autismo

Autismo e seus transtornos

Vera Regina J.R.M.Fonseca*

O termo Transtornos do Espectro Autista, bastante usado pelos especialistas na atualidade, significa que não apenas há graus variados de manifestação e gravidade do transtorno, mas também que se trata de uma designação muito ampla, que contém possivelmente diferentes condições, de causas diversas e diversas evoluções.

Poucos são os estudiosos do assunto que ainda acreditam que haja uma causa única para o autismo; o consenso é que vários fatores se combinam para que o transtorno se manifeste. Mesmo os fatores genéticos, que parecem ter um papel importante, não podem ser responsabilizados de forma idêntica por todos os quadros. Vários genes parecem estar envolvidos nos vários casos; além disso, sabemos agora que os genes não se manifestam incondicionalmente: há fatores no ambiente externo e interno que favorecem ou dificultam sua manifestação.

Assim sendo, temos uma condição que interfere no desenvolvimento da criança, particularmente na sua interação social e na comunicação, com efeitos importantes na capacidade de aceitar mudanças e novidades, de simbolizar e brincar. Este último, o brincar, é substituído por rituais ou “manias” e, por vezes, por um apego excessivo a certos objetos concretos. Como nossa espécie é eminentemente social, é possível imaginar a profundidade e abrangência dos prejuízos que a dificuldade precoce de interação acarreta no desenvolvimento.

Nas últimas décadas tem se notado um aumento importante na prevalência dos transtornos autísticos nas culturas ocidentalizadas. Muito se discute se tal aumento se deve à maior conscientização dos serviços médicos em particular e das famílias em geral e à maior sensibilidade dos questionários diagnósticos; entretanto, mesmo quando se desconta tal fato, não se pode explicar o aumento em sua totalidade. O que estará acontecendo em nosso mundo atual? Esta é uma pergunta que tem instigado inúmeros pesquisadores e profissionais, demandando atenção, estudos imparciais e dedicação constante.

O diagnóstico dos transtornos autísticos é eminentemente clínico. Não há exames para se chegar a ele, sendo necessárias a observação atenciosa e longa da criança, uma entrevista cuidadosa com os pais sobre o comportamento da mesma e seus antecedentes e, quando houver, uma análise dos vídeos domésticos e do histórico médico.

Há um outro consenso entre os profissionais que lidam com o transtorno autístico: quanto mais cedo for iniciada a reabilitação e o tratamento, maiores as chances de melhora. Como os primeiros anos são um período crítico do desenvolvimento psíquico e cerebral, é fundamental facilitar as interações para que a criança não viva no vácuo de experiências com as outras pessoas. Quanto mais tempo ela ficar isolada das transações com os outros, mais profundos serão os prejuízos em seu cérebro/mente.

E qual é o prognóstico? A evolução dependerá de vários fatores: em boa parte, da intervenção precoce, que implica tanto ajuda de profissionais como mudanças importantes na vida e na rotina da criança em casa, mas também de elementos da própria criança, como a rigidez dos comportamentos autísticos, a permeabilidade à presença e influência das outras pessoas e o grau de isolamento.

Qual tratamento é indicado? Há várias abordagens terapêuticas frente aos TAs; algumas focalizam as mudanças no comportamento da criança e outras, como a psicanálise, buscam mudanças na estrutura do funcionamento mental. A meu ver, as duas formas não são incompatíveis, desde que haja uma equipe disposta a um trabalho de colaboração mútua. Mas qualquer destas duas vertentes, de modo geral, vai demandar acompanhamento dos pais para auxiliá-los na compreensão da mente daquela criança em particular e no encontro de estratégias eficazes para estimulá-la para o contato, na contramão dos comportamentos autísticos rígidos e restritivos, marcados por rituais e preferências que impedem a relação da criança com as outras pessoas.

