psicanálise

EXISTE RELACIONAMENTO AMOROSO SEM SOFRIMENTO PSÍQUICO?

*Patricia Vianna Getlinger

Será que é possível minimizar ou eliminar a angústia e o sofrimento nas relações amorosas? Será que os casais contemporâneos que decidem abolir contratos preestabelecidos sofrem menos? Ou os acordos feitos “sob medida” por cada casal resultam em maior liberdade e felicidade?

Por outro lado, o que pensar quando os “novos” acertos entre o casal falham? Quando mesmo tentando criar modelos mais livres para os relacionamentos, alguém se sente “de fora” e se incomoda em não ser o único nem o preferido? Afinal, o ciúme é uma emoção legítima, ou é vergonhoso ser ciumento? E indo além, é errado pretender um amor exclusivo?

Temos visto surgir um número crescente de relacionamentos “abertos”, em que os parceiros (seja nas relações hétero, seja nas homoeróticas) buscam rever e redefinir conceitos como fidelidade e exclusividade sexual, abrindo a relação para a entrada de terceiros. Isso também ocorre nos casos de poliamor, que quando pretendem ser relações amorosas estáveis, pressupõem de forma mais evidente ainda a reconsideração da monogamia. Uma das observações mais interessantes quanto à dinâmica das relações abertas, é que elas costumam ter parâmetros particulares, criados pela dupla ou pelo grupo, que regulam e relativizam a “liberdade total”. Por que isso costuma acontecer?

O que se observa é que em cada caso, embora geralmente se parta da intenção de não ter regras, acaba surgindo a necessidade de se estabelecer um acordo específico. Alguns preceitos organizadores de um relacionamento aberto, por exemplo, podem determinar que ter relações sexuais com outras pessoas não será considerado traição desde que todos estejam presentes na cena; ou que a intenção seja comunicada antes ao parceiro ou parceira; ou que tudo seja relatado depois; ou ainda, que não se chegue ao orgasmo com terceiros. Esses são alguns padrões cerceadores, mas o que nos interessa discutir, é: por que esses parâmetros se tornam necessários? Ou seja, por que, mesmo quando se tenta evitar certas convenções, elas são reinseridas pelos mesmos sujeitos que as tinham abolido?

O que se verifica em qualquer relação amorosa, especialmente as não monogâmicas, é que prever ou controlar sentimentos como ciúme não é possível. Como saber se o “terceiro incluído” no casal não vai despertar uma paixão no meu companheiro ou companheira? E se eu flagrar um olhar mais intenso do que eu gostaria entre eles? No fim, sempre corremos o risco de que alguém se sinta menos importante, menos amado ou mesmo excluído. Mas, afinal, por que é tão desconfortável ficar de fora?

Desde a situação infantil de exclusão do casal parental, presente no modelo freudiano do filho fora do quarto dos pais, temos que lidar com esse desconforto e com a angústia que ele causa. A resolução do complexo de Édipo passa por adiar a fantasia infantil de parear com um dos pais e de deixar o outro de fora. Suportar a condição da própria exclusão exige da criança (e continua exigindo do adulto) que todos lidemos com o desejo onipotente de ser o mais especial e o centro das atenções. Requer que aceitemos a incompletude ou, em outras palavras, que elaboremos a castração simbólica.

Mas o processo de luto dessa posição onipotente é sempre inconcluso. E isso mantém a posição infantil sempre “à espreita”, buscando uma possível satisfação, que quando ocorre é muito prazerosa e de certo modo faz parte do equilíbrio psíquico. Assim, todos guardamos resquícios desse momento inicial de vida, que são reativados ao longo da infância e em muitas experiências ulteriores: querer ser o preferido dos pais com relação aos irmãos, tornar-se o queridinho da professora, atrair a admiração do chefe, ou mesmo chamar a atenção pelo aspecto inverso: ser o que dá mais trabalho, o que sempre perturba e recebe críticas etc. Em um caso e no outro, o que é satisfeito é o desejo infantil de sentir-se único, ser o eleito ou manter-se em evidência.

Com o fim da infância, fazemos o luto (incompleto) dessa posição onipotente e mesmo percebendo, com maior ou menor dor, que os pais têm um ao outro, que os irmãos também são amados, que há outros alunos que cativam a professora e que não somos o eleito pelo chefe, continuamos precisando de reasseguramentos narcísicos desse tipo. E qual é a experiência posterior com maior potencial de restaurar os sentimentos de estar incluído e de ser sui generis para alguém?

O apaixonamento. Esse estado recupera a sensação prazerosa de ser o escolhido e de ser mais encantador do que todas as outras pessoas.  Ou seja, a paixão e o amar e ser amado restituem parte da ferida narcísica operada pela castração. Até aí, isso nos ajuda a compreender porque é tão bom se apaixonar. Mas, de onde vêm a angústia e o sofrimento nas relações amorosas, sejam elas “abertas” ou “fechadas”?

Da ameaça de que esse estado idílico seja ameaçado e perdido. A alegria de reviver a ilusão de completude narcísica promovida pela paixão pode ser simultânea ao temor de sua perda. De fato, esse efeito paradoxal decorre dos indícios de que a sensação tão maravilhosa de reviver a onipotência infantil pode acabar, comprometida pela entrada de um terceiro que roube o nosso lugar e corte essa utopia, transformando-a num engodo.

Talvez os novos relacionamentos abertos sejam uma tentativa interessante de tentar diminuir os efeitos nocivos da exclusão, definindo que ela não deve incomodar. O equilíbrio, entretanto, mostra-se instável, como demonstram o surgimento (e muitas vezes o aumento crescente) dos acordos particulares que dão contorno à liberdade total. Esses limites restabelecem o que fica “de dentro” e o que fica “de fora”, reeditando as fronteiras simbólicas do triângulo edípico e evidenciando seja a dificuldade de se relacionar com absoluta soltura, seja certo conforto diante de fronteiras claras. Negar a dependência afetiva e o prazer da exclusividade, buscando ser “evoluído” e não sentir ciúme, pode funcionar por um tempo. Mas não garante menos sofrimento nas relações amorosas. E, afinal, se podemos restaurar a experiência de ser único, mesmo sabendo que é ilusória, por que recusá-la?

*Patricia Vianna Getlinger é membro associado da SBPSP-SP e membro do Departamento de psicanálise do instituto Sedes Sapientiae

 

Imagem: “Couple”, de Jarek Puczel.

Big Eyes e a Perversão Narcísica

*Vera Lamanno Adamo

A perversão narcísica diz respeito a um modo de se equilibrar fazendo valer à custa de um outro.

Enquanto, na estrutura perversa, o outro é desumanizado, isto é, o outro é coisificado, na perversão narcísica, o indivíduo recusa o valor do outro, para manter-se imune ao conflito e à dor mental.

Na perversão narcísica, o indivíduo usurpa o lugar e o valor do outro, negando ao outro o direito ao próprio narcisismo. O narcísico perverso sequestra o narcisismo do outro. Acredita que para não se sentir perdido e sem saída (embora não o assuma ou admita) é preciso se valer da vitalidade e criatividade do outro, sugá-lo, desrespeitá-lo, para submetê-lo ao seu domínio.

No entanto, a violência cotidiana exercida pelo perverso narcísico não é do mesmo tipo de uma relação sadomasoquista, não é uma perversão explícita, ela entra no dia a dia de forma silenciosa, velada e enganadora, passando quase despercebida.

Enquanto o sádico experimenta prazer humilhando e maltratando o outro, o perverso narcísico age por intimidação, produzindo perplexidade, paralisia e desvalorização, invadindo a mente de sua vítima/cúmplice por produção de culpa.

A vítima/cúmplice acaba aceitando todo tipo de compromisso em detrimento da própria autoestima, executando, muitas vezes, atos contrários à sua moral, pois se sente como um herói chamado a um grande combate, onde suas virtudes reparadoras poderão ser postas à prova.

A história real de Walter e Margaret Keane, retratada no filme Big Eyes, de Tim Burton (2014), ilustra bem a dinâmica do narcísico perverso e sua vítima/cúmplice.

Na década de 1960, Walter Keane foi homenageado por seus retratos sentimentais – crianças com grandes olhos – que vendiam aos milhões. Mas, na verdade, Margaret, sua esposa, era a artista que trabalhava, em virtual escravidão, para manter o sucesso do marido.

Eles se conheceram, aparentemente, em uma exposição de arte ao ar livre, em São Francisco. Mais tarde, à noite, se encontraram.  Casaram-se pouco tempo depois. Margaret estava se sentindo culpada pela separação, insegura e incapacitada para criar sua filha sozinha.

