mulher

A mulher-gincana

Raquel Plut Ajzenberg*

Ao interrogarmos sobre o lugar das mulheres nos últimos cinquenta anos, observamos mudanças importantes em sua condição. Freud não imaginava que o contexto das mulheres no ocidente viesse a sofrer profundas modificações, abalando os fundamentos do que se conhecia como natureza feminina

A construção dos ideais se dá na cultura. As religiões e as tradições, por meio de seus códigos morais, preceitos e rituais delineiam e explicitam o que é esperado do indivíduo. Tais referências, muitas vezes, se apresentam como normas de conduta e em diferentes épocas retratam o que se espera de uma mulher. Contudo, o que nos importa é o quanto alguns destes traços de identificação, por vezes contraditórios, adquirem força no universo psíquico criando sintomas.  Cada vez que a mulher sai destas posições e do dever de cumprir a cartilha há produção de angústia, que se intensifica diante de escolhas quase dilacerantes e perdas inevitáveis. Muitas vezes, com a atuação de um superego severo que pune um ego que se exaure: uma menina deve; uma mãe tem; mulher não pode.

Trata-se de uma espécie de compartimentalização de diferentes “eus”, como se fossem uma série de canais (mãe, esposa, profissional etc). Critérios e valores ficam sem eixos de ligação e, numa espécie de gincana, a mulher vai acumulando tarefas, acelerando exigências e cobranças num ciclo sem fim, o que me fez denominá-la mulher- gincana. São mulheres ativas, produtivas, trazem o vigor da energia em movimento e mutação mas, paradoxalmente, sofrem, queixam-se e lastimam-se.  O mito da mulher, mãe, profissional impecável, sempre disponível não pode se manter.

O que está em jogo é o grau de exigência a que a mulher se submete numa cultura que valoriza o sucesso, imagem e glamour. A impossibilidade de corresponder a esses ideais, que alimentam a fantasia de ser completa, confirmada por status, poder e beleza provoca inquietação e angústia.

A mulher da Belle Époque encontrava a saída/sem saída no adoecer.  A mulher de nossa cultura ocidental, e de nosso meio sócio econômico realiza essa formação de compromisso ao ficar saudável “admiravelmente saudável”.

Apesar da amplitude de investimento da mulher gincana, ela se encontra em uma paradoxal situação: quanto mais se ocupa e realiza, mais corre o risco de se dispersar e se consumir. Esta gincana é uma característica própria do sintoma neurótico, a compulsão a repetir.  Seu destino é estar presa e agitada ao mesmo tempo.

A mulher-gincana estará em permanente conflito se permanecer subjugada tanto a idealizações e mandamentos que são exaltados pela contemporaneidade quanto ao superego que herdou de suas avós. Fixada no cumprimento desta cartilha da mulher “total”, estará lançada, frequentemente, na experiência radical do desamparo.

Uma questão que se coloca, portanto, é a possibilidade dela se encontrar com sua singularidade, legitimando-a para não ser cúmplice do ideal do qual se tornou refém.

Imagem: Lilly’s Trends

Raquel Plut Ajzenberg é Membro Efetivo e Docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise.

Ser Mulher na Maturidade

*Miriam Altman

Viver a maturidade como mulher hoje significa ter vivenciado na própria pele e testemunhado mudanças internas importantíssimas, além das transformações que aconteceram nestas últimas décadas ao redor do mundo.

Tanto no nível pessoal quanto no social, a mulher sofreu e ativamente buscou e participou destas mudanças culturais e econômicas, trazendo para sua vida e da comunidade em geral uma verdadeira e gradativa revolução nos costumes. Participou de movimentos feministas, lutando por mais justiça e direitos. Introduziu-se aos poucos no mercado de trabalho, conquistando cada vez mais e melhores cargos e salários.

Claro que todas estas transformações tiveram um preço, e vamos falar um pouco a respeito disso mais adiante!

De todo modo, já deu para perceber que envelhecer significa muito mais do que simplesmente entrar na menopausa, não é? Os calores, a pele ressecada, a baixa da libido, as mudanças bruscas de humor, depressão, são apenas uma pequena parte de um todo muito mais complexo.

Além disso, a descoberta da pílula anticoncepcional revolucionou os hábitos sexuais que já vinham sendo questionados. A mulher deixou de viver sua sexualidade só para fins de procriação e passou a buscar seu prazer sexual.

Essa, a meu ver, foi outra grande revolução e conquista da mulher, que contribuiu para que as mulheres mais velhas de hoje possam se ver de uma maneira mais integrada e encontrar sua autoestima, considerando seu corpo de maneira diferente das nossas avós que, de maneira geral, tinham que manter a sexualidade ainda muito reprimida.

Sendo assim, esse período da vida se parece muito com os humores da adolescência, em que se revive um desconforto corporal próximo àquele já vivido nos anos da juventude. Por isso Guillermo Julio Monteiro (2015) o nomeia “maturescência”, para designar a meia-idade ou o meio da vida, palavra que transmite a ideia de um processo de transformação. Análoga à palavra “adolescência”, que designa um processo de transformação em direção à vida adulta, enquanto a “maturescência” em direção à maturidade.

Neste momento, a mulher se dá conta que não pode mais realizar tudo, portanto é necessário priorizar. Há certas coisas que deve deixar para trás, alguns sonhos impossíveis. Talvez seja o momento de perdoar, de relativizar e de perceber que não somos eternos.

