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Escola e Família: indagações e perplexidades em tempos críticos

De perspectivas diferentes, a Educação e a Psicanálise se ocupam do desenvolvimento humano e o diálogo entre as duas áreas tem se mostrado cada vez mais produtivo. Nos dias atuais, com as novas tecnologias e perspectivas que desafiam todos nós, o papel da família e da escola na educação das crianças vem sofrendo profundas mudanças e gerando questões que necessitam urgente reflexão.

Sobre o tema, vale conferir abaixo a ótima conversa que tivemos com as psicanalistas e membros da SBPSP, Heloisa Ditolvo, Marina Bilenky e Silvia Deroualle, coordenadoras da 5ª Jornada de Psicanálise e Educação, no dia 26/09, na sede da SBPSP. O evento é imperdível tanto para psicanalistas como para educadores atentos às perplexidades da nossa realidade atual.

Por que uma jornada que reúne os temas Psicanálise e Educação?

A psicanálise e a educação são áreas de estudo que abordam questões que possuem intersecções. Partindo de diferentes perspectivas, ambas se interessam pelo desenvolvimento humano e entendem a necessidade de se cuidar e de se criar condições favoráveis para que esse desenvolvimento aconteça.

Quais as principais interfaces entre ambas?

Ambas procuram entender e trabalhar com o ser humano que vive dentro de uma cultura que lhe é própria e ocupam-se em instrumentalizar esse indivíduo para que possa ser reflexivo, crítico, criativo, capaz de utilizar recursos próprios.

Em nosso percurso, nas Jornadas anteriores, fomos constituindo a ideia de que tanto a Educação como a Psicanálise estão comprometidas com a construção de lugares produtores de sentido, de narrativas e, em última análise, com a construção do humano.

Em tempos de rápidas transformações e novos paradigmas, o que muda no papel dos adultos de educarem as crianças? 

A tradição, o conhecimento passado através das gerações, não responde mais às inúmeras indagações que esses novos paradigmas nos propõem. Não possuímos um acervo de conhecimentos que nos auxilie a educar para o uso da internet, por exemplo. Como os problemas são novos, precisamos pensar novas soluções. Somos assaltados por situações no cotidiano que não podemos prever. Os adultos encontram dificuldade de exercer seu papel de autoridade diante de assuntos que não dominam.

Do ponto de vista da construção de conhecimento, como as novas tecnologias podem se tornar aliadas nesse processo? 

As informações são muito acessíveis hoje. Mas é preciso discriminar informação de conhecimento. O conhecimento implica dar um lugar e um sentido para o novo conteúdo. É preciso cuidar para que essas informações não sejam meros dados repetidos ou decorados, para que possam se transformar em material incorporado com significado.

O professor tem esse papel fundamental tanto no sentido de educar para o uso das novas ferramentas, quanto no de construir o conhecimento junto com seu aluno. E a escola pode usar as novas tecnologias para tornar suas ferramentas mais acessíveis aos alunos. O processo fica mais dinâmico, as crianças podem ter maior autonomia com a disponibilidade de informação oferecida.

Com a difusão de tantas informações pela internet e uma maior disseminação de conhecimento, é possível pensarmos em um sistema mais horizontal de educação, em que a criança goze de maior autonomia? (em substituição ao modelo tradicional hierárquico). Isso inclusive já vem acontecendo em algumas escolas que partem de filosofias semelhantes à Escola da Ponte, em Portugal. A questão é se o modelo se tornaria sustentável em escala maior, não apenas em universos pequenos.  

Isso já vem acontecendo em outras partes do mundo também. A Finlândia, cuja educação é considerada uma das melhores do mundo, mudou seu currículo mínimo para atender à nova demanda do mundo globalizado. A ideia é juntar as áreas de conhecimento, que seriam todas estudadas para a realização de projetos interdisciplinares, dando à criança maior autonomia para pesquisar e ênfase no trabalho em conjunto.

O adulto continua exercendo seu papel de autoridade nesse modelo, afinal não podemos negar que existe uma diferença hierárquica entre a criança e o adulto. O adulto precisa servir de referência à criança, orientá-la e ajudá-la a construir o conhecimento. O saber do adulto adquirido ao longo de sua vida é o que dá base para a sua autoridade.

Nossas crianças, as crianças do século 21, já nasceram dentro dos novos paradigmas; ou seja, são crianças com ferramentas digitais, mergulhadas no  mundo virtual da internet. Como fica a criatividade  e o brincar, temas tão caros para psicanalistas e educadores, em termos de construção da identidade dentro dessa nova realidade?

Para nos auxiliar nessa resposta, temos o documentário “Território do Brincar” (atualmente no circuito comercial) que faz uma pesquisa  com crianças de todo o Brasil sobre o brincar. O que essa pesquisa nos mostra é que há preservação de muitas brincadeiras  e que elas são as mesmas tanto para as crianças de “condomínio” das regiões sul e sudeste, como para as crianças do nordeste.
É surpreendente a criatividade das crianças, a preservação do imaginário e a grande habilidade motora. Essa pesquisa nos aponta que a criação, o imaginário, e a liberdade continuam sendo fundamentais na construção da identidade e do humano.
Parece que nossas crianças conseguem se movimentar tanto pelo mundo virtual como nas brincadeiras mais tradicionais que nos são familiares. A utilização das novas tecnologias representa avanços e resultados de desenvolvimento. Porém o excesso no uso ou o risco de uma substituição do real pelo virtual é que podem acarretar prejuízos na construção da identidade.

