psicanalise

O “pensamento” fascista e a função po-ética da psicanálise

*Ricardo Trapé Trinca

Isso que escutamos é o estalar de nosso “Ovo da Serpente”[1]? Ah, mas que estranho fascínio é esse exercido sobre nós, que perturba com um choque inebriante! E, enquanto esperamos nascer um monstro horrível, o que vemos é um filhote chamado propaganda, uma sereia que cativa e engrandece… Ah, mas como nos atrai essa sedutora vontade de poder!

Para nós, psicanalistas interessados nas interfaces entre a sociedade e a clínica contemporânea, os tempos atuais têm sido extremamente inquietantes e perturbadores. Escutamos de nossos pacientes com frequência cada vez maior a ideia de que a vida pública e privada deveria ser organizada com autoritarismo e rigidez. De que é preciso se aliar às pessoas de “bem”, contra a corrupção, etc. O que nos faz apreender um espírito justiceiro, segregador e antidemocrático, que cresceu e se desenvolveu entre nós. Este texto é um pedido para que observemos tanto em nós mesmos como em nossos pacientes tal presença, digamos, funesta e dissociada.

Vamos tentar descrevê-la. Podemos observar inicialmente o predomínio de um intenso sentimento de frustração, no qual o orgulho pessoal parece ter sido ferido ou roubado. Trata-se de uma frustração pessoal, mas também social. Essa frustração associa-se à ideia de que algo ou alguém destruiu a esperança de se ter uma vida melhor. Uma vida em que não só haveria menor necessidade de negociação dos nossos impulsos com o mundo, mas no qual nosso autoritarismo pessoal encontraria finalmente a esperança de ser autorizado, como um direito. Esta maneira de pensar, que chamamos de fascista, surge como uma conclamação à recuperação, por meio da força, deste orgulho roubado por alguém que, por sua vez, se tornou um usurpador.

Com este conclame, o fascismo impõe-se com uma linguagem traumatizante, cuja presença torna-se ameaçadora. Ele cria repentinamente um impacto imprevisível. Enquanto aquele que escuta tal discurso tende a sofrer o golpe de certas palavras e a se demorar sobre elas, tentando questioná-las, o discurso já foi adiante, como uma metralhadora de disparos contínuos. Contra esse discurso não há conversa; não existe um diálogo ou ponderações a serem feitas. Ou se aceita ou não se aceita. Caso seja aceito, o discurso transforma-se em algo que serve para ser retransmitido. Caso não se aceite, uma reação violenta contra o discurso é frequente; e, assim, ele é reproduzido na forma de seu avesso, propagando o ódio e uma organização maniqueísta da realidade. O poder que dele surge, cooptando seguidores e divergentes numa empreitada beligerante, advém de sua sede por obtenção de justiça, ou seja, de que o autovalor ou a posição perdida deve ser recuperada a qualquer custo; comportamento que encontra eco na formulação winnicottiana de tendência antissocial. É um discurso que visa ao poder perdido e à subjugação do perdedor.

Esse discurso, como a correnteza de um rio, corre numa só direção. Diferentemente de outros discursos humanos, polifônicos, nele há uma simplificação de sentidos possíveis. Portanto, a fala humana se empobrece, como numa fala de propaganda. E, como um autofalante, o discurso fascista não tem nenhuma receptividade, é uma propagação sem audição, cujo objetivo é realizar um reclame e conclamar outros iguais para realizar uma espécie de polarização narcísica, na qual se tende a girar em torno de ideias desprovidas de amizade e negociação. Há enorme fragilidade no conteúdo que é propagado, porque ele não é dialógico, reflexivo, e sim uma enorme restrição do escopo do pensamento[2] e da história. Além disso – e talvez um dos seus principais aspectos – a forma do dizer, sua estética, tende a ser tão ou mais importante do que seu conteúdo. Como não se trata de uma experiência do pensar emocional que se pode ter com alguém, ele assume a forma de um discurso e o seu valor parece repousar justamente nisso, em uma fala que desconsidera a outra mente, e que se faz de cima para baixo, composta por autoritarismo, agressividade e empoderamento. O conteúdo, cujo valor de verdade inexiste, fica em segundo plano, já que o principal é a sua estética. Assim, o valor de verdade de uma afirmação é substituído pelo valor de seu espetáculo impactante, em uma espécie de estética do choque, mas destituída do poder emancipatório que essa estética trouxe para a modernidade, especialmente nas artes (Parente, 2018). Quase não precisamos dizer quanto esse discurso é sedutor; a história que nos diga [3]!

Nessa maneira de constituir um “pensamento”, ou uma fala desprovida de apreço com a verdade, o conteúdo que se propaga é autoengendrado. Ela não se torna apenas uma falsificação da realidade, mas uma nova realidade, cuja existência se baseia no número de apreciações ou visualizações que recebeu. Não é necessário que encontre correspondência no real. Qualquer coisa pode ser dita sem ser refutada, pois o importante é a sua força de caráter traumatizante. Como a verdade, assim, não tem referência na realidade, ou na experiência emocional, mas na repetição do “meme”, a verdade transmitida passa a ser a do choque, que é sentido como “estar se falando a verdade”. E, paradoxalmente, nesse discurso há um reclame contra a mentira, de modo que sua estética passa a ser considerada, por si só, a expressão de algo verdadeiro.

Mas esse discurso não estaria, por sua vez, tamponando sentimentos de desamparo? Acreditamos, no entanto, que tais sentimentos passam a ser atribuídos àqueles que sentem o seu impacto, em movimentos de identificação projetiva. E assim, essa maneira de não pensar acaba por se tornar propaganda de preconceitos (discriminação social, étnica, racial, de gênero, etc), de alguém “forte” para alguém “fraco”.  Essa é uma das razões pelas quais nessa forma de discurso não se permitem dúvidas, incertezas e insegurança. Elas são combatidas radicalmente, pois a dúvida abriria a percepção para a apreensão dos sentimentos de desamparo dos quais se pretende evadir.

Não podemos esquecer que estamos todos em igualdade de condições para nos tornarmos expressão de uma tendência humana como esta, que avista nossa maior desumanidade e barbárie. Precisamos constantemente pensar como, a cada dia, cada um de nós não se tornará um fascista[4]. Como fazer para que o nosso discurso não seja, ele mesmo, uma ferramenta de poder, cuja intenção seria impedir o encontro humano no qual o pensamento se desenvolva, envolvido pelo desconhecido das coisas. O encontro com o rosto do outro será sempre o encontro com o mistério. Por isso, é fundamental que possamos, a cada vez, reconhecer a presença de nosso próprio fascismo, podendo, por meio desse reconhecimento, dizer não a isso a cada vez, a cada instante de seu acontecimento. O problema, portanto, passa a não ser mais se somos ou não fascistas, mas quando somos, e reconhecer o momento de nosso enlouquecimento [5].

