crianças

Internet: pais e filhos confusos entre verdades e mentiras

David Leo Levisky

O Homo Sapiens está vivendo um período complexo na História das Civilizações com mudanças tecnológicas e de valores muito rápidas entre guerras de informação e de contrainformação. Verdades e mentiras confundem-se entre ilusões e fatos produzidos pelos mundos real, subjetivo e virtual. As mídias sociais produzem notícias que adquirem caráter de verdade enquanto verdades são destruídas por grupos interessados em alterar a história, nutrientes da imaginação humana rica em fantasias.

O virtual ao ser tomado como real no imaginário humano pode substituir o factual, afetar e desvirtuar a capacidade crítico-analítica e interferir nos processos de percepção e de elaboração mental. Algumas pessoas investem o imaginário com tal intensidade, transformando-o em uma crença à qual se submetem compulsivamente. É o vício. Condição equivalente às demais formas de adição que podem levar à morte ou ao desespero como foi noticiado à respeito do game “a baleia azul”.

Em nossos consultórios, torna-se cada vez mais frequente a queixa de pais desesperados, pois não conseguem fazer seus filhos, crianças e adolescentes, abrirem mão da excitação causada pela luminosidade da telinha e seus atrativos. A evolução tecnológica, a globalização, uma sociedade liberal, democrática e fluida com o fim das utopias (Bauman, 2001) trouxeram uma nova possibilidade de dependência.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu, recentemente, que o uso abusivo, inadequado, da TV, videogames e computadores pode levar a um quadro patológico de compulsão. Este distúrbio mental será incluído na 11a. edição do Código Internacional de Doenças (CID) a sair ainda este ano (Saúde, 2018).

Equivalente ao workaholic e outras dependências, o uso abusivo da telinha passa a compor o quadro das “paixões tóxicas” descritas por Freud antes do livro dos sonhos (1900). A partir da dipsomania, ele chegou à paixão pelos jogos e formulou a ideia de uma base aditiva da sexualidade humana. A masturbação era o seu protótipo até chegar à teoria do narcisismo autoerótico, base das paixões tóxicas e das sexualidades aditivas. A toxicomania seria uma forma de defesa contra a depressão e a melancholia (Silva Bento, 2007).

As mídias sociais vêm adquirindo um papel ambíguo de formadoras e de deformadoras da opinião pública por suas mensagens e pela forma de uso que delas se fazem. Elas interferem na estruturação e funcionalidade do sistema nervoso central, em sua relação neuroquímica e psicológica, no aparelho de pensar e na mentalidade social individual e coletiva (Carr, 2011).

A telinha, entre os fanáticos, pode tornar-se uma espécie de devoção religiosa.  Com o mundo em suas mãos, luminosidade, movimentos e aplicativos projetam games e programas que promovem excitação, prazer, gozo e dependência tóxica, pois alteram a homeostasia psíquica, geram estados mentais primitivos que, se cristalizados como defesas irreversíveis, tornam-se traços de carácter, com alto custo para a saúde física e mental dos envolvidos e da sociedade. Estados nos quais emergem fantasias de poder, dominação, destruição, morte, hedonismo que interferem no equilíbrio do ego e das funções narcísicas. A excitação continuada tende a gerar um estado circular de mais excitação e de liberação de substâncias psicoativas até chegar à exaustão de múltiplos sistemas. Seu uso excessivo depende da personalidade, das relações familiares, das pressões do mercado entre outros elementos da cultura.

O seu uso inescrupuloso tende a mecanizar o público. Seduz, impõe, ilude, persuade, condiciona, influi no poder de decisão e no poder de compra do consumidor. Pode conduzir as fantasias e doutrinar o imaginário. Faz com que a pessoa perca a noção e a seletividade de seus próprios desejos. Essa indução inconsciente, se usada de modo contínuo e descontrolado, pode trazer graves consequências à formação do sujeito, ainda mais uma criança ou adolescente em processo de desenvolvimento. Afeta a capacidade de escolha; o espaço interno torna-se controlado pelos estímulos externos e não pelas manifestações autênticas e espontâneas da pessoa. A compulsão ao uso da telinha pode ter origem em falhas ocorridas no desenvolvimento do objeto transicional, no conjunto das atividades simbólicas e na relação self/objeto primitivo, durante o processo de formação da pele psíquica. Esta, em vez de produzir continência, leva à aderência a objetos idealizados na ilusão de encontrar continência, prazer, coragem e energia frente a um mundo fragmentado (Olievenstein, 1982).

