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Desaparecidos: uma história de dor

Por Leopold Nosek*

Nossos olhos recebem a luz de estrelas mortas. Atravessando distâncias abissais, o brilho de corpos celestes que já desapareceram continua a chegar até nós. Assim é a figura de Homero, cujas palavras, inscritas na memória da humanidade, guardam o substrato do que no século IV a. C. culminaria na cultura grega clássica, na qual se desenvolveriam a poesia, o teatro, a filosofia, a ética, enfim, os valores e as práticas que ainda hoje alicerçam as narrativas com as quais desenhamos os trajetos de nossa vida.

Devo dizer que hoje, assombrado pela extensa lista de desaparecidos que as ditaduras latino-americanas impingiram a pais, mães, filhos, irmãos e companheiros, descubro na Ilíada uma beleza peculiar que se apresenta como enigma: por que, como relata Homero, gregos e troianos lutam furiosamente para reaver o corpo de seus mortos? Por que todos os guerreiros se dispõem a morrer pela matéria apodrecida de uma anatomia?

Heitor, príncipe de Troia, mata em combate Pátroclo, companheiro do herói primordial grego, Aquiles. Este, tomado de ira, vinga-se matando Heitor, mas não sem antes disputar com ferocidade a posse do cadáver de Pátroclo – suprema desonra seria abandoná-lo à sanha dos inimigos, aos “cachorros e abutres de Troia”. Cego de dor pela perda do amigo, Aquiles leva o cadáver de Heitor para o acampamento grego e por nove dias exercita-se em humilhá-lo, arrastando-o repetidamente em volta do túmulo de Pátroclo.

Os deuses a tudo observam e se indignam. É por intervenção deles que, embora ultrajado, o corpo do troiano permanece incólume, e é também por ação divina que Príamo, pai enlutado, consegue se aproximar de Aquiles para lhe suplicar de joelhos que o corpo do filho lhe seja devolvido. Aquiles assente e vai além: oferece a Príamo doze dias de trégua, de modo que as exéquias de Heitor sigam o cerimonial devido. Troia pode então chorar seu filho e lhe render homenagem, costume que constitui sintoma de civilização, não importa o grau de violência com que se pratique a guerra.

E assim termina a Ilíada, não no triunfo do célebre e inexistente cavalo de Troia (essa passagem não consta de nenhuma narrativa homérica, como se descobriu), mas no êxito dos rituais de reverência e dor que acompanham o exercício do luto.

Um ensaio de Freud, “Luto e melancolia”, nos ajuda a compreender por que razão, tal como nossos antepassados remotos, precisamos reaver o corpo dos nossos mortos. A premissa é que não, existindo representação da morte no inconsciente, o medo da morte se desloca para outros territórios. Manifesta-se, por exemplo, como sentimento de desamparo, solidão e abandono – lembremos o costume de nos agruparmos como família nos cemitérios, próximos dos que amamos, ou as concepções de vida eterna e reencarnação, tão variadas quanto são as culturas e as religiões.

Contudo, se a ideia da morte nos é insuportável, como se dá o luto? Freud o confronta com o fenômeno da melancolia. Nesta, há uma recusa a abandonar o objeto amado que perdemos; por meio de rememoração contínua, insistimos em mantê-lo presente. A melancolia é essa disfunção do luto que torna o objeto uma presença eterna. Já no processo de luto o objeto que se perdeu no mundo exterior torna-se uma presença no espírito de quem sofreu a perda. O ódio iniciado com a perda se acomoda, desenvolvemos uma identificação com o que perdemos.

Nesse percurso, um paradoxo: o espírito se enriquece, e o faz por via de trajetos trágicos. Necessitamos do corpo para apoiar essa quase impossível tarefa do luto. Como que damos vida ao corpo presente para poder repetir a experiência da perda e nos conformarmos com ela. Para que, libertos da sombra daquele que se foi, a vida possa prosseguir seu trajeto.

Quando o que temos não é o morto, mas o desaparecido, nem sequer a melancolia pode se instaurar. Cria-se um vazio em nós, um buraco negro que, como parasita, atrai para si o pensamento e os afetos, introduz deformações nos caminhos da alma. No plano da cultura e da história ocorrerá a mesma deformação que se abate sobre os destinos individuais. A cultura como que se paralisa, empobrece, pode mesmo gerar monstruosidades.

