Tolerância x Intolerância

Manifesto da Diretoria da SBPSP pela defesa da democracia e contra o autoritarismo

A Diretoria da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo acredita ser importante e necessário se manifestar frente aos últimos acontecimentos e ao clima que se estabeleceu em nosso país.

A psicanálise sempre teve como valor máximo a coragem de enfrentar a verdade, defender a liberdade do indivíduo, o respeito ao grupo, e a tolerância em face às diferenças. Esta disposição é base de nosso trabalho clínico e do conhecimento que adquirimos, ao longo dos mais de cem anos de nossa história.

Estes valores são imprescindíveis para construção de uma sociedade democrática e da nossa prática; repudiamos toda e qualquer ameaça a estes princípios.

Assim, vimos reforçar nossa preocupação e necessidade de unirmos forças contra o perigo de perdermos nossos valores de base e, assim, nossas condições de exercício da cidadania e da psicanálise.

A história nos serve como alerta; saibamos levá-la em conta!

Diretoria
SBPSP

O “pensamento” fascista e a função po-ética da psicanálise

*Ricardo Trapé Trinca

Isso que escutamos é o estalar de nosso “Ovo da Serpente”[1]? Ah, mas que estranho fascínio é esse exercido sobre nós, que perturba com um choque inebriante! E, enquanto esperamos nascer um monstro horrível, o que vemos é um filhote chamado propaganda, uma sereia que cativa e engrandece… Ah, mas como nos atrai essa sedutora vontade de poder!

Para nós, psicanalistas interessados nas interfaces entre a sociedade e a clínica contemporânea, os tempos atuais têm sido extremamente inquietantes e perturbadores. Escutamos de nossos pacientes com frequência cada vez maior a ideia de que a vida pública e privada deveria ser organizada com autoritarismo e rigidez. De que é preciso se aliar às pessoas de “bem”, contra a corrupção, etc. O que nos faz apreender um espírito justiceiro, segregador e antidemocrático, que cresceu e se desenvolveu entre nós. Este texto é um pedido para que observemos tanto em nós mesmos como em nossos pacientes tal presença, digamos, funesta e dissociada.

Vamos tentar descrevê-la. Podemos observar inicialmente o predomínio de um intenso sentimento de frustração, no qual o orgulho pessoal parece ter sido ferido ou roubado. Trata-se de uma frustração pessoal, mas também social. Essa frustração associa-se à ideia de que algo ou alguém destruiu a esperança de se ter uma vida melhor. Uma vida em que não só haveria menor necessidade de negociação dos nossos impulsos com o mundo, mas no qual nosso autoritarismo pessoal encontraria finalmente a esperança de ser autorizado, como um direito. Esta maneira de pensar, que chamamos de fascista, surge como uma conclamação à recuperação, por meio da força, deste orgulho roubado por alguém que, por sua vez, se tornou um usurpador.

Com este conclame, o fascismo impõe-se com uma linguagem traumatizante, cuja presença torna-se ameaçadora. Ele cria repentinamente um impacto imprevisível. Enquanto aquele que escuta tal discurso tende a sofrer o golpe de certas palavras e a se demorar sobre elas, tentando questioná-las, o discurso já foi adiante, como uma metralhadora de disparos contínuos. Contra esse discurso não há conversa; não existe um diálogo ou ponderações a serem feitas. Ou se aceita ou não se aceita. Caso seja aceito, o discurso transforma-se em algo que serve para ser retransmitido. Caso não se aceite, uma reação violenta contra o discurso é frequente; e, assim, ele é reproduzido na forma de seu avesso, propagando o ódio e uma organização maniqueísta da realidade. O poder que dele surge, cooptando seguidores e divergentes numa empreitada beligerante, advém de sua sede por obtenção de justiça, ou seja, de que o autovalor ou a posição perdida deve ser recuperada a qualquer custo; comportamento que encontra eco na formulação winnicottiana de tendência antissocial. É um discurso que visa ao poder perdido e à subjugação do perdedor.