Para muitas pessoas é difícil se dar conta da finitude e dos limites do corpo e da alma. A maioria das mulheres neste momento já tem os filhos saindo de casa, outras já são avós, algumas passaram por separações…

As perdas, e é delas principalmente que estamos falando, são acompanhadas de ganhos também, mas viver os momentos de luto pela perda da juventude, do corpo sem rugas, é para muitas mulheres algo extremamente doloroso. Muitas ficam escravas de uma ditadura dos modismos e do culto a beleza que ultrapassa a vaidade e o cuidado consigo mesmas.

Quando isso deixa a pessoa sem opções e escravizada, ou então muito triste e deprimida, é hora de buscar ajuda para poder encontrar alternativas e opções para a vida, ampliar o universo mental e as escolhas. Pois é preciso chorar, entristecer-se e elaborar os lutos para seguir adiante.

Temos assistido nas últimas décadas a um envelhecer da mulher muito diferente de outros tempos. Ela tem se reinventado. Lourdes F. Alves (2001), desenvolveu uma pesquisa com mulheres entre 65 e 85 anos pertencentes à classe média paulista e chegou a conclusões interessantes. Ela afirma:

“Essas idosas, que afirmam não se sentirem velhas, geram uma categoria etária, de certa forma, nova e subvertida (…) vivenciam esta fase buscando a inserção no meio social, através do retorno ao estudo, da dedicação ao voluntariado e de uma redefinição do valor do trabalho de dona de casa. Tudo isso pode mudar radicalmente o antigo lugar comum da velhice ligada à improdutividade e inatividade”. (p.20)

O que vemos hoje são mulheres que, tendo passado por muitas lutas e experiências, acumularam recursos importantes que agora podem ser usados, de maneira criativa, na ressignificação deste momento de vida. Cada uma tem a liberdade de escolha para fazer o que quiser, seja se engajando em novos projetos, ou se dedicando aos netos e à família. O imprescindível é desenvolver este potencial, abrir-se para o mundo e encorajar-se para se arriscar.

 

Miriam Altman é membro associado à SBPSP, mestre em Psicologia Clínica pela USP e tem especialização em psicoterapia psicanalítica pelo Sedes Sapientiae.

O primeiro sutiã…a gente nunca esquece!

Karin Szapiro*

Quem viu, lembra. A famosa campanha publicitária de Washington Olivetto para a marca Valisere em 1987. Trata-se de uma menina de uns 12 anos que ganha seu primeiro sutiã. Ela chega no quarto e surpreende-se com uma caixa de presentes deixada sobre a cama. Ao abrir a caixa, fica maravilhada com seu primeiro sutiã. Veste-se delicadamente, olha-se com encanto e poesia e suspira: “Como é lindo! Como esse sutiã me deixa feminina!”

Já vestida com seu sutiã, a menina então desfila na rua pela primeira vez, um tanto deslumbrada e ao mesmo tempo acanhada com sua entrada no mundo adulto. O filme é inesquecível, e passados 30 anos dessa campanha premiadíssima, o encanto de tornar-se mulher continua o mesmo. Afinal, não se nasce mulher, torna-se.

É um devir delicado e cheio de contradições. A menina que brincou todo o tempo de ser a mocinha, que sonhou com esse momento mágico, é tomada de emoção ao perceber que seus mamilos crescem, os seios despontam, seu bumbum esta cada vez mais arredondado e seu quadril mais volumoso.

Chega a menarca, a primeira menstruação, ela experimenta então o primeiro absorvente. É um turbilhão de sensações que acompanham tantas transformações e novidades do seu corpo. Era uma vez uma menina. Agora, abre-se o lugar para uma mulher que vai surgindo.

A menina da propaganda se encanta com o novo, mas também se assusta na rua ao se perceber admirada por um rapaz. Logo esconde seus seios por detrás de um caderno. O mundo é algo a ser descoberto, encanta, excita e amedronta ao mesmo tempo.

Nem sempre crescer é prazeroso, por vezes, é sofrido. Quando aparecem as espinhas que cobrem o delicado rosto, quando vêm as infindáveis angústias e indagações dessa fase e assim por diante.

E o primeiro beijo? Quando virá?

Será que vou ser admirada e desejada?”

Como vou lidar com tantas sensações novas que surgem dentro de mim?

Como vou conter tantas excitações que me tiram do prumo?

Como serão os primeiros passos para fora do universo que eu conheço?

Eu quero e temo, tudo ao mesmo tempo.”

Nem tudo é encanto como no filme da Valisere, nem sempre é fácil. São anos de transformações, dramas, distanciamentos, estranhamentos, aproximações e reaproximações. Inevitavelmente, uma revolução doméstica se dá e todos precisam se haver com tantas mudanças.

A adolescência tem um caráter transitório. É uma fase caótica, de comportamentos estranhos que estariam fadados a desaparecer logo ao despertar do adulto, é como uma vivência onírica que se desmancha ao longo do tempo. A menina fica para trás e surge a mulher.

Esta passagem da infância à idade adulta envolve as perdas das identificações infantis, é a entrada para um mundo social mais amplo, a novos agrupamentos sociais, à iniciação sexual e a novos vínculos afetivos. É a construção de um novo “eu”, uma nova identidade, dessa vez afastada do mundo mágico e protegido da infância.

 

Referências:

Favilli, Myrna Pia. O agir criativo: o adolescente que se faz adulto.  Boletim do Núcleo de Psicanálise de Campinas e Região, v.8, n.13, Edição comemorativa, p. 41-50, 2005.  ( Apresentado em: Jornada de Psicanálise da Criança e do Adolescente, 1; Campinas, 24 Set. 2005).

 

Karin Szapiro é psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, coordenadora do blog da SBPSP e atende em consultório particular. E-mail: karinszapiro@hotmail.com