Hoje, na América Latina, familiares e companheiros dedicam a vida a buscar os restos de um ser cuja existência é recusada no mesmo momento em que se recusa sua morte. Nessa busca, tornam-se testemunhas não só da verdade de um sujeito singular, mas também de um momento trágico da história coletiva.

Não é outro o âmbito desta reflexão, suscitada também por conversas informais com entrevistadores da Comissão da Verdade. Uma das perguntas que afloraram ali foi esta: por que até agora não se produziram no Brasil obras literárias ou cinematográficas relevantes sobre o período da ditadura militar? A nosso juízo, a maioria das obras que já veio a público teria caráter jornalístico ou catártico, o que se explicaria sobretudo por não ter ocorrido uma ruptura real com a ditadura; um acomodamento ignorou os elementos potencialmente traumáticos daquela transição.

Aqueles que a ditadura representou recusaram a dor e a perda. Não quiseram a ruptura e conseguiram escamoteá-la dos que necessitavam dela. Os que se opunham não tiveram força para se fazer valer ou cederam à acomodação – e os nossos desaparecidos ficaram impossibilitados de existir até mesmo como desaparecidos. Tornaram-se sintoma exemplar de um acordo político que se fez impedindo o luto ou mesmo uma possível melancolia. Não se registraram perdas. A história teve de continuar calada. Como não pensar que esses restos autoritários, retrógrados, tingiram os pactos de silêncio que se seguiram e estão na raiz de deformidades que hoje explodem como distopias em nossa sociedade?

Os buracos de pensamento, as maquiagens, as recusas da verdade afetam o conjunto da sociedade. Pode bem ser que essa crise se encaminhe para outras figuras e setores sociais, à espera apenas de uma falência para entrar em cena. Teremos outros movimentos históricos, é certo, mas nossos desaparecidos continuarão a nos assombrar. De modo semelhante, nosso passado escravagista é um fantasma cotidiano que nos assola no mais íntimo dos nossos lares. Recusar a narrativa do trágico da história alimenta inevitavelmente os fantasmas. Aproveitando-se das nossas obscuridades, eles não perderão a oportunidade de reaparecer.

*Leopold Nosek é médico, psicanalista, membro e ex-presidente da SBPSP.

A travessia do deserto do luto

A perda de um filho pequeno constitui, provavelmente, uma das experiências mais traumáticas para alguém. Quando a criança vive apenas poucos dias após o nascimento, o sentimento de plenitude e felicidade são violentamente esmagados pela dor da perda, pela ausência de sentido, pela incompreensão e, claro, pela necessidade de viver o luto. Sobre o tema, vale conferir a entrevista abaixo, que a jornalista Camila Goytacaz – que perdeu um filho com 11 dias de vida – concedeu ao Jornal Zero Hora. O texto foi originariamente publicado no portal do veículo, em 23/05/2015.

Você teve uma experiência de morte muito próxima do nascimento, quando o seu corpo ainda tinha sinais claríssimos do período pós-parto. Como foi assimilar tudo isso?

O mais dolorido é isso: a gravidez é muito pública. Todo mundo sabe que você está grávida. No final da gestação ou logo depois que saiu da barriga, tem essa coisa evidente de “sumiu a barriga, então cadê o bebê?”. Essas perguntas vêm com muita frequência, de estranhos e de conhecidos. Você não se encontra: não sou mais aquela que eu era antes, não sou mais aquela grávida rechonchuda, quem sou eu? Para a mulher no puerpério (período pós-parto), somado ao momento da perda, do luto, é muito duro. Ela tem tudo que a puérpera tem, o leite, a nova forma do corpo, mas não tem o bebê. É uma incerteza, um grande vazio, um buraco. E você tem que viver a vida, sair na rua e falar: “O bebê morreu”.

Você se viu confrontada com essa situação muitas vezes?

