cinema

Uma fábula de amor e medo

Adriana Rotelli Resende Rapeli*

” For You are everywhere…”

 

Triste essa a condição humana, em que prazer e tragédia andam juntas, diz Giles, no início do filme “A Forma da Água”, do diretor mexicano Guillermo del Toro.  Seres em mal-estar, porque convive em nós dimensões diversas, porque espécie ainda despreparada para a evolução que nos atropela. Incompletos, guardando resquícios primitivos, somos anfíbios: compostos de medo e de amor.

O medo é ancestral pré-verbal, pré-simbólico, regressivo à condição não humana de nossa herança, redutor de mentes a corpos pelo excludente foco para a sobrevivência, condenados a  inglórias e eternas guerras. O clima da Guerra Fria e da corrida espacial retrata no filme tal situação persecutória: o inimigo está em algum lugar, o território disputado.  Em ameaça constante à vida, como animais na savana fugindo de predadores, em lutas titânicas ou em meio à sofisticada civilização, o outro é o inferno.

O outro que ameaça minha existência, o outro cuja existência eu usufruo ou até me aproprio.  O outro que trato com desprezo, superioridade. Afinal, o outro que desconsidero, que escravizo, é o outro que, ainda que valentemente, temo. O estranho repelido por sua familiaridade incômoda, perturbadora, nos apontaria Freud. A singularidade que, no comportamento de grupo, é rejeitada como diferença, Bion nos lembraria.

Já o amor, ao contrário, é a superação do medo, sua transformação em sentimento, é nascedouro da condição para pensar, preconcepção de mentes, criador de humanidade.  O amor é sonho e a única vida humana de fato, porque a compreensão do outro, de seu medo, pode ser vivida como solidão da existência que, força vital, liga e cria almas. São duas em uma alma. O outro existe então, a seu modo, não à imagem e semelhança de deuses, mas na sua diferença e formas, em um universo diverso de possibilidades de encontros e de criatividade.

Se, como a personagem Elisa, me demoro na frente no estrito aquário-casulo que o medo me confina e faço contato com o olhar suplicante do outro, eu vejo, além das aparências e envoltórios, a alma. E é a minha alma que então sobreviveu ao medo de existir. Eu convido o outro a nascer, quebrar delicadamente a casca do ovo e respirar o ar que do mundo emana.  O mundo pode ser um lugar habitável. E a minha casa-mente pode ser o habitat de sonhos. Como na cena inicial, mergulhamos no ambiente onírico-cinematográfico de azuis esverdeados, intensos e inusitados. Um ar-mar fluido, diferente da realidade fática, feito da matéria dos sonhos que compõe a nossa alma, da rica fantasia que pode habitar a intimidade de uma pessoa. De qualquer uma pessoa.

A visão redentora de pequenos grandes personagens neste filme faz dele uma ode aos outsiders, aos incompreendidos, aos desajustados de um sistema que padroniza a felicidade a um retrato de família ideal. A protagonista do filme, uma tímida fair lady, evoca-nos com sua mudez a sereia que perde a voz ao viver na terra. Talvez como nós todos, que, depois de nascidos, ainda procuramos o lugar perdido de nossa infância pré-natal, aquática, thalássica. Erótica, Elisa busca o amor, o elo vital, preservado dentro dela como linguagem apesar de incompreensível, inaudível aos outros. Além do medo, o reencontro com as origens em uma nova dimensão. Assim é a simbolização, a linguagem que integra todos os níveis de nossa estrutura. Uma linguagem que, sendo também imagem, música, movimento, é como o cinema em sua plena realização.

O cinema guarda essa polivalência, talvez por isto seja a arte que ganhou rapidamente a universalidade, que rompe fronteiras e culturas. E são filmes como “A Forma da Água” que revitalizam o cinema. Valeria só pela cena em que do amor da mulher com o homem-peixe, o casal é a fantástica criatura que se forma na água que destila, dissolve barreiras e, como chuva fértil e respinga na plateia vazia do Cine Orpheu. O Oscar de melhor filme deste ano é ótimo cinema.

 

Adriana Rotelli Resende Rapeli é Membro Associado da SBPSP e SBPRJ.

Sobre “Roda Gigante”, de Woody Allen

Algumas das minhas impressões sobre o filme “Roda Gigante”, de Woody Allen, em cartaz nos cinemas: pesado, muito bom, belo, fotografia, cores e roteiro inspirados nos grandes melodramas de Douglas Sirk da década de 50 (“Written in The Wind” e, sobretudo, “Imitação da Vida”, com Lana Turner). Kate Winslet dá um show de interpretação. Certamente, com a personagem e atuação de Winslet, Allen refere-se à de Blanche Dubois de Vivien Leigh, à Martha, de “Quem tem medo de Virgínia Woolf”, interpretada por Liz Taylor e, no final, à Norma Desmond, de “Sunset Boulevard”, papel de Glória Swanson (que também era uma espécie de Medéia). O filme tem impacto e fica na cabeça.