Como sabemos muito pouco sobre a nossa própria vida, estamos sempre rodeados por impotência, medos e sentimentos de desamparo. E, em face do desamparo, criamos ilusões alucinadas da realidade, com a intenção de nos protegermos dela. Se o desamparo, por um lado, é uma condição fundante do psiquismo humano, por outro, seu aparecimento pode revelar a ocorrência de fraturas éticas (Safra, 2004). Estas fraturas estão relacionadas a uma ruptura com a confiança e com a espera pela mente de um outro, condição indispensável – de amparo – para a ampliação das possibilidades psíquicas em face do desamparo.  A aliança com o pensar fascista é a expressão da desesperança em relação ao outro, como alteridade, mas ocorre quando, pela impotência, busca-se a onipotência. Trata-se, portanto, de um falso amparo narcísico, que pode ser buscado, como comportamento político, em qualquer ideologia.

Sabemos que a atividade psicanalítica sustenta as incertezas do não saber, para ser surpreendido com a aparição do pensamento numa relação dialógica. Na situação clínica, a função po-ética consiste na surpreendente criação ou revelação da alteridade. Uma alteridade concebida como uma nova formação de metáforas e de histórias possíveis para um sofrimento[6]. Trata-se de uma atividade que devolve o valor da verdade ao seu conteúdo correspondente e restabelece o valor estético da pesquisa e da incerteza em relação ao saber, tornando a ação política oposta ao discurso de poder. Isso porque as metáforas e histórias são sempre incapazes de expressar todo o sofrimento. Ou seja, trata-se de uma ação de des-empoderamento, que restabelece, assim, a força da verdade. A função po-ética tem implícita uma ética do cuidado e da atenção aos sofrimentos humanos, que são muitas vezes impensáveis, ainda mais quando associados à nossa condição de desamparo.

Num mundo em que o discurso fascista se propaga como rastilho de pólvora, com um encantamento pelo choque, com ares de espetáculo, a tarefa psicanalítica, como resistência ao fogo, é continuar a mostrar seus princípios po-éticos. Pois o alimento que nossa mente precisa é aquele do encontro com a alteridade, que nos nutre com o sentimento de verdade, mesmo que seja provisória e incompleta.

 

[1] Faço alusão ao filme de Ingmar Bergman “O Ovo da Serpente”, Das Schlangenei(1977), que tratado período de incubação do nacional-socialismo na Alemanha.

[2]George Orwell em seu livro 1984, descreve o controle sobre a linguagem como um dos modos de se restringir o escopo do pensamento. Orwell descreve a Novilíngua, uma língua cujo objetivo seria tornar impossível designar certas coisas, de modo que aquilo tenderia a se tornar inexistente pela impossibilidade de ser designada. Ou seja, ideias indesejáveis a um sistema fascista não teriam como surgir de dentro dele.

[3]Brun (2018): “Por que o fascismo continua sendo tão atraente? Em Israel se apresenta o fascismo como um monstro terrível. Creio que é um erro, porque como todo mal tem uma cara amável e sedutora. (…) Como é possível que milhões de alemães tenham apoiado Hitler? Deixaram-se levar porque os fazia se sentir especiais, importantes, belos. Por isso é tão atraente”. No filme de Peter Cohen, Arquitetura da Destruição (1992), logo no seu início, o narrador diz: ”Dizem que numa aldeia alemã dos anos trinta, o povo tinha um conceito próprio do que era o nacional-socialismo. Eles achavam que o nacional-socialismo tinha uma ligação com a pureza (…) o sonho de criar, através da pureza, um mundo mais harmonioso”.

[4] Em 1977, Foucault escreve o prefácio do Anti-Édipo, de Deleuze e Guattari, formulando que há um inimigo maior a ser combatido, o fascismo. “Não somente o fascismo histórico de Hitler e Mussolini – que soube tão bem mobilizar e utilizar o desejo das massas, mas também o fascismo que está em todos nós, que ronda nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz gostar de poder, desejar essa coisa mesma que nos domina e explora”.

[5] Na forma de transformações em alucinose (Bion, 1965/2004).

[6] Pensamos em Hanna Arendt: “Toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história”.

Imagem: Retirada do filme de Ingmar Bergman, “O Ovo da Serpente”.

Ricardo Trapé Trinca é psicanalista, doutor em Psicologia Clínica pela USP, mestre em Filosofia pela PUC-SP e membro filiado ao Instituto “Durval Marcondes” da SBPSP. 

Freud e a clínica do século XXI

*Claudia Suannes

Um homem só morre efetivamente depois que o último homem que o conheceu morre também. A frase de Borges, que serve como ponto de partida da biografia escrita por Elisabeth Roudinesco, soa oportuna para se pensar no aniversário de morte de Freud, dia 23 de setembro, e no lastro do pensamento freudiano na clínica dos tempos atuais.

A radicalidade do pensamento de Freud, que tira da consciência o eixo do funcionamento psíquico humano e marca a importância da sexualidade, produz um impacto que o situa como um dos grandes pensadores do século XX, cujo legado se estende para além da disciplina por ele criada.

São muitas as contribuições de Freud para se pensar a cultura, os fenômenos sociais e políticos, além da própria clínica psicanalítica.  Como é próprio a um pensador de sua envergadura, sua teoria também é objeto de crítica, sendo uma delas expressa no questionamento sobre a eficácia do método psicanalítico na clínica do século XXI.

Renato Mezan, no livro O tronco e os ramos, dedica-se ao estudo da história da psicanálise, tendo como eixo de seu estudo a relação entre o pensamento de Freud e seus sucessores. Partindo das diferenças entre as escolas de psicanálise, Mezan indaga-se como a partir de um tronco comum, Freud, as escolas possam ter produzido teorizações tão diferentes entre si, mantendo-se, ainda assim, em um campo que é reconhecidamente o campo da psicanálise.  Uma linha fecunda de análise que o autor nos apresenta, então, é a noção de “matriz clínica”, que consiste na base a partir da qual cada autor lê e indaga o texto freudiano. Dito de outro modo, no exercício de seu ofício, os psicanalistas têm contato com pacientes diferentes e é a partir de suas inquietações clínicas que cada analista/autor vai engendrar sua reflexão teórica, privilegiando, para tanto, aspectos da teoria freudiana que melhor permitem pensar os fenômenos com os quais se deparam.

