assédio sexual

Vamos conversar

*Any Trajber Waisbich

“Ver a representação da mulher de forma tão exposta e sensual pode parecer inadequada na atualidade, se considerarmos os movimentos feministas… Entretanto é necessário considerar a produção artística a partir de seu contexto, tomando cuidado quando fazemos análises do passado a partir de critérios do presente.”

José Augusto Ribeiro,  curador da exposição “No subúrbio da modernidade – Di Cavalcante 120 anos”. Pinacoteca do Estado de São Paulo, Set/2017-Jan/2018

 

Esta exposição poderia ser interditada a menores, ou nem ocorrer. Vivemos numa época perigosa para as liberdades.

Como psicanalista e mulher não me calo frente a este conflito, esta polêmica a respeito de assédio, estupro e violência contra a mulher nos mais diversos ambientes perpetuados por homens poderosos e nem tanto. Deixo claro que o poder exercido por um indivíduo sobre outro é prejudicial e possui consequências inimagináveis naquele que sofre maus tratos. Muitas vezes, o poder manifesta-se de formas violentas ou criminosas.

Falo sim de um lugar de privilégio. Sou branca, nasci numa metrópole, estudei em colégio público quando entrar neles era uma façanha para poucos. Estudei em uma Universidade de renome e me tornei psicanalista. Não vivi na pele encoxamentos diários e nem fui insultada por vestir o que achava bonito e o outro poderia ver como provocativo. Por não ser negra, pobre e não morar na periferia sempre andei no contrafluxo, este entendido não só literalmente. Locomovia-me desde muito cedo por meio de transportes públicos e fui encoxada, várias vezes.

Lembro-me ainda de um episódio ocorrido quando tinha uns 10 anos. Estava eu andando na rua onde nasci ao encontro de uma amiga quando um Fusca parou e pensei que queria alguma informação. O motorista abriu a porta do passageiro e vi a braguilha de sua calça aberta e um enorme pinto do lado de fora da cueca. Bom, acredito que vi, acho que era grande e o que me ficou disso foi uma enorme curiosidade e susto. Lembro-me de sair correndo. Como bem sabemos, a memória é fugidia e se atualiza constantemente.

Ao ler o artigo de Lilia Schwarcz no Jornal NEXO no final do ano passado, a respeito de sua experiência ao ser abordada por um homem no ônibus, lhe escrevi contando minha história. Respondeu-me dizendo que muitas mulheres estavam se pronunciando sobre as suas histórias secretas de violência quando adolescentes. Ao contrário de culpa, tema abordado pela autora, o que senti foi algo mais mundano e erótico. Espanto sim, interesse nascido do meu corpo que dizia algo que desconhecia com tanta intensidade. Não falei disto antes, vejo agora, por conta das emoções que aquele momento me proporcionou. Culpa não estava no cardápio.

Lembremos que, como dizia Freud, já em janeiro de 1905 em seu artigo “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”, (In Sigmund Freud, Edição Standart Brasieleira das obras completas de Sigmund Freud. Vol. XII. Pg. 149-159. Rio de Janeiro. Editora Imago. : Editora Imago. Trabalho original de 1912) que o desejo é perverso, infantil e polimorfo. E vai adiante, teoriza a partir da prática que a única forma de termos acesso a ele é por intermédio de fantasias, sonhos e atos falhos além é claro, dos chistes e jogos de palavras. Fantasias não são controladas por decretos, elas simplesmente ocorrem e são poderosas, disruptivas e causam desconforto no indivíduo. Invadir o território do outro tende a ser visto como invasivo.

Agora, a Psicanálise é transgressora, ela questiona o sujeito e o coloca frente a frente com seus desejos, pulsões e tudo aquilo que ignora. A Psicanálise não explica nada, ela intermedeia, por meio de seu Método, o contato do indivíduo consigo mesmo.

Como profissional, trabalhei na periferia com homens e mulheres excluídos que me viam com desconfiança e descrédito. Várias vezes fui questionada a respeito de minha função e da transformação que poderia surgir daqueles encontros em grupos, discutindo questões que não me eram familiares por serem eventuais. Pela primeira vez, deparei-me com questões sociais importantes de difícil solução e sem respostas fáceis. Aliás, respostas simples não existem.

Kaes, psicanalista francês preocupado com o lugar do subjetivo no sujeito e das relações intersubjetivas que formam o indivíduo, auxilia-me a trabalhar o que é singular a cada um, daquilo que é dado a partir da relação, do contexto social e principalmente das Ideologias por trás destas construções. (Kaes, R.; Um singular Plural, 2011, tradução Rouanet, L.P. Edições Loyola).