Como psicanalistas, temos vivências clínicas e construímos teorias que, juntamente com as neurociências, nos ajudam a compreender a estruturação, a dinâmica e a economia do aparelho psíquico bem como as características das relações vinculares intrafamiliares e suas relações com os contextos socioculturais. Daí nossa responsabilidade em participar e colaborar no encontro de novos equilíbrios psíquicos, individuais, familiares e sociais.

Defendo a ideia de que tudo que se torna público e repetitivo tem grande probabilidade de se transformar em valor da cultura ao ampliar a massa de consumo, principalmente, entre adolescentes. Estes são mais vulneráveis pela maior fragilidade do ego inerente ao desenvolvimento. Motivados pela busca de experimentos, desafios, desejos de transgressão, revoltas, contestações, influenciados por grupos sociais, não se preocupam com os desdobramentos físicos e mentais. Não pensam ou não querem pensar no futuro. Prazeres imediatos, fantasias onipotentes, negação da realidade, do tempo, formas de transgressão aos pais prevalecem enquanto se escondem de fantasias de rejeição a si mesmos ou de aspectos de sua identidade ou no preenchimento de vazios internos. O gozo presente e eternizado na aparente ausência de medo prevalece com a consequente negação dos limites e da morte, da percepção do irreversível e do pouco valor que se pode dar à vida. Sentimentos de dissabor, de tristeza, de insatisfação para com a própria vida são comuns em meio a vivências de uma relação familiar conturbada. É frequente a presença de um superego punitivo carregado de elementos narcísicos nele projetados. Conluios intrafamiliares inconscientes podem estar presentes no uso indiscriminado das telinhas, não raro em meio a explicações racionais de uso apenas social, para se divertir, falar com amigos ou estudar. Dentro de uma cultura binária e eletrônica do sim e do não, do “enter” e do “delete”, processo sem maiores elaborações e criatividade, o “del” pode ser uma forma de se livrar da situação incômoda para não cair na depressão reflexiva, trabalhosa e que requer energia para se recuperar e dar a volta por cima ao lidar com frustrações.

Soifer (1975) alertou-nos para os riscos do uso inadequado da TV sobre o desenvolvimento das crianças. Levisky (1999) publicou: “The Media: Interference with the Psyche”, usadas pelos pais até como babás eletrônicas ou chupetas. Hoje, a comunidade internacional adquire consciência da necessidade de se tomar providências para atenuar as consequências do uso inadequado dos eletrônicos. Mas, ainda há muito por se fazer.

Bibliografia

BAUMAN, Z., Modernidade líquida, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2001.

CARR, N., O que a internet está fazendo com os nossos cérebros – A Geração Superficial, Rio de Janeiro, Agir, 2011.

LEVISKY, D.L., Reflexões psicanalíticas, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2009.

LEVISKY,D.L., “The Media: Interference with the Psyche”, Inter. J. Medicine and Health, vol. 11,1999, Freund Publishing House, England, pp. 327-333.

LOURENÇO MARTINS, A.G., 2007, “História Internacional da droga”, publicado em 17 de Dezembro de 2007 21:55, por encod . modificado em 18 de Dezembro de 2007 11:03

OLIEVENSTEIN, C., “A infância do toxicômano” In Olievenstein, C., La vie du toxicomane, Paris, PUF, 1982.

Saúde – iG @ http://saude.ig.com.br/2018-01-03/games-vicio-disturbio-mental.html

SILBA BENTO, V.E., “Para uma semiologia psicanalítica das toxicomanias: adicções e paixões tóxicas no Freud pré-psicanalítico” Revista  Mal-estar e  Subjetividade  – Fortaleza  – Vol . VII – Nº 1 – mar /2007 – p . 89-121.

SOIFER, R.:”A Criança e a TV – uma Visão Psicoanalítica”. Porto Alegre. ArtesMédicas. 1975.

 

David Leo Levisky  é psiquiatra, didata da SBPSP e PhD em História Social pela USP. É autor dos livros: “Adolescência- reflexões psicanálíticas”; “Adolescência e violência  – I, II e III”; “Um monge no diva”; “Entre elos perdidos; A vida? … é logo ali”.

Vida escolar, crescimento e constituição da subjetividade

A educação dos filhos é um processo complexo e não há fórmulas preconcebidas que ditam um suposto caminho “certo”. Apesar disso, há questões e aspectos sobre os quais podemos e devemos refletir quando testemunhamos – no papel de pais ou de analistas – o desenvolvimento emocional e físico das crianças.
No artigo abaixo, a psicanalista Alicia Lisondo faz exatamente isso, abordando com profundidade o momento de ingresso das crianças numa instituição escolar e os principais fatores implicados nesse processo.

