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Tudo sobre a Formação Psicanalítica da SBPSP

Tornar-se analista é um processo que envolve aproximar-se do próprio mundo interno para poder se aproximar do mundo interno do outro. A formação psicanalítica de SBPSP busca desenvolver no postulante as condições para que este processo ocorra, a partir do tripé da análise pessoal, seminários teóricos e supervisões.

As inscrições estarão abertas de 1º a 30 de março de 2018 (confira aqui). Nesse post, buscamos apresentar as propostas da formação psicanalítica e esclarecer as principais dúvidas sobre os processos.

Histórico

A Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo começou a ser organizada em 1927 e, em 1951, foi reconhecida pela Associação Psicanalítica Internacional. Pouco tempo depois, em setembro/outubro de 1958, foi criado o Instituto de Psicanálise da SBPSP, que recebeu posteriormente o nome de “Durval Marcondes”, como homenagem a seu fundador. O Instituto é o órgão da SBPSP que coordena as atividades do corpo docente e discente na finalidade de formar psicanalistas.

Composta atualmente por 470 membros efetivos e associados da SBPSP e 349 membros filiados ao Instituto Durval Marcondes, a Sociedade de São Paulo busca manter o pluralismo teórico-clínico, a interação entre psicanalistas com orientações diversas e também estimular férteis diálogos com outras áreas do conhecimento e da cultura. Para tanto, mantém um notável fluxo permanente de atividades científicas e publicações, como o Jornal de Psicanálise e a Revista Ide.

Seleção

A maior parte dos pretendentes à formação no Instituto Durval Marcondes tende a ser de graduados em medicina ou em psicologia, desde que devidamente habilitados para o exercício profissional perante seus conselhos profissionais. No entanto, candidatos vindos de outras áreas de formação também podem se apresentar para a seleção. A única diferença é que estes últimos terão seus currículos e memoriais discutidos na Comissão de Ensino para uma avaliação preliminar de sua trajetória e da compatibilidade com o que consideramos ser essencial no perfil de um futuro psicanalista. Passando nessa primeira etapa, eles prosseguem no processo comum a todos. Portadores de diplomas de universidades estrangeiras devem apresentar prova de revalidação dos mesmos. Entre os candidatos de outras áreas, já foram aprovados profissionais de economia, direito, farmácia, hotelaria e serviço social.

A seleção propriamente dita consiste no exame do currículo e dos memoriais dos candidatos, com vistas a conhecer a pessoa e sua motivação para se tornar psicanalista. Em seguida, o pretendente passa por três entrevistas com psicanalistas da SBPSP. Cada trio de entrevistadores terá a oportunidade de conhecer a pessoa ao vivo e complementar, esclarecer ou aprofundar as informações enviadas por escrito. Tais impressões serão discutidas em seguida para se decidir pela aprovação ou não do candidato.

Currículo

Nosso currículo propõe uma base de autores considerados essenciais para a clínica psicanalítica contemporânea, e ao mesmo tempo, abre um espaço para contemplar os interesses singulares de cada membro filiado. Nesse sentido, 72% dos seminários são obrigatórios e 28% são eletivos, ou seja, fazem parte da grade curricular, mas são de escolha do membro filiado. Entre os créditos obrigatórios há 10 seminários clínicos, espaços em que a clínica e a teoria se reinventam reciprocamente e no qual os membros apresentam um caso para discussão com o grupo.

Além dos seminários obrigatórios, os docentes têm a possibilidade de propor eletivos sobre temas ou autores de seu interesse, assim como os membros filiados também podem sugerir um tema e convidar um coordenador para tal seminário. Desta maneira, acreditamos contemplar tanto a pluralidade teórico-clínica praticada na instituição, como a diversidade do pensamento psicanalítico atual.

O tempo da formação depende do cumprimento do tripé: análise didática, seminários clínicos e teóricos e duas supervisões individuais. Após a aprovação no processo seletivo, o pretendente tem no máximo um ano para iniciar sua análise didática, que terá duração mínima de cinco anos. A partir de seis meses do início da análise didática, é possível a matrícula nos seminários oferecidos pelo Instituto. O tempo mínimo para conclusão da formação é de cinco anos, que coincide com a exigência de análise didática. O tempo total da formação é flexível para cada membro filiado. Se os seminários clínicos e teóricos forem concluídos, mas os relatórios não tiverem ainda sido apresentados, o Instituto tem como requisito que seja cursado no mínimo um seminário por semestre. Tal processo tem o nome de formação continuada, que significa uma elasticidade no tempo de formação, até que o segundo relatório seja apresentado no Instituto e a qualificação seja solicitada pelo membro filiado.