O que me interessa marcar na citação do trabalho de Mezan é a consideração sobre a noção de matriz clínica como fonte de desenvolvimento do pensamento freudiano. Isto é, a radicalidade do método psicanalítico, que contém em seu bojo a possibilidade de escuta às diferentes expressões de sofrimento psíquico e aos modos particulares de se haver com este sofrimento. O subsequente esforço de teorização sobre esses fenômenos encontra na imagem do tronco e seus ramos a expressão de vigor e de possibilidade de constante renovação. Basta abrir os jornais, sair pelas ruas ou receber um novo paciente para constatamos que o terroir dos dias atuais constitui um terreno fértil para o desenvolvimento da psicanálise.

Em homenagem à sua contribuição para a psicanálise, escrevi breve reflexão sobre a influência de Freud para a clínica no século XXI neste outro artigo, publicado em 2015 no blog da AMF (Associação dos Membros Filiados ao Instituto de Psicanálise da SBPSP).

Cláudia Suannes é mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, membro filiado ao Instituto Durval Marcondes da SBPSP. Contato: clausuannes@gmail.com

O analista desconcertado e o pensamento

“Não vos imagine diante de alguém amedrontador,
por ele possuir uma língua que gagueja e
de onde emana uma linguagem emaranhada,
fora de vosso alcance”
(Isaias, 33:19)

Sou frequentemente indagado, e por isso frequentemente me indago, o que é o pensamento para o psicanalista. A “resposta”, que aparece recorrentemente, é que “pensar é continuar a funcionar psiquicamente durante a tempestade”.

A metáfora meteorológica nos ajuda bastante a entender as oscilações do espírito humano e, por extensão, a caracterizar a dinâmica do encontro psicanalítico: o analista, no fundo, não passa de uma estação experimental que possa acolher as tempestades e as bonanças do analisando, devolvendo-lhe uma “previsão” de como isto poderá afetar a sua vida.

Tempestade, por supuesto, é sinônimo de turbulência, e, portanto, de fonte de desconcerto, ou melhor ainda, de desorientação. Nos meus anos de psiquiatra fui orientado a investigar na anamnese a orientação têmporo-espacial como um importante parâmetro a definir a sanidade mental do paciente. Doce ilusão! Será que Édipo, sabedor da exata localização geográfica do fatídico encontro na encruzilhada que alterou seu destino, bem como do exato momento histórico em que aquilo acontecera, teria dado um passo à frente no esclarecimento do drama da sua identidade?

Eis-nos, aqui, diante de mais um exemplo em que a psicanálise “recicla” os “descartes” da psiquiatria, elevando-os à categoria de matéria prima para seu processo investigativo da vida mental. Quantas vezes, ao acolher a massa de fragmentações psicóticas dos analisandos, não me senti perdido, desorientado e desamparado? E quantas vezes, ficando em contato com este universo caótico, por falta de alternativa, não percebi, para minha surpresa e alívio que, aos poucos, aqui e ali começavam a vagalumear focos de luz que prenunciavam a luz que buscamos no fim do túnel?

Isto me ensinou uma verdade de grande utilidade clínica: se entendermos a imersão num estado caótico como a única bússola possível a nos orientar no universo psicótico, teremos chance de nos movimentar neste labirinto com alguma desenvoltura.

Mas, retornemos à questão do que seria, em essência, “funcionar psiquicamente”. Freud descreveu o pensar como aquele “arranjo mental” (expressão minha) através do qual o psiquismo se sustenta entre o momento em que recebe um estímulo e o instante em que ele consegue satisfazê-lo. No entanto, malgrado a dimensão ciclópica de sua obra, ele não conseguiu nos fornecer um esclarecimento sobre a “fisiologia” deste processo.

Alguns desdobramentos posteriores de sua obra, como os de Melanie Klein e de Bion, nos permitem hoje começar a entender a microscopia deste processo. Muito resumidamente, sua essência consiste no fato de que o psiquismo só consegue se desenvolver através de um tropismo que o induz a preencher suas lacunas se assenhoreando de recursos existentes num outro psiquismo, sem abdicar daqueles recursos já consolidados em seu self. Esta busca, no entanto, não acontece de forma egoísta ou possessiva, mas sim de forma curiosamente desinteressada que sedimente uma troca procriativa: trata-se de um processo que Freud denominou de metapsicológico onde a forma é tão ou mais importante que o conteúdo, porque, através de artimanhas estéticas, produz um registro emocional sempre elegante e econômico.

Aos nos defrontarmos com a personalidade psicótica, no entanto, precisamos abrir mão destes parâmetros estruturais e nos lançarmos no espaço da infinitude indiferenciada, povoado por escombros não-sensoriais: se pudermos conter este cenário desconhecido, até que as primeiras cintilações de significado apareçam, poderemos começar a ajudar nossos analisandos a sair deste estado com algum ganho de integração.

*Luiz Carlos Uchôa Junqueira Filho, médico (Faculdade de Medicina da USP), membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, da qual foi Presidente. Organizador dos Encontros Bienais da SBPSP e Editor das publicações correspondentes. Autor de Sismos e Acomodações: A Clínica Psicanalítica como Usina de Idéias (Ed. Rosari, 2003) e Dante e Virgílio: o resgate na selva escura (Ed. Blucher, 2017).  Tradutor e co-autor de livros sobre a obra de Wilfred Bion, no Brasil e no exterior.

Imagem: reprodução da obra “La réproduction interdite”, de René Magritte

Narciso sob a tinta

*Vera Lamanno Adamo

Por que publicamos experiências vividas na clínica? Escrevemos porque aquele algo da experiência vivida pode ser útil para pensarmos o que falta, o que ainda não foi dito? Escrevemos por conta do espanto? Para abrir um espaço onde se está sempre a desaparecer?

Uma paciente frequentemente dizia que a grande preocupação de um poeta era saber se aquilo que havia escrito era poesia. Na poesia, salientava, o autor está praticamente imperceptível. Por isso, insistia em afirmar que: “a crônica, uma espécie de diário, é considerada uma escrita de segunda categoria. Na crônica, o escritor está todo lá, sem nenhuma invisibilidade”. Para ela, poesia era fruto de um processo intelectivo altamente planejado e consciente, completamente desligado da pessoa do autor. O autor estaria completamente desaparecido por trás de sua obra.

Este argumento sobre o que considerava ser poesia era condizente com o seu ideal de eu fundamentado numa espécie de assepsia do ser. Obstinada a rejeitar qualquer alteração em si, nunca ou muito raramente perdia a paciência. Jamais uma palavra áspera para alguém. Não se queixava, não reclamava, não criticava ninguém, não se zangava com ninguém de maneira evidente. Não mostrava qualquer desapontamento em relação a mim ou em relação às pessoas de sua convivência.

