clínica psicanalítica

‘Depressão: expressões na infância’, ‘Criança: qual o mundo para ela?’ e ‘Fenomenologia e Psicanálise: o lugar do corpo na clínica’

Confira os resumos das apresentações de Audrey Setton Lopes de Souza, Vera Regina Marcondes Fonseca e Marilsa Taffarel no II Simpósio Bienal SBPSP – Fronteiras da Psicanálise: a clínica em movimento.

* * * * *

Depressão: expressões na infância

A depressão, como sintoma na infância, pode se manifestar, sim, por um lado, como apatia, autodepreciação, sentimentos de não ser amado pelos pais e pelos amigos, mas também como agitação, hiperatividade, dificuldades de aprendizagem, mentiras, comportamentos antissociais, agressividade ou mesmo sintomas hipocondríacos. Em psicanálise, não consideramos apenas o sintoma aparente, mas sim todo o aspecto dinâmico das manifestações e por isto é possível considerar alguns comportamentos como representando a tentativa da criança de se defender de angústias depressivas.

Para entender esta questão é preciso entender que no desenvolvimento infantil existe o que alguns autores destacam como depressividade, isto é, o desenvolvimento implica na elaboração de alguns lutos imprescindíveis para o caminho rumo ao crescimento.

Quando estamos no campo do infantil precisamos destacar a importância da elaboração do primeiro grande luto: a percepção da mãe como um objeto separado, com todas as angústias daí decorrentes, a perda da onipotência infantil, o medo da perda real deste objeto amado, a culpa, a responsabilidade, a preocupação com o outro.

Aí estaria a grande questão do desenvolvimento psíquico, como viver a depressividade sem ser vencido por ela e sucumbir à depressão ou ter que recorrer a maciças defesas para não entrar em contato? Este é o campo que gostaria de explorar para abordar as diversas manifestações da depressão na infância.

Assim destaco a importância de estarmos atentos a estas manifestações, que precedem a depressão propriamente dita, oferecendo uma escuta a estas manifestações como agitação, agressividade ou mesmo atitudes onipotentes e desafiadoras, podendo encobrir a emergência de estados depressivos. Outro aspecto destacado na literatura é que alguns destes sintomas podem ser entendidos como um pedido de socorro da criança para que o adulto possa olhar para ela e dar voz a suas angústias.

É sempre importante destacar que nenhum destes sintomas deve ser considerado isoladamente e sim dentro de um contexto mais amplo, como algo que revela a existência de um conflito. Às vezes pode ser uma manifestação temporária como reação a alguma perda, outras vezes, quando alguém se propõe a ouví-la, entendendo suas manifestações como uma forma de pedido de ajuda, isto permite que a criança consiga elaborar suas dificuldades. Assim sendo, o pedido de ajuda de um psicanalista deve ser pensado quando estes comportamentos se instalam ao longo do tempo, evidenciando o sofrimento infantil e a dificuldade de encontrar outras soluções para seus conflitos.

Em face da pandemia do Covid-19 que nos atingiu de forma abrupta, o foco desta mesa será aprofundar a conversa de um ponto de vista metapsicológico sobre os possíveis destinos que poderemos dar às marcas psíquicas deixadas no seu rastro: trauma, ausência de representação… sentidos possíveis?

Eixo 1: A clínica em movimento
Sábado, 22/8
das 9:00 às 10:30
Mesa: Depressão: expressões na infância
Leonardo Posternak (HIAE) e Audrey Setton Lopes de Souza (SBPSP)
Coordenação Monica C. A. Povedano (SBPSP)

*Audrey Setton Lopes de Souza é membro efetivo e docente da SBPSP, professora aposentada do IP-USP, Doutora pelo IP-USP, professora do curso de Psicanálise com crianças do Sedes Sapientiae.

* * * * *

Criança: qual o mundo para ela?

Para apresentar sua visão sobre o mundo suficientemente bom para o desenvolvimento da criança, parto dos seguintes princípios:

1- A adaptação da sociedade e do Estado às necessidades da criança, que implica também a proteção ao casal parental para que se dediquem à tarefa de criá-la, é um elemento fundamental (ainda que não suficiente) para o desenvolvimento de um mínimo de segurança básica, a partir da qual diversos desenlaces podem ocorrer.

2- Tal proteção é essencial, pois a vulnerabilidade e o medo modulam a infância do homem e seu desenvolvimento, sendo tarefa precípua dos pais e da sociedade criarem um ambiente em que o medo possa ser minimamente elaborado.

