psicanálise

Sobre a transitoriedade: ensaio sobre a pandemia

*Denise Aizemberg Steinwurz

 

No ano de 2020, o ano em que se comemora o centenário da pulsão de morte, quem poderia imaginar que, por conta de um vírus, seríamos assolados pelo risco de morte iminente tendo, inclusive, as fronteiras fechadas no mundo inteiro?

Vivemos hoje uma sobrecarga de estranhezas: um mundo novo tão diferente que a pandemia pela Covid-19 apresentou. Providências de ordem prática que precisaram ser tomadas – uso de máscaras, distanciamento social, excesso de informações que sequer conseguimos acompanhar, nomear e elaborar – trouxeram repercussões emocionais. Fomos subtraídos da convivência social e postos em estado de grande desamparo e insegurança. Obrigados ao isolamento e confinados em nossas casas, passaremos por graves impactos econômicos e na saúde da população, e sofremos sem saber como será o mundo depois.

Freud (1919) fala do Unheimlich, esse estranho assustador, que não é conhecido nem familiar, algo que não sabemos abordar. Para Freud, quanto mais orientados estamos, menos temos a impressão de algo estranho em relação aos objetos e eventos. Hoje, porém, parecemos mais desorientados do que nunca.

Esse vírus é invisível e ameaçador, mas se faz ver quando alguém morre, ou nas reportagens, ou quando vemos pessoas com equipamento de proteção, luvas, máscaras e faceshields, fazendo as regiões parecerem zonas de guerra; de certa forma, são. Zusman (2020) avalia que vivemos outro paradigma: “a recomendação de distanciamento físico é uma mudança de paradigma, já que somos gregários por natureza; precisamos de outros humanos para nos constituir humanos”. Hoje, porém, o outro, o espaço e a proximidade parecem nossos inimigos.

As impressões sobre um tempo semelhante estão descritas por Freud (1916), a partir de uma conversa com um poeta, um ano antes da guerra: “um ano depois irrompeu o conflito que lhe subtraiu o mundo de suas belezas. Não só destruiu a beleza dos campos que atravessava e as obras de arte que encontrava em seu caminho, como também destroçou nosso orgulho pelas realizações de nossa civilização, nossa admiração por numerosos filósofos e artistas, e nossas esperanças quanto a um triunfo final sobre as divergências entre as nações e as raças. Maculou a elevada imparcialidade da nossa ciência, revelou nossos instintos em toda a sua nudez e soltou de dentro de nós os maus espíritos que julgávamos terem sido domados para sempre, por séculos de ininterrupta educação pelas mais nobres mentes. Amesquinhou mais uma vez nosso país e tornou o resto do mundo bastante remoto. Roubou-nos do muito que amáramos e mostrou-nos quão efêmeras eram inúmeras coisas que consideráramos imutáveis” (p. 347).

Essa pandemia é, sem dúvida, um momento assim, uma situação traumática, relacionada a perdas significativas. O novo Coronavírus atacou partes fundamentais de nossa vida, e assim como o sistema imunológico de defesas, as defesas emocionais buscam lidar com o clima de insegurança e ameaça. Para Zusman (2020), “as defesas não são por si só patológicas; elas vêm para nos ajudar e se tornam patológicas quando se instalam sem podermos recompor nossas defesas habituais”.

A possibilidade de elaboração dessas angústias depende da estrutura emocional de cada indivíduo. Vemos pessoas com um nível normal de angústia, dada a estranheza do que vivemos; porém, vemos pessoas em quem – frente a essa situação inesperada, geradora de angústias que não podem ser digeridas pelo aparelho psíquico – isso transborda para o corpo que adoece. Se a mente não dá conta, é no corpo que aparecem as manifestações, ou seja, na ausência do símbolo e da palavra, é o corpo que sofre: via atuação (formas brandas, como andar pela casa, bater nas paredes, reclamar ou brigar com alguém, até formas mais graves, como o suicídio); via adicção (compulsão alimentar, uso excessivo de bebidas, cigarros e drogas); via psicossomática.

As organizações psicossomáticas diferem pelo sistema defensivo, pelo nível evolutivo e pela quantidade e qualidade das representações mentais. São as pulsões de vida e de morte que põem em movimento o sistema; há organizações mais emaranhadas na expressão corporal e outras mais próximas da neurose. Quanto mais evoluído o sistema representacional e a simbolização, melhores as defesas para lidar com movimentos regressivos. Uma situação traumática atual reativa a situação traumática precoce, expressa tanto no psíquico quanto no somático, como resultado das modificações na estrutura psicossomática (Steinwurz, 2017).

Quadros somáticos podem surgir ante uma situação traumática e depois desaparecer; porém, podem se instalar como doenças crônicas que geram incapacidade na vida pessoal e profissional, em diversos graus (Steinwurz, 2017). Eles são um sinal de que algo não correu bem no princípio do desenvolvimento. Houve uma dissociação na personalidade, que impede o indivíduo de perceber a relação entre a disfunção somática e seu psiquismo e integrá-la; sem conseguir uni-las, adoece.

Marty (1993) define a função materna como determinante na constituição do psiquismo, bem como na organização psicossomática. Um vínculo afetivo precário com a mãe cria matrizes traumáticas no desenvolvimento psíquico.

Para Winnicott (1949), o ambiente também é fundamental no desenvolvimento emocional. Uma mãe não suficientemente boa – com uma maternagem precária ou inconstante – interrompe esse processo, levando à dissociação entre psique e soma, característica da psicossomática. Sem uma preocupação materna primária, a mãe não oferece suporte egoico para o bebê, que é deixado por conta própria. Ele tem que se haver com suas próprias necessidades quando, muito precocemente, a mãe deveria cuidar delas.

A doença psicossomática seria um pedido de socorro para que se constitua esta integração. Cada sintoma terá um significado emocional, do qual o ego tira proveito para alívio dos conflitos. Estes sintomas orgânicos podem evitar que o paciente desenvolva sintomas psicológicos mais severos. Portanto, com a melhora do orgânico, o ego terá de encontrar outros meios de vazão para as tendências antes aliviadas pelo corpo.

Na busca desses outros meios, no isolamento que vivemos, encontramos o tempo como um aliado, em contraponto a tanto que perdemos. Muitos têm mais tempo para atividades que não faziam, como pintar, bordar e cozinhar, e para aproximar-se de amigos e parentes ainda que virtualmente. Na psicanálise, vemos um aumento da disposição para trabalhos voluntários para pessoas em estado de vulnerabilidade, e para profissionais da saúde da linha de frente com os pacientes com Covid-19.

Em belíssimo texto sobre a transitoriedade, em que relata uma conversa sobre o tempo, Freud (1916) fala sobre o significado dele para cada um: “o poeta admirava a beleza do cenário à nossa volta, mas não extraía disso qualquer alegria. Perturbava-o o pensamento de que toda aquela beleza estava fadada à extinção, de que desapareceria quando sobreviesse o inverno, como toda a beleza humana e toda a beleza e esplendor que os homens criaram ou poderão criar. Tudo aquilo que, em outra circunstância, ele teria amado e admirado, pareceu-lhe despojado de seu valor por estar fadado à transitoriedade” (p. 345). A evidência de que tudo que é belo e perfeito findará pode dar margem a esse pesado desalento, ou levar à rebelião contra tal fato: “de uma maneira ou de outra essa beleza deve ser capaz de persistir e de escapar a todos os poderes de destruição” (p. 345). Essa exigência de imortalidade, porém – alerta Freud – é um desejo nosso, não uma realidade.

E como estamos nesta pandemia? Descrentes e pessimistas como o poeta? Adoecendo no corpo ou na alma? Ou conseguimos lançar mão de defesas psíquicas, meios mais elaborados e alternativas criativas? A necessária adaptação às adversidades para enfrentar essa pandemia nos colocou em contato com nossa capacidade de resiliência, o que nos faz crescer emocionalmente.

Freud (1916) tem uma versão mais otimista da transitoriedade: “Uma flor que dura apenas uma noite nem por isso nos parece menos bela. Tampouco posso compreender melhor porque a beleza e a perfeição de uma obra de arte ou de uma realização intelectual deveriam perder seu valor devido à sua limitação temporal” (p. 346).

A análise será um recurso para criar, por meio do encontro analista-analisando, condições favorecedoras da ampliação do repertório psíquico, para que os conflitos possam ser pensados e experienciados ao invés de depositados no corpo. Para isso, nos aproximaremos de nossas vozes internas, para ajudarmos nossos pacientes a se aproximarem de suas vozes internas.

Nessa pandemia, tivemos de nos reinventar e nos adaptar a novas regras, novas maneiras, viver lutos. Tomo novamente as palavras de Freud (1916), quando fala da necessidade de renunciarmos ao que era precioso, mas terminou: “o luto […], por mais doloroso que possa ser, chega a um fim espontâneo. Quando renunciou a tudo que foi perdido, então consumiu-se a si próprio, e nossa libido fica mais uma vez livre (enquanto ainda formos jovens e ativos) para substituir os objetos perdidos por novos igualmente, ou ainda mais, preciosos. É de esperar que isso também seja verdade em relação às perdas causadas pela presente guerra. Quando o luto tiver terminado, verificar-se-á que o alto conceito em que tínhamos as riquezas da civilização nada perdeu com a descoberta de sua fragilidade. Reconstruiremos tudo o que a guerra destruiu, e talvez em terreno mais firme e de forma mais duradoura do que antes” (p. 347-348). Que nossa reconstrução, no pós-pandemia, seja firme, rica e forte.

 

Referências

Freud, Sigmund (1916). Sobre a transitoriedade. In: _____. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud (V. 14, pp. 345-348). Rio de Janeiro: Imago, 1976.

Freud, Sigmund (1919). O estranho. In: _____. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud (V. 17, pp. 273-318). Rio de Janeiro: Imago, 1976.

Marty, Pierre. A psicossomática do adulto. Porto Alegre: Artmed, 1993.

Steinwurz, Denise Aizemberg. Doença de Crohn e retocolite: abordagem psicanalítica dos fenômenos somáticos. In: Bejar, Victoria R. (Org.) Dor psíquica, dor corporal: uma abordagem multidisciplinar. São Paulo: Blucher, 2017. (p. 175-198).

Zusman, Alberto. Psicanálise e conflitos emocionais em tempos de covid. Encontro virtual promovido pela Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro, em 23 maio 2020.

Winnicott, Donald W. (1949). A mente e a relação com o psicossoma. In: _____. Da pediatria à psicanálise: obras escolhidas D. W. Winnicott. Rio de Janeiro: Imago, 2000. p. 332-346.

* * * * *

Sobre a transitoriedade[1]: ensaio sobre a pandemia
[1]em referência ao título do texto de Freud de 1916.

*Denise Aizemberg Steinwurz é psicanalista, membro associado da SBPSP e mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP e membro do Espaço Potencial Winnicott (Depto. de Psicanálise da Criança) do Instituto Sedes Sapientiae. Contato: steinwurz@uol.com.br

 

Liberdade, Destino

Saiu a edição 67-68 da Revista Ide – psicanálise e cultura, trazendo artigos focados no tema ‘Liberdade, Destino‘; além de trabalhos não temáticos, contos, poemas ou crônicas e resenhas de livros (clique aqui para acessar o sumário).

Editada desde 1975 pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, a publicação aceita trabalhos independentemente de os autores serem filiados à SBPSP e privilegia reflexões na interface da Psicanálise com a Cultura, buscando um diálogo com autores enraizados em diferentes áreas do conhecimento – antropologia, artes, filosofia, história, literatura, medicina, política, sociologia.