Muitas. Eu ficava pensando: “Tomara que não seja eu que tenha que dar a notícia para essa pessoa. Tomara que alguém já tenha contado”. Esperava que elas já soubessem por alguém, me poupassem da pergunta. Esses primeiros dias, que para a mãe com bebê são tão gostosos, para a mãe que perdeu são muito doloridos. Acho que todos os lutos são muito solitários, mas o nosso é mais particular ainda. Nascimento e morte são muito próximos. É o impensável.

As pessoas, em geral, não sabem, não querem ou não conseguem falar sobre a morte e o luto. Você tinha vontade de falar sobre o José?

São dois extremos. Tem a turma que não fala, que não reconhece que aquilo aconteceu, “vamos continuar conversando normalmente e fingir que a gente não sabe”. Isso machuca demais. Você está vivendo em um buraco tão grande, é uma dor tão profunda, como é que elas podem continuar falando sobre amenidades? Eu buscava meu filho na escolinha e ninguém falava comigo, as mães se dissipavam. A diretora falou: “Pode ficar tranquila que a gente vai fingir que nada aconteceu”. E tem o outro extremo, o das pessoas que querem falar, não sabem o que dizer e falam coisas que também machucam: “Foi melhor assim”, “Imagina você ter um filho com problemas”, “Você pode ter outro filho.” Não é um sapato, é uma criança, é muito profundo para a gente simplificar. “Imagina se vivesse muito, aí você se apega e morre com dois, três anos.” Isso não ajuda. O que ajuda de verdade é o que vem do coração, um abraço.

Você usa uma expressão interessante, a “travessia do deserto do luto”.

Eu pensava: “Só aconteceu comigo? Não é possível. Será que sou a única? Não pode ser”. Eu estava num grupo virtual de 800 mães, não era possível que só o meu bebê tivesse morrido. Aí veio o lado jornalista, de querer apurar, comecei a ir atrás dessas pessoas, trocar experiências, e-mails, falar por telefone. Eram pessoas que eu não conhecia, mas se dispuseram a essa troca. E depois eu comecei a oferecer isso para outras. A travessia é muito solitária, um processo só meu, ninguém vai entender, por mais que queira. Mas outra mãe que viveu a mesma coisa me faz sentir menos sozinha. Aí comecei a sentir vontade de publicar. Eu sabia que tinha que atravessar aquele deserto só meu. As pessoas diziam que eu tinha que tomar um remedinho, somos a sociedade do remedinho. Eu queria sentir tudo mesmo, queria fazer a travessia, chegar um ano depois e dizer: vivi o processo, está resolvido, está acomodado.

Seu primogênito, Pedro, com dois anos e meio, esperava ansioso pelo irmão. Aguardava-o na janela, achando que o bebê tocaria a campainha. Como foi explicar para ele tudo que aconteceu?

Ele conseguia fazer as perguntas de uma criança de dois anos e meio. Um ano depois, a pergunta estava mais incrementada. Agora ele tem seis e meio e faz perguntas elaboradas. Aquela história de que o José mora numa nuvem satisfazia quando ele tinha três anos. Agora ele quer saber: “Onde é essa nuvem? Quem está lá com ele? O que eles fazem? Por que ele morreu e eu não?” Quando a Joana nasceu, ele a ensinava a respirar, achava que a qualquer momento ela poderia morrer também. A criança mistura a realidade e a fantasia. O Pedro achava que o José ia voltar. Teve um Natal em que ele disse que não queria presente, queria que trouxessem o irmão de volta. Eu tentava ser o mais franca possível, nem sempre conseguia. Ele se compadecia muito. Por outro lado, era ele que me salvava também. Ele me chamava para brincar. “Tá bom, mamãe. Depois você chora, agora vamos brincar.”

A gestação da Joana veio três meses depois da morte de José. Qual foi o sentimento?

