adoção

A curiosidade na adoção

Gina Khafif Levinzon

A curiosidade é compreendida, segundo o vértice psicanalítico, como uma função de saúde psíquica. Está associada ao impulso natural para o crescimento, mas depende de condições ambientais para que possa manifestar-se na sua plenitude. Klein (1921) associa a curiosidade ao instinto epistemofílico. Bion (1962) denomina Vínculo K a relação que existe entre um sujeito que busca conhecer um objeto e um objeto que busca ser conhecido. Identificamos já no bebê pequeno a exploração contínua de um mundo a descobrir e consideramos que nas crianças de todas as idades é natural haver perguntas sobre os assuntos mais diversos.

Quando falamos em crianças adotivas encontramos esse mesmo movimento no sentido de desbravar o desconhecido, acrescido de indagações sobre a história de sua família de origem genética. À pergunta: “De onde vim?”, somam-se várias outras: “Por que minha mãe não ficou comigo?”; “Fui amado?”; “Sou o causador da separação?”; “Matei minha mãe com meu nascimento?”; “Quem são meus pais?”; ”O que aconteceu?”…  Explorar esse universo da origem expõe a criança a situações de dor, por vezes de mágoa, e de contato com um campo cheio de lacunas incompreensíveis. Por outro lado, essa investigação permite que o adotado construa de forma sólida um sentimento de identidade, baseado na realidade. De modo geral, quando tudo corre bem, a dor é contrabalançada pela estabilidade e harmonia do lar adotivo. Ao explorar sua história e seus sentimentos, a criança fica livre para explorar o mundo.

Uma das dúvidas e angústias mais frequentes dos pais adotivos é quando e como contar à criança que ela é adotada. Há hoje um consenso geral de que a criança precisa saber de sua condição de adoção. Em geral, isso ocorre a partir das próprias indagações da criança sobre sexualidade, por volta dos três ou quatro anos de idade, quando ela quer saber de onde vêm os bebês. Essa pergunta a remete, assim como aos pais, diretamente à questão de sua origem. Costumamos dizer que o melhor para a criança é ter a ideia de que “sempre soube que era adotada”, que não houve o “dia da revelação”.

A experiência clínica mostra que as perguntas do filho sobre adoção são feitas quando há espaço psíquico para essa investigação.  Pais muito angustiados com relação à sua parentalidade podem reprimir, de forma consciente ou inconsciente, a busca de uma história anterior ou de um sentido para a separação da criança ou do adolescente em relação à sua herança biológica. Quando a esterilidade do casal adotivo não está bem elaborada, conversar com a criança sobre sua origem biológica significa assumir sua impossibilidade de gerar filhos. Nestes casos, há uma ferida narcísica difícil de ser superada, acompanhada pelo sentimento de castração da fantasia de continuidade biológica e da imortalidade dos pais (Levinzon, 2004).

Pesquisas realizadas mostram os prejuízos causados na aprendizagem pela dificuldade em lidar com a investigação sobre a adoção. Como estar aberto para aprender se há portas e janelas importantes fechadas no caminho do conhecimento?

Segundo Winnicott (1955), mais do que informações, as crianças precisam de pais confiáveis, que estejam ao seu lado na busca da verdade e que compreendam sua necessidade de viver as emoções apropriadas às situações reais. Elas têm uma capacidade incrível de descobrir os fatos, que são simplesmente aceitos como fatos. O mistério pode gerar um problema muito maior, e permite a criação de fantasias perturbadoras.

O medo de perder o filho inclui muitas vezes a ideia de que, sabendo de sua história, ele irá procurar os genitores. Afinal, quem são os pais verdadeiros? A insegurança dos pais adotivos não se sustenta na realidade. Os pais verdadeiros são aqueles que criam a criança por toda uma vida, que lhe dão seu nome, suas horas de sono, seus valores, seu amor, seus limites e seus cuidados. Em condições normais, o filho não irá questionar sua importância. Sua investigação servirá para que tenha uma noção mais inteira de si mesmo.