Para obter informações sobre o envio de trabalhos para publicação e ver as edições anteriores, clique aqui

* * * *

EDITORIAL Ide 67-68

*João A. Frayze-Pereira

Considerando a grande quantidade de artigos recebidos como resposta à carta-convite que divulgamos para a composição da Ide 66, decidimos dar continuidade à reflexão sobre as questões decorrentes do tema que propusemos – Easy rider: sem destino[1] – nos números 67 e 68, reunidos num só volume. Assim, ampliamos a elaboração iniciada anteriormente, com as proposições dos autores que nos prestigiaram com seus escritos sobre liberdade e destino, muitos dos quais inesperados, como, por exemplo, a bela crônica escrita por Paloma Jorge Amado, lembrando João Gilberto[2]. Mas, há também uma razão prática que justifica este volume duplo: desde que fomos convidados a assumir a editoria da Ide, em 2015, notamos o descompasso entre ano da edição e volume editado, descompasso existente há alguns anos. Então, considerando a avaliação feita pelos órgãos competentes, à qual a revista é submetida, periodicamente, decidimos acertar o passo com esta edição com dois números, correspondentes ao ano de 2019. Finalmente, resta-nos dizer que, por ser um volume duplamente temático, justifica-se um editorial mais extenso que os anteriores.

Liberdade, Destino – o que esses temas querem dizer?

A ideia da liberdade é tema presente em vários momentos da história da filosofia. Entretanto, no momento contemporâneo, como podemos ver em Sartre, ela surge referida ao estado para o qual o homem tende como projeto. Quer dizer, definido como projeto existencial, o ser humano é condenado a ser livre. Nessa medida, pode-se pensar a liberdade como a potência humana para ultrapassar qualquer adversidade que impeça o seu desenvolvimento pessoal – ideia que cabe bem na clínica psicanalítica. Entretanto, se para o senso comum, muitas vezes, liberdade significa poder – é livre quem não encontra obstáculo para a realização do que quer –, não é nesse sentido que Sartre pensa a liberdade cuja experiência pode ser situada desde o corpo, que não interfere na condição livre do ser humano. Quer dizer, posso estar cansado, doente ou apenas com mal-estar e minha liberdade não sofre com minhas dores; ao contrário, sendo livre, “posso desafiá-las, ultrapassá-las ou mesmo negá-las”. (Carrasco, 2011, p. 40; Sartre, 1943, p. 29). Assim, se a liberdade é um valor que funda o humano, a sua radicalidade está justamente nessa condição de que não há nada que me reduza à matéria senão a morte. Ou seja, até a morte somos livres para decidir o nosso destino. Até o advento da morte no curso de uma doença, somos livres para querer viver com tratamentos ou morrer. E resignar-se é uma decisão livre, tanto quanto não se resignar, quando há luta contra as circunstâncias. Ora, não por acaso, Merleau-Ponty, contemporâneo de Sartre, também se interessa pela experiência da doença, pois no campo das enfermidades, mais do que em qualquer outra situação, é mais claro perceber que temos um corpo, que este nos dá limites, mais limites do que supomos ter e, no entanto, a doença não nos reduz a um pedaço de natureza. Quer dizer, mesmo subjugados pela doença, não renunciamos a dar-lhe um sentido humano, a vivê-la como experiência humana. Na doença, somos capazes de exercitar a nossa liberdade, ao não aceitarmos sermos parte inerte da Natureza. E, novamente, essas ideias nos remetem à psicanálise, ao que, muitas vezes, vemos acontecer na clínica. No entanto, parece-nos que a concepção do homem como projeto existencial é necessária, mas não suficiente para dar conta da questão da liberdade no âmbito do pensamento clínico-psicanalítico, posto que, como projeto, o homem é lançado no indeterminado, e é essa indeterminação existencial que demanda reflexão no tocante ao seu estar no mundo. Em outras palavras, há fatos que dispensam a nossa vontade para ocorrer, mas que só podem ser aceitos nos nossos termos. Por exemplo, não dependeu da nossa vontade a geração do nosso ser: nascer é um dado não deliberado pela nossa consciência. Entretanto, ao sermos colocados no mundo, podemos ir além do que somos, podemos nos inventar. A vida pode deixar de ser anônima para se tornar vida vivida, e esta, então, se inscreve na cultura e passa pela liberdade. Porque somos livres, nosso destino, implicado pelo fato de ter nascido, faz-se história, nossa história, que Merleau-Ponty (1945, p. 517), por exemplo, entende como a passagem do natural ao humano. A liberdade seria, então, a capacidade para darmos um sentido novo ao que parecia fatalidade, transformando a situação de fato numa realidade nova, criada por nossa ação e nosso pensamento. Nesse sentido, a liberdade não seria uma condenação à qual estaria sujeito o ser humano (como pensava Sartre), mas uma conquista feita por ele (como pensava Merleau-Ponty). Mas, por que os homens se ocupariam com a conquista da liberdade; afinal, para que serve a liberdade? Quanto a essa questão, lembramos de Hannah Arendt (2019), cuja concepção da liberdade é precisa – a liberdade não se define por um fim exterior a ela mesma, pois a liberdade é apenas para ser livre. Nessa medida, livre é o ser que não se pauta por uma condição exterior a ele, é aquele cuja liberdade não é uma escolha entre várias possíveis, mas aquele que, não se deixando determinar por forças externas, tem a força para se autodeterminar. Assim, “a liberdade, recusa da heteronomia, é autonomia” (Chaui, 2013, p. 198). Ora, essa ideia de liberdade ecoa na psicanálise contemporânea, correspondendo à noção de verdadeiro self, tal como proposta por Cristopher Bollas.

A partir dessas brevíssimas considerações, percebe-se que o tema da liberdade se articula a outra problemática – a questão do destino. Na verdade, ela é uma das temáticas-chave no pensamento dos filósofos, desde a antiguidade clássica, como Alexandre de Afrodisias que indaga: até que ponto o indivíduo, submetido ao destino, não deixaria de ser livre? (Sousa, 1999, p. 91). E, de fato, a interrogação do relacionamento entre liberdade e necessidade, relação que a figura do destino implica, é tão velha quanto a humanidade, e é por si só um capítulo antropológico, cujo desenvolvimento exigiria uma longa passagem não apenas pela história da filosofia, mas também pela mitologia e pela arte, antes de chegarmos à psicanálise. E, no campo da psicanálise, é interessante lembrar, como essa temática, mantida a articulação com a filosofia, pode ser abordada. Nesse sentido, apenas como um exemplo, lembro a distinção feita por Christopher Bollas (1992) entre “destino” e “fado”, termos cujas etimologias são diferentes: “fadoderiva do latim fatum, que é o particípio passado de fari, que significa falar. Fatum é uma declaração profética e fatus é um oráculo. Se fizermos uma revisão da literatura clássica – observa Bollas – , descobriremos ser o fado geralmente anunciado por meio de um oráculo ou pelas palavras de uma pessoa, por exemplo, quando o fado de Édipo é revelado pelo oráculo de Apolo em Delfos. No entanto o destino de Édipo é determinado pela sequência de acontecimentos que o oráculo anuncia. Destino, do latim destinare, significa fixar, segurar, tornar firme e a palavra destinaçãoé derivada dessa raiz. Assim, destino está vinculado mais à ação do que às palavras. Se fado surge das palavras dos deuses, destino é então um caminho pré-ordenado que o homem pode preencher (Bollas, 1992, p. 46).

Que lugar esses termos podem ocupar numa psicanálise? Considerando que a pessoa, ao procurar uma análise, está sofrendo e diz o que sente, ainda que de maneira vaga e imprecisa, pode-se afirmar que essa pessoa está fadada, isto é, pode interferir em seu campo de relações por intermédio do fluxo associativo e de interpretações, vindo a se livrar da maldição que a faz sofrer, cujo responsável foi o seu desconhecimento. Porém, simultaneamente ao fado, tal pessoa traz um destino, isto é, um potencial cuja realização depende menos de uma pesquisa reveladora do sentido da “sintomatologia oracular”, do que do movimento para o futuro através do uso do objeto, um desenvolvimento articulado à transferência (Bollas, 1992, p. 47). Em outras palavras, Bollas associa o sentido do fado ao conceito de falso self e à concepção winnicottiana do viver reativo, assim como articula a ideia de destino ao desenvolvimento do self verdadeiro da pessoa por intermédio do seu idioma pessoal que faz parte do “conhecido não-pensado” (1992, p. 56). Segundo essa concepção, sintonizada com a etimologia e a literatura clássica rastreadas pelo autor, destino refere-se a um potencial na vida de alguém, potencial que uma análise pode contribuir para fazer eclodir e facilitar ao indivíduo desenvolver. Nessa medida, uma das perspectivas de uma psicanálise é pensar o conhecido ainda não pensado, por intermédio do uso do objeto e da pulsão para revelar o self através do espaço e do tempo. Segundo essa perspectiva, ao pensar a sua situação, o indivíduo pode se tornar livre para usar os objetos e conquistar o seu destino, possibilidade cuja realização não é fácil, pois, no mundo atual, ela costuma implicar um alto custo. Quanto a isso, pode-se destacar, entre os artigos aqui publicados, o de Eduardo Goldenstein que se refere a Clarice Lispector, citando: “Ela é tão livre que um dia será presa. Presa por quê? Por excesso de liberdade. Mas, essa liberdade é inocente? É. Até mesmo ingênua. Então, por que a prisão? Porque a liberdade ofende”. Quer dizer, a liberdade, contrária à necessidade e ao medo, inibe e aterroriza aqueles que preferem a prisão oferecida pela confortável, mas entediante repetição do mesmo.

Em suma, as ideias que acabamos de resumir permitem a associação de outras, abrindo um campo bastante amplo para o leitor interessado nas relações entre cultura e psicanálise. Nesse sentido, cabe observar a composição da capa desta Ide, uma espécie de campo alegórico que alude à dimensão vertical da existência, desde o céu inquieto para onde aponta o braço da liberdade até o interior profundo da terra, uma caverna, em que é tecido o destino de cada um. E desde esse espaço duplicado na capa até o miolo desse volume duplo, nossa proposição foi a de instigar a liberdade da reflexão dos leitores, estimulando-os a associar livremente o espírito crítico ao destino da própria revista e, mais que isso, a encontrar durante a leitura o saber ligado ao sabor.

[1] Peter Fonda, conhecido sobretudo pelo filme Easy rider (1969), pelo qual foi indicado ao Oscar pelo roteiro, faleceu em 16/08/2019. Ícone dos anos 1960, não apenas por sua atuação como ator, mas por sua posição política, junto com a irmã, Jane. Com relação à sua passagem, a família Fonda declarou: “enquanto lamentamos a perda deste doce e gracioso homem, também desejamos que todos celebrem seu espírito indomável e amor pela vida. Em homenagem a Peter, por favor, façam um brinde à liberdade” (www1. folha.uol.com.br/ilustrada/2019/08).

[2] João Gilberto, cantor, violonista e compositor brasileiro, faleceu em 06/07/2019. Considerado por musicólogos e críticos como o artista que revolucionou a música brasileira ao inventar uma nova batida de violão, com influências do jazz para tocar samba, criou livremente a “bossa nova”. Lembrando a passagem de Joãozinho com saudade, Paloma Jorge Amado nos autorizou a publicação da crônica que escreveu na ocasião, a quem agradecemos, sensibilizados.

Referências

Arendt, H. (2019). Liberdade para ser livre. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo.

Bollas, C. (1992). Forças do destino. Rio de Janeiro: Imago. Carrasco, A. O. T. (2011). A liberdade. São Paulo:

Martins Fontes. Chaui, M. (2013). Contra a servidão voluntária. São Paulo: Autêntica.

Merleau-Ponty, M. (1945). Phénoménologie de la perception. Paris: Gallimard.

Sartre, J.P. (1943). L’être et le néant. Paris: Gallimard.

Sousa, E. L. A. (1999). O destino: a voz outra da incerteza. Neurose obsessiva. Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, 17, pp. 88-93.

*João A. Frayze-Pereira é editor da Ide — psicanálise e cultura. Psicanalista, membro efetivo e analista didata da SBPSP.

