é comentado como expressão da recuperação mental de Schumann. Talvez seja sintomático de que a esperança e o apelo do triunfo não foram abandonados. É a recordação do que ainda não se realizou.
Somos reféns da invenção grandiosa que foi a ideia de redenção e também da decepção inescapável que esta engendra. A Sinfonia no. 2 nos lê hoje, nos ajuda a dar forma ao presente — e essa atribuição de forma se chama saúde. Precisamos dessa forma porque ela traz em si a possibilidade de que o pensamento se mova. Essa é a forma dos sonhos, que são a matéria de que é feita a arte. Eliot nos diz: “O poeta está às voltas com as fronteiras da consciência, além das quais as palavras definham, embora os significados continuem a existir”. Inevitavelmente, deixaremos esta sala de concerto com a sensação de que demos um passo a mais em nossa humanidade.

*Este artigo foi publicado na Revista da OSESP
** Leopold Nosek é psiquiatra, psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP); ex-presidente da SBPSP e ex-presidente da Federação Psicanalítica da América Latina (FEPAL).

Transtorno Obsessivo-compulsivo: rituais, manias e aprisionamento.

Rituais e manias, em alguma medida, fazem parte do nosso dia a dia e o ideal é que sejam formas de nos ajudar com a organização da rotina, das nossas tarefas, ou mesmo no trabalho. Mas pode não ser sempre assim. A partir do momento em que tais comportamentos tornam-se imperativos e controlam a vida do indivíduo, causando sofrimento e prejuízo em sua vida social e emocional, podemos estar diante de um transtorno grave, que requer tratamento. Confira na sequência mais informações sobre transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), e sinta-se à vontade para deixar comentários e dúvidas.

Transtorno Obsessivo-compulsivo: rituais, manias e aprisionamento.

O Transtorno Obsessivo Compulsivo, mais conhecido como TOC, é um Transtorno  Mental caracterizado pela presença de ideias estranhas e incontroláveis que atormentam incessantemente o sujeito, e pela constante luta contra esses pensamentos. Há também compulsão a realizar atos indesejáveis, rituais esconjuratórios e um modo de pensar ruminante. Pensamentos mágicos e dúvidas que levam à inibição do pensamento e da ação, também fazem parte do quadro (esses pensamentos dominam as ações da pessoa e impedem que ela se comporte livremente).

Segundo a psicanalista Luciana Saddi, membro da SBPSP, nas primeiras iniciativas de se estudar os transtornos mentais, entre 1894 e 1895, a neurose obsessiva foi isolada por Freud de outros sintomas psiquiátricos. Naquele momento, Freud compreendeu-a como um quadro psiquiátrico autônomo e independente, pertencente à família das psiconeuroses. Na época, os médicos consideravam que era uma degeneração e que o quadro era incurável.

De acordo com ela, atualmente, na Psicanálise, fala-se em uma estrutura mental obsessiva ou em traços obsessivos de personalidade e a formação dos sintomas ocorre quando conflitos irremediáveis, recheados de afetos intensos e simultâneos de amor e ódio surgem e, por algum motivo, não se resolvem. Diante disso, nasce a necessidade de controlar a vida pulsional e desviar a sexualidade e a agressividade para fins aceitáveis. Mas, como é característico das formações sintomáticas, o ‘tiro sai pela culatra’ e a defesa se torna adoecimento. No caso desse transtorno, os mecanismos de defesa mais evidentes são: o deslocamento de afetos para ideias distantes das que originaram o conflito e o isolamento, que quebra as conexões do pensamento, e desliga o sujeito de sua própria história e de seus afetos.

Segundo a psiquiatra e psicanalista Suzana Grunspun, esse é um dos transtornos mais prevalentes na população e considera-se que sua variabilidade clínica e diversidade de sintomas são fatores complicadores de diagnóstico. Isso preocupa a Organização Mundial de Saúde (OMS), pois o TOC é considerado uma doença incapacitante.

Desde a década de 50 a Associação Psiquiátrica Americana publica o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, cujo objetivo é fornecer uma fonte segura e científica para fundamentar a pesquisa e a prática clínica. A psiquiatria preconiza a identificação de sintomas, segundo as normas estabelecidas pelo manual DSM V, para fins de diagnóstico e para o tratamento dos pacientes. A psiquiatria não se dedica tanto, como a psicanálise, à compreensão dos aspectos emocionais que podem estar subjacentes ao quadro estabelecido.