Os dois primeiros anos de casamento foram bons, mas tudo mudou na noite em que Margaret descobriu que Walter estava vendendo suas “crianças de grandes olhos” como se fossem suas produções. Eles estavam em uma espécie de salão, em São Francisco, Walter estava vendendo os quadros, quando alguém de repente perguntou à Margaret: “Você também pinta?”. Ela ficou chocada ao descobrir que o marido levava todo o crédito do trabalho dela, para si mesmo.

Em casa, ela pediu para desmanchar esta mentira, para que ele revelasse a verdade, e Walter, se justificando, disse: “nós precisamos do dinheiro, as pessoas tendem a comprar quadros quando acham que estão conversando com o artista, elas não querem saber que não sou eu o pintor e que preciso que minha mulher pinte, as pessoas já acreditam que eu sou o pintor das “crianças de grandes olhos”, se eu, de repente, disser que é você, eles irão nos processar”.

Margaret cedeu à mentira.

Walter ofereceu uma solução: “ensine-me como pintar essas crianças de olhos grandes”. Ela tentou, mas ele não conseguiu e dizia que era por culpa dela que não tinha paciência para ensiná-lo.

Margaret sentiu-se cada vez mais trapaceada e incomodada com aquela fraude. Querendo se livrar desta impostura, solicitava a Walter que dissesse a verdade e ele reagia cada vez mais com ameaças de violência.

Margaret se intimidava e acabava levando a situação adiante.

Nos anos 60, as pinturas, pôsteres e postcards de Margaret ganharam fama internacional e estavam em todos os lugares, como livrarias, shoppings, museus, mas ela não tinha acesso ao dinheiro. Eles se mudaram para uma bela casa com piscina e empregados, Margaret não precisava fazer nada, exceto pintar. Nesta casa, ela ficava trancada em seu atelier, onde ninguém podia entrar nem mesmo sua filha. Até mesmo os empregados não sabiam disto e quando Walter saia, ligava, de hora em hora, para saber se ela estava em casa. Margaret sempre pintava em segredo em seu atelier, com portas fechadas e a cortina cerrada.

Depois de dez anos casados, oito deles terríficos, Margaret pediu o divórcio. Walter se desesperou: “Você vai destruir tudo… você vai me destruir… eu só queria ser um pintor, só isto.”. Margaret não cedia e, com a desenvoltura de um showman e a frieza de um impostor, Walter dizia: “ninguém saberá a diferença entre a cópia e o original”.

Margaret sustentou sua decisão, mas prometeu a Walter que continuaria pintando por ele. Depois de ter lhe enviado umas vinte ou trinta pinturas, decidiu que não iria mais compactuar com aquela farsa e que dali em diante só falaria a verdade. Levou um longo tempo para Margareth reconhecer que estava sendo cúmplice de uma violência silenciosa e que, ao longo do tempo, foi ruindo ainda mais a sua autoestima e paz interior.

A história de Margareth e Walter Kane, a dinâmica vampiresca que se estabeleceu entre eles, está pintada em cores fortes. No entanto, esta dinâmica, na maioria das vezes, é muito mais camuflada.

O vampiro, figura mitológica, como sugerem as abundantes histórias na literatura, apresenta-se desde uma aparência repugnante, representada nas lendas de diferentes povos da antiguidade, até a figura aristocrática, carismática e sofisticada, descrita no romance de John Polidori, The Vampire. Cada um deles apresenta diferentes graus de sofisticação nos atos de sedução, manipulação e indução de culpa, com o objetivo de sugar a essência vital de sua vítima/cúmplice.

 

Referências

Martins, A. (2009) – Uma violência silenciosa: considerações sobre a perversão narcísica. Cad. Psicanal. – CPRJ. v.31, n.22, 37-56.

Parttrey, A., Nelson, C. (2014)- Citizen Kane: the big lies behind the big eyes. Feral House.

Racamier, P.C. (1992) – On Narcisistic Perversion. Int. Journal. Psychoanal., vol 95, 1, 119-132, 2014.

 

*Vera Adamo é membro efetivo, analista didata e docente do Grupo de Estudos Psicanalíticos de Campinas e da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Quarta-feira de manhã

* Pedro Colli Badino de Souza Leite

           

            – Oi.

            – Oi.

            – Essa noite eu tive aquele sonho de novo.

Eu o conheço, já nos vimos algumas vezes, mas, apesar do meu esforço, ainda não consigo me lembrar de sua história ou de seu sonho repetido.

            – Você me conta o sonho de novo?

            – Eu sonhei que estava preso aqui mesmo, na Fundação [Casa], e eles tinham comprado espelhos pra pôr nos quartos. Mas quando eu me olhava, eu não tinha um rosto. Fiquei assustado e acordei.

Qual a prioridade desse rapaz ao me ver novamente depois de um mês? Falar sobre o seu sintoma? Sobre a medicação? Sobre as terríveis condições de sua internação? Sobre sua realidade socioeconômica, um pesadelo desperto? Sobre seus crimes, seu envolvimento com facções criminosas? Nada disso. Sua prioridade é me abraçar e me contar um sonho. O efeito da narração é imediato, a imagem que tenho dele se torna um tanto mais consistente e uma série de memórias sobre sua história passam a emergir dentro de mim. Respondo a partir do local onde fui colocado:

      – Agora eu me lembrei do seu sonho. Por que você acha que ele se repete tantas vezes?

      -Sei lá, talvez ele esteja me mandando alguma mensagem.

      -Qual mensagem?

      – Não sei… (algum tempo em silêncio). Essa semana eu estava vendo de novo uns episódios daquele seriado que eu gosto, aquele dos tronos, sabe? Então, tem uma parte que eu gosto bastante, é sobre uma menina que perde os pais e tem que se virar sozinha, esqueci o nome dela. Ela encontra uma grupo de assassinos que dão casa e comida pra ela, e que começam a treinar ela pra ser uma assassina também. Eles acreditam no Deus de Muitas Faces, que é um deus da morte. No treinamento, ela tem que esquecer que ela é ela, que ela tem um nome, que ela tinha pais, que ela tinha irmãos e amigos. Ela tem que se tornar Ninguém pra depois poder se disfarçar com qualquer identidade que ela queira. Esse é o melhor jeito pra poder se aproximar dos outros e matar quem precisa ser morto. Nesse treinamento, o mestre dela fica perguntando: “Qual é seu nome?”; ela responde: “Eu não tenho nome”. Daí, se ele acha que ela não acredita no que está dizendo, ele a espanca e diz que ela ainda acredita que é Alguém. E daí…doutor, posso tirar minha blusa, tô com calor…

    – Sim, claro.

Nos outros ambientes da Fundação ele não pode tirar a blusa, deve ficar uniformizado com o moletom azul comum a todos os adolescentes. Do meu ponto de vista, tal uniformização contribui bastante com o Deus de Muitas Faces. Ele tira a blusa e por baixo veste uma camiseta de mangas curtas. Tem braços fortes e os apoia sobre a mesa, na minha direção. Suas tatuagens se fazem presente ao meu olhar.

      – Você tem muitas tatuagens.

      – Ah, é verdade, quer saber o que elas significam?

      – Sim.

Ele começa a descrever os significados das tatuagens, uma a uma, e penso que elas poderiam ser reunidas em dois grupos diferentes. O primeiro grupo representa o processo de despersonalização. Tornar-se Ninguém, ser eficiente dentro de um grupo criminoso, adorar o deus da morte. Ele fala, um tanto desafetado:

      – Essa aqui significa que sou membro do grupo P. Essa aqui significa que um policial está cercado por quatro bandidos e que ele vai morrer. Essa aqui significa paciência para que o crime possa ser premeditado com frieza. Essa aqui significa que a vida é só um jogo, como um jogo de cartas ou de dados, então tanto faz viver ou morrer. Essa aqui significa o tráfico de drogas. Essa aqui…não, essa aqui deixa pra lá. Essa outra aqui significa…

       – Espera, por que você pulou essa aí?

       – Ah, é porque essa é triste, essa é pra lembrar de um amigo meu de infância que morreu no crime. A gente era muito parça [parceiro].

Ele se entristece, seus olhos ficam marejados. Ele tenta engolir o choro e continua a falar sobre o primeiro grupo de tatuagens. Tenta fazer a raiva triunfar sobre a tristeza mas já não consegue, começa a chorar bastante. A tatuagem do luto de seu parça é representante do segundo grupo. São tatuagens que erguem um espelho diante de si e lhe mostram que ele ainda acredita ser Alguém. Também nesse grupo estão tatuados: o nome de sua filha, o nome da sua mãe, o nome da sua avó, o nome das suas irmãs e irmãos (não há o nome do pai, e também nunca houve um pai), uma estrela que representa a mulher que ama (ele não sabe que ainda a ama, ficou revoltado com o afastamento dela depois de seu terceiro crime, mas fala dela quase o tempo todo quando conversamos), o time de coração (aquele que sabe ser o mesmo time de seu avô materno), uma lágrima tatuada logo abaixo do seu olho que significa a tristeza provocada em quem está lá fora.

