auto conhecimento

Sobre a vergonha

Por Marina Kon Bilenky*

Quem nunca sentiu vergonha na vida? Com intensidade que varia desde o mais leve rubor até um forte sentimento de vexame, a experiência da vergonha é a vivência de uma emoção que pode ser profunda, dolorosa e universal, com efeitos duradouros.

Sentimento eminentemente humano, a vergonha tem muito a nos ensinar sobre nós mesmos e nosso mundo.

A vergonha nem sempre aparece de forma direta e é preciso identificar seus diferentes disfarces para que se possa lidar com ela. A arrogância, a solicitude extrema e o isolamento podem ser maneiras de lidar com esse sentimento, formas que escondem a vergonha por trás de uma máscara e que dificultam o processo de enfrentá-la.

O problema com a vergonha é o comportamento quase instintivo de ocultá-la. Mas e se procurarmos fazer o inverso? O aparecimento da vergonha é uma oportunidade para nos conhecermos melhor. Prestar atenção a seus sinais e não simplesmente se render a eles, poder receber a vergonha sem imediatamente tentar escondê-la, considerar a vergonha e procurar entender a que ela se refere, pode ser um caminho para entrar em contato consigo e perceber o próprio funcionamento.  Ao conhecer as forças que nos dominam, podemos modificar as condições em que vivemos.

*Membro da SBPSP, Marina Kon Bilenky é autora do livro “Vergonha” (Blucher), da série “O que fazer?”, coordenada por Luciana Saddi, Sonia Soicher Terepins, Susana Muszkat e Thais Blucher. O texto acima está no livro lançado recentemente e disponível nas livrarias

 

Psicanálise e cinema – “Livre”

Com a proximidade do Oscar, novos e bons filmes estão em cartaz. Um deles é “Livre”, baseado no livro homônimo de Cheryl Strayed que, aos 27, partiu sozinha para uma caminhada de 1700km, pela costa oeste dos Estados Unidos. Conhecida como Pacific Crest Trail, a trilha escolhida é desafiadora até para experientes montanhistas. No caso de Cheryl, além do percurso em si, a trajetória representou também uma intensa busca de si mesma. A psicanalista Eleonora Rosset fala sobre o filme sob um viés psicanalítico mas sem tirar a sua magia, para quem ainda não assistiu.

Por Eleonora Rosset*

“Livre”- Canadá, 2014

O luto faz agir estranhamente. Freud dizia que se não soubéssemos da perda que aquela pessoa sofreu, pensaríamos que ela enlouqueceu.

Assim, Cheryl foi atrás de drogas pesadas e sexo promíscuo quando sua mãe morreu. Queria se dopar para esquecer. Fazia tudo na vã tentativa de não pensar na dor que sentia. Achava que não aguentaria viver sem ela, que era seu norte. Aquela que protegia os filhos de um pai brutal. A que vivia cantando e amando as pequenas coisas da vida. Não que muitas vezes ela não tivesse desdenhado de seus conselhos.

A verdade é que só realizamos o tamanho da perda quando é muito tarde.

Mas a mãe (Laura Dern, cativante) tinha semeado bem a terra de sua filha (Reese Witherspoon, visceral). E ela se dá conta de que está se destruindo.

Começa então a viagem.

Ela cisma que vai fazer a trilha que vai do México à fronteira do Canadá. Compra o guia e lá vai Cheryl enfrentar os quase 1.700 quilômetros da Pacific Crest Trail. Deserto, montanhas, planícies áridas, florestas, neve. Paisagens deslumbrantes (fotografia de Yves Bélanger).

Muitas vezes é penoso para o espectador acompanhar Cheryl. Mas o caminho nos arrasta com ela.
Percebemos o medo, a dor física, a rebeldia e a coragem de enfrentar o desafio. Mas encarando as dificuldades do percurso, ela encontra energias até então desconhecidas. Porque a viagem mais importante é a interna. É o conhecimento de si mesma que ela busca.

E, finalmente, ela pode se lembrar de tudo. E chorar.

De repente, estamos iluminados. O rosto dela mudou. Encontrou o que tanto buscava.
Reese Wintherspoon está fantástica. Ela vive com todo o seu ser a história da verdadeira Cheryl Strayed, que perante a enormidade da tarefa a que se propôs, grita muito e com raiva, até que a paz é encontrada.

A presença distante de uma raposa que a acompanha, lembra a proteção da mãe. A natureza temida torna-se amiga e ela não está mais sozinha. Porque encontrou a mãe viva dentro dela mesma.

O diretor Jean-Marc Vallée, 51 anos, canadense, que dirigiu “Clube de Compras Dallas” no ano passado e ganhou três Oscars, leva o filme com talento, atento ao rosto expressivo de sua atriz, captando em “close” tudo que ela sente. Consegue mexer com o público do cinema.
Eu saí emocionada.

*Eleonora Rosset é psicanalista e membro da SBPSP. Tem um Blog sobre psicanálise e cinema. http://www.eleonorarosset.com.br/