maturidade

Ser Mulher na Maturidade

*Miriam Altman

Viver a maturidade como mulher hoje significa ter vivenciado na própria pele e testemunhado mudanças internas importantíssimas, além das transformações que aconteceram nestas últimas décadas ao redor do mundo.

Tanto no nível pessoal quanto no social, a mulher sofreu e ativamente buscou e participou destas mudanças culturais e econômicas, trazendo para sua vida e da comunidade em geral uma verdadeira e gradativa revolução nos costumes. Participou de movimentos feministas, lutando por mais justiça e direitos. Introduziu-se aos poucos no mercado de trabalho, conquistando cada vez mais e melhores cargos e salários.

Claro que todas estas transformações tiveram um preço, e vamos falar um pouco a respeito disso mais adiante!

De todo modo, já deu para perceber que envelhecer significa muito mais do que simplesmente entrar na menopausa, não é? Os calores, a pele ressecada, a baixa da libido, as mudanças bruscas de humor, depressão, são apenas uma pequena parte de um todo muito mais complexo.

Além disso, a descoberta da pílula anticoncepcional revolucionou os hábitos sexuais que já vinham sendo questionados. A mulher deixou de viver sua sexualidade só para fins de procriação e passou a buscar seu prazer sexual.

Essa, a meu ver, foi outra grande revolução e conquista da mulher, que contribuiu para que as mulheres mais velhas de hoje possam se ver de uma maneira mais integrada e encontrar sua autoestima, considerando seu corpo de maneira diferente das nossas avós que, de maneira geral, tinham que manter a sexualidade ainda muito reprimida.

Sendo assim, esse período da vida se parece muito com os humores da adolescência, em que se revive um desconforto corporal próximo àquele já vivido nos anos da juventude. Por isso Guillermo Julio Monteiro (2015) o nomeia “maturescência”, para designar a meia-idade ou o meio da vida, palavra que transmite a ideia de um processo de transformação. Análoga à palavra “adolescência”, que designa um processo de transformação em direção à vida adulta, enquanto a “maturescência” em direção à maturidade.

Neste momento, a mulher se dá conta que não pode mais realizar tudo, portanto é necessário priorizar. Há certas coisas que deve deixar para trás, alguns sonhos impossíveis. Talvez seja o momento de perdoar, de relativizar e de perceber que não somos eternos.

Para muitas pessoas é difícil se dar conta da finitude e dos limites do corpo e da alma. A maioria das mulheres neste momento já tem os filhos saindo de casa, outras já são avós, algumas passaram por separações…

As perdas, e é delas principalmente que estamos falando, são acompanhadas de ganhos também, mas viver os momentos de luto pela perda da juventude, do corpo sem rugas, é para muitas mulheres algo extremamente doloroso. Muitas ficam escravas de uma ditadura dos modismos e do culto a beleza que ultrapassa a vaidade e o cuidado consigo mesmas.

Quando isso deixa a pessoa sem opções e escravizada, ou então muito triste e deprimida, é hora de buscar ajuda para poder encontrar alternativas e opções para a vida, ampliar o universo mental e as escolhas. Pois é preciso chorar, entristecer-se e elaborar os lutos para seguir adiante.

Temos assistido nas últimas décadas a um envelhecer da mulher muito diferente de outros tempos. Ela tem se reinventado. Lourdes F. Alves (2001), desenvolveu uma pesquisa com mulheres entre 65 e 85 anos pertencentes à classe média paulista e chegou a conclusões interessantes. Ela afirma:

“Essas idosas, que afirmam não se sentirem velhas, geram uma categoria etária, de certa forma, nova e subvertida (…) vivenciam esta fase buscando a inserção no meio social, através do retorno ao estudo, da dedicação ao voluntariado e de uma redefinição do valor do trabalho de dona de casa. Tudo isso pode mudar radicalmente o antigo lugar comum da velhice ligada à improdutividade e inatividade”. (p.20)

O que vemos hoje são mulheres que, tendo passado por muitas lutas e experiências, acumularam recursos importantes que agora podem ser usados, de maneira criativa, na ressignificação deste momento de vida. Cada uma tem a liberdade de escolha para fazer o que quiser, seja se engajando em novos projetos, ou se dedicando aos netos e à família. O imprescindível é desenvolver este potencial, abrir-se para o mundo e encorajar-se para se arriscar.

 

Miriam Altman é membro associado à SBPSP, mestre em Psicologia Clínica pela USP e tem especialização em psicoterapia psicanalítica pelo Sedes Sapientiae.