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Drogas, solidão e confusões

A dependência química é uma das mais graves formas de adoecimento mental e seus efeitos, geralmente, se alastram para muito além do indivíduo que consome a droga. Trata-se de uma questão de saúde pública, que repercute nas diferentes esferas sociais. Recentemente, o jornalista britânico Johann Hari publicou um segundo trabalho acerca do tema, sugerindo novas hipóteses sobre o vício que, se corretas, transformariam toda a estratégia dos profissionais envolvidos no combate às drogas. O artigo abaixo, da psiquiatra e psicanalista Adriana Rotelli Resende Rapeli, faz uma breve análise sobre o estudo e as suposições de Hari. Para quem se interessa pelo tema, vale a leitura!

Drogas, solidão e confusões.  

Por Adriana Rotelli Resende Rapeli*

Um amigo pediu minha opinião sobre o livro “Chasing the Scream”, do jornalista britânico Johann Hari, tal como vinculado pelas redes sociais há algumas semanas. Veja matéria aqui.

Pelo que li na internet, o jornalista entende que há razões sociais e políticas para que as drogas tenham sido proibidas nos EUA, há aproximadamente 100 anos. Os argumentos do artigo se baseiam em entrevistas que ele fez ao redor do mundo com pessoas que foram ou eram dependentes químicos e em resultados de experiências com ratos de laboratório, que mostravam que estes consumiam menos a água que continha substâncias químicas se houvesse mais ratos e opções de atividades em suas gaiolas. Completa citando a diminuição do consumo de heroína quando os soldados que lutaram no Vietnã voltavam para casa. Conclui que a dependência química seria causada pela solidão, pelo estresse e pela falta de opções sociais. E que a guerra às drogas, portanto, estaria usando estratégias equivocadas.

Eu me dispus a refletir sobre o assunto, sabendo que corro o risco de, do mesmo modo que a informação descontextualizada da internet e com objetivos de propaganda, causar efeitos reducionistas e simplificadores.

Na geração atual ou em antecedentes, raro é que alguma família em nosso meio não sofra com problemas mentais, entre eles a dependência química. O discurso de culpa está presente em muitas das famílias de dependentes químicos que atendi. Culpa que sobrepõe à rejeição, mágoas e ressentimentos que o dependente químico provocou ao longo de décadas. As frustrações repetidas tanto em relações familiares quanto na sociedade provocam o pior de nós mesmos, e as reações muitas vezes são de vingança, raiva e crueldade. Há um impasse: ou não conseguimos cuidar e daí somos mal cuidadores, ou a pessoa é má e merece o mau tratamento. Oscilamos entre a culpa e a raiva e desenvolvemos defesas emocionais diante de sofrimento, como a negação.

A situação não é simples. Não dá para equiparar humanos a ratos de laboratório. Embora essas experiências ampliem o entendimento dos mecanismos de ação de drogas, não dá para equiparar humanos a ratos, não somos só pavlovianos. Há que se considerar questões de personalidade e questões psiquiátricas que, juntas, desencadeiam, se somam ou pioram o quadro. Há fóbicos e deprimidos que desenvolvem dependência do álcool. Assim como indivíduos com transtornos de personalidade antissocial podem desenvolver múltiplas dependências. São tantas as variáveis que não se pode restringir a questões sociais mesmo que elas sejam sim importantes fatores que agravam tais condições. A solidão pode ser causa, mas também consequência da dependência química.

Do ponto de vista mais psicodinâmico, mesmo na dependência do cigarro vemos uma condição emocional de regressão, baixa tolerância a frustração, dependência e passividade (ainda que travestidas de hiperatividade). Débil vitalidade, histórias pessoais com retalhos de vivências de perda parcamente elaboradas e um escasso sentido de individualidade estão entre as configurações emocionais que comumente encontramos nos dependentes químicos.

Os casos mais benignos respondem positivamente – como na experiência do ratinho da gaiola –, quando expostos a uma maior diversidade de opções e atividades. Ou como os soldados que voltam da guerra e saem do medo e privações para uma estrutura social mais segura e confiável.

Mas a maioria das pessoas continua em sua guerra implacável, em que não há vencedores. E se restringem a comportamentos de adição de drogas que se tornam irracionais e limitadores, como o rato da gaiola vazia. Seu mundo assim se torna, vazio, nada existe, mesmo que a família, amigos e profissionais de saúde ainda estejam por perto.

Somos seres despreparados para a vida emocional, quando esta requer recursos ainda não desenvolvidos. Usamos drogas. E somos também seres despreparados para cuidar dos que estão sofrendo e adoecendo. Teremos que continuar buscando o grito (chasing the scream), ouvi-lo entendê-lo, traduzi-lo e talvez continuar colhendo mais perguntas do que respostas.