Longe de defender abusos, compartilho com intelectuais francesas o desconforto de se discutir algo tão radical com esta frugalidade de slogans assistidos por milhões de pessoas na entrega do Globo de Ouro. Manifestações referendadas por feministas mundo afora. Como apontou Pedro Diniz na Folha de S. Paulo, o preto nada básico deu lugar aos troféus que artistas empunharam e mostraram com glamour; acontece que eram pessoas, ativistas negras, representantes de minorias e que serão esquecidas na próxima onda.

No livro “A Violência Familiar” (Editora Edgar Blucher, 2016), Susana e Malvina Muszkat trabalharam o lugar da violência contra o masculino nas comunidades carentes e o desmembramento desta função e seus desdobramentos. Não posso deixar de pensar no sentido de fatos como estes virem à tona neste momento e desta forma.  O que o debate feminista tem a dizer sobre a violência de gênero contra homens?

O mundo do cinema é conhecido pelos seus abusos, contaram-me de Oprah ter saído numa ou em muitas fotos com o produtor Weinstein e ao lado de garotinhas ditas indefesas. Aí estava tudo bem, pode-se alegar sempre que não sabia da coerção e da força daquele poder. Estes atos de macho predador sempre foram utilizados como forma de submissão. E com isso não menosprezo a elucidação tardia, ela veio para ficar.

Estamos aqui numa área controversa: por um lado a sociedade civil exige um comportamento adequado e civilizatório de seus membros, como nos lembram  sociólogos e antropólogos em suas pesquisas; por outro o que dizer de todas estas regras que estão em voga hoje em dia? Homens execrados e considerados inimigos.

Regras estas que, do meu ponto de vista, servem para apartar, cercear e controlar de maneira perniciosa o encontro de seres humanos. Não devemos nos eximir de conversar sobre as leis que, por exemplo, vigoram na França onde a burca, vestimenta feminina em sinal de recato, é proibida nos locais públicos e com isso inviabiliza a liberdade de ir e vir às mulheres mulçumanas.

Não nos esqueçamos de que a Suécia é um dos países onde o suicídio é um dos mais altos do mundo e neste mesmo país pode passar uma lei onde tudo que for considerado sexual tem que ser consentido e falado entre as partes. Onde vai parar o imaginário? Sedução não deveria ser confundida com agressão.

Onde ficará o erotismo? Onde se alocará a sensualidade? E o véu que encobre e desvela os sentimentos e os relacionamentos? Toda vez que um homem se colocar na posição de demandante será interpretado com assombro e desconfiança? E quando mulheres quiserem se manifestar corporalmente e presencialmente seus desejos mais recônditos, terão espaço para se expressarem? É possível conciliar as demandas por relações menos desiguais com este erotismo e sensualidade?

Finalizando, seria possível avançarmos no debate e na prática, para uma conciliação entre estes mundos? Poderia a Psicanálise aportar este tipo de insumo? Acredito que sim, esta é a função da Psicanálise fora das fronteiras seguras para ela.

 

Any Trajber Waisbich é psicanalista da SBPSP, analista de adolescentes e adultos, membro efetivo, coordenadora de seminário temático sobre Psicanálise de Grupo no Instituto de Psicanálise. Secretária da diretoria, cargo eletivo.

*Foto: VejaSP/ “Bordel”, de Di Cavalcanti, integra a mostra “No subúrbio da modernidade – Di Cavalcante 120 anos”.

 

 

Precisamos falar sobre Perversão

Susana Muszkat

O caso recente do homem que ejaculou no pescoço de uma mulher num ônibus em São Paulo e foi liberado pelo juiz sob a alegação de que “não houve constrangimento, tampouco violência ou grave ameaça, pois a vítima estava sentada em um banco do ônibus, quando foi surpreendida pela ejaculação” (O Estado de S. Paulo, 1/9/17), disparou uma enxurrada de manifestações. Muitas de indignação com a sentença. Muitas outras endossando a decisão do juiz, justificando-a como absolutamente técnica, ao sentenciar o acontecido como uma “contravenção penal por ato obsceno”, ou ainda, na mesma linha, classificando-o como, o mais do que ultrapassado, “atentado ao pudor”.

Noticia-se, então, inúmeros outros casos de natureza semelhante. Na mesma semana, os jornais haviam noticiado o índice alarmante de estupros coletivos praticados em mulheres e meninas no Nordeste, bem como, o também revoltante número de abusos praticados diariamente no país, principalmente contra meninas.   

No caso que aqui tratamos, a moça do ônibus, logo após o ocorrido, foi colocada na mesma sala com seu agressor, num Juizado Especial Criminal, e submetida a uma série de perguntas altamente constrangedoras como: ‘você de fato viu o pênis do homem? ’ ou ‘ ele chegou a encostar o pênis em você? ’, cujo intuito alegado, era o de verificar se se poderia ou não caracterizar o ocorrido como violência de fato!