A elaboração dependerá tanto da realidade externa quanto dos recursos de transformação simbólica que permitirão à criança negociar com o perigo e o medo, sem expulsá-los imediatamente, o que levaria às defesas maníacas, mas também sem se deixarem massacrar e paralisar por eles.

Finalizo a apresentação com a descrição do sonho de uma infância em que tais condições seriam facilitadas pela sociedade e pelo Estado.

Sábado, 22/8
das 11:00 às 12:30
Eixo 1: A clínica em movimento
Mesa: Criança: qual o mundo para ela?
Ana Cristina de Araújo Cintra (Instituto Acaia) e Vera Regina Marcondes Fonseca (SBPSP)
Coordenação Marielle Kellermann Barbosa  (Instituto-SBPSP)

*Vera Regina Jardim Marcondes Fonseca é analista didata e docente da SBPSP, psiquiatra, Pós-doutora pelo IP-USP, Diretora do Instituto Durval Marcondes da SBPSP, membro do Editorial Board do Int Journal.

* * * * *

Fenomenologia e psicanálise: o lugar do corpo na clínica

O propósito da fenomenologia é voltar à experiência vivida (Lebenswelt) para cuidadosamente descrevê-la. Sem aventar hipóteses.

A fenomenologia propõe um contato anti-conceitual, anti-predicativo com o mundo. Suspendendo todos os julgamentos sobre as coisas para que delas recuperemos a presença.

Uma concepção fundamental da fenomenologia é da consciência como sendo sempre consciência de algo. Não ha separação entre ela e o mundo.

A psicanálise mostrou um recuo em relação à fenomenologia e ao perigo de perder sua potência transformadora caso permanecêssemos no plano dos fenômenos.

Nessa apresentação, falo brevemente sobre dois psicanalistas que, entre outros, puderam aproveitar o legado da fenomenologia em alguma de suas vertentes. Fábio Herrmann e P. Fédida, cada um a seu modo. Fábio, na redescrição que faz do método psicanalítico e Fédida, do qual tomo sobretudo um ensaio.

Fédida chama toda atenção para o que deve ser “posto entre parênteses”, suspenso: a margem exterior da linguagem – a da significação estabelecida – a fim de nos abrirmos para a margem interior, onde se encontra a “magia da linguagem”. (W. Benjamin)

O nome é para os gregos antigos – o lado interior da linguagem, o que fala a coisa mesma. Ele está dirigido para uma objetificação primária, uma metáfora original, enquanto a objetividade secundaria está na significação.

Precisamos esquecer nossas representações veiculadas por nosso hábito de pensar, dependentes do discurso por isso conscientemente harmoniosas, consonantes para irmos em direção ao dissonante que nos põe em contato com a alma do corpo.

Sábado, 29/8
das 9:00 às 10:30
Eixo 2: Psicanálise: diálogo nas fronteiras
Mesa: Fenomenologia e Psicanálise: o lugar do corpo na clínica
Miguel Calmon du Pin Almeida (SBPRJ) e Marilsa Taffarel (SBPSP)
Coordenação Mariangela de O. Kamnitzer Bracco (Instituto-SBPSP)

*Marilsa Taffarel é membro efetivo da SBPSP, docente do Instituto Durval Marcondes da SBPSP, psiquiatra pela Escola Paulista de Medicina, Doutora em Psicanálise pela PUC-SP. 

* * * * *

Acesse aqui a programação completa do II Simpósio Bienal SBPSP

Novos diálogos

Livro de Marion Minerbo atualiza reflexões sobre a clínica psicanalítica no mundo contemporâneo

*Matéria publicada na revista Vila Cultural edição 184 (Agosto/2019)

Três anos depois da publicação de Diálogos sobre a clínica psicanalítica, a psicanalista Marion Minerbo apresenta outro título que segue mobilizando uma audiência diversa, entre estudantes de psicologia, analistas e leigos sabidamente interessados em psicanálise. Lançado há pouco, Novos diálogos sobre a clínica psicanalítica (Blucher) foi escrito a seis mãos, como diz Marion para fazer referência a AnaLisa, sua interlocutora predileta. Trata-se da persona que ganha voz graças às irmãs Isabel Botter e Luciana Botter, colaboradoras do livro. Juntas, elas participam de conversas instigantes sobre temas significativos para a compreensão, reflexão e vivência da psicanálise neste século 21. “Com a teoria encarnada na clínica”, como escreve Ruggero Levy na contracapa do livro.