No DSM V, o TOC é descrito pela presença de obsessões, compreendidas como pensamentos repetitivos e persistentes, imagens ou impulsos e/ou compulsões que são comportamentos com rituais repetitivos ou atos mentais, nos quais a pessoa se vê obrigada a fazer em resposta a uma obsessão. O psiquiatra, baseando-se na presença quantificada  de obsessões e/ou compulsões e a partir de critérios estabelecidos, proporá o diagnóstico. Atualmente, existem medicamentos indicados para o tratamento, que devem ser prescritos com rigor e que ajudam no alívio dos sintomas. Isso reduz a carga de sofrimento do indivíduo e propicia uma melhora em sua qualidade de vida.

Mas como a Psicanálise compreende o TOC?

Como se sabe, a noção de inconsciente é fundamental na Psicanálise e, segundo Luciana Saddi, no núcleo desse sofrimento e desse conjunto de sintomas está a imperativa necessidade inconsciente de controlar. Controlar afetos indesejados, ideias que podem surgir de repente causando desordem ao sujeito e impulsos de natureza sexual ou hostil que perturbam a ordem estabelecida. Se juntarmos a necessidade de controle com o pensamento mágico e acrescentarmos, nessa equação, a confusão entre desejo e ação, teremos todos os ingredientes para a estrutura mental obsessiva.

Além do tratamento com medicamentos, também a análise pode contribuir para a melhora dos sintomas. Analista e analisando trabalham no sentido do surgimento de um saber singular sobre o sujeito em análise. Trata-se, assim, de identificar as entranhas que dão suporte aos sintomas, aquilo que está na base dessas defesas. Procurar eventuais explicações sobre como se formam tais pensamentos e afetos que geram os sintomas não é, na Psicanálise, o foco do tratamento. O discurso do paciente revela uma verdade intrínseca a ele e o trabalho de análise oferece uma oportunidade única: o analisando pode ser escutado por alguém que não participa de sua vida familiar e que não deseja lhe impor nenhuma verdade ou saber pronto. O analisando pode falar e se escutar ou se calar. O espaço é livre de obrigações e performances, e a ideia é que, por meio de trocas e experiências que só dizem respeito àquela dupla, seria possível chegar aos núcleos inconscientes que mantém os sintomas ativos.

Em relação à cura, sim, ela pode ser alcançada em muitos casos. Em outros, trabalha-se em busca do abrandamento dos sintomas, para que o sujeito possa seguir com sua vida, sem tantos prejuízos. O importante é que as pessoas busquem ajuda, pois existe sim tratamento, tanto do ponto de vista psiquiátrico como psicanalítico. Se vai haver a supressão total da sintomatologia, ou apenas seu abrandamento, é impossível saber de antemão. O que se sabe é que atualmente as ciências da área da saúde dispõem de recursos que se complementam e que não só podem como devem ser utilizados em conjunto, buscando o alívio do sofrimento e a recuperação da energia de vida que os transtornos mentais subtraem dos indivíduos.

Fontes:

Luciana Saddi – mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, psicanalista e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

Suzana Grunspun – psiquiatra, psicanalista e membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). 

 

 

 

DEPRESSÃO

Vincent van Gogh - Old Man in Sorrow

Vincent van Gogh – Old Man in Sorrow

Para a Psiquiatria, a depressão é uma alteração do humor caracterizada por tristeza profunda, acompanhada de apatia, desânimo, inapetência, desinteresse sexual e pela higiene, insônia e um sentimento de falta de sentido na vida. Esses sintomas podem ou não se alternar com seus contrários: humor exaltado, denominado “mania”, ou em grau mais leve,hipomania. Se por um lado os sintomas depressivos nos fazem sentir pesados e pesando aos que convivem conosco, os de mania nos fazem sentir ótimos, não necessitando de nenhum tipo de ajuda, o que, entretanto já não se dá com os familiares, que podem perceber certas inadequações, falta de limites, gastos exagerados e assim por diante.

Esses quadros nos levam a perguntar: se eu tenho esses sintomas, sou doente? Estou doente? O que se passa comigo?

A Psicanálise traz sua contribuição no sentido de pensar estas questões.

Embora não seja claramente detectável, há sempre um evento desencadeador dos sintomas, que pode ser um sentimento de perda, de luto. Às vezes ele pode passar despercebido, mas está lá.

O que acontece é que cada vivência desse tipo em nossas vidas “engancha” em outras anteriores, ainda que possamos não nos dar conta disso, potencializando cada uma delas.