Foi um susto. Fiz um esforço e pensei: cada filho é um filho, essa história é da Joana. O que eu vou viver nessa gravidez é dela. Fui até o final sentindo isso. Tinha medo? Morria de medo. Na véspera do dia em que ela nasceu, chorei um pouco pelo José, me abalei. Tem altos e baixos. As pessoas têm uma ilusão de que o processo do luto é linear. Lembro de uma vez que achei que estava ótima e encontrei uma pessoa que fazia ioga para gestantes comigo. Ela estava com o bebê, que seria da idade do meu, e falou: “Nossa, você já está deixando o seu em casa, tão pequenininho?” Aquilo pegou tão fundo que falei: “É, estou deixando”. Não tive coragem, sustentei a mentira. Fui para baixo de novo, depois voltei a subir. Mas no dia do parto dela me lembro que não tinha espaço para o José, era o momento dela, de me conectar com ela. Hoje me sinto mais forte, sinto que sou uma mãe para a Joana muito mais corajosa do que fui para o Pedro, porque entre os dois passei por essa perda.

Quem perde um filho tem menos medo da vida?

Não, tem menos medo da morte. Da vida não. A mãe que passa por isso já conhece um pouco a morte, já fez um contato com ela, então desmistifica um pouco. Claro que num primeiro momento não. Tinha muito medo de que acontecesse alguma coisa com o Pedro, estava traumatizada. Uma pequena queda em casa e eu já fiquei devastada, mas racionalmente fui criando uma casca. A mãe que passa por isso encara com mais naturalidade os percalços da vida porque a gente sabe que vai dar conta. E também se abala menos com problemas que não são problemas.

Redimensiona as coisas.

Ave, Maria! Eu via as minhas amigas sofrendo: “Ai, o meu bebê só quer colo”. Eu falava: “Você deveria dar graças a Deus porque o seu bebê está aí e só quer colo. O problema é o bebê que está lá na UTI e a mãe nunca pode pegar no colo”. Comecei a valorizar pequenos momentos, pequenas coisas tão preciosas. É muito louco o que vou te falar agora, mas me sinto mais feliz hoje, mais completa, por ter perdido o José. Não é que eu esteja feliz por ter perdido um filho, jamais. Mas por ter perdido um filho hoje eu vivo de uma maneira mais aqui e agora, mais presente, mais grata ao que ficou, ao que eu tenho.

Depois do período de um ano de luto, a sua felicidade tinha alguma parcela de culpa?

A gente lida mal com os processos de perda. Se você fica muito tempo sofrendo, o povo olha e diz: “Nossa, você ainda está nessa? Faz seis meses, pelo amor de Deus, sai dessa, toma um antidepressivo”. Se é rápido, se você está se divertindo: “Nossa, mas você já saiu do luto?”. Não tem um tempo certo. Eu me sentia culpada, sentia vergonha de estar me divertindo com meu filho, de estar namorando com o meu marido. É ser feliz e ser triste ao mesmo tempo, são processos que coexistem.

Como o José está presente na vida da família?

Nas brincadeiras, nas fantasias, nas histórias do cotidiano. Faz parte da história deles (Pedro e Joana). Eles usam um chapeuzinho de praia de pano que seria do José. Os dois falam: “Hoje sou eu que vou usar o chapéu do José!” É um objeto de uma criança que nunca existiu na vida deles, mas para eles é uma entidade presente. Às vezes surge um amiguinho com o mesmo nome: “Mamãe, ele se chama José, igual ao meu irmão que foi para o céu”. Acho que isso é o mais legal: encontrar um jeito de essa história ficar na família toda a vida.

Quem era a mãe lá do começo e quem é a mãe de hoje?

Eu me via naquela perfeição, “tudo vai dar certo, tudo está redondinho, mamãe, papai e filhinho”. Quando perdi o José, me caiu essa ficha de que não existe esse cenário idealizado, existe a vida de verdade, que tem tragédias, acidentes, mortes, perdas, e a gente é feliz com isso e apesar disso. O José ter morrido foi só um dos possíveis desfechos na minha vida. Estar vivo é isso, é lidar com essa fragilidade. A mãe de agora é essa mãe mais real. Me permito ser mais imperfeita. Planejar é só uma intenção, uma expectativa, não é nenhuma garantia de que vai acontecer. A qualquer momento tudo pode mudar.