O roteiro é bastante previsível. O desenlace já se vislumbra desde o começo, como nas tragédias gregas em que já se sabe o fim. Justin Timberlake faz um dos personagens da história e também o papel do coro da tragédia aos modos da antiguidade. A grande diferença é que as personagens que sofrem ou protagonizam grandes atos de violência vivem depois como se nada tivesse ocorrido. O diretor já propôs tramas semelhantes em outros filmes anteriores como “Crimes and Misdemeanors” e “Match Point”. Essa é uma tecla em que ele tem batido com recorrência. Não que o desastre fique incólume – as gerações seguintes arcam pelos feitos das anteriores. À exemplo do que acontece nas tragédias gregas “Oresteia” e “Tebana” com o destino dos personagens Laio, Édipo e Antígona, o filme de Allen tem o garoto piromaníaco. Uma visão trágica da condição humana na dimensão particular e, analogamente, na social.

Claudio Castelo Filho é analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e professor livre docente em Psicologia Clínica pela USP.

Nise – O Coração da Loucura

“Nise – O Coração da Loucura”, Brasil, 2016 – Direção: Roberto Berliner
Por Eleonora Rosset*

Quem será essa senhora de tailleur bordô, coque, salto baixo e bolsa, que bate com delicadeza na porta alta de ferro? Ninguém aparece. E ela, persistente, bate com um pouco mais de força. Nada. Então, com uma força surpreendente, ela esmurra a porta, até que alguém vem abrir.

Esse início do filme apresenta Nise da Silveira (1905-1999) à plateia que ainda não a conhece. Dá para notar que ela é uma pessoa que opta primeiro pela educação mas que, se preciso for, usa até a força para conseguir o que quer.

E foi preciso muita delicadeza e força mescladas para conseguir realizar o trabalho que ela fez no Centro Psiquiátrico Nacional, no Engenho de Dentro, depois que saiu da prisão da ditadura Vargas, acusada de ser comunista, onde ficou de 1934 a 1936.

Era um tempo no qual se confundia hospital psiquiátrico com prisão. Médicos e enfermeiros eram carcereiros e agentes de punição. O medo andava junto com a sujeira e o abandono, nos corredores e enfermarias daquele hospital.

A Dra. Nise (Gloria Pires, magnífica), única mulher entre os psiquiatras, foi logo afastada da prática clínica porque não concordava com lobotomias e eletrochoques. Acabou no lugar menos frequentado do hospital e com quase nada de verba, o STO, Setor de Terapia Ocupacional.

Ao chegar no local, cheio de lixo, ela arregaçou as mangas e começou o seu trabalho com balde e vassoura, ajudada por uma enfermeira de boa vontade.
Tudo limpo, ela convida os clientes (“pacientes somos nós que temos de ser com eles”), que vagam pelo pátio de terra, uns nus, outros vestidos em farrapos, para entrar:

“- Deixa que eles façam o que quiserem”, diz para Ivone, a enfermeira.
Aos palpites repressores do enfermeiro Lima (Augusto Madeira), ela retruca:
“- Cala a boca! O que eles falam aqui é matéria prima de nosso trabalho. Ouça. Observe. E cala a sua boca!”

Incansável, ela pesquisa prontuários e ousa abrir o “cofre”, a solitária onde Lucio, visto como capaz de matar, está encerrado há dias. Traz quem pode para o pátio e um jogo de bola é o início da aproximação entre ela e aquelas pessoas evitadas.

Logo, Nise consegue a ajuda de Almir (Felipe Rocha) que vai sugerir um novo caminho. Traz tintas coloridas e cavaletes com telas e assim começa o que hoje é o legado do Museu de Imagens do Inconsciente, inaugurado no Rio de Janeiro em 1952.

Seguidora de Jung, a quem escreve relatando seu trabalho, Nise acreditava na busca de uma linguagem que pudesse trazer à tona tudo aquilo que jazia no inconsciente de seus clientes. Via nas telas a história de cada um. Do caos inicial surgia o começo de uma integração. As imagens pintadas organizavam o que antes não tinha voz.

Mario Pedrosa (1900-1981), interpretado por Charles Fricks, o maior crítico de arte da época, vê artistas nos clientes de Nise e acontece a exposição “Os Artistas de Engenho de Dentro”.