No campo da adoção, a curiosidade pode ser perturbadora para todas as partes da família, mas é essencial na constituição de bases verdadeiras. Nosso trabalho, como analistas, é auxiliar todos neste trajeto precioso que é a apropriação de si mesmo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Bion, W. – (1962) O aprender com a experiência. In: Os Elementos da Psicanálise. Trad. Jayme Salomão e Paulo Dias Corrêa.  Rio de Janeiro, Zahar ed., 1966. p.11-117.

Klein, M. – (1921) O desenvolvimento de uma criança. In: _______ Contribuições à Psicanálise.   Trad. Miguel Maillet.  São Paulo, Mestre Jou Ed., 1981. p.15-85.

Levinzon, G. K. –  Adoção. São Paulo, Casa do Psicólogo, 2004.

Winnicott, D. W. – (1955) A adolescência das crianças adotadas. In: In: Sheferd, R. – D.W.Winnicott- Pensando sobre crianças. Trad. Maria Adriana V. Veronese. Porto Alegre, Artes Médicas, 1997, p. 131- 140.

 

 

Gina Khafif Levinzon é psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, doutora em Psicologia Clínica pela USP, professora do Curso de Especialização em Psicoterapia Psicanalítica da CEPSI-UNIP e autora dos livros: “A criança adotiva na psicoterapia psicanalítica”, “Adoção” e “Tornando-se pais: a adoção em todos os seus passos”. E-mail: ginalevinzon@gmail.com

Falando sobre adoção…

Com organização da Sociedade Brasileira de Psicanálise de SP acontece, dia 09 de agosto, na sede da SBPSP (Av. Cardoso de Melo, 1450, Vila Olímpia), a 1ª Jornada de Adoção e Contemporaneidade, que tem como público-alvo psicanalistas, psicólogos, médicos, juristas e interessados pelo assunto. Durante o evento serão discutidas questões importantes relacionadas ao processo de adoção, tais como os aspectos jurídicos, os sentimentos de pais e filhos adotivos, a adoção inter-racial, a preparação para adoção, o panorama das mães biológicas detentas, entre outros. As inscrições já estão abertas e podem ser feitas pela página da SBPSP, no link http://tinyurl.com/o8sgqnl.
Para conhecer um pouco mais sobre o assunto, o Blog de Psicanálise conversou com as psicanalistas Gina Levinzon e Alicia Lisondo, organizadoras da jornada e membros da SBPSP. Confira abaixo a entrevista completa:

1. Por que uma jornada para discutir o tema da adoção?
O tema da adoção é essencial para a sociedade porque trata das necessidades mais básicas do ser humano que são prover uma família para uma criança e, ao mesmo tempo, um filho para aqueles que desejam exercer seu papel de pais, em situações em que os vínculos não podem ser biológicos. Estudar os diversos ângulos que permeiam o processo de adoção permite que se criem condições para o estabelecimento de relações saudáveis e sintônicas nas famílias que se formam.
Nossa Jornada sobre Adoção na SBPSP visa contribuir com esse olhar, ao levar o vértice Psicanalítico aos profissionais envolvidos com o tema, às instituições, aos pais adotantes e à comunidade de modo geral. Entendemos que a Psicanálise nos dá ferramentas valiosas para melhor compreensão do ser humano, e especialmente no campo da adoção compreender o que se passa com a criança e os pais é primordial. A Jornada tratará de temas como: os sentimentos de pais e filhos adotivos, a adoção inter-racial, os aspectos jurídicos do processo de adoção, a preparação para adoção, o panorama das mães biológicas detentas e a adoção em Israel e na Europa.