A existência de um universo virtual exerce que tipo de influência na construção e desenvolvimento de alguns aspectos da identidade? (ex.: ser popular na redes sociais pode contribuir para uma boa autoestima, ou vice-versa). 

O nosso futuro é a utilização cada vez maior do universo virtual. Sob esta perspectiva as crianças e os adolescentes, durante a formação de suas identidades, certamente são influenciados pelas experiências nas redes sociais. Ser aceito ou não como “amigo” no Facebook, receber muitos “likes” ou não receber a quantidade que esperava, sofrer algum tipo de bulling na internet, obter um sucesso meteórico porém fugaz são algumas das situações vividas no mundo virtual e que por vezes escapam ao controle dos jovens. A entrada neste universo volátil e surpreendente precisa ser acompanhada e compartilhada presencialmente por alguém do universo afetivo da criança, que possa orientá-la e educá-la para usar esta ferramenta.

A criança internaliza figuras ao longo de seu desenvolvimento com as quais se identificará.  É importante que sejam verdadeiras e reais e não espetaculares ou idealizadas como é comum encontrarmos no mundo virtual. Estas últimas certamente vão desapontar e frustrar oferecendo elementos não reais mas falseados e enganadores e que se apresentam como modelos impossíveis de serem atingidos..

O tempo de permanência que a criança fica conectada, a qualidade e natureza do material que ela acessa, a potência que os jogos imprimem no passar de fases, preparam a criança para enfrentar um opositor presencialmente?

Temos um instrumento muito poderoso, ferramenta útil, mas que deve ser usado com sabedoria.

A maior complexidade do mundo atual exige de nós mais recursos, do ponto de vista emocional? Ou é apenas uma questão de serem diferentes e outros recursos?

O mundo atual nos pede rapidez nas respostas, eficiência, performance. Com isso as pessoas tendem a agir de modo imediato, sem pensar, para dar conta da pressão. Sim, precisamos desenvolver mais recursos para lidar com tudo isso, para não nos vermos compelidos a agir de forma impensada só para responder às demandas que nos atropelam e pedem por respostas imediatas. Precisamos desenvolver ainda mais uma atitude reflexiva, poder nos dar um tempo para pensar melhor em cada situação de modo a poder ter respostas mais eficientes para aquele momento, mas que também sirvam para o longo prazo. Não precisamos de outros recursos, precisamos de um acervo maior de conhecimento para lidar com as novas situações a que somos expostos.

 

 

 

DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E TECNOLOGIA

Atualmente, com os enormes avanços da tecnologia, as crianças estão cada vez mais expostas a aparelhos eletrônicos como smartphones, tablets, computadores e jogos em geral. Essa realidade – que é inerente ao nosso contexto histórico e cultural – afeta sensivelmente o seu desenvolvimento cognitivo e emocional e o seu debate mostra-se fundamental para reduzir alguns possíveis efeitos colaterais. Sobre o assunto, vale conferir a entrevista abaixo, com a psicanalista Maria Aparecida Quesado Nicoletti*.

1) As crianças são expostas, cada vez mais cedo, a smartphones, iPads, computadores, jogos eletrônicos etc. De que forma isso afeta o desenvolvimento tanto cognitivo quanto emocional?
Depende muito da etapa da infância que se examina. Pela construção da pergunta entendo que a questão se refere a crianças que estão na faixa etária pré-escolar e no início do período de escolarização fundamental.

Nessa etapa do desenvolvimento, por volta dos quatro ou cinco anos, talvez o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança já deixou para trás os estágios primários da formação de sua psique. Seu corpo e sua mente estão ávidos por experiências novas e isso faz com que a criança incorpore rapidamente a linguagem corrente, nomes e atividades motoras variadas. Em geral, se lhe for dado a escolher o que fazer, as escolhas recairão sobre atividades prazerosas, sejam elas participar de jogos nos quais têm que fazer esforços físicos, seja interagir com computadores ou usar as mãos para manusear objetos.

Começam aqui algumas das dúvidas sobre o impacto que instrumentos e brinquedos computadorizados terão sobre o desenvolvimento infantil. Nota-se, em diversos espaços de comunicação, a existência de opiniões a favor e contra a exposição das crianças dessa faixa etária aos computadores.

Do ponto de vista da psicanálise, que busca o desenvolvimento saudável e harmonioso das crianças contemporâneas, inseridas em seu contexto de vida, a exposição aos computadores e às novas formas de vivenciar e de aprender o que tais instrumentos trazem consigo constitui movimento adequado para o desenvolvimento cognitivo e emocional infantil, sendo pouco provável que tais atividades tenham impactos negativos, a menos que entre em cena o excesso.
Em resumo, a interação da criança com os computadores faz parte da cultura de nossa época e como tal, não deve ser evitada. Sua influência só será ruim quando houver excesso ou deslocamento de intenção, quando o computador é oferecido de maneira contínua, para mudar o comportamento imediato da criança, como ocorre quando se quer que ela concentre sua atenção no jogo, enquanto seu comportamento está “dizendo” que ela precisa de interação com seus pais ou professores.

2) Qual o papel dos pais na imposição de limites ou no incentivo do aprendizado do uso de aparelhos tecnológicos?

