criança

Brincar para se tratar

*Marion Minerbo

Olá, Ana Lisa, sobre o que gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! Estava na casa de uns amigos que têm um filhinho de um ano. Lá pelas tantas, quando ele ficou com sono, se deitou de bruços sobre uma mesa de centro revestida de azulejos e ficou se contorcendo de barriga para baixo, como uma minhoca, até adormecer. Os pais disseram que faz uns meses que ele criou este ritual e não dorme sem ele. Achei estranho, pois em geral as crianças escolhem lugares macios e quentinhos para adormecer. O que a psicanálise tem a dizer sobre isso?

Ele criou um ritual, mas também podemos dizer que criou uma brincadeira. Me lembrei daquela famosa que foi inventada pelo neto de Freud. A brincadeira era a seguinte: ele atirava um carretel para debaixo da cama exclamando “miu”! E depois puxava a linha e o recolhia exclamando “tou”! Freud entendeu que ele estava brincando de sumiu-voltou.

É verdade. Ele fazia isso quando a mãe saía de casa. Começou atirando o carretel, talvez para se livrar do pavor de ficar sozinho, mas depois acabou virando uma brincadeira.

É simplesmente genial. Em vez de sofrer passivamente o sumiço inesperado da mãe, produz seu desaparecimento ativamente. A graça da brincadeira é que, ao atirar o carretel, ele já sabe que este vai voltar. O pavor vai cedendo lugar ao prazer. A repetição acaba “domesticando” o trauma. A criança brinca para se tratar.

Entendo. Ela vai se dando conta de que há uma diferença entre o horror do abandono definitivo e uma simples ausência.

O repertório conceitual e emocional se amplia. Quando estão psiquicamente saudáveis, as crianças inventam continuamente novas brincadeiras para se tratar daquilo que as assombra. O filho dos seus amigos brinca de minhocar numa mesa gelada até dormir. De que “trauma” será que ele está se tratando?

Tenho um palpite. Mas antes, eu queria perguntar o seguinte: como alguém cria uma brincadeira para poder se tratar?

Excelente questão. Obviamente, para o neto do Freud, o carretel representa a mãe. Isto quer dizer que ele transferiualguma característica da mãe para o carretel. E ele escolheu o carretel para fazer esta transferência porque, para ele, ambos têm algo em comum.

Como assim? O que o carretel e a mãe têm em comum?

A mãe some e volta. O carretel também. Graças a esse traço em comum, a criança pode transferir o sumiço/retorno da mãe para o carretel. O carretel se torna um objeto investido transferencialmente como um equivalente da mãe. Nesse contexto afetivo, o carretel interpreta para a criança o que ela está vivendo.

Ah, agora é demais. Um carretel interpreta?

Claro! É por isso que brincar é terapêutico. Ao ser atirado para baixo da cama, o carretel “conta” para o menino que ele está às voltas com o problema do sumiço da mãe. Dessa forma, ele tem a oportunidade de perceber do lado de “fora”, de forma concreta, aquilo que o inquieta e assombra “dentro”. Num primeiro momento, antes dessa concretização, é uma inquietação vaga, sem cara, sem forma, e por isso mesmo, aterrorizante.

Hum. Então, ao ser resgatado, ao reaparecer, o carretel “conta” para o garotinho que, assim como ele voltou, a mãe vai voltar?

Isso. E agora vem o mais importante: é a criatividade psíquica da criança que lhe permite equiparar o carretel à mãe por meio do traço em comum. A criança faz uma associação livre, que é sinal de saúde mental.

Quer dizer que as características reais do carretel são importantes para que ele possa transferir o que precisa ser elaborado?

São. Um ursinho de pelúcia “aceita a transferência” dos aspectos acolhedores da mãe porque é macio e quentinhoJá o lobo mau “aceita a transferência” dos aspectos aterrorizantes da mãe.

Você está usando o conceito de transferência de um jeito diferente daquele que eu aprendi, que é a relação com o analista.

Sim, a transferência para o analista é um caso particular disto que estou descrevendo. Ele se dispõe a aceitar todos os tipos de transferência para que o paciente consiga reconhecer “fora” o que o assombra “dentro”. Mas voltando à situação que você descreveu: o bebê que precisa minhocar sobre a mesa gelada para adormecer.

Eu te disse que tinha um palpite sobre qual poderia ser o “trauma” do qual ele estava se tratando. Ele nasceu com um pequeno cisto na coluna. Com horas de vida fez uma ressonância magnética. E depois outras, até que os médicos decidiram operar. Depois da cirurgia fez novos exames para acompanhar a evolução.

Sempre com a barriga para baixo! Claro, seu palpite tem tudo a ver! Os bebês saem do útero esperando encontrar alguma continuidade do ambiente que conhecem. Mas este encontrou algo duro, liso e frio. Essa experiência sofrida e impossível de ser digerida certamente ficou gravada em sua memória corporal.

Pelo que entendi da sua explicação sobre o jogo do carretel, essas sensações desconhecidas foram traumáticas. Quando ele se deita sobre a mesa de azulejos gelados ele está sendo ativo lá onde antes foi passivo. Está recriando essa situação horrível para conseguir reconhecer “fora” o que ficou inscrito “dentro”, e assim ir se apropriando do que viveu.

“Ir se apropriando” é a expressão exata. A mesa de azulejos “atrai” o traumático porque tem traços em comum com a de ressonância magnética. O frio, duro e liso do passado é transferido para o presente. E por isso mesmo se presta a ajudar a elaborar o que ficou encruado no inconsciente. A mesa de azulejos “interpreta” para ele seu sofrimento inconsciente.

Posso até imaginar o diálogo entre o bebê e a mesa.

Ele: “Esta superfície gelada me dá medo e não sei bem por que. Sinto que é algo de estranhamente familiar.

Ela: Sim, você já viveu isto antes. Na época foi muito sofrido e você não tinha como entender que diabo era aquilo.

Ele: Reconheço vagamente esta sensação. Mas não tenho palavras para descrevê-la.

Ela: Então preste atenção em mim que eu vou te contar: eu sou dura, lisa e fria. Acho que são estas as palavras que você está procurando.

Ele: Ah, então é isso que me assombra desde sempre!

Adorei! Um diálogo dentro do nosso diálogo!

Fiquei com uma dúvida. Você disse que nem todas as crianças conseguem usar este recurso para se tratar.

Exatamente. Um ambiente emocional turbulento prejudica a instalação do chip da capacidade de brincar. E isso desde as primeiras horas de vida.

O quê tornaria esse ambiente emocional difícil para o bebê?

Em duas palavras: o inconsciente dos pais sempre dá trabalho para os filhos. Normal. Mas quando ele transborda demais e há uma “inundação”, a criança tem que gastar muita energia para dar algum destino a esse “material radioativo”. E aí sobra pouca energia para brincar. Podemos até falar mais sobre isso numa próxima conversa.