Esse discurso, como a correnteza de um rio, corre numa só direção. Diferentemente de outros discursos humanos, polifônicos, nele há uma simplificação de sentidos possíveis. Portanto, a fala humana se empobrece, como numa fala de propaganda. E, como um autofalante, o discurso fascista não tem nenhuma receptividade, é uma propagação sem audição, cujo objetivo é realizar um reclame e conclamar outros iguais para realizar uma espécie de polarização narcísica, na qual se tende a girar em torno de ideias desprovidas de amizade e negociação. Há enorme fragilidade no conteúdo que é propagado, porque ele não é dialógico, reflexivo, e sim uma enorme restrição do escopo do pensamento[2] e da história. Além disso – e talvez um dos seus principais aspectos – a forma do dizer, sua estética, tende a ser tão ou mais importante do que seu conteúdo. Como não se trata de uma experiência do pensar emocional que se pode ter com alguém, ele assume a forma de um discurso e o seu valor parece repousar justamente nisso, em uma fala que desconsidera a outra mente, e que se faz de cima para baixo, composta por autoritarismo, agressividade e empoderamento. O conteúdo, cujo valor de verdade inexiste, fica em segundo plano, já que o principal é a sua estética. Assim, o valor de verdade de uma afirmação é substituído pelo valor de seu espetáculo impactante, em uma espécie de estética do choque, mas destituída do poder emancipatório que essa estética trouxe para a modernidade, especialmente nas artes (Parente, 2018). Quase não precisamos dizer quanto esse discurso é sedutor; a história que nos diga [3]!

Nessa maneira de constituir um “pensamento”, ou uma fala desprovida de apreço com a verdade, o conteúdo que se propaga é autoengendrado. Ela não se torna apenas uma falsificação da realidade, mas uma nova realidade, cuja existência se baseia no número de apreciações ou visualizações que recebeu. Não é necessário que encontre correspondência no real. Qualquer coisa pode ser dita sem ser refutada, pois o importante é a sua força de caráter traumatizante. Como a verdade, assim, não tem referência na realidade, ou na experiência emocional, mas na repetição do “meme”, a verdade transmitida passa a ser a do choque, que é sentido como “estar se falando a verdade”. E, paradoxalmente, nesse discurso há um reclame contra a mentira, de modo que sua estética passa a ser considerada, por si só, a expressão de algo verdadeiro.

Mas esse discurso não estaria, por sua vez, tamponando sentimentos de desamparo? Acreditamos, no entanto, que tais sentimentos passam a ser atribuídos àqueles que sentem o seu impacto, em movimentos de identificação projetiva. E assim, essa maneira de não pensar acaba por se tornar propaganda de preconceitos (discriminação social, étnica, racial, de gênero, etc), de alguém “forte” para alguém “fraco”.  Essa é uma das razões pelas quais nessa forma de discurso não se permitem dúvidas, incertezas e insegurança. Elas são combatidas radicalmente, pois a dúvida abriria a percepção para a apreensão dos sentimentos de desamparo dos quais se pretende evadir.

Não podemos esquecer que estamos todos em igualdade de condições para nos tornarmos expressão de uma tendência humana como esta, que avista nossa maior desumanidade e barbárie. Precisamos constantemente pensar como, a cada dia, cada um de nós não se tornará um fascista[4]. Como fazer para que o nosso discurso não seja, ele mesmo, uma ferramenta de poder, cuja intenção seria impedir o encontro humano no qual o pensamento se desenvolva, envolvido pelo desconhecido das coisas. O encontro com o rosto do outro será sempre o encontro com o mistério. Por isso, é fundamental que possamos, a cada vez, reconhecer a presença de nosso próprio fascismo, podendo, por meio desse reconhecimento, dizer não a isso a cada vez, a cada instante de seu acontecimento. O problema, portanto, passa a não ser mais se somos ou não fascistas, mas quando somos, e reconhecer o momento de nosso enlouquecimento [5].