Ou seja, uma sequência de violências tiveram início dentro do ônibus e prosseguiram no âmbito do poder público, justamente aquele encarregado de zelar pela proteção e segurança do cidadão. Mas o que explica que haja tamanha dificuldade em reconhecer e caracterizar a violência contra a mulher como tal, mesmo quando praticada de maneira tão explícita? O que justifica que convivamos com uma condição endêmica de tais práticas? Penso que ambas perguntas apontam para um sintoma social.

Proponho aqui minha leitura sobre este fenômeno: o primeiro objeto de amor do bebê é, via de regra, a mãe. Mas o que chamamos de amor nesta fase da vida não é exatamente o tipo de ligação de amor romântico que conhecemos quando nos tornamos adultos. O bebezinho não percebe que sua mãe é uma outra pessoa, diferente dele. Sente, isto sim, que a mãe é um objeto de sua propriedade, uma extensão dele e que está lá onde ele o deseja, como já teorizado por um psicanalista de bebês e crianças inglês chamado Winnicott.

A mãe suficientemente boa, expressão cunhada pelo autor, se presta a ser este objeto que atende às demandas do bebê. Este é um estado de ilusão necessária na vida precoce do bebê. À medida em que cresce, se tudo se der de maneira satisfatória em seu desenvolvimento, a criança e depois o adulto, deve ser capaz de entender que aquela pessoa, sua mãe, é um sujeito diferente dele, com desejos e mente próprios, distintos dos dele. Entendendo isso, ele deverá então, ser capaz de tolerar a frustração de abdicar da mãe como um objeto que lhe pertence e escolher uma outra pessoa, um/a parceiro/a, com quem poderá, então, ter uma relação de trocas e parceria amorosa. A relação amorosa não pode ser uma relação de posse, uma vez que o outro não é um objeto e sim um sujeito.

Então, se na infância precoce de todo ser humano, é natural e desejável que a mãe se preste a ser objeto do desejo do bebê, na vida adulta, a perpetuação deste tipo de comportamento  configura perversão. Perversão é o ato de transformar uma outra pessoa, com uma singularidade própria, em objeto de uso de prazer pessoal, sem o consentimento desta.  Ao fazer isso, a pessoa é destituída de sua condição de sujeito e tratada como objeto. Esse é exatamente o caso de todos estes atos em que mulheres, meninas – ou qualquer pessoa em desigualdade de poderes -, são colocadas em situação de objeto, a serviço do desejo exclusivo de alguém, sem que sejam consideradas como um sujeito com vontades e direitos próprios.

O que isso tudo revela sobre a sentença do juiz no caso do ônibus?  Do meu ponto de vista revela que, quando um juiz julga um ato perverso como um ato menor, ele não está regido pelas leis que garantem a justiça e a ordem social, mas sim, pelas leis do infantil, que, quando atuadas pelo adulto, é perversa. Assim, ele é o ator que reproduz um sistema social.  

Outros dois elementos dão sustentação à manutenção deste código perverso, de violência endêmica contra mulheres. Um deles é o modelo da sociedade patriarcal que autoriza o homem a funcionar regido pela pulsão infantil, embora travestido de adulto. Ou seja, autoriza o homem adulto a acreditar que a mulher – representante da mãe – lhe pertence como objeto. Deste modo, o juiz no lugar de suposto saber, colabora na manutenção das crenças que regem as práticas entre homens e mulheres.

Outro elemento diz respeito à brutal defasagem dos lugares atribuídos a homens e mulheres no imaginário cultural. Este não corresponde às práticas sociais de fato. Estatísticas revelam que metade da força de trabalho do país é composta por mulheres, sendo ainda as mulheres, responsáveis exclusivas pelo sustento de quase metade das famílias brasileiras. O lugar infantilizado e fragilizado tantas vezes atribuído à mulher, não se verifica na sociedade contemporânea. Esses elementos associados, a meu ver, garantem a condição endêmica de violência no país.

Como nota final, vale dizer que na perversão, impera a vivência do indivíduo de que seu desejo e seu gozo pessoal estejam acima de tudo e sejam realizados independentemente dos possíveis danos ao próximo. Esse modelo, também endêmico no país como temos tristemente assistido nos últimos tempos, talvez nos dê pistas para entender o porquê da impossibilidade em verdadeiramente lutarmos para instaurar um modelo de igualdade e respeito entre todas as pessoas, a despeito do gênero.

 

Susana Muszkat é psicanalista e membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. E-mail: sumuszkat@gmail.com.