Com certeza! Muito louco tudo isso!

 

Texto originalmente publicado no blog Loucuras Cotidianas.

 

Marion Minerbo é psicanalista da SBPSP, doutora pela UNIFESP e autora de vários livros e artigos, entre eles “Diálogos sobre a clínica psicanalítica” (Blucher, 2016) | marionminerbo@gmail.com

Entre a Psicanálise e a Medicina

Suzana Grunspun

Como a Psicanálise e a Medicina podem contribuir para a compreensão e aprofundamento do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade na infância?  Este Transtorno, tão habitual nos tempos atuais, é um diagnóstico formulado por médicos que estabelecem que os acometidos apresentam alterações de atenção e/ou do impulso. Segundo Saul Cypel (p.23-30; 73-74), neurologista infantil, o TDAH   ocorre em consequência de múltiplos fatores que precisam de um esclarecimento para se ter uma opção de tratamento. Sua incidência é muito alta: o transtorno atinge de 8% a 10% das crianças e é mais frequente em meninos. É muito intricado se falar de causas do TDAH. Aspectos genéticos e hereditários são correlacionados às disfunções neurobiológicas. Questões emocionais, ambientais e culturais também estão vinculadas ao TDAH.

 

O psicanalista procura entender o grau de sofrimento de cada paciente individualmente, e investiga o seu funcionamento mental. A falta de atenção compromete a capacidade da criança de manter-se concentrada em uma atividade; a impulsividade e/ou hiperatividade expressa-se por reações impensadas, bruscas e imotivadas. Estes sintomas são correlacionados com a baixa tolerância à frustração e a dificuldade em saber esperar – aspectos importantes para o olhar do psicanalista, pois a criança ainda não desenvolveu a capacidade de se conter.

 

É importante conhecer como o paciente em análise experimenta sua desadaptação ao ambiente escolar ou com seus familiares. Estas crianças, muitas vezes, sentem-se confusas entre o que é seu problema e a sobrecarga proveniente do seu mundo exterior. Dentro desta perspectiva, citamos Winnicott (1962,p.51-54), um pediatra inglês que também era psicanalista. Ele propôs uma teoria para se compreender o desenvolvimento da criança a partir da unidade mãe/bebê, salientando que esta dupla interage com uma dinâmica particular desde o nascimento. No TDAH, a questão do ambiente pode ser estudada a partir deste ponto de vista. Assim, se terá uma visão ampliada dos sintomas – que podem ser exclusivos, associados ou decorrentes das relações precoces que se estabeleceram no começo da vida. Tanto a impulsividade como as dificuldades de atenção e foco poderão se instalar nesta fase, sem necessariamente ter um fator neurobiológico que justifique o TDAH. Os sintomas entendidos pela psicanálise refletem conflitos internos ligados às dificuldades vivenciadas pelos acometido pelo TDAH.

 

Nesses casos, é importante que o analista conheça os correlatos biológicos do transtorno para entender o uso de medicamentos. Existem critérios precisos de indicação para crianças com alteração de comportamento intensa e persistente, mesmo depois da abordagem analítica, da orientação dos pais e do contato com a escola. Não se pode esquecer dos riscos que a criança muito agitada corre com seu comportamento – como as graves questões de ameaça de integridade física. É importante lembrar que cada criança deve ser avaliada individualmente.

 

O efeito da medicação tem como mecanismo de ação favorecer uma concentração de neurotransmissores catecolaminérgicos, seja por aumento de sua liberação local ou redução em sua metabolização.

 

Os sintomas que atualmente aparecem na clínica infantil estão correlacionados com mudanças paradigmáticas do mundo atual. Imersas em um mundo veloz, a exigência é que todas as crianças correspondam às expectativas contemporâneas. Nos vemos diante das seguintes perguntas: quando existe uma dificuldade real para alguma criança? E em que momento esta dificuldade é considerada uma não-correspondência das expectativas socioculturais a serem cumpridas? Nós, psicanalistas, temos que ponderar e refletir para mantermos nosso discernimento.

Bibliografia

Cypel, S. – Déficit de Atenção e Hiperatividade e as Funções. Executivas. São Paulo; Lemos Editorial ,2007.

Winnicott W D (1962) –Provisão para a criança na saúde e na crise.  In: O Ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre; Ed. Artes Médicas , 1990,p62-69

 

Suzana Grunspun é médica e psiquiatra, formada pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, com residência médica no Hospital do Servidor Público Estadual Francisco Morato. Membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), é analista de criança e adolescente pela International Psychoanalytical Association (IPA) e docente do Instituto Durval Marcondes da SBPSP. Foi secretária do curso de Psicanálise de Crianças e Adolescentes no biênio 2015/2016.

Tempo de férias, tempo de brincar, um tempo próprio

Mirian Malzyner

Férias são momento de pausa, como um parêntesis no cotidiano. Tanto para os adultos, como para as crianças pode ser uma oportunidade de resgatar um tempo próprio, em sintonia com os ritmos e necessidades mais básicas de cada um.

Muitas vezes, adaptar-se ao ritmo da agenda de compromissos e atividades, aceleradas pelas urgências do dia a dia, leva a um afastamento do contato mais íntimo com aspectos fundamentais do existir humano. As férias são o momento de marcar essa pausa, esse respiro que proporciona o encontro com o tempo subjetivo.

Proporcionar às crianças o tempo do brincar espontâneo e não dirigido é básico para a renovação contínua do potencial criativo, da curiosidade nas coisas do mundo e na confiança em si mesmo. O excesso de estímulos e as atividades propostas a partir “de fora” restringem as possibilidades da criança inventar e jogar com a imaginação. É importante o tempo de “não fazer nada”. Adam Phillips (1993) disse que o tédio é uma oportunidade de contemplar a vida em vez de fugir dela. E Bertrand Russel (1930), já falava em “monotonia produtiva” alertando para o fato de que uma geração que não suporta a monotonia será uma geração de homens divorciados dos lentos processos da natureza, de homens cujo impulso vital seca lentamente como flores podadas num vaso.

Os ritmos naturais dos processos humanos envolvem alternância de estados de atividades intensas e estados de tranquilidade, desde o início da vida. Ao entregar-se numa condição de total relaxamento após uma mamada feliz, o bebê vive um estado de quietude. Esse descanso dos estímulos do mundo é a base para a capacidade da criança e do adulto sadio experimentar o gesto espontâneo que torna o mundo real e as experiências verdadeiramente pessoais.

É no encontro com o ritmo próprio de cada um que podemos exercer a criatividade, condição essencial para sentir-se vivo. Winnicott, psicanalista inglês que partiu de uma longa experiência em pediatria, pôs em destaque a questão da criatividade primária como intrínseca ao ‘viver’. Ser humano é ser criativo, em um sentido próprio, em que a subjetividade se constitui pela possibilidade de criar o mundo em que se vive.

