freud

O ANALISTA DESCONCERTADO

*Silvana Rea

Em 1883, o jovem Freud escreve à sua então noiva, Martha Bernays: “Um fracasso em uma investigação estimula a criatividade. Cria um livre fluxo de associações, faz surgir uma ideia atrás de outra, ao passo que uma vez assumido o êxito, aparece com ele um estreitamento e torpor mental que obriga a retroceder ao estabelecido e impede uma nova combinação” (Caparrós, 1997, p. 309).

Poucos anos à frente, ele se desconcerta com as ideias de Charcot, em Salpêtrière. E no prefácio à tradução das conferências sobre as doenças do sistema nervoso, ele afirma que só pôde se dedicar a esta tarefa “após superar minha perplexidade inicial diante das novas descobertas de Charcot, e depois que aprendi a avaliar a sua grande importância…” (Freud, 1886/1969, p.53).

Podemos perceber que Freud considerou o desconcerto como algo útil por toda a sua vida. De fato, foi a sua capacidade de se surpreender com aquilo que escapa ao estabelecido, como os lapsos de memória, a troca de palavras, os sonhos, que permitiu que ele construísse a psicanálise. Dando atenção ao equívoco e ao inusitado, que neles encontrou o indício de que existe, no homem, uma comunicação que se subordina a outra ordem – o inconsciente conquista o estatuto de alteridade, com leis e lógica próprias.

Por sua vez, a psicanálise desconcertou a comunidade cientifica da época, ao abalar as convicções do século das luzes e sua defesa da racionalidade humana. Com ela, o homem racional e unitário deu lugar ao homem fendido do inconsciente. Algo que, para certa surpresa, ainda hoje desconcerta setores do conhecimento científico.

A Psicanálise supõe o desconcerto. O método psicanalítico leva a que o paciente se desconcerte de suas percepções cristalizadas, para que surja o novo. Mas não isenta o analista, porque o exercício clínico o convida a confrontar a alteridade do inconsciente nele mesmo e na relação com o paciente, que chega com suas questões e com sua proposta transferencial. E, como o encontro com o outro é sempre traumático, em algum momento algo desconcertante quebra as suas certezas, destrói a sensação de êxito e, por consequência, estimula a sua criatividade.

São muitas as situações que podem deixar o analista desconcertado. Um engano, uma provocação, uma quebra de setting. Pode ser um sobressalto que excede a sua possibilidade de representação. Ou o impacto da surpresa, do estranho que surge no familiar das sessões com determinado paciente. Algo que o leva a um acting-out. Ou o analista age guiado por um pensamento não pensado que só pode ser organizado a posteriori, muitas vezes depois da conversa com um colega, ou, talvez, de uma supervisão.

Do mesmo modo, o analista pode se desconcertar quando recebe seu jornal diário e o abre à leitura. Certos fenômenos nacionais e mundiais provocam a experiência de espanto, uma surpresa por muitas vezes desconfortável. Como compreender este choque em si? Como, pela psicanálise, compreender o mundo?

Qualquer analista já viveu algumas destas situações. São aquelas que não se aquietam; voltam à lembrança recorrentemente pois o espanto que elas causam produz uma memória que permanece incômoda (um fracasso?), exigindo alguma elaboração. Que nos exigem a ir além do estabelecido, criando novas combinações, como nas palavras de Freud. São oportunidades para a reflexão e a teorização psicanalítica.

O desconcerto é fundamental. De fato, na visão aristotélica, a origem e a evolução do pensamento dá-se a partir do espanto, momento no qual aquilo que era evidente torna-se inédito e incompreensível. O sentido da perplexidade leva a suspensão de certezas, incita o querer conhecer, exige uma reorganização do saber. Aqui o analista é aparentado do filósofo. Pois, como diz Kristeva (2000), é fundamental a qualquer psicanalista em seu exercício, a experiência de uma surpresa desconhecida e a posterior compreensão desse choque.  Eu completaria, fundamental para o analista em seu exercício e na vida.

Referências

Caparrós, N. (1997). Correspondencia de Sigmund Freud. Tomo I. Espanha. Biblioteca Nueva.

Freud, S. (1886/1969). “Prefácio à tradução das conferências sobre as doenças do sistema nervoso, de Charcot”. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Vol.II. Rio de Janeiro. Imago.

Kristeva, J. (2000). Sentido e contrassenso da revolta. Rio de Janeiro. Rocco.

Silvana Rea é Diretora Científica da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Mestre e Doutora em Psicologia da Arte pela Universidade de São Paulo.

 

Imagem: Olaf Hajek

Fantasia inconsciente: o desconcerto inaugural

*Izelinda Barros

Em uma conferência, apresentada em 1917, Freud afirma que “…a humanidade teve que tolerar, “por parte da ciência” dois grandes insultos ao “seu ingênuo amor–próprio”: aceitar que a Terra não é o centro do universo e conviver com teoria da evolução das espécies que “aniquilou a suposta prerrogativa humana na criação” [1]

A seguir, ele pondera que a psicanálise é o terceiro e mais grave insulto à “mania de grandeza humana” pois ela, em detrimento da racionalidade… “busca provar ao “Eu” que ele não é nem mesmo senhor de sua própria casa, mas tem de satisfazer-se com parcas notícias do que se passa inconscientemente em sua psíque”[2]

Vinte anos antes, ele mesmo tinha sido vítima desse argumento e abandonou, com grande dasapontamento, uma brilhante teoria que construíra a respeito da etiologia das diferentes formas de histeria e mesmo das neuroses obsessivas.

