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Homens mais novos, mulheres mais velhas: uma feliz combinação

Mirian Goldenberg, antropóloga e professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro, concedeu uma entrevista por e-mail ao blog da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) sobre um tema que tem despertado curiosidade e causado agitação social: homens mais novos casados com mulheres bem mais velhas. Autora do livro “Por que os Homens Preferem as Mulheres mais Velhas?”, lançado esse ano pela editora Record, Mirian, que estuda arranjos conjugais no Brasil desde 1988, chegou à conclusão de que essa é uma das combinações mais equilibradas, satisfatórias e felizes.

 

É preciso muita coragem para enfrentar os próprios preconceitos, medos e insegurança. Qual foi o caminho dos casais que você entrevistou para isso? O que os fez chegar a esse grau de superação dos próprios preconceitos?

No início, elas (mais do que eles) tinham muito medo e preconceitos. Afinal, são elas que são mais rotuladas e acusadas quando iniciam a relação. Apesar das resistências internas e externas, as mulheres decidem aproveitar o momento e “curtir” a relação, o que torna tudo sem expectativas, mais leve e divertido. Elas têm a certeza de que não vai durar, mesmo quando já estão casadas há 10, 20, 30 anos. Esta “insegurança” faz com que o casamento seja uma batalha diária, uma conquista de todos os dias. Paradoxalmente, a insegurança leva a uma segurança do amor, da parceria, da superioridade da relação que construíram.

 

Em algumas entrevistas você afirmou que a mulher é a que sofre mais com a aceitação da própria relação e com o olhar acusador do outro. Por quê?

As mulheres são mais críticas e inseguras com a inversão da lógica da dominação masculina. O “normal” é casar com um homem superior: mais alto, mais velho, mais poderoso, com mais sucesso e dinheiro, etc. Inverter esta lógica é questionar a própria lógica reproduzida pela maior parte das mulheres. O que incomoda muito!Assim, acusam as mulheres que invertem a lógica de serem ridículas, sem noção, periguetes, de não aceitarem a própria idade, de quererem se fazer de garotinhas etc.Interessante perceber que os homens pesquisados não enxergam suas esposas como mais velhas, mas como “superiores” às demais mulheres, principalmente às mais jovens. No início, elas têm muita dificuldade, muita insegurança e muito medo. Elas sofrem muito, principalmente no início. Acham que é algo provisório, que serão trocadas por mulheres mais jovens. Elas têm pânico de envelhecer. Só com o tempo, e com a certeza de que o amor deles é realmente especial e único, elas conseguem ter um pouco mais de segurança. No entanto, elas, muito mais do que eles, demonstram ter medo de perder o amor do parceiro, com o envelhecimento. A ideia de que elas são ou parecem mais jovens do que eles é compartilhada pelos dois. Tanto pela energia delas, a capacidade de fazer muitas coisas, de desejar se aventurar e fazer coisas diferentes, enquanto eles preferem ficar em casa vendo televisão e namorando, quanto pela aparência. Eles, em vários casos, parecem mais velhos fisicamente ou da mesma idade. As mulheres têm muito mais recursos para parecer mais jovens (tintura do cabelo, roupas, corpo etc). Mas, o mais importante, é que eles não enxergam a idade delas, isso não é importante para eles. Mas, para elas é muito importante. Daí a necessidade de reforçar que eles é que são mais velhos. Elas são superiores, mas não mais velhas.

 

Por falar em outro, por que essa situação causa tanto incômodo ainda que o casal pareça feliz, realizado e bem resolvido em relação à diferença de idade?

Porque questiona todos os outros modelos de casamento mais aceitos e legítimos socialmente. Porque questiona a lógica da dominação masculina. Porque demonstra que as mulheres têm poder de escolha. Porque mostra que as mulheres podem ser superiores. Porque revela que a juventude e o corpo-capital não são os principais atributos femininos. Porque mostra que estes casais são mais satisfeitos, equilibrados e felizes. E muitos outros motivos que estão no meu livro “Por que os homens preferem as mulheres mais velhas?”

 

Quais são os principais fatores de atração da mulher mais velha em relação ao homem mais novo? E deles em relação a elas? Depois da atração, quais são os atributos de um de outro que são fundamentais para a sustentação do relacionamento?

Eles dizem que elas são mais atraentes, mais interessantes, mais maduras, mais seguras, mais divertidas, mais carinhosas, mais compreensivas, mais companheiras, mais atenciosas, mais inteligentes, mais, mais, mais… superiores às demais mulheres, especialmente às mais jovens. Elas dizem que eles as fazem sentir mais atraentes, mais jovens, mais interessantes, mais, mais, mais….superiores às demais mulheres, especialmente às mais jovens. Quando a diferença de idade é maior, os preconceitos e estigmas são maiores. Eles precisam enfrentar as acusações e preconceitos dentro da própria família. Nos casos que pesquisei, estas dificuldades acabam fortalecendo o amor, o respeito e a admiração. A segurança se torna cada vez maior, porque eles precisam estar muito unidos e certos do que realmente querem. Eles lutam, cotidianamente, para manter a relação. São mais cuidadosos, mais atenciosos, mais compreensivos do que os casais que pesquisei anteriormente, que vivem relações consideradas “normais” ou “comuns”. Eles valorizam muito mais o outro, e não se perdem em briguinhas bobas, joguinhos de dominação e disputas tão frequentes nos casamentos.