A informática traz oportunidades de comunicação e de interação social que nunca foram experimentadas pelo Homem e, por isso mesmo, ainda não sabemos como lidar com isso. Certamente, não será impondo limites sem fornecer razões que a criança possa aceitar, ou incentivando a criança a usar computadores para aprender sem cuidar que a aprendizagem se dê a partir de uma base apropriada de compreensão, que os pais exercerão as melhores de suas influências. Em linhas gerais, pode-se aconselhar os pais a criarem espaços de participação das crianças no modo de vida da família, oferecendo oportunidades para que as mesmas usem não apenas computadores, mas brinquedos físicos, ouçam a leitura de livros, participem de jogos que exijam atividade física, evitando a rigidez da imposição. Acredito que a “chave do sucesso” para limite/incentivo seja a moderação do uso da tecnologia nessa fase de desenvolvimento precoce.

3) Em que medida o uso de computadores, iPads etc. pode afetar a socialização das crianças?

A socialização das crianças depende de um conjunto de circunstâncias de natureza cultural, que incluem as origens da família, sua situação socioeconômica, suas crenças e práticas religiosas, bem como a qualidade dos vínculos familiares. Computadores, em geral, não têm o poder de influenciar o processo de socialização, salvo onde ocorram falhas relacionadas com uma das dimensões acima citadas como, por exemplo, quando a família descuida da socialização da criança, não lhe oferecendo as vivências necessárias para seu desenvolvimento pleno.

4) Como a tecnologia pode estar sendo usada para facilitar o processo educacional ou mesmo suplantá-lo? (Por exemplo, em um restaurante, ao invés de ensinar algum comportamento, os pais dão um iPad na mão da criança para ela “não incomodar”).

Em uma determinada época, a família “terceirizou” a educação dos filhos para a escola, que, além da responsabilidade do ensino formal, passou a substituir a tarefa de exercer também a “paternidade”. No momento, será que vemos a “terceirização” para os aparelhos eletrônicos? Nota-se que muitos pais parecem estar abdicando da importante tarefa de educar, porque educação requer trabalho. Será que essas crianças se sentirão atendidas com amor ou sentir-se-ão abandonadas, por não encontrar espaço para interagir com seus genitores? O excesso do uso de aparelhos eletrônicos também pode ser observado em adultos. É comum ouvir queixas de adultos reclamando que o cônjuge não deixa o Ipad de lado e que, por isso é difícil conversar.

*Maria Aparecida Quesado Nicoletti é psicanalista e membro da SBPSP.

Vida escolar, crescimento e constituição da subjetividade

A educação dos filhos é um processo complexo e não há fórmulas preconcebidas que ditam um suposto caminho “certo”. Apesar disso, há questões e aspectos sobre os quais podemos e devemos refletir quando testemunhamos – no papel de pais ou de analistas – o desenvolvimento emocional e físico das crianças.
No artigo abaixo, a psicanalista Alicia Lisondo faz exatamente isso, abordando com profundidade o momento de ingresso das crianças numa instituição escolar e os principais fatores implicados nesse processo.

O filho na escola: quando iniciar a inclusão da criança numa instituição escolar? Por que tomar esta decisão? Está na hora?

Por Alicia Beatriz Dorado de Lisondo*

Nossa ciência-arte, a psicanálise, estuda a singularidade do processo de constituição da subjetividade de um ser humano, num ambiente específico e único. O bebê humano não nasce maduro, pelo contrário, muito vulnerável, com potencialidades a realizar graças às funções parentais. Minha intenção não é dar respostas normativas, contrárias ao espírito da psicanálise, mas sim ajudar a pensar.

A creche e/ou escola é uma instituição com cultura e normas próprias. Um espaço diferente do lar. Mas para que a criança vivencie uma certa continuidade entre a família e a escola, os pais podem escolher um lugar em sintonia com seus valores, com sua postura ante o mundo, com condições reais de arcar com a distância geográfica e os custos econômicos, tendo em conta o bom senso. O que seria melhor para esta criança, neste momento de sua vida, com estes pais, nesta família? Qualquer decisão implica enfrentar riscos, lutos por aquilo que não foi escolhido, turbulência diante do novo e do desconhecido.

A instituição escolar precisa ser coerente com seus princípios formativos e pedagógicos. Eles não podem ser palavras vazias, protocolares e sim palavras encarnadas no dia a dia, plenas de sentido. Não ceder às pressões dos pais e da sociedade neste mundo pós-moderno não é tarefa fácil quando, às vezes, a infância é sacrificada e a adolescência sufocada. A aprovação no vestibular, por exemplo, pode tornar-se a única meta a alcançar, limitando atividades artísticas, sociais, esportivas, políticas, procura de eficiência competitiva e um lugar no mercado de trabalho.

CRECHES E ESCOLAS MATERNAIS

Para se desenvolver, o bebê precisa que as funções parentais possam lhe oferecer, por meio de um vínculo real e mental, uma experiência de segurança básica, de continuidade entre a vida pré-natal e pós-natal, um ritmo estável, uma estimulação adequada. Essas funções como “pais suficientemente bons”, no dizer de Winnicott, surgem espontaneamente, tendo a intuição como bússola privilegiada. Os pais modulam as terríveis ansiedades do bebê e são catalizadores semânticos para dar significação às expressões corporais, gestuais e sensoriais do filho por meio da linguagem pré-verbal. Se quando surge o laleio: “Ah!Ah!Ah”, este é escutado e interpretado pelos pais como MAMÃE, PAPAI ou PAPAR, a comunicação não cai no vazio.

Numa profunda relação misteriosa e inconsciente, assim, o bebê constrói seu SER, apropria-se da linguagem, dos valores e ideais da cultura apresentados pelos pais. Realiza as potencialidades presentes no seu repertório tecendo, com os fios do reconhecimento e da valorização do ambiente que festeja cada conquista, a autoestima.

