sociedade

(Poder) chorar as dores do mundo

*Eduardo de São Thiago Martins

 

Estupefato com o retrocesso civilizatório que estamos vivendo, mesmo conhecendo o vai-e-vem do pêndulo da História, me peguei imaginando como diria a uma criança de quatro anos (e meio!) – inteligente, corajosa, curiosa e sensível –  o porquê que ela, que será o futuro, ainda não pode agir sobre ele.

Diria assim:

“Sabe, sentir ódio é humano.
Mas pensar sobre o ódio que se sente, sem disseminá-lo, sem partir para a ação violenta, é mais que humano – é o trabalho da civilização.”

Foi assim que saímos da Idade Média, a Era das Trevas. Foi assim que algumas pessoas sobreviveram a guerras terríveis, ao fascismo, ao holocausto, aos ataques atômicos, aos exílios, censuras, torturas e assassinatos das ditaduras militares – sim, tudo isso aconteceu, de verdade. E é por isso, por conseguirmos ir aprendendo a conter as violências e os discursos de ódio, dia após dia, que muitos de nós tivemos o privilégio de não ter de enfrentar nenhum destes terrores.

Tudo aquilo que nós não conhecemos e não dominamos – dentro e fora da gente – dá medo. As doenças, as pobrezas, as violências, os desejos proibidos, e também as pessoas, todos aqueles que são diferentes de nós – seja pelo tom da pele, pelo jeito de amar, pelos hábitos, pelo jeito de pensar, pelo formato do corpo – aqueles que não conseguimos entender; tudo isso pode dar muito medo.

Fobia!

Quando somos crianças e sentimos medo, rapidamente, buscamos a proteção que está mais perto; a proteção de um adulto, que julgamos ser seguro, forte e confiável.

Mas quando nos tornamos adultos, percebemos que esse adulto-herói em quem acreditávamos, era só uma ilusão. Porque agora os adultos somos nós e continuamos sentindo muito medo e insegurança, por nós e por todos que amamos.

Então, se é assim, qual é a diferença entre adultos e crianças?

A diferença é que a criança se assusta e logo chora; sente raiva e logo bate; quando quer alguma coisa, pega logo sem pedir, tanto faz se é dos outros; e quando a criança não quer alguma coisa, quando se incomoda com alguma coisa, ela joga fora, quebra, destrói, pisa em cima. E neste momento, a criança fica com medo até dela mesma, medo do que é capaz de fazer contra os outros.

Por isso, a criança só confia no adulto porque supõe que ele não vai fazer igual. Supõe que ele pode se conter, vai parar para pensar, vai tentar entender e explicar o que está se passando.

Frente ao ódio e ao medo, essa é a diferença entre eles. Fora isso, o adulto continua sentindo tudo o que sentia quando era criança, e quando age com violência e intolerância, quando pega em armas, está sendo apenas uma criança grande.

É por estes motivos que criança não pode votar… E nem se candidatar ao governo. Porque ela ainda acredita na ilusão do superadulto. Ela ainda não consegue pensar sozinha em tudo o que sente, ainda não é capaz de buscar soluções mais elaboradas para os problemas do mundo; aliás, a criança ainda não pensa muito no mundo, pensa mais nela mesma, porque ainda precisa que seja assim.

O poder, nas mãos de quem ainda não pode, é sempre perigoso demais.

Explode.

Democracia, então, é um complicado projeto dos adultos.

Direitos Humanos são frutos de muito trabalho e pensamento, daqueles que, além da própria dor, um dia se viram chorando diferente porque choravam as dores do mundo.

E liberdade é diferente de fazer tudo o que queremos ou exterminar tudo o que não queremos; liberdade é poder sentir, tolerar, pensar bem e, finalmente, – e isso é muito importante – escolher as melhores ações. Poder se posicionar.

Tornar-se civil é aprender a considerar a necessidade do outro, é enxergar e cuidar dos diferentes mundos que cabem num só, por mais estranhos que possam parecer, por mais medo e ódio que possam gerar.

Democracia e Direitos Humanos, sim.

Violência e discriminação, não!

Não mais.

Eduardo de São Thiago Martins é psicanalista e psiquiatra, atual presidente da Associação dos Membros Filiados ao Instituto Durval Marcondes da SBPSP e colaborador do núcleo de psicanálise do serviço de psicoterapia do IPq-HC FMUSP.

Quarta-feira de manhã

* Pedro Colli Badino de Souza Leite

           

            – Oi.

            – Oi.

            – Essa noite eu tive aquele sonho de novo.

Eu o conheço, já nos vimos algumas vezes, mas, apesar do meu esforço, ainda não consigo me lembrar de sua história ou de seu sonho repetido.

            – Você me conta o sonho de novo?

            – Eu sonhei que estava preso aqui mesmo, na Fundação [Casa], e eles tinham comprado espelhos pra pôr nos quartos. Mas quando eu me olhava, eu não tinha um rosto. Fiquei assustado e acordei.

Qual a prioridade desse rapaz ao me ver novamente depois de um mês? Falar sobre o seu sintoma? Sobre a medicação? Sobre as terríveis condições de sua internação? Sobre sua realidade socioeconômica, um pesadelo desperto? Sobre seus crimes, seu envolvimento com facções criminosas? Nada disso. Sua prioridade é me abraçar e me contar um sonho. O efeito da narração é imediato, a imagem que tenho dele se torna um tanto mais consistente e uma série de memórias sobre sua história passam a emergir dentro de mim. Respondo a partir do local onde fui colocado:

      – Agora eu me lembrei do seu sonho. Por que você acha que ele se repete tantas vezes?