O tempo da consulta já se esgotou há muito tempo, ouço vozes do lado de fora que estão interrogando sobre meu atraso. Apesar da pressão, sustento o espaço para que meu paciente possa elaborar um pouco mais em silêncio. Enquanto isso, reflito sobre o longo caminho que percorremos até aqui. De início, meses e meses diante de graves sintomas psiquiátricos e repetidas atuações autodestrutivas, até que um sonho pudesse ser constituído. Dali, mais uma travessia até hoje, quando o sonho repetido ganha significados que possam ser falados e escutados. E daí em diante não sei, veremos. Mas quando se sonha ser Ninguém, já não se é Ninguém. Neste momento, ele é Alguém que sonha ser Ninguém, e aqui se apresenta uma das potencialidades fundamentais do trabalho psicanalítico. A possibilidade da Fundação de uma Casa psíquica.

 

Este texto é um recorte do artigo “Quarta-feira de manhã”, publicado na Revista Brasileira de Psicanálise [Volume 51, n. 4, 107-21 · 2017]. O autor trabalhou por alguns anos como psiquiatra de adolescentes internados em diversas unidades da Fundação Casa. Invadido e pressionado por memórias daquele período, o trabalho da escrita se mostrou útil para elaborar suas experiências

 

Pedro Colli Badino de Souza Leite é membro filiado ao Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, psiquiatra pelo IPq-HCFMUSP e supervisor de médicos residentes em psiquiatra no estágio de psicoterapia.

 

Narcisismo terciário

*Marilsa Taffarel

No dia seguinte à manifestação “Ele não” era mais nítido o sentimento de alegria… contentamento… satisfação… realização de algo significativo… das pessoas próximas que continuavam a enviar mensagens, vídeos, fotos, relatos.

Após manifestações acontece isso, mas nessa, decididamente, aconteceu mais, aconteceu maior, aconteceu muito.

Uma placa indicativa nomeava o epicentro do acontecimento: Potato Square. Vem a calhar a indicação em inglês, língua ainda internacional, pensamos. Trata-se de uma manifestação que ganhou essa dimensão e, em consequência as praças de varias capitais do mundo ocidental.
Na verdade, o epicentro era apenas nominal, porque havia vários pequenos centros em torno de um som, de alguma banda. O Largo da Batata perdeu seus contornos, ampliou seus limites. O que nos chamou a atenção foi justamente a manifestação consistir em estar ali, caminhar por ali, sentar no meio fio ou em alguma mureta. Estar entre as pessoas.

A defesa da diversidade, da multiplicidades, das singularidades estava ali estampada em gentes tão diferentes nas roupas, nos gêneros, nos adereços, embora sempre em algum lugar no rosto, nos braços, nas costas, nas testas, nas camisetas, nos lenços estivesse o “ Ele não”.

Estávamos caminhando entre as pessoas, sentindo com todos os sentidos e nos perguntando o que é uma manifestação, além de ser isso mesmo: uma manifestação?
Muitos cartazes diziam: “não é uma manifestação política, é moral”, pelo direito de ser diverso. Diríamos: uma manifestação desconstrutiva de enunciados totalizantes, hierarquizantes e fundados no desejo de uniformização do humano.

No entanto, fica a pergunta: afinal o que é uma manifestação? O fato é que não há uma manifestação. Há manifestações. Muitas delas constituem-se como fenômenos de massa que Freud descreveu. Massas mesmerizadas por líderes que encarnam figuras onipotentes, oniscientes. Líderes que convocam o desejo de obediência. Assujeitados, acríticos e passionalizados, os liderados abdicam de sua condição de sujeitos na entrega ao líder que os conduzirá ao poder e extermínio dos opositores.

Nessa manifestação “desconstrutiva”, tratava-se do prazer de estar entre pessoas as mais diversas de seu gênero, de sua classe, de seu nível, de sua geração. Estar além de todos esses atributos.

Pensei, para caracterizá-la e diferenciá-la em um conceito que reencontrei há algum tempo: narcisismo terciário. Conceito formulado por Alcira Marian Alizade, psicanalista argentina, falecida em 2012 , cofundadora da COWAP, autora de diversos livros sobre seu pensamento psicanalítico e também de livros de ficção.

Como ela pensa esse, que ela chama de “novo ato psíquico”, sem medo de usar as mesmas palavras que Freud utiliza para designar o narcisismo que se instala unificando as pulsões autoeróticas?

O narcisismo terciário dependeria de haver um investimento de amor que se inscreveria no bebê. Tal moção seria o suporte de investimentos que, à diferença dos narcisismos primário e secundário, não retornam ao ego. Eles não estariam ligados à castração, ao Édipo. Seriam pré- edípicos ou para edípicos e assim se manteriam.

Trata-se para ela da condição de possibilidade do relacionamento com o alheio, o distante, o social. Com objetos que estão além dos limites e dos interesses do nosso entorno social, estético, financeiro imediato. A vivência e a experiência da contingência e da transitoriedade da vida fariam emergir com mais força as possibilidades transformadoras, a conquista de espaços da pulsão de vida. Alicira pensa também a clínica como conquista desses espaços.
Vemos que, de forma ousada, essa autora – conhecedora do pensamento freudiano, kleiniano e do pensamento psicanalítico francês contemporâneo – prioriza, nessa conceituação, a pulsão de vida, o corpo – o corpo impõe sua presença viva e mortal – e os investimentos não-edípicos.

O narcisismo terciário pode ajudar a compreender como descobrimos a condição humana mais do que atravessando barreiras estéticas, intelectuais, diferenças de gênero. E sim recuperando investimentos em sistemas não centrados, não hierárquicos. Investimentos nas coisas humanas, em todos os seres que constituem nosso pequeno e frágil planeta.

 

Imagem: AFP para a Revista Época.

 

Marilsa Taffarel é membro efetivo e professora da SBPSP, mestre em filosofia da psicanálise pela PUC-SP, doutora pelo núcleo de psicanálise da PUC-SP e co-autora do livro “Isaias Melsohn, a psicanálise e a vida”.

Sobre o aborto, com a psicanálise

*Ludmila Frateschi

Paulo Endo[1], no I Simpósio Bienal da SBPSP, conclamou a psicanálise e os psicanalistas a não se calarem quando seus muitos anos de produção científica tiverem algo a acrescentar ao debate público. É possível que a psicanálise possa contribuir com a discussão sobre manter ou não o aborto como crime?

Os movimentos pela defesa da vida das mulheres e pela igualdade de direitos entre mulheres e homens têm defendido, já há muito tempo, a autonomia de decisão de uma mulher sobre seu o corpo e o seu direito de fazer um aborto no caso de gravidez que não se sinta apta a levar a termo.

No Brasil, a legislação mantém o aborto como crime no Código Penal, prevendo de um a três anos de reclusão para aquelas que o praticam. Destacam-se apenas três situações em que a pena não se aplica: risco de morte da mãe, anencefalia fetal e gravidez decorrente de estupro. Alguns legisladores defendem que a criminalização seja ainda maior: O projeto de lei 5069/2013, por exemplo, levou milhares de mulheres às ruas e fomentou várias manifestações feministas em 2015, propondo tornar também crime o auxílio ao aborto[2]“ e acabou não indo para frente[3]. Também o texto atual da PEC 181/2015[4], originalmente criado para estender a licença maternidade de mães de prematuros, foi alterado por um deputado: num desvio, ele acrescentou uma emenda prevendo que a vida de fetos deva ser protegida acima de tudo e desde a concepção[5].

Por outro lado, uma sugestão legislativa para legalizar o aborto voluntário até a décima segunda semana de gestação tramitou na Comissão de Direitos Humanos do Senado, ensejando cinco consultas públicas entre 2014 e 2016[6]. Seu relator sugeriu o arquivamento do projeto no início deste ano[7]. No entanto, uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 442 ajuizada pelo PSOL com o argumento de que os artigos do Código Penal referentes ao aborto são inconstitucionais, passou a tramitar no Supremo Tribunal Federal (STF) e, em agosto, realizou-se mais uma audiência pública. Não sabemos ainda qual será o resultado final. A audiência ganhou ainda maior visibilidade porque, no mesmo mês, na Argentina, vimos milhares de mulheres nas ruas em vigília pela aprovação da legalização do aborto naquele país. Lá, o movimento teve uma vitória na Câmara, mas uma derrota no Senado.