Voltemos ao episódio desse desconcerto inaugural da história da psicanálise:

Em torno de 1896, Freud estava entusiasmado com os resultados obtidos na terapia analítica que substituía, com vantagens, a técnica da hipnose para tratar os sintomas incapacitantes da histeria que interferiam na vida diária de muitas mulheres jovens.

Independente da idade, classe social ou grau de cultura se repetiam nas narrativas de suas pacientes, lembranças ligadas a abusos sexuais sofridos infância e perpetrados  por adultos do círculo íntimo dessas meninas.

Havia uma relação constante entre o relato de tais acontecimentos nas sessões de análise e o subsequente desaparecimento dos sintomas, indicando uma relação etiológica entre eles.

Confiante na racionalidade (e também movido pela “mania de grandeza humana”), Freud escreveu um artigo em que sustentava essa hipótese, ilustrando-a como o relato de treze casos

Entretanto, uma série de evidências contrárias a essa possibilidade- do abuso efetivo envolvendo pessoas da família – fez com que lentamente Freud pusesse em dúvida e finalmente renunciasse à sua “ teoria da sedução”.  Foi o primeiro desconcerto e “quase fatal para a jovem ciência”[3]

Mas o desânimo durou pouco.  “A reação de Freud ao abandono da teoria da sedução foi a de levar as mensagens, tanto as suas como de seus pacientes, mais a sério do que antes, mas de maneira muito menos literal. Passou a lê-las como mensagens vindas de uma realidade psíquica, muito mais poderosa do que a realidade objetiva cifradas- distorcidas, censuradas , significativamente disfarçadas”[4], pois é  assim que o homem recebe  as “parcas notícias do que se passa inconscientemente em sua psíque”[5]  e chamou essas manifestações da realidade psíquica de fantasias inconscientes.

Com essa nova hipótese, formulou seu entendimento sobre a origem dos sintomas da histeria da seguinte maneira: fantasias românticas, criticadas como sinal de ociosidade, prejudicando as atividades de trabalho e estudo, eram repudiadas e afastadas do espírito.

Mas, uma vez que negadas e reprimidas, essas fantasias eram adicionadas aos processos primários do inconsciente e, como tal, tornavam-se conteúdos de desejo em potencial. Como todo desejo busca sua efetivação, as fantasias, agora inconscientes, se apresentavam “significativamente disfarçadas” sob a forma de sintomas.

A análise de crianças pequenas, em particular, ampliou a potencialidade do conceito de fantasia inconsciente ao evidenciar que o brincar e o comportamento da criança na sala de análise podem ser lidas como expressões não verbais de fantasias inconscientes.

Assim, desde os seus primórdios, o conceito de fantasia inconsciente é um dos pilares da teoria psicanalítica e instrumento indispensável para o psicanalista clínico como uma das vias de acesso privilegiado para o acesso ao conteúdo latente das comunicações verbais e não verbais inconscientes.

Pois bem: no presente, notamos um esgarçamento da vida de fantasia em boa parcela das patologias que afligem as pessoas que buscam nossa ajuda, o que, com relação ao uso clínico das fantasias inconscientes não deixa de ser um novo desconcerto a ser respeitado, valorizado e enfrentado.

Voltamos, então, ao ponto de partida de cem anos atrás?  Certamente que não.

Pelo contrário, eu diria que o desconcerto atual sugere que estamos nos aproximando de algo ainda mais complexo e desconhecido, algo que ainda não podemos intuir e que   nos desafia na sala de análise e convoca nossa curiosidade.

Essa breve resenha do conceito de fantasia inconsciente particulariza o modelo evolutivo da teoria e da técnica em Psicanálise, o qual em uma espiral ascendente de desconcertos e ampliações subsequentes sustenta sua continua vitalidade.

Referências Bibliográficas:

[1] Freud, S (1917) Conferências introdutórias à Psicanálise. Teoria geral da neuroses. P. 380-1 Companhia das letras, 2017

[2] idem

[3] Gay, P. (1998) Freud Uma vida para nosso tempo. p,102. Companhia da Letras

[4]Gay, P.idem. p,103. Companhia da Letras

[5] Gay, P.idem. p,103. Companhia da Letras

 

Izelinda Garcia de Barros, nascida na cidade de São Paulo, Brasil, é psiquiatra, membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e membro efetivo da Associação Psicanalítica Internacional. Sua prática clínica, em consultório particular e as atividades didáticas como coordenadora de seminários na mesma instituição, somam-se à escrita de trabalhos científicos sobre análise de crianças, em particular sobre a clínica dos transtornos do espectro autista e, na mesma faixa de interesse, à investigação sobre os estados limítrofes que se apresentam com variadas configurações sintomáticas no atendimento de pacientes adultos.