      -Sei lá, talvez ele esteja me mandando alguma mensagem.

      -Qual mensagem?

      – Não sei… (algum tempo em silêncio). Essa semana eu estava vendo de novo uns episódios daquele seriado que eu gosto, aquele dos tronos, sabe? Então, tem uma parte que eu gosto bastante, é sobre uma menina que perde os pais e tem que se virar sozinha, esqueci o nome dela. Ela encontra uma grupo de assassinos que dão casa e comida pra ela, e que começam a treinar ela pra ser uma assassina também. Eles acreditam no Deus de Muitas Faces, que é um deus da morte. No treinamento, ela tem que esquecer que ela é ela, que ela tem um nome, que ela tinha pais, que ela tinha irmãos e amigos. Ela tem que se tornar Ninguém pra depois poder se disfarçar com qualquer identidade que ela queira. Esse é o melhor jeito pra poder se aproximar dos outros e matar quem precisa ser morto. Nesse treinamento, o mestre dela fica perguntando: “Qual é seu nome?”; ela responde: “Eu não tenho nome”. Daí, se ele acha que ela não acredita no que está dizendo, ele a espanca e diz que ela ainda acredita que é Alguém. E daí…doutor, posso tirar minha blusa, tô com calor…

    – Sim, claro.

Nos outros ambientes da Fundação ele não pode tirar a blusa, deve ficar uniformizado com o moletom azul comum a todos os adolescentes. Do meu ponto de vista, tal uniformização contribui bastante com o Deus de Muitas Faces. Ele tira a blusa e por baixo veste uma camiseta de mangas curtas. Tem braços fortes e os apoia sobre a mesa, na minha direção. Suas tatuagens se fazem presente ao meu olhar.

      – Você tem muitas tatuagens.

      – Ah, é verdade, quer saber o que elas significam?

      – Sim.

Ele começa a descrever os significados das tatuagens, uma a uma, e penso que elas poderiam ser reunidas em dois grupos diferentes. O primeiro grupo representa o processo de despersonalização. Tornar-se Ninguém, ser eficiente dentro de um grupo criminoso, adorar o deus da morte. Ele fala, um tanto desafetado:

      – Essa aqui significa que sou membro do grupo P. Essa aqui significa que um policial está cercado por quatro bandidos e que ele vai morrer. Essa aqui significa paciência para que o crime possa ser premeditado com frieza. Essa aqui significa que a vida é só um jogo, como um jogo de cartas ou de dados, então tanto faz viver ou morrer. Essa aqui significa o tráfico de drogas. Essa aqui…não, essa aqui deixa pra lá. Essa outra aqui significa…

       – Espera, por que você pulou essa aí?

       – Ah, é porque essa é triste, essa é pra lembrar de um amigo meu de infância que morreu no crime. A gente era muito parça [parceiro].

Ele se entristece, seus olhos ficam marejados. Ele tenta engolir o choro e continua a falar sobre o primeiro grupo de tatuagens. Tenta fazer a raiva triunfar sobre a tristeza mas já não consegue, começa a chorar bastante. A tatuagem do luto de seu parça é representante do segundo grupo. São tatuagens que erguem um espelho diante de si e lhe mostram que ele ainda acredita ser Alguém. Também nesse grupo estão tatuados: o nome de sua filha, o nome da sua mãe, o nome da sua avó, o nome das suas irmãs e irmãos (não há o nome do pai, e também nunca houve um pai), uma estrela que representa a mulher que ama (ele não sabe que ainda a ama, ficou revoltado com o afastamento dela depois de seu terceiro crime, mas fala dela quase o tempo todo quando conversamos), o time de coração (aquele que sabe ser o mesmo time de seu avô materno), uma lágrima tatuada logo abaixo do seu olho que significa a tristeza provocada em quem está lá fora.

O tempo da consulta já se esgotou há muito tempo, ouço vozes do lado de fora que estão interrogando sobre meu atraso. Apesar da pressão, sustento o espaço para que meu paciente possa elaborar um pouco mais em silêncio. Enquanto isso, reflito sobre o longo caminho que percorremos até aqui. De início, meses e meses diante de graves sintomas psiquiátricos e repetidas atuações autodestrutivas, até que um sonho pudesse ser constituído. Dali, mais uma travessia até hoje, quando o sonho repetido ganha significados que possam ser falados e escutados. E daí em diante não sei, veremos. Mas quando se sonha ser Ninguém, já não se é Ninguém. Neste momento, ele é Alguém que sonha ser Ninguém, e aqui se apresenta uma das potencialidades fundamentais do trabalho psicanalítico. A possibilidade da Fundação de uma Casa psíquica.

 

Este texto é um recorte do artigo “Quarta-feira de manhã”, publicado na Revista Brasileira de Psicanálise [Volume 51, n. 4, 107-21 · 2017]. O autor trabalhou por alguns anos como psiquiatra de adolescentes internados em diversas unidades da Fundação Casa. Invadido e pressionado por memórias daquele período, o trabalho da escrita se mostrou útil para elaborar suas experiências

 

Pedro Colli Badino de Souza Leite é membro filiado ao Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, psiquiatra pelo IPq-HCFMUSP e supervisor de médicos residentes em psiquiatra no estágio de psicoterapia.

