intimidade

Expressões da intimidade na vida e no divã

Ruth Blay Levisky *

A palavra íntimo é derivada do latim, “intimus”, cujo prefixo “in” refere-se ao interior, ao profundo, ao intrínseco. Thymos para os gregos na antiguidade tinha o significado de alma, lugar em que habitam os desejos e as emoções.

Esse tema despertou meu interesse e inquietude ao perceber a complexidade que envolve a esfera da intimidade. Tenho me surpreendido, como alguns jovens são capazes de ter uma amizade profunda e duradoura e, ao mesmo tempo, beijar alguém que nem mesmo o nome sabem, pela satisfação de um desejo momentâneo. Novos tipos de relacionamentos amorosos surgem na contemporaneidade, como o “netloving”, em analogia ao “networking”. Ele é representado por relacionamentos com vários sujeitos ao mesmo tempo, providos ou não de sexualidade, criando poliamores, polifamílias e polifidelidades sejam nos espaços reais ou nos virtuais. As legislações sobre os direitos de famílias têm sido revisadas diante das demandas oriundas dessas novas formas de configurações vinculares. A qualidade e a natureza de como são formados os vínculos, a história da vida pessoal de cada uma das partes, os modelos identificatórios transmitidos pelas famílias, os modos de mostrar e lidar com os afetos são fatores que podem  facilitar ou impedir o desenvolvimento da intimidade entre  sujeitos. Os limites entre os espaços reais e virtuais podem ser confundidos, fenômeno que também ocorre com a troca de intimidades; por vezes, ela chega a ser compartilhada até com estranhos. Além dos aspectos positivos provenientes do uso da internet, ela também  representa uma busca ilusória de fuga da realidade, do sofrimento e da solidão.

Diante dos paradigmas contemporâneos, penso ser fundamental refletir nosso papel e prática como psicanalistas. A “escuta psicanalítica” atual requer do profissional o desenvolvimento de competências como flexibilidade, criatividade, espontaneidade e diálogo, para ampliar a capacidade de observação sem perder o sentido do “setting” analítico. É um desafio para os profissionais colaborarem para que os pacientes desenvolvam novas maneiras “de ser e de estar em família e na sociedade”, além de abrir espaço para dar sentido às fantasias e aos conteúdos reprimidos. Por meio da relação construída entre analista e pacientes pode-se atingir partes do íntimo e trazer à tona conteúdos encobertos. Mas, pessoas com estruturas mentais narcísicas e persecutórias podem sentir maior dificuldade para um compartilhamento íntimo. Outros mecanismos defensivos também colaboram para mascarar e trancafiar a esfera do íntimo.

Diante dessa vasta gama de variabilidade, sugiro o conceito de Complexo Íntimo, que se refere ao conjunto das múltiplas expressões da intimidade que sofrem transformações, dependendo das características de personalidade do sujeito, das vivências internalizadas, do contexto e do momento histórico, social e cultural (Blay Levisky, 2017).

BIBLIOGRAFIA:

Blay Levisky, R. (2017) Expressões da intimidade nos vínculos: inteferências da cultura. Rev. Ide (63), pág. 41

* Ruth Blay Levisky  é psicóloga, grupoanalista e psicanalista de casais e famílias. Membro efetivo da Associação Internacional de Psicanálise de Casal e Família. Presidente da Associação Brasileira de Psicanálise de Casal e Família. Tem Mestrado e Doutorado em Genética Humana (USP).

** Artigo originalmente publicado na revista IDE:

Levisky, Ruth Blay. Expressões da intimidade nos vínculos: interferências da cultura.  IDE: Psicanálise e Cultura, v.39, n.63, p. 41-58, 2017

O íntimo, o estranho e o duplo no mundo digital

Vera Lamanno Adamo*

Be right back (Volte já), é o título do primeiro episódio da segunda temporada de Black Mirror, um seriado em exibição, criado pelo inglês Charlie Brooker.

Este episódio começa mostrando os personagens Ash (Domhnall Gleeson) e Martha (Hayley Atwell) mudando-se para uma remota casa de campo. Nos primeiros minutos nos deparamos com cenas corriqueiras de um jovem casal criando uma intimidade. Ele às voltas com o celular, ela tentando ser vista e ouvida. A intimidade sendo construída na constatação do estranho em si mesmo e no outro. O estranho remetendo àquilo que é o mais intimamente familiar. O estranho garantindo o íntimo e vice-versa.

Este cotidiano é abruptamente interrompido pela morte de Ash em um acidente de carro. A integridade de Martha fica ameaçada. Inconformada com limitações e com a mortalidade, Martha constrói um duplo (Ash/digital/androide) que, a princípio, é benevolente, pois protege o seu eu de fragmentação e aniquilamento. Eles formam um casal unitário, são praticamente um. Ash/androide é o reflexo e o complemento de Martha.

Entregando-se à onipotência do pensamento e valendo-se do artifício do mundo digital, Martha tenta manter Ash imortal para satisfazer o desejo narcísico de preencher a expectativa nostálgica do ideal. Mas o duplo benevolente, que antes bastava para protegê-la contra a solidão e o desamparo não é totalmente eficaz. Ash/androide acaba tornando-se o representante da morte. Um estranho anunciador da limitação e da alienação.

O androide de Ash não sangra, age de forma programada no sexo e só se revolta quando solicitado por Martha. Ela não consegue lidar com o papel de administradora de um Ash/androide feito apenas para satisfazer seus desejos. Isto leva Martha a querer destruí-lo. “Você é sinistro”, ela diz.

A cena final de Be right back acontece vários anos mais tarde e mostra Martha levando sua filha (Indira Ainger), agora com sete anos de idade, até a casa de campo, onde ela está mantendo o Ash/androide trancado no sótão. Ela permite que sua filha o encontre nos fins de semana. Enquanto sua filha está no sótão com o androide, Martha espera com lágrimas no rosto, antes de se juntar a eles.

Apesar de eficiente e tão próximo da realidade, o duplo não eliminou a angústia. A cópia não substituiu o original e não foi totalmente satisfatória. Criar um duplo é apenas um dispositivo psíquico utilizado para neutralizar o eu fragmentado, em vias de aniquilamento, até que se siga adiante.

O duplo, ao mesmo tempo exterior e íntimo, está logo ali: no quarto ao lado, no sótão, na mesma estrada, no black mirror, apto a representar tudo que nega a limitação do eu, apto a encenar o roteiro fantástico do desejo.

 

Texto publicado na íntegra na IDE, n.63, 2017

 

Vera Lamanno Adamo é membro efetivo e analista didata do GEPCampinas e da SBPSP.