Manuscrito inédito de 1931

Elsa Vera Kunze Post Susemihl*

Em 2004, o historiador americano Paul Roazen encontrou um manuscrito de Freud em meio a uma série de outros documentos depositados na universidade americana de Yale pela filha do ex-embaixador americano William Bullit. Esse é o manuscrito que foi recém-traduzido por mim para o português, diretamente do alemão, e que foi publicado pela Editora Blucher (2017) com o nome de Manuscrito inédito de 1931, em edição bilíngue.

A história desse manuscrito nos leva para o início do século passado, quando Freud clinicava em Viena e quando Bullit, ao final da Primeira Guerra Mundial, acompanhou o então presidente americano Thomas Woodrow Wilson nas conversações de paz e na formulação do tratado de Versalhes. Freud e Bullit se conheceram nesses anos e compartilharam ideias e críticas semelhantes em relação ao presidente Wilson e sua atuação durante o estabelecimento desse tratado, o qual depois realmente se mostrou desastroso e levou a situações que culminaram com uma Segunda Guerra Mundial. Freud via em Wilson uma pessoa identificada com ideias messiânicas e que tomava suas ilusões religiosas literalmente, o que, a seu ver, o fazia uma pessoa inadequada para se relacionar com os `filhos comuns dos homens´ (2017/1931, p. 18).

Surgiu, então, um projeto entre ambos, Freud e Bullit, de escrever uma biografia do presidente americano Wilson, na qual Bullit, o ex-embaixador, contaria sua experiência política e Freud, o psicanalista, contribuiria com uma análise psicológica do caráter do presidente Wilson. O trabalhou iniciou-se em ritmo acelerado, mas em algum momento houve uma parada. Provavelmente em função de algumas divergências que surgiram e que não foram superadas. Anos mais tarde, com o avanço do nazismo na Áustria, Freud e sua família tiveram que fugir. Bullit, agora embaixador americano em Paris, tem um papel decisivo nesse momento, quando ajuda Freud e sua família por meio de seus contatos de embaixador na chegada em Paris e em seu caminho a Londres, o destino de seu exílio. Bullit aproveita a ocasião para retomar o projeto da biografia, e Freud concorda então com sua publicação após a morte da segunda esposa de Wilson. O livro é publicado finalmente em 1966, quando ambos os coautores, Bullit e Freud, já não estavam mais vivos. Estabelece-se nesse momento uma longa controvérsia, pois a comunidade psicanalítica, incluindo a filha de Freud, Anna Freud, não reconhece a autoria do pai. Ainda que algumas ideias descritas ali eram psicanalíticas, sua apresentação e seu estilo estavam longe daquele conhecido como sendo de Freud. Essa situação permaneceu não esclarecida por muitos anos. Finalmente, ao serem encontrados, em 2004, os referidos documentos, foi jogada alguma luz sobre essa situação.

Agora, com esse Manuscrito em mãos foi possível fazer um cotejamento com o livro publicado, e se notou que, de fato, esse Manuscrito não havia sido publicado na sua íntegra em nenhuma parte ao longo do livro. Porém, algumas passagens foram editadas e aproveitadas no livro. Ainda que as razões que levaram a tal edição, provavelmente por Bullit, só podem ser supostas, e ainda que não sabemos se o Manuscrito havia sido escrito para ser publicado como um capítulo do livro ou somente para ser aproveitado por Bullit como ele o desejasse, podemos agora usufruir do texto que, sem sombra de dúvida, vem da pena de Freud, e no qual prontamente o reconhecemos.

Nesse Manuscrito, Freud apresenta de forma resumida alguns conceitos fundamentais da Psicanálise, tais como a libido, a bissexualidade, a teoria dos instintos de vida e de morte, e descreve como estes elementos configuram por meio de identificações e relações de objeto as diferentes composições do complexo de Édipo. Talvez em nenhum outro lugar de toda a sua obra encontramos um texto que apresenta de uma forma tão clara, concisa e detalhada todas essas ideias psicanalíticas, sem que seja perdida, nessa breve exposição, a extensão e a profundida destas ideias. E ainda, deixa explícita a consciência da provisoriedade e da limitação de todas essas teorias ou modelos. Com seu estilo de escrita elegante e seu encadeamento brilhante de ideias, Freud nos guia com desenvoltura e tranquilidade ao longo do texto através de vários temas bastante complexos da teoria psicanalítica. Salvo no final, não encontramos ali nada de necessariamente novo, ainda assim somos surpreendidos por novas conexões e formulações. Nesse sentido, é um texto que, a meu ver, se presta para leigos como uma introdução a algumas ideias psicanalíticas, mas que, ao mesmo tempo, é muito rico e esclarecedor também para o psicanalista familiarizado com a sua obra, podendo este usufruir da capacidade de Freud apresentar suas ideias.

Logo no início, Freud estabelece a diferença entre um estudo psicológico do caráter de uma pessoa a partir de dados obtidos pela sua biografia, ou poderíamos dizer também de sua obra, com aquilo que considera uma psicanálise de fato, o que a seu ver somente é possível na presença real de duas pessoas, o analista e o analisando.