Se tudo correr bem, o encontro do bebê com o mundo dá-se de tal forma que não se coloca a necessidade de decifrar o mistério se ele criou o mundo ou se este já estava lá para ser encontrado. Este é o paradoxo. O encontro dá-se numa atmosfera que inclui uma ‘mágica’ – a ilusão onipotente – a partir da qual a vida subjetiva torna-se possível. Esse veio ‘mágico’ terá desdobramentos ao longo de toda a vida.

A brincadeira infantil vai se transformar encontrando outras formas, mas sempre existindo na possibilidade de “fazer à sua própria maneira”.  Qualquer pessoa em qualquer atividade do cotidiano pode ser criativa. Até mesmo o simples ato de respirar pode ser vivido como único e pessoal, expressão da subjetividade. Uma pausa para respirar pode ser o momento de integrar aspectos do si mesmo e renovar a condição criativa.

Brincar é inventar, exercitar a intuição, descobrir os sentidos do mundo sem pressa e sem hora marcada. A brincadeira amplia o tempo presente, incluindo o ontem e o amanhã; amplia os espaços, expandindo os horizontes.

Importante ressaltar que o tempo de pausa possa ser incluído criativamente para além das férias, no desenrolar das atividades comuns cotidianas.

 

Referências Bibliográficas

Philips, Adam (1993) – “Beijo, Cócegas e Tédio”, Ed Companhia das Letras,1996, SP

Russel, Bertrand (1930) – “A Conquista da Felicidade”, Editora Nova Fronteira, 2017, RJ

 

Mirian Malzyner é psicanalista, didata e membro efetivo da SBPSP, onde coordena seminários sobre Arte e Psicanálise, tendo artigos publicados sobre esse tema. Também desenvolve atividades no campo das artes plásticas, principalmente em ilustração. Nesse ano, escreveu e ilustrou o livro infantil “A Grande Vitória”, publicado pela Editora Aspas.

*A ilustração é de Mirian Malzyner

A Psicanálise de bebês, crianças, adolescentes e suas famílias

Por Maria Thereza de Barros França [1], Regina Elizabeth Lordello Coimbra [2] e Ligia Todescan Lessa Mattos [3]

É mais fácil atender crianças em análise do que adultos? Existe atendimento psicanalítico para bebês? E adolescentes, é difícil atendê-los? Vamos nos lembrar de uma popular cantiga de roda que serviu de inspiração para este texto: 

Ciranda, cirandinha

vamos todos cirandar

vamos dar a meia-volta

volta e meia vamos dar.

O anel que tu me destes

era vidro e se quebrou,

o amor que tu me tinhas

era pouco e se acabou.

Por isso, Dona Fulana

faz favor de entrar na roda,

diga um verso bem bonito

diga adeus e vá-se embora.

O “cirandar” nos remete ao trabalho psicanalítico com crianças, no qual precisamos (re)aprender a brincar, entrar e sair da roda, lidar com interação, amor, desamor, individuação, possibilidade ou não de reparação, separação, movimento, regressão, desenvolvimento.

É comum a ideia de que é “mais fácil” atender crianças já que são mais espontâneas, menos defendidas e que seria simples estabelecer um contato lúdico com elas, recorrendo às nossas próprias experiências infantis, ou de contato com crianças dos nossos relacionamentos. É essa ideia que leva muitos jovens começarem sua vida profissional atendendo crianças.

No trabalho com a criança uma questão se coloca: “infante” é aquele que não fala. Então, como é que a criança fala? E como é que é possível falar com a criança?

O campo é repleto de variáveis e exige do analista, antes de tudo, condições pessoais, não apenas emocionais, mas entusiasmo, disposição para brincar, (já que o brincar é a fala da criança), interesse genuíno e prazer de desfrutar do contato analítico com crianças. Essas condições, é claro, não dispensam os conhecimentos acerca do desenvolvimento emocional infantil, dos fatores que o favorecem, aqueles que o prejudicam, das patologias decorrentes e das questões técnicas ligadas à especificidade do trabalho.

Ao longo dos anos, a psicanálise vem acumulando conhecimentos sobre o desenvolvimento inicial das crianças, a partir da observação de bebês e de sua interação com suas mães. Hoje já se fazem atendimentos interessantes que têm como foco a relação pais-bebê e que permitem que precocemente sejam detectados sinais de riscos ao desenvolvimento. Um trabalho preventivo torna-se então possível.

Por sua vez, a infância, a puberdade e, particularmente, a adolescência, são períodos de transformações que exigem do analista conhecimento, sensibilidade e disponibilidade para lidar com as demandas emocionais de cada um desses momentos do desenvolvimento humano.

Essas características do trabalho do psicanalista de crianças e adolescentes vêm, cada vez mais, impondo também a necessidade do atendimento aos pais que procuram ajuda para seus filhos. Esse atendimento se inicia desde o momento de recebê-los e acolhê-los e se prolonga ao longo de uma construção conjunta do entendimento das dificuldades que enfrentam com seus filhos.

Considerando toda a complexidade do atendimento de crianças e adolescentes, um grupo de psicanalistas formados na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, pensou em oferecer um espaço aberto a jovens psicólogos, pediatras, psiquiatras infantis, profissionais da educação (e de áreas afins) para o estudo e o entendimento desse período do desenvolvimento do ser humano, do nascimento à adolescência.

Assim como os jovens profissionais que iniciam suas carreiras atendendo crianças, esses psicanalistas também fizeram sua trajetória começando pela psicanálise de crianças e adolescentes e permaneceram nesse campo ao longo dos anos.

O CURSO

A SBPSP e a Diretoria de Atendimento à Comunidade, que tem entre suas finalidades a difusão da psicanálise para a sociedade, encamparam a ideia e ofereceram respaldo para a criação do curso CINAPSIA – Curso Introdutório ao Atendimento Psicanalítico de Crianças e Adolescentes.

A sigla CINAPSIA faz alusão à palavra “sinapse” que nos remete ao sistema nervoso, aos pontos de contato entre as terminações das células nervosas, os neurônios. Do significado da palavra sinapse destaca-se o de união, aspecto que orienta o curso, pelo importante papel que os vínculos afetivos e elos de ligação de várias ordens desempenham no processo de desenvolvimento psíquico.

O CINAPSIA não se propõe a formar psicanalistas, mas sim desenvolver uma atitude: o olhar e a escuta psicanalíticos voltados ao bebê, à criança, ao adolescente e seus pais. As aulas abordarão o processo de desenvolvimento, partindo da família que aguarda o bebê, a chegada do mesmo, seu crescimento, as características da latência, as transformações da adolescência, as perturbações que podem afetar esse processo e sua abordagem terapêutica. O curso abre também espaço para que os alunos, em pequenos grupos, exponham suas experiências e discutam com os professores que coordenam a atividade.