Um dia ela me trouxe uma de suas poesias e ficou absolutamente inquieta ao perceber a totalidade de sua presença naquilo que escrevera. Desejo, conflito e fantasia estavam todos lá. É certo que sob a tinta e meio de canto, nas entrelinhas, enviesados. Mas estavam todos lá.

Cada vez que colocamos no papel uma experiência clínica, a questão da inclusão e exclusão do narrador naquilo que escreve se apresenta. Tomado por um ideal de assepsia, envolto numa espécie de armadura, escreve-se um texto inteligente, erudito, controlado. Quase nada se transmite de si para si, de si para o outro. Uma escrita imóvel, estática, uma narrativa que não abre para o desconhecido, aquele desconhecido que entra e atrapalha.

Se eu tivesse que advogar sobre a escrita psicanalítica, defenderia a ideia de que fosse feita com menos erudição e mais crônica.

A palavra crônica se origina do latim Chronica e do grego Khrónos (tempo). O significado principal neste tipo de texto é precisamente o conceito de tempo, ou seja, é o relato de um ou mais acontecimentos em um determinado período. É a narração do cotidiano das pessoas, fazendo com que se veja de uma forma diferente aquilo que parece óbvio demais para ser observado. Uma boa crônica é rica nos detalhes, descritos pelo cronista de forma bem particular, com originalidade.

A crônica, na maioria dos casos, é narrada em primeira pessoa, ou seja, o próprio escritor está “dialogando” com o leitor, não está falando do “alto”, está sentado ao lado do leitor num meio-fio.

Geralmente, as crônicas apresentam linguagem simples, espontânea, situada entre a oral e a literária. Isso contribui também para que o leitor se identifique com o cronista, que acaba se tornando o porta-voz daquele que lê. Com base nisso, o cronista pode ser considerado o poeta dos acontecimentos do dia-a-dia.

O cronista Werneck (2011), na abertura de seu livro Esse inferno vai acabar, afirma que em Minas Gerais não acontece nada, mas o pessoal se lembra de tudo. Nesta frase, está contida uma das mais instigantes definições do gênero. O não acontecimento, o comezinho, a miudeza que são a matéria prima da crônica.

A repórter Eliane Brum, anos atrás, foi escolhida por Marcelo Rech um diretor de redação que buscava inovação para o jornalismo brasileiro, para um desafio: extrair crônicas reais de pessoas comuns e situações corriqueiras. Ela capturou a ideia e escreveu uma série de reportagens sobre personagens e cenas cotidianas em forma de crônicas da vida real, transformando-as numa coletânea de quarenta e seis colunas por quase onze meses.

Aí encontramos uma repórter que não está à procura do espetacular, mas à procura de histórias escondidas na vida anônima de cada um. A vida que ninguém vê (2006), mas que Eliane viu, é um mergulho no cotidiano para provar que não existem vidas banais.

Assim como o cronista, o psicanalista escreve sobre o humano inspirado nos acontecimentos diários de um processo de análise. Com o olhar inspirado no cotidiano de sua clínica, as histórias de um paciente ou de um processo de análise nos inquietam e nos despertam para outras histórias, ideias, pensamentos. O resultado, quando tudo corre bem, é uma espécie de conversa que revela a humanidade dos personagens e a nossa própria.

A escrita psicanalítica com mais crônica e menos erudição é móvel, transitiva, inquietante, se cumpre sem um total planejamento intelectual e consciente, inspirando continuar falando de uma voz que não quer se apagar. Quanto mais se vê, mais se quer enxergar.

*Texto publicado na íntegra no Jornal de Psicanálise 50 (92), 91-97, 2017

Referências
Brum, E. (2006). A vida que ninguém vê. Porto Alegre: Editorial Arquipélago.
Werneck, H. (2011). Esse inferno vai acabar. Porto Alegre: Arquipélago Editorial.

*Vera Lamanno Adamo é membro efetivo e analista didata do GEPCampinas e da SBPSP.

 

 

 

Somos mais realistas que os reis?

* Noemi Moritz Kon

19 de maio deste ano foi marcado pela transmissão midiática em escala planetária da cerimônia de casamento entre o príncipe Harry e a atriz Meghan Markle na Capela St. George, em Windsor, Inglaterra. Foram muitos os detalhes que desafiaram simbolicamente convenções antes inquestionáveis de eventos deste porte envolvendo a Coroa britânica, talvez hoje a mais tradicional e cultuada das realezas que ainda subsistem nos Estados modernos. Uma linda princesa norte-americana, trajando um vestido esteticamente simples, sem brilhos ou adereços, chega acompanhada exclusivamente pela mãe, Doria Ragland, professora de ioga, que, com seu penteado rastafári, vestia um traje de cor semelhante ao da rainha.

Meghan Markle atravessa a nave da Capela St. George sozinha, sem a presença usual do pai – branco – ou qualquer outra pessoa. Durante a cerimônia, o coral gospel The Kingdom Choir, formado majoritariamente por músicos negros, entoa Stand by Me, do cantor de soul Ben E. King, conduzido pela maestrina Karen Gibson, também negra. Ouvimos surpresos, ainda, o sermão do reverendo Michael Curry – ele também negro – que inicia sua fala citando o maior ícone da militância pacífica negra dos Estados Unidos, Martin Luther King Jr.: “Nós precisamos descobrir a força redentora do amor e, quando fizermos isso, faremos desse velho mundo um mundo novo”.

Que beleza! Que espetáculo! Quantos marcadores sociais de opressão, raça/cor, gênero e classe foram colocados em evidência e, de alguma forma, em xeque nesse momento de comoção ritual! (Evidentemente, nada do que foi exibido escapou aos rigores do protocolo da realeza. Nenhum desses detalhes foi mera coincidência).

Para além de um possível e esplêndido golpe publicitário, minha ingenuidade fez-me pensar em como nós da colônia, nós psicanalistas brasileiros, temos sido mais realistas, mais embevecidos com as insígnias da realeza e da aristocracia, do que os próprios reis. Em como nossa comunidade tem se mostrado conservadora, desatualizada, mantendo-se presa ao “Velho Mundo”. Em como sustentamos, cultivamos e promovemos, naquilo que temos produzido – ou no que não temos produzido –, uma teoria, uma ação e um discurso eivado de valores ideológicos elitistas e meritocráticos, que se protege e se justifica ao fazer-se passar por um discurso científico, a-histórico e universal, um discurso neutro, não contaminado pelas variáveis raça/cor, gênero/orientação sexual e classe.

Ora, não há mais como manter e defender esse tipo de posição; precisamos retomar urgentemente nossas reflexões críticas.