Como sabemos muito pouco sobre a nossa própria vida, estamos sempre rodeados por impotência, medos e sentimentos de desamparo. E, em face do desamparo, criamos ilusões alucinadas da realidade, com a intenção de nos protegermos dela. Se o desamparo, por um lado, é uma condição fundante do psiquismo humano, por outro, seu aparecimento pode revelar a ocorrência de fraturas éticas (Safra, 2004). Estas fraturas estão relacionadas a uma ruptura com a confiança e com a espera pela mente de um outro, condição indispensável – de amparo – para a ampliação das possibilidades psíquicas em face do desamparo.  A aliança com o pensar fascista é a expressão da desesperança em relação ao outro, como alteridade, mas ocorre quando, pela impotência, busca-se a onipotência. Trata-se, portanto, de um falso amparo narcísico, que pode ser buscado, como comportamento político, em qualquer ideologia.

Sabemos que a atividade psicanalítica sustenta as incertezas do não saber, para ser surpreendido com a aparição do pensamento numa relação dialógica. Na situação clínica, a função po-ética consiste na surpreendente criação ou revelação da alteridade. Uma alteridade concebida como uma nova formação de metáforas e de histórias possíveis para um sofrimento[6]. Trata-se de uma atividade que devolve o valor da verdade ao seu conteúdo correspondente e restabelece o valor estético da pesquisa e da incerteza em relação ao saber, tornando a ação política oposta ao discurso de poder. Isso porque as metáforas e histórias são sempre incapazes de expressar todo o sofrimento. Ou seja, trata-se de uma ação de des-empoderamento, que restabelece, assim, a força da verdade. A função po-ética tem implícita uma ética do cuidado e da atenção aos sofrimentos humanos, que são muitas vezes impensáveis, ainda mais quando associados à nossa condição de desamparo.

Num mundo em que o discurso fascista se propaga como rastilho de pólvora, com um encantamento pelo choque, com ares de espetáculo, a tarefa psicanalítica, como resistência ao fogo, é continuar a mostrar seus princípios po-éticos. Pois o alimento que nossa mente precisa é aquele do encontro com a alteridade, que nos nutre com o sentimento de verdade, mesmo que seja provisória e incompleta.

 

[1] Faço alusão ao filme de Ingmar Bergman “O Ovo da Serpente”, Das Schlangenei(1977), que tratado período de incubação do nacional-socialismo na Alemanha.

[2]George Orwell em seu livro 1984, descreve o controle sobre a linguagem como um dos modos de se restringir o escopo do pensamento. Orwell descreve a Novilíngua, uma língua cujo objetivo seria tornar impossível designar certas coisas, de modo que aquilo tenderia a se tornar inexistente pela impossibilidade de ser designada. Ou seja, ideias indesejáveis a um sistema fascista não teriam como surgir de dentro dele.

[3]Brun (2018): “Por que o fascismo continua sendo tão atraente? Em Israel se apresenta o fascismo como um monstro terrível. Creio que é um erro, porque como todo mal tem uma cara amável e sedutora. (…) Como é possível que milhões de alemães tenham apoiado Hitler? Deixaram-se levar porque os fazia se sentir especiais, importantes, belos. Por isso é tão atraente”. No filme de Peter Cohen, Arquitetura da Destruição (1992), logo no seu início, o narrador diz: ”Dizem que numa aldeia alemã dos anos trinta, o povo tinha um conceito próprio do que era o nacional-socialismo. Eles achavam que o nacional-socialismo tinha uma ligação com a pureza (…) o sonho de criar, através da pureza, um mundo mais harmonioso”.

[4] Em 1977, Foucault escreve o prefácio do Anti-Édipo, de Deleuze e Guattari, formulando que há um inimigo maior a ser combatido, o fascismo. “Não somente o fascismo histórico de Hitler e Mussolini – que soube tão bem mobilizar e utilizar o desejo das massas, mas também o fascismo que está em todos nós, que ronda nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz gostar de poder, desejar essa coisa mesma que nos domina e explora”.

[5] Na forma de transformações em alucinose (Bion, 1965/2004).

[6] Pensamos em Hanna Arendt: “Toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história”.