O tempo circular e a marmota eletrônica

*Alexandre Socha

A constatação de que cada pessoa experimenta de maneira muito particular uma situação que se oferece como coletiva e compartilhada pode, à primeira vista, soar demasiado óbvia. Sua complexidade, no entanto, se desdobra na clínica psicanalítica durante a pandemia, quando os modos singulares de se viver e de sobreviver a ela são colocados em evidência. Se as marcadas diferenças sociais e econômicas insistem em nos explicitar que não vivemos todos a mesma pandemia, somam-se aqui também as diferenças de repertório simbólico e de estruturação psíquica de cada um.

Mesmo assim, ao longo dos últimos meses escutei de diferentes pessoas um comentário semelhante, que se repetia aqui e acolá. Trata-se do sentimento incessante de que os dias se repetem, o dia seguinte idêntico ao dia anterior, todos iguais. Não raro utilizam como referência o filme Feitiço do Tempo (1993), para descrever essa espécie de “dia da marmota” ao qual encontram-se aprisionadas. No filme em questão, a passagem do tempo é interrompida e o protagonista acorda sempre no mesmo dia, não importando nada do que tentasse fazer para romper a repetição.

Tal sentimento costuma ser relacionado, pelas pessoas que o relatam, com a perda dos marcadores que lhes permitiam reconhecer uma segunda-feira como segunda-feira, quarta como quarta e domingo como domingo. Trabalho, estudo, lazer e o cuidado com as crianças se intercalam sem as suas usuais distinções espaço-temporais, isso quando não mesmo justapostos. Passado os primeiros meses, alguns puderam criar novas estratégias para medir a passagem do tempo, outros continuam às voltas com a questão. Todos, no entanto, parecem estar lidando com certo acirramento na dissonância entre o tempo do relógio e o tempo vivido. As horas se arrastam lentamente, enquanto o mês passa voando, ou vice-versa.

À repetição dos dias acrescenta-se ainda outro sentimento: o da estranheza de que dentro de casa nada de novo parece acontecer enquanto, simultaneamente, do lado de fora o ritmo dos eventos é frenético. O colapso na saúde pública, as ameaças da necropolítica brasileira, o escalonamento das tensões sociais e institucionais. Tudo ocorre em uma velocidade tal, que basta um dia sem acompanhar o noticiário para tornar-se o ermitão de uma longínqua floresta. É como se, agora, afirmam alguns, tudo acontecesse do lado de fora, onde a urgência e gravidade dos fatos exigem constante atenção. Curiosamente, enquanto os olhos acompanham o movimento ininterrupto pelas telas do celular e do computador, paralisam quando ensaiam, por um instante, retornar a si.

Frente ao contraponto sugerido pela “marmota” e pelo contraste dentro-fora, fui visitado por uma analogia musical.

Uma grande parte da música ocidental que escutamos possui uma forma linear, com começo, meio e fim. A “forma sonata”, largamente utilizada na música de concerto, ou a “forma canção”, explorada pela música popular, são formas orientadas por um senso de narrativa. Saímos do ponto A, passamos pelo B, chegamos ao C, podemos voltar ao A e daí por diante.

Essa temporalidade sequencial é radicalmente distinta da que encontramos em outras tradições musicais, como, por exemplo, em músicas tribais, indígenas, árabes, nas percussões africanas ou em alguns gêneros de música eletrônica. Nessas, não há proposto um caminho narrativo e historicizante. São antes formas circulares, texturas sonoras que instauram um tempo infinito, um eterno agora. Novos elementos podem até ser acrescentados (um instrumento diferente, uma nova frase melódica ou rítmica que é incorporada), mas isso é feito de modo tão sutil que não rompe sua condição circular.

Se as escutamos “de fora”, com ouvidos acostumados à música linear, sua ausência de progressão pode se tornar cansativa e soar monótona. Ao embarcarmos nela, entretanto, o vazio melódico é preenchido por um tecido complexo de ritmos e timbres, criando uma temporalidade capaz de induzir o ouvinte a estados meditativos, de transe ou êxtase.

Mas, o que aconteceria se essa música parecesse não terminar nunca? Como a escutaríamos se ela se arrastasse por dias, meses, indefinidamente, sem que tivéssemos uma previsão clara de seu fim?

Uma segunda analogia pode ser convocada. O psicanalista inglês D. W. Winnicott, ao descrever os momentos iniciais do desenvolvimento humano, propõe como um de seus pilares fundamentais aquilo que chama de continuidade de ser (going-on-being). Esta seria como um fio que perpassa as diferentes situações vivida pelo bebê (o espaço entre a amamentação, o sono, ser banhado, embalado, etc.) reunindo-as na permanência de uma unidade, uma unidade de si mesmo. Temos aqui, implícita, a ideia de que é justamente o movimento entre essas experiências aquilo que cria a sensação de continuidade processual.

A pergunta, então, novamente se coloca: e se não houvesse, para esse bebê winnicottiano, uma discriminação mínima entre os momentos vividos, entre o estar desperto e dormindo, entre sentir fome e saciedade? Poderíamos supor, imaginativamente, que neste caso o tempo para, restando nada além do aprisionamento a um presente estático. Para alguns isso pode se traduzir em tédio, para outros, em ansiedade ou ainda em uma profunda angústia.

Talvez tivesse isso em mente, sem perceber, quando dias atrás um analisando me contava sobre seu comportamento impulsivo de compras durante a pandemia. Havia comprado um pacote de feltros, antes disso uma parafusadeira e antes um jogo de porta-copos. “Nada disso precisava tanto assim”, concluiu. Lembrei de conversas com alguns amigos que diziam estar também comprando pequenos apetrechos mais do que o habitual. Além dos víveres, materiais para bricolagem, acessórios de cozinha e bricabraques diversos.

Com frequência, fica subjacente a ideia de que “quando tal coisa chegar, aí sim vou poder fazer isso ou aquilo outro”. Ou seja, com as panelas novas, a comida certamente ficará mais gostosa, com o aspirador moderno, a casa ficará mais limpa, com o kit de ferramentas, tudo ficará consertado. Obviamente, não é o que acontece. Falta, muitas vezes, o ânimo para cozinhar, o aspirador acaba não alterando o aspecto da casa tanto assim, o conserto não alcança o que foi quebrado e passa-se então ao próximo item.

Ao escutar o analisando que se questionava sobre tais movimentos, tive a impressão de que estávamos diante de algo diferente da habitual compulsão por compras, do preenchimento de um vazio ou do movimento evacuativo de angústias. Na ocasião, disse-lhe que, mais do que o objeto em si, talvez fosse a experiência de esperar por algo, o que estaria sendo procurado e ansiado. Uma ação que lhe fizesse tomar posse do tempo, antecipando o som do interfone que toca, o pacote finalmente nas mãos sendo aberto. Esperar, manter-se em espera e nela sentir-se vivo.

Pensando agora, talvez buscasse a criação de uma chegada, um evento que pudesse romper a circularidade e instaurar novas temporalidades à música de sua quarentena.

*Alexandre Socha é psicanalista, membro associado da SBPSP.

Consciência da própria história

*Por Alicia Beatriz Dorado de Lisondo

 

A adoção é uma opção existencial para aqueles que desejam exercer as difíceis funções parentais. Seja o casal heterossexual, homossexual ou monoparental. Será preciso trabalho mental para lidar com as dificuldades, lutos, frustrações, quando não tem sido possível a concepção do próprio filho biológico.

Outras vezes, a decisão de adotar uma criança surge de mandados internos de compaixão, solidariedade, obrigatoriedade. Ou tentativas de reparação por danos fantasiados, fontes de insidiosa culpa.

O “delírio de bondade” (Ahumada, 1999) é também frequente. Os pretendentes à adoção projetam na criança o próprio desamparo e partes carentes da personalidade. Eles, então, assumem uma postura onipotente, poderosa, “livres” da própria pobreza mental.

Uma narrativa frequente é (1): “Nós encontramos você magro, desnutrido, triste no abrigo. Nós cuidamos de você, oferecemos cuidados médicos, escolas, viagens, uma vida de qualidade. Nada lhe faltou e agora você…”.

Para evitar a dor, esse casal deixa de reconhecer o valor do filho, quem lhes deu a possibilidade de serem pais, já que para eles não foi possível a concepção do desejado filho biológico. A esterilidade é negada. Eles depositam a desnutrição psíquica nessa criatura e assim luzem a onipotência.

“Nos sucede esta desilusão porque ele não é nosso filho. ”Para o bebê, a criança e/ou adolescente, quando institucionalizados em abrigos, mesmo quando têm um padrinho voluntário, ou quando vivem em famílias que os acolhem temporariamente, até serem adotados, há uma privação das funções parentais estáveis, em intimidade.

Pais adotantes

Exercer funções parentais suficientemente boas não é tarefa fácil para ninguém; nem para os pais biológicos. Ao dizer “suficientemente boas” nos afastamos dos ideais onipotentes de perfeição, de salvação. Somos apenas  homens, não somos deuses e portanto seres limitados. Claro que transformações sempre são possíveis!

Quando essas funções são adequadas e a criança adotada tem recursos psíquicos e não está gravemente prejudicada pelos traumas sofridos, ela poderá vir a ser um sujeito capaz de brincar, criar, se expressar, conviver, pensar, sonhar.

Os encontros harmônicos, sintonizados, significativos com o filho, que transcendem os cuidados materiais – com moradia, higiene, saúde, alimentação, escolaridade –, promovem o crescimento psíquico.

“Mamãe limpa este bumbum cheio de cocô para você ficar limpinho, perfumado, meu tesouro. O bebê com o olhar fixado no seu rosto dá gargalhadas em quanto flexiona e estica as perninhas. ”Nessa cena do método de observação de bebês, modelo de Esther Bick (3), a observadora é testemunha de uma relação misteriosa e estética entre a mãe e Pedro, de 8 meses. Ambos revelam encantamento recíproco. Ele busca e se encontra refletido no olhar da mãe, espelho vivo. Para essa mãe, seu filho é um tesouro que expressa sua alegria com a movimentação das pernas e as gargalhadas. Ela lhe atribui valor e, assim, a autoestima é construída.

A paternidade brinda a oportunidade de mergulhar na própria história de vida dos progenitores. O bebê, a criança, o adolescente estão presentes no adulto, fazem parte da personalidade total dos pais. Esses registros são evocados. Às vezes, há uma possibilidade de ressignificar esse percurso; outras, há uma repetição compulsiva.

“Eu não quero que Theo sofra o que eu tenho sofrido com o autoritarismo, a arrogância, a estupidez do meu pai, com a pobreza, com a vida dura.”

Às vezes, os pais não têm consciência da própria história de vida e, com a intenção de “mudá-la” com e para o filho, repetem o mesmo script. Ambos vivem a invariância da história, como as duas caras de uma mesma moeda, com múltiplas variações. O filho, que agora é pai, pode continuar aprisionando pelo próprio mundo interno e agora arrasta Theo a seu calvário.

A transmissão psíquica intergeracional permite que elos unam a nova geração com as anteriores. Os valores, o álbum de família, as obras, as condecorações, as receitas dos avós, os tesouros herdados, as relíquias, as histórias narradas estreitam os laços familiares.

O novo ser estranho, desconhecido, às vezes de outra raça, poderá ser enraizado numa árvore genealógica. Na adoção, o filho bem recebido poderá se apropriar dos valores e ideais dos antepassados. Os antecedentes genéticos, orgânicos, podem ser desconhecidos, mas a transmissão psíquica é de outra ordem. Avós, tios, primos, na família ampliada, são, em certas comunidades, muito importantes e podem propiciar ora um ambiente facilitador, ora um ambiente perturbador para o crescimento mental.

A transmissão psíquica permite que os antepassados estejam presentes como modelos indenitários. Enraizar o filho adotivo na árvore genealógica é legitimar seu lugar na família ampliada do casal adotante. Importam a aceitação e a integração verdadeiras do novo integrante na família ampliada. Um berço mítico é construído com o tecido da tradição renovada.