Supervisão e análise didática

Como dito acima, para alcançar sua qualificação como analista da SBPSP, é necessário que o membro filiado, além dos seminários, supervisione dois casos de pacientes adultos, cada qual durante 80 horas. Ele terá, assim, contato mais regular e próximo com dois analistas didatas da sociedade, discutindo a fundo seu próprio trabalho clínico e o processo analítico. É uma oportunidade única de unir técnica e teoria, o que culminará com o exercício da escrita do relatório.

A análise didática é, em sua essência, idêntica a qualquer análise. Entretanto, sendo uma parte fundamental da formação do analista, tem algumas características formais que a distinguem: a duração mínima de cinco anos, a frequência de quatro sessões semanais e o fato de ser realizada por um analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. O didata é um membro efetivo da sociedade, que, tendo passado por um longo processo de qualificação, é avalizado pela instituição para exercer a função de analisar os futuros analistas.

E por que é exigido que o membro filiado passe pela análise didática? Porque acreditamos – e Freud nos iniciou nesta premissa – que apenas sendo analisado e vivenciando o processo de se aproximar do próprio mundo interno alguém estará apto a se aproximar do mundo interno do outro e fazer com que o processo analítico se coloque em marcha. Os vieses não são assim eliminados, mas podem ser escrutinizados pelo analista. Esta é a perna mais básica do que se convencionou chamar “tripé” do modelo de formação analítica que seguimos; os dois outros pés seriam a supervisão e os seminários.  Atualmente tende-se a considerar, informalmente, uma “quarta perna”: a vida institucional, que permite ao membro filiado estar em permanente processo de ser apresentado a novas ideias, para discussão e reflexão crítica.

Dicas

A psicanalista Vera Regina Jardim Ribeiro Marcondes Fonseca, diretora do Instituto Durval Marcondes, dá uma dica para os candidatos refletirem antes da inscrição. “É importante ter curiosidade pelo mundo mental, pela própria vida mental e pela vida mental dos outros. Também é desejável o interesse pela cultura, história, arte e ciência, ou seja, é fundamental a tendência a valorizar o que é humano”, destaca.

Outra dica de Vera é o cuidado com o memorial, pois, junto com as entrevistas, esse documento tem um peso importante para a seleção. “É importante que o candidato se dedique à escrita desse currículo comentado, sendo uma oportunidade para refletir sobre sua trajetória e apresentá-la à comissão de seleção”.

A Psicanálise de bebês, crianças, adolescentes e suas famílias

Por Maria Thereza de Barros França [1], Regina Elizabeth Lordello Coimbra [2] e Ligia Todescan Lessa Mattos [3]

É mais fácil atender crianças em análise do que adultos? Existe atendimento psicanalítico para bebês? E adolescentes, é difícil atendê-los? Vamos nos lembrar de uma popular cantiga de roda que serviu de inspiração para este texto: 

Ciranda, cirandinha

vamos todos cirandar

vamos dar a meia-volta

volta e meia vamos dar.

O anel que tu me destes

era vidro e se quebrou,

o amor que tu me tinhas

era pouco e se acabou.

Por isso, Dona Fulana

faz favor de entrar na roda,

diga um verso bem bonito

diga adeus e vá-se embora.

O “cirandar” nos remete ao trabalho psicanalítico com crianças, no qual precisamos (re)aprender a brincar, entrar e sair da roda, lidar com interação, amor, desamor, individuação, possibilidade ou não de reparação, separação, movimento, regressão, desenvolvimento.

É comum a ideia de que é “mais fácil” atender crianças já que são mais espontâneas, menos defendidas e que seria simples estabelecer um contato lúdico com elas, recorrendo às nossas próprias experiências infantis, ou de contato com crianças dos nossos relacionamentos. É essa ideia que leva muitos jovens começarem sua vida profissional atendendo crianças.