O CINAPSIA irá oferecer ocasião singular para estudo, reflexão e debates científicos sobre o atendimento psicanalítico de bebês, crianças, adolescentes e suas famílias, contando para tanto, além do seu corpo docente (relacionado abaixo), com alguns analistas convidados, brasileiros e estrangeiros.

[1] Membro efetivo da SBPSP, docente do Instituto Durval Marcondes e psicanalista de crianças e adolescentes pela IPA, coordenadora do CINAPSIA.

[2] Membro efetivo da SBPSP, docente do Instituto Durval Marcondes e psicanalista de crianças e adolescentes pela IPA, diretora da DAC – Diretoria de Atendimento à Comunidade.

[3] Membro efetivo e didata da SBPSP, docente do Instituto Durval Marcondes, assessora da diretora da DAC.

 

 

 

Escola e Família: indagações e perplexidades em tempos críticos

De perspectivas diferentes, a Educação e a Psicanálise se ocupam do desenvolvimento humano e o diálogo entre as duas áreas tem se mostrado cada vez mais produtivo. Nos dias atuais, com as novas tecnologias e perspectivas que desafiam todos nós, o papel da família e da escola na educação das crianças vem sofrendo profundas mudanças e gerando questões que necessitam urgente reflexão.

Sobre o tema, vale conferir abaixo a ótima conversa que tivemos com as psicanalistas e membros da SBPSP, Heloisa Ditolvo, Marina Bilenky e Silvia Deroualle, coordenadoras da 5ª Jornada de Psicanálise e Educação, no dia 26/09, na sede da SBPSP. O evento é imperdível tanto para psicanalistas como para educadores atentos às perplexidades da nossa realidade atual.

Por que uma jornada que reúne os temas Psicanálise e Educação?

A psicanálise e a educação são áreas de estudo que abordam questões que possuem intersecções. Partindo de diferentes perspectivas, ambas se interessam pelo desenvolvimento humano e entendem a necessidade de se cuidar e de se criar condições favoráveis para que esse desenvolvimento aconteça.

Quais as principais interfaces entre ambas?

Ambas procuram entender e trabalhar com o ser humano que vive dentro de uma cultura que lhe é própria e ocupam-se em instrumentalizar esse indivíduo para que possa ser reflexivo, crítico, criativo, capaz de utilizar recursos próprios.

Em nosso percurso, nas Jornadas anteriores, fomos constituindo a ideia de que tanto a Educação como a Psicanálise estão comprometidas com a construção de lugares produtores de sentido, de narrativas e, em última análise, com a construção do humano.

Em tempos de rápidas transformações e novos paradigmas, o que muda no papel dos adultos de educarem as crianças? 

A tradição, o conhecimento passado através das gerações, não responde mais às inúmeras indagações que esses novos paradigmas nos propõem. Não possuímos um acervo de conhecimentos que nos auxilie a educar para o uso da internet, por exemplo. Como os problemas são novos, precisamos pensar novas soluções. Somos assaltados por situações no cotidiano que não podemos prever. Os adultos encontram dificuldade de exercer seu papel de autoridade diante de assuntos que não dominam.

Do ponto de vista da construção de conhecimento, como as novas tecnologias podem se tornar aliadas nesse processo? 

As informações são muito acessíveis hoje. Mas é preciso discriminar informação de conhecimento. O conhecimento implica dar um lugar e um sentido para o novo conteúdo. É preciso cuidar para que essas informações não sejam meros dados repetidos ou decorados, para que possam se transformar em material incorporado com significado.

O professor tem esse papel fundamental tanto no sentido de educar para o uso das novas ferramentas, quanto no de construir o conhecimento junto com seu aluno. E a escola pode usar as novas tecnologias para tornar suas ferramentas mais acessíveis aos alunos. O processo fica mais dinâmico, as crianças podem ter maior autonomia com a disponibilidade de informação oferecida.

Com a difusão de tantas informações pela internet e uma maior disseminação de conhecimento, é possível pensarmos em um sistema mais horizontal de educação, em que a criança goze de maior autonomia? (em substituição ao modelo tradicional hierárquico). Isso inclusive já vem acontecendo em algumas escolas que partem de filosofias semelhantes à Escola da Ponte, em Portugal. A questão é se o modelo se tornaria sustentável em escala maior, não apenas em universos pequenos.  

Isso já vem acontecendo em outras partes do mundo também. A Finlândia, cuja educação é considerada uma das melhores do mundo, mudou seu currículo mínimo para atender à nova demanda do mundo globalizado. A ideia é juntar as áreas de conhecimento, que seriam todas estudadas para a realização de projetos interdisciplinares, dando à criança maior autonomia para pesquisar e ênfase no trabalho em conjunto.

O adulto continua exercendo seu papel de autoridade nesse modelo, afinal não podemos negar que existe uma diferença hierárquica entre a criança e o adulto. O adulto precisa servir de referência à criança, orientá-la e ajudá-la a construir o conhecimento. O saber do adulto adquirido ao longo de sua vida é o que dá base para a sua autoridade.

Nossas crianças, as crianças do século 21, já nasceram dentro dos novos paradigmas; ou seja, são crianças com ferramentas digitais, mergulhadas no  mundo virtual da internet. Como fica a criatividade  e o brincar, temas tão caros para psicanalistas e educadores, em termos de construção da identidade dentro dessa nova realidade?

Para nos auxiliar nessa resposta, temos o documentário “Território do Brincar” (atualmente no circuito comercial) que faz uma pesquisa  com crianças de todo o Brasil sobre o brincar. O que essa pesquisa nos mostra é que há preservação de muitas brincadeiras  e que elas são as mesmas tanto para as crianças de “condomínio” das regiões sul e sudeste, como para as crianças do nordeste.
É surpreendente a criatividade das crianças, a preservação do imaginário e a grande habilidade motora. Essa pesquisa nos aponta que a criação, o imaginário, e a liberdade continuam sendo fundamentais na construção da identidade e do humano.
Parece que nossas crianças conseguem se movimentar tanto pelo mundo virtual como nas brincadeiras mais tradicionais que nos são familiares. A utilização das novas tecnologias representa avanços e resultados de desenvolvimento. Porém o excesso no uso ou o risco de uma substituição do real pelo virtual é que podem acarretar prejuízos na construção da identidade.

A existência de um universo virtual exerce que tipo de influência na construção e desenvolvimento de alguns aspectos da identidade? (ex.: ser popular na redes sociais pode contribuir para uma boa autoestima, ou vice-versa). 

O nosso futuro é a utilização cada vez maior do universo virtual. Sob esta perspectiva as crianças e os adolescentes, durante a formação de suas identidades, certamente são influenciados pelas experiências nas redes sociais. Ser aceito ou não como “amigo” no Facebook, receber muitos “likes” ou não receber a quantidade que esperava, sofrer algum tipo de bulling na internet, obter um sucesso meteórico porém fugaz são algumas das situações vividas no mundo virtual e que por vezes escapam ao controle dos jovens. A entrada neste universo volátil e surpreendente precisa ser acompanhada e compartilhada presencialmente por alguém do universo afetivo da criança, que possa orientá-la e educá-la para usar esta ferramenta.