Não somos tão multicoloridos como deveríamos ou poderíamos ser; não somos tão abertos à sexualidade e às suas manifestações, nem mesmo à equidade entre gêneros, como deveríamos ou poderíamos ser; não somos tão receptivos à diferença de classe como poderíamos ou deveríamos ser.

Basta observar o público de nossos encontros e congressos – os nossos rituais -, para verificar que não correspondem à proporcionalidade da distribuição demográfica racial brasileira, com seus mais de 50% de negros e pardos, e que tampouco correspondem aos índices de distribuição de renda, pois somos uma elite também econômica, e congregamos uma porcentagem bem maior de pessoas que recebem mais de 27 mil reais ao mês, o que nas estatísticas da população brasileira conforma seu 1% mais rico.

As mulheres são hoje 51% da população do país, mas entre nós, psicanalistas, a distribuição parece ser bastante diferente: o número de mulheres que preenche os assentos das plateias em nossas reuniões e aulas é bem maior do que a de homens. O mesmo não parece acontecer com relação à distribuição dos lugares de poder e fala, ocupados, preferencialmente, por homens, brancos e, provavelmente, héteros e cis. Neste quesito, em particular, nossos indicadores não diferem sobremaneira dos da nossa sociedade patriarcal e falocêntrica.

Nossa produção teórica, nossa clínica e o funcionamento de nossos centros, departamentos e sociedades parecem também não se coadunar muito bem com o retrato obtido pelos institutos de pesquisas socioeconômicas: quem são nossos analisandos, qual é a sua renda, a sua profissão, o seu nível educacional, a sua cor? Quem são os que procuram as instituições psicanalíticas para avançar em sua formação? Quem prioritariamente ocupa os lugares de poder em tais instituições? Sobre quem falamos em nossos textos? Onde se localizam nossos consultórios? Qual o valor cobrado em nossos cursos e em nossas consultas e supervisões?

Atendo-me aqui no marcador de diferença raça/cor, com o qual venho trabalhando mais detidamente nos últimos tempos – mas o raciocínio poderia ser também aplicado aos outros marcadores de desigualdade -, é possível perceber como temos abusado do “esquecimento” de nossa história, da barbárie brasileira que se instaurou com o genocídio dos índios – 5 milhões em 1500, não mais de 850 mil hoje, segundo dados do IBGE – habitantes destas terras, que se prorrogou nos quase 400 anos de escravização mercantil, e que transformou mulheres e homens em objetos, em mercadorias (bens semoventes, como os escravizados eram denominados). Como temos trabalhado tão pouco as questões contemporâneas derivadas de tais processos históricos que conformaram tanta disparidade de oportunidades, e como temos, assim, acalentado por meio da negação e da recusa, a manutenção de privilégios – nossas casas grandes e nossas senzalas -, justificando a desigualdade como o simples resultado de diferenças individuais naturais que, obviamente, se presentificariam em nosso dia a dia.

Não devemos fazer pouco do que aprendemos em nossas boas escolas e, dessa forma, esquecer que o sistema escravocrata, pilar da economia colonial que sequestrou e trouxe ao Brasil mais de 4,5 milhões de africanos – cifra que representa 46% dos que foram escravizados naquele momento –, cerca de 12,5 milhões de africanos e africanas entre os séculos XVI e XIX, fundou e estruturou, desde nossa origem, um estado de violência e exploração, que produziu e continua produzindo marcas profundas em todos nós brasileiros, mas que recaem discriminatoriamente sobre os mais de setenta milhões de cidadãos negros e pardos – que de acordo com o atual senso demográfico conforma a maior população negra fora da África, o segundo maior contingente de afrodescendentes do mundo, número só inferior ao da Nigéria –, estabelecendo uma condição inescapável e inaceitável de desigualdade e subjugação, que arma nosso cotidiano público e doméstico e que é evidenciada, de maneira inequívoca, em todos os indicadores sociais: saúde, longevidade, salário, emprego, distribuição de renda, educação, moradia, transporte, segurança, justiça e direitos civis1.

Nós, o último país a abolir a escravidão mercantil da era moderna – dois anos depois de Cuba e mais de 20 anos depois dos EUA –, ao que parece, temos apenas ampliado as mesmas estatísticas, estabelecendo mais e mais desigualdades entre nós, dando corpo ao racismo estrutural que vigora em nosso país e que estabeleceu nosso modo de convivência mesmo depois de 130 anos da promulgação da Lei Áurea.

Como podemos nos organizar diante de tudo isso? Qual pode ser nossa participação? Pois sabemos que estamos matando gerações de negros e negras (e indígenas) no Brasil e não apenas por dar fim a seus corpos2. Temos assassinado, igualmente, suas almas, seu psiquismo.

O evento O racismo e o negro no Brasil: questões para a psicanálise promovido pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, em 2012, e o livro que dele se originou, lançado pela editora Perspectiva em 20173, são parte de um movimento, ainda incipiente, para tornar mais evidentes as marcas do racismo institucional que se revela também entre nós, psicanalistas brasileiros.

Foram ambos frutos de um grande esforço de superação de resistências para que pudéssemos assumir o quanto temos negligenciado pensar sobre a potência de destruição e morte que compõem as formas de preconceito e discriminação estabelecidos contra grupos que são ativamente excluídos, excluídos também da oportunidade de desfrutar do que a psicanálise tem para oferecer: a liberdade possível e a ética de nosso desejo. Raros eram (e ainda são) os estudos psicanalíticossobre o preconceito contra o negro no Brasil; pudemos, naquele momento, contar com a reflexão oferecida por outras disciplinas – a história, a sociologia, a política, a educação e as artes – para, aos poucos, nos localizar e iniciar um movimento de apropriação, desalienação e, tomara, de contribuição. Esse meu texto, escrito a convite do blog da Sociedade Brasileira de Psicanálise, ao qual agradeço, tem a ver com o reconhecimento da relevância desse movimento para além da comunidade de psicanalistas formada pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. E isso é importante.

Temos procurado dialogar mais, aprender mais com nossos colegas engajados nos movimentos de proteção e valorização do negro para, a partir dessa nova qualificação, construir parcerias e ações que viabilizem a formação de um número maior de psicanalistas atentos à questão racial e a seus efeitos sobre o psiquismo de todos os brasileiros. É só um começo, e ainda há muito a fazer.

Quem sabe essas iniciativas permitam que nos próximos anos possamos estabelecer um verdadeiro encontro, mais colorido, mais equânime, mais vitalizado pelas diferentes diferenças, e que o som ao nosso redor , que tem nos ensurdecido em sua desarmonia, torne-se ato de tradução de Stand by Me, a canção entoada no casamento real, e que nos postemos todos juntos, lado a lado, um pelo outro, por sermos brasileiros, por sermos humanos, por sermos.