Vera Regina Jardim Ribeiro Marcondes Fonseca é médica graduada pela Faculdade de Medicina da USP- Residência em Psiquiatria no HCFMUSP, analista didata e atual diretora do Instituto de Psicanálise da SBPSP, doutora e pós-doutora pelo Instituto de Psicologia da USP- Depto de Psicologia Experimental

Robôs no tratamento do autismo…será?

O autismo é um tema que tem aparecido com frequência na mídia e também aqui no Blog. No dia 13/10, publicamos entrevista com a psicanalista e psiquiatra Vera Regina Fonseca para falar sobre autismo em adultos.
O post de hoje se contrapõe à matéria publicada no jornal O Estado de S. Paulo (04/10/2014), sobre a utilização de robôs no tratamento de indivíduos com algum TEA (transtorno do espectro do autismo). A reflexão foi feita pela psicanalista e membro da SBPSP, Maria Thereza França.
A discussão é ampla e segue aberta a todos que quiserem participar.

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Por Maria Thereza França

Sobre a matéria publicada recentemente no jornal O Estado de S. Paulo (04/10/2014) – Autista interage com robô que auxilia tratamento – faço as seguintes considerações:

Diz a matéria:

“O que parece ser um brinquedo pode ajudar a melhorar a interação das pessoas com autismo e, assim dar mais qualidade de vida a elas.”

“Quando o robô começou o gingado de capoeira, um dos pacientes levantou e imitou o movimento.”

Do experimento com o robô de tecnologia francesa participaram quatro crianças autistas atendidas por uma ONG. Segundo a mesma notícia, a Organização Mundial de Saúde divulga que há mais de 2 milhões de autistas no Brasil e 70 milhões no mundo.

Com os atuais conhecimentos, não podemos mais falar em “autismo” e sim “autismos”, pois é amplo o espectro a ser estudado.

A partir da descrição de Kanner em 1943, do Autismo Infantil Precoce, muitos estudos trouxeram importantes contribuições para o entendimento do que se passa com as crianças com autismo, entre elas as contribuições advindas da Psicanálise.

Os distúrbios que resultam em prejuízos importantes para o desenvolvimento como um todo, mas especialmente para a linguagem e as relações afetivas da criança, têm causalidade múltipla.

A Psicanálise não descarta a possibilidade de que existam fatores orgânicos ou mesmo genéticos, além das questões emocionais. Em conjunto com outras áreas do conhecimento científico, tem desenvolvido recursos para ajudar as crianças com autismo a saírem do universo em que se encontram encerradas, no qual o contato afetivo não existe, ou é tênue.

Necessitamos utilizar ferramentas próprias para que essas crianças possam vir a se interessar pelo humano e abandonar suas relações desvitalizadas, repetitivas e controladas (robotizadas).

A Psicanálise é construída sobre a premissa de que há uma força que move o ser humano, que o movimenta e o diferencia de qualquer outro animal e que as necessidades humanas vão além das biológicas e físicas compartilhadas com todos os animais. A linguagem, a capacidade de pensar, desejar, simbolizar, nascem com as funções corporais, mas a elas transcendem.

É importante que se possa compreender as produções das crianças com autismo, perceber que naquela criança existe um traço, potencialidades, um vestígio de sujeito que precisa desabrochar como ser humano.

É fundamental recriar as condições que possam favorecer o estabelecimento e/ou fortalecimento dos vínculos afetivos e, como consequência, o desenvolvimento das funções mentais, consolidando o vínculo com o humano, que se encontra pouco desenvolvido, em detrimento do contato com objetos concretos, que fornecem estímulos sensoriais, aos quais estas crianças se mostram fortemente aderidas.

Assim, vemos que esse experimento só se justifica no caso de se desenvolver inserido dentro de uma relação afetiva, com outro ser humano, para que o sentido do interagir, “brincar” com um robô (arremedo de gente) possa se ampliar e fortalecer o desenvolvimento de um psiquismo colorido pelas trocas afetivas.

