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Dor psíquica e dor corporal : uma abordagem psicanalítica

*Denise Aizemberg Steinwurz

 

Ao longo da vida , com frequência enfrentamos situações inesperadas, geradoras de intensas angústias. Se, por um excesso, essas angústias não podem ser digeridas, elas transbordam para o corpo, que adoece.

Na vida adulta, uma doença física pode ser desencadeada por situações de perda, como a morte de um ser amado, a perda do emprego, condição financeira precária, separações ou momentos de impasse. Essas situações remetem à profunda dor mental, e a dificuldade de tolerar a dor leva o indivíduo, muitas vezes, a utilizar seu corpo para se defender dela. Contudo, essas situações só são consideradas traumáticas porque se ligaram, a posteriori, a um trauma anterior, relacionado a perdas significativas na infância.

Uma das importantes aquisições do desenvolvimento psíquico é a capacidade de simbolização. A capacidade de elaborar conflitos por meio de processos psíquicos depende do grau de complexidade que alcançou um indivíduo em sua estruturação emocional. A abordagem psicanalítica dos fenômenos somáticos compreende as doenças físicas e as afecções corporais como medidas defensivas para manter o equilíbrio dessa organização emocional. Quando há falhas nesse processo, porém, isso pode resultar na somatização dos sofrimentos psíquicos. Na ausência do símbolo e da palavra, é no corpo que eles se manifestarão.

Os fenômenos somáticos podem ser considerados uma modalidade de descarga de angústias que não podem ser pensadas e que são provenientes de experiências traumáticas sofridas em estágios precoces do desenvolvimento da pessoa. Essas vivências precisarão ser nomeadas para, então, serem pensadas e elaboradas, em vez de seguirem sendo derramadas sobre o soma.

Quadros de hipertensão arterial grave, diabetes, dermatites, fibromialgia, doenças autoimunes – como lúpus e vitiligo -, doenças gastrointestinais – como gastrite, retocolite ulcerativa ou doença de Crohn -, entre outras doenças, podem se manifestar em épocas de conflito e depois desaparecer. No entanto, elas podem se instalar como doenças crônicas que geram graus diversos de incapacidade na vida pessoal e profissional do indivíduo, colocando sua vida em risco.

Nessas circunstâncias, o objetivo de um atendimento psicanalítico será, por meio do encontro entre analista e analisando, criar condições favoráveis e necessárias para ampliarmos o repertório psíquico do paciente, de modo que ele possa pensar em seus conflitos em vez de depositá-los em seu corpo. Esse é o campo da psicossomática psicanalítica; ela promove uma abordagem voltada para as patologias decorrentes de falhas do processo de simbolização e da construção de um sólido narcisismo primário.

Pela análise, a capacidade simbólica quase inexistente poderá ser construída, por meio da colocação em palavras de cada afeto não sentido e, portanto, não assimilado mentalmente. Na medida em que o analista constrói com esse indivíduo – cuja dor no corpo grita – novas ligações psíquicas, aquilo que estava inicialmente precário poderá ganhar um novo status: onde houve a falta de uma sustentação da mãe como primeiro objeto o analista apresenta-se como um novo objeto com quem o paciente poderá – talvez pela primeira vez – ser escutado naquilo que, de fato, o corpo denuncia.

Bibliografia :

Steinwurz, D.A. ( 2017). Doença de Crohn e retocolite: abordagem psicanalítica dos fenômenos somáticos. In V.R.Béjar ( Org.). Dor psíquica, dor corporal- Uma abordagem multidisciplinar. São Paulo: Editora Blucher.

*Denise Aizemberg Steinwurz é membro filiado do Instituto de Psicanálise Durval Marcondes da SBPSP, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, Diretora de psicologia da Associação Brasileira de Colite Ulcerativa e Doença de Crohn (ABCD), Prêmio “Avelino Luis Rodrigues”(2012) no concurso ” Psicossomática e Interdisciplinaridade”( IV Congresso Paulista de Psicossomática), membro associado do Departamento de Psicanálise da Criança do Instituto Sedes Sapientiae.

A Disposição para o Assombro

Leopold Nosek

Penso que assombro e infinito são os pilares da ética a ser exercida na clínica psicanalítica, e são eles também que dão um caráter sublime ao estético quando, diante do infinito, o espírito se move e num instante de fulguração tem uma parcial revelação do sentido.

Assombro evoca também a reação diante da particular aventura que nos é proposta nos estertores do século XIX: a viagem pelos espaços interiores que encontrará sua radicalidade na experiência psicanalítica. No extremo oposto, o positivismo, também datado, instala-se na crise da religiosidade do século XIX e substitui o molde religioso como crença. Entra por uma janela quando, pela porta, pensava-se expulsar qualquer resquício de metafísica. Nada mais distante do projeto freudiano, que, oriundo do Esclarecimento, ao tomar o inconsciente como objeto se caracterizará paradoxalmente como um projeto iluminista noturno.

A descoberta de Freud abre no século XX uma nova fronteira para as grandes navegações – o continente da subjetividade – e representa, é certo, um progresso crucial para a capacidade do homem de explorar a si mesmo. A tentativa de colonizá-lo, porém, configura também um novo e inevitável ato de violência, o que me levará a equiparar o inconsciente ao infinito e, com isso, atribuir à psicanálise uma ética derivada da recepção do outro. Como acolher cada paciente, a cada vez? Todo rosto nos põe diante do infinito da alteridade. Ser ético implicará a disposição cotidiana para o trauma, o susto, o assombro que significa, a cada vez, abrir a porta para um estrangeiro.

Minha paixão pela aventura psicanalítica poderá talvez ser encontrada nestas páginas […] Deixo em aberto a ideia, ou o desejo, de ter sido capaz de me movimentar no “modo fértil”, como costumamos dizer em psicanálise quando nos referimos ao modo da construção do pensamento. Nesse modo da sexualidade, mais uma vez o assombro e o susto. Seja como for, espero que meu eventual leitor possa experimentar algo do prazer que acompanha inevitavelmente o espírito quando este, num átimo, tem um vislumbre da liberdade.

 

Leopold Nosek é psiquiatra, psicanalista e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Ex-presidente da SBPSP, FEBRAPSI e FEPAL. Chair do Think Tank da IPA sobre o futuro da psicanálise e da IPA.