Imagem: Retirada do filme de Ingmar Bergman, “O Ovo da Serpente”.

Ricardo Trapé Trinca é psicanalista, doutor em Psicologia Clínica pela USP, mestre em Filosofia pela PUC-SP e membro filiado ao Instituto “Durval Marcondes” da SBPSP. 

Neoconservadorismo, um sintoma do mal-estar na civilização

*Marion Minerbo
**Luciana Botter

Alguns acontecimentos recentes no Brasil e no mundo nos levam a pensar numa crescente onda de conservadorismo. Liberdades e valores conquistados por grupos sociais nas últimas décadas estão sendo questionados e ameaçam ser engolidos pela onda.

Apenas para citar exemplos rápidos: museus e exposições de arte censurados pelo público, sob alegação de incitar pedofilia ou simplesmente por exibirem nus artísticos que, de repente, se tornaram “obscenos”; a “cura gay” como retorno de uma postura homofóbica; políticos de direita e/ou conservadores em ascensão, em resposta à demanda popular; manifestações racistas no futebol; e por aí vai.

Desde Freud, o mal-estar na civilização produz fenômenos que podem ser interpretados como sintomas do sofrimento psíquico consubstancial àquela cultura. Em cada época e lugar, para que uma determinada cultura se estabeleça e se torne hegemônica, ela impõe renúncias específicas. São verdadeiras amputações psíquicas.

A primeira, denunciada por Freud nesse texto, tinha a ver com a sexualidade. Mas o raciocínio vale para qualquer parte amputada, pois ela sempre faz falta e produz sofrimento psíquico – ou mal-estar, se preferirem. Em todas as épocas e lugares, a cultura oferece soluções sintomáticas que tentam minimizar o sofrimento que ela própria produz. São os fenômenos que podemos chamar de loucuras cotidianas***.

Certas pessoas aparecem como porta-vozes paradigmáticos de um sofrimento que, na verdade, é de todos. Por isso, mesmo que calemos uma dessas vozes, aparecerão outras, pois o sintoma não é individual, mas estrutural. O neoconservadorismo é um exemplo funesto disso. Mas há muitos outros sintomas, como a deliciosa e divertida gourmetização da vida [ver no blog “Você também gosta de cozinhar?”].

Hoje, muita gente adora cozinhar e/ou assistir aos programas de televisão sobre gastronomia; até os principais jornais passaram a ter um caderno semanal sobre o tema; as cozinhas ganharam um upgrade e há panelas de grife caríssimas. Essa onda gastronômica é ou não é uma verdadeira loucura? Certos pratos são “divinos” e merecem ser degustados “de joelhos”. A referência à elevação espiritual não poderia ser mais explícita. Por isso, esse fenômeno pode ser interpretado como sintoma do sofrimento produzido por uma cultura excessivamente materialista, que tende a amputar a dimensão não funcional da vida. Como se vê, a própria cultura se encarrega de produzir “soluções sintomáticas” para aliviar este sofrimento.

Que sofrimento psíquico poderia estar determinando essa onda conservadora? O que teria sido amputado?

A atual realidade socioeconômica e cultural é muito diferente do que foi a Modernidade, quando as instituições eram fortes e determinavam com mão de ferro o certo e o errado, o permitido e o proibido. Havia um conjunto rígido de valores tidos como universais orientando a conduta dos sujeitos. Quem não se encaixasse no modelo prescrito e dominante, via-se –  e era visto – como desviante. A família patriarcal, como único modelo legítimo e possível, é um exemplo da hegemonia de certos valores. Há 40 anos, quem imaginaria uma família homoparental?

Em oposição a essa rigidez, vivemos atualmente um contexto social em que tais valores são muito mais fluidos e flexíveis. Já não acreditamos em um modelo único, supostamente universal, e por isso as pessoas têm muito mais liberdade para inventar novas formas de vida. Por um lado, isso tem a vantagem de contemplar as várias formas de subjetividade. Por outro, é uma evidência da crise das instituições. É daí que surgem as desvantagens, relacionadas a uma das principais características dos nossos tempos: a “miséria simbólica”.