A Dra. Nise da Silveira, em pessoa e com bom humor, fecha o filme e nos deixa com os olhos marejados.
Alguém do meu lado no cinema diz:
“Ah! Se existissem mais pessoas como ela…”

O excelente roteiro, baseado no livro “Nise – Arqueóloga dos Mares” de Bernardo Horta, a direção inspirada de Roberto Berliner, a trilha sonora brilhante de Jaques Morelembau, a fotografia impecável de André Horta e um elenco harmonioso, ajudam a contar a história dessa grande mulher.
Imperdível.

*Eleonora Rosset é psicanalista, membro da SBPSP e autora do Blog “Uma psicanalista vai ao cinema” (http://www.eleonorarosset.com.br/).

“Kuma, a segunda esposa” e o Édipo transcultural

Kuma, a segunda esposa” e o Édipo transcultural

Por João Baptista Novaes Ferreira França*

Um raro filme do cinema turco chegou até nós, exibido por poucos dias nas telas do Cinesesc, em São Paulo, possibilitando reflexões sobre uma situação de Édipo transcultural.

O complexo de Édipo foi descrito por Freud no contexto da sociedade vienense fin–de-siècle e deu margem a debates com psicólogos e antropólogos do início do século passado; mais tarde autores como Lacan, Klein, Britton e Bion trouxeram contribuições que enriqueceram as ideias de Freud ampliando o conceito para uma configuração edípica mais abrangente, que abria e expandia a visão de Freud.

No filme em questão, produção de 2012 do cineasta Umut Dag, de origem turca e radicado na Áustria, vemos os desdobramentos da cultura de uma família muçulmana oriunda de uma longínqua aldeia da Turquia, se estabelecendo em Viena, trazendo seus costumes e procurando se adaptar ao moderno mundo ocidental.

O tema inclui uma quase bigamia, que deixa o expectador algo perplexo até se inteirar da insólita situação de arranjo no qual a primeira esposa, Fatma, provê uma segunda esposa, a jovem Ayse, para o marido, Mustafa, e mais que isto, uma mãe para a família, uma vez que ela se via ameaçada de morrer brevemente, querendo deixar todos amparados e a família organizada. E a segunda esposa, Ayse, tem apenas 19 anos e poderia ser filha do casal.

Do ponto de vista de Mustafa – primeiro e segundo marido – e de Fatma, como primeira esposa, a situação revela um modelo admissível na cultura em questão. Do ponto de vista dos filhos e também da segunda esposa, Ayse, as configurações edípicas emergem.

As conjecturas apresentadas se referem principalmente à configuração edípica das personagens femininas.

Mal-humorada, sofredora e com um mau casamento, a filha mais velha exibe amor pelo pai e ambivalência acentuada em relação à mãe e, o que era de se esperar, rivalidade e ciúmes com Ayse, a segunda esposa do pai, numa conduta que permanece até o fim.

A filha do meio, adolescente, não aceita Ayse no início, revelando ciúmes e uma má disposição com a “intrusa”, mas acaba se identificando com ela, como libertadora do ethos familiar e rendida pela simpatia e transparência da nova mãe/irmã; e o filho caçula, um menino no período de latência, logo é conquistado por Ayse e mostra inequívoco amor a ela; enquanto que a mãe, Fatma, logo se identifica com aquela que poderia ser sua rival e estabelece com ela uma aliança – idealizada, como vai mostrar o desenrolar dos acontecimentos.

Ayse é bígama, mas apenas no que se refere ao casamento de fachada, situação que fica mascarada; na realidade o casamento é com o pai, enquanto que a relação com o “marido oficial” só vai se esclarecer depois.

Conjecturas poderiam ser feitas ao nível das fantasias. Como seria a configuração edípica de Ayse? Há o desejo de separar-se da primeira configuração familiar da qual pouco sabemos, e a aceitação de um contexto novo e complicado, embora seja ainda um duplo da situação da aldeia, enquanto passagem para uma libertação; fantasias permeiam as mudanças e invariantes.

Ayse é a personagem central do filme, uma mocinha ajuizada, muito simpática e colaboradora; é cumplice da insólita situação, aceitando logo o papel de filha mais velha e sucessora da mãe, em que pese ter que dormir com o pai, sob os olhos aprovadores da mãe.

Uma mudança brusca se dá quando ocorre a inesperada morte do marido; a dinâmica familiar se mantém algum tempo, há adaptações, e Ayse compartilha o leito da mãe, como se fosse filha privilegiada e na verdade amiga e cúmplice, na trama recentemente vivida.

Mas Ayse passa a trabalhar e pode sair da espécie de prisão doméstica; como moça atraente e jovem, acaba se envolvendo com um rapaz de sua idade. A grande confusão, mais trágica do que cômica, se prenuncia quando a família inteira vai ao trabalho onde Ayse se encontra com o namorado e podemos imaginar o que vai acontecer.