Ao longo do texto, Freud traz então uma pormenorizada descrição de como os fatores constitucionais de feminilidade e masculinidade, decorrentes da bissexualidade constituinte do ser humano e relacionadas, mas não determinadas, pelas diferenças anatômicas dos sexos, se relacionam com as experiências de vida na infância, resultando na maneira individual de cada um em se haver com os conflitos do complexo de Édipo e se tornar um indivíduo único e singular. A feminilidade e a masculinidade estão, desta maneira, na base dos conflitos do complexo de Édipo e, ao final, do complexo de Castração, quando estas diferentes tendências no indivíduo vão estabelecer relações conflitantes entre si diante das diferentes posições relacionais com o pai e a mãe. Conclui assim: `Podemos dizer para finalizar que cada eu de um ser humano é o resultado final do esforço por um equilíbrio de todos estes conflitos entre as diferentes correntes da libido com as exigências do supereu e com os fatos do mundo externo real. O tipo de equilíbrio que ao final será possível depende, por um lado, da extensão da masculinidade e da feminilidade inatas, e, por outro, das impressões que o ser humano recebeu durante a sua infância. O resultado final dessa tentativa de equilíbrio determina o que chamamos de caráter do eu´. (1931/2017, pp. 67-69)

A grande novidade do texto está ao final, quando Freud nos apresenta uma ideia a respeito de como compreender do ponto de vista psicanalítico a importância da figura de Cristo, mostrando que está contida na narrativa do Cristo uma possibilidade de harmonizar as diferentes tendências em conflito presentes no complexo de Édipo.

O Manuscrito de 1931 foi inicialmente publicado em alemão por Ilse Gubrich-Simites e em inglês por Mark Solms, que também o traduziu em 2006. Ambas as edições vieram acompanhadas de artigos comentando o texto e sua história. Em 2015, é publicada uma tradução para o italiano de S. Franchini em edição crítica com comentários de M. Hinz e R. Righi. Também, em início de 2017, surge uma tradução em francês com apresentação de Elisabeth Roudinesco.

Em 2017, Alexandre Socha e eu nos propusemos o projeto de organizar a publicação desse texto agora traduzido para o português, e assim o livro O Manuscrito inédito de 1931 foi publicado em edição bilíngue pela Editora Blucher no final de 2017. Além do texto de Freud com a minha tradução direto do alemão, o livro ainda conta com um prefácio de Alexandre Socha e um posfácio de Luís Carlos Menezes.

Sem dúvida, um texto que vale a leitura!

Freud, S (2017) O manuscrito inédito de 1931. São Paulo: Editora Blucher. (Tradução de Elsa Vera Kunze Post Susemihl). Texto original de 1931.

Elsa Vera Kunze Post Susemihl é psicóloga formada pela USP, membro efetivo e docente da SBPSP, IPA International Psychoanalytical Association, membro e professora no Departamento de Psicanálise da Criança Instituto Sedes Sapientiae.

Neoconservadorismo, um sintoma do mal-estar na civilização

*Marion Minerbo
**Luciana Botter

Alguns acontecimentos recentes no Brasil e no mundo nos levam a pensar numa crescente onda de conservadorismo. Liberdades e valores conquistados por grupos sociais nas últimas décadas estão sendo questionados e ameaçam ser engolidos pela onda.

Apenas para citar exemplos rápidos: museus e exposições de arte censurados pelo público, sob alegação de incitar pedofilia ou simplesmente por exibirem nus artísticos que, de repente, se tornaram “obscenos”; a “cura gay” como retorno de uma postura homofóbica; políticos de direita e/ou conservadores em ascensão, em resposta à demanda popular; manifestações racistas no futebol; e por aí vai.

Desde Freud, o mal-estar na civilização produz fenômenos que podem ser interpretados como sintomas do sofrimento psíquico consubstancial àquela cultura. Em cada época e lugar, para que uma determinada cultura se estabeleça e se torne hegemônica, ela impõe renúncias específicas. São verdadeiras amputações psíquicas.

A primeira, denunciada por Freud nesse texto, tinha a ver com a sexualidade. Mas o raciocínio vale para qualquer parte amputada, pois ela sempre faz falta e produz sofrimento psíquico – ou mal-estar, se preferirem. Em todas as épocas e lugares, a cultura oferece soluções sintomáticas que tentam minimizar o sofrimento que ela própria produz. São os fenômenos que podemos chamar de loucuras cotidianas***.

Certas pessoas aparecem como porta-vozes paradigmáticos de um sofrimento que, na verdade, é de todos. Por isso, mesmo que calemos uma dessas vozes, aparecerão outras, pois o sintoma não é individual, mas estrutural. O neoconservadorismo é um exemplo funesto disso. Mas há muitos outros sintomas, como a deliciosa e divertida gourmetização da vida [ver no blog “Você também gosta de cozinhar?”].

Hoje, muita gente adora cozinhar e/ou assistir aos programas de televisão sobre gastronomia; até os principais jornais passaram a ter um caderno semanal sobre o tema; as cozinhas ganharam um upgrade e há panelas de grife caríssimas. Essa onda gastronômica é ou não é uma verdadeira loucura? Certos pratos são “divinos” e merecem ser degustados “de joelhos”. A referência à elevação espiritual não poderia ser mais explícita. Por isso, esse fenômeno pode ser interpretado como sintoma do sofrimento produzido por uma cultura excessivamente materialista, que tende a amputar a dimensão não funcional da vida. Como se vê, a própria cultura se encarrega de produzir “soluções sintomáticas” para aliviar este sofrimento.