O chute na bola de um toquinho de gente pode ser celebrado como o gol do ídolo. E diante da festa, o filho repete a façanha, uma e outra vez. Também pode aprender, muito além do exercício motor necessário para permitir experimentar distâncias e forças no espaço, a perder, a tolerar frustrações, a esperar a vez de uma próxima tentativa; a potência masculina está presente no acerto festejado e na perda suportada. A criança ganha confiança e segurança no exercício de suas reais possibilidades e o primeiro ano de vida é fundamental para construir os alicerces da personalidade.

A criança pequena precisa construir temporalidade e espacialidade. Então ela não percebe, não realiza a duração do período escolar. Seu frágil psiquismo não pode imaginar o retorno dos pais antes da possibilidade de simbolizar, há como que um desaparecimento dos seres conhecidos, um “nunca mais”, porque não há reversibilidade entre idas e voltas, partidas e chegadas, encontros e despedidas. Quando em sofrimento, um minuto pode ser eterno.

Quando a criança não tem as figuras primordiais introjetadas na sua mente e não pode simbolizar, ou seja, re-criar a presença dessas figuras quando ausentes, a separação dos pais pode ser vivida como um esfacelamento, uma queda sem fim no abismo infernal, uma aniquilação ou fragmentação do ser. A imagem da criança agarrada, colada ao corpo dos cuidadores em desespero evidencia essas agonias primitivas. Diferente da criança capaz de dizer tchau e se despedir, se separar, que segura um objeto acompanhante, “transicional”, que lhe ajuda a realizar a passagem entre o conhecido mundo familiar e o estranho mundo escolar.

Não menos preocupante é a criança que aparenta indiferença, apatia, desinteresse nos contatos humanos, porque se refugia em barreiras de diversas espessuras, fronteiras dos refúgios, como ocorre quando há estados autistas, de gravidade muito variada, em curso.

O bebê bem dotado tem radares para perceber os estados mentais inconscientes das pessoas próximas. Para garantir AMOR pode vir a se sobre-adaptar aos valores e ideais parentais impostos, numa submissão que pode aplastar desejos e manifestações do verdadeiro self. Exemplo em sala de análise: uma menina de 2 anos e 7 meses, hipotônica pela privação da exercitação do corpo no espaço (rastejar, engatinhar, explorar o ambiente, manusear objetos, brincar de jogar objetos de certa altura e ou a certa distância, etc.); quando a mãe a deixou no chão ante minha interpretação, ela olhava para a mãe e logo me olhava como que pedindo permissão para cada movimento que ousava realizar, timidamente. Pensei que minha paciente inibia a exploração motora do novo ambiente para obedecer a normas implícitas que proibiam o movimento, a fim de evitar TODOS os perigos e a ameaça de uma nova convulsão. Só que assim agindo, os pais, inconscientemente, freavam seu crescimento. Além das questões neurológicas, a convulsão era uma explosão da excitação que ela não tinha podido metabolizar.

Adaptação e sobre-adaptação são estados mentais diferentes. O primeiro pode indicar que a criança é capaz de assimilar o NOVO, aprender com as novas experiências, ampliar o mundo com as relações com outras crianças e professores.

Já na sobre-adaptação, no interjogo entre o nível de exigência imposto pelos pais e a qualidade da personalidade em formação, há uma obediência submissa, que deforma ao aplastar o SER. A criança se adapta ou silencia as emoções por que está sobre-adaptada? A criança quando chora, protesta, esperneia diante de cada separação, ou adoece repetidamente, estaria expressando a imaturidade para ingressar/e ou continuar numa escolinha maternal-creche? São conciliáveis: expectativas, exigências, desejos, obrigações, realizações, sonhos da mãe (laborais, profissionais, econômicos, pessoais) com os cuidados psíquicos de um filho na primeira infância? Como?

QUESTÕES PARA PENSAR:
– Quanto menor é a criança, mais ela precisa da convivência num ambiente que propicie o desenvolvimento da personalidade, através das funções parentais maduras.

– Quando necessário, apelar a uma instituição é importante, mesmo que seja por períodos os mais breves possíveis. Quais os critérios para buscar essa instituição escolar?

– No lar é aconselhável que os pais entrem em contato emocional com o filho oferecendo uma atenção qualificada para, espontaneamente, brincar, desenhar, pintar, cantar, dançar, conversar, colocar limites, num vínculo verdadeiro que contemple o amor, o ódio, a ternura, o sofrimento, a alegria. Limitar o uso de TV e aparelhos eletrônicos é necessário para privilegiar os contatos humanos.

– Os pais, como seres humanos, fazem o possível e não podem exigir para si próprios, a perfeição. A culpa é uma má companhia. A superproteção, a pretensão de evitar sofrimentos necessários para o filho, as falsas compensações, as seduções e as chantagens não ajudam a crescer.

– Há sinais que podem revelar o mal-estar psíquico de um filho: doenças frequentes do psicossoma, alteração dos ritmos fisiológicos (sono, alimentação, controle esfincteriano): apatia, tristeza, desinteresse, dificuldades ou recusa nos contatos humanos; exigência de ficar aderido, colado nos cuidadores; terrores noturnos; ataques de pânico ou de raiva prolongados e frequentes sem motivo aparente; impossibilidade de aceitar limites e frustrações dosadas; graves fobias; transtornos no desenvolvimento etc. Então que fazer além de observar, sofrer, insistir?