[1] Vale a pena conhecer o manual produzido pelo IPEA (Instituto de Política Econômica Aplicada), Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça in http://www.ipea.gov.br/retrato/pdf/revista.pdf

[2] O Atlas da violência 2017 do IPEA indica, por exemplo, que de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. http://www.ipea.gov.br/portal/images/170602_atlas_da_violencia_2017.pdf.

[3] Kon, N.M., Silva, M. L. e Abud, C.C., O racismo e no negro no Brasil: questões para a psicanálise, S. Paulo, Ed. Perspectiva, 2017.

[4] Vale a leitura de trabalhos inaugurais de Neusa Santos Souza e Isildinha Nogueira Baptista no campo da psicanálise: Souza, N.S.,Tornar-se negro, Ed. Graal, 1a.edição, Rio de Janeiro. 1982. https://escrevivencia.files.wordpress.com/2015/02/tornar-se-negro-neusa-santos-souza.pdf e Baptista, I. N. Significações do corpo negro, tese de doutorado defendida no IPUSP no Departamento de Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano, 1988. http://psicologiaecorpo.com.br/pdf/Isildinha%20Baptista%20Nogueira-Significacoes%20do%20Corpo%20Negro-1.pdf, acessado em 13/01/2016

 

*Noemi Moritz Kon é psicanalista, Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, Mestre e Doutora pelo Departamento de Psicologia Social do Instituto de Psicologia da USP e autora de Freud e seu Duplo. Reflexões entre Psicanálise e Arte, S. Paulo, Edusp/Fapesp, 1996, A Viagem: da Literatura à Psicanálise, São Paulo, Companhia das Letras, 2006 e organizadora de 125 contos de Guy de Maupassant, São Paulo, Companhia das Letras, 2009 e co-organizadora com Cristiane Curi Abud e Maria Lúcia da Silva de O racismo e no negro no Brasil: questões para a psicanálise, S. Paulo, Ed. Perspectiva, 2017. Professora do curso de pós-graduação: “Conflito e Sintoma: Clínica Psicanalítica” do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae

CRACOLÂNDIA – DIVERSÃO OU REFÚGIO?

A discussão em torno do tema cracolândia tem ganhado visibilidade nos últimos dias por conta das ações realizadas pela Prefeitura de São Paulo no local, notoriamente conhecido por reunir usuários e traficantes que consomem e vendem drogas a céu aberto. Com o tema em voga, acabam vindo à tona histórias diversas de pessoas que vivem no local e, muitas vezes, fogem do estereótipo do craqueiro . Mas o que leva alguém a chegar ao ponto de se abrigar em um ambiente como o da cracolândia? Diversão? Prazer?

Confira abaixo o artigo da psicanalista Maria de Lurdes Zemel sobre o tema:

A CRACOLÂNDIA SERIA UM LUGAR DE DIVERSÃO OU UM REFÚGIO?

Ao fazer a divisão da palavra crack-lândia podemos associá-la à Disney-lândia – o que leva a pensar sobre o uso de droga estar associado somente ao prazer. Decorre daí a certeza que esse é um lugar que abriga pessoas que vivem só do prazer. Pessoas irresponsáveis, que não querem trabalhar, não respeitam leis, não sabem viver em grupos sociais, etc.

Sim, todos buscamos a droga para obter prazer e é isso que ela nos oferece. Sabemos isso usando adequadamente qualquer droga. A questão passa a se complicar quando a relação com a droga se inverte, isto é: quando ela dirige a relação, como se fosse um tirano a nos dominar. Isso é assim também com o crack.

O crack é a cocaína inalada. Tem um efeito rápido, vai direto à corrente sanguínea por inalação. Seu efeito também passa rápido. Rapidamente causa tolerância, síndrome de abstinência e dependência.

O usuário de crack de terno e gravata, aquele que vem ao nosso consultório, usa crack eventualmente e não frequenta a “cracolândia”. Ele é uma pessoa diferente do “craqueiro” que está lá na “cracolândia” em andrajos ou escondido por um cobertor. No entanto, ambos são seres humanos e merecem respeito e compreensão.

O frequentador da “cracolândia” está submetido à lei social do tráfico, lei rígida e que demanda obediência servil. O tráfico tem palavra: é cumprir ou morrer. É possível que ele obedeça a esse tipo de lei por não ter tido interdição paterna, por ter se perdido dentro da família e por estar num grupo social sem lei, onde nada do que é dito é cumprido.

O frequentador da “cracolândia” tem urgência – fuma uma pedra atrás da outra. Procura na latinha uma pouco de calor na boca, mesmo que a queime. Beija a boca de qualquer um ou aceita qualquer sexo somente para sentir um corpo junto ao dele, um corpo sem nojo, igual ao dele. Envolve-se num cobertor para sentir um limite na própria pele, para se sentir único no meio da multidão de semelhantes. Cada um tem seu cobertor. O cobertor é sagrado; assim como nosso corpo é sagrado para nós e nossa mente é única.

O cobertor esconde muitas histórias. Muitas misérias e muitas dores não poderiam ser suportadas sem a presença dele. Abortos, estupros, surras, mortes, abandonos, violências de toda qualidade. Estamos do lado de fora do cobertor, não sabemos dos sofrimentos daqueles que ali se escondem.

Um bebê substitui a ausência de sua mãe por um “paninho”. Um “craqueiro” precisa de um cobertor para suportar a ausência de vida que existe em sua própria vida. A morte se faz constantemente presente; a morte é fria.

O cobertor nos protege de ver tanta tristeza. Talvez fosse insuportável para nós enxergar o que o cobertor encobre. Talvez seja insuportável para o craqueiro também.

O craqueiro precisa da “cracolândia” para se refugiar e se proteger de nós, que temos medo da precariedade psíquica escancarada por ele.

*Maria de Lurdes de S. Zemel é coordenadora do Grupo de Prevenção ao Uso Indevido de Drogas do Setor de Parcerias e Convênios da Diretoria de Atendimento a Comunidade da SBPSP

*Revisão de Luciana Saddi – membro da SBPSP

Reflexões sobre identidade sexual

**Por Maria Thereza de Barros França

Desde inícios do século XX Freud nos apresentou suas teorias acerca da sexualidade infantil. Certamente organizou observações que já vinham sendo feitas por outros autores da época, entretanto inovou e propôs pensarmos a sexualidade em termos de libido – algo que transcende em muito a experiência do ato sexual. Nossa identidade sexual se firma na adolescência, mas desde muito cedo o processo de seu desenvolvimento está em andamento.