Que sofrimento psíquico poderia estar determinando essa onda conservadora? O que teria sido amputado?

A atual realidade socioeconômica e cultural é muito diferente do que foi a Modernidade, quando as instituições eram fortes e determinavam com mão de ferro o certo e o errado, o permitido e o proibido. Havia um conjunto rígido de valores tidos como universais orientando a conduta dos sujeitos. Quem não se encaixasse no modelo prescrito e dominante, via-se –  e era visto – como desviante. A família patriarcal, como único modelo legítimo e possível, é um exemplo da hegemonia de certos valores. Há 40 anos, quem imaginaria uma família homoparental?

Em oposição a essa rigidez, vivemos atualmente um contexto social em que tais valores são muito mais fluidos e flexíveis. Já não acreditamos em um modelo único, supostamente universal, e por isso as pessoas têm muito mais liberdade para inventar novas formas de vida. Por um lado, isso tem a vantagem de contemplar as várias formas de subjetividade. Por outro, é uma evidência da crise das instituições. É daí que surgem as desvantagens, relacionadas a uma das principais características dos nossos tempos: a “miséria simbólica”.

Mas o que é a miséria simbólica? Por que chamar de “miséria” uma situação que permite maior liberdade e em que mais pessoas podem viver de acordo com suas convicções? Porque, como se verá em seguida, estamos “passando fome”.

Quando o conceito de “verdade universal” começa a ser transformado, dando lugar ao reconhecimento de verdades subjetivas e legitimando diferentes visões de mundo, os ganhos são incontestáveis. No entanto, quando a própria noção de verdade passa a ser, ela mesma, entendida como ultrapassada e nociva –  quiçá autoritária –  e é então suprimida, aí, sim, emerge o lado patogênico da crise das instituições. Jogou-se fora o bebê junto com a água do banho.

É aí que começamos a “passar fome”. A passagem de um saudável e desejável relativismo, para um relativismo absoluto, deixa os sujeitos sem referências com as quais construir suas identidades. Sem chão, o Eu se fragiliza e passa a sofrer de uma “anemia psíquica crônica”. Submerge na angústia porque não há mais verdades minimamente estabelecidas nas quais pautar o Ideal do Eu.

É esse relativismo absoluto que produz o que chamamos de miséria simbólica: uma impossibilidade de afirmar qualquer valor como válido. O conceito bizarro de pós-verdade decorre disso. O sofrimento psíquico decorrente da amputação dessa dimensão da realidade é o desamparo identitário, termo cunhado por Susana Muszkat.

As instituições protegem nossa vida psíquica. Quando elas estão em crise profunda, ficamos órfãos das narrativas que elas criam e sustentam. A angústia que comentamos acima aparece justamente porque temos necessidade emocional de acreditar em algumas coisas – em alguma narrativa que possa dar sentido às nossas vidas. Sem elas, ficamos desnorteados,“sem propósito”-  para usar um termo que está na moda.

É aí que entra a onda conservadora. Podemos interpretá-la como uma resposta defensiva, isto é, como solução sintomática, frente à angústia produzida pela miséria simbólica. Após a desconstrução radical operada pelo relativismo absoluto, o conservadorismo emerge como uma tentativa de reconstruir algo mais sólido. Mas é como tentar curar a anemia com junkfood, em vez de comer um bom bife (!). Ou como tapar o sol com a peneira.

É importante lembrar que cada momento histórico produziu um tipo específico de conservadorismo. O da época de Freud tinha determinações bem diferentes do nosso. Por isso, podemos falar em “neoconservadorismo”, já que o atual tem a ver com a miséria simbólica, o que não era o caso na Modernidade de Freud.

O neoconservadorismo ligado à miséria simbólica tem como característica principal a defesa de valores muito concretos, colados na materialidade e na sensorialidade imediata. Para dar um exemplo: no atual contexto de miséria simbólica, o nu artístico não tem transcendência nenhuma, não representa nada – o nu enquanto símbolo deixa de existir. Na ausência do símbolo, o nu só pode ser interpretado como “uma pessoa pelada” e, portanto, algo moralmente condenável. A diferença entre o homem nu no espaço de um museu e o homem nu na rua se perde.

Em oposição a valores mais complexos, que exigem capacidade de abstração e de perceber nuances, tais como liberdade, igualdade e fraternidade, os valores neoconservadores são rasos e colados na concretude do mundo. Junte-se a isso a polarização atual e teremos um fla-flu entre pessoas que defendem valores, contra pessoas que, supostamente, querem corromper a juventude.

 

* Marion Minerbo é psicanalista da SBPSP, doutora pela UNIFESP e autora de vários livros e artigos, entre eles “Diálogos sobre a clínica psicanalítica” (Blucher, 2016) | marionminerbo@gmail.com

**Luciana Botter é formada em Direito pela USP, em Psicologia pela PUC-SP e atualmente trabalha, entre outras coisas, com edição e revisão de textos psicanalíticos. Editora do blog Loucuras Cotidianas, por Marion Minerbo.