– Diante da consciência desse mal-estar é oportuno consultar um psicanalista de crianças e adolescentes para investigar a situação. O tempo não resolve perturbações mentais. O tempo pode potencializar fatores patogênicos.

Uma avaliação psicanalítica levantará hipóteses diagnósticas sobre a criança e seus vínculos, convocando os pais a pensarem sobre as transformações necessárias na personalidade do paciente e na família.
Na criança pequena as mudanças podem ser assombrosas pela força de vida do protagonista da consulta. E mais: as configurações que perturbam o desenvolvimento emocional podem não estar cristalizadas. O psicanalista tem a chance de entrar em cena antes das consequências perigosas da cronicidade do quadro.

*Alicia Beatriz Dorado de Lisondo é psicanalista e membro da SBPSP

“O FINAL DA NOSSA EXPLORAÇÃO É CHEGAR ONDE
INICIAMOS E CONHECER O LUGAR PELA PRIMEIRA VEZ”

T.S. ELIOT.

Pequenos tiranos

Nas férias, o convívio com as crianças é mais intenso. Muitas vezes, não é fácil estabelecer limites, impor restrições e dizer “não”. Mas isso, ao contrário do que muitos pais imaginam, é bem mais importante do que parece, tanto para a educação como para o desenvolvimento emocional da criança. Sobre o tema, vale a leitura do texto abaixo, da psicanalista e membro da SBPSP, Marion Minerbo.

Pequenos tiranos

Por Marion Minerbo*

Todos conhecemos crianças que, desde cedo, já são pequenos tiranos. Quando contrariadas, explodem em crises de birra, deixando os pais perplexos e irritados. Estes tentam colocar limites, castigam, perdem a paciência e acabam batendo de frente, num verdadeiro braço de ferro com os pequenos. Exaustos, acabam se submetendo à tirania. Ou, com medo de perder o amor dos filhos, fazem tudo o que eles querem.

Essas atitudes acabam alimentando um círculo vicioso: a criança vai se tornando cada vez mais insuportável e incontrolável. Os pais, com razão, passam a sentir ódio da criança, que, obviamente, percebe e fica aterrorizada. Já não há prazer numa convivência em que todos sofrem. A criança se torna destrutiva e para de brincar, o que indica comprometimento grave no seu desenvolvimento emocional.

É preciso reconhecer que as detestáveis crises de birra são expressões de ódio – o qual, por sua vez, indica claramente a presença de sofrimento psíquico. Sim, mesmo crianças que, aparentemente, “têm de tudo”, podem estar sofrendo. Percebe-se que a palavra “birra” é péssima, porque nos induz a pensar em algum “defeito de caráter” (a criança é birrenta, mimada, má, tem personalidade forte), eximindo o adulto de se questionar de que forma ele pode estar contribuindo, inconscientemente, para gerar o sofrimento que se expressa através das crises de ódio.

A maior razão para o sofrimento psíquico da criança é a impossibilidade de estabelecer uma comunicação emocional profunda com o adulto significativo. Desde que nasce, a criança envia mensagens indicando necessidades emocionais básicas que precisam ser decodificadas e atendidas. Quando o adulto não decodifica, ou quando, em função de suas próprias questões inconscientes, interpreta a mensagem de maneira equivocada, dará respostas inadequadas a essas necessidades.

Ao receber respostas sistematicamente inadequadas, a criança sofre duas vezes: uma, porque aquela necessidade emocional não foi atendida; duas, porque se sente sozinho e abandonado, mesmo na presença do adulto. Há um pesadelo típico que mostra como a impossibilidade de se comunicar com outro ser humano é desesperadora: tentamos pedir ajuda a alguém que está ali perto, mas nossa voz não sai.

A interpretação suficientemente sintônica da mensagem da criança depende da capacidade de empatia dos pais. É preciso que eles consigam se colocar na pele da criança para tentar imaginar como é o mundo visto por ela. Precisam ser capazes de acessar a criança que eles foram, para traduzir o que ela está tentando lhes comunicar – às vezes de maneira muito torta, quase incompreensível. Infelizmente, ainda não há um google translator para nos ajudar a traduzir língua de criança em língua de adulto, e vice-versa.

*Marion Minerbo é psiquiatra, psicanalista e membro da SBPSP.

Decepções dos pais em relação aos filhos: ajustando expectativas

O processo de criação e educação dos filhos envolve expectativas e idealizações por parte dos pais que, na maior parte das vezes, não se concretizam ao longo do tempo. Como lidar com isso? Como enfrentar as decepções inerentes à constatação de que nossos filhos não são *exatamente* aquilo que sonhamos ou que planejamos para eles? Sobre o tema, confira o artigo abaixo, da psicanalista e membro da SBPSP, Gina Khafif Levinzon.

Decepções dos pais em relação aos filhos: ajustando expectativas

Por Gina Khafif Levinzon*

Segundo Freud, encontramos na atitude dos pais afetuosos em relação aos filhos uma revivescência do seu próprio narcisismo, ou seja, do amor por si mesmo. Os pais lhes atribuem todas as perfeições, e esperam que satisfaçam seus desejos e sonhos não realizados: os filhos não passarão pelas mesmas dificuldades pelas quais eles próprios passaram. Serão o “centro e o âmago da criação, Sua Majestade o Bebê ”, como os pais se imaginavam quando muito pequenos. A própria imortalidade é alcançada por meio dos filhos, já que são sentidos como os continuadores do legado dos pais.