Vejo que a maturidade dos dois, não apenas dela, faz com que o casamento seja mais satisfatório e feliz. Muito frequentemente, as mesmas pessoas que têm preconceitos são as que têm mais inveja da felicidade e da coragem do casal, pois é preciso ter muita coragem para enfrentar os próprios preconceitos, medos e inseguranças. Os pesquisados comparam suas esposas a mulheres pegajosas, ciumentas, infantis. Admiram a leveza, a maturidade, a segurança delas. Como elas achavam que não iria dar em nada, viveram plenamente cada minuto da relação, sem expectativas e cobranças. Puderam ser “a melhor versão de si mesmas”, mais divertidas, alegres, leves. E, exatamente por isso, eles se apaixonaram. Elas tentam continuar sendo assim todos os dias, já que sabem que a relação pode acabar a qualquer momento. Vivem intensamente o amor e o carinho, valorizam o parceiro, são mais compreensivas, carinhosas, cuidam mais do parceiro e da relação.

O fato de já terem sido casadas (todas com homens bem mais velhos) também é uma referência para elas. Elas sabem que o fim de um casamento e de um amor não tem a ver com a idade, e sim com o que fazemos no nosso dia a dia. Acho que o segredo dos casais que pesquisei é exatamente este: eles cuidam, são atenciosos e carinhosos todos os dias, valorizam o parceiro e sentem que são únicos e especiais.

 

Você que estuda diversos arranjos conjugais avalia, com base nas suas pesquisas, essa como uma das combinações mais felizes. Quais são as evidências disso?

O fato de terem que enfrentar tantos obstáculos e preconceitos faz com que eles briguem menos e brinquem mais. Aprendem a valorizar o que possuem e não o que falta (como os casais mais tradicionais). Somente nestes casamentos encontrei um maior equilíbrio e uma maior reciprocidade. O fato de enfrentarem tantos preconceitos, medos e inseguranças acaba fortalecendo o amor e a parceria. Eles enxergam nelas o que é invisível para os outros homens, elas valorizam neles o que é desvalorizado por outras mulheres. Não faço uma apologia desse tipo de arranjo conjugal, mas é inegável que, para os casais pesquisados, as esposas são superiores às demais mulheres. E os homens dão a suas esposas o que elas mais desejam: a certeza de que elas são únicas e especiais, em um mercado matrimonial claramente desvantajoso para as mulheres mais velhas.

 

Na sua pesquisa, você se concentrou em casais com mais de dez anos de relacionamento, mas você acha que de um modo geral as pessoas estão mais dispostas a experimentar combinações amorosas com parceiros de perfis diferentes? No caso de homens mais novos e mulheres mais velhas, histórias de figuras públicas e respeitadas como o Emmanuel Macron ou a Fátima Bernardes exploradas pela mídia podem encorajar?

O caso do Macron e Brigitte é maravilhoso justamente porque mostra que não é considerado “natural” nem comum um homem amar e casar com uma mulher muito mais velha. Como mostro no livro, se a diferença fosse menor, seria mais aceitável. Mas como ele tem a idade dos filhos dela, como poderia ser filho dela (e ela mãe dele), o caso se torna inaceitável para grande parte das pessoas, especialmente para as mulheres. Discuto no livro o tabu da idade associado ao tabu do incesto. As pesquisadas falam, com vergonha e culpa: “ele tem idade para ser meu filho”, “ele poderia ser meu filho”. Muitas têm filhos da idade do marido (ou mais velhos). Algumas chamam o marido de filho. Elas contam situações em que os maridos foram confundidos com os filhos, e sentem muita vergonha e sofrimento com o olhar acusador dos outros, principalmente das outras mulheres. Eles nunca falam o mesmo, e reagem quando são chamados de filhos. Dão beijo na boca delas quando percebem o olhar preconceituoso. Como Macron, eles têm muito orgulho, respeito e admiração pelas esposas. Estão casados há muitos anos e continuam com o mesmo amor, tesão e admiração. Para eles, elas são superiores às demais mulheres, por serem mais companheiras, mais interessantes, mais compreensivas, mais carinhosas e muitos outros MAIS. Não é a diferença de idade o mais importante para eles, mas a superioridade delas com relação às demais mulheres, inclusive (e talvez principalmente) às mais jovens.

O fato de mulheres famosas assumirem, cada vez mais, suas escolhas por homens mais jovens reforça a ideia de que é possível amar e casar fora dos padrões. No entanto, o fato de POUCOS homens famosos escolherem mulheres mais velhas, mostra que essa escolha não é tão legítima assim. Parece que só mulheres muito poderosas podem ser livres para escolher homens mais jovens. Precisamos de mais MACRONS!!!! Só é preciso lembrar que ele não era famoso nem poderoso quando escolheu Brigitte. O mais bacana neste caso, como acontece em alguns casos que pesquisei, é que ele continua amando, admirando e respeitando a mesma mulher por quem se apaixonou aos 15 anos.