A mãe enfurecida quebra a aliança com Ayse e parte para uma terrível agressão.

O filme termina com algum acerto da situação, mas com um desfecho ainda em aberto; mas as mensagens principais, o universo cultural e os aspectos relacionais, a figurabilidade e a beleza artísticas já foram veiculadas.

Duas imagens, duas tomadas de cena, chamam a atenção por sua beleza e expressão; uma quando após a esperada operação de Fatma e a vinda da médica do centro cirúrgico para dar noticias, a imagem se esfumaça e a cena seguinte é a de uma pastagem, como se fosse um trigal, mas que já prenuncia um cemitério e um enterro, este cheio de surpresas.

A segunda cena de belo apelo cinematográfico se apresenta quando Ayse, ferida, recebe socorro da irmã, e está deitada ao lado do seu bebê que se mostra plácido e feliz, mas aos poucos percebe o ambiente perturbado e abre um expressivo choro de desespero.

Ainda destaco a chamada de introdução do filme, a imagem de um espelho que emoldura o rosto das duas personagens principais, a primeira e a segunda esposa; duas mulheres muito bonitas e expressivas.

A arte realiza, expressa e confirma neste filme uma particular e rica vivência relacional, para a qual a psicanálise tem o que agregar.

*João Baptista Novaes Ferreira França é psicanalista e membro da SBPSP

 

Psicanálise e cinema – “Livre”

Com a proximidade do Oscar, novos e bons filmes estão em cartaz. Um deles é “Livre”, baseado no livro homônimo de Cheryl Strayed que, aos 27, partiu sozinha para uma caminhada de 1700km, pela costa oeste dos Estados Unidos. Conhecida como Pacific Crest Trail, a trilha escolhida é desafiadora até para experientes montanhistas. No caso de Cheryl, além do percurso em si, a trajetória representou também uma intensa busca de si mesma. A psicanalista Eleonora Rosset fala sobre o filme sob um viés psicanalítico mas sem tirar a sua magia, para quem ainda não assistiu.

Por Eleonora Rosset*

“Livre”- Canadá, 2014

O luto faz agir estranhamente. Freud dizia que se não soubéssemos da perda que aquela pessoa sofreu, pensaríamos que ela enlouqueceu.

Assim, Cheryl foi atrás de drogas pesadas e sexo promíscuo quando sua mãe morreu. Queria se dopar para esquecer. Fazia tudo na vã tentativa de não pensar na dor que sentia. Achava que não aguentaria viver sem ela, que era seu norte. Aquela que protegia os filhos de um pai brutal. A que vivia cantando e amando as pequenas coisas da vida. Não que muitas vezes ela não tivesse desdenhado de seus conselhos.

A verdade é que só realizamos o tamanho da perda quando é muito tarde.

Mas a mãe (Laura Dern, cativante) tinha semeado bem a terra de sua filha (Reese Witherspoon, visceral). E ela se dá conta de que está se destruindo.

Começa então a viagem.

Ela cisma que vai fazer a trilha que vai do México à fronteira do Canadá. Compra o guia e lá vai Cheryl enfrentar os quase 1.700 quilômetros da Pacific Crest Trail. Deserto, montanhas, planícies áridas, florestas, neve. Paisagens deslumbrantes (fotografia de Yves Bélanger).

Muitas vezes é penoso para o espectador acompanhar Cheryl. Mas o caminho nos arrasta com ela.
Percebemos o medo, a dor física, a rebeldia e a coragem de enfrentar o desafio. Mas encarando as dificuldades do percurso, ela encontra energias até então desconhecidas. Porque a viagem mais importante é a interna. É o conhecimento de si mesma que ela busca.

E, finalmente, ela pode se lembrar de tudo. E chorar.

De repente, estamos iluminados. O rosto dela mudou. Encontrou o que tanto buscava.
Reese Wintherspoon está fantástica. Ela vive com todo o seu ser a história da verdadeira Cheryl Strayed, que perante a enormidade da tarefa a que se propôs, grita muito e com raiva, até que a paz é encontrada.

A presença distante de uma raposa que a acompanha, lembra a proteção da mãe. A natureza temida torna-se amiga e ela não está mais sozinha. Porque encontrou a mãe viva dentro dela mesma.

O diretor Jean-Marc Vallée, 51 anos, canadense, que dirigiu “Clube de Compras Dallas” no ano passado e ganhou três Oscars, leva o filme com talento, atento ao rosto expressivo de sua atriz, captando em “close” tudo que ela sente. Consegue mexer com o público do cinema.
Eu saí emocionada.

*Eleonora Rosset é psicanalista e membro da SBPSP. Tem um Blog sobre psicanálise e cinema. http://www.eleonorarosset.com.br/