“Eu guardei para uma possível neta o anel de brilhantes de casamento da minha mãe. Agora que ela chegou, esse é nosso presente para Ana.” “Esta avó recebe Ana como sua neta. Ela presenteia a menina com a joia da bisavó, que consagrou seu casamento. Gesto que enlaça Ana aos elos entre as gerações.” Outras vezes a herança é maldita, perturbadora, uma transmissão transgeracional (Kaës & Faimberg, 1996). Nela, o que não foi processado, elaborado pelos avós, pais, pesa sobre a prole como registros ingovernáveis que não podem vir a ser representados, simbolizados, pensados.

Conhecer tanto quanto seja possível a forma como cada progenitor viveu a vida, entrar em contato com os próprios fantasmas e com as potencialidades de transformação são antídotos para a transmissão transgeracional na descendência (Faimberg, 1996; Kaës y Faimberg, 1996; Gampel, 2002, Trachtenberg et al., 2005). A transmissão de fardos, mentiras, segredos, cruzes, dogmas sufoca a mente do infans em formação e pesa mais quando uma criança já foi traumatizada. Uma paciente em análise relata:

“Eu sempre me senti feia, inferior, desajeitada, desvalorizada, meus ombros largos, a cor da minha pele, meu cabelo crespo marcavam minha raça. Eu lembro que, após a missa pelas bodas de ouro de meus avós maternos, o fotógrafo estava tentando acomodar todos na escadaria da igreja. Como sempre, eu estava quase escondida num canto. Ninguém me percebia. Mas o fotógrafo perguntou: Essa menina é dessa família? Tinha gente chegando para um casamento. “Minha vó respondeu: Claro que ela não é dessa família! Você não está percebendo o cabelo bombril? Eu não estou em foto alguma, eu não era querida.”

A mudança do nome

O nome é o berço da identidade, ele condensa desejos, projetos identificatórios, modelos de inspiração dos pais. A mudança do nome da criança adotada revela as dificuldades dos pais para aceitar a própria história e a do bebê. Sua vida não começa ao chegar na família. Ele tem registros sonoros de um nome que o nomeia. A mudança de nome pode aumentar o sentimento de estranheza.

O nome tem tanta importância na formação da subjetividade que quando nasce um bebê e é abandonado no hospital, ao chegar a um abrigo, importa que o cuidador mais encantado, mais próximo emocionalmente ao infans, o batize com o nome de sua preferência, para submergê-lo na cultura e no processo de humanização.

Chamar uma criatura como boneco, E.T., alienígena, pretinho é aliená-lo da condição humana. Quando os pais colocam o nome de um familiar morto há uma cruz a carregar que pode pesar num self já traumatizado.

“Um casal perde um bebê concebido com as técnicas de fertilização assistida (TFA) após várias tentativas aos 2 meses de idade. Não consegue engravidar novamente. Minhas hipóteses sugerem que há um terrível luto não elaborado, um terror que impede implante do embrião. Rapidamente, adotam um bebê quando são chamados pela Vara. Eles substituem o bebê morto “escolhendo” seu nome para o bebê adotado, que é colocado de saída num caminho sombrio.

“Esse nome condensa a história de dor ante as múltiplas perdas, ante uma primogênita não sepultada. Consultam, a pedido do pediatra, por que Luz, de 13 meses, apresentava sinais de transtornos autistas: não olhava nos olhos, não sorria, não brincava, não tinha linguagem pré-verbal, com grave hipotonia, preferia segurar objetos duros nas mãos. Pais enlutados, tristes, desvitalizados não podiam investir com o esforço que uma criatura assustada, isolada, não responsiva exigia deles. Ela estava protegida numa porosa barreira autista. Com a intervenção psicanalítica na família, os pais, o irmão e a paciente, foi possível que Luz saísse de seu refúgio autístico e construísse vínculos emocionais.”

A história da adoção

Quando a adoção não é legitimada pelo processo judicial, as fantasias inconscientes de roubo do bebê estarão potencializadas. Histórias de mentiras e segredos sobre a trama da adoção também podem pesar como fantasmas no infans adotado.

Elas dificultam o exercício da paternidade. Pais inculpados perdem a espontaneidade, a naturalidade, a capacidade intuitiva. Os pais adotantes de Édipo são um exemplo paradigmático. Eles podem interpretar como castigo qualquer atitude do filho que os desagrade. Um clima persecutório pode permear a relação com temores exacerbados sobre a possível perda do filho.

É oportuno também citar, nesse apartado, as frustrações, a dor, o sofrimento, o ressentimento dos pais quando não é possível conceber um filho com as TFA, apesar das múltiplas tentativas.

Muitos fatores podem estar entrelaçados e contribuir para a não formação do embrião, as dificuldades de implantação, os abortos espontâneos etc.

Sem deixar de ter em conta os aportes de outras ciências, cabe destacar que fatores emocionais podem estar presentes e perpetuar a esterilidade enigmática. Quando a adoção de uma criança não foi a primeira opção do casal, mas a saída, quando esgotados os recursos psíquicos para investir novamente nas TFA, a presença mental do sonhado filho biológico idealizado pode estar muito arraigada.

Os pais que não podem pensar nas possibilidades e riscos da adoção podem interpretar os sinais de perturbações emocionais no filho como a evidência da herança genética.

“Ele é impulsivo, agressivo, rebelde, explosivo, pelo sangue ruim. Doutora, isso é genético, está marcado no DNA.” “Analista: Nós não sabemos sobre as marcas no DNA! Quando os senhores relatam que ele quer voltar a este consultório, ele mostra um caminho esperançoso. Muitos fatores podem estar presentes, entrelaçados em Luiz para ele estar assim.”

O desconhecido pode ser muito assustador e perturbador, fonte de fantasmas aterradores. A busca de explicações causais, deterministas X determina Y; a impossibilidade de tolerar incertezas, os dogmas organicistas dificultam as possibilidades de transformação que a Psicanálise pode oferecer.

Estrutura dos ideais

Por que queremos um filho na nossa vida? Freud (1914) sugere que a descendência permite ao ser humano lidar com a própria morte. O filho permite transcender a vida dos pais. É a obra que permanece.

O paradoxo é como continuar essa cadeia de gerações, como levar os apelidos dos pais e, simultaneamente, se diferenciar deles, ser você mesmo e não ficar aprisionado nas garras do narcisismo parental.

Os pais têm projetos identificatórios sobre a descendência, sonhos, desejos que nutrem a vida mental em formação quando bem usados. Um ideal presente seria ter podido gestar e parir o próprio filho biológico mesmo com as TFA.

Outras vezes, os adultos exigem dogmaticamente, impõem ideais como se o filho fosse uma possessão, um troféu, e não um ser humano diferente deles. Não há uma relação de alteridade, e sim de domínio (Lisondo, 2011).

Especificamente na adoção, os pais podem interpretar o filho que dá trabalho: as solicitações de permanente contato corporal, os caprichos, o negativismo, as reivindicações, os transtornos da alimentação e do sono, os problemas escolares, o choro incompreensível, as somatizações, o necessário confronto geracional na adolescência seriam como desagradecimento.

O filho pode estar anos-luz dos ideais parentais que negam o sofrimento da adoção e as demandas emocionais do infans.

Essa distância é fonte de depressão, desilusão, ferida narcísica. Como se as perturbações na prole denunciassem as falhas nas funções parentais, fonte inesgotável de culpa. Os pais podem vir a ser os melhores aliados do analista e apostar no percurso para uma vida com menos sofrimento para todos os envolvidos. O determinismo entre causas e efeitos é obsoleto. Múltiplos fatores entrelaçados podem configurar os transtornos na vida emocional do filho.

O bebê adotado

A maioria dos casais que pretende adotar uma criança opta por um bebê. Essa escolha é humanamente compreensível, porque se o infans é adotado após o nascimento, a institucionalização em abrigos ou famílias acolhedoras pode ser evitada (Levinson,2004).

O trauma pela perda da mãe biológica, pela fratura entre o mundo pré-natal e pós-natal estará presente, mas o bebê poderá vir a construir um vínculo com a mãe adotante (Lebovici, 2004; Lisondo, 2010), mesmo quando ambos sejam estranhos (Freud, 1919).

O bebê perde o conhecido mundo sensorial, a vivência de continuidade. A privação de abrigo num útero mental, no momento da dependência absoluta, provoca angústias catastróficas primitivas de dilaceramento, liquefação, precipitação, fear of breakdown (Winnicott, 1974).

A qualidade dessa relação misteriosa mãe-bebê-família dependerá do encontro entre as expectativas do bebê, seu arsenal genético, as condições do parto, os sinais vitais e o mundo psíquico dos pais. O amparo, continência que a mãe possa receber do pai e da família ampliada, permitirá que ela ganhe confiança e possa exercer com rêverie a nova função.

E quando a adoção não é de um bebê e sim de uma criança mais velha? Além dos traumas já citados, a criança sofre com a institucionalização. Isso porque os abrigos representam um mal necessário. Pela própria estrutura, várias crianças têm um só cuidador e ele não é estável. Em trabalho anterior (Lisondo, 2011), menciono que, pelos diferentes turnos e plantões, uma criança pode vir a ter 11 cuidadores por semana.

Não é possível criar uma relação de intimidade e confiança com cada um deles. A sensorialidade é fundamental no início da vida. Cada funcionário tem um timbre de voz, um vocabulário, uma entonação, um perfume, uma forma de contato corporal. Para o cuidador é muito difícil, salvo exceções, ter um espaço mental singular e único para cada uma das crianças que cuida.

Trabalho do psicanalista

O trabalho entre o psicanalista e os pais para pensar a adoção, em qualquer momento do processo (2), permitirá criar um espaço psíquico para o filho. Ao lidar com as dores da alma, elaborar os lutos ante a esterilidade, a não concepção do sonhado filho biológico, a transmissão genética, os futuros pais podem revitalizar suas potencialidades e criar melhores condições psíquicas para acolher, compreender e promover o desenvolvimento dessa criatura já traumatizada ao invés de perpetuar queixas melancólicas.

Para saber mais:

Complexo fraterno

O ECA (4) sugere que os irmãos não sejam separados, sempre que possível. Nem sempre os pais adotantes têm disponibilidade para adotar toda a confraria.Em famílias disfuncionais os irmãos nem sempre convivem, tendo diferentes pais e/ou mães. Como diz um pai adotante numa entrevista:
“Ninguém pode impor amar por decreto lei.”
Ou seja, a adoção de um filho nasce das entranhas do ser. O inconsciente não respeita regras.

Nesses difíceis complexos fraternos, às vezes laços de irmandade são criados com outras crianças do abrigo. Uma peculiaridade é a culpa por ter sido o escolhido, enquanto o irmão, o coleguinha, continua institucionalizado.

O projeto “Fazendo história”

O projeto desenvolvido em 2019 tem um valor terapêutico em si mesmo. Nele a criança compartilha com um voluntário treinado os recortes significativos de sua vida num caderno: nascimento, chegada ao abrigo, amigos, esportes e brincadeiras preferidas, ídolos, medos, pesadelos, sonhos, projetos… Também dados dos pais biológicos. Essa narrativa é digitalizada e consta no processo no fórum. Os pais adotantes recebem o filho com essa história afetiva e não só com um prontuário médico. A adoção suficientemente boa é a realização da expectativa esperada, o sonho de encontrar uma família, um lar de verdade. Ver gráficos:

 

No Brasil

Dados de 2019 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) apontam que existem, aproximadamente, 47 mil crianças e adolescentes em situação de acolhimento no Brasil. Do total, 9,5 mil estão no Cadastro Nacional de Adoção e somente 5 mil estão, efetivamente, disponíveis para adoção. A criança passa a constar da lista de adoção depois de tentativas de reinserção na família de origem falharem, e se não houver formas de a criança ficar com a família extensa – tios e avós, por exemplo.