O filho na escola: quando iniciar a inclusão da criança numa instituição escolar? Por que tomar esta decisão? Está na hora?

Por Alicia Beatriz Dorado de Lisondo*

Nossa ciência-arte, a psicanálise, estuda a singularidade do processo de constituição da subjetividade de um ser humano, num ambiente específico e único. O bebê humano não nasce maduro, pelo contrário, muito vulnerável, com potencialidades a realizar graças às funções parentais. Minha intenção não é dar respostas normativas, contrárias ao espírito da psicanálise, mas sim ajudar a pensar.

A creche e/ou escola é uma instituição com cultura e normas próprias. Um espaço diferente do lar. Mas para que a criança vivencie uma certa continuidade entre a família e a escola, os pais podem escolher um lugar em sintonia com seus valores, com sua postura ante o mundo, com condições reais de arcar com a distância geográfica e os custos econômicos, tendo em conta o bom senso. O que seria melhor para esta criança, neste momento de sua vida, com estes pais, nesta família? Qualquer decisão implica enfrentar riscos, lutos por aquilo que não foi escolhido, turbulência diante do novo e do desconhecido.

A instituição escolar precisa ser coerente com seus princípios formativos e pedagógicos. Eles não podem ser palavras vazias, protocolares e sim palavras encarnadas no dia a dia, plenas de sentido. Não ceder às pressões dos pais e da sociedade neste mundo pós-moderno não é tarefa fácil quando, às vezes, a infância é sacrificada e a adolescência sufocada. A aprovação no vestibular, por exemplo, pode tornar-se a única meta a alcançar, limitando atividades artísticas, sociais, esportivas, políticas, procura de eficiência competitiva e um lugar no mercado de trabalho.

CRECHES E ESCOLAS MATERNAIS

Para se desenvolver, o bebê precisa que as funções parentais possam lhe oferecer, por meio de um vínculo real e mental, uma experiência de segurança básica, de continuidade entre a vida pré-natal e pós-natal, um ritmo estável, uma estimulação adequada. Essas funções como “pais suficientemente bons”, no dizer de Winnicott, surgem espontaneamente, tendo a intuição como bússola privilegiada. Os pais modulam as terríveis ansiedades do bebê e são catalizadores semânticos para dar significação às expressões corporais, gestuais e sensoriais do filho por meio da linguagem pré-verbal. Se quando surge o laleio: “Ah!Ah!Ah”, este é escutado e interpretado pelos pais como MAMÃE, PAPAI ou PAPAR, a comunicação não cai no vazio.

Numa profunda relação misteriosa e inconsciente, assim, o bebê constrói seu SER, apropria-se da linguagem, dos valores e ideais da cultura apresentados pelos pais. Realiza as potencialidades presentes no seu repertório tecendo, com os fios do reconhecimento e da valorização do ambiente que festeja cada conquista, a autoestima.

O chute na bola de um toquinho de gente pode ser celebrado como o gol do ídolo. E diante da festa, o filho repete a façanha, uma e outra vez. Também pode aprender, muito além do exercício motor necessário para permitir experimentar distâncias e forças no espaço, a perder, a tolerar frustrações, a esperar a vez de uma próxima tentativa; a potência masculina está presente no acerto festejado e na perda suportada. A criança ganha confiança e segurança no exercício de suas reais possibilidades e o primeiro ano de vida é fundamental para construir os alicerces da personalidade.

A criança pequena precisa construir temporalidade e espacialidade. Então ela não percebe, não realiza a duração do período escolar. Seu frágil psiquismo não pode imaginar o retorno dos pais antes da possibilidade de simbolizar, há como que um desaparecimento dos seres conhecidos, um “nunca mais”, porque não há reversibilidade entre idas e voltas, partidas e chegadas, encontros e despedidas. Quando em sofrimento, um minuto pode ser eterno.

Quando a criança não tem as figuras primordiais introjetadas na sua mente e não pode simbolizar, ou seja, re-criar a presença dessas figuras quando ausentes, a separação dos pais pode ser vivida como um esfacelamento, uma queda sem fim no abismo infernal, uma aniquilação ou fragmentação do ser. A imagem da criança agarrada, colada ao corpo dos cuidadores em desespero evidencia essas agonias primitivas. Diferente da criança capaz de dizer tchau e se despedir, se separar, que segura um objeto acompanhante, “transicional”, que lhe ajuda a realizar a passagem entre o conhecido mundo familiar e o estranho mundo escolar.

Não menos preocupante é a criança que aparenta indiferença, apatia, desinteresse nos contatos humanos, porque se refugia em barreiras de diversas espessuras, fronteiras dos refúgios, como ocorre quando há estados autistas, de gravidade muito variada, em curso.

