Charlottesville

Racismo

Any Trajber Waisbich

“Devo fazer uma confissão – começou Ivan – nunca consegui entender como se pode amar o outro. A meu ver, é justamente o próximo que não se pode amar, só os distantes é possível amar…Para amar uma pessoa é preciso que ela esteja escondida, porque mal ela mostra o rosto o amor acaba”. Dostoiévski, F. (2012) Os Irmãos Karamázov; Vol. I Traduzido por Paulo Bezerra. São Paulo, Editora 34. Pg. 326.

Por que falar de assassinato, racismo, agressões, ódio, intolerância, terror, fanatismo, aversão ao outro e protestos em Charlottesville (USA) se estamos em São Paulo? Uma mulher de 32 anos foi recentemente atropelada e morta quando participava de um comício contra uma manifestação organizada por um grupo composto por brancos racistas, neonazistas e membros da Ku Klux Klan numa cidade do estado da Virgínia no sul dos Estados Unidos.

Temos aqui ingredientes suficientes para desencadear sentimentos díspares em cada um de nós.  De um lado, acompanhados pelo artista russo sentimos o alerta para o perigo ao descrever o que vai na alma humana sem subterfúgios. De outro, a ação violenta confirma a digressão sem poesia e distanciamento. Amamos aquilo que nos é familiar.

Freud escreve em 1921 um artigo intitulado “Psicologia das Massas e Análise do Eu” em que, como em textos anteriores e posteriores, raramente deixa de incluir a relação do indivíduo com o grupo ao qual pertence e as implicações decorrentes deste acordo tácito de convivência entre os humanos. Dialoga com este sujeito influenciado pelo grupo que altera sua forma de pensar e agir quando em bando. Este homem, ele mesmo sem face, fica sujeito a condições que lhe permitem livrar-se das amarras e manifestar, de forma aberta, suas predisposições para tudo o que é mau e que se esconde na alma humana.

Este homem, que por vezes renuncia à violência e à destruição pelo bem comum para poder ter momentos de satisfação na convivência com outros, também deflagra atos irreconciliáveis com o viver num mundo civilizado. Aliás, civilidade implica conviver com o diferente.

O homem é um ser em conflito, que ao mesmo tempo em que é capaz de conquistas em diversas frentes – tecnológicas,  sobrevivência diante de catástrofes e a luta contra a própria morte – também é capaz de lidar com esta dificuldade em aceitar regras sociais que restringem sua autonomia e condiciona o sujeito a viver em comunidade, porém em companhia de outros. Não subestimemos o sacrifício necessário, o de abrir mão da felicidade pessoal em favor do grupo.

Voltemos à cena em Charlottesville, como se não bastasse, o chefe do Estado Americano, Donald Trump, aponta uma equivalência moral entre estes dois grupos que colidiram na cidade, os perpetuadores da violência e os ativistas de diretos humanos. Pronto, reforço necessário para podermos discutir o papel da massa e seu líder nestas ações violentas em que o sujeito não se implica. E mais grave ainda, desculpa-se.

O comunicado sugere serem as brigas de caráter semelhante e, portanto, não haveria perdedores. Teríamos um conflito como tantos outros, de ideias, por assim dizer, que acabou mal para uma pessoa e resultou em alguns feridos.

Passemos a averiguar o papel do líder neste contexto.  O líder tem por atribuições ser o depositário de um saber inquestionável, ser o depositário desse sentimento tão caro ao homem que é a necessidade de ser protegido. O líder ocupa este lugar de facilitador de ligações afetivas entre seus membros e, portanto, é responsável pela fraternidade de iguais. Além disso, o indivíduo delega ao líder sua capacidade de discernimento, sua autonomia e sua moral – sempre individual – enfraquece-se.

Este mesmo líder, imbuído de tal poderes, naturaliza atos violentos contra outros grupos diversos do seu. Era o que faltava: pessoas autorizadas a odiar seus semelhantes por pequenas diferenças, como cor, raça, gênero, religião, e tudo aquilo que os faz singulares. Aquilo que agrega, segrega.

Então, qual o sentido de se falar destes atos violentos sem cairmos em respostas simplistas para problemas complexos?  Temos aqui, bem próximos de nós, questões similares àquelas desnudadas em Charlottesville.  Candidatos a líderes que constroem suas plataformas valendo-se da segregação entre nós e eles. Temos assassinatos em massa de índios e de quilombolas. Temos prisões repletas de jovens negros sem possibilidade de justiça.  Temos, ainda, lutas por terras e por dominação.  Temos a tendência a nos distanciarmos dos fatos banalizando-os, transformando-os em corriqueiros e vistos, muitas vezes, como lutas econômicas puramente.

Freud diria a partir do estudo da alma humana que não existe otimismo nesta relação entre o homem e seu meio. O que há, sim, é um descontentamento pelas frustrações impostas pelo coletivo à liberdade pessoal que a sociedade exige destes indivíduos. Como contrapartida à barbárie surge a Civilização quando os homens abrem mão de fazer “justiça com as próprias mãos”.

Foto: The Huffington Post

Any Trajber Waisbich é psicanalista e membro efetivo da SBPSP, professora junto ao Instituto de Psicanálise e membro da diretoria da SBPSP. Participou da equipe editorial do Jornal de Psicanálise nos anos 2012- 2016, contribuiu com resenhas de livros para a Revista Brasileira de Psicanálise, entre outras atividades.