O método Bick

O método Bick de observação de bebês foi criado em 1948 pela psicanalista britânica Esther Bick, com o objetivo de acompanhar a relação mãe-bebê. Seu principal intuito foi oportunizar aos estudantes uma experiência prática com bebês, reconhecendo o benefício que o método pode trazer à formação clínica.

Referências

Ahumada, J. L. Descobertas e Refutações: a Lógica do Método Psicanalítico. Rio de Janeiro: Imago, Freud, S. Itroducción del Narcisismo. In: Freud, S. Obras Completas, v. 14, p. 65-104. Buenos Aires: Amorrortu,

__________ Lo Ominoso. In: Freud, S. Obras Completas, v. 17, p. 217-252. Buenos Aires: Amorrortu, 1919. Gampel, Y. El Dolor de lo Social. Buenos Aires: Psicoanálisis,

Instituto Fazendo História. Uma nova história de acolhimento. In: Famílias Acolhedoras (), IFH, 2019.
Kaës, R.; Faimberg, H. La Transmisión de la Vida Psíquica entre Generaciones. Buenos Aires: Amorrortu.

Lebovici, S. Diálogo Leticia Solis-Ponton e Serge Lebovici. In: Pereira da Silva, M. C. (Org.). Ser Pai, Ser Mãe. Parentalidade: um Desafio para o Terceiro Milênio. São Paulo: Casa do Psicólogo, Lisondo, A. B. D. Rêverie revisitado. In: Revista Brasileira de Psicanálise, v. 44, n. 4, p. 67-84,

__________ Filiação simbólica ou filiação diabólica? Proferida na I Jornada Brasileira Interdisciplinar sobre Homoparentalidade,

__________ O desamparo catastrófico ante a privação das funções parentais. Na adoção, a esperança ao encontrar o objeto transformador. In: MELLO, R. A. A.; NUNES, W. Des-amparo e a Mente do Analista, p. 193-232. São Paulo: Blucher,
Levinzon, G. K. Adoção. São Paulo: Casa do Psicólogo,
Trachtenberg, A. R. Transgeracionalidade de Escravo a Herdeiro: um Destino entre Gerações. São Paulo: Casa do Psicólogo,
Winnicott, D. W. Fear of breakdown. The International Review of Psycho-Analysis, v. 1, n. 5, p. 103-7,


Alicia Beatriz Dorado de Lisondo
é psicanalista didata, docente, psicanalista de crianças e adolescentes pelo IPA do GEP Campinas e da SBPSP, membro de Alobb, cocoordenadora do Grupo de Adoção e Parentalidade da SBPSP e membro do grupo de Pesquisa Protocolo Prisma na SBPSP.

* Este artigo foi publicado pela revista Psique (número 170).

Border: estranheza e compaixão

*Luciana Saddi

O filme implacavelmente expõe o que é o medonho, o terror. Quem atua no roubo e na mutilação de bebês e crianças? Homens ou monstros? Seriam o ódio e o rancor dos que foram excluídos da sociedade e da humanidade, dos que sofreram impiedosamente a falta de respeito, bem como dos que perderam o amor e o reconhecimento, e daqueles que foram e são tratados sem nenhuma compaixão, explorados até a última gota de sangue que engendram o mal? Ou simplesmente, sem motivo algum, a pulsão de destruição surge e toma conta dos homens. Seja como for, por sofrimento e/ou por gosto, não nos enganemos, pois ambos anunciam com imenso gozo destrutivo o fim do mundo, o eterno fim da nossa civilização. Border, a fronteira entre vida e morte, entre amor e destruição, entre bem e mal. O embrião do fim do mundo foi anunciado, não sabemos como exatamente identificar de onde surge o aniquilamento e como se propaga, mas não podemos negá-lo. É preciso investigar, conhecer o mal e lutar até dizimá-lo.

A protagonista Tina trabalha como policial nas docas de Estocolmo. É guarda de fronteira, tem como atribuição fiscalizar bagagens e passageiros. Sua aparência é estranha, principalmente pelos traços grosseiros, que muitas vezes torna indistinguível a diferenciação entre os gêneros. Atingida por um raio na infância – reza a lenda familiar –, desenvolveu uma espécie de sexto sentido, que a torna capaz de “ler as pessoas” e detectar mentiras apenas pelo olhar e pelo olfato – o que sempre representa vantagem na sua profissão. Suas suspeitas se mostram invariavelmente corretas após a investigação. Border é o termo que usamos para quem vive na fronteira. Border é a própria fronteira.

Até que Tina identifica um criminoso em potencial, mas não consegue achar provas para justificar sua intuição e passa a questionar seu dom, ao mesmo tempo em que fica obcecada pelo suspeito. Ela precisa descobrir qual o segredo de Vore. Inexplicavelmente, ambos possuem características fisionômicas semelhantes e que causam estranheza. A câmera, próxima dos personagens, percorre ângulos incomuns e revela, lentamente, aspectos um pouco animalescos dos protagonistas, que lembram os extintos neandertais.

Dolorosa caminhada

A investigação de Tina resulta em uma jornada, um caminho de descoberta de si mesma, autoconhecimento, e também de Vore. Dolorosa e curiosa caminhada rumo a segredos e verdades – a exemplo do trabalho analítico –, na qual a policial se fortalece no processo de investigação e, ao mesmo tempo, se torna mais empática aos sofrimentos humanos. No interior dessa trama há ainda outra em curso, paralela, da qual Tina é peça fundamental. Trata-se de desvendar uma possível quadrilha de vendedores e/ou abusadores sexuais de crianças e bebês. O prodigioso faro da guarda de fronteiras é recurso fundamental para apanhar os criminosos e descobrir como os crimes são realizados.

Border é um filme que une conteúdo e forma de maneira exemplar. Somos apresentados a personagens estranhos, quase que deformados, com habilidades animalescas, envolvidos em uma trama de investigação e suspense. Aparentemente, o único prazer de Tina é “farejar” os maus elementos e os segredos que passam pela fiscalização de passageiros e bagagens. Tina parece ser, em muitos momentos, fria, distante e indiferente. Do tipo que cumpre suas obrigações com rigor, mas nada sente. Poderíamos dizer dela o mesmo que Freud disse, há mais de um século, das histéricas, “belas indiferentes”. Entretanto, beleza não é a palavra para designar as rudes feições da policial.

No início da trama somos apresentados à sua vida doméstica. Um marido autocentrado, preocupado apenas com seus cachorros e prazeres. A relação entre eles é de falsa intimidade. Nenhuma atração ou sexo. É como se Tina tivesse desistido de querer, desejar, amar, e estivesse conformada com as agressões e solidão a dois. A casa malcuidada, quase suja, precária, transmite sensação incômoda de abandono e falta de amor. É, por sinal, a mesma sensação que temos quando a câmera a escrutina: abandono. Além da feiura evidente, há estranheza. Faltam peças. Algo não se encaixa. Sobra mistério. Há também o pai, vivendo num asilo, de quem ela cuida com carinho ainda que com certa formalidade.
 Ao longo do filme descobrimos que ela foi adotada. E Tina irá também buscar a verdade sobre sua adoção. A mentira sobre seu nascimento e adoção nunca havia sido questionada.

Potencial de prazer

Border narra o percurso que vai do conformismo desafetado à autonomia e responsabilidade pela própria vida. A transformação da guarda de fronteiras se dá na relação com Vore. Desse encontro sexual e amoroso – do qual ela continua intrigada – surgem amor-próprio, autoconfiança e um saudável questionamento sobre sua origem familiar. Erotismo e paladar se desenvolvem lado a lado. Um mundo novo se revela. Tina parece estar feliz e se sentir livre pela primeira vez. Ela se delicia com as texturas do corpo, com as potencialidades de prazer que a vida erótica proporciona, com a descoberta de novos alimentos e com a integração à natureza, como se voltasse ao habitat natural. Tina desabrocha, apodera-se de seu desejo e dispensa o antigo relacionamento.

O encontro amoroso com um novo parceiro é, antes, um encontro com si mesma. Desse encontro surge o descobrimento de suas capacidades, independência e autonomia. A apropriação erótica do corpo a leva a uma posição mais ativa no mundo. O repertório pessoal da personagem se expande. A repressão afrouxada provoca novos questionamentos. O filme pode ser visto como metáfora do trabalho psicanalítico. Quanto mais nos conhecemos, mais fortes e livres nos tornamos, e também mais capazes de incomodar e de questionar o status quo. Esse é o movimento de Tina que o diretor nos convida a acompanhar de perto com deslumbre e emoção.

Observa-se, também, o movimento natural dos amantes em direção ao isolamento, decorrente da fantasia universal dos apaixonados que subjaz na crença infantil de serem feitos de matéria especial, diferentes dos demais da espécie humana. Feitos um para o outro, somente. A fusão os torna especiais. Os amantes vivem nas bordas da realidade, são únicos. Tal estado de apaixonamento é descrito por Freud ao tratar do narcisismo. Border, qual a fronteira do amor? Quem amamos quando amamos alguém? O amor ao outro é também amor a si mesmo. Border, na paixão, o eu e o outro se confundem.

Sustentar as próprias verdades, ter voz e autonomia, percorrer caminho paralelo com a investigação edípica: Quem eu sou? De onde vim? Para onde vou? Que família é essa? Pertenço ou não pertenço ao meu grupo? Perguntas que crianças e adultos saudáveis se fazem durante a existência sem ter necessariamente respostas. Tina foi adotada e quer respostas sobre sua origem, sobre as marcas em seu corpo e sobre as diferenças entre ela e sua família, diferenças que antes passavam despercebidas pois eram negadas.

A curiosidade da policial também se dirige ao amante e à estranheza excitante que ele causa. Ele tem muito a ensinar e algo a dizer.

Cegueira pulsional

Haverá uma revelação inquietante e assustadora no final do filme. O mistério é a emoção que impregna Border do começo ao fim. A presença de Vore potencializa o mistério. Homem feio, transgressor, que vive de acordo com suas próprias regras, muito diferente de Tina. E que a leva às perguntas fundamentais nos relacionamentos: Quem é você? O que quer de mim? São os eternos questionamentos, ainda que inconscientes, sobre nossos primeiros vínculos de amor. Procuramos desvendar o enigma de nossos pais ou o pensamento sucumbe. Caso a capacidade de pensar e perguntar não seja solapada, o impulso para o conhecimento, a curiosidade da criança pequena sobre seus pais e sobre a sexualidade poderão se transferir para amplos aspectos de sua vida. Ou não, a depender dos processos de familiarização e da dor originada em tais processos.

O processo de familiarização, de aculturação, a que todos somos submetidos desde o nascimento é sempre estranho, violento e bizarro. Implica em cegueira, renúncia e restrição às forças pulsionais. De fato, nascemos num “hospício” e aprendemos suas regras. Tais regras se assemelham a muitas normas culturais que nos rodeiam. Para uma boa parte dos humanos o mundo parece como dado e não pode ser questionado, é assim e pronto. Alguns percebem o “hospício dos outros”. Sempre é mais fácil ver a loucura das regras familiares e culturais fora de nós. Dessa forma, Tina sofreu, como todos nós, uma espécie de “lavagem cerebral” até se tornar mulher adulta, filha carinhosa e esposa submissa. Tal “lavagem”, irremediavelmente, todos sofremos, desde o nascimento, pois em nosso desamparo inicial dependemos inteiramente do outro para nos apresentar à vida e ao mundo. Border, na fronteira entre instinto animal e pulsão. Entre ser e não ser.

Em relação à forma, o filme rompe com os tradicionais gêneros cinematográficos por reunir quase todos os gêneros ao mesmo tempo. Drama, tragédia, comédia, suspense, policial, terror, jornada, autoconhecimento, erotismo e sexualidade. São infinitas as possibilidades de leitura, de camadas de sentido sobrepostas, compostas, condensadas e justapostas que o jovem diretor, Ali Abassi, é capaz de produzir em quase todas as cenas. Além da permanente sensação de estranhamento ao transitar entre a fantasia, o realismo fantástico e o realismo sem se fixar em uma categoria. Border, na fronteira dos vários gêneros consagrados pelo cinema.