*Adriana Rotelli Resende Rapeli é psiquiatra, psicanalista pela SBPSP e SBPRJ.

Pânico, desamparo e psicanálise

Dizem que somente quem já viveu uma crise de pânico sabe como é, dadas as dificuldades de se descrever em palavras o grau de angústia e sofrimento físico envolvidos. No contato com quem sofre do transtorno nós, psicanalistas, procuramos nos aproximar de sua experiência e fazê-lo reconhecer os sintomas e nomear os sentidos que deles advêm. Como isso pode ser feito? Veja abaixo o interessante artigo da psicanalista e membro da SBPSP, Norma Lottemberg Semer, sobre o tema.

Por Norma Lottemberg Semer*

O transtorno do pânico

Descrito pela psiquiatria contemporânea oficialmente desde 1980, quando apareceu no Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais (o DSM), o transtorno do pânico é também citado no Código Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (o CID-10), publicado pela Organização Mundial de Saúde.

O transtorno do pânico caracteriza-se por um período de intenso temor ou desconforto no qual quatro dos seguintes sintomas surgem abruptamente: palpitações ou ritmo cardíaco acelerado; sudorese; tremores ou abalos; sensação de falta de ar ou sufocamento; sensação de asfixia; dor ou desconforto torácico; náuseas ou desconforto abdominal; sensação de tontura, instabilidade, vertigem ou desmaio; desrealização (sensação de irrealidade) ou despersonalização (estar distanciado de si mesmo); medo de perder o controle ou enlouquecer; medo de morrer; anestesia ou sensação de formigamento e calafrios ou ondas de calor.

O pânico é uma reação de ansiedade em relação a sensações do próprio corpo. Enquanto nas fobias a pessoa sente ansiedade em relação a um objeto externo, no pânico ela fica ansiosa frente ao que sente em seu próprio corpo. Esta é uma das características centrais do pânico: os perigos vêm de dentro, vêm do próprio corpo, numa sensação de grande angústia.

Os sintomas sugerem que o indivíduo está sob ameaça de algo terrível, do qual precisa fugir, embora não haja perigo concreto aparente.

Em 1895, Freud descreveu a neurose de angústia nos mesmos moldes em que hoje é descrito o transtorno do pânico, com manifestações corporais e ataque de angústia, sem nenhuma representação psíquica, além de um sofrimento intenso. Freud assinala ser possível que o sujeito venha a recorrer “à interpretação que estiver mais à mão” (medo de morrer, loucura, crença no distúrbio de uma função corporal) como uma tentativa de configuração, de uma busca de explicação causal, que poderia reduzir sua angústia.

O transtorno do pânico pode parecer não possuir significado psicológico. Os ataques podem surgir “inesperadamente”, sem desencadeantes ambientais ou intrapsíquicos conhecidos. Por vezes a pessoa fala do pânico como algo totalmente alheio à sua experiência, à sua história, sem qualquer conexão com suas emoções ou com sua história de vida. Expressa-se como se tivesse uma virose ou sido contaminada por algo desconfortável, incômodo, estranho, alheio à sua pessoa.

Para a Psicanálise, entretanto, existe um sofrimento psíquico que precisa ser reconhecido, sobretudo pelo próprio paciente. É importante lembrar que Freud mostrou o desamparo como condição intrínseca do bebê humano ao lado da importância e da necessidade de um outro para que cada um de nós sobreviva e se desenvolva biológica e psiquicamente. Assim, o pânico corresponderia à angústia decorrente da percepção do desamparo e da impossibilidade de tolerar essa condição, algo sempre presente na experiência humana e não restrito aos tempos atuais.

Para o psicanalista, a tarefa seria levar o paciente a se envolver no seu sofrimento, a desenvolver interesse e curiosidade com o que acontece a si próprio, para que possa encontrar um significado nos seus sintomas.
Em geral os pacientes apresentam dificuldades frente à ameaça de perda de vínculos, intolerância às frustrações, dificuldade de pensar e conter seus estados emocionais, ao lado de fragilidade no senso de identidade pessoal e aspectos ligados à dependência.

O trabalho psicanalítico é uma experiência que pode auxiliar o desenvolvimento psíquico, expandir o mundo interno com maior participação de fantasias e de sentimentos. Assim, é possível que, ao longo do tempo, o paciente encontre outras formas de expressar e de lidar com seu sofrimento.

O objetivo do psicanalista é, então, despertar o interesse do paciente para seu próprio funcionamento psíquico, a partir de um encontro vivo entre duas pessoas que se comunicam. Por meio do acolhimento que ocorre nesta relação, espera-se que o paciente possa estabelecer vínculos mais consistentes consigo mesmo e com a vida.

*Norma Lottenberg Semer é psicanalista, membro associado da SBPSP, doutora em Saúde Mental e professora afiliada na UNIFESP.