 

Narcisismo terciário

*Marilsa Taffarel

No dia seguinte à manifestação “Ele não” era mais nítido o sentimento de alegria… contentamento… satisfação… realização de algo significativo… das pessoas próximas que continuavam a enviar mensagens, vídeos, fotos, relatos.

Após manifestações acontece isso, mas nessa, decididamente, aconteceu mais, aconteceu maior, aconteceu muito.

Uma placa indicativa nomeava o epicentro do acontecimento: Potato Square. Vem a calhar a indicação em inglês, língua ainda internacional, pensamos. Trata-se de uma manifestação que ganhou essa dimensão e, em consequência as praças de varias capitais do mundo ocidental.
Na verdade, o epicentro era apenas nominal, porque havia vários pequenos centros em torno de um som, de alguma banda. O Largo da Batata perdeu seus contornos, ampliou seus limites. O que nos chamou a atenção foi justamente a manifestação consistir em estar ali, caminhar por ali, sentar no meio fio ou em alguma mureta. Estar entre as pessoas.

A defesa da diversidade, da multiplicidades, das singularidades estava ali estampada em gentes tão diferentes nas roupas, nos gêneros, nos adereços, embora sempre em algum lugar no rosto, nos braços, nas costas, nas testas, nas camisetas, nos lenços estivesse o “ Ele não”.

Estávamos caminhando entre as pessoas, sentindo com todos os sentidos e nos perguntando o que é uma manifestação, além de ser isso mesmo: uma manifestação?
Muitos cartazes diziam: “não é uma manifestação política, é moral”, pelo direito de ser diverso. Diríamos: uma manifestação desconstrutiva de enunciados totalizantes, hierarquizantes e fundados no desejo de uniformização do humano.

No entanto, fica a pergunta: afinal o que é uma manifestação? O fato é que não há uma manifestação. Há manifestações. Muitas delas constituem-se como fenômenos de massa que Freud descreveu. Massas mesmerizadas por líderes que encarnam figuras onipotentes, oniscientes. Líderes que convocam o desejo de obediência. Assujeitados, acríticos e passionalizados, os liderados abdicam de sua condição de sujeitos na entrega ao líder que os conduzirá ao poder e extermínio dos opositores.

Nessa manifestação “desconstrutiva”, tratava-se do prazer de estar entre pessoas as mais diversas de seu gênero, de sua classe, de seu nível, de sua geração. Estar além de todos esses atributos.

Pensei, para caracterizá-la e diferenciá-la em um conceito que reencontrei há algum tempo: narcisismo terciário. Conceito formulado por Alcira Marian Alizade, psicanalista argentina, falecida em 2012 , cofundadora da COWAP, autora de diversos livros sobre seu pensamento psicanalítico e também de livros de ficção.

Como ela pensa esse, que ela chama de “novo ato psíquico”, sem medo de usar as mesmas palavras que Freud utiliza para designar o narcisismo que se instala unificando as pulsões autoeróticas?

O narcisismo terciário dependeria de haver um investimento de amor que se inscreveria no bebê. Tal moção seria o suporte de investimentos que, à diferença dos narcisismos primário e secundário, não retornam ao ego. Eles não estariam ligados à castração, ao Édipo. Seriam pré- edípicos ou para edípicos e assim se manteriam.

Trata-se para ela da condição de possibilidade do relacionamento com o alheio, o distante, o social. Com objetos que estão além dos limites e dos interesses do nosso entorno social, estético, financeiro imediato. A vivência e a experiência da contingência e da transitoriedade da vida fariam emergir com mais força as possibilidades transformadoras, a conquista de espaços da pulsão de vida. Alicira pensa também a clínica como conquista desses espaços.
Vemos que, de forma ousada, essa autora – conhecedora do pensamento freudiano, kleiniano e do pensamento psicanalítico francês contemporâneo – prioriza, nessa conceituação, a pulsão de vida, o corpo – o corpo impõe sua presença viva e mortal – e os investimentos não-edípicos.

O narcisismo terciário pode ajudar a compreender como descobrimos a condição humana mais do que atravessando barreiras estéticas, intelectuais, diferenças de gênero. E sim recuperando investimentos em sistemas não centrados, não hierárquicos. Investimentos nas coisas humanas, em todos os seres que constituem nosso pequeno e frágil planeta.

 

Imagem: AFP para a Revista Época.

 

Marilsa Taffarel é membro efetivo e professora da SBPSP, mestre em filosofia da psicanálise pela PUC-SP, doutora pelo núcleo de psicanálise da PUC-SP e co-autora do livro “Isaias Melsohn, a psicanálise e a vida”.

Manifesto da Diretoria da SBPSP pela defesa da democracia e contra o autoritarismo

A Diretoria da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo acredita ser importante e necessário se manifestar frente aos últimos acontecimentos e ao clima que se estabeleceu em nosso país.

A psicanálise sempre teve como valor máximo a coragem de enfrentar a verdade, defender a liberdade do indivíduo, o respeito ao grupo, e a tolerância em face às diferenças. Esta disposição é base de nosso trabalho clínico e do conhecimento que adquirimos, ao longo dos mais de cem anos de nossa história.

Estes valores são imprescindíveis para construção de uma sociedade democrática e da nossa prática; repudiamos toda e qualquer ameaça a estes princípios.

