sonhos

Protect me from what I want

*Helena Cunha Di Ciero Mourão

Somos feitos de som e fúria, já dizia Sheakespeare. O velho Freud adicionaria que, entre fezes e sangue, nascemos. A verdade é que não somos assim tão puros e limpos como postamos por aí. Embora os filtros virtuais tentem a todo custo disfarçar nossas impurezas, existem desejos inconfessáveis inclusive para nós mesmos: provocam vergonha, são menos civilizados, trazem afetos menos aceitos, mais brutos,  geram culpa, medo e inveja. Embora o desejo nos mova, nem sempre pode ser comunicado às claras.

Muitas vezes é preciso reprimir certos sentimentos para manter determinadas escolhas. Por outro lado, quanto maior essa repressão, maior a força na tentativa de realizá-los. É que nossos instintos costumam ser  persistentes e teimosos. E, nessa tentativa de domínio, o indivíduo sofre. Conclusão: essa luta constante gera uma tensão muito forte – de um lado, uma exigência de satisfação, de outro, as leis, a moral, minhas escolhas.

O desejo nasce num lugar poderoso, uma  instância psíquica inconsciente que recebe o  nome de Id. Este vive em pé de guerra com um outro lado responsável pela censura – que recebe o nome de Superego – , que é igualmente forte e é responsável por representar internamente a moral, as leis vigentes e os valores familiares.

A civilização funciona como uma tentativa de dominar nossos desejos, de freá-los. Sejam os sexuais ou os agressivos, a  sociedade de alguma forma tenta manter uma certa ordem a fim de que a humanidade se preserve de seus próprios instintos. Sabemos que a violência do homem é inerente, tornando-o facilmente presa. Convenhamos, por mais falha que seja a sociedade, o ser humano precisa dela para relativamente se organizar .

Mas existe um lugar onde meu desejo encontra uma possibilidade de existir: os sonhos. Quando sonhamos, estamos com a censura baixa, certas coisas podem aparecer. Mesmo assim algumas são censuradas por nós mesmos – juntando uma série de elementos que criam uma espécie de quebra-cabeça simbólico, somando vivências e experiências singulares e individuais, que para cada um tem um significado. Ou seja, certas coisas aparecem de forma disfarçada quando dormimos.

Por isso, dicionário de sonhos  não deve ser levado muito a sério. Para cada pessoa, um símbolo que aparece num sonho tem um significado específico, que só pode ser  decifrado pelo próprio sujeito sonhador. O sonho é o território da realização do desejo. Mesmo que apareça de maneira torta, ele conta sobre um sentimento que, acordado, pode ser muito ameaçador.

É  como se, dormindo, nosso desejo acordasse no sonho e se apresentasse de uma forma mascarada.  Isto é, a fantasia é um dos veículos onde o desejo pode se apresentar, sem ter que brigar com nosso lado responsável pela censura. Tudo pode acontecer. E o ato de sonhar, fantasiar, nos possibilita uma tolerância maior à realidade.

Qualquer veículo onde o sonho possa emergir dá voz ao desejo. Arte, literatura, música… Não é raro sabermos de pessoas que suportaram uma condição muito difícil  utilizando-se da imaginação. Anne Frank é um exemplo.  O filme “A vida é bela”, outro.

Precisamos do sonho para dar voz ao nosso desejo e, assim, resgatar a força de lutar para viver.  É como se nos alimentássemos do território do sonho,  o desejo que ali pode aparecer  fica com sua força atenuada e nos ajuda a suportar a realidade com suas chatices.

Por isso sempre me incomodei quando escutei a frase “Isso é apenas uma ilusão”. A palavra apenas desqualifica o lugar onde o sujeito é livre, puro e existe em seu estado bruto.

Em algum lugar é preciso soltar todo nosso som e toda nossa fúria, do contrário a vida vira uma canção  monotemática e empobrecida.

 *Helena Cunha Di Ciero Mourão é  membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e especialista em psicologia psicanalítica pela Universidade de São Paulo | hcdiciero@gmail.com

Sonhar: um curioso mecanismo digestivo

Talya Saadia Candi

 

“Não é verdade que as pessoas param de perseguir os sonhos porque estão a ficar velhas, elas estão a ficar velhas porque pararam de perseguir os sonhos” – Gabriel García Márquez

 

Muito antes da escrita e da publicação da “Interpretação do sonho” por Freud, já existiam pessoas interessadas em escutar os sonhos. No Antigo Testamento, o prisioneiro Joseph interpreta os seus próprios sonhos como uma comunicação profética divina. Convidado pelo Faraó a interpretar o estranho sonho das vacas magras que devoram as sete vacas gordas, Joseph diz: “Deus está revelando ao Faraó o que ele irá fazer”. Em Hamlet, Sheakspeare sugere que sonhos têm o poder de perturbar a nossa tranquilidade. O jovem príncipe diz a Guildenstern, seu amigo de infância: “Poderia viver recluso numa casca de noz e me achar rei do espaço infinito se não tivesse mal sonhos”. (Hamlet 2.2.234).   Para o cineasta sueco  Ingmar Bergmam, “filmes são sonhos (…) o filme vai diretamente para os nossos sentimentos, no fundo escuro das salas de nossas almas”.