 

Categoria inqualificável

Já assistimos a filmes sobre monstros, sobre frankensteins, vampiros, zumbis, king kongs ou até mesmo filmes com heróis mais disformes e indefesos como Homem Elefante ou O Corcunda de Notre Dame. Border, embora traga algo de monstruoso e incômodo pela feiura e esquisitice de seus personagens, vai além. Os personagens principais são inqualificáveis, não há categoria para eles, assim como não há categoria para o próprio filme. Não fica difícil estender o mesmo raciocínio para todos nós. Basta olhar de perto, da forma como a câmera faz, como os psicanalistas fazem diariamente em seus consultórios, para saber que cada ser humano é uma categoria inqualificável, insubstituível, única, singular. Somos mistura, sempre estranha aos outros, de tantas qualidades, características, histórias, dores, detalhes e em constante metamorfose. E Abassi insiste em nos mostrar de perto tais características e suas transformações. Como se apelasse ao público pelo reconhecimento de humanidade naquilo que é quase não humano. E, dessa maneira, provoca um jogo sagaz de identificação e desidentificação no espectador. Viver e ser diferente da norma. Border subverte padrões de comportamento, gênero, biologia e sexualidade em cenas que, algumas vezes, até causam certa aversão.

Ao assistir Border nos permitimos a feiura, vestimos a pele do bizarro e experimentamos como vivem os que sofrem preconceitos em nossa sociedade: homossexuais, obesos, transgêneros, miseráveis, negros, orientais, hermafroditas, refugiados – todos aqueles que são diariamente excluídos e aviltados, para quem não há compaixão. O filme também nos desperta para inquietante questionamento sobre fronteiras. Qual a distância, se é que existe, entre humano e animal? Entre feroz e terno? Homem e mulher? Fronteiras móveis questionam padrões. Border expõe muitas fronteiras pouco delimitadas. O filme nos leva a perceber que os supostos monstros falam, principalmente, sobre nós, os humanos.

Tina: eu não vejo razão no mal.
Vore: então, você quer ser humana?
Tina: eu não quero machucar ninguém. É humano pensar assim?

Essa espécie em cuja fragilidade e ignomínia Border lança luz. Como se perguntasse, implacavelmente, e com argumentos, o que é o belo? O que é humano? Como e onde encontrar o amor e, afinal, é possível o amor permanecer, resistir, mesmo com tanto sofrimento e brutalidade? A personagem Tina, tem a resposta, e é redentora. Não será possível julgá-la pela aparência, o amor é sua maior beleza, como é também o esforço que a humanidade faz, diariamente, para perpetuar a vida.

Autoacusações

No ensaio O Mal-estar na Civilização, Freud (1929) afirmava que o progresso civilizatório e tecnológico exigia alto preço do indivíduo. Cobrava renunciar à sexualidade e, principalmente, à agressividade – como esforço necessário ao desenvolvimento civilizador. Um dos caminhos apontados para dar continuidade à civilização seria formado pela internalização da força agressiva, voltada para dentro, que agrediria o eu, em forma de autoacusações inconscientes, no lugar de se lançar contra o outro, para fora. O preço a pagar, na tentativa de evitar a destruição dos homens e da sociedade, era se tornar refém do sentimento de culpa inconsciente e, portanto, de constante mal-estar, ambos impeditivos da fruição da felicidade.

Freud deixou para os futuros psicanalistas o questionamento relativo aos sofrimentos que surgiriam no futuro pelo fato de a civilização – em constante transformação – impor de maneira permanente ao homem múltiplas coerções pulsionais, estilos de vida e diferentes formas de pensar e adoecer. Embora, ao destacar a pulsão de morte, força destruidora por excelência, o psicanalista tenha se tornado um tanto cético e desalentado. Afinal, civilizações nascem e morrem, em geral, por conta própria, por medidas, ações e escolhas que as mesmas fazem – nem sempre um inimigo é a causa da destruição.

O mal-estar, o sofrimento e a destruição estão presentes em todas as formas de cultura, não apenas na civilização judaico-cristã. Em cada cultura adquirem características peculiares. Na nossa, em função de sua impermanência e movimentação, o mal-estar costuma ser acompanhado por questionamentos. A maior qualidade de nossa cultura é a liberdade de poder questionar seus limites, de interrogar os processos que nos fazem ser como somos, a ponto de expor, até os últimos limites, a construção, o absurdo e a farsa que é ser humano.

Border, o filme, ao entrelaçar expressões culturais, sofrimentos individuais, manifestações sociais e produções artísticas, responde de quais maneiras o mal-estar, a força de destruição e o sofrimento estão presentes no homem, nas artes e na sociedade neste início de século XXI. A compaixão pode atravessar as fronteiras e, quem sabe, possibilitar a permanência da nossa civilização. No momento, desconhecemos o desfecho.

Border. Título original: Gräns. Direção: Ali Abassi. Ano de produção: 2018. Países: Suécia/Dinamarca. Duração: 100 min.

 

*Luciana Saddi é escritora e psicanalista, membro efetivo, docente e diretora de Cultura e Comunidade da SBPSP. Mestre em Psicologia Clínica, coordenadora do Ciclo de Cinema e Psicanálise: “Mal-estar na Civilização e Sofrimentos Contemporâneos”, realizado pelo Museu da Imagem e do Som (MIS) com apoio da Folha de S.Paulo.

** Uma versão deste artigo foi publicado pela revista Psique (número 170).

Considerações sobre “Aberfan” e as catástrofes sociais em tempos de Covid-19

Episódio (T3, E3) do seriado “The Crown”[1]

 *Bernardo Tanis

Em 1966, o deslizamento de um aterro de uma mina de carvão causou uma tragédia de proporções gigantescas na vila de Aberfan, no sul do país de Gales, resultando em 140 mortes, das quais 116 eram crianças que estavam na escola Pantglas, a um dia de iniciarem o período de férias.

O episódio a que assistimos retrata a escola no dia que antecede a avalanche de 110.000 metros cúbicos de rejeitos que arrombou suas paredes e soterrou as crianças e professores. Na sequência, vemos imagens assombrosas de pais e familiares buscando nos escombros os sobreviventes. Logo vem o pronunciamento de dirigentes do National Coal Board (NCB), corporação estatutária criada para administrar a indústria nacional de mineração de carvão no Reino Unido, tentando se eximir da responsabilidade pela tragédia, atribuída às “intensas chuvas”. E, então, escutamos falas de famílias de vítimas denunciando que há anos alertavam as autoridades sobre o risco do desastre. Depois disso, vieram os posicionamentos e ações do primeiro ministro do Reino Unido, Wilson, e da rainha Elizabeth, sobre os quais falaremos mais adiante.

Em 2015, vivemos no Brasil uma tragédia semelhante, de ainda maior dimensão, com o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana. Considerado o desastre industrial  que causou maior impacto ambiental da história brasileira e o maior do mundo envolvendo barragens de rejeitos, teve um volume total despejado de 62 milhões de metros cúbicos e deixou 19 mortos. Análises realizadas em Governador Valadares encontraram na massa de lama quantidades superiores aos valores aceitáveis de metais pesados como arsênio, chumbo e mercúrio. Esses metais, possivelmente utilizados em garimpos ilegais ao longo do rio Gualaxo do Norte, foram carregados pela torrente de lama.

O Brasil viu também, em 2019, o rompimento de uma barragem em Brumadinho, que resultou em um desastre de grandes proporções no âmbito industrial, humanitário e ambiental, com 259 mortos e 11 desaparecidos. Foi considerado o segundo maior desastre industrial do século e o maior acidente de trabalho do Brasil.

Mas não vamos hoje falar de todo o show de horrores destas terríveis e abomináveis catástrofes nem é o objetivo desse comentário tratar do comportamento das autoridades no nosso país. Qualquer um de nós pode dar um Google e saber mais sobre elas.  Farei aqui algumas considerações desde a perspectiva psicanalítica, para a qual fui convidado a falar, para podermos ampliá-las no debate.

Os vértices de análise e comentários que esses desastres despertam são vários. Humanitários, ecológicos, psicológicos. No entanto, como disse no início do episódio o primeiro ministro Wilson, devemos lembrar que sem nenhuma dúvida “Tudo é político”. Isso significa que, na esfera da humanidade, nada escapa ao modo como os homens organizam a vida social e econômica das nações. Quando e por que certas áreas e populações são objeto de descuido ou negligência. Muitos governantes preferem naturalizar as catástrofes de modo a não assumir responsabilidades que, como estados e municípios, têm para com os seus habitantes.

Mas antes de adentrar no assunto das atitudes dos líderes políticos perante o desastre, quero falar um pouco do efeito do desastre, do trauma subjetivo e social que ele produz, pois acredito que apenas se compreendermos algo da catástrofe humanitária poderemos vislumbrar o que possa ser um mínimo sentido reparatório. Chamamos de reparação em psicanálise o ato ou o pensamento que visa a reparar um dano real o fantasiado.

Frente a essas catástrofes ecológicas e humanitárias, a pergunta é: há reparação, há perdão, há justiça possível?

Há várias definições para trauma, mas todas concordam que se trata do efeito da incidência de um acontecimento singular (individual ou coletivo) que impacta a subjetividade a ponto de desestruturar o psiquismo, de questionar os alicerces da subjetividade que se constrói na confiança no outro para mitigar o desamparo constitucional do ser humano.

Perante a fragilidade do bebê humano, o outro significativo provê as condições de um vínculo que não apenas ajuda a subsistência biológica, a conservação da vida, mas cria a base da esperança de poder ser acolhido e protegido no mundo, assim como as condições de desenvolver um ego capaz de utilizar os próprios recursos internos no futuro.

Nós, seres humanos, criamos vínculos afetivos, sociais, parcerias de trabalho. Fazemos parte de estruturas mais e mais complexas para existir enquanto grupo na pólis, no mundo social e político. O Estado moderno, além de figura de autoridade, tem como função auxiliar na regulação da vida coletiva, na construção de normas e obrigações, no sentido de zelar pelos seus habitantes, pelo povo e pela nação. Não se trata de bravatas ou sofismas, mas de atos concretos que garantam o amparo social. Assim como o fazem nossos progenitores.

O que esses desastres evidenciam é a falência do Estado e a manifestação de um governo submetido a interesses de determinados grupos, que não se importa em colocar o planeta ou a população em condição de risco. Seja no País de Gales, em Mariana, Brumadinho ou tantas outras regiões do planeta. Essa lógica predatória dizima populações, recursos naturais e gera ainda a desesperança e o trauma social, e com eles o ódio, o ressentimento, a violência.

Como seguir em frente quando a realidade se mostra tão avassaladora? Como se sobrepor ao sentimento de impotência frente ao desamparo? Como poder elaborar o luto quando o ódio e o ressentimento são o oxigênio que alimenta a chama viva da perda?

Nesses momentos de trauma social, a sociedade percebe o que muitas vezes prefere silenciar: a falta das mínimas condições de uma vida digna para grande parte da população, privada de moradia, saneamento, segurança e renda.

Caros ouvintes, não podemos confundir o traumático com o acontecimento. Quero frisar este ponto. O acontecimento é da ordem do factual. O trauma é da ordem do desmantelamento das referências subjetivas que nos conferem nossa identidade, nossa noção de tempo e continuidade, nossos sonhos e projetos. É como se suspendesse a noção de continuidade da vida: parece que tudo congela ou explode em inúmeros fragmentos. Demanda recompor um tecido mental esgarçado, recuperar a confiança, a vontade de viver e de produzir.

Como recompor esses vínculos e ligações, intrapsiquicamente e com o mundo? Essa é a tarefa que temos de enfrentar.