A criminalização do aborto leva à enorme subnotificação dos casos e aos nefastos efeitos da prática que se faz clandestinamente. A pesquisadora Débora Diniz, expondo a Pesquisa Nacional do Aborto[8] na audiência do STF, apresenta o impressionante dado de que uma a cada cinco brasileiras com quarenta anos já fizeram ao menos um aborto. Diniz cita também o emblemático (mas, infelizmente, comum) caso de uma mulher que, mãe de outros filhos, morreu numa manobra com um talo de mamona, naquilo que seria o seu segundo aborto. Denuncia-nos, assim, como a criminalização obriga as mulheres a se esconderem, impedindo que procurem ajuda, orientação e cuidado e levando à repetição de uma situação tão dolorosa e arriscada. Convoca-nos, como analistas, a pensar: que mecanismo psíquico e social opera na hipocrisia que nega a realidade dos abortos clandestinos? O que favorece a repetição deste ato mortífero?

Outra expositora da audiência Pública, a pastora Lusmarina, do Instituto de Estudos da Religião (ISER)[9], recusa o dogmatismo e reforça os preceitos humanistas de sua Igreja: a importância do acolhimento e a singularidade de cada experiência. Ela fala em “escolhas possíveis”, lembrando-nos do preceito também psicanalítico de que um ato ou sintoma é sempre o melhor que o sujeito pode fazer com sua angústia naquele momento e, abstendo-se de uma posição que julga, diz ela: “Não cabe a nós como sociedade, como Estado ou como gente de fé, “amontoar aflição sobre aflição’ – como dizia Lutero -, culpa sobre culpa, medo sobre medo, abandono sobre abandono, dor sobre dor, ao ameaçar com a prisão e a categorização de ‘assassina’ alguém que está numa profunda situação de vulnerabilidade”.

Virginia Ungar[10], Presidente da International Psychoanalytical Association (IPA), disse: “Partamos de uma evidência: nossa época não é a de princípios do século passado quando nasceu a psicanálise. Tampouco a situação das mulheres que estamos aqui é representativa da maioria das mulheres. É verdade que antes houve outras mulheres no lugar de condução de muitas sociedades psicanalíticas. Isto não quer dizer que vamos negar o lugar vulnerável que tem tido e ainda tem a mulher em nossa sociedade”. Creio ser importante que possamos pensar nas diferentes condições em que as mulheres no Brasil fazem aborto. Segundo a Pesquisa Nacional do Aborto, a mulher que tem menos acesso a planejamento familiar, que pratica aborto nas piores condições e que tem maiores complicações é pobre, negra ou indígena, nortista ou nordestina. Ela precisa escolher entre ter um filho que não pode ou correr risco de vida. Entre adequar-se a um mandamento social de que não pode dar conta ou, como disse a Pastora Lusmarina, acreditar que é uma assassina.

Sabendo que a possibilidade de maternar não é universal entre as mulheres e que é fundamental para o desenvolvimento da criança, pergunto-me então o que a psicanálise e os psicanalistas têm a dizer sobre a criminalização daquelas que assumem o seu limite.

Retomo, por fim, um episódio da série “The Handmaid’s Tale”, inspiração das manifestações na Argentina. Nele, uma das personagens – obrigada a ter filhos para a comunidade, já que é uma das poucas mulheres férteis que resta – tenta cometer infanticídio. Ordena-se então que seja apedrejada pelas outras mulheres férteis. Estas recusam-se a cumprir a ordem. Compreendem, a meu ver, que não é possível apedrejar alguém por levar a cabo um desejo que reconhecem em si mesmas. Parece-me algo que um psicanalista poderia questionar: se em toda mulher há alguma ambivalência em tornar-se mãe, por que socialmente apedrejamos, matamos e criminalizamos mulheres que admitem não poderem tornar-se mães?

 

Imagem: Alejandro Moreyra para o portal Tiempo Argentino

 

[1] Paulo Endo, em fala no Fórum Violência e Psicanálise no I Simpósio Bienal da SBPSP

[2] No texto do PL: “Induzir ou instigar a gestante a usar substância ou objeto abortivo, instruir ou orientar gestante sobre como praticar aborto ou prestar-lhe qualquer auxílio para que o pratique, ainda mais sob o pretexto da redução de danos

[3] Projeto de Eduardo Cunha (então do PMDB do Rio de Janeiro),

[4] De autoria de Aécio Neves (PSDB-MG)

[5] Jorge Tadeu Mudalem (DEM – SP)

[6] De autoria de André de Oliveira Kiepper, cidadão comum do Rio de janeiro, mestre em saúde pública

[7] Senador Magno Malta (PR-ES)

[8] https://www.youtube.com/watch?v=kuzNoNoYrTg

[9] https://www.youtube.com/watch?v=joAMPIaSkv0

[10] Virginia Ungar, O mesmo, O outro – fala na conferência de abertura do I Simposio Bienal da SBPSP

 

Ludmila Frateschi é psicóloga e psicanalista formada pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Pertence ao Serviço de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (HC/FMUSP). É atualmente membro filiado do Instituto Durval Marcondes. Atende em consultório particular. Contato: ludmilafrateschi@gmail.com

Ilusão: o perigoso fio que nos conecta mesmo sem wi-fi

A Sociedade Brasileira de Psicanálise colabora com a Revista Psique.

Abaixo, reprodução do artigo de Helena Cunha Di Ciero Mourão* para a revista Psique nº 150, de agosto de 2018

 

Recentemente testemunhei a seguinte cena num restaurante. Eram dois adolescentes com os pais. Logo que a comida chegou, um apetitoso sanduíche acompanhado de batatas fritas, cada membro da família sacou do bolso seu celular e fotografou o prato antes mesmo de experimentá-lo. Parecia uma cena de faroeste. Estavam ávidos e felizes por registrar o cheeseburguer que comeriam em segundos. Orgulhosos. A ligeireza em fotografar a cena veio antes do que a fome. Surpreendi-me, também, por não ter me espantado, assisti à cena como quem contempla um movimento habitual do sujeito contemporâneo: a pausa para a fotografia.

Curioso pensar que, apesar do imediatismo ser uma marca forte do tempo em que vivemos, essa suspensão está sempre presente. Pausa antes de postar, pausa para registrar a foto ou filmar, pausa na conversa ao vivo para responder a um comentário do mundo virtual.

Os diálogos pelos aplicativos de mensagens instantâneas nada têm de instantâneos, todos somos escravos desse mesmo tempo de espera. Atualmente, essa forma de comunicação é muito mais frequente do que os telefonemas, possibilitando um tempo de reflexão antes da resposta, uma reformulação da frase antes do envio e, muitas vezes, uma quebra da espontaneidade.

O lugar mais temido pelos adolescentes hoje são as marcas azuis do Whatssapp, que indicam que o outro visualizou a mensagem e não respondeu. Elas tornam real o maior pesadelo dessa geração: a sensação de invisibilidade.

Posto, logo existo

As fotos hoje são compartilhadas em busca da validação de uma experiência. É preciso que alguém testemunhe minha vivência, assista às minhas experiências, dê likes nos meus registros fotográficos para que a cena seja completa. A função da rede social é a de uma plateia que assiste, contempla, celebra um fragmento do tempo recortado e editado numa imagem.

Como uma mãe que aplaude o filho em seus passos, os amigos virtuais reafirmam nosso narcisismo[1] (há inclusive um emoji de palmas). O espelho virtual representa algo muito valioso para todos nós, aquele primeiro olhar que delineia nossa existência e de onde vem o amor: O olhar materno. Seria este o lugar onde se iniciam as primeiras trocas significativas com o mundo. Esse espelho inaugura nosso psiquismo e traz uma sensação que buscamos a vida inteira: a de segurança.

Possivelmente, essa é a causa de serem tão poucos os que conseguem não se render aos encantos da Internet. A busca por curtidas seria uma forma resgatar a lembrança de que existimos para alguém de maneira concreta. Não é raro ouvir de pacientes apaixonados: “Estou feliz, ele curtiu minha foto”. Ou seja: “Ele se lembra de mim, eu tenho a prova viva”.

Há também os que se filmam em seus stories, enquanto olham para a tela, conversam com seus seguidores e pedem opinião sobre roupas, corte de cabelo etc. ou divagam sobre a vida.  Existem também as filmagens ao vivo, os lives, nos quais as pessoas em tempo real interagem com outros usuários da rede. Seria possível se isentar da persecutoriedade nesse tipo de postagem? Pois essa exposição traz riscos, haters e falas de estranhos protegidos pelo escudo da tela de computador. Nem tudo é like, há também o haters. Freud diria que entre fezes e sangue nascemos. Não dá para esperar só aplausos da plateia virtual.