Marion e AnaLisa – ou Isabel e Luciana, que são formadas em psicologia e assumem o lugar de “jovens colegas” de profissão – dialogam com fluência capaz de “simplificar” conceitos e raciocínios dos mais complexos. Como pensa um psicanalista?, O supereu cruel, Depressão sem tristeza, com tristeza e melancólica e Ser e sofrer hoje são alguns dos capítulos do livro, que também revela possibilidades de comunicação, empatia e parceria típicas da nossa época, já que Marion conheceu Luciana virtualmente, quando ela editava o blog da Sociedade Brasileira de Psicanálise. A conversa entre as duas correu tão solta que evoluiu para uma parceria intelectual. Com igual interesse pelos temas em pauta, Isabel agregou-se à dupla e enriqueceu o encontro. “Para além das ideias e do texto, as duas sustentavam afetivamente meu esforço e investimento na escrita. E reciprocamente eu sentia que valia a pena me esforçar e produzir para essas leitoras perspicazes e generosas”, diz Marion, que é doutora em psicanálise, em entrevista à Vila Cultural.

Vila Cultural. O que distingue e o que há em comum entre os Novos diálogos e os que foram publicados em 2016?
Marion Minerbo. O primeiro volume, de 2016, nasceu graças a um convite feito pela editora do Jornal de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise, Marina Massi. Um dia mandei para ela um texto escrito como um diálogo, meio assim, do nada. Uma brincadeira. Ela se entusiasmou com forma e conteúdo, disse que era um “achado” e sugeriu que eu escrevesse uma série para ser publicada no Jornal. Então, os capítulos do Diálogos já nasceram sob forma de diálogos. E os temas eram os mais básicos. Este volume de 2019 teve outra origem. Quando pensei numa coletânea com minhas publicações mais importantes, era evidente que eu deveria continuar explorando a forma diálogo – que tinha dado tão certo no primeiro volume. Mas eu não tinha tempo nem forças para pegar esses textos e transformá-los em diálogos. Para começar, tenho horror a reler meus textos antigos. Conheci Luciana Botter quando ela cuidava do blog da Sociedade de Psicanálise. Na época, reconhecera o talento dela como leitora, crítica e editora. Foi por isso que, em meados de 2017, convidei-a para criar comigo o blog Loucuras Cotidianas. Tive, então, a brilhante ideia de convidá-la, e à sua irmã Isabel, para verterem minhas publicações da forma corrida para a forma diálogo. As duas tinham estudado psicologia. Isabel tinha também um trânsito pela psicanálise. Conhecendo o talento de ambas, eu apostava que elas conseguiriam fazer isso. Além disso, elas eram o próprio jovem colega! Quem melhor do que elas/ele para dialogar de verdade com as ideias do texto, para formular dúvidas, para fazer observações? Outra vantagem: eu conseguiria ler meus textos contanto que tivessem sido lidos amorosamente por elas. Se conseguissem transformá-los em diálogo é porque sua leitura teria sido, pelo menos, generosa. Fizemos um teste. Precisávamos saber se elas se sentiriam com autonomia suficiente para criar outro texto, e se eu conseguiria me reconhecer no trabalho delas. A questão era em parte técnica, mas sobretudo emocional: eu teria que dar a elas autoria suficiente para que tivessem prazer em trabalhar, e elas precisariam me conceder a possibilidade de reescrever o texto delas como eu achasse melhor. Deu certo porque para todas nós o mais importante era a qualidade do texto. O trabalho a seis mãos foi muito prazeroso. No meio do caminho surgiu a ideia de transformar o “jovem colega” genérico em AnaLisa – anagrama de análise –, minha interlocutora no blog. Por um lado, hoje em dia a proporção de psis mulheres é imensamente maior do que a de homens. Por outro, dava uma cara mais pessoal e verossímil aos diálogos. AnaLisa se tornou tão verdadeira para nós que foi natural convidá-la para escrever o prefácio. Afinal, quem melhor do que Bel e Lu para apresentar o livro? Uma palavra sobre os temas: se os dos Diálogos são 1.0, os dos Novos Diálogos 2.0.