Mas o que é a miséria simbólica? Por que chamar de “miséria” uma situação que permite maior liberdade e em que mais pessoas podem viver de acordo com suas convicções? Porque, como se verá em seguida, estamos “passando fome”.

Quando o conceito de “verdade universal” começa a ser transformado, dando lugar ao reconhecimento de verdades subjetivas e legitimando diferentes visões de mundo, os ganhos são incontestáveis. No entanto, quando a própria noção de verdade passa a ser, ela mesma, entendida como ultrapassada e nociva –  quiçá autoritária –  e é então suprimida, aí, sim, emerge o lado patogênico da crise das instituições. Jogou-se fora o bebê junto com a água do banho.

É aí que começamos a “passar fome”. A passagem de um saudável e desejável relativismo, para um relativismo absoluto, deixa os sujeitos sem referências com as quais construir suas identidades. Sem chão, o Eu se fragiliza e passa a sofrer de uma “anemia psíquica crônica”. Submerge na angústia porque não há mais verdades minimamente estabelecidas nas quais pautar o Ideal do Eu.

É esse relativismo absoluto que produz o que chamamos de miséria simbólica: uma impossibilidade de afirmar qualquer valor como válido. O conceito bizarro de pós-verdade decorre disso. O sofrimento psíquico decorrente da amputação dessa dimensão da realidade é o desamparo identitário, termo cunhado por Susana Muszkat.

As instituições protegem nossa vida psíquica. Quando elas estão em crise profunda, ficamos órfãos das narrativas que elas criam e sustentam. A angústia que comentamos acima aparece justamente porque temos necessidade emocional de acreditar em algumas coisas – em alguma narrativa que possa dar sentido às nossas vidas. Sem elas, ficamos desnorteados,“sem propósito”-  para usar um termo que está na moda.

É aí que entra a onda conservadora. Podemos interpretá-la como uma resposta defensiva, isto é, como solução sintomática, frente à angústia produzida pela miséria simbólica. Após a desconstrução radical operada pelo relativismo absoluto, o conservadorismo emerge como uma tentativa de reconstruir algo mais sólido. Mas é como tentar curar a anemia com junkfood, em vez de comer um bom bife (!). Ou como tapar o sol com a peneira.

É importante lembrar que cada momento histórico produziu um tipo específico de conservadorismo. O da época de Freud tinha determinações bem diferentes do nosso. Por isso, podemos falar em “neoconservadorismo”, já que o atual tem a ver com a miséria simbólica, o que não era o caso na Modernidade de Freud.

O neoconservadorismo ligado à miséria simbólica tem como característica principal a defesa de valores muito concretos, colados na materialidade e na sensorialidade imediata. Para dar um exemplo: no atual contexto de miséria simbólica, o nu artístico não tem transcendência nenhuma, não representa nada – o nu enquanto símbolo deixa de existir. Na ausência do símbolo, o nu só pode ser interpretado como “uma pessoa pelada” e, portanto, algo moralmente condenável. A diferença entre o homem nu no espaço de um museu e o homem nu na rua se perde.

Em oposição a valores mais complexos, que exigem capacidade de abstração e de perceber nuances, tais como liberdade, igualdade e fraternidade, os valores neoconservadores são rasos e colados na concretude do mundo. Junte-se a isso a polarização atual e teremos um fla-flu entre pessoas que defendem valores, contra pessoas que, supostamente, querem corromper a juventude.

 

* Marion Minerbo é psicanalista da SBPSP, doutora pela UNIFESP e autora de vários livros e artigos, entre eles “Diálogos sobre a clínica psicanalítica” (Blucher, 2016) | marionminerbo@gmail.com

**Luciana Botter é formada em Direito pela USP, em Psicologia pela PUC-SP e atualmente trabalha, entre outras coisas, com edição e revisão de textos psicanalíticos. Editora do blog Loucuras Cotidianas, por Marion Minerbo.