Freud nos colocou em contato com a bissexualidade presente em todos os seres humanos e ressaltou sua força na tenra infância. É um longo processo de amadurecimento emocional a ser percorrido, para que possamos transformar aspectos onipotentes da nossa mente infantil e nos tornarmos adultos, encontrando formas de compor dentro de nós nossos aspectos femininos e masculinos, os quais nunca deixarão de existir: o que se passa é que o desenvolvimento promove o predomínio e a identificação com uma dessas vertentes.

Neste sentido as relações afetivas, especialmente com mãe, pai e familiares, modelos que são para nossa constituição, são de extrema importância. Os bebês humanos não nascem prontos: nossos corpos continuam se constituindo após o nascimento; o mesmo se dá com nossa mente e também com nossos cérebros: as experiências emocionais esculpem nosso Sistema Nervoso, como demonstra Iole Cunha em seus interessantes trabalhos.

Certamente há muita distância entre nosso sexo biológico e a sexualidade psíquica. A desarmonia mente/corpo leva a sofrimentos intensos. Muitas vezes para lidarmos com dor, mobilizamos mecanismos de defesa em que idealizamos situações nas quais estaríamos livres de sofrimento. O que se passa, entretanto, é que apenas iremos gerar outros tipos de angústia.

Para lidar com nossas crianças e jovens às voltas com desarmonias em sua relação mente/corpo, não basta nomeá-los transgêneros, conforme fez o programa Fantástico. Sabemos que rótulos muitas vezes trazem algum alívio. Mas e o que isso quer dizer? Aceitar e respeitar é importante, mas NÃO BASTA! É fundamental que possamos buscar o entendimento amplo sobre os profundos processos inconscientes que se dão em nossas mentes, muitas vezes desconsiderados pelos desenvolvimentos científicos.

Winnicott há muito já dizia que a humanidade paga um preço muito caro por desconsiderar as pesquisas psicanalíticas.

 

** Maria Thereza de Barros França é psiquiatra e psicanalista. Membro efetivo da SBPSP, especialista em psicanálise de crianças e adolescentes pela IPA, docente do Instituto de Psicanálise Durval Marcondes, coordenadora do CINAPSIA, integrante da Secretaria de Psicanálise de Crianças e Adolescentes da SBPSP.

FEELING BLUE – A TRISTEZA DE NOSSOS ADOLESCENTES

*Por Sylvia Pupo

A febre dos jogos e séries ligados à temática da morte parece ter dado voz ao apagamento gradual e silencioso do adolescente na nossa sociedade.

O jogo da Baleia Azul e a série 13 Reasons Why, exaustivamente abordados na mídia nas últimas semanas, geraram perplexidade e pânico a respeito de uma possível epidemia de futuros suicídios e uma controvérsia a respeito de ser ou não recomendada sua exibição ao seu público alvo. Havia o receio da indução a mais suicídios, já que a forma romantizada e detalhada com que o tema é abordado são fatores largamente desaconselhados pela Organização Mundial de Saúde. Tentativas prévias são consideradas um fator de risco importante na indução de mais suicídios.

Tanto o jogo quanto a série expõem a angústia e a desesperança dos adolescentes e os destinos possíveis, embora nem sempre desejáveis, para a sua dor. O suicídio é um deles. Retratam com crueza a violência da via-crucis percorrida pelos jovens – como as etapas do jogo – na sua transicionalidade e na busca de lugar no grupo social. Esta é uma violência que às vezes não notamos ou então subestimamos.

Já fomos adolescentes e sobrevivemos – alguns melhor do que outros, é bem verdade – às angústias e maldades, ao desprezo dos amores e à incompreensão dos pais, às incertezas e dúvidas. Até ocorreu a alguns tirar a própria vida em momentos de desespero, mas não o fizeram. O pensamento parece ter dado conta das angústias.

Dados alarmantes da OMS apontam o suicídio como a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. O que será que mudou?

Os motivos pelos quais pessoas tiram suas vidas são variados e individuais, mas supomos que a desesperança e a dor sejam denominadores comuns. Esses suicídios nos dizem que algo vai mal, que está difícil viver. Que não se tem mais esperança e se está muito só. São sintomas do social?

O que não estaríamos podendo escutar? O que as palavras não estão alcançando no uso do corpo nessa falta de nomeação? Nos perguntamos: onde é que falhamos?

Seja um ato impulsivo ou planejado, de vingança ou desespero, no suicídio há uma mensagem – ainda que enigmática – para quem fica. O que nos comunica essa onda de suicídios, sobre a relação dos jovens com a sociedade? Seria a cultura contemporânea que está destruindo os jovens ou seria o modo que interagimos com ela?

É fato que o psiquismo se apoia em traços da realidade, mas não será, necessariamente, uma reprodução dela. A cultura oferece veículos para a expressão da violência interna de cada um e o jogo é mais um deles.

Podemos ter mais de 13 razões e, mesmo assim, conseguirmos encontrar outras vias para processar nossa dor e dar a ela um destino. Aperta-se o botão delete para que o desconforto desapareça? Novas drogas nos deixam em êxtase permanente. Perdemos a capacidade de tolerar o mal-estar – necessário e estruturante do sujeito – inerente ao processo civilizatório, observado por Freud?

Ninguém pode mais esperar, tudo é para já. Há uma pressão contínua para que se “evolua” (o que será isso?) em uma escalada ascendente, mas não há tempo para aprofundar. Não se tem mais tempo a “perder”. Vemos um grande incômodo quando é necessário desacelerar,  “voltar duas casas no jogo da vida” que se torna, ela mesma, uma série de tarefas a serem cumpridas, em vez de uma experiência a ser vivida.

Não é o caso de procurarmos culpados, mas de pensarmos se estamos conseguindo ajudar os jovens a criarem recursos para lidar com as dificuldades da vida, mas, principalmente, com os próprios afetos.

Estaríamos reproduzindo certos valores e ideais que nos dificultam “re-conhecer” nossos filhos?  Seria bom se pudéssemos acreditar que ser feliz é muito mais do que atingirmos os padrões valorizados socialmente. Que é importante construirmos algo que exceda a nossa sobrevivência – algo para além dela, que nos dê prazer e possa ser um veículo para os nossos sonhos. Questionar o sentido de passarmos a mensagem a um adolescente que ele tem que trabalhar muito agora para ter mais trabalho no futuro e que isso é o que vai fazê-lo feliz.  Considerar que é bom buscarmos satisfação nas nossas escolhas e não apenas reconhecimento. Ensinar que podemos ter felicidade apesar de tantas faltas e limitações. Talvez isso soe mais possível.