Na psicanálise, a negação dos fatos, recurso empregado frequentemente por líderes autoritários, é conhecida como o mecanismo psíquico da desmentida. Ao seu lado, a hipocrisia e o cinismo do discurso dissociado da ação muitas vezes são encarnados pelas autoridades.

Já o ódio e o ressentimento, experimentados por aqueles que foram afetados, impedem a superação de traumas coletivos porque também funcionam como formas de negação. O luto só começa após o reconhecimento da situação por todos os envolvidos. Significa que é possível seguir adiante, reconhecendo a perda e a dor. Não é possível elaborar o luto enquanto há um apego a essas paixões negativas.

Pois bem, se me alonguei neste ponto é porque penso que os líderes de uma nação, embora nem sempre tenhamos líderes que mereçam ser assim chamados, têm o dever de compreender não apenas o dano material, mas também o dano subjetivo dessas catástrofes sociais, ecológicas e humanitárias. Os líderes de uma nação não podem apenas fazer contas nem podem olhar a realidade como pura estatística. Os líderes de uma nação precisam, quando dispõem de um mínimo de empatia pela dor do outro, agir de modo a acolher e conter a angústia inominável do sofrimento pela perda real e imaginária que a catástrofe produziu.

No episódio a que assistimos há duas figuras paradigmáticas de liderança. O primeiro ministro Wilson, representado como uma figura sensível, tomada por uma consternação, dor e um sentimento de culpa pela falha do Estado. A rainha encarna aqueles que, perante a catástrofe, não conseguem empatizar ou se condoer. É interessante observar sua travessia ao longo do episódio, a partir da presença de um Wilson “terapêutico” que, sem acusar, ajuda-a a descobrir que não se trata apenas da razão, mas também do afeto. Não se trata de montar um espetáculo, mas sim de poder demonstrar uma emoção genuína.

Aos poucos percebemos que a rainha não é indiferente à dor e ao sofrimento gerado pela catástrofe, mas há uma limitação inerente a sua personalidade, que procurará reparar ao longo dos anos. A série sugere que ela sentiu remorso pela inação pessoal no momento da crise. Desde o ocorrido, Aberfan se tornou a cidade que ela mais visitou no Reino Unido.

A população de um país se sente desamparada quando seu ou sua líder falha em reconhecer a gravidade de uma crise humanitária e a ruptura que ela provoca no tecido social e da subjetividade. Ele precisa ao lado da demonstração de empatia, oferecer à população respostas concretas. O líder que não dá conta desse desafio não pode oferecer um futuro. Se os governantes e a sociedade não reconhecem e assumem as respectivas responsabilidades por aquilo que foi provocado, dificilmente o trauma poderá ser superado.

 

[1] Participação no debate sobre “Aberfan”, episódio da série “The Crown” (T3 E3) que dramatiza a semana seguinte à tragédia galesa. “Aberfan” foi discutido à distância, na edição de abril do Ciclo de Cinema e Psicanálise, evento promovido pela Diretoria de Comunidade e Cultura, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), pela Folha de S. Paulo e pelo MIS. O vídeo do debate está disponível no YouTube (clique aqui)

 

* Bernardo Tanis é psicanalista, doutor em Psicologia Clínica. Presidente da SBPSP.

 

Sobre-humanos

*Adriana Rotelli Resende Rapeli

Recebi de meu filho mais novo uma mensagem: ele estava de luto pois Stan Lee, criador de super-heróis da Marvel, havia morrido aos 95 anos. Sei que ele tem gostado mais de Homem -Aranha. Como se fosse o próprio, cruza os prédios da grande cidade nos vertiginosos movimentos que o videogame lhe proporciona. Ele também está na fase de sua vida em que, como Peter Parker, ouve do tio: “Quanto mais poderes, maiores responsabilidades”. Vestir o traje de adulto, lançar suas teias e expandir seus domínios (sair da casa dos pais e da cidade natal, entrar na faculdade, escolher profissão, tirar sua habilitação de motorista, escolher outros amigos, namorar) é mesmo quase sobre-humano.

Os super-heróis de Stan Lee não são mera diversão. São pura diversão, aquela que não nos tira da realidade, mas como boas ficções, nos ligam à nossa realidade interna por outros caminhos. Parábolas para nossos próprias percalços, metáforas de nossa desafiante aventura de viver e de nos apossarmos de nossas capacidades e nossas fraquezas. A aventura de viver e assumir os riscos de existir com sua individualidade, nossa criatividade é a originalidade com que cada um desenvolve o que traz em si potencialmente.

Os heróis humanizados, como qualquer adulto, têm responsabilidades e ações consequentes. Eles são capazes de perder e ganhar, caírem muitas vezes e se levantarem –  talvez por isso, na ideia freudiana de um superego mais integrado, eles são capazes de rir e fazer rir. Eles têm o superpoder do bom humor, de rir de si mesmos, a capacidade de existirem apesar e por causa de suas diferenças: são aranhas, formigas ou panteras, são verdes ou negros, são feitos de pedra ou de ferro, são deste ou de outro planeta, são invisíveis, ou mudam de forma, viram fogo, voam, são estranhos ou são só o Coisa.  A possibilidade de identificação é gigantesca, a inevitável referência com o mundo globalizado que tem em sua sociedade – não só a americana –conflitos e a convivência democrática decorrentes da diversidade social e de raça, gênero e talentos. Ganhos e perdas de uma guerra infinita: o mundo eternamente precisando de salvação.

O dia que Stan Lee morreu foi o dia em que também fui assistir ao “Bohemian Rhapsody”, uma biografia de Freddie Mercury, o músico vocalista da banda de rock Queen. De ascendência paquistanesa – parsis que foram para a Índia – Farrouk Bulsara, nascido na África, estudou em Bombaim, tendo depois fugindo da guerra da Tanzânia e migrado para Inglaterra, para o subúrbio de Londres. Além de talentoso, era gay. São muitas as suas diferenças que Mercury ativamente se coloca e pode viver a excentricidade como talento de falar aos outros, de se mostrar no centro do palco como objeto de identificações.

A voz poderosa, seus gritos e gestos hiperbólicos marcam sua diferença que parece ter sido assumida com a força ativa do querer. Assenhorando-se dela, como majestade, o vôo de Mercury –  como o deus mitológico Hermes/ Mercúrio precisou ser mais rápido que os colegas de sua banda. Estes, também geniais, criativos, mas vindos socialmente de uma maior estabilidade, ingleses que estudavam engenharia, odontologia… Sim, todos eles precisaram pôr os pés na estrada e criaram um mundo em que as diferenças se fertilizam em arte.  É tudo fantasia ou a vida real?

De qualquer modo, fidedigno ou não aos fatos, o que se mostra no filme é que a performance musical da banda não é um escape à realidade. O processo criativo que culmina na música título do filme, por exemplo, é uma aventura que vai da lama criativa à fama. E nos divertimos com a confecção da colcha de retalhos que a música- eclética mistura de rock, ópera e o que mais vier – celebra em sua diversidade rítmica e sonora.  No meio de tudo, um filho que grita o perdão da sua mãe por ter se perdido no início de sua vida, despede-se do passado e encara a verdade.  “Is this real life? Is this just fantasy?”. 

Nosso herói, demasiado humano, sai da epopeia e entra na tragédia. Depois de também, como Peter Parker, ter sua Mary, ser o maior entre os seus, ele vive o drama de perder- se de si mesmo e fazer o penoso caminho de se reencontrar. Então, faz o caminho inverso agora da fama à lama, da adoração ao escárnio, do sucesso planetário à impotência diante de um vírus fatal. Indefeso, sofrendo da falta de imunidade, em sua via crucis, ele morre de seus próprios poderes. Nosso herói, como o nosso Cazuza fez e cantou, morre de overdose do mesmo vigor que lhe fez um rei. Como Freud nos lembra de nossas entidades míticas, Eros e Thânatos nos habitam, aqui e ali travam conflitos mortais.

Quando Queen e Freddie Mercury ficaram conhecidos mundialmente nos anos 1970 e 80, eu própria engatinhava nos passos que hoje meu filho faz e fui embalada pelo maestro da multidão que cantava que éramos todos os campeões. Viver é perigoso, dizia o herói do grande sertão de Guimarães Rosa. Como um homem comum, recuperado em sua humanidade, depois das multidões lhe aclamando, ele só precisa do prêmio de um amigo, de um amor. Afinal,  “é sobre-humano amar, sentir, doer, gozar, sentir, ser feliz”.[1]

[1]  Mais Simples,  canção de José Miguel Wisnick, de 1993, gravação de Zizi Possi, no CD Mais Simples, de 1996.

 

REFERÊNCIAS

  • FREUD, S. Além do Princípio do Prazer (1920). In: _-. Edição standard das obras psicológicas completas, vol. XVIII. Rio de Janeiro, Imago, 1996
  • ________ O humor (1927). In: _-. Edição standard das obras psicológicas completas, vol. XXI. Rio de Janeiro, Imago, 1996
  • ROSA, J.G. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986

Adriana Rotelli Resende Rapeli é psiquiatra e psicanalista.

 

Sobre a série Escrita Psicanalítica

*Marina Massi

O projeto de uma série com livros de autores da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) é fruto da pesquisa de doutorado Trinta anos de história da Revista Brasileira de Psicanálise: um recorte paulista. Nessa tese, abordei os artigos publicados na revista, de 1967 a 1996, por psicanalistas da SBPSP.

Entre os vários aspectos que pude observar, destacou-se a necessidade de organizar a produção psicanalítica dessa instituição, de seus primórdios aos dias de hoje, divulgada em revistas especializadas, atividades científicas ou aulas ministradas nos institutos de formação, influenciando várias gerações de profissionais ligados à Associação Psicanalítica Internacional (IPA).

A série Escrita Psicanalítica tem justamente a ambiciosa proposta de reunir, organizar, registrar, publicar, divulgar e consolidar a produção dos pioneiros e das gerações posteriores da SBPSP. Busca também retratar, para a própria instituição, o que nela foi criado de importante desde a sua fundação. Conta, assim, a história da SBPSP pelo veio da produção e da criação psicanalítica.

Esta série lança um olhar para o passado, pois organiza o que de melhor já foi feito, e um olhar para o futuro, pois transmite a fortuna da SBPSP não só como memória, mas como um importante material de estudo para os diferentes institutos de formação psicanalítica e cursos de pós-graduação no Brasil, além de para o público interessado.

Esta é uma oportunidade de promover uma leitura da história das ideias psicanalíticas – uma leitura crítica, comparada – e, ao mesmo tempo, permitir que os psicanalistas aqui apresentados sejam considerados enquanto autores, produtores de ideias e teorias; é uma oportunidade de sair do campo transferencial institucional e passar ao campo das ideias, da reflexão e do debate para além da pessoa do psicanalista.

A ciência e a arte necessitam de organização (ou curadoria) da contribuição que o ser humano foi e é capaz de realizar. Espero que esta série cumpra o objetivo de ser a história das ideias de muitos colegas brasileiros no âmbito da IPA, alguns infelizmente não estão mais entre nós, outros ainda estão em plena produção.

  • Marina Massi é Coordenadora da Série Escrita Psicanalítica.

EXISTE RELACIONAMENTO AMOROSO SEM SOFRIMENTO PSÍQUICO?

*Patricia Vianna Getlinger

Será que é possível minimizar ou eliminar a angústia e o sofrimento nas relações amorosas? Será que os casais contemporâneos que decidem abolir contratos preestabelecidos sofrem menos? Ou os acordos feitos “sob medida” por cada casal resultam em maior liberdade e felicidade?

Por outro lado, o que pensar quando os “novos” acertos entre o casal falham? Quando mesmo tentando criar modelos mais livres para os relacionamentos, alguém se sente “de fora” e se incomoda em não ser o único nem o preferido? Afinal, o ciúme é uma emoção legítima, ou é vergonhoso ser ciumento? E indo além, é errado pretender um amor exclusivo?