***Loucuras Cotidianas, por Marion Minerbo: https://loucurascotidianas.wordpress.com/

Racismo

Any Trajber Waisbich

“Devo fazer uma confissão – começou Ivan – nunca consegui entender como se pode amar o outro. A meu ver, é justamente o próximo que não se pode amar, só os distantes é possível amar…Para amar uma pessoa é preciso que ela esteja escondida, porque mal ela mostra o rosto o amor acaba”. Dostoiévski, F. (2012) Os Irmãos Karamázov; Vol. I Traduzido por Paulo Bezerra. São Paulo, Editora 34. Pg. 326.

Por que falar de assassinato, racismo, agressões, ódio, intolerância, terror, fanatismo, aversão ao outro e protestos em Charlottesville (USA) se estamos em São Paulo? Uma mulher de 32 anos foi recentemente atropelada e morta quando participava de um comício contra uma manifestação organizada por um grupo composto por brancos racistas, neonazistas e membros da Ku Klux Klan numa cidade do estado da Virgínia no sul dos Estados Unidos.

Temos aqui ingredientes suficientes para desencadear sentimentos díspares em cada um de nós.  De um lado, acompanhados pelo artista russo sentimos o alerta para o perigo ao descrever o que vai na alma humana sem subterfúgios. De outro, a ação violenta confirma a digressão sem poesia e distanciamento. Amamos aquilo que nos é familiar.

Freud escreve em 1921 um artigo intitulado “Psicologia das Massas e Análise do Eu” em que, como em textos anteriores e posteriores, raramente deixa de incluir a relação do indivíduo com o grupo ao qual pertence e as implicações decorrentes deste acordo tácito de convivência entre os humanos. Dialoga com este sujeito influenciado pelo grupo que altera sua forma de pensar e agir quando em bando. Este homem, ele mesmo sem face, fica sujeito a condições que lhe permitem livrar-se das amarras e manifestar, de forma aberta, suas predisposições para tudo o que é mau e que se esconde na alma humana.

Este homem, que por vezes renuncia à violência e à destruição pelo bem comum para poder ter momentos de satisfação na convivência com outros, também deflagra atos irreconciliáveis com o viver num mundo civilizado. Aliás, civilidade implica conviver com o diferente.

O homem é um ser em conflito, que ao mesmo tempo em que é capaz de conquistas em diversas frentes – tecnológicas,  sobrevivência diante de catástrofes e a luta contra a própria morte – também é capaz de lidar com esta dificuldade em aceitar regras sociais que restringem sua autonomia e condiciona o sujeito a viver em comunidade, porém em companhia de outros. Não subestimemos o sacrifício necessário, o de abrir mão da felicidade pessoal em favor do grupo.

Voltemos à cena em Charlottesville, como se não bastasse, o chefe do Estado Americano, Donald Trump, aponta uma equivalência moral entre estes dois grupos que colidiram na cidade, os perpetuadores da violência e os ativistas de diretos humanos. Pronto, reforço necessário para podermos discutir o papel da massa e seu líder nestas ações violentas em que o sujeito não se implica. E mais grave ainda, desculpa-se.

O comunicado sugere serem as brigas de caráter semelhante e, portanto, não haveria perdedores. Teríamos um conflito como tantos outros, de ideias, por assim dizer, que acabou mal para uma pessoa e resultou em alguns feridos.

Passemos a averiguar o papel do líder neste contexto.  O líder tem por atribuições ser o depositário de um saber inquestionável, ser o depositário desse sentimento tão caro ao homem que é a necessidade de ser protegido. O líder ocupa este lugar de facilitador de ligações afetivas entre seus membros e, portanto, é responsável pela fraternidade de iguais. Além disso, o indivíduo delega ao líder sua capacidade de discernimento, sua autonomia e sua moral – sempre individual – enfraquece-se.

Este mesmo líder, imbuído de tal poderes, naturaliza atos violentos contra outros grupos diversos do seu. Era o que faltava: pessoas autorizadas a odiar seus semelhantes por pequenas diferenças, como cor, raça, gênero, religião, e tudo aquilo que os faz singulares. Aquilo que agrega, segrega.