Tal qual a bruxa da história da Branca de Neve, o espelho de pixels contemporâneo tem uma função oracular. Seria este oráculo poderoso o suficiente para evitar o fim trágico do sujeito atual que nos remeteria à história de Narciso? Importante adicionar que há muitos registros de pessoas que arriscam sua vida para fazer uma selfie em lugares perigosos, colocando-se em situações de risco e morrendo por acidente ou distração. Não é uma causa mortis incomum, inclusive vem crescendo. O mito de Narciso segue mesmo bastante atual.

O que chama atenção para um outro ponto que considero interessante: o que aparece nos filtros virtuais é um fragmento da realidade, um pedaço, muitas vezes editado com o objetivo de contar ao outro sobre o quanto sou feliz. É comum, por exemplo, as postagens serem recados endereçados a alguém com uma finalidade provocativa. Uma bela foto de um momento pode não revelar o que de fato se passava no instante, pois há um aspecto da cena que é impossível de ser captado em sua totalidade: as emoções.

A psicanalista Marielle Kellerman Barbosa (2012, p. 101) escreve:

Podemos considerar a virtualização das relações, da comunicação, sob essa perspectiva freudiana da busca da felicidade na medida em que recriamos para nós uma realidade mais agradável e digerível. A tecnologia nos permite fazer um photoshop das relações, dos momentos, da imagem com que nos apresentamos ao mundo

As fotos poderiam ser recortes daquilo que gostaríamos de ser, representando um ideal de ego, isto é, como gostaríamos de ser vistos e como acreditamos que um dia fomos tratados em nossa tenra infância.

No artigo do jornal Folha de São Paulo, “Felicidade nas telas”, de 2010, Calligaris discute essa necessidade de expor a felicidade nas redes sociais como sendo um desejo de ter a vida invejada pelo outro:

Além disso, somos cronicamente dependentes do olhar dos outros. Consequência: para ter certeza de que sou feliz, preciso constatar que os outros enxergam minha felicidade. Nada grave, mas isso leva a algo mais chato: a prova de minha felicidade é a inveja dos outros.

Recentemente li um post com fotos de pessoas tiradas na semana ou até no dia em que se suicidaram como um alerta. Era uma campanha chamada “Depressão não tem cara”, na qual fotografias de cenas felizes, repletas de pessoas sorrindo e aparentemente leves, escondiam a morte que as espreitava. Vendo as fotos imagina-se algo bem diferente do que se passava internamente com as personagens ilustravam as fotos.

Em outro artigo, “A inveja dos outros”, de 2013, Calligaris acrescenta um ponto bastante interessante:

Num mundo em que a inveja é um regulador social, as aparências são decisivas, pois comandam a inveja dos outros. Por exemplo, o que conta não é ser feliz, mas parecer invejavelmente feliz.

Nesse mundo o ter é mais importante do que o ser apenas por que à diferença do ser, o ter pode ser mostrado facilmente. É simples mostrar o brilho de roupas e bugiganga aos invejosos. Complicado seria lhes mostrar vestígios da vida interior e pedir que nos invejem por isso.

Recordação

Esquecer-se de fotografar uma experiência deveria ser sinal de estar vivendo-a com plenitude, de maneira inteira e, no entanto, há uma lástima: “Puxa, nem sequer tiramos fotos!”. Mas, por que a lástima?

Ao registrar momentos em nossos iPhones, nossos “eus” de bolso, criamos também uma ilusão de poder a qualquer momento revisitar aquela memória. Um pedaço de nossa história poderia ficar salvo, eternamente, da passagem do tempo, aprisionado numa nuvem virtual como lembranças que nunca se apagam. A prova de que um dia eu existi. Daqui a alguns anos o Facebook será um enorme catálogo de pessoas que já não existem mais. Para quem poderemos escrever no mural, revisitar as fotos, pensar nos posicionamentos políticos, se eram ou não coerentes, e até mesmo postar flores nas páginas daqueles que se foram ao invés de visitar seus túmulos no dia de Finados. Um pedaço da nossa vida que pode ficar inesquecível.

Na cultura mexicana uma pessoa não deixa de existir quando morre, mas sim quando ninguém mais fala dela. Por isso o dia dos mortos é tão importante. Para que a memória do falecido nunca se perca na história de uma família, todos aqueles que partiram são rememorados nesse dia.

Na plataforma virtual a morte também não é sinônimo de esquecimento. Hoje nas redes sociais não é incomum homenagear, no dia das Mães ou dos Pais, os que já faleceram numa tentativa de, em algum lugar, reativar aquela lembrança e, principalmente, buscar alguma solidariedade, seja na forma de comentário ou de curtida. Nesse sentido a rede social se tornaria um espaço de acolhimento pela identificação. Busco alguém que saiba o que estou sentindo, comunico ao mundo minha dor: uma espécie de catarse eletrônica.

Todavia, há certas pessoas que, se não morrem na nossa história, assombram todo nosso trajeto e nos aprisionam. Servem apenas para assombrar nosso disco rígido mental, sobrecarregando-o. É o caso dos ex-amores, por exemplo, que nas redes sociais só deixam de existir quando bloqueados ou deletados e para isso é necessária muita força de vontade no dedo indicador. Visitas virtuais às páginas da pessoa que um dia amamos não são raras, pelo contrário. Trazem mal-estar, alimentando, assim, a melancolia[2] e impedindo-nos de completar o trabalho do luto[3]. Uma memória permanece semiviva rondando as timelines da nossa mente. Se antigamente, quando terminávamos uma relação, temíamos encontrar nosso antigo amor na fila do cinema, hoje nos deparamos com vídeos diversos daquele alguém vivendo uma outra história e somos, muitas vezes, espectadores de cenas virtuais desnecessárias e que afetam nossa vida real: como um beijo apaixonado daquele pedaço da sua história que hoje tem vida própria.

Sou mais um na multidão

Hoje, as crianças brincam com tablets, disputam com seus pais os celulares, dividem seu tempo com a onipresença dos aparelhos eletrônicos. Estamos todos unidos pelo mesmo fio, invisível e poderoso: o fio da ilusão. De acordo com o Comitê Invisível, em Motim e destruição agora (2017, p. 57):

A Condição do reino dos Gafa (Google, Apple, Facebook, Amazon) é que os seres, os lugares, os fragmentos do mundo permaneçam sem contato real. Onde os Gafa pretendem ‘vincular o mundo inteiro’ é, ao contrário, trabalhar para o isolamento real de cada um. É imobilizar os corpos. É manter cada um recluso em sua bolha significante. O golpe da força cibernético consiste em gerar, em cada um, a sensação de ter acesso ao mundo inteiro, quando se está na realidade, cada vez mais, separado de ter cada vez mais ‘amigos’, quando se é cada vez mais autista”.

O sujeito contemporâneo mantém a ilusão de estar sempre conectado, e essa ilusão contribui para sua solidão. Se hoje Freud pudesse acrescentar algo a sua frase “É preciso amar para não adoecer”, acrescentaria: “é preciso desconectar para não adoecer”.

Não há antídoto contra o desamparo, condição inerente ao ser humano. Não há escudo que nos proteja dos riscos da existência e das dores da vida.

Referências bibliográficas

BARBOSA, M. K.. Viver conectado, subjetividade no mundo contemporâneo. Ide, v. 35, 2012, p.89 – 101.

CALLIGARIS, C: Felicidade nas telas. Folha de São Paulo, 2010.

______. A inveja dos outros. Folha de São Paulo, 2013.

COMITÊ INVISÍVEL. Cinquenta tons de rupturas. In : ______. Motim e destruição agora. São Paulo: N1 Edições, 2017, p.57.

FREUD, S. Luto e melancolia. Tradução de Marilene Carone. São Paulo: Cosac Naify, 2011.

______. Sobre o narcisismo: uma introdução. In: ______. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. V. 14. Rio de Janeiro: Imago, 1990, p. 83-119.

 

[1] Freud (1914) atribuiu ao narcisismo a atitude de uma pessoa que trata seu próprio corpo como objeto sexual.

[2] Termo usado por Freud em Luto e melancolia que descreve o estado da mente diante da perda de um objeto de amor – que não necessariamente morreu, mas que se perdeu como objeto de amor – em que há a suspensão do interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda a atividade e o rebaixamento do sentimento de autoestima.  “A sombra do objeto recai sobre o próprio ego. O luto profundo em reação à morte de uma pessoa amada contém o mesmo estado de ânimo doloroso, o mesmo desinvestimento no mundo externo, a perda da capacidade de encontrar um novo objeto de amor – em substituição ao pranteado -, porém não há o rebaixamento de autoestima”.