2. Quais os sofrimentos psíquicos mais recorrentes entre pais adotantes e filhos adotivos? Como preveni-los?
Do ponto de vista da criança, há de início o trauma da separação dos pais biológicos, as situações de desamparo e abandono, e a vida em abrigos onde esperam por pais que possam cuidar delas. O filho adotado teme reviver o trauma da rejeição. A insegurança nos vínculos de filiação pode ser potencializada ou elaborada segundo a função parental. Dizer à criança: “Você será devolvido ao abrigo” aumenta a insegurança. Por outro lado, a mensagem: “Eu sou tua mãe, seja o que for que aconteça” ajuda a criar um vínculo de segurança.
Do lado dos pais há as motivações para a adoção que precisam ser elaboradas. Frequentemente encontramos situações de esterilidade. Muitas vezes há uma longa espera para receber o filho, assim como a adaptação a uma criança que não foi acompanhada por eles desde o início de sua vida. Os pais necessitam conciliar o “filho imaginado” ao “filho real”, com toda a sua história anterior.
Muitas vezes os pais temem que o filho seja ou apresente problemas. Na verdade, dificuldades existem com qualquer filho, adotado ou não, e não podem ser interpretadas tendo como causa única a adoção. Outras vezes o filho é recebido como um herói, ou como “coitadinho”, e os pais o superprotegem ao invés de colocar os limites necessários para seu desenvolvimento emocional.
A preparação dos pais para a adoção é um dos pontos-chave para o sucesso deste tipo de filiação. Estar em contato com seus sentimentos, expectativas e temores, saber o que se pode esperar e refletir sobre como lidar com os desafios que vão surgindo contribui muito para isso. Não há fórmulas, pois as questões humanas são complexas. A prevenção é sempre um bom caminho a ser percorrido. Quanto mais cedo se possa intervir, com acompanhamento psicológico aos pais e à criança, melhores as possibilidades de desenvolvimento. Entendemos que a Psicanálise oferece ferramentas valiosas para este tipo de trabalho.
Também consideramos importante que as instituições que abrigam as crianças à espera de adoção possam contar com o auxílio de um analista. É fundamental para os cuidadores ter um espaço para refletir e compreender a configuração psíquica das crianças do abrigo. Estas instituições são os berços de vida e de desenvolvimento mental. Seu papel é fundamental para estimular o investimento afetivo nas crianças, e para propiciar que a criança seja agente, autor, que aprenda a tomar decisões. Sugere-se que sejam estimulados jogos, brincadeiras, representações teatrais. Da mesma forma, construir a história de vida e registrar em álbuns e filmes os colegas do abrigo, do quarto compartilhado, da equipe permite que a criança sinta que tem uma existência que vale ser lembrada. Acontecimentos importantes como aniversários ou primeiro dia de escola podem ser registrados. Assim, quando adotada, a criança levará, além do prontuário médico, uma história de sua vida. O que a ajudará no desenvolvimento de seu sentimento de dignidade, auto respeito e autoestima.

3. Recomenda-se algum tipo de preparo psicológico antes da adoção, para pais e eventuais irmãos?
A Nova Lei de Adoção (Lei n. 12.010/09) estabelece que os futuros pais devem se preparer para a adoção. Frequentar grupos organizados pelos próprios fóruns não é obrigatório, mas é aconselhável. Para os pais, esses grupos funcionam como os cursos pre¬paratórios que as gestantes e seus companheiros.
Além desses grupos, é importante também o trabalho psicanalítico com os futuros pais adotantes. O psicanalista tem compromisso ético com o sigilo e a intimidade. Não julga nem avalia. E ajudará os pais na tomada de consciência da rede de emoções, fantasmas, projetos identificatórios, sonhos, expectativas e o lugar desse filho na história da família, de modo a lidar melhor com os diversos passos do processo. Os irmãos também necessitam de preparação para a chegada do irmão. Muitas vezes vão buscar o irmão adotivo junto com os pais no abrigo.
Crianças maiores necessitam de um período de convivência e preparação até que a adoção seja efetivada, já que até então, sua família era constituída pelos profissionais do abrigo. Laços que foram criados terão que ser desfeitos.