A criança internaliza figuras ao longo de seu desenvolvimento com as quais se identificará.  É importante que sejam verdadeiras e reais e não espetaculares ou idealizadas como é comum encontrarmos no mundo virtual. Estas últimas certamente vão desapontar e frustrar oferecendo elementos não reais mas falseados e enganadores e que se apresentam como modelos impossíveis de serem atingidos..

O tempo de permanência que a criança fica conectada, a qualidade e natureza do material que ela acessa, a potência que os jogos imprimem no passar de fases, preparam a criança para enfrentar um opositor presencialmente?

Temos um instrumento muito poderoso, ferramenta útil, mas que deve ser usado com sabedoria.

A maior complexidade do mundo atual exige de nós mais recursos, do ponto de vista emocional? Ou é apenas uma questão de serem diferentes e outros recursos?

O mundo atual nos pede rapidez nas respostas, eficiência, performance. Com isso as pessoas tendem a agir de modo imediato, sem pensar, para dar conta da pressão. Sim, precisamos desenvolver mais recursos para lidar com tudo isso, para não nos vermos compelidos a agir de forma impensada só para responder às demandas que nos atropelam e pedem por respostas imediatas. Precisamos desenvolver ainda mais uma atitude reflexiva, poder nos dar um tempo para pensar melhor em cada situação de modo a poder ter respostas mais eficientes para aquele momento, mas que também sirvam para o longo prazo. Não precisamos de outros recursos, precisamos de um acervo maior de conhecimento para lidar com as novas situações a que somos expostos.

 

 

 

Adolescência

A adolescência é um período de transição da vida infantil para a fase adulta. Trata-se de um momento crítico do desenvolvimento, no qual – além das mudanças físicas definitivas – o indivíduo vai construir novos valores e vivenciar experiências afetivas e sociais que necessitam outros e recém adquiridos recursos psíquicos. A formação de uma identidade adulta e o enfrentamento de conflitos gerados pela perda da infância e o ingresso em uma nova etapa são aspectos centrais dessa fase. Também para os pais o momento é crucial. Reconhecer que os filhos cresceram e estão prontos (ou quase prontos) para seguir adiante não é um processo fácil. Sobre o tema, vale ler o ótimo artigo do psicanalista e membro da SBPSP, David Levisky.

Adolescência

Por David Levisky*

A adolescência é um fenômeno universal, presente desde o surgimento do homem simbólico. Trata-se de um período crítico do desenvolvimento humano por ocasião da passagem da vida infantil para a vida adulta. Ela decorre das transformações hormonais revolucionárias responsáveis pelo crescimento e manifestações da sexualidade adulta com o inicio da puberdade, que gera mudanças primárias e secundárias da sexualidade. As primárias, com o surgimento da menstruação – fruto da capacidade de ovulação e seu ciclo na menina e da ejaculação com a produção de espermatozoides no menino. As secundárias se caracterizam pela distribuição dos pelos, gorduras, seios, pênis, mudanças de voz, peso e estatura.

O fenômeno central da adolescência é a busca da identidade adulta. Nesse processo de transição há uma crise oriunda de conflitos gerados pelas perdas da vida infantil, do corpo infantil e dos pais da infância até a aquisição de novos objetos de amor, de múltiplas experiências afetivas, intelectuais e sociais. Renovação de valores, de ideais de si, da autoestima e de recursos para lidar com as realidades internas e externas e maior tolerância às frustrações fazem parte desse porvir. Vivem ambivalências e contradições e tentam integrá-las em um sentimento de si, para serem capazes de conter indecisões, dúvidas, incertezas que requerem tempo e experiência de vida na busca de maior autonomia.

Eles atravessam fases depressivas, impulsivas, explosivas, passivas, hiperativas, momentos de onipotência, de negação da realidade, de inconsequência e baixo teor de responsabilidade até que uma sucessão de experiências exitosas e negativas contribuem para a construção de recursos psíquicos para desenvolver uma percepção mais clara de suas possibilidades e limites. A configuração de uma boa autoestima é fator fundamental na elaboração e evolução da personalidade e da identidade. Necessitam incorporar em seu eu aspectos masculinos e femininos da personalidade; tarefa complexa que depende de fatores intrínsecos dos jovens e de suas relações com os pais e sociedade durante a vida.

O tempo de duração e término da adolescência dependem de fatores múltiplos e implicam requisitos impostos pela sociedade para considerar um indivíduo como adulto. Nas culturas indígenas, por exemplo, era necessário – uma vez atingida a maturidade reprodutora –, ser capaz de enfrentar os ritos de passagem que definiriam as condições de ser adulto para aquela sociedade e cultura como: saber caçar, pescar, cultivar, cozinhar, lutar, defender sua família e território.

Nas sociedades contemporâneas os ritos de passagem estão diluídos entre os múltiplos recursos a serem desenvolvidos para fazer parte da vida adulta. Não é suficiente alcançar a capacidade reprodutora e ter uma profissão. É necessário aprender a dirigir carro ou moto, passar no vestibular, aprender línguas, fazer mestrado e, se possível doutorado e pós-doc. Tudo isso faz com que o período de transição se alargue, podendo chegar tardiamente. Alguns atingirão a plena maturidade somente após os 35 anos, constituindo o que alguns autores chamam de “geração canguru”. São jovens que não querem e não precisam abandonar a casa dos pais para terem uma vida afetiva, social, profissional autônomas. Vivem uma independência relativa às suas conveniências. Conservam os privilégios da vida adolescente e querem usufruir das vantagens da vida adulta. O alargamento do tempo de vida dos pais tende a criar condições facilitadoras para a permanência dos filhos em casa. Pais e filhos podem formar um conluio inconsciente que protela a entrada dos filhos na plenitude da vida adulta.

Pode-se afirmar que o término da adolescência é variável e dependente de fatores psicológicos, sociais, econômicos, culturais, religiosos, políticos e históricos de cada sociedade dentro de sua cultura.

A adolescência é um período de transição sempre turbulento – crise da adolescência – tanto para os jovens quanto para as famílias. A turbulência dos jovens advém não só das transformações orgânicas, mas, também, dos processos de mudanças psicológicos, sociais, econômicos, políticos, religiosos e históricos que interferem na constituição do aparelho psíquico, da vida afetiva e social.

Ao se desvencilharem do corpo infantil, dos pais da infância e do seu próprio modo de funcionamento enquanto crianças necessitam assimilar novas experiências afetivas com a descoberta de novos objetos de gratificação amorosa e sexual, definição da identidade sexual, capacidades intelectuais e da vida em geral. Processos que os capacitam a lidar com recursos criativos para lidar com incertezas, dúvidas, frustrações e decisões ao enfrentarem novos desafios.