Então, qual o sentido de se falar destes atos violentos sem cairmos em respostas simplistas para problemas complexos?  Temos aqui, bem próximos de nós, questões similares àquelas desnudadas em Charlottesville.  Candidatos a líderes que constroem suas plataformas valendo-se da segregação entre nós e eles. Temos assassinatos em massa de índios e de quilombolas. Temos prisões repletas de jovens negros sem possibilidade de justiça.  Temos, ainda, lutas por terras e por dominação.  Temos a tendência a nos distanciarmos dos fatos banalizando-os, transformando-os em corriqueiros e vistos, muitas vezes, como lutas econômicas puramente.

Freud diria a partir do estudo da alma humana que não existe otimismo nesta relação entre o homem e seu meio. O que há, sim, é um descontentamento pelas frustrações impostas pelo coletivo à liberdade pessoal que a sociedade exige destes indivíduos. Como contrapartida à barbárie surge a Civilização quando os homens abrem mão de fazer “justiça com as próprias mãos”.

Foto: The Huffington Post

Any Trajber Waisbich é psicanalista e membro efetivo da SBPSP, professora junto ao Instituto de Psicanálise e membro da diretoria da SBPSP. Participou da equipe editorial do Jornal de Psicanálise nos anos 2012- 2016, contribuiu com resenhas de livros para a Revista Brasileira de Psicanálise, entre outras atividades.

In-Tolerância ! O que a Psicanálise tem a dizer – parte 2

Sob o prisma das relações de alteridade e de responsabilidade, a questão ética nos coloca empaticamente relacionados com o outro em diversos graus

Por Ilana Waingort Novinsky*

A experiência clínica hoje aponta que não podemos limitar o nosso foco apenas à vida intrapsíquica presente e manifesta dos pacientes, sem prestar atenção ao que se passa ao nosso redor. Para realizarmos o trabalho analítico e lidar com os novos tipos de sofrimento e adoecimento que se apresentam em consultórios, é necessário resgatar os valores que nos colocam em reverência à alteridade, compreendida como matriz de uma ética individual e das relações humanas. Para acolhermos o outro, que é sempre diferente e estranho, é preciso poder reconhecermos que ele é um ser humano como eu.

É a relação com o outro, o pertencer a um grupo, o ser parte de uma comunidade o que constitui a condição fundamental para o nosso vir a ser e para o desenvolvimento da singularidade de cada um. A questão ética aqui se refere às condições necessárias para o acontecer humano, isto é, ao que permite a cada um de nós participar de uma comunidade.

Habitualmente a ética é vista como fruto do aprendizado, de algo que se acrescenta a uma personalidade que estaria se formando, se organizando, daí a importância dada à educação.

Entretanto, o trabalho do psicanalista inglês Donald W. Winnicott nos mostra que a questão ética faz parte da própria condição humana, do modo de ser de uma criança, do que lhe é originário. Há, desde o início da vida, segundo Winnicott, um pressentimento do ético: uma criança que tem a experiência de ser cuidada, recebe desta forma também um saber sobre a ética, um elemento fundante, sobre o qual inúmeros outros elementos psíquicos podem acontecer.

O que caracteriza o cuidado ético é a atitude que se exprime na consideração pelo outro e por suas necessidades. Na ausência desta atitude as ações do cuidar perdem sua motivação ética, se desvalorizam e deterioram. Quando este cuidado ético não acontece, temos a presença de fraturas nos fundamentos da ética da criança, e ocorrem fissuras psíquicas no seu desenvolvimento.

Nossos pacientes são testemunhas dessas fragmentações éticas, com seus inúmeros sofrimentos, como a perda do sentido de si e do contato com os outros. Podem sentir uma profunda solidão, sem alguém que os façam se sentir humanos e pertencendo à comunidade humana, e desenvolver assim uma visão niilista da existência. Aqueles que não experimentaram este cuidado ético fundante tendem a reproduzir comportamentos de violência explícita no nível social, tendências anti-sociais, através da participação em organizações delinquentes, como tentativas de sobrevivência psíquica.