4. Existe um perfil psicológico das pessoas que buscam adotar uma criança?

Os pais podem apresentar uma situação de esterilidade por motivos fisiológicos, em alguns casos psicológicos ou por doenças diagnosticadas. Podem ter tentado métodos de fertilização assistida sem resultado, com o sofrimento potencializado ante reiteradas frustrações. Com as atuais mudanças na família, encontramos também entre os adotantes casais homossexuais e famílias monoparentais. Há ainda quem não esteja mais em idade de procriar biologicamente e aqueles que optam por criar um filho adotado mesmo sem problemas para engravidar.

5. De que maneira a psicanálise pode ajudar famílias com filhos adotivos?
A psicanálise pode atuar nos diversos momentos do processo de adoção:
– Na preparação dos pais para adoção;
– No acompanhamento aos pais depois de realizada a adoção. Eles expõem suas dúvidas e angústias e encontram um espaço para pensar em conjunto com o psicanalista;
– No trabalho com a criança em psicoterapia, quando necessário;
– No trabalho com os pais em psicoterapia, quando necessário;
– No trabalho psicoterapêutico com a família ou com os irmãos, quando necessário.

6. Do ponto de vista psicológico, é importante para a criança saber que ela é adotada? Em que momento isso deve vir a tona?
É essencial a criança saber que é adotada. Ela tem o direito de saber sua origem para construir um sentimento de identidade baseado na verdade. Afinal, se fechados os olhos para sua própria história, fecha-se também a possibilidade de aprender o que vem de fora.
Normalmente a conversa sobre a adoção acontece quando a criança começa a se interessar sobre de onde vêm os bebês. A pergunta “como nasci” leva diretamente ao tema “de que mãe nasci”…
A verdade pode ser compartilhada entre pais e filhos como um gesto espontâneo e não como obrigação moral. A conversa sobre a adoção surge quando os pais estão abertos a essas questões e permitem que os filhos tenham curiosidade e desejem investigar. Os pais precisam estar seguros quanto ao seu papel: eles é que são os verdadeiros pais.

7. Como lidar com a vontade do filho adotado de conhecer os pais biológicos?
Nem todos os filhos adotados desejam conhecer seus pais biológicos. Quando manifestam esse desejo, os pais devem apoiar o filho nesta busca, desde que ele já tenha idade para isso. É aconselhável que se espere a entrada na vida adulta, para que o adotado tenha condições de lidar melhor com a situação. A busca pelos pais biológicos é um passo na busca da construção de um sentimento de identidade própria. Conhecê-los não significa de modo algum renegar os pais adotivos.
Cada caso tem sua singularidade e especificidade. É preciso saber a verdadeira disponibilidade interna dos pais adotantes para esse encontro. Também é indicado avaliar se há um desejo legítimo dos filhos adotados, porque esta questão pode ser usada como ameaça, chantagem, ou confronto na crise do adolescente diante de pais adotantes inseguros, assustados e temerosos de vir a perder o lugar de pais. Também é importante pensar com bom senso e não perder o contato com a realidade. Nem sempre é possível encontrar os pais biológicos sofridos que não tiveram a chance de cuidar do próprio filho…

ALICIA DORADO LISONDO
Psicanalista Didata, Membro Efetivo da SBPSP. Psicanalista de Crianças e Adolescentes da SBPSP. Psicanalista Didata do GEP de Campinas. Coordenadora do Grupo de Estudos sobre Adoção da SBPSP. Docente na SBPSP.

GINA KHAFIF LEVINZON
Psicanalista, Membro Efetivo da SBPSP. Doutora em Psicologia Clínica – USP. Coordenadora do Grupo de Estudos sobre Adoção da SBPSP. Autora dos livros: “A criança adotiva na psicoterapia psicanalítica”, “Adoção”, e “Tornando-se pais: a adoção em todos os seus passos”. Docente na SBPSP.