[3]  Freud coloca nesse mesmo texto que o trabalho do luto consiste em um hiper-investimento nas lembranças que se referem ao objeto perdido afim de desligar a energia que vinculava o ego ao objeto de amor. “Mas de fato, uma vez concluído o trabalho do luto o ego fica novamente livre e desinibido” (1914/2011, p. 50).

 

Helena Cunha Di Ciero Mourão é psicóloga formada pela PUC -SP, especialista em psicoterapia psicanalítica pela Universidade de São Paulo e colaboradora da Revista Amarello  É membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. E-mail: hcdiciero@gmail.com

TORRE DE BABEL E OUTRAS CONFUSÕES

*Eva Maria Migliavacca

Os mitos constituem uma das fontes das quais a teoria psicanalítica bebeu desde o início. Alguns se destacam: Édipo, Éden e, menos explorado pelos psicanalistas, a Torre de Babel.

Babel, palavra hebraica, significa confusão; sugere uma coisa misturada com outra, de tal forma que a clareza do que é e do que não é fica obscurecida e conduz a equívocos e sofrimento.

Babel, a Torre

Lemos no Gênesis: “Os homens encontraram um vale na terra de Senaar, na Babilônia, sob o comando do rei Nemrod, e disseram: ‘Vamos construir uma cidade e uma torre cujo ápice penetre nos céus. Façamo-nos um nome e não sejamos dispersos sobre toda a terra’. E Javé, ao ver as ações daqueles homens: ‘Eis que todos constituem um só povo e falam uma só língua. Isso é o começo de suas iniciativas. Confundamos a sua linguagem, para que não mais se entendam uns aos outros’.”

O Deus antigo decidiu domar a vontade dos homens e submetê-los à sua lei: interferiu naquela empreitada e tudo mudou. Destruiu a torre e confundiu as línguas dos homens. Eles se desentenderam e se dispersaram pelo mundo.

Nemrod estava seduzido pela crença na própria grandeza. O mito não narra isso, mas podemos supor, pois ele pretende alcançar os céus, levantar uma torre que chegue até uma dimensão sem limites e que o faça sentir-se uma divindade. O resultado é catastrófico e instaura uma nova dinâmica.

Éden, o poema

Milton compôs “Paraíso Perdido”, belíssimo poema sobre a queda do homem. Adão e Eva vivem em harmonia no Éden, inconscientes dos riscos que os cercam. O Arcanjo Rafael, enviado por Deus, previne Adão do perigo: Satã, cheio de ódio e desejo vingativo por ter sido lançado das alturas celestiais às profundezas infernais, pretende encontrar meios de destruir a paz e beleza do Éden e seus habitantes.

Adão e Eva cultivam as plantas, flores e frutos do paraíso. Eva insiste com Adão para que a deixe cuidar sozinha do jardim. Queixa-se de que ele não confia nela. Adão argumenta, mas se rende. Olha-a, toda bela enquanto ela se afasta, cheio de preocupação e temores. Não ficou inteiramente convencido de ter tomado a decisão correta, o que vai se confirmar.

Satã já se imiscuíra no Éden. Assumiu a forma de um sapo e perturbou o sono da mulher, soprando-lhe dúvidas maléficas ao ouvido. Sabia que o melhor modo de atingir o odiado Criador seria atacar a criatura pelo lado mais vulnerável, a mulher desprevenida.

O par no Paraíso podia comer de todas as frutas de todas as árvores – exceto a da ciência do bem e do mal. É aí que Satã avança. Quando vê Eva só, sem a proteção do prudente companheiro, toma a forma de uma serpente dotada de voz humana para induzir a mulher à desobediência.

Todo simpatia, enrosca-se na árvore e argumenta com Eva que o fruto daquela árvore vai transformá-la numa deusa. Afinal ela, a serpente, comera o fruto e falava com voz humana, diz Satã. Que melhor prova de que ele dizia verdade?

O grande mentiroso convence a mulher de que o bem era um mal e de que o mal era um bem. Eva não contesta o absurdo. Afinal, “quem a proibiria de alimentar a mente e o sopro com aquele lindo fruto, de atraente aroma”?

Assim dizendo, a mão desatentada

Ergue Eva para o fruto em hora horrível;

Ela o toca, ela o arranca, e logo o come.”

O abalo na natureza, o estremecimento da terra por tal ferida, que Eva não percebe, prenuncia toda a mudança que virá.

Édipo, a tragédia

Há uma cena em “Édipo rei” em que toda a soma de equívocos se desfaz. Desde o início, Édipo caminha para o momento sagrado em que todas as coisas são recolocadas nos seus devidos lugares. Coincide com a descoberta não só de que ele era assassino e regicida, mas também parricida e incestuoso. Esse momento acontece no confronto entre um pastor que vivia escondido e o rei.

Ambos têm um diálogo áspero. O pastor sabe e Édipo desconfia que o que ele ouvirá mudará tudo. Porém, é preciso pronunciar as palavras que desvendarão a cegueira em que todos estavam mergulhados e confirmarão quem Édipo é. O pastor diz que o bebê devia morrer porque os pais – de Édipo – temiam a profecia de que ele lhes causaria a morte. Por que o salvou, então?  O pastor disse que teve pena. E que Édipo nasceu para um destino cruel.

Édipo: Que horror! Que horror! Todas as predições, afinal, se haviam de confirmar! Ó luz, que nunca mais te possa ver, porque se apura que nasci de quem não devia nascer, convivo com quem não devia conviver e matei a quem não devia matar!

O pastor encarna um valor imorredouro: a verdade imperecível. Usamos muitos subterfúgios para nos subtrairmos da verdade. Quando a escutamos, vivemos a dor psíquica do despertar da consciência. Vemos melhor nosso real tamanho: somos influenciáveis, vulneráveis à força de nossos desejos, dominados por necessidades, controlados por preconceitos, determinados por limites.

Essas narrativas falam da nebulosa dinâmica verdadeiro-falso. Representam uma condição mental na qual se enxerga o que se quer e não o que existe. Os três personagens se confundem, cometem equívocos de compreensão. Édipo, cego pela vaidade; Eva, pela soberba; Nemrod, pela prepotência.

A mentira nos cega e lança na Babel de tomar uma coisa por outra. Presente nas três narrativas, a verdade é dolorosa, mas transformadora. Em Édipo e no Éden, indica um processo de integração, que leva ao crescimento e na Torre de Babel, a dispersão, terreno propício ao preconceito e ódio.

O homem é limite. Se não houvesse limite, não haveria movimento, tudo seria estagnado. O ilimitado é sem forma, sem referência. Como diz Rovelli, o universo é finito. Ele se movimenta naquilo que revela sua finitude; por isso, expande-se. Após sua finitude só há escuridão. E não conseguimos precisar qual o limite. Por isso, como os personagens dessas antigas narrativas, transgredimos, avançamos sempre mais, ainda que o preço a pagar seja considerável. Só assim evoluímos.

 

Referências

Gênesis (1985) In: A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus.

Milton, J (1994) Paraíso Perdido. Belo Horizonte: Vila Rica.

Sófocles (1961) Édipo rei. In: Teatro Grego. São Paulo: Cultrix.

Rovelli, C. (2018) A ordem do tempo. Rio de Janeiro: Objetiva.

Imagem: “Torre de Babel”, de Pieter Bruegel, o Velho.

Eva Maria Migliavacca é psicanalista e membro efetivo da SBPSP, professora titular pelo Departamento de Psicologia Clínica do IPUSP e tem vários artigos publicados em revistas nacionais e internacionais.

 

Brincar para se tratar

*Marion Minerbo

Olá, Ana Lisa, sobre o que gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! Estava na casa de uns amigos que têm um filhinho de um ano. Lá pelas tantas, quando ele ficou com sono, se deitou de bruços sobre uma mesa de centro revestida de azulejos e ficou se contorcendo de barriga para baixo, como uma minhoca, até adormecer. Os pais disseram que faz uns meses que ele criou este ritual e não dorme sem ele. Achei estranho, pois em geral as crianças escolhem lugares macios e quentinhos para adormecer. O que a psicanálise tem a dizer sobre isso?

Ele criou um ritual, mas também podemos dizer que criou uma brincadeira. Me lembrei daquela famosa que foi inventada pelo neto de Freud. A brincadeira era a seguinte: ele atirava um carretel para debaixo da cama exclamando “miu”! E depois puxava a linha e o recolhia exclamando “tou”! Freud entendeu que ele estava brincando de sumiu-voltou.