Durante essa fase de transição, há um enfraquecimento do ego, isto é, das funções que administram as relação do jovem com ele mesmo e com a vida exterior. Neste período o jovem se torna vulnerável à emergência de quadros comportamentais que lembram desvios (patologias), visto que ficam impulsivos, prepotentes, tendem a negar a realidade, não medem adequadamente as consequências de seus atos e são, por natureza, instáveis, insaciáveis e pouco responsáveis. A intensidade desses fenômenos se agrava quanto mais complexo e sofrido tiverem sido os primeiros anos de vida.

Com o enfraquecimento do ego – das capacidades de administrar os vários elementos psíquicos que o compõe – há uma tendência a que tais conflitos do passado interfiram na organização dos sentimentos, na forma de ser, sentir, pensar e agir. A adolescência é considerada como um segundo nascimento – uma oportunidade para reconfigurar e reordenar valores, formas de lidar com as angústias, projetos e recursos para alcançar formas de realização. A primeira oportunidade para o desenvolvimento adequado da atividade psíquica começa no início da vida e até antes mesmo da criança nascer, no imaginário dos pais.

Na adolescência, o jovem tem condições para adquirir novos valores e desenvolver a capacidade de ser continente de seus afetos, sonhos, desejos, fantasias, frustrações e realizações. São também capazes de reparar, refazer erros cometidos e escolhas inadequadas de caminhos. Para isso é fundamental que sua autoestima seja preservada e revitalizada. Sua inserção social é significativamente diferente quando eles se sentem úteis, valorizados e participativos da vida social.

Há aspectos na adolescência que se modificam tão rapidamente como a moda e o linguajar. Outros, se modificam lentamente como valores, ideais, filosofias de vida, modos de lidar com o sofrimento psíquico e formas de se defender ou de enfrentar situações. Há, ainda, mudanças tão lentas que parecem imutáveis, mas que se transformam no longuíssimo tempo como a elaboração do Édipo. A metabolização das relações triangulares entre filhos, (mãe) funções maternas e (pai) funções paternas tendem a ser muito lentas.

As famílias também passam por um grau de transtorno diante das necessidades de se desvencilharem do filho da infância até que possam reconhecer o desenvolvimento do filho(a) e incorporar que ele(a) não necessita mais dos cuidados dos pais da infância.

A delinquência na adolescência é reflexo de falhas precoces nas relações afetivas do início da vida e que emergem nos comportamentos inconscientes durante a crise da adolescência.

Uma sociedade na qual a desfaçatez e a corrupção são normas de convivência, elas servem de modelo de identificação para jovens em plena reestruturação de sua personalidade. A delinquência pode ser um grito de alerta para aqueles que a escutam como “eu existo, eu quero ser considerado, alguém me tirou esse direito e condição”. Nestes jovens a ferida da autoestima vem de longa data e se transforma em um modo de ser no mundo. Surge uma dose de esperança quando medidas psicosocioeducativas são tomadas com vistas à reinserção psicossocial.

Quando se vive num país carente de pai e mãe simbólicos, onde os elementos internos e externos reguladores da vida social são fracos ou ausentes, autoriza-se as várias formas de violência.

A democracia interna e social dependem da eterna vigilância. Entenda-se, da eterna consciência necessária e desejável para se alcançar o equilíbrio entre os elementos construtivos e destrutivos que estão sempre presentes em todos nós. É na adolescência que se pode ter vivências que facilitam o aprender com as experiências no intuito de simbolizar, sublimar e de modular os impulsos para a inserção no convívio psicossocial.

Onde há um adolescente é necessário que haja um adulto (pai, mãe, professor, tio, padrinho, amigo) mais experiente que o confronte no sentido de refletir e ponderar sobre seus atos impulsivos. É da existência do conflito que o jovem desenvolverá pontos internos de referência para analisar e modular suas ações e valores. O adolescente contribui para o desenvolvimento dos pais e da sociedade adulta por ser a parte mais ativa e renovadora da sociedade. Crescemos com as confrontações dos jovens que nos fazem ver e pensar diferentemente do que estamos acostumados ao introduzirem novas formas de ser, sentir, pensar e agir. Simetrias e assimetrias nas relações, limites entre público e privado, noções de liberdade versus responsabilidades estão presentes e colocam os jovens em confronto consigo mesmos, com seus pais e a sociedade da qual fazem parte. São energias que mobilizam e dão sentido ao viver criativo.

* David Levisky é psicanalista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e tem especialização nas áreas da Infância e da Adolescência. É PhD em História Social (USP).

Ciúmes dos irmãos

Afinal, o que está em jogo quando uma criança pequena depara-se com a chegada de um irmão mais novo? Quais sentimentos podem surgir? Como é possível compreender esse tipo de situação e eventuais conflitos?
Sobre o tema, vale conferir o artigo abaixo, da psicanalista Luciana Saddi.

Ciúmes dos irmãos

Por Luciana Saddi*

Quando os irmãos chegam, ou mesmo quando uma criança se sente ameaçada com a vinda de primos e amigos, o que está em jogo é a disputa pelo amor dos pais.

Imagine o que você sentiria se seu marido voltasse do trabalho trazendo outra mulher e lhe dissesse: – meu bem, te amo tanto que resolvi trazer mais uma esposa para casa!

É assim que muitas crianças se sentem diante da vinda de um novo irmão. Sentimentos de raiva, de menos valia e medo de perder o lugar já conquistado prevalecem. Com o passar do tempo sentimentos de amor podem se fazer presentes.

A chegada dos novos rivais não aguça apenas a forte rivalidade infantil, aguça também a ambivalência entre o amor e o ódio, aumentando ainda mais o sofrimento daquele que se viu ameaçado pela perda do amor dos pais.

Por mais raiva que a criança sinta desse pequeno irmão ou grande rival, ela também o ama e também percebe que seus pais esperam dela um sentimento bom e de cuidado para com o recém-chegado.

Fortes conflitos entre o amor e os impulsos agressivos levam ao sentimento de culpa e ao desejo de oferecer alguma compensação por um dano real ou imaginado.

Na vida adulta encontramos essa mistura de sentimentos não apenas em relação aos nossos irmãos, também em nossas relações sociais e no desejo de compensar e reparar tão forte para algumas pessoas. Muitos dos nossos comportamentos são moldados nos padrões infantis, nascidos de conflitos poderosos quando os sentimentos eram vividos de forma absoluta e sem disfarce algum.

*Luciana Saddi é psicanalista e membro da SBPSP.

DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E TECNOLOGIA

Atualmente, com os enormes avanços da tecnologia, as crianças estão cada vez mais expostas a aparelhos eletrônicos como smartphones, tablets, computadores e jogos em geral. Essa realidade – que é inerente ao nosso contexto histórico e cultural – afeta sensivelmente o seu desenvolvimento cognitivo e emocional e o seu debate mostra-se fundamental para reduzir alguns possíveis efeitos colaterais. Sobre o assunto, vale conferir a entrevista abaixo, com a psicanalista Maria Aparecida Quesado Nicoletti*.

1) As crianças são expostas, cada vez mais cedo, a smartphones, iPads, computadores, jogos eletrônicos etc. De que forma isso afeta o desenvolvimento tanto cognitivo quanto emocional?
Depende muito da etapa da infância que se examina. Pela construção da pergunta entendo que a questão se refere a crianças que estão na faixa etária pré-escolar e no início do período de escolarização fundamental.

Nessa etapa do desenvolvimento, por volta dos quatro ou cinco anos, talvez o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança já deixou para trás os estágios primários da formação de sua psique. Seu corpo e sua mente estão ávidos por experiências novas e isso faz com que a criança incorpore rapidamente a linguagem corrente, nomes e atividades motoras variadas. Em geral, se lhe for dado a escolher o que fazer, as escolhas recairão sobre atividades prazerosas, sejam elas participar de jogos nos quais têm que fazer esforços físicos, seja interagir com computadores ou usar as mãos para manusear objetos.

Começam aqui algumas das dúvidas sobre o impacto que instrumentos e brinquedos computadorizados terão sobre o desenvolvimento infantil. Nota-se, em diversos espaços de comunicação, a existência de opiniões a favor e contra a exposição das crianças dessa faixa etária aos computadores.

Do ponto de vista da psicanálise, que busca o desenvolvimento saudável e harmonioso das crianças contemporâneas, inseridas em seu contexto de vida, a exposição aos computadores e às novas formas de vivenciar e de aprender o que tais instrumentos trazem consigo constitui movimento adequado para o desenvolvimento cognitivo e emocional infantil, sendo pouco provável que tais atividades tenham impactos negativos, a menos que entre em cena o excesso.
Em resumo, a interação da criança com os computadores faz parte da cultura de nossa época e como tal, não deve ser evitada. Sua influência só será ruim quando houver excesso ou deslocamento de intenção, quando o computador é oferecido de maneira contínua, para mudar o comportamento imediato da criança, como ocorre quando se quer que ela concentre sua atenção no jogo, enquanto seu comportamento está “dizendo” que ela precisa de interação com seus pais ou professores.

2) Qual o papel dos pais na imposição de limites ou no incentivo do aprendizado do uso de aparelhos tecnológicos?

A informática traz oportunidades de comunicação e de interação social que nunca foram experimentadas pelo Homem e, por isso mesmo, ainda não sabemos como lidar com isso. Certamente, não será impondo limites sem fornecer razões que a criança possa aceitar, ou incentivando a criança a usar computadores para aprender sem cuidar que a aprendizagem se dê a partir de uma base apropriada de compreensão, que os pais exercerão as melhores de suas influências. Em linhas gerais, pode-se aconselhar os pais a criarem espaços de participação das crianças no modo de vida da família, oferecendo oportunidades para que as mesmas usem não apenas computadores, mas brinquedos físicos, ouçam a leitura de livros, participem de jogos que exijam atividade física, evitando a rigidez da imposição. Acredito que a “chave do sucesso” para limite/incentivo seja a moderação do uso da tecnologia nessa fase de desenvolvimento precoce.

3) Em que medida o uso de computadores, iPads etc. pode afetar a socialização das crianças?

A socialização das crianças depende de um conjunto de circunstâncias de natureza cultural, que incluem as origens da família, sua situação socioeconômica, suas crenças e práticas religiosas, bem como a qualidade dos vínculos familiares. Computadores, em geral, não têm o poder de influenciar o processo de socialização, salvo onde ocorram falhas relacionadas com uma das dimensões acima citadas como, por exemplo, quando a família descuida da socialização da criança, não lhe oferecendo as vivências necessárias para seu desenvolvimento pleno.

4) Como a tecnologia pode estar sendo usada para facilitar o processo educacional ou mesmo suplantá-lo? (Por exemplo, em um restaurante, ao invés de ensinar algum comportamento, os pais dão um iPad na mão da criança para ela “não incomodar”).

Em uma determinada época, a família “terceirizou” a educação dos filhos para a escola, que, além da responsabilidade do ensino formal, passou a substituir a tarefa de exercer também a “paternidade”. No momento, será que vemos a “terceirização” para os aparelhos eletrônicos? Nota-se que muitos pais parecem estar abdicando da importante tarefa de educar, porque educação requer trabalho. Será que essas crianças se sentirão atendidas com amor ou sentir-se-ão abandonadas, por não encontrar espaço para interagir com seus genitores? O excesso do uso de aparelhos eletrônicos também pode ser observado em adultos. É comum ouvir queixas de adultos reclamando que o cônjuge não deixa o Ipad de lado e que, por isso é difícil conversar.

*Maria Aparecida Quesado Nicoletti é psicanalista e membro da SBPSP.

A Nova Lei da Guarda Compartilhada

Quando um casal se separa, a guarda dos filhos emerge como uma questão central a ser considerada e, infelizmente, em torno da qual nascem os mais difíceis conflitos. No ano passado, uma alteração da nossa legislação tornou regra a guarda compartilhada, prevendo que o casal assuma em conjunto as tarefas e responsabilidades na criação dos filhos. A nova lei, portanto, exige dos pais separados uma postura de maior comprometimento e diálogo constante, algo que pode ser difícil de se alcançar diante da presença de mágoas e frustrações de um casamento que se desfez. O artigo abaixo, da psicanalista e membro da SBPSP, Telma Weiss, aborda o assunto com clareza e profundidade. Vale a leitura!

A Nova Lei da Guarda Compartilhada

Por Telma Kutnikas Weiss*

A guarda compartilhada que era uma opção, agora se torna norma.
Em dezembro de 2014 a Presidente sancionou o projeto aprovado pelo Congresso, que torna a guarda compartilhada regra no Brasil. Certamente é um estímulo ao diálogo, evitando um mal maior – a alienação parental: um dos pais, geralmente o que se sente abandonado por aquele que tomou a decisão de pôr fim à relação conjugal, passa a manipular os filhos para que se afastem do que “abandonou” o lar. Mas essas são exceções e não a regra.

Será que o legislador consegue mudar os costumes, as práticas de viver?
O articulista Hélio Schwartsman em um editorial da Folha de São Paulo em 14/01/2015, lembrou um bom ensinamento de Savigny, um dos maiores juristas alemães do século XIX: “Não é a vontade arbitrária do legislador que altera os costumes. Se queremos fazê-lo, melhor tentar a escola”.

O pressuposto dessa lei é permitir aos pais separados assumirem juntos as tarefas e responsabilidades na criação dos filhos. É uma mudança de perspectiva importante: fomentar o diálogo para uma posição mais responsável do ex-casal em relação aos filhos.