É importante distinguir quando se trata de tristeza como resposta ajustada a situações normais de vida, mas que cada vez mais temos dificuldade de conviver. Infelizmente, estamos cada vez menos “preparados” para suportar os sentimentos de tristeza pois além de os evitarmos, estamos muito frequentemente em busca do prazer, da satisfação e da preferência imediata.

Pode parecer estranho, mas é muito comum em adolescentes sentimentos depressivos, pelo luto, um luto difícil de fazer diante da perda do corpo infantil, das vivências e expectativas da vida de criança que, comparadas às novas e complexas expectativas do mundo adolescente, eram familiares e administráveis pelo jovem.

Também parece estranho falar que mães que recentemente tiveram seus bebês, acolhidos com muito amor, também vivam sentimentos de luto – e elas vivem! Isto porque, além de muitas mudanças hormonais, o estado de humor da gestante vai sofrendo modificações: parece que toda sua vida se lentifica, seu foco de atenção vai se estreitando em torno de tudo o que diz respeito ao seu bebê, o que é muito interessante no sentido de colocar a mãe em sintonia com ele, favorecendo que lhe ofereça os cuidados que necessita.

Após o nascimento, a mãe se depara com o vazio no seu corpo, com as demandas do bebê, com os confrontos entre o bebê que havia imaginado e com o bebê real, que agora ocupa tanto espaço na sua mente e na sua vida.

Consideramos tanto essa ‘depressão’ pós-parto como a ‘depressão’ adolescente uma depressão normal. Isso não quer dizer que desconsideremos a ocorrência de quadros com características muito intensas, com enorme prejuízo para a vida da mãe ou do adolescente, ou de qualquer pessoa, e que demandam então uma atenção especial.

Nos casos de depressão em adolescentes, deve-se prestar muita atenção aos sinais que possam indicar algum risco de suicídio, especialmente se além do isolamento e dos sintomas já mencionados, surgirem também outros sintomas, tais como ideias estranhas, ou mesmo delirantes, acompanhadas ou não de alucinações.

No caso de crianças, para as quais costumamos ter a visão idealizada da “infância feliz”, muitas vezes fica difícil detectar sintomas depressivos. Crianças deprimidas podem ser vistas como crianças boazinhas e quietinhas, obedientes e tímidas. Por outro lado, as crianças com manifestações hipomaníacas podem ser confundidas com crianças decididas, ativas, bem resolvidas.

O que se passa é que vivências de perda provocam a necessidade de elaboração do luto, processo no mais das vezes difícil de conviver, muito sofrido para quem o vive e também difícil para as pessoas próximas suportarem. Desse modo, lançamos mão de mecanismos de defesa contra o sofrimento, sendo que a exaltação de humor, a já mencionada “mania” ou hipomania, é uma das formas de nos defendermos, de tentarmos não entrar em contato com nossas dores.

O problema é que tais defesas prejudicam o trabalho de luto, prolongando e até cronificando os sentimentos de perda, podendo acarretar em prejuízos para o desenvolvimento da criança e mesmo para o adulto conseguir encaminhar sua vida com maturidade.

Assim sendo, é muito importante que estejamos atentos aos sinais que possam indicar que uma tristeza deixou de ser algo “simples” e passou a se intensificar, afetando nossas vidas ou de alguém de nosso convívio.

Pode-se buscar tratamento psicoterápico, psicanalítico e mesmo em alguns casos pode haver a necessidade de administração de medicamentos como recurso auxiliar.

As famílias que ajudam seus membros a enfrentar, conviver e a superar perdas podem muitas vezes se ver diante de limites. Daí a necessidade de ajuda especializada, o que não deixa de ser também uma forma de demonstrar amor.

Onde buscar ajuda:

1. Centro de Atendimento Psicanalítico (CAP) – ligado à Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)

Rua Sergipe, 441 – Conj. 62 e 51
Higienópolis – São Paulo/SP – CEP: 01243-001
Telefone: (11) 3661 9822

2. Clínica Psicológica “Durval Marcondes” do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da USP

Av. Prof. Mello Moraes, 1721 – Bloco D
Cidade Universitária – São Paulo/SP – CEP: 05508-030

Telefone: (11) 3091 8248 e  (11) 3091 8223
Endereço Eletrônico: clinica@usp.br

3. Clínica Psicológica do Instituto Sedes Sapientiae

Rua Ministro Godoi, 1484

Perdizes – São Paulo/SP – CEP: 05015-900

Secretaria da Clínica: Telefone: (11) 3866 2735 ou (11) 3866 2736

clinica@sedes.org.br

Fontes: Maria Thereza de Barros França – psicanalista e membro da SBPSP