A imitação pode ser um passo para as identificações humanas, porém, pode também cristalizar a adesão a padrões desvitalizados, tendência defensiva tão observada nas crianças com autismo.

As crianças, de um modo geral, hoje, estão perdendo a capacidade de brincar, ou melhor, a brincadeira tende a ocorrer como descargas físicas excitadas, agitação, chegando frequentemente à hiperatividade, o que representa a adesão ao movimento. Do mesmo modo, o uso de iPads como babás eletrônicas, ou a adesividade aos jogos eletrônicos, substitutos precários do contato humano, é cada vez mais estimulado.

Vale registrar que nem a atividade física, nem as mídias e jogos eletrônicos representam em si algo pernicioso, pelo contrário! A atividade física e lazer são saudáveis e estarmos conectados nos dá condições de inserção ao mundo atual. O problema diz respeito ao uso dos mesmos como condutas aditivas, sem que se tenha o entendimento da função a que se prestam: uma tentativa – ineficaz – de preenchimento interno por meio de sensações externas.

Como diz o psiquiatra Jairo Bauer (“As novas dependências”, O Estado de S. Paulo, p. A34, 24/08/2014):

“trocar interações sociais, interesse na escola e no trabalho e opções variadas de lazer pela busca ininterrupta de tempo para se exercitar ou jogar mostra que há uma dificuldade de controle, e, pior, quanto mais se faz, mais se sente que falta algo que ainda deve ser feito.”

E o que faltaria afinal?
Falta o investimento no fortalecimento de um mundo interno, de uma mente que seja capaz de lidar com as questões humanas do dia a dia, modular nossos sentimentos, ajudando a conviver com as agruras da vida e que seja fonte de verdadeira satisfação.

Será que nós seres humanos estamos dispostos a correr o risco de oferecer às nossas crianças já tão prejudicadas modelos robotizados?

*Maria Thereza de Barros França é psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

Falando sobre autismo…

Autism

O autismo é um transtorno de desenvolvimento que tem sido cada vez mais discutido não apenas no meio acadêmico, mas também na mídia. Atualmente, fala-se em transtornos do espectro do autismo (TEA), que englobam desvios caracterizados por um comprometimento na capacidade da criança de estabelecer contato e de interagir, de responder aos estímulos sociais e na comunicação verbal e não verbal. Devido à diversidade de sintomas encontrados no grupo dos TEA’s, hoje utiliza-se o termo espectro autístico.

A clínica do autismo é complexa e diagnosticar o transtorno é o passo inicial para que o tratamento tenha resultados positivos. Recomenda-se sempre a atuação de uma equipe multiprofissional, que tenha conhecimento sobre o desenvolvimento psíquico infantil. Nesse universo, a Psicanálise tem contribuído na detecção precoce dos sinais autísticos e também no atendimento de bebês e crianças que apresentam problemas de desenvolvimento.

Quem quiser saber mais sobre o que caracteriza o transtorno, quais os sinais comuns, o que fazer quando há suspeita de autismo, tratamentos e melhoras no quadro, entre outras questões, vale ler a entrevista que segue abaixo, realizada pela psicanalista Luciana Saddi com a psiquiatra e psicanalista Elisabeth Lordello Coimbra, especialista no assunto.

1. O que se passa com uma criança com autismo?

Inicialmente a criança tem dificuldade em estabelecer uma ligação afetiva com os pais e com as pessoas à sua volta, geralmente demonstrando interesse pelas coisas, principalmente as que estão em movimento. O primeiro sinal observado costuma ser o fato de que a criança não aprende a falar ou fala pouco e repete sons ou palavras isoladas. Pode apresentar agitação e movimentos repetitivos de parte do corpo, ou do corpo inteiro, voltando-se para estes estímulos e retirando-se do convívio e apresentando prejuízo no seu desenvolvimento.