Diante disso podemos compreender, em parte, os motivos para os sentimentos de decepção em relação ao filho. Projetam-se nele expectativas que correspondem a projetos pessoais dos pais e que muitas vezes não levam em conta a especificidade própria da criança ou do jovem. Mesmo que o filho tente se encaixar, muitas vezes isso foge ao seu alcance.

Os pais querem acreditar que depende apenas deles o destino de seus filhos: se os educarem “de modo correto”, eles serão os adultos que idealizaram. Tal fantasia faz parte do vértice narcisista em que se olha a si mesmo como o centro de tudo o que ocorre no mundo. A realidade mostra, no entanto, que não há filhos perfeitos e nem pais perfeitos. Muitos são os fatores que determinam a personalidade de uma criança. Os filhos decepcionarão os pais, em maior ou menor grau, ao longo de seu desenvolvimento. Os pais cometerão erros que podem ser sentidos como inócuos ou até ser considerados desastrosos pelos filhos em algum momento de sua história.

Muitas dificuldades que os pais tiveram quando crianças são reeditadas na relação com o filho. A forma com a qual lidam com essas dificuldades, normalmente num plano inconsciente, pode levar o filho aos comportamentos que mais reprovam. A transferência excessiva de suas próprias angústias e expectativas representa para o filho um peso excessivo, maior do que ele consegue suportar, com grande probabilidade de turbulências e decepção, especialmente no período da adolescência. Nesses casos os pais necessitam de ajuda psicológica para que possam encarar sua vida própria sem designar outro para este fim.

Pais que superprotegem os filhos não permitem que eles tenham o espaço necessário de aprendizado e de erro para lidar consigo mesmos e com o mundo de forma equilibrada. Como consequência os filhos crescem fragilizados e despreparados para enfrentar a vida real.

Encontramos hoje em dia crianças com uma agenda de atividades tão cheia que se equipara a de um adulto e mal têm tempo para brincar livremente. Por trás estão os pais, desejosos de que seus filhos sejam muito inteligentes, excelentes esportistas… na realidade eles têm a missão de estimular a autoestima e corresponder aos anseios de admiração dos próprios pais

Caminhos possíveis

Como evitar, prevenir ou lidar com as decepções em relação à prole? É necessário compreender o que se passa com o filho e consigo mesmo. Quando um comportamento tem um significado podemos inseri-lo em um contexto, refletir a respeito e encontrar as melhores formas de solucioná-lo.

Colocar-se no lugar do filho se revela extremamente útil. Como se sente aquela pessoa? Como era você na idade dela? Sair de si mesmo e olhar pelo ângulo do outro fornece um campo de visão valioso para se lidar com as diferenças.

Criar filhos representa um desafio à capacidade dos pais de se confrontar com o imprevisto que é trazido pela existência singular do outro. Exige flexibilidade, capacidade de elaborar os lutos de suas próprias expectativas depositadas neles e a possibilidade de aprender com a experiência.

O sentimento de existir como uma pessoa própria, singular, representa a base de uma vida feliz. Sonhamos com o que serão nossos filhos, e desta forma investimos neles um olhar essencial, mas é importante que consideremos que nossos sonhos serão substituídos pela realidade possível. Por outro lado, sabemos que nossas sementes frutificarão, em alguma medida, e que isso perpetua o ciclo interminável da vida…

Referências bibliográficas
Freud, S. (1914) – Sobre o narcisismo: uma introdução. In: Obras completas.V. 14. Rio de Janeiro: Imago, 1980.

*Gina Khafif Levinzon é psicanalista e membro da SBPSP

Querer não é poder

Qual é a importância de sabermos impor limites às crianças? Por que é tão difícil e, ao mesmo tempo, tão fundamental que possamos dizer “não”? Em que medida a experiência do “não” e a frustração são constitutivas e contribuem para o desenvolvimento emocional das crianças?
São essas as questões que norteiam o interessante artigo abaixo, da psicanalista e membro da SBPSP, Jassanan Amoroso Dias Pastore.

Por Jassanan Amoroso Dias Pastore*

Querer não é poder

Frustrar uma criança é impor-lhe limites, é dizer-lhe “não”, palavra que ninguém gosta de ouvir. A palavra “não” coloca um limite. Nós não podemos e nem devemos atender a todos os pedidos da criança porque os desejos têm uma medida muito maior do que a razão; nós queremos muito mais do que podemos. Mas sabemos o quanto é difícil para muitos pais exercerem a função de mostrar para a criança que querer não é poder.

Desde muito cedo o bebê escuta a palavra “não”, já que os pais querem protegê-lo de perigos dizendo “não pode”, “não pode mexer nisso”, “não pode comer aquilo”. Mas falar “não” para a criança é hoje uma situação que pode deixar os pais, avós e professores confusos e perdidos, pois eles costumam ouvir dois pontos de vista diferentes: de um lado, ouvem que não devem falar “não” para a criança, porque a traumatizariam e inibiriam seu desenvolvimento; de outro, ouvem que falar “não” para a criança é necessário para prepará-la para a dura realidade da vida, para discipliná-la e ajudá-la a se organizar e a amadurecer.

Na realidade, ambas as situações são fundamentais. É preciso tanto falar “não” como também dizer “sim”. Se evitarmos dizer “não” podemos nos sentir explorados e abusados pelo outro, e o outro não adquire a noção das limitações de cada pessoa.