O bebê bem dotado tem radares para perceber os estados mentais inconscientes das pessoas próximas. Para garantir AMOR pode vir a se sobre-adaptar aos valores e ideais parentais impostos, numa submissão que pode aplastar desejos e manifestações do verdadeiro self. Exemplo em sala de análise: uma menina de 2 anos e 7 meses, hipotônica pela privação da exercitação do corpo no espaço (rastejar, engatinhar, explorar o ambiente, manusear objetos, brincar de jogar objetos de certa altura e ou a certa distância, etc.); quando a mãe a deixou no chão ante minha interpretação, ela olhava para a mãe e logo me olhava como que pedindo permissão para cada movimento que ousava realizar, timidamente. Pensei que minha paciente inibia a exploração motora do novo ambiente para obedecer a normas implícitas que proibiam o movimento, a fim de evitar TODOS os perigos e a ameaça de uma nova convulsão. Só que assim agindo, os pais, inconscientemente, freavam seu crescimento. Além das questões neurológicas, a convulsão era uma explosão da excitação que ela não tinha podido metabolizar.

Adaptação e sobre-adaptação são estados mentais diferentes. O primeiro pode indicar que a criança é capaz de assimilar o NOVO, aprender com as novas experiências, ampliar o mundo com as relações com outras crianças e professores.

Já na sobre-adaptação, no interjogo entre o nível de exigência imposto pelos pais e a qualidade da personalidade em formação, há uma obediência submissa, que deforma ao aplastar o SER. A criança se adapta ou silencia as emoções por que está sobre-adaptada? A criança quando chora, protesta, esperneia diante de cada separação, ou adoece repetidamente, estaria expressando a imaturidade para ingressar/e ou continuar numa escolinha maternal-creche? São conciliáveis: expectativas, exigências, desejos, obrigações, realizações, sonhos da mãe (laborais, profissionais, econômicos, pessoais) com os cuidados psíquicos de um filho na primeira infância? Como?

QUESTÕES PARA PENSAR:
– Quanto menor é a criança, mais ela precisa da convivência num ambiente que propicie o desenvolvimento da personalidade, através das funções parentais maduras.

– Quando necessário, apelar a uma instituição é importante, mesmo que seja por períodos os mais breves possíveis. Quais os critérios para buscar essa instituição escolar?

– No lar é aconselhável que os pais entrem em contato emocional com o filho oferecendo uma atenção qualificada para, espontaneamente, brincar, desenhar, pintar, cantar, dançar, conversar, colocar limites, num vínculo verdadeiro que contemple o amor, o ódio, a ternura, o sofrimento, a alegria. Limitar o uso de TV e aparelhos eletrônicos é necessário para privilegiar os contatos humanos.

– Os pais, como seres humanos, fazem o possível e não podem exigir para si próprios, a perfeição. A culpa é uma má companhia. A superproteção, a pretensão de evitar sofrimentos necessários para o filho, as falsas compensações, as seduções e as chantagens não ajudam a crescer.

– Há sinais que podem revelar o mal-estar psíquico de um filho: doenças frequentes do psicossoma, alteração dos ritmos fisiológicos (sono, alimentação, controle esfincteriano): apatia, tristeza, desinteresse, dificuldades ou recusa nos contatos humanos; exigência de ficar aderido, colado nos cuidadores; terrores noturnos; ataques de pânico ou de raiva prolongados e frequentes sem motivo aparente; impossibilidade de aceitar limites e frustrações dosadas; graves fobias; transtornos no desenvolvimento etc. Então que fazer além de observar, sofrer, insistir?

– Diante da consciência desse mal-estar é oportuno consultar um psicanalista de crianças e adolescentes para investigar a situação. O tempo não resolve perturbações mentais. O tempo pode potencializar fatores patogênicos.

Uma avaliação psicanalítica levantará hipóteses diagnósticas sobre a criança e seus vínculos, convocando os pais a pensarem sobre as transformações necessárias na personalidade do paciente e na família.
Na criança pequena as mudanças podem ser assombrosas pela força de vida do protagonista da consulta. E mais: as configurações que perturbam o desenvolvimento emocional podem não estar cristalizadas. O psicanalista tem a chance de entrar em cena antes das consequências perigosas da cronicidade do quadro.

*Alicia Beatriz Dorado de Lisondo é psicanalista e membro da SBPSP

“O FINAL DA NOSSA EXPLORAÇÃO É CHEGAR ONDE
INICIAMOS E CONHECER O LUGAR PELA PRIMEIRA VEZ”

T.S. ELIOT.