Na visão da neurociência, os sonhos representam simplesmente uma descarga elétrica dos neurônios, usando o material do passado recente para construir histórias bizarras e sem nexo, mas que desempenham múltiplas funções: consolidação da memória para a aprendizagem, limpeza neuronal e desenvolvimento cerebral. Por outro lado, os pesquisadores perceberam que uma pessoa submetida a um acontecimento traumático – um estresse como um assalto ou a perda repentina de um ente querido – transforma o impacto da dor em sonho. Os sonhos acabam reverberando a situação, às vezes durante meses ou anos, e ajudam a processar as emoções dolorosas.

Essas novas pesquisas fortalecem a hipótese da psicanálise de  que  os sonhos exercem  um papel fundamental tanto no nosso comportamento diário quanto na elaboração dos traumas.

No primeiro período da terapia analítica, a análise do sonho impulsionou em grande medida a prática analítica e veio a ser o paradigma da manifestação do inconsciente e do seu poder expressivo. Com o passar do tempo e com os desenvolvimentos pós-freudianos, a presença da interpretação de sonhos nos relatos clínicos foi diminuindo e dando lugar a outras modalidades de fazer psicanalítico, tal como a interpretação da transferência na tradição kleinian e a atenção ao significante no sistema lacaniano.  Assistiu-se a uma verdadeira ultrapassagem do interesse da psicanálise pela interpretação dos sonhos e um crescente interesse pelo processo pelo qual o sonho é gerado: o sonhar.

Na perspectiva contemporânea (particularmente a partir dos anos 60 com as contribuições do analista inglês Wilfred Bion), o sonho noturno é somente uma das várias manifestações da misteriosa atividade mental e emocional que acontece tanto de dia quanto à noite e que  chamamos de  “sonhar”.

Os produtos do sonhar são numerosos.  Entre eles, alguns são bem conhecidos, como  o sonho noturno, o pesadelo, o devaneio e as “revêries” do analista.  Eles são usados para a alucinação de desejos, expressão emocional, crescimento psíquico, regulação homeostática e fuga nos momentos de stress. A unidade básica do sonho é a experiência vivida, real ou imaginada, consciente ou inconsciente.

Resta perguntar por que para a psicanálise contemporânea o sonhar é tão essencial para a saúde mental e o crescimento da personalidade?

No começo da vida, o bebê vive experiências emocionais brutas, sem significado, frutos do impacto das urgências vitais biológicas (fome, dor, percepções sensoriais diversas, etc). Estas experiências sem sentido são aterrorizadoras.  Elas precisam ser digeridas para adquirir sentido. O sonho cria símbolos que permitem reviver e reexperimentar enquanto estamos dormindo ou desatentos (no devaneio, por exemplo) fatos e acontecimentos perturbadores que não conseguiram entrar na nossa mente e adquirir sentido.

O trabalho do sonho cria uma espécie de teatro interno em forma de espelho pelo qual somos capazes de organizar os estímulos mais diversos, produzir questões, criar personagens, ensaiar problemas, levantar hipóteses e fazer avançar a pesquisa sobre as questões que dizem respeito a nossa humanidade: nossos desejos, conflitos, anseios, dúvidas, medos e angústias. Os sonhos nos permitem digerir a complexidade da vida emocional de forma mais eficaz do que quando estamos acordados e sem eles estaríamos sempre submergidos em estímulos excessivos, sem pensamento.

Neste novo contexto, o sonhar é visto como uma forma de pensar inconsciente, ele realiza um trabalho psíquico que atribui significado e incorpora as vivências com outras pessoas na própria estrutura da nossa mente, consolida lembranças, ensaia planos.

Finalmente, pelo sonhar construímos nossa historia, criamos projetos e pensamos no futuro.

Do ponto de vista dessa concepção revisada, o objetivo da psicanálise contemporânea  não é mais somente tornar consciente o inconsciente, mas também tornar o consciente inconsciente, isto é: tornar a experiência emocional bruta acessível ao tipo de riqueza do pensamento caracterizado pela capacidade de sonhar.

O tratamento analítico nos permite, dia após dia, cuidarmos das nossas emoções e nos apropriarmos das mesmas, reconhecendo-as, nomeando-as e finalmente sonhando-as. Sonhar nossa vida emocional nos dá instrumentos para que não fiquemos submersos e anestesiados pela intensidade dos estímulos, da dor, do medo ou da excitação e da alegria. Quando um sonho pode ser trabalhado no âmbito de um processo analítico, ele pode desencadear verdadeiras transformações na personalidade.

“Continuar perseguindo os sonhos”, como diz na epígrafe deste post o grande escritor colombiano Gabriel García Márquez, significa não ficar anestesiado frente ao impacto do fluxo contínuo de estímulos, conflitos e desafios com o qual a realidade nos confronta incessantemente e encontrar dentro de nós, no nosso mundo interno, soluções criativas que possam preservar e ampliar nossa capacidade de nos sentirmos seres pensantes e vivos.

 

Talya S. Candi é Membro associado da Sociedade Brasileiro de Psicanalise de Sao Paulo. Autora do livro: “o Duplo Limite; O  aparelho  Psiquico de André Green” , publicado pela Editora Escuta  e organizadora do livro : “Dialogos psicanalíticos contemporâneos”, publicado também pela editora Escuta . 

*Fotomontagem de Grete Stern