Além disso, a criança só adquire o conhecimento do significado do “sim” se ela vive a experiência da negativa. Isso se dá, por exemplo, quando muito cedo na vida o bebê quer mamar e a mãe demora um pouco para atendê-lo. O bebê, então, não só ouve o “não” como vive a experiência da ausência, tem a sensação do “não”. Daí a criança vai aprendendo que não pode ter tudo o que deseja e na hora que deseja. Junto com essa experiência vai surgindo também a noção de que ela deseja algo.

Com o passar do tempo, a criança começa a ouvir o “não” dirigido às suas condutas, como “não pode fazer xixi no chão”, “não pode bater no irmãozinho”, etc. Embora desde cedo estejamos convivendo com as restrições, é muito difícil para as pessoas aceitar os limites. E muitas passam a vida inteira se rebelando contra eles, sonhando que podem eliminar os “nãos” da vida para daí se tornarem livres.

Mas, existem os limites em relação a nós mesmos: “não sei”, “não consigo”, “não tenho”, “não posso”. E, ainda, os limites das diversas pessoas com quem nos relacionamos: ele “não sabe”, ele “não está”, ele “não pode”. Além disso tudo, temos também os limites impostos pela lei e os da espécie humana. E, ainda mais, é preciso aguentar receber uma negativa, uma frustração, para daí ser capaz de dizê-la para o outro. Vejam o mar de limites com que nos defrontamos para viver. É desde pequeno que aceitamos, a duras penas, esses limites. É imprescindível que se aprenda a lidar com eles, porque não há possibilidade de evitá-los, o viver junto exige limites.

Observamos, com muita frequência, que as crianças não suportam ouvir “não” e reagem fazendo birra, esperneando, jogando-se no chão, enfim fazendo um carnaval. Em geral, para abafar o escândalo, os pais acabam por ceder, embora contrariados. E a criança vai criando a ideia não só de que sua agressividade tem muito poder, como também de que sendo agressiva ela pode conseguir o que deseja. Então surge o medo daquilo do que ela é capaz com sua agressividade, pois uma coisa é imaginar algo e outra é acontecer de fato. Portanto, sempre que possível, não deem muita importância para os acessos de fúria de seus filhos quando frustrados.

Muitos pais acham que é maldade um bebê ser submetido, tão precocemente, à experiência da frustração. Ao contrário: ela é inevitável e fundamental para o desenvolvimento de qualquer pessoa. É a partir da frustração, da ausência daquilo que o bebê quer que ele desenvolverá suas capacidades, como tentar substituir aquilo que ele não conseguiu por outra coisa, como imaginar a mãe, começar a pensar, aprender a berrar, reclamar, falar.

A criança pequena tem a ilusão de que é toda poderosa, o centro do mundo, e que tudo acontece por causa dela, que basta ela pensar para que aconteça. Com o passar do tempo ela vai percebendo que as coisas não são bem assim e que ela não é tão poderosa, não consegue tudo o que deseja e não é dona do mundo nem de ninguém. Enfim, ela vai conhecendo seus próprios limites e os dos outros, e entendendo que cada pessoa existe separada do outro e os outros vivem independentemente dela.

Se, por um lado, o “não” é uma espécie de estraga prazer, ele é também uma proteção e proporciona um sentimento de segurança. Uma criança dificilmente teria um desenvolvimento emocional e intelectual sem ter sofrido a presença do “não”, pois ela não conseguiria aprender a pensar e a falar.

*Jassanan Amoroso Dias Pastore é psicanalista e membro da SBPSP.

Psicanálise e Educação: construção de conhecimento, subjetividade e performance

Qual as interfaces entre Psicanálise e Educação? Em que pontos elas se encontram? Como permitir que a realidade de fantasias da criança não se perca diante da necessidade de aquisição de conhecimento científico? A lógica racional é incompatível com o universo da imaginação infantil?

De perspectivas diferentes, a Educação e a Psicanálise se ocupam do desenvolvimento humano e o diálogo entre as duas áreas tem se mostrado cada vez mais profícuo. A construção do conhecimento e a constituição subjetiva são processos que se comunicam, ao longo do crescimento. Daí a importância de refletirmos sobre essa interface.

Essas e outras questões serão debatidas na 4ª Jornada de Psicanálise e Educação, no dia de 27 de setembro, na sede da SBPSP.

Para quem quiser saber mais, leia abaixo a ótima conversa que tivemos com as psicanalistas e membros da SBPSP, Heloisa Ditolvo, Marina Bilenky e Silvia Deroualle, coordenadoras da Jornada.

1 – Por que uma jornada que reúne os temas psicanálise e educação?

A psicanálise e a educação são áreas de estudo que abordam questões que possuem intersecções. Ambas se interessam pelo desenvolvimento humano, partem de diferentes  perspectivas, porém dialogam muito bem, por entenderem a necessidade de se cuidar e de se criar condições favoráveis para que este desenvolvimento aconteça.

2 – Quais as principais interfaces entre ambas?

A escola está ocupada com a construção do conhecimento, formação da cidadania e da ética, de um ser social e criativo. A escola funciona como mecanismo de transmissão da cultura.

A psicanálise vai criar um campo de busca de conhecimento do sujeito, de suas demandas pessoais. Para isto, precisa pensar o indivíduo dentro de sua realidade, interna, e da realidade social, externa, para que possa instrumentalizar esse indivíduo portador dessa cultura, a ser reflexivo, crítico, pleno de suas potências, criativo.

Partindo de direções opostas, ambas procuram entender e trabalhar com o ser humano que vive dentro de uma cultura que lhe é própria.

3 – Do ponto de vista da psicanálise, como se dá a construção do conhecimento?