***Loucuras Cotidianas, por Marion Minerbo: https://loucurascotidianas.wordpress.com/

Amor e psicanálise

Amor e psicanálise

O amor é um tema universal que desperta as mais variadas reflexões. O que, afinal, significa amar verdadeiramente? Na Psicanálise, não trabalhamos com respostas únicas e conclusivas. Ao contrário, buscamos ampliar a compreensão dos acontecimentos humanos. É disso que se trata a entrevista abaixo, sobre amor, com o psicanalista lacaniano Jacques-Alain Miller, publicada originalmente na revista “Psychologies Magazine”. Vale a leitura!

Psychologies: A psicanálise ensina alguma coisa sobre o amor?
Jacques-Alain Miller: Muito, pois é uma experiência cuja fonte é o amor. Trata-se desse amor automático, e freqüentemente inconsciente, que o analisando dirige ao analista e que se chama transferência. É um amor fictício, mas é do mesmo estofo que o amor verdadeiro. Ele atualiza sua mecânica: o amor se dirige àquele que a senhora pensa que conhece sua verdade verdadeira. Porém, o amor permite imaginar que essa verdade será amável, agradável, enquanto ela é, de fato, difícil de suportar.

Psychologies: Então, o que é amar verdadeiramente?
Jacques-Alain Miller: Amar verdadeiramente alguém é acreditar que, ao amá-lo, se alcançará a uma verdade sobre si. Ama-se aquele ou aquela que conserva a resposta, ou uma resposta, à nossa questão “Quem sou eu?”.

Psychologies: Por que alguns sabem amar e outros não?
Jacques-Alain Miller: Alguns sabem provocar o amor no outro, os serial lovers – se posso dizer – homens e mulheres. Eles sabem quais botões apertar para se fazer amar. Porém, não necessariamente amam, mais brincam de gato e rato com suas presas. Para amar, é necessário confessar sua falta e reconhecer que se tem necessidade do outro, que ele lhe falta. Os que crêem ser completos sozinhos, ou querem ser, não sabem amar. E, às vezes, o constatam dolorosamente. Manipulam, mexem os pauzinhos, mas do amor não conhecem nem o risco, nem as delícias.

Psychologies: “Ser completo sozinho”: só um homem pode acreditar nisso…
Jacques-Alain Miller: Acertou! “Amar, dizia Lacan, é dar o que não se tem”. O que quer dizer: amar é reconhecer sua falta e doá-la ao outro, colocá-la no outro. Não é dar o que se possui, os bens, os presentes: é dar algo que não se possui, que vai além de si mesmo. Para isso, é preciso se assegurar de sua falta, de sua “castração”, como dizia Freud. E isso é essencialmente feminino. Só se ama verdadeiramente a partir de uma posição feminina. Amar feminiza. É por isso que o amor é sempre um pouco cômico em um homem. Porém, se ele se deixa intimidar pelo ridículo, é que, na realidade, não está seguro de sua virilidade.

Psychologies: Amar seria mais difícil para os homens?
Jacques-Alain Miller: Ah, sim! Mesmo um homem enamorado tem retornos de orgulho, assaltos de agressividade contra o objeto de seu amor, porque esse amor o coloca na posição de incompletude, de dependência. É por isso que pode desejar as mulheres que não ama, a fim de reencontrar a posição viril que coloca em suspensão quando ama. Esse princípio Freud denominou a “degradação da vida amorosa” no homem: a cisão do amor e do desejo sexual.

Psychologies: E nas mulheres?
Jacques-Alain Miller: É menos habitual. No caso mais freqüente há desdobramento do parceiro masculino. De um lado, está o amante que as faz gozar e que elas desejam, porém, há também o homem do amor, feminizado, funcionalmente castrado. Entretanto, não é a anatomia que comanda: existem as mulheres que adotam uma posição masculina. E cada vez mais. Um homem para o amor, em casa; e homens para o gozo, encontrados na Internet, na rua, no trem…

Psychologies: Por que “cada vez mais”?
Jacques-Alain Miller: Os estereótipos socioculturais da feminilidade e da virilidade estão em plena mutação. Os homens são convidados a acolher suas emoções, a amar, a se feminizar; as mulheres, elas, conhecem ao contrário um certo “empuxo-ao-homem”: em nome da igualdade jurídica são conduzidas a repetir “eu também”. Ao mesmo tempo, os homossexuais reivindicam os direitos e os símbolos dos héteros, como casamento e filiação. Donde uma grande instabilidade dos papéis, uma fluidez generalizada do teatro do amor, que contrasta com a fixidez de antigamente. O amor se torna “líquido”, constata o sociólogo Zygmunt Bauman. Cada um é levado a inventar seu próprio “estilo de vida” e a assumir seu modo de gozar e de amar. Os cenários tradicionais caem em lento desuso. A pressão social para neles se conformar não desapareceu, mas está em baixa.

Psychologies: “O amor é sempre recíproco”, dizia Lacan. Isso ainda é verdade no contexto atual? O que significa?
Jacques-Alain Miller: Repete-se esta frase sem compreendê-la ou compreendendo-a mal. Ela não quer dizer que é suficiente amar alguém para que ele vos ame. Isso seria absurdo. Quer dizer: “Se eu te amo é que tu és amável. Sou eu que amo, mas tu, tu também estás envolvido, porque há em ti alguma coisa que me faz te amar. É recíproco porque existe um vai-e-vem: o amor que tenho por ti é efeito do retorno da causa do amor que tu és para mim. Portanto, tu não estás aí à toa. Meu amor por ti não é só assunto meu, mas teu também. Meu amor diz alguma coisa de ti que talvez tu mesmo não conheças”. Isso não assegura, de forma alguma, que ao amor de um responderá o amor do outro: isso, quando isso se produz, é sempre da ordem do milagre, não é calculável por antecipação.