VC. Guardadas as proporções, como você diz, por que AnaLisa, a voz das irmãs Botter, foi para você, na interlocução do livro, o que Fliess foi para Freud?
MM. Freud e Wilhelm Fliess se encontraram pouco durante os muitos anos de correspondência em que o fundador da psicanálise produziu intensamente. Também eu me correspondi por e-mail e WhatsApp sem conhecê-las pessoalmente. Só conhecia as fotos no Zap, com um gorro enfiado até o nariz. Eu me lembrei daquele filme Nunca te vi, sempre te amei. Mas o ponto em comum (com Freud e Fliess) mais importante foi a amizade amorosa que se estabeleceu entre nós. Para além das ideias e do texto, as duas sustentavam afetivamente meu esforço e investimento na escrita. E reciprocamente eu sentia que valia a pena me esforçar e produzir para essas leitoras perspicazes e generosas. Quando comentavam os textos eram, ao mesmo tempo, estrangeiras, com um olhar diferente do meu, e íntimas, capazes de compartilhar minha maneira de pensar. Na amizade amorosa, cada um se esforça para dar o melhor de si e para fazer brotar o melhor do outro. Ambos crescem, ambos saem transformados.

VC. O que é necessário para manter a disposição e a disponibilidade para o diálogo em uma época e uma sociedade que parecem tão pouco interessadas em dialogar?
MM. Dialogar de verdade implica em reconhecer no interlocutor alguém diferente de você, mas tão digno de valor como você. Um semelhante-diferente. Quando nos sentimos ameaçados, nos defendemos da ameaça com duas estratégias mentais: negamos ao outro o direito de ser diferente e negamos ao outro a condição de semelhante. Hoje, vivemos todos ameaçados, e isso em vários fronts ao mesmo tempo. Em tais condições de “salve-se quem puder” a disposição para o diálogo fica prejudicada.

VC. Quando você diz/escreve, entre outras coisas, que o inconsciente foi banalizado inclusive pelos analistas, como reflete sobre o futuro e os rumos da psicanálise?
MM. Se não me engano, escrevi que o inconsciente corre o risco de ser banalizado pelos próprios analistas. O inconsciente é um conceito complexo. Ele não tem existência concreta, material, mas produz efeitos concretos, muitas vezes absolutamente trágicos, na vida das pessoas. O psicanalista lê as relações entre pessoas e os fenômenos humanos com base neste pressuposto. Só que é uma leitura que subverte o senso comum. Por exemplo, um marido não bate na esposa porque é mais forte, mas porque se sente mais fraco. Essa leitura muda a abordagem do problema. Ora, o senso comum é poderoso, ele se impõe também sobre os psicanalistas. Nesse sentido, a escuta analítica é um instrumento que pode facilmente perder o gume. É preciso cuidar para mantê-lo afiado.

VC. O que lhe parece mais fundamental para a prática da psicanálise hoje?
MM. Hoje falamos em práticas da psicanálise, pois ela tem sido praticada em enquadres muito diversos, bem além do consultório. Acho que é preciso ter criatividade clínica. E quais são as condições para isso? De um lado, o psicanalista precisa ter internalizado muito bem o método da psicanálise, que tem como pressupostos inconsciente e transferência. De outro, ter um repertório teórico amplo. Precisa conhecer vários autores. Não é o paciente que tem que se encaixar na “linha” do analista. É ele que tem que conseguir ir até onde o paciente está.

VC. Que critérios usou para selecionar as dez crônicas do Loucuras cotidianas?
MM. Eliminei as crônicas que falavam de temas que apareciam nos outros capítulos do livro: Depressões, É muita areia para meu caminhãozinho, Não fui com a sua cara. Dei preferência a temas que mostrassem como a psicanálise interpreta certos fenômenos sociais que poderiam ser vistos como banais: gostar de cozinhar, a gourmetização da vida, vegetarianismo, o sucesso do funk Que tiro foi esse. Na mesma linha, mas abordando temas mais sérios, escolhi o fanatismo, o neoconservadorismo, a polarização. Aqui, meu interesse foi mostrar que, por mais que os detestemos, não adianta xingar o fenômeno social. Se ele está aí, é por algum motivo. É preciso interpretá-lo como sintoma social. Quando interpretado, revela qual é o sofrimento psíquico que está em sua origem. Por fim, escolhi temas de “utilidade pública”, como Você sabe colocar limites?, Brincar para se tratar e Você está podendo? (sobre empoderamento e autoestima). Teria colocado outras, gosto de todas, mas o livro ia ficar muito grosso e muito caro [risos].

Foto: A psicanalista Marion Minerbo entre as irmãs Luciana e Isabel Botter. Crédito: Michele Minerbo / Divulgação