Guarda compartilhada não significa morar metade do tempo com a mãe e outra metade com o pai. Significa, principalmente, a participação do pai na educação dos seu filhos, trazendo mais equilíbrio das funções paterna e materna. Para que seja efetiva é fundamental que os pais consigam deixar de lado as mágoas e frustrações do casamento, o que sem dúvida é um desafio bem difícil.

Sendo uma modalidade mais evoluída de guarda, requer um certo grau de responsabilidade de ambos os pais. Mais ainda, exige amadurecimento emocional, assim como exige pensamento e muita reflexão.

O que fazer quando o casal não consegue se entender? Será que a responsabilidade de ser pai e mãe tem que ser convocada legalmente?

A prática clínica mostra que é muito difícil legislar sobre os afetos; que a decisão da guarda não resolve a questão da dor da separação.

Acompanho casos em que o juiz acordou a guarda compartilhada, mas o casal não conseguiu nenhum tipo de entendimento, pois a frustração com o fim do casamento é uma ferida que muitas vezes demora muito para cicatrizar. É uma dor narcísica que, quando não tratada e não cuidada, pode facilmente se transformar em ódio, em vingança.

Para que o ex-casal consiga construir um diálogo embasado no que é desejado – o bem-estar dos seus filhos – sugiro serem acompanhados por um profissional: um mediador, um psicólogo ou um psicanalista.

*Telma Kutnikas Weiss é psicanalista, membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e Diretora do Instituto Brasileiro de Direito de Família.

Querer não é poder

Qual é a importância de sabermos impor limites às crianças? Por que é tão difícil e, ao mesmo tempo, tão fundamental que possamos dizer “não”? Em que medida a experiência do “não” e a frustração são constitutivas e contribuem para o desenvolvimento emocional das crianças?
São essas as questões que norteiam o interessante artigo abaixo, da psicanalista e membro da SBPSP, Jassanan Amoroso Dias Pastore.

Por Jassanan Amoroso Dias Pastore*

Querer não é poder

Frustrar uma criança é impor-lhe limites, é dizer-lhe “não”, palavra que ninguém gosta de ouvir. A palavra “não” coloca um limite. Nós não podemos e nem devemos atender a todos os pedidos da criança porque os desejos têm uma medida muito maior do que a razão; nós queremos muito mais do que podemos. Mas sabemos o quanto é difícil para muitos pais exercerem a função de mostrar para a criança que querer não é poder.

Desde muito cedo o bebê escuta a palavra “não”, já que os pais querem protegê-lo de perigos dizendo “não pode”, “não pode mexer nisso”, “não pode comer aquilo”. Mas falar “não” para a criança é hoje uma situação que pode deixar os pais, avós e professores confusos e perdidos, pois eles costumam ouvir dois pontos de vista diferentes: de um lado, ouvem que não devem falar “não” para a criança, porque a traumatizariam e inibiriam seu desenvolvimento; de outro, ouvem que falar “não” para a criança é necessário para prepará-la para a dura realidade da vida, para discipliná-la e ajudá-la a se organizar e a amadurecer.

Na realidade, ambas as situações são fundamentais. É preciso tanto falar “não” como também dizer “sim”. Se evitarmos dizer “não” podemos nos sentir explorados e abusados pelo outro, e o outro não adquire a noção das limitações de cada pessoa.

Além disso, a criança só adquire o conhecimento do significado do “sim” se ela vive a experiência da negativa. Isso se dá, por exemplo, quando muito cedo na vida o bebê quer mamar e a mãe demora um pouco para atendê-lo. O bebê, então, não só ouve o “não” como vive a experiência da ausência, tem a sensação do “não”. Daí a criança vai aprendendo que não pode ter tudo o que deseja e na hora que deseja. Junto com essa experiência vai surgindo também a noção de que ela deseja algo.

Com o passar do tempo, a criança começa a ouvir o “não” dirigido às suas condutas, como “não pode fazer xixi no chão”, “não pode bater no irmãozinho”, etc. Embora desde cedo estejamos convivendo com as restrições, é muito difícil para as pessoas aceitar os limites. E muitas passam a vida inteira se rebelando contra eles, sonhando que podem eliminar os “nãos” da vida para daí se tornarem livres.

Mas, existem os limites em relação a nós mesmos: “não sei”, “não consigo”, “não tenho”, “não posso”. E, ainda, os limites das diversas pessoas com quem nos relacionamos: ele “não sabe”, ele “não está”, ele “não pode”. Além disso tudo, temos também os limites impostos pela lei e os da espécie humana. E, ainda mais, é preciso aguentar receber uma negativa, uma frustração, para daí ser capaz de dizê-la para o outro. Vejam o mar de limites com que nos defrontamos para viver. É desde pequeno que aceitamos, a duras penas, esses limites. É imprescindível que se aprenda a lidar com eles, porque não há possibilidade de evitá-los, o viver junto exige limites.

Observamos, com muita frequência, que as crianças não suportam ouvir “não” e reagem fazendo birra, esperneando, jogando-se no chão, enfim fazendo um carnaval. Em geral, para abafar o escândalo, os pais acabam por ceder, embora contrariados. E a criança vai criando a ideia não só de que sua agressividade tem muito poder, como também de que sendo agressiva ela pode conseguir o que deseja. Então surge o medo daquilo do que ela é capaz com sua agressividade, pois uma coisa é imaginar algo e outra é acontecer de fato. Portanto, sempre que possível, não deem muita importância para os acessos de fúria de seus filhos quando frustrados.

Muitos pais acham que é maldade um bebê ser submetido, tão precocemente, à experiência da frustração. Ao contrário: ela é inevitável e fundamental para o desenvolvimento de qualquer pessoa. É a partir da frustração, da ausência daquilo que o bebê quer que ele desenvolverá suas capacidades, como tentar substituir aquilo que ele não conseguiu por outra coisa, como imaginar a mãe, começar a pensar, aprender a berrar, reclamar, falar.

A criança pequena tem a ilusão de que é toda poderosa, o centro do mundo, e que tudo acontece por causa dela, que basta ela pensar para que aconteça. Com o passar do tempo ela vai percebendo que as coisas não são bem assim e que ela não é tão poderosa, não consegue tudo o que deseja e não é dona do mundo nem de ninguém. Enfim, ela vai conhecendo seus próprios limites e os dos outros, e entendendo que cada pessoa existe separada do outro e os outros vivem independentemente dela.

Se, por um lado, o “não” é uma espécie de estraga prazer, ele é também uma proteção e proporciona um sentimento de segurança. Uma criança dificilmente teria um desenvolvimento emocional e intelectual sem ter sofrido a presença do “não”, pois ela não conseguiria aprender a pensar e a falar.

*Jassanan Amoroso Dias Pastore é psicanalista e membro da SBPSP.