Psicanálise com crianças

Ao contrário do que muitos imaginam, a Psicanálise pode ser utilizada também no cuidado e tratamento de bebês e crianças pequenas. Foi a partir da segunda metade do século 20 que as psicanalistas Anna Freud e Melanie Klein deram início à psicanálise com crianças. Hoje, o método é bastante usado no tratamento e profilaxia de transtornos mentais. Sobre o tema, confira a ótima conversa abaixo, entre as psicanalistas Luciana Saddi* e Maria Cecília Pereira da Silva**, especialista no assunto.

Luciana: Como foi que você se interessou pelo trabalho analítico com bebês e crianças pequenas?

Maria Cecília: Ao estudar Psicopatologia do Bebê, com Serge Lebovici, descobri como intervenções nas relações iniciais pais/bebês, em poucas consultas, podiam fortalecer as funções parentais e solucionar sintomas de sofrimento emocional no bebê.
Evitar que dificuldade vinculares e sintomas se cristalizem é extremamente preventivo e profilático. E isso é apaixonante. Assim podemos ajudar psicanaliticamente, em poucas consultas, muitas pessoas.

Luciana: Quais as especificidades desse trabalho?

Maria Cecília: O trabalho se realiza preferencialmente nos primeiros 3 anos do bebê conjuntamente com os pais e outros irmãos. Eventualmente trabalhamos com os avós e babás também. As sessões duram entorno de uma hora e podem ocorrer entre 4 e 10 sessões ou mais, dependendo da situação. Não necessariamente são semanais. Muitas vezes atendemos em co-terapia. Ou seja, dois terapeutas para favorecer a continência oferecida à família. Às vezes propomos uma puericultura emocional e vamos acompanhando de tempos em tempos a interação e o desenvolvimento emocional do bebê.

Luciana: Quando pais, profissionais e cuidadores devem procurar a avaliação de um psicanalista?

Maria Cecília: Quando há dificuldades vinculares, dificuldades no sono ou alimentação, problemas com controle esfincteriano, irritabilidade, excesso de agitação, dificuldades na interação afetiva e intersubjetivas.

Luciana: O que mudou no campo da clínica de 0 a 3 anos, considerando os últimos 50 anos?

Maria Cecília: Cada vez mais cedo somos capazes de identificar transtornos do espectro autista e intervir precocemente muitas vezes impedindo a cristalização dos sintomas mais sérios.

Luciana: Por que o diagnóstico de transtornos do espectro autista (TEA) vem crescendo no mundo todo?

Maria Cecília: Em primeiro lugar porque aumentou o número de crianças com TEA e com isso os pesquisadores começaram a buscar sinais precoces desses transtornos. Estudam-se filmes caseiros de crianças diagnosticadas com TEA e a qualidade das interações intersubjetivas entre pais e bebês, assim como a disponibilidade emocional materna.
Antigamente, os pediatras só encaminhavam quando os sintomas se mantinham após os 3 anos e alguns, após os 6 anos ou quando os pais identificavam algo estranho e comparavam seus filhos com as outras crianças da escola. Hoje, as pesquisas mostram que a plasticidade cerebral permite que intervenções precoces transformem neurológica e emocionalmente quadros que mais tarde se tornariam crônicos.

Luciana: Como você vê a influência do mundo atual nos sintomas das crianças?

Maria Cecília: Cada vez mais cedo as crianças são expostas a brinquedos e atividades tecnológicas em detrimento do contato humano e algumas acabam estabelecendo uma preferência maior por objetos do que pela interação com seres humanos, dificultando o desenvolvimento de relações intersubjetivas e a mediação dos sentimentos e emoções.
A falta de redes parentais nas cidades grandes também deixa as mães muito desamparadas com a chegada de um bebê. Tanto os pais quanto os avós e comadres são importantes para embalar a dupla mãe-bebê nos momentos de estresse da mãe.
A disponibilidade emocional materna entra em disputa com as demandas cotidianas e contemporâneas, além das demandas profissionais, exigindo que as crianças se tornem rapidamente independentes e autônomas. Essa precocidade, muitas vezes, se transforma em sintomas como: fobias, obesidade, ecoprese, retraimento ou momentos de explosividade.

*Luciana Saddi é psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP e membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

**Maria Cecília Pereira da Silva é Psicanalista, membro efetivo, analista de criança e adolescente e docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, filiada à International Psychanalytic Association. Especialista em Psicopatologia do Bebê pela Université Paris XIII. Pós doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Membro do Departamento de Psicanálise de Criança e Professora do Instituto Sedes Sapientiae. Coordenadora da Clínica 0 a 3 do Centro de Atendimento Psicanalítico da SBPSP.