Perdas e lutos que enfrentamos ao longo da vida

A vida é um constante processo de perda e superação. Há diferentes tipos de perdas, mais ou menos intensas. Mais ou menos definitivas. Em todos os casos somos colocados diante da necessidade de viver o luto, enfrentar a ausência e a falta e elaborá-las, para que a vida siga em frente. Ao contrário do que alguns imaginam, mergulhar naquilo que gerou tristeza pode ser uma parte fundamental desse processo. O luto – enquanto trabalho a ser realizado a partir de uma perda – promove um maior nível de integração e amadurecimento da personalidade. Sobre o assunto, vale conferir o texto abaixo, da psicanalista e membro da SBPSP, Sylvia Pupo.

Perdas e lutos que enfrentamos ao longo da vida
Por Sylvia Pupo*

“Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”, diz a última estrofe do samba, sugerindo que devemos ser inabaláveis frente aos tombos que a vida nos dá.

Com admiração, geralmente, são vistas as pessoas que não se abatem ante uma perda, golpe ou obstáculo. São estimuladas a mostrar força e quase ausência de sentimentos. “Bola pra frente!”. Como sinal de força e maturidade são instigadas a esquecer rapidamente o acontecido e prosseguir.

Há tantos tipos e intensidades de perdas e de lutos a fazer. Há lutos por mortes ou separações, pelas próprias expectativas não atingidas, por um filho que cresceu e nos obrigou a nos re-situar como pais; por formar-se e ter que procurar um emprego, pela perda da infância, pelo envelhecimento…Cada fase da vida é acompanhada de mudanças; mudanças que nos desalojam e podem ser sentidas como perdas, demandando um trabalho interno de luto. O que é sentido como perda para um, pode não afetar um outro da mesma maneira.

Desde pequenas separações, até perdas mais definitivas, os lutos a fazer são diários e seus efeitos e possibilidades de elaboração vão depender, dentre outros fatores, da história afetiva dos sujeitos e da qualidade de seus vínculos primeiros. Muitas, entretanto, são necessárias e estruturantes.

Algumas pessoas acabam criando “soluções maníacas” para lidar com uma situação de perda. Desenvolvem uma excitação que substitui a esperada tristeza. A tal da “volta por cima” pode incluir viagens, festas, gastos, drogas, esportes, comportamentos em excesso que visam ajudar a não pensar ou sentir.

Ao contrário, é necessário “dar a volta por baixo”, poder falar a respeito, sentir, entristecer-se e mergulhar para voltar à tona. Esta é uma etapa fundamental no trabalho de luto, termo sugerido por Freud, em relação ao processo para a elaboração de toda perda. O reconhecimento de uma perda é um passo fundamental para a sua aceitação.

O processo de luto é uma etapa natural e necessária, que quando terminado vai promover um maior nível de integração e amadurecimento da personalidade. Aqueles que puderem contar com acompanhamento psicoterápico podem se beneficiar muito disto, principalmente nestes momentos

É importante distinguirmos um luto “normal”, esperado, de um luto patológico, de duração prolongada, onde há transformação da tristeza em depressão. A tristeza é um estado natural, dentre outros, que se seguem a uma perda.

Numa sociedade em que a tristeza não pode ser tolerada e deve ser medicalizada há uma demanda de que sejamos sempre felizes e bem sucedidos, o espaço para a fragilidade e para a própria subjetividade é cada vez menor. O ritmo acelerado nos faz também atropelar as emoções e o tempo necessário para cada um finalizar seus processos.

O luto vai na direção oposta. Ele traz consigo uma necessidade temporária de recolhimento, de parada. Promove uma “regressão” como medida de economia psíquica até o momento em que a pessoa em questão possa retomar seu investimento no mundo. É um tempo de convalescença psíquica.

A impossibilidade de uma pessoa vivenciar as fases necessárias de um trabalho de luto, ou mesmo um prolongamento deste período, pode levar a estados cronificados de melancolia, ressentimento e desvitalização.

É importante, que além do trabalho de elaboração individual – com ou sem auxílio de uma psicoterapia – o apoio do grupo social e a utilização de recursos simbólicos e certos rituais presentes na Cultura como um auxílio na elaboração dessas etapas.

*Sylvia Pupo é psicanalista e membro da SBPSP

Bibliografia – Freud, .S. (1817[1915] /1988) “Luto e melancolia in Edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud. Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago.
“Volta por cima” samba de de Noite Ilustrada