Psychologies: Não se encontra seu ‘cada um’, sua ‘cada uma’ por acaso. Por que ele? Por que ela?
Jacques-Alain Miller: Existe o que Freud chamou de Liebesbedingung, a condição do amor, a causa do desejo. É um traço particular – ou um conjunto de traços – que tem para cada um função determinante na escolha amorosa. Isto escapa totalmente às neurociências, porque é próprio de cada um, tem a ver com sua história singular e íntima. Traços às vezes ínfimos estão em jogo. Freud, por exemplo, assinalou como causa do desejo em um de seus pacientes um brilho de luz no nariz de uma mulher!

Psychologies: É difícil acreditar em um amor fundado nesses elementos sem valor, nessas baboseiras!
Jacques-Alain Miller: A realidade do inconsciente ultrapassa a ficção. A senhora não tem idéia de tudo o que está fundado, na vida humana, e especialmente no amor, em bagatelas, em cabeças de alfinete, os “divinos detalhes”. É verdade que, sobretudo no macho, se encontram tais causas do desejo, que são como fetiches cuja presença é indispensável para desencadear o processo amoroso. As particularidades miúdas, que relembram o pai, a mãe, o irmão, a irmã, tal personagem da infância, também têm seu papel na escolha amorosa das mulheres. Porém, a forma feminina do amor é, de preferência, mais erotômana que fetichista : elas querem ser amadas, e o interesse, o amor que alguém lhes manifesta, ou que elas supõem no outro, é sempre uma condição sine qua non para desencadear seu amor, ou, pelo menos, seu consentimento. O fenômeno é a base da corte masculina.

Psychologies: O senhor atribui algum papel às fantasias?
Jacques-Alain Miller: Nas mulheres, quer sejam conscientes ou inconscientes, são mais determinantes para a posição de gozo do que para a escolha amorosa. E é o inverso para os homens. Por exemplo, acontece de uma mulher só conseguir obter o gozo – o orgasmo, digamos – com a condição de se imaginar, durante o próprio ato, sendo batida, violada, ou de ser uma outra mulher, ou ainda de estar ausente, em outro lugar.

Psychologies: E a fantasia masculina?
Jacques-Alain Miller: Está bem evidente no amor à primeira vista. O exemplo clássico, comentado por Lacan, é, no romance de Goethe, a súbita paixão do jovem Werther por Charlotte, no momento em que a vê pela primeira vez, alimentando ao numeroso grupo de crianças que a rodeiam. Há aqui a qualidade maternal da mulher que desencadeia o amor. Outro exemplo, retirado de minha prática, é este: um patrão qüinquagenário recebe candidatas a um posto de secretária. Uma jovem mulher de 20 anos se apresenta; ele lhe declara de imediato seu fogo. Pergunta-se o que o tomou, entra em análise. Lá, descobre o desencadeante: ele havia nela reencontrado os traços que evocavam o que ele próprio era quando tinha 20 anos, quando se apresentou ao seu primeiro emprego. Ele estava, de alguma forma, caído de amores por ele mesmo. Reencontra-se nesses dois exemplos, as duas vertentes distinguidas por Freud: ama-se ou a pessoa que protege, aqui a mãe, ou a uma imagem narcísica de si mesmo.

Psychologies: Tem-se a impressão de que somos marionetes!
Jacques-Alain Miller: Não, entre tal homem e tal mulher, nada está escrito por antecipação, não há bússola, nem proporção pré-estabelecida. Seu encontro não é programado como o do espermatozoide e do óvulo; nada a ver também com os genes. Os homens e as mulheres falam, vivem num mundo de discurso, e isso é determinante. As modalidades do amor são ultrassensíveis à cultura ambiente. Cada civilização se distingue pela maneira como estrutura a relação entre os sexos. Ora, acontece que no Ocidente, em nossas sociedades ao mesmo tempo liberais, mercadológicas e jurídicas, o “múltiplo” está passando a destronar o “um”. O modelo ideal do “grande amor de toda a vida” cede, pouco a pouco, terreno para o “speed dating”, o “speed loving” e toda floração de cenários amorosos alternativos, sucessivos, inclusive simultâneos.

Psychologies: E o amor no tempo, em sua duração? Na eternidade?
Jacques-Alain Miller: Dizia Balzac: “Toda paixão que não se acredita eterna é repugnante”. Entretanto, pode o laço se manter por toda a vida no registro da paixão? Quanto mais um homem se consagra a uma só mulher, mais ela tende a ter para ele uma significação maternal: quanto mais sublime e intocada, mais amada. São os homossexuais casados que melhor desenvolvem esse culto à mulher: Aragão canta seu amor por Elsa; assim que ela morre, bom dia rapazes! E quando uma mulher se agarra a um só homem, ela o castra. Portanto, o caminho é estreito. O melhor caminho do amor conjugal é a amizade, dizia, de fato, Aristóteles.