2. É possível traçar uma linha comum quando se fala em um quadro de amplo espectro? Há graus diferentes de acometimento?

A linha comum se baseia nos sinais descritos acima: desenvolvimento prejudicado pela falta de contato afetivo, dificuldade ou atraso na fala e autoestimulação. Sim, há graus diferentes de acometimento, com os sinais se apresentando de forma tênue, até graus muito acentuados, com maior prejuízo ao desenvolvimento da criança. Além disso, os sinais descritos podem se acompanhar de outras manifestações, como por exemplo, não olhar nos olhos, não brincar, ter sensibilidade a ruídos e aparentar não sentir variações de temperatura.

3. Quais os sinais que nos levam a suspeitar que uma criança sofra de autismo?

Os sinais são estes já descritos: falta de contato afetivo, prejuízo no desenvolvimento da fala e os movimentos corporais. O importante é que o diagnóstico seja feito o quanto antes. Ele pode ser feito mesmo em bebês que interagem pouco com os pais, por mais que eles se empenhem para promover o contato afetivo.

4. Quais medidas podem ser adotadas diante de uma suspeita dessas?

A família, ao notar ou ser alertada para uma suspeita de autismo, deve conversar com o pediatra e os professores, para verificar se a suspeita se confirma. Em caso positivo, como a questão central do autismo tem a ver com o problema das ligações afetivas, o profissional a ser procurado deve ser da área emocional.

5. De acordo com a visão médica oficial o autismo não tem cura, mas tem tratamento? E qual o tratamento mais adequado?

A medicina se dedica ao estudo das doenças e de acordo com o ponto de vista médico, o entendimento acerca do diagnóstico fica mais restrito e o prognóstico mais limitado. Nós, psicanalistas, não ignoramos o diagnóstico, mas trabalhamos com a saúde, com a possibilidade individual de cada criança em retomar seu desenvolvimento. A oportunidade que este blog nos dá é importantíssima, pois podemos apresentar informações que não circularam na mídia televisiva. É necessário que os pais sejam informados que há esperança com o tratamento psicanalítico, frente à perspectiva da possibilidade de retomada do processo do desenvolvimento de seus filhos, que está prejudicado.

6. Temos como avaliar qual criança responderá melhor ao tratamento? Quais são os indícios de bom prognóstico?

Quanto antes for feito o diagnóstico e iniciado o atendimento melhores serão as chances de bons resultados. Evidentemente a criança cujo desenvolvimento não estiver por demais prejudicado, responderá melhor. O atendimento psicanalítico precoce poderá se contrapor às forças a favor da manutenção dos mecanismos repetitivos corporais, fato que estimula o uso do corpo e dificulta o desenvolvimento da vida mental da criança. Fundamental para a boa evolução do tratamento é contar com a colaboração dos pais.

7. E em relação aos pais, qual a atenção que se dá aos pais de uma criança autista?

Elizabeth: A atenção aos pais é um dos aspectos importantes, pois geralmente esses pais chegam muito enfraquecidos em suas funções paternas e também desiludidos, após peregrinarem por consultórios de vários especialistas. É importante construir junto com eles o entendimento do que se passa com seu filho e ajudá-los a desenvolver a continência emocional que a criança e eles tanto necessitam, para lidarem melhor com as dificuldades que enfrentam.

8. Quais as dificuldades com a escolarização? É recomendada a inclusão?

As crianças autistas apresentam, além da dificuldade de relacionamento afetivo, um importante prejuízo no seu desenvolvimento simbólico, ou seja, têm um funcionamento muito preso ao concreto, e necessitam ajuda para construírem um vínculo com o aprendizado. A inclusão é recomendada devido à qualidade da atenção e disponibilidade afetiva que elas demandam.

 

*Elisabeth Lordello Coimbra é membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), psicanalista de crianças e adolescentes pela IPA e Coordenadora da Diretoria de Atendimento à Comunidade da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

*Luciana Saddi é psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).