É verdade. Ele fazia isso quando a mãe saía de casa. Começou atirando o carretel, talvez para se livrar do pavor de ficar sozinho, mas depois acabou virando uma brincadeira.

É simplesmente genial. Em vez de sofrer passivamente o sumiço inesperado da mãe, produz seu desaparecimento ativamente. A graça da brincadeira é que, ao atirar o carretel, ele já sabe que este vai voltar. O pavor vai cedendo lugar ao prazer. A repetição acaba “domesticando” o trauma. A criança brinca para se tratar.

Entendo. Ela vai se dando conta de que há uma diferença entre o horror do abandono definitivo e uma simples ausência.

O repertório conceitual e emocional se amplia. Quando estão psiquicamente saudáveis, as crianças inventam continuamente novas brincadeiras para se tratar daquilo que as assombra. O filho dos seus amigos brinca de minhocar numa mesa gelada até dormir. De que “trauma” será que ele está se tratando?

Tenho um palpite. Mas antes, eu queria perguntar o seguinte: como alguém cria uma brincadeira para poder se tratar?

Excelente questão. Obviamente, para o neto do Freud, o carretel representa a mãe. Isto quer dizer que ele transferiualguma característica da mãe para o carretel. E ele escolheu o carretel para fazer esta transferência porque, para ele, ambos têm algo em comum.

Como assim? O que o carretel e a mãe têm em comum?

A mãe some e volta. O carretel também. Graças a esse traço em comum, a criança pode transferir o sumiço/retorno da mãe para o carretel. O carretel se torna um objeto investido transferencialmente como um equivalente da mãe. Nesse contexto afetivo, o carretel interpreta para a criança o que ela está vivendo.

Ah, agora é demais. Um carretel interpreta?

Claro! É por isso que brincar é terapêutico. Ao ser atirado para baixo da cama, o carretel “conta” para o menino que ele está às voltas com o problema do sumiço da mãe. Dessa forma, ele tem a oportunidade de perceber do lado de “fora”, de forma concreta, aquilo que o inquieta e assombra “dentro”. Num primeiro momento, antes dessa concretização, é uma inquietação vaga, sem cara, sem forma, e por isso mesmo, aterrorizante.

Hum. Então, ao ser resgatado, ao reaparecer, o carretel “conta” para o garotinho que, assim como ele voltou, a mãe vai voltar?

Isso. E agora vem o mais importante: é a criatividade psíquica da criança que lhe permite equiparar o carretel à mãe por meio do traço em comum. A criança faz uma associação livre, que é sinal de saúde mental.

Quer dizer que as características reais do carretel são importantes para que ele possa transferir o que precisa ser elaborado?

São. Um ursinho de pelúcia “aceita a transferência” dos aspectos acolhedores da mãe porque é macio e quentinhoJá o lobo mau “aceita a transferência” dos aspectos aterrorizantes da mãe.

Você está usando o conceito de transferência de um jeito diferente daquele que eu aprendi, que é a relação com o analista.

Sim, a transferência para o analista é um caso particular disto que estou descrevendo. Ele se dispõe a aceitar todos os tipos de transferência para que o paciente consiga reconhecer “fora” o que o assombra “dentro”. Mas voltando à situação que você descreveu: o bebê que precisa minhocar sobre a mesa gelada para adormecer.

Eu te disse que tinha um palpite sobre qual poderia ser o “trauma” do qual ele estava se tratando. Ele nasceu com um pequeno cisto na coluna. Com horas de vida fez uma ressonância magnética. E depois outras, até que os médicos decidiram operar. Depois da cirurgia fez novos exames para acompanhar a evolução.

Sempre com a barriga para baixo! Claro, seu palpite tem tudo a ver! Os bebês saem do útero esperando encontrar alguma continuidade do ambiente que conhecem. Mas este encontrou algo duro, liso e frio. Essa experiência sofrida e impossível de ser digerida certamente ficou gravada em sua memória corporal.

Pelo que entendi da sua explicação sobre o jogo do carretel, essas sensações desconhecidas foram traumáticas. Quando ele se deita sobre a mesa de azulejos gelados ele está sendo ativo lá onde antes foi passivo. Está recriando essa situação horrível para conseguir reconhecer “fora” o que ficou inscrito “dentro”, e assim ir se apropriando do que viveu.

“Ir se apropriando” é a expressão exata. A mesa de azulejos “atrai” o traumático porque tem traços em comum com a de ressonância magnética. O frio, duro e liso do passado é transferido para o presente. E por isso mesmo se presta a ajudar a elaborar o que ficou encruado no inconsciente. A mesa de azulejos “interpreta” para ele seu sofrimento inconsciente.

Posso até imaginar o diálogo entre o bebê e a mesa.

Ele: “Esta superfície gelada me dá medo e não sei bem por que. Sinto que é algo de estranhamente familiar.

Ela: Sim, você já viveu isto antes. Na época foi muito sofrido e você não tinha como entender que diabo era aquilo.

Ele: Reconheço vagamente esta sensação. Mas não tenho palavras para descrevê-la.

Ela: Então preste atenção em mim que eu vou te contar: eu sou dura, lisa e fria. Acho que são estas as palavras que você está procurando.

Ele: Ah, então é isso que me assombra desde sempre!

Adorei! Um diálogo dentro do nosso diálogo!

Fiquei com uma dúvida. Você disse que nem todas as crianças conseguem usar este recurso para se tratar.

Exatamente. Um ambiente emocional turbulento prejudica a instalação do chip da capacidade de brincar. E isso desde as primeiras horas de vida.

O quê tornaria esse ambiente emocional difícil para o bebê?

Em duas palavras: o inconsciente dos pais sempre dá trabalho para os filhos. Normal. Mas quando ele transborda demais e há uma “inundação”, a criança tem que gastar muita energia para dar algum destino a esse “material radioativo”. E aí sobra pouca energia para brincar. Podemos até falar mais sobre isso numa próxima conversa.

Com certeza! Muito louco tudo isso!

 

Texto originalmente publicado no blog Loucuras Cotidianas.

 

Marion Minerbo é psicanalista da SBPSP, doutora pela UNIFESP e autora de vários livros e artigos, entre eles “Diálogos sobre a clínica psicanalítica” (Blucher, 2016) | marionminerbo@gmail.com

O ANALISTA DESCONCERTADO

*Silvana Rea

Em 1883, o jovem Freud escreve à sua então noiva, Martha Bernays: “Um fracasso em uma investigação estimula a criatividade. Cria um livre fluxo de associações, faz surgir uma ideia atrás de outra, ao passo que uma vez assumido o êxito, aparece com ele um estreitamento e torpor mental que obriga a retroceder ao estabelecido e impede uma nova combinação” (Caparrós, 1997, p. 309).

Poucos anos à frente, ele se desconcerta com as ideias de Charcot, em Salpêtrière. E no prefácio à tradução das conferências sobre as doenças do sistema nervoso, ele afirma que só pôde se dedicar a esta tarefa “após superar minha perplexidade inicial diante das novas descobertas de Charcot, e depois que aprendi a avaliar a sua grande importância…” (Freud, 1886/1969, p.53).

Podemos perceber que Freud considerou o desconcerto como algo útil por toda a sua vida. De fato, foi a sua capacidade de se surpreender com aquilo que escapa ao estabelecido, como os lapsos de memória, a troca de palavras, os sonhos, que permitiu que ele construísse a psicanálise. Dando atenção ao equívoco e ao inusitado, que neles encontrou o indício de que existe, no homem, uma comunicação que se subordina a outra ordem – o inconsciente conquista o estatuto de alteridade, com leis e lógica próprias.

Por sua vez, a psicanálise desconcertou a comunidade cientifica da época, ao abalar as convicções do século das luzes e sua defesa da racionalidade humana. Com ela, o homem racional e unitário deu lugar ao homem fendido do inconsciente. Algo que, para certa surpresa, ainda hoje desconcerta setores do conhecimento científico.

A Psicanálise supõe o desconcerto. O método psicanalítico leva a que o paciente se desconcerte de suas percepções cristalizadas, para que surja o novo. Mas não isenta o analista, porque o exercício clínico o convida a confrontar a alteridade do inconsciente nele mesmo e na relação com o paciente, que chega com suas questões e com sua proposta transferencial. E, como o encontro com o outro é sempre traumático, em algum momento algo desconcertante quebra as suas certezas, destrói a sensação de êxito e, por consequência, estimula a sua criatividade.