Diante de uma novidade, o sujeito passa por um processo de desestabilização. A partir desse desequilíbrio, ele precisará elaborar a nova informação, integrá-la ao conhecimento que já havia adquirido, atingindo uma nova estabilização, agora transformada e enriquecida.
Para que esse processo ocorra, o sujeito, num primeiro momento, precisa suportar manter-se num estado de não saber para, em seguida, encontrar um sentido e um lugar para este novo conteúdo, que passa a fazer parte do conjunto de conhecimentos que ele possui.
As informações recebidas precisam vir acompanhadas de significado para quem as recebe, e a partir daí se vinculam afetivamente ao sujeito. Esse patrimônio vai sendo constituído a partir de permanentes rupturas dos antigos saberes.

4 – Como ensinar uma criança a pensar, do ponto de vista da lógica racional, sem que ela perca aquilo que é da ordem da imaginação e do sonho?

Até mais ou menos 7 anos, a criança vive num mundo de fantasias. É a partir de sua imaginação, sonhos, brincadeiras e projetos que ela experimenta o mundo e vai construindo a realidade. O adulto deve aceitar o funcionamento da criança, partir da lógica que existe na fantasia para ensinar a lógica racional. Ao invés de dizer que algo é “besteira” ou errado, tentar compreender qual a lógica que norteou aquela resposta, para então apresentar outras possibilidades.

Por exemplo: uma criança, ao executar sua tarefa de escola em que lhe foi pedido desenhar 3 frutas diferentes na tigela, desenha 7 frutas.  A professora pode garantir o conhecimento aritmético de unidades, e também descobrir junto com seu aluno qual o sentido das outras 4 frutas que ele espontaneamente acrescentou à tarefa pedida. Dessa maneira, pode perceber se há ou não alguma outra lógica na resposta da criança, sem a necessidade de taxar a resposta de errada sem investigação.

5 – É possível conciliar o pensamento infantil com o conhecimento científico?

Quando Isaac Newton descobriu como a refração da luz branca solar incidindo na  atmosfera úmida provoca o arco-íris, não retirou a surpresa e o encanto que nos provoca a visão das cores que se descortinam diante de nossos olhos. Nem tampouco desfez  a fantasia de que o arco-íris ao tocar o chão, indica o local exato de onde se encontra um baú repleto de tesouros.

6 – Como evitar “enquadrar” o pensamento infantil e perder suas melhores qualidades?

Evitando dar  regras que formatem o curso do pensamento e taxar de erradas respostas que não se enquadram ao modelo de forma imediata.

Meltzer, psicanalista, afirma que nossa mente tem a função de gerar metáforas para podermos escrever a poesia e pintar o quadro de um mundo repleto de significados das nossas paixões relacionadas às belezas do mundo.
Essas metáforas são essenciais para o pensamento, são a expressão do desenvolvimento do simbólico, das associações, matéria prima para o aumento da capacidade de elaboração e consequente compreensão do mundo.

7 – Como manter e até incentivar a narrativa infantil e conciliá-la com a necessidade do discurso científico?

Garantindo situações que favoreçam a liberdade de perguntar, de exercer a curiosidade. É essencial sermos sujeitos da nossa experiência. Há que se garantir o projeto, a experimentação, o engano, a dúvida, o erro e a reparação, para podermos nos lançar em outras experiências. Quando somos autorizados a expressar ideias e a refletir, quando sentimos que nosso pensamento tem valor, continuamos formulando novas perguntas e demonstrando interesse em aprender novas formas de pensamento, inclusive o discurso científico.

A arte, o sonho e a fantasia são elementos que enriquecem a concepção do humano, ilumina e dá valiosas contribuições no sentido de suportarmos o impacto do cotidiano da vida. Quando isto está minimamente garantido, o indivíduo tem condições intelectuais e emocionais de lançar-se na aventura do conhecimento científico.

8 – Como conciliar a construção adequada de conhecimento com as necessidades do mundo atual, que exige, de todos, altas performances?

Será que podemos conciliar estas realidades? A exigência de eficiência a toda prova vai na contramão da construção de conhecimento tal como viemos tratando até aqui. A velocidade dos acontecimentos, a demanda por absorver inúmeras e tão variadas informações, objetivo praticamente impossível de ser cumprido, nos coloca num estado de insatisfação crônica que nos leva ao sentimento de estarmos permanentemente devendo ou de sermos insuficientes.

Nossa natureza carece de tempo e espaço para sentirmos, pensarmos, e refletirmos para compreendermos o que se passa dentro e fora de cada um de nós.

Talvez a saída para esse impasse seja uma reflexão profunda a respeito de  qual aspecto deve ser priorizado em cada etapa do processo educacional.

9 – O que dizer do alto índice de medicalização que existe entre as crianças e os jovens atualmente?

A medicalização precisa ser entendida como uma ferramenta auxiliar e não como a solução de todos os problemas e dificuldades que precisam ser enfrentados.

Em recente pesquisa constatou-se que, nos últimos 3 anos, houve um aumento de 775% no uso de Ritalina para crianças  e adolescentes em São Paulo. Precisamos analisar estes números para pensar se estamos nos defrontando com uma atitude de banalização da medicação ou se isso se deve à melhoria nos diagnósticos do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Esta é uma das perguntas que esperamos poder responder durante a Jornada.

Heloisa Helena Sitrângulo Ditolvo é psicanalista e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)

Marina Kon Bilenky é psicanalista e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) 

Silvia Martinelli Deroualle é psicanalista e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)