Assim, vimos reforçar nossa preocupação e necessidade de unirmos forças contra o perigo de perdermos nossos valores de base e, assim, nossas condições de exercício da cidadania e da psicanálise.

A história nos serve como alerta; saibamos levá-la em conta!

Diretoria
SBPSP

O “pensamento” fascista e a função po-ética da psicanálise

*Ricardo Trapé Trinca

Isso que escutamos é o estalar de nosso “Ovo da Serpente”[1]? Ah, mas que estranho fascínio é esse exercido sobre nós, que perturba com um choque inebriante! E, enquanto esperamos nascer um monstro horrível, o que vemos é um filhote chamado propaganda, uma sereia que cativa e engrandece… Ah, mas como nos atrai essa sedutora vontade de poder!

Para nós, psicanalistas interessados nas interfaces entre a sociedade e a clínica contemporânea, os tempos atuais têm sido extremamente inquietantes e perturbadores. Escutamos de nossos pacientes com frequência cada vez maior a ideia de que a vida pública e privada deveria ser organizada com autoritarismo e rigidez. De que é preciso se aliar às pessoas de “bem”, contra a corrupção, etc. O que nos faz apreender um espírito justiceiro, segregador e antidemocrático, que cresceu e se desenvolveu entre nós. Este texto é um pedido para que observemos tanto em nós mesmos como em nossos pacientes tal presença, digamos, funesta e dissociada.

Vamos tentar descrevê-la. Podemos observar inicialmente o predomínio de um intenso sentimento de frustração, no qual o orgulho pessoal parece ter sido ferido ou roubado. Trata-se de uma frustração pessoal, mas também social. Essa frustração associa-se à ideia de que algo ou alguém destruiu a esperança de se ter uma vida melhor. Uma vida em que não só haveria menor necessidade de negociação dos nossos impulsos com o mundo, mas no qual nosso autoritarismo pessoal encontraria finalmente a esperança de ser autorizado, como um direito. Esta maneira de pensar, que chamamos de fascista, surge como uma conclamação à recuperação, por meio da força, deste orgulho roubado por alguém que, por sua vez, se tornou um usurpador.

Com este conclame, o fascismo impõe-se com uma linguagem traumatizante, cuja presença torna-se ameaçadora. Ele cria repentinamente um impacto imprevisível. Enquanto aquele que escuta tal discurso tende a sofrer o golpe de certas palavras e a se demorar sobre elas, tentando questioná-las, o discurso já foi adiante, como uma metralhadora de disparos contínuos. Contra esse discurso não há conversa; não existe um diálogo ou ponderações a serem feitas. Ou se aceita ou não se aceita. Caso seja aceito, o discurso transforma-se em algo que serve para ser retransmitido. Caso não se aceite, uma reação violenta contra o discurso é frequente; e, assim, ele é reproduzido na forma de seu avesso, propagando o ódio e uma organização maniqueísta da realidade. O poder que dele surge, cooptando seguidores e divergentes numa empreitada beligerante, advém de sua sede por obtenção de justiça, ou seja, de que o autovalor ou a posição perdida deve ser recuperada a qualquer custo; comportamento que encontra eco na formulação winnicottiana de tendência antissocial. É um discurso que visa ao poder perdido e à subjugação do perdedor.

Esse discurso, como a correnteza de um rio, corre numa só direção. Diferentemente de outros discursos humanos, polifônicos, nele há uma simplificação de sentidos possíveis. Portanto, a fala humana se empobrece, como numa fala de propaganda. E, como um autofalante, o discurso fascista não tem nenhuma receptividade, é uma propagação sem audição, cujo objetivo é realizar um reclame e conclamar outros iguais para realizar uma espécie de polarização narcísica, na qual se tende a girar em torno de ideias desprovidas de amizade e negociação. Há enorme fragilidade no conteúdo que é propagado, porque ele não é dialógico, reflexivo, e sim uma enorme restrição do escopo do pensamento[2] e da história. Além disso – e talvez um dos seus principais aspectos – a forma do dizer, sua estética, tende a ser tão ou mais importante do que seu conteúdo. Como não se trata de uma experiência do pensar emocional que se pode ter com alguém, ele assume a forma de um discurso e o seu valor parece repousar justamente nisso, em uma fala que desconsidera a outra mente, e que se faz de cima para baixo, composta por autoritarismo, agressividade e empoderamento. O conteúdo, cujo valor de verdade inexiste, fica em segundo plano, já que o principal é a sua estética. Assim, o valor de verdade de uma afirmação é substituído pelo valor de seu espetáculo impactante, em uma espécie de estética do choque, mas destituída do poder emancipatório que essa estética trouxe para a modernidade, especialmente nas artes (Parente, 2018). Quase não precisamos dizer quanto esse discurso é sedutor; a história que nos diga [3]!

Nessa maneira de constituir um “pensamento”, ou uma fala desprovida de apreço com a verdade, o conteúdo que se propaga é autoengendrado. Ela não se torna apenas uma falsificação da realidade, mas uma nova realidade, cuja existência se baseia no número de apreciações ou visualizações que recebeu. Não é necessário que encontre correspondência no real. Qualquer coisa pode ser dita sem ser refutada, pois o importante é a sua força de caráter traumatizante. Como a verdade, assim, não tem referência na realidade, ou na experiência emocional, mas na repetição do “meme”, a verdade transmitida passa a ser a do choque, que é sentido como “estar se falando a verdade”. E, paradoxalmente, nesse discurso há um reclame contra a mentira, de modo que sua estética passa a ser considerada, por si só, a expressão de algo verdadeiro.