Temos visto surgir um número crescente de relacionamentos “abertos”, em que os parceiros (seja nas relações hétero, seja nas homoeróticas) buscam rever e redefinir conceitos como fidelidade e exclusividade sexual, abrindo a relação para a entrada de terceiros. Isso também ocorre nos casos de poliamor, que quando pretendem ser relações amorosas estáveis, pressupõem de forma mais evidente ainda a reconsideração da monogamia. Uma das observações mais interessantes quanto à dinâmica das relações abertas, é que elas costumam ter parâmetros particulares, criados pela dupla ou pelo grupo, que regulam e relativizam a “liberdade total”. Por que isso costuma acontecer?

O que se observa é que em cada caso, embora geralmente se parta da intenção de não ter regras, acaba surgindo a necessidade de se estabelecer um acordo específico. Alguns preceitos organizadores de um relacionamento aberto, por exemplo, podem determinar que ter relações sexuais com outras pessoas não será considerado traição desde que todos estejam presentes na cena; ou que a intenção seja comunicada antes ao parceiro ou parceira; ou que tudo seja relatado depois; ou ainda, que não se chegue ao orgasmo com terceiros. Esses são alguns padrões cerceadores, mas o que nos interessa discutir, é: por que esses parâmetros se tornam necessários? Ou seja, por que, mesmo quando se tenta evitar certas convenções, elas são reinseridas pelos mesmos sujeitos que as tinham abolido?

O que se verifica em qualquer relação amorosa, especialmente as não monogâmicas, é que prever ou controlar sentimentos como ciúme não é possível. Como saber se o “terceiro incluído” no casal não vai despertar uma paixão no meu companheiro ou companheira? E se eu flagrar um olhar mais intenso do que eu gostaria entre eles? No fim, sempre corremos o risco de que alguém se sinta menos importante, menos amado ou mesmo excluído. Mas, afinal, por que é tão desconfortável ficar de fora?

Desde a situação infantil de exclusão do casal parental, presente no modelo freudiano do filho fora do quarto dos pais, temos que lidar com esse desconforto e com a angústia que ele causa. A resolução do complexo de Édipo passa por adiar a fantasia infantil de parear com um dos pais e de deixar o outro de fora. Suportar a condição da própria exclusão exige da criança (e continua exigindo do adulto) que todos lidemos com o desejo onipotente de ser o mais especial e o centro das atenções. Requer que aceitemos a incompletude ou, em outras palavras, que elaboremos a castração simbólica.

Mas o processo de luto dessa posição onipotente é sempre inconcluso. E isso mantém a posição infantil sempre “à espreita”, buscando uma possível satisfação, que quando ocorre é muito prazerosa e de certo modo faz parte do equilíbrio psíquico. Assim, todos guardamos resquícios desse momento inicial de vida, que são reativados ao longo da infância e em muitas experiências ulteriores: querer ser o preferido dos pais com relação aos irmãos, tornar-se o queridinho da professora, atrair a admiração do chefe, ou mesmo chamar a atenção pelo aspecto inverso: ser o que dá mais trabalho, o que sempre perturba e recebe críticas etc. Em um caso e no outro, o que é satisfeito é o desejo infantil de sentir-se único, ser o eleito ou manter-se em evidência.

Com o fim da infância, fazemos o luto (incompleto) dessa posição onipotente e mesmo percebendo, com maior ou menor dor, que os pais têm um ao outro, que os irmãos também são amados, que há outros alunos que cativam a professora e que não somos o eleito pelo chefe, continuamos precisando de reasseguramentos narcísicos desse tipo. E qual é a experiência posterior com maior potencial de restaurar os sentimentos de estar incluído e de ser sui generis para alguém?

O apaixonamento. Esse estado recupera a sensação prazerosa de ser o escolhido e de ser mais encantador do que todas as outras pessoas.  Ou seja, a paixão e o amar e ser amado restituem parte da ferida narcísica operada pela castração. Até aí, isso nos ajuda a compreender porque é tão bom se apaixonar. Mas, de onde vêm a angústia e o sofrimento nas relações amorosas, sejam elas “abertas” ou “fechadas”?

Da ameaça de que esse estado idílico seja ameaçado e perdido. A alegria de reviver a ilusão de completude narcísica promovida pela paixão pode ser simultânea ao temor de sua perda. De fato, esse efeito paradoxal decorre dos indícios de que a sensação tão maravilhosa de reviver a onipotência infantil pode acabar, comprometida pela entrada de um terceiro que roube o nosso lugar e corte essa utopia, transformando-a num engodo.

Talvez os novos relacionamentos abertos sejam uma tentativa interessante de tentar diminuir os efeitos nocivos da exclusão, definindo que ela não deve incomodar. O equilíbrio, entretanto, mostra-se instável, como demonstram o surgimento (e muitas vezes o aumento crescente) dos acordos particulares que dão contorno à liberdade total. Esses limites restabelecem o que fica “de dentro” e o que fica “de fora”, reeditando as fronteiras simbólicas do triângulo edípico e evidenciando seja a dificuldade de se relacionar com absoluta soltura, seja certo conforto diante de fronteiras claras. Negar a dependência afetiva e o prazer da exclusividade, buscando ser “evoluído” e não sentir ciúme, pode funcionar por um tempo. Mas não garante menos sofrimento nas relações amorosas. E, afinal, se podemos restaurar a experiência de ser único, mesmo sabendo que é ilusória, por que recusá-la?

*Patricia Vianna Getlinger é membro associado da SBPSP-SP e membro do Departamento de psicanálise do instituto Sedes Sapientiae

 

Imagem: “Couple”, de Jarek Puczel.

Big Eyes e a Perversão Narcísica

*Vera Lamanno Adamo

A perversão narcísica diz respeito a um modo de se equilibrar fazendo valer à custa de um outro.

Enquanto, na estrutura perversa, o outro é desumanizado, isto é, o outro é coisificado, na perversão narcísica, o indivíduo recusa o valor do outro, para manter-se imune ao conflito e à dor mental.

Na perversão narcísica, o indivíduo usurpa o lugar e o valor do outro, negando ao outro o direito ao próprio narcisismo. O narcísico perverso sequestra o narcisismo do outro. Acredita que para não se sentir perdido e sem saída (embora não o assuma ou admita) é preciso se valer da vitalidade e criatividade do outro, sugá-lo, desrespeitá-lo, para submetê-lo ao seu domínio.

No entanto, a violência cotidiana exercida pelo perverso narcísico não é do mesmo tipo de uma relação sadomasoquista, não é uma perversão explícita, ela entra no dia a dia de forma silenciosa, velada e enganadora, passando quase despercebida.

Enquanto o sádico experimenta prazer humilhando e maltratando o outro, o perverso narcísico age por intimidação, produzindo perplexidade, paralisia e desvalorização, invadindo a mente de sua vítima/cúmplice por produção de culpa.

A vítima/cúmplice acaba aceitando todo tipo de compromisso em detrimento da própria autoestima, executando, muitas vezes, atos contrários à sua moral, pois se sente como um herói chamado a um grande combate, onde suas virtudes reparadoras poderão ser postas à prova.

A história real de Walter e Margaret Keane, retratada no filme Big Eyes, de Tim Burton (2014), ilustra bem a dinâmica do narcísico perverso e sua vítima/cúmplice.

Na década de 1960, Walter Keane foi homenageado por seus retratos sentimentais – crianças com grandes olhos – que vendiam aos milhões. Mas, na verdade, Margaret, sua esposa, era a artista que trabalhava, em virtual escravidão, para manter o sucesso do marido.

Eles se conheceram, aparentemente, em uma exposição de arte ao ar livre, em São Francisco. Mais tarde, à noite, se encontraram.  Casaram-se pouco tempo depois. Margaret estava se sentindo culpada pela separação, insegura e incapacitada para criar sua filha sozinha.

Os dois primeiros anos de casamento foram bons, mas tudo mudou na noite em que Margaret descobriu que Walter estava vendendo suas “crianças de grandes olhos” como se fossem suas produções. Eles estavam em uma espécie de salão, em São Francisco, Walter estava vendendo os quadros, quando alguém de repente perguntou à Margaret: “Você também pinta?”. Ela ficou chocada ao descobrir que o marido levava todo o crédito do trabalho dela, para si mesmo.

Em casa, ela pediu para desmanchar esta mentira, para que ele revelasse a verdade, e Walter, se justificando, disse: “nós precisamos do dinheiro, as pessoas tendem a comprar quadros quando acham que estão conversando com o artista, elas não querem saber que não sou eu o pintor e que preciso que minha mulher pinte, as pessoas já acreditam que eu sou o pintor das “crianças de grandes olhos”, se eu, de repente, disser que é você, eles irão nos processar”.

Margaret cedeu à mentira.

Walter ofereceu uma solução: “ensine-me como pintar essas crianças de olhos grandes”. Ela tentou, mas ele não conseguiu e dizia que era por culpa dela que não tinha paciência para ensiná-lo.

Margaret sentiu-se cada vez mais trapaceada e incomodada com aquela fraude. Querendo se livrar desta impostura, solicitava a Walter que dissesse a verdade e ele reagia cada vez mais com ameaças de violência.

Margaret se intimidava e acabava levando a situação adiante.

Nos anos 60, as pinturas, pôsteres e postcards de Margaret ganharam fama internacional e estavam em todos os lugares, como livrarias, shoppings, museus, mas ela não tinha acesso ao dinheiro. Eles se mudaram para uma bela casa com piscina e empregados, Margaret não precisava fazer nada, exceto pintar. Nesta casa, ela ficava trancada em seu atelier, onde ninguém podia entrar nem mesmo sua filha. Até mesmo os empregados não sabiam disto e quando Walter saia, ligava, de hora em hora, para saber se ela estava em casa. Margaret sempre pintava em segredo em seu atelier, com portas fechadas e a cortina cerrada.

Depois de dez anos casados, oito deles terríficos, Margaret pediu o divórcio. Walter se desesperou: “Você vai destruir tudo… você vai me destruir… eu só queria ser um pintor, só isto.”. Margaret não cedia e, com a desenvoltura de um showman e a frieza de um impostor, Walter dizia: “ninguém saberá a diferença entre a cópia e o original”.

Margaret sustentou sua decisão, mas prometeu a Walter que continuaria pintando por ele. Depois de ter lhe enviado umas vinte ou trinta pinturas, decidiu que não iria mais compactuar com aquela farsa e que dali em diante só falaria a verdade. Levou um longo tempo para Margareth reconhecer que estava sendo cúmplice de uma violência silenciosa e que, ao longo do tempo, foi ruindo ainda mais a sua autoestima e paz interior.

A história de Margareth e Walter Kane, a dinâmica vampiresca que se estabeleceu entre eles, está pintada em cores fortes. No entanto, esta dinâmica, na maioria das vezes, é muito mais camuflada.

O vampiro, figura mitológica, como sugerem as abundantes histórias na literatura, apresenta-se desde uma aparência repugnante, representada nas lendas de diferentes povos da antiguidade, até a figura aristocrática, carismática e sofisticada, descrita no romance de John Polidori, The Vampire. Cada um deles apresenta diferentes graus de sofisticação nos atos de sedução, manipulação e indução de culpa, com o objetivo de sugar a essência vital de sua vítima/cúmplice.

 

Referências

Martins, A. (2009) – Uma violência silenciosa: considerações sobre a perversão narcísica. Cad. Psicanal. – CPRJ. v.31, n.22, 37-56.

Parttrey, A., Nelson, C. (2014)- Citizen Kane: the big lies behind the big eyes. Feral House.

Racamier, P.C. (1992) – On Narcisistic Perversion. Int. Journal. Psychoanal., vol 95, 1, 119-132, 2014.

 

*Vera Adamo é membro efetivo, analista didata e docente do Grupo de Estudos Psicanalíticos de Campinas e da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.