Todo ser humano nasce numa experiência de “nós”, de pertencer a um grupo familiar e precisa viver a experiência de hospitalidade, como experiência fundante, neste seu grupo familiar e humano. Este cuidado é parte fundamental das condições ontológicas da constituição da pessoa humana, e sem ele a dimensão ética é apenas superficial ou impossível de ser acessada. Isto significa que sem a experiência de cuidado não temos como conviver e viver em um mundo hospitaleiro e solidário, com compaixão e tolerância. Cuidar, aqui, implica tolerar o outro: aquele que não foi cuidado, recebido como um outro, tem pouca possibilidade de poder receber também um outro, de tolerar a singularidade do outro.

A criança que encontra apenas figuras que encarnam força, mas que não lhe permitem ter as experiências fundantes aqui apontadas pode desenvolver ideais fantásticos de si mesma, desenraizada da condição humana. Pode também buscar a autoridade pelo negativo, entrando em uma sequência de comportamentos delinquentes na busca de quem a pare, de quem a devolva a uma ética da condição humana. Estas são situações que ocorrem a partir do sofrimento de crianças que viveram a violência e a intolerância.

Hoje, os indivíduos, famílias, grupos e instituições mostram-se incapazes, muitas vezes, de oferecerem estas formas fundamentais de cuidado, pois passam por graves descontinuidades e arcam com certo descrédito.

A proliferação de ideologias e grupos totalitários e a globalização de diferentes formas de intolerância, mais uma vez, atestam as falhas nos dispositivos de acolhimento e reconhecimento disponíveis no mundo contemporâneo. Uma sociedade tecnológica, de competição e da imagem revela, assim, pelo avesso as graves deficiências em mecanismos sociais de reconhecimento dos indivíduos em suas singularidades.

Os fenômenos totalitários chamam a atenção para a intensa demanda de inclusão e da busca de objetos capazes de fornecer sustentação e continência. É justamente a massa de indivíduos, avulsos e desamparados, a que mais se sente atraída pelas promessas de englobamento absoluto, proferidas pelas ideologias totalitárias e seus líderes.

Na questão da tolerância, a meu ver, não se trata de “tolerar, ou ter paciência” com o mais “fraco, infantil ou necessitado”, ou seja, de uma relação de poder. Trata-se de ver, sentir e viver com o Outro, de reconhecer como partilhamos as mesmas necessidades, fragilidades e angústias. Neste contexto a experiência de empatia surge como experiência humana fundamental.

Estamos aqui no campo do entre-nós, onde precisamos acolher o desproporcional, o trágico e o paradoxal, como aspectos inerentes ao nosso campo de experiências, estudos e reflexões. Desta forma, a perspectiva epistemológica usada tanto no estudo sobre a pessoa humana quanto nas relações de tolerância e intolerância, mais do que ser um elemento relacionado à teoria do conhecimento, expressa uma posição ética.

A questão da intolerância/tolerância, sob o prisma das relações de alteridade e da responsabilidade, nos coloca empaticamente relacionados em diversos graus com o Outro.

Quando não podemos mais acompanhar e sermos acompanhados nas nossas necessidades e vocações, estamos em meio à intolerância e em seu extremo, na barbárie: quando o Outro é usado, negado, em nome de objetivos e justificativas os mais variados. Não é apenas a ética que está em suspensão, mas ocorre uma destituição da pessoa humana em níveis tão profundos que a própria capacidade de atuação desaparece e o ser humano perde seu lugar, como ator psíquico e político, como ocorreu durante as perseguições e campos de concentração nazistas.

Uma reflexão psicanalítica sobre a questão da tolerância/intolerância, nos leva à questão das necessidades éticas fundamentais, sem as quais estamos condenados ao adoecimento e à barbárie – à intolerância.

*A psicanalista Ilana Waingort Novinsky é Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e o texto acima é a segunda e última parte de um ensaio em que ela discute e intolerância.