Mas esse discurso não estaria, por sua vez, tamponando sentimentos de desamparo? Acreditamos, no entanto, que tais sentimentos passam a ser atribuídos àqueles que sentem o seu impacto, em movimentos de identificação projetiva. E assim, essa maneira de não pensar acaba por se tornar propaganda de preconceitos (discriminação social, étnica, racial, de gênero, etc), de alguém “forte” para alguém “fraco”.  Essa é uma das razões pelas quais nessa forma de discurso não se permitem dúvidas, incertezas e insegurança. Elas são combatidas radicalmente, pois a dúvida abriria a percepção para a apreensão dos sentimentos de desamparo dos quais se pretende evadir.

Não podemos esquecer que estamos todos em igualdade de condições para nos tornarmos expressão de uma tendência humana como esta, que avista nossa maior desumanidade e barbárie. Precisamos constantemente pensar como, a cada dia, cada um de nós não se tornará um fascista[4]. Como fazer para que o nosso discurso não seja, ele mesmo, uma ferramenta de poder, cuja intenção seria impedir o encontro humano no qual o pensamento se desenvolva, envolvido pelo desconhecido das coisas. O encontro com o rosto do outro será sempre o encontro com o mistério. Por isso, é fundamental que possamos, a cada vez, reconhecer a presença de nosso próprio fascismo, podendo, por meio desse reconhecimento, dizer não a isso a cada vez, a cada instante de seu acontecimento. O problema, portanto, passa a não ser mais se somos ou não fascistas, mas quando somos, e reconhecer o momento de nosso enlouquecimento [5].

Como sabemos muito pouco sobre a nossa própria vida, estamos sempre rodeados por impotência, medos e sentimentos de desamparo. E, em face do desamparo, criamos ilusões alucinadas da realidade, com a intenção de nos protegermos dela. Se o desamparo, por um lado, é uma condição fundante do psiquismo humano, por outro, seu aparecimento pode revelar a ocorrência de fraturas éticas (Safra, 2004). Estas fraturas estão relacionadas a uma ruptura com a confiança e com a espera pela mente de um outro, condição indispensável – de amparo – para a ampliação das possibilidades psíquicas em face do desamparo.  A aliança com o pensar fascista é a expressão da desesperança em relação ao outro, como alteridade, mas ocorre quando, pela impotência, busca-se a onipotência. Trata-se, portanto, de um falso amparo narcísico, que pode ser buscado, como comportamento político, em qualquer ideologia.

Sabemos que a atividade psicanalítica sustenta as incertezas do não saber, para ser surpreendido com a aparição do pensamento numa relação dialógica. Na situação clínica, a função po-ética consiste na surpreendente criação ou revelação da alteridade. Uma alteridade concebida como uma nova formação de metáforas e de histórias possíveis para um sofrimento[6]. Trata-se de uma atividade que devolve o valor da verdade ao seu conteúdo correspondente e restabelece o valor estético da pesquisa e da incerteza em relação ao saber, tornando a ação política oposta ao discurso de poder. Isso porque as metáforas e histórias são sempre incapazes de expressar todo o sofrimento. Ou seja, trata-se de uma ação de des-empoderamento, que restabelece, assim, a força da verdade. A função po-ética tem implícita uma ética do cuidado e da atenção aos sofrimentos humanos, que são muitas vezes impensáveis, ainda mais quando associados à nossa condição de desamparo.

Num mundo em que o discurso fascista se propaga como rastilho de pólvora, com um encantamento pelo choque, com ares de espetáculo, a tarefa psicanalítica, como resistência ao fogo, é continuar a mostrar seus princípios po-éticos. Pois o alimento que nossa mente precisa é aquele do encontro com a alteridade, que nos nutre com o sentimento de verdade, mesmo que seja provisória e incompleta.

 

[1] Faço alusão ao filme de Ingmar Bergman “O Ovo da Serpente”, Das Schlangenei(1977), que tratado período de incubação do nacional-socialismo na Alemanha.

[2]George Orwell em seu livro 1984, descreve o controle sobre a linguagem como um dos modos de se restringir o escopo do pensamento. Orwell descreve a Novilíngua, uma língua cujo objetivo seria tornar impossível designar certas coisas, de modo que aquilo tenderia a se tornar inexistente pela impossibilidade de ser designada. Ou seja, ideias indesejáveis a um sistema fascista não teriam como surgir de dentro dele.

[3]Brun (2018): “Por que o fascismo continua sendo tão atraente? Em Israel se apresenta o fascismo como um monstro terrível. Creio que é um erro, porque como todo mal tem uma cara amável e sedutora. (…) Como é possível que milhões de alemães tenham apoiado Hitler? Deixaram-se levar porque os fazia se sentir especiais, importantes, belos. Por isso é tão atraente”. No filme de Peter Cohen, Arquitetura da Destruição (1992), logo no seu início, o narrador diz: ”Dizem que numa aldeia alemã dos anos trinta, o povo tinha um conceito próprio do que era o nacional-socialismo. Eles achavam que o nacional-socialismo tinha uma ligação com a pureza (…) o sonho de criar, através da pureza, um mundo mais harmonioso”.