No trabalho com a criança uma questão se coloca: “infante” é aquele que não fala. Então, como é que a criança fala? E como é que é possível falar com a criança?

O campo é repleto de variáveis e exige do analista, antes de tudo, condições pessoais, não apenas emocionais, mas entusiasmo, disposição para brincar, (já que o brincar é a fala da criança), interesse genuíno e prazer de desfrutar do contato analítico com crianças. Essas condições, é claro, não dispensam os conhecimentos acerca do desenvolvimento emocional infantil, dos fatores que o favorecem, aqueles que o prejudicam, das patologias decorrentes e das questões técnicas ligadas à especificidade do trabalho.

Ao longo dos anos, a psicanálise vem acumulando conhecimentos sobre o desenvolvimento inicial das crianças, a partir da observação de bebês e de sua interação com suas mães. Hoje já se fazem atendimentos interessantes que têm como foco a relação pais-bebê e que permitem que precocemente sejam detectados sinais de riscos ao desenvolvimento. Um trabalho preventivo torna-se então possível.

Por sua vez, a infância, a puberdade e, particularmente, a adolescência, são períodos de transformações que exigem do analista conhecimento, sensibilidade e disponibilidade para lidar com as demandas emocionais de cada um desses momentos do desenvolvimento humano.

Essas características do trabalho do psicanalista de crianças e adolescentes vêm, cada vez mais, impondo também a necessidade do atendimento aos pais que procuram ajuda para seus filhos. Esse atendimento se inicia desde o momento de recebê-los e acolhê-los e se prolonga ao longo de uma construção conjunta do entendimento das dificuldades que enfrentam com seus filhos.

Considerando toda a complexidade do atendimento de crianças e adolescentes, um grupo de psicanalistas formados na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, pensou em oferecer um espaço aberto a jovens psicólogos, pediatras, psiquiatras infantis, profissionais da educação (e de áreas afins) para o estudo e o entendimento desse período do desenvolvimento do ser humano, do nascimento à adolescência.

Assim como os jovens profissionais que iniciam suas carreiras atendendo crianças, esses psicanalistas também fizeram sua trajetória começando pela psicanálise de crianças e adolescentes e permaneceram nesse campo ao longo dos anos.

O CURSO

A SBPSP e a Diretoria de Atendimento à Comunidade, que tem entre suas finalidades a difusão da psicanálise para a sociedade, encamparam a ideia e ofereceram respaldo para a criação do curso CINAPSIA – Curso Introdutório ao Atendimento Psicanalítico de Crianças e Adolescentes.

A sigla CINAPSIA faz alusão à palavra “sinapse” que nos remete ao sistema nervoso, aos pontos de contato entre as terminações das células nervosas, os neurônios. Do significado da palavra sinapse destaca-se o de união, aspecto que orienta o curso, pelo importante papel que os vínculos afetivos e elos de ligação de várias ordens desempenham no processo de desenvolvimento psíquico.

O CINAPSIA não se propõe a formar psicanalistas, mas sim desenvolver uma atitude: o olhar e a escuta psicanalíticos voltados ao bebê, à criança, ao adolescente e seus pais. As aulas abordarão o processo de desenvolvimento, partindo da família que aguarda o bebê, a chegada do mesmo, seu crescimento, as características da latência, as transformações da adolescência, as perturbações que podem afetar esse processo e sua abordagem terapêutica. O curso abre também espaço para que os alunos, em pequenos grupos, exponham suas experiências e discutam com os professores que coordenam a atividade.

O CINAPSIA irá oferecer ocasião singular para estudo, reflexão e debates científicos sobre o atendimento psicanalítico de bebês, crianças, adolescentes e suas famílias, contando para tanto, além do seu corpo docente (relacionado abaixo), com alguns analistas convidados, brasileiros e estrangeiros.

[1] Membro efetivo da SBPSP, docente do Instituto Durval Marcondes e psicanalista de crianças e adolescentes pela IPA, coordenadora do CINAPSIA.

[2] Membro efetivo da SBPSP, docente do Instituto Durval Marcondes e psicanalista de crianças e adolescentes pela IPA, diretora da DAC – Diretoria de Atendimento à Comunidade.

[3] Membro efetivo e didata da SBPSP, docente do Instituto Durval Marcondes, assessora da diretora da DAC.