São muitas as situações que podem deixar o analista desconcertado. Um engano, uma provocação, uma quebra de setting. Pode ser um sobressalto que excede a sua possibilidade de representação. Ou o impacto da surpresa, do estranho que surge no familiar das sessões com determinado paciente. Algo que o leva a um acting-out. Ou o analista age guiado por um pensamento não pensado que só pode ser organizado a posteriori, muitas vezes depois da conversa com um colega, ou, talvez, de uma supervisão.

Do mesmo modo, o analista pode se desconcertar quando recebe seu jornal diário e o abre à leitura. Certos fenômenos nacionais e mundiais provocam a experiência de espanto, uma surpresa por muitas vezes desconfortável. Como compreender este choque em si? Como, pela psicanálise, compreender o mundo?

Qualquer analista já viveu algumas destas situações. São aquelas que não se aquietam; voltam à lembrança recorrentemente pois o espanto que elas causam produz uma memória que permanece incômoda (um fracasso?), exigindo alguma elaboração. Que nos exigem a ir além do estabelecido, criando novas combinações, como nas palavras de Freud. São oportunidades para a reflexão e a teorização psicanalítica.

O desconcerto é fundamental. De fato, na visão aristotélica, a origem e a evolução do pensamento dá-se a partir do espanto, momento no qual aquilo que era evidente torna-se inédito e incompreensível. O sentido da perplexidade leva a suspensão de certezas, incita o querer conhecer, exige uma reorganização do saber. Aqui o analista é aparentado do filósofo. Pois, como diz Kristeva (2000), é fundamental a qualquer psicanalista em seu exercício, a experiência de uma surpresa desconhecida e a posterior compreensão desse choque.  Eu completaria, fundamental para o analista em seu exercício e na vida.

Referências

Caparrós, N. (1997). Correspondencia de Sigmund Freud. Tomo I. Espanha. Biblioteca Nueva.

Freud, S. (1886/1969). “Prefácio à tradução das conferências sobre as doenças do sistema nervoso, de Charcot”. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Vol.II. Rio de Janeiro. Imago.

Kristeva, J. (2000). Sentido e contrassenso da revolta. Rio de Janeiro. Rocco.

Silvana Rea é Diretora Científica da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Mestre e Doutora em Psicologia da Arte pela Universidade de São Paulo.

 

Imagem: Olaf Hajek

O analista desconcertado e a sexualidade

*Sandra Lorenzon Schaffa

O tema do analista desconcertado e a sexualidade faz lembrar o canto do poeta que exaltou o amor como desconcerto do mundo. Eu cantarei de amor tão docemente, por uns termos em si tão concertados que dois mil acidentes namorados faça sentir ao peito que não sente.  

No soneto de Camões, o eu lírico exalta a visão  do objeto do amor apontando ao mesmo tempo para seu gesto inefável : Para cantar de vosso gesto a composição alta e milagrosa aqui falta saber, engenho e arte.  No amor platônico e no cortês, o gesto – corpo – é intraduzível.

Também aos protagonistas da cena originária da psicanálise teria faltado saber, engenho e arte.  Entre um homem e uma mulher –  Joseph Breuer e Bertha Pappenhein,  que ficou conhecida como Anna O a partir dos Estudos sobre Histeria –  aconteceu o inaugural  desconcerto. No caminho de levar a paciente a recordar experiências traumatizantes sofridas na infância, o médico austríaco deparou-se com o principal obstáculo do método que ela batizou de talking cure.

Diante do movimento erótico, Breuer retrocede,  Freud segue adiante com seu desejo de investigar a natureza do envolvimento entre os protagonistas da aventura psicanalítica.

“O psicanalista sabe que trabalha com as forças mais explosivas e que são necessárias cautela e meticulosidade, assim como no caso dos químicos. Mas quando é que a um químico foi interditado se ocupar com materiais explosivos, indispensáveis, por sua periculosidade, apesar de seu efeito?” (Freud, 1914)

Escrito sob o impacto da eclosão da guerra, “Observações sobre o amor transferencial” cria o neologismo  Übertragungsliebe que associa  transferência  (Übertragung) – fenômeno de deslocamento do afeto e da passagem de uma representação a outra –  e amor (Liebe).

Freud dá estatuto de resistência a essa moção amorosa, no entanto, acentua a necessidade de não afugentá-la. Mas, como responder a essa injunção técnica paradoxal de acolhimento da demanda amorosa sem satisfazê-la?

“Acatar as demandas de amor por parte da paciente é tão fatal para análise quanto a repressão [Unterdrückung] delas. O caminho do analista é outro para o qual a vida real não oferece modelo. Evitamos desviar da transferência amorosa, afugentá-la ou estragá-la na paciente; também nos abstemos ferrenhamente de toda correspondência desse amor. Mantemos a transferência amorosa, a tratamos como algo irreal, como uma situação que deva ser enfrentada no tratamento e reconduzida às suas origens inconscientes (…)” (Freud, 1914)[1]

Freud  admitiu assim o  desconcerto na raiz do  método da nova disciplina.  O caráter escandaloso do procedimento não está,  entretanto, em  aceitar o inevitável  transtorno experimentado pelo analista (contratransferência), mas em  admitir a desordem temporal entre as cenas (transferência) que o diálogo comporta. Em reconhecer nessa exigência crucial da análise seu método de investigação.

Em termos freudianos, a irrealidade do amor de transferência reside em sua condição inatual. Esse amor,  escreve Freud :

“Não traz um único traço novo, oriundo da situação presente, mas é composto integralmente de repetições e retomadas de reações antigas até mesmo infantis.” (Freud, 1914)[2]

O caminho do analista é outro para o qual a vida real não oferece modelo.

Desde o tempo de Freud, a tendência a abandonar essa concepção  reitera-se.   O caráter  desconcertante da descoberta  afirma-se desde a época de Freud. Ernest Jones escreve no editorial do primeiro  International Journal of Psychoanalysis, em 1920,  que  a mais insidiosa forma de resistência à Psicanálise advém de uma parte de  seus  sectários que,  « fingindo desenvolver uma atitude mais positiva em relação à Psicanálise,   faz uso de seus termos técnicos, libido, “repressão”, etc., mas de tal maneira a tirar-lhes o seu significado intrínseco.” 

Nossos tempos assaltados pela urgência e pela pressa demandam uma psicanálise cada vez mais terna, mais rápida. A tendência voltada para uma psicanálise mais leve, próxima da clínica, derivada do abandono do solo da sexualidade infantil e da teoria das pulsões,  difunde-se hoje.  Uma clínica do atual, dos afetos e da reciprocidade, que subestima o caráter explosivo da demanda erótica infantil (inatual).

O termo pulsão é introduzido por Freud em 1905 nos Três ensaios sobre a teoria sexual[3]. Freud reconheceu um caráter do sexual irreprimível que se separa dos fins do instinto. O caráter distintivo da sexualidade humana opõe-se à vida sexual de outros animais, não é regulada como um instinto. Uma crise de bulimia é um exemplo de uma insaciabilidade que busca  preencher um vazio do corpo numa dimensão que não é a da fisiologia. A  teoria sexual, como Freud a apresentou supõe uma não-separação do saber inconsciente do sintoma e da teorização infantil na gênese do psiquismo.

Analista desconcertado seria aquele que sabe que não há tradução possível do gesto sexual senão pelo sonho que trabalha a partir da inatualidade da memória do sexual.  Pois a sexualidade infantil não corresponde à memória intencional da infância: o sexual infantil não tem idade, sua natureza pulsional  ignora o tempo, resiste ao primado da genitalidade. Seu material é explosivo e exige cautela e meticulosidade do analista que dele não pode prescindir para colocar-se o mais próximo do impronunciável do infante.

Saber, engenho e arte é preciso.  Saber da sexualidade, construindo-se na renúncia a compreender para que o  ideal arcaico de que sofre o amor tome corpo.  Engenho e arte, engendrando-se  no rompimento de ligações representacionais, no desarranjo dos  concertos que  se fazem e desfazem por efeito da violência do pulsional, sob o regime das transferências.

 

Referências bibliográficas:

[1] Obras Incompletas de Sigmund Freud, OISF, p.173-4

[2] OISF, p.175

[3] Da pulsão ao desejo, a mitologia pulsional constitui o próprio fundamento da metapsicologia freudiana. Freud a ela se refere inicialmente no  “Projeto de uma psicologia” (Freud, 1895)  até  “Análise sem fim, a análise finita” (Freud, 1937).

 

Imagem:

Kneeling Girl, Resting on Both Elbows, de Egon Schiele.

Sandra Lorenzon Schaffa é psicanalista, membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SPPSP). Foi editora do Jornal de Psicanálise. Publica em diversas revistas de Psicanálise de São Paulo.