[4] Em 1977, Foucault escreve o prefácio do Anti-Édipo, de Deleuze e Guattari, formulando que há um inimigo maior a ser combatido, o fascismo. “Não somente o fascismo histórico de Hitler e Mussolini – que soube tão bem mobilizar e utilizar o desejo das massas, mas também o fascismo que está em todos nós, que ronda nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz gostar de poder, desejar essa coisa mesma que nos domina e explora”.

[5] Na forma de transformações em alucinose (Bion, 1965/2004).

[6] Pensamos em Hanna Arendt: “Toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história”.

Imagem: Retirada do filme de Ingmar Bergman, “O Ovo da Serpente”.

Ricardo Trapé Trinca é psicanalista, doutor em Psicologia Clínica pela USP, mestre em Filosofia pela PUC-SP e membro filiado ao Instituto “Durval Marcondes” da SBPSP. 

Narciso sob a tinta

*Vera Lamanno Adamo

Por que publicamos experiências vividas na clínica? Escrevemos porque aquele algo da experiência vivida pode ser útil para pensarmos o que falta, o que ainda não foi dito? Escrevemos por conta do espanto? Para abrir um espaço onde se está sempre a desaparecer?

Uma paciente frequentemente dizia que a grande preocupação de um poeta era saber se aquilo que havia escrito era poesia. Na poesia, salientava, o autor está praticamente imperceptível. Por isso, insistia em afirmar que: “a crônica, uma espécie de diário, é considerada uma escrita de segunda categoria. Na crônica, o escritor está todo lá, sem nenhuma invisibilidade”. Para ela, poesia era fruto de um processo intelectivo altamente planejado e consciente, completamente desligado da pessoa do autor. O autor estaria completamente desaparecido por trás de sua obra.

Este argumento sobre o que considerava ser poesia era condizente com o seu ideal de eu fundamentado numa espécie de assepsia do ser. Obstinada a rejeitar qualquer alteração em si, nunca ou muito raramente perdia a paciência. Jamais uma palavra áspera para alguém. Não se queixava, não reclamava, não criticava ninguém, não se zangava com ninguém de maneira evidente. Não mostrava qualquer desapontamento em relação a mim ou em relação às pessoas de sua convivência.

Um dia ela me trouxe uma de suas poesias e ficou absolutamente inquieta ao perceber a totalidade de sua presença naquilo que escrevera. Desejo, conflito e fantasia estavam todos lá. É certo que sob a tinta e meio de canto, nas entrelinhas, enviesados. Mas estavam todos lá.

Cada vez que colocamos no papel uma experiência clínica, a questão da inclusão e exclusão do narrador naquilo que escreve se apresenta. Tomado por um ideal de assepsia, envolto numa espécie de armadura, escreve-se um texto inteligente, erudito, controlado. Quase nada se transmite de si para si, de si para o outro. Uma escrita imóvel, estática, uma narrativa que não abre para o desconhecido, aquele desconhecido que entra e atrapalha.

Se eu tivesse que advogar sobre a escrita psicanalítica, defenderia a ideia de que fosse feita com menos erudição e mais crônica.

A palavra crônica se origina do latim Chronica e do grego Khrónos (tempo). O significado principal neste tipo de texto é precisamente o conceito de tempo, ou seja, é o relato de um ou mais acontecimentos em um determinado período. É a narração do cotidiano das pessoas, fazendo com que se veja de uma forma diferente aquilo que parece óbvio demais para ser observado. Uma boa crônica é rica nos detalhes, descritos pelo cronista de forma bem particular, com originalidade.

A crônica, na maioria dos casos, é narrada em primeira pessoa, ou seja, o próprio escritor está “dialogando” com o leitor, não está falando do “alto”, está sentado ao lado do leitor num meio-fio.

Geralmente, as crônicas apresentam linguagem simples, espontânea, situada entre a oral e a literária. Isso contribui também para que o leitor se identifique com o cronista, que acaba se tornando o porta-voz daquele que lê. Com base nisso, o cronista pode ser considerado o poeta dos acontecimentos do dia-a-dia.

O cronista Werneck (2011), na abertura de seu livro Esse inferno vai acabar, afirma que em Minas Gerais não acontece nada, mas o pessoal se lembra de tudo. Nesta frase, está contida uma das mais instigantes definições do gênero. O não acontecimento, o comezinho, a miudeza que são a matéria prima da crônica.

A repórter Eliane Brum, anos atrás, foi escolhida por Marcelo Rech um diretor de redação que buscava inovação para o jornalismo brasileiro, para um desafio: extrair crônicas reais de pessoas comuns e situações corriqueiras. Ela capturou a ideia e escreveu uma série de reportagens sobre personagens e cenas cotidianas em forma de crônicas da vida real, transformando-as numa coletânea de quarenta e seis colunas por quase onze meses.

Aí encontramos uma repórter que não está à procura do espetacular, mas à procura de histórias escondidas na vida anônima de cada um. A vida que ninguém vê (2006), mas que Eliane viu, é um mergulho no cotidiano para provar que não existem vidas banais.

Assim como o cronista, o psicanalista escreve sobre o humano inspirado nos acontecimentos diários de um processo de análise. Com o olhar inspirado no cotidiano de sua clínica, as histórias de um paciente ou de um processo de análise nos inquietam e nos despertam para outras histórias, ideias, pensamentos. O resultado, quando tudo corre bem, é uma espécie de conversa que revela a humanidade dos personagens e a nossa própria.