Psychologies: O problema é que os homens dizem não compreender o que querem as mulheres; e as mulheres, o que os homens esperam delas…
Jacques-Alain Miller: Sim. O que faz objeção à solução aristotélica é que o diálogo de um sexo ao outro é impossível, suspirava Lacan. Os amantes estão, de fato, condenados a aprender indefinidamente a língua do outro, tateando, buscando as chaves, sempre revogáveis. O amor é um labirinto de mal entendidos onde a saída não existe.


Esta entrevista foi realizada por Hanna Waar e publicada originariamente na revista “Psychologies Magazine”, de outubro 2008 (n° 278). Tradução: Maria do Carmo Dias Batista.

Perdas e lutos que enfrentamos ao longo da vida

A vida é um constante processo de perda e superação. Há diferentes tipos de perdas, mais ou menos intensas. Mais ou menos definitivas. Em todos os casos somos colocados diante da necessidade de viver o luto, enfrentar a ausência e a falta e elaborá-las, para que a vida siga em frente. Ao contrário do que alguns imaginam, mergulhar naquilo que gerou tristeza pode ser uma parte fundamental desse processo. O luto – enquanto trabalho a ser realizado a partir de uma perda – promove um maior nível de integração e amadurecimento da personalidade. Sobre o assunto, vale conferir o texto abaixo, da psicanalista e membro da SBPSP, Sylvia Pupo.

Perdas e lutos que enfrentamos ao longo da vida
Por Sylvia Pupo*

“Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”, diz a última estrofe do samba, sugerindo que devemos ser inabaláveis frente aos tombos que a vida nos dá.

Com admiração, geralmente, são vistas as pessoas que não se abatem ante uma perda, golpe ou obstáculo. São estimuladas a mostrar força e quase ausência de sentimentos. “Bola pra frente!”. Como sinal de força e maturidade são instigadas a esquecer rapidamente o acontecido e prosseguir.

Há tantos tipos e intensidades de perdas e de lutos a fazer. Há lutos por mortes ou separações, pelas próprias expectativas não atingidas, por um filho que cresceu e nos obrigou a nos re-situar como pais; por formar-se e ter que procurar um emprego, pela perda da infância, pelo envelhecimento…Cada fase da vida é acompanhada de mudanças; mudanças que nos desalojam e podem ser sentidas como perdas, demandando um trabalho interno de luto. O que é sentido como perda para um, pode não afetar um outro da mesma maneira.

Desde pequenas separações, até perdas mais definitivas, os lutos a fazer são diários e seus efeitos e possibilidades de elaboração vão depender, dentre outros fatores, da história afetiva dos sujeitos e da qualidade de seus vínculos primeiros. Muitas, entretanto, são necessárias e estruturantes.

Algumas pessoas acabam criando “soluções maníacas” para lidar com uma situação de perda. Desenvolvem uma excitação que substitui a esperada tristeza. A tal da “volta por cima” pode incluir viagens, festas, gastos, drogas, esportes, comportamentos em excesso que visam ajudar a não pensar ou sentir.

Ao contrário, é necessário “dar a volta por baixo”, poder falar a respeito, sentir, entristecer-se e mergulhar para voltar à tona. Esta é uma etapa fundamental no trabalho de luto, termo sugerido por Freud, em relação ao processo para a elaboração de toda perda. O reconhecimento de uma perda é um passo fundamental para a sua aceitação.

O processo de luto é uma etapa natural e necessária, que quando terminado vai promover um maior nível de integração e amadurecimento da personalidade. Aqueles que puderem contar com acompanhamento psicoterápico podem se beneficiar muito disto, principalmente nestes momentos

É importante distinguirmos um luto “normal”, esperado, de um luto patológico, de duração prolongada, onde há transformação da tristeza em depressão. A tristeza é um estado natural, dentre outros, que se seguem a uma perda.

Numa sociedade em que a tristeza não pode ser tolerada e deve ser medicalizada há uma demanda de que sejamos sempre felizes e bem sucedidos, o espaço para a fragilidade e para a própria subjetividade é cada vez menor. O ritmo acelerado nos faz também atropelar as emoções e o tempo necessário para cada um finalizar seus processos.

O luto vai na direção oposta. Ele traz consigo uma necessidade temporária de recolhimento, de parada. Promove uma “regressão” como medida de economia psíquica até o momento em que a pessoa em questão possa retomar seu investimento no mundo. É um tempo de convalescença psíquica.

A impossibilidade de uma pessoa vivenciar as fases necessárias de um trabalho de luto, ou mesmo um prolongamento deste período, pode levar a estados cronificados de melancolia, ressentimento e desvitalização.

É importante, que além do trabalho de elaboração individual – com ou sem auxílio de uma psicoterapia – o apoio do grupo social e a utilização de recursos simbólicos e certos rituais presentes na Cultura como um auxílio na elaboração dessas etapas.

*Sylvia Pupo é psicanalista e membro da SBPSP

Bibliografia – Freud, .S. (1817[1915] /1988) “Luto e melancolia in Edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud. Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago.
“Volta por cima” samba de de Noite Ilustrada