O submetimento, também suicida, à tirania de ideais, mostra que essa necessidade de reconhecimento encobre, na verdade, uma carência de auto-reconhecimento.  As patologias contemporâneas têm aí suas raízes. Depressão, baixa auto-estima, as chamadas “patologias do vazio”, que se expressam na forma de distúrbios alimentares, compulsões, adicções, intervenções estéticas em excesso, refletem a insatisfação crônica do sujeito consigo mesmo. Ser feliz tornou-se um valor quase masoquista: ser o que não se é, ter o que não se tem… Não se tolera a falta, a incompletude, a imperfeição. Não se tolera mais o humano.

Esse assassinato das individualidades atinge, sobretudo, os adolescentes, que estão em pleno processo de consolidação pessoal. Qual é o preço de pertencer?

Como conseguir tolerar os vazios sem preenchê-los com drogas, comida, consumo, sexo? Essa parece ser uma das tarefas da atualidade – darmos conta das incertezas e dos vazios de maneira não destrutiva.

Infelizmente não podemos prever com certeza quais jovens vão aderir aos jogos mortais ou cometer suicídio. O que sabemos é que pessoas com uma auto- estima mais satisfatória e uma identidade estável e estruturada terão maior capacidade de julgamento, de tolerar a frustração, de acomodar conflitos e pensar. Esse vai ser um recurso importante  nos funcionamentos impulsivos, por exemplo, a capacidade de adiar a ação.

Nossa tarefa então, não será poupar os adolescentes das problemáticas e frustrações. Ao contrário, temos que ajudá-los a desenvolver recursos para que sustentem as idiossincrasias e possam pensar sobre elas.

Neste sentido, a Psicánalise tem muito a contribuir, já que a violência e a maldade vão continuar a existir em toda parte.

*Sylvia Pupo é psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

Sobre a vergonha

Por Marina Kon Bilenky*

Quem nunca sentiu vergonha na vida? Com intensidade que varia desde o mais leve rubor até um forte sentimento de vexame, a experiência da vergonha é a vivência de uma emoção que pode ser profunda, dolorosa e universal, com efeitos duradouros.

Sentimento eminentemente humano, a vergonha tem muito a nos ensinar sobre nós mesmos e nosso mundo.

A vergonha nem sempre aparece de forma direta e é preciso identificar seus diferentes disfarces para que se possa lidar com ela. A arrogância, a solicitude extrema e o isolamento podem ser maneiras de lidar com esse sentimento, formas que escondem a vergonha por trás de uma máscara e que dificultam o processo de enfrentá-la.

O problema com a vergonha é o comportamento quase instintivo de ocultá-la. Mas e se procurarmos fazer o inverso? O aparecimento da vergonha é uma oportunidade para nos conhecermos melhor. Prestar atenção a seus sinais e não simplesmente se render a eles, poder receber a vergonha sem imediatamente tentar escondê-la, considerar a vergonha e procurar entender a que ela se refere, pode ser um caminho para entrar em contato consigo e perceber o próprio funcionamento.  Ao conhecer as forças que nos dominam, podemos modificar as condições em que vivemos.

*Membro da SBPSP, Marina Kon Bilenky é autora do livro “Vergonha” (Blucher), da série “O que fazer?”, coordenada por Luciana Saddi, Sonia Soicher Terepins, Susana Muszkat e Thais Blucher. O texto acima está no livro lançado recentemente e disponível nas livrarias

 

Morre o poeta?

Por Adriana Rotelli Resende Rapeli *

Cruzava a manhã do domingo quando li que Ferreira Gullar morreu. Onde estão, para onde vão todas as lembranças dos que, como ele, já se foram? Porque o mundo que já acontecia sem ele ainda e mais ainda hoje o mundo é todo sensações que lampejam de seus versos: de cheiro de tangerina (sonho de floresta), de colo de açucena, de espantoso ocre da casa, branco de pedra do piso do banheiro, de alguma coisa dourada na pele, do azul da mancha do quadro de Leonardo (em que parte de mim está?), do guarda sol às três da tarde, o verde erva e poça e olhos e praça. E barulhos: do rumor da cidade ou do silêncio da noite, do latido do cão, de um avião ou de um bater de asas.

Gullar me ilumina em sua arte a questão de vida ou morte: “ O que eu vejo me atravessa como ao ar a ave… e sou então apenas essa rude pedra iluminada ou quase se não fora saber que a vejo.” Não somos pedras, minérios que não sonham, não se espalham no ar como um grito, ou como o cheiro embriagador da fruta. Se pedras somos, elas brilham como diamantes: no fundo do olhar, no mais fundo, detrás de todo o amargor, há guardado um lampejo.

É este brilho, fugaz como espanto de onde brota a humanidade e o poema, aquilo que em nós que se sabe de repente, como recém-chegados em um mundo de maravilhas e angústias. A arte de traduzir uma parte de nós que não é multidão, ninguém. Esse quase nada, quase nunca, que nos faz a consciência que sobrevive à estranheza e à solidão: o poeta Gullar é a criança que nele soluça, mal suportando o peso do amor interminável, acumulado vida afora. No fundo sem fundo, todo o mundo. A idade não o envelheceu, o corpo não cansou de ser enigma. Retirou-se docemente, mas morreu em fúria, ainda em espanto.

O poema, ele o queria nascendo de fruta apodrecendo num prato, não do mármore perene ou de cristal intocável. Ele o queria vivo – se possível em varanda com ruídos da rua, com vozes de pessoas trabalhando. O poema que irrompe donde menos se espera, num cheiro de flor, na janela do ônibus, no moer do silêncio, na poeira dos cabelos, na visão da tarde, soprando por um átimo de tempo. Átimo de átimo que seja, o coração freme e se acende. Pois um simples roçar de mãos comporta imponderáveis toneladas de luz, inquietante é cor de qualquer dia, a tristeza guarda no avesso a alegria ardente .

Hoje, lamentei sua morte. É perda demais para um simples homem, diria ele. Perplexa, lembro com ele que a morte, como a poesia, nos revela a vida que fulgura instantânea: o milagre que a vida traz e zás, ironicamente dissipa. A mesma poesia –brisa que faz do tempo a eternidade, da beleza o infinito.

Flutue ainda, prenhe de poemas. Enquanto isso, suas raízes fundas, poeta, estão já se arrebentando, tão fundas quanto estes céus.

Por ele, que me ajuda a vida a valer a pena.

PS: os trechos de poemas e versos adaptados ao texto são citações dos conhecidos “Dois e dois: quatro” e “Traduzir-se” e principalmente do livro “Barulhos” (1980-1987), José Olímpio Editora, cujo primeiro contato, na mesa da copa da casa de uma amiga, se deu como conviria a Gullar, com inesquecível maravilhamento.

*Adriana Rotelli Resende Rapeli é psicanalista e membro associado da SBPSP e da SBPRJ