A escrita psicanalítica com mais crônica e menos erudição é móvel, transitiva, inquietante, se cumpre sem um total planejamento intelectual e consciente, inspirando continuar falando de uma voz que não quer se apagar. Quanto mais se vê, mais se quer enxergar.

*Texto publicado na íntegra no Jornal de Psicanálise 50 (92), 91-97, 2017

Referências
Brum, E. (2006). A vida que ninguém vê. Porto Alegre: Editorial Arquipélago.
Werneck, H. (2011). Esse inferno vai acabar. Porto Alegre: Arquipélago Editorial.

*Vera Lamanno Adamo é membro efetivo e analista didata do GEPCampinas e da SBPSP.

 

 

 

Psicanálise e Migração – a possibilidade de uma Clínica Transcultural

 * Paula F. Ramalho da Silva, Stephania A. R. Batista Geraldini e Maria Cecília Pereira da Silva

De acordo com o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da Organização das Nações Unidas (ONU), o número de migrantes internacionais chegou a 244 milhões em 2015, dos quais 20 milhões são refugiados. Para a Organização, um migrante internacional é alguém que mudou o seu país de residência; um refugiado internacional fez essa mudança forçadamente, geralmente por causa de conflitos armados ou perseguições.

No Brasil, segundo pesquisa do Núcleo de Estudos da População da Universidade Estadual de Campinas, entre os anos 2000 e 2015 foram registrados cerca de 870.000 imigrantes, quase 370.000 no estado de São Paulo, sendo o maior fluxo proveniente da Bolívia.

O evento migratório está em geral associado a questões socioeconômicas e políticas que se impõem ao migrante, mas ele não se resume a um ato social, é também um ato psíquico, e este conceito é fundamental para a clínica psicanalítica transcultural, que se torna cada vez mais relevante na atualidade.

O deslocamento do migrante pode ocorrer após ou por causa de rupturas traumáticas com o seu contexto externo e, mesmo quando não, traz ruptura e desorganização externa e interna; com frequência, ele é experimentado de maneira ambivalente – desejo e medo de partir, desejo e impossibilidade de permanecer, desejo de manter traços culturais que compõem a história do migrante e de sua família e necessidade de se adaptar a uma nova cultura num novo país.

Considerando essa especificidade, a psicanalista francesa Marie Rose Moro propõe um modelo clínico baseado na etnopsicanálise, que vem sendo utilizado na Clínica Transcultural ligada ao Centro de Atendimento Psicanalítico da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

Os atendimentos na Clínica Transcultural da SBPSP são oferecidos a famílias de imigrantes. Em cada sessão, o grupo familiar se encontra com o grupo de profissionais, composto por um psicanalista/terapeuta principal, um psicanalista/coterapeuta, um tradutor, um psicanalista/terapeuta responsável por estar com as crianças, e por outros psicanalistas que trabalham no sentido de criar uma espécie de caixa de ressonância, construindo assim um continente para as demandas apresentadas, que podem então ser acessadas e (res)significadas.

Dessa maneira, podem surgir questões que dizem respeito ao desenraizamento, ao abandono das tradições, dos traços culturais, do local de origem, de membros da família; questões que dizem respeito às dificuldades de adaptação e integração; diferenças entre gerações e entre os membros da família frente ao processo migratório, especialmente quando as crianças já nascem no país para o qual os pais migraram e não conhecem o local de onde eles partiram. Não raro, apresentam-se questões associadas à parentalidade, acrescidas de complexidade à medida que pais e mães precisam dar conta de necessidades básicas para a sobrevivência da família, como alimentação, moradia e trabalho, enquanto não podem contar com uma rede de apoio composta por familiares e amigos que permaneceram no país de origem, não sabem até que ponto devem contar com sua herança cultural e ainda precisam justificar constantemente, para os filhos e para eles mesmos, a decisão de migrar.

Baseando-se na utilização complementar das matrizes psicanalítica e antropológica, no reconhecimento e respeito pelas características culturais de cada grupo familiar e, ao mesmo tempo, na compreensão de que, mesmo imerso numa determinada cultura, cada indivíduo mantém a sua singularidade, pressupostos da etnopsicanálise, a Clínica Transcultural procura dessa maneira acompanhar aqueles que atende na construção de significados em seu processo migratório.

Conheça a equipe da Clínica Transcultural do Centro de Atendimento Psicanalítico da SBPSP

Maria Cecília Pereira da Silva

Ana Balkanyi Hoffman

Diva Aparecida Cirluzo Neto

Fushae Yagi

Maria Augusta Gomes

Maria Cristina B. Boarati

Maria José DellAcqua Mazzonetto

Paula F. Ramalho da Silva

Stephania A. R. Batista Geraldini

Tania Mara Zalcberg

Maria Cecília Pereira da Silva épsicanalista, Membro Efetivo, Analista Didata, Analista de Criança e Adolescente e Docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Doutora em Psicologia Clínica e Mestre em Psicologia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo -PUCSP.  Pós-doutora em Psicologia Clínica pela PUCSP.  Especialista em Psicopatologia do Bebê pela Universidade de Paris XIII. Coordenadora da Clínica 0 a 3 – Intervenção nas relações iniciais pais-bebê e da Clínica Transcultural do Centro de Atendimento Psicanalítico da SBPSP.  Membro e professora do Departamento de Psicanálise de Criança do Instituto Sedes Sapientiae no curso Relação Pais-Bebê da Observação à Intervenção.

 

Stephania Aparecida Ribeiro Batista Geraldini é psicóloga, Membro Filiado ao Instituto Durval Marcondes da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, membro da Clínica 0 a 3 – Intervenção nas relações iniciais pais-bebê e da Clínica Transcultural do Centro de Atendimento Psicanalítico da SBPSP, doutoranda do IPUSP, mestre em Early Years Intervention pela Tavistock and Portman NHS Foundation Trust, Especialista em Psicanálise com Crianças pelo Instituto Sedes Sapientiae.

 

Paula Freitas Ramalho da Silva é psiquiatra, Membro Filiado ao Instituto Durval Marcondes da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, membro da Clínica 0 a 3 – Intervenção nas relações iniciais pais-bebê e da Clínica Transcultural do Centro de Atendimento Psicanalítico da SBPSP. Mestre em Psiquiatria e Psicologia Médica pela Universidade Federal de São Paulo.

 

*Imagem: Agência Brasil

O inconsciente nos pés e a Copa do Mundo no divã

*Denise Salomão Goldfajn

Estamos de novo em época de Copa do Mundo, onde o Brasil  é exemplo seja nas fúlgidas vitórias ou nas retumbantes derrotas (1970 e 2014). Para Chris Oakley (2007), psicanalista inglês, autor do livro Football Delirium, o Brasil representa para o futebol mundial o que Freud representa para a psicanálise, o lugar da criação e da inventividade.

Cada edição da Copa, congrega chuteiras, países e o ambiente político e social de seu tempo. Um Brasil retratado no passado, como “país do futuro,”  pelo autor Stefan Zweig,  aproxima-se em 2018, e com as eleições na esquina, do destino sombrio do qual o mesmo escritor pensara ter escapado. O Brasil do presente, exemplar no futebol, é também exemplar nos rankings da desigualdade social, de violência interpessoal e da corrupção.

Mas em tempos de Copa do Mundo, vivemos clivados, dissociados, saímos da rotina e entramos por janelas e telas em um outro Brasil, potência soberana, tratado como referência e com reverência. Com a chegada da Copa, para brasileiros e brasileiras, não há rotina que se mantenha no país.

Remarcar, cancelar ou manter as sessões no consultório durante a copa? Quem quer ver o jogo, o paciente, o psicanalista, os dois, ou nenhum dos dois? Onde está, no manual da técnica psicanalítica, o capítulo que fale sobre o manejo da clínica em época de Copa do mundo?

Estamos nós, pacientes e analistas de braços dados na corrente pra frente, ligados a mesma emoção, ou não? Essa fantasia de que podemos deixar a análise em suspensão e ser junto com nossos pacientes, pares iguais, inaugura uma série de possibilidades clínicas. Pois gostemos ou não de futebol, em época de Copa, o tema está presente em nossos consultórios.

Para o psicanalista as representações se multiplicam, famílias, como times, treinadores como pais, jogadores como ideais, oponentes que trazem todos os tipos de conflitos relacionais. Os jogadores encenam ao vivo as manifestações inconscientes nas múltiplas telas de LCD. Como explicar o jogador de frente para o gol, que se via enorme pela transmissão na TV,  e sem ninguém para defender, chutar a bola para fora dos travessões, perdendo a oportunidade da glória e do gol. Como entender o gesto, aquela mão do jogador que salvou seu time, a lei vale ou não? Como lidamos com a transgressão? E o VAR, tecnologia auxiliar conseguirá super-arbitrar? E aquele jogador que tentando defender seu time, erra contra a sua vontade, ao mesmo tempo que presenteia, com a vitória, o adversário.  Segurou a camisa? Fez manha e artimanhas? Passou pelo juiz que não viu? Erros ‘infantis’ que profissionais do jogo jamais cometeriam. Quantos comentaristas, tentando compreender o incompreensível, evocaram a fórmula “Freud explica”. E, Freud, de fato explica. Lições de psicanálise se multiplicam ao vivo e ao mesmo tempo para milhões de pessoas: atos falhos, medo do sucesso, egos ideais e ideais do ego, projeções e atuações. É na rapidez dos pés que o inconsciente se mostra na tela.

Dentro e fora da pequena área de nossos consultórios a interseção cultural e subjetiva emerge, mostrando as cores da transferência social. É só deixar a bola rolar sem impedimentos para perceber que a transmissão da psicanálise está, mais uma vez, ‘no ar’.

 

Denise Salomão Goldfajn é membro associado da SBPSP e da SBPRJ. Pós-doutoranda do IPUSP e Coordenadora-centro do projeto Pensamento Psicanalítico Latino Americano (PPL) da Fepal. 

Quem tem medo do Largo do Paissandu? – Reflexões sobre uma tragédia secular

*Rodrigo Lage Leite

Há pouco mais de um mês, fui sozinho à Galeria Olido, no Largo do Paissandu, para assistir ao filme “120 Batimentos por minuto”, sobre as primeiras vítimas da AIDS e sua luta, na França do início dos anos 90, frente à invisibilidade que as autoridades insistiam em oferecer à emergente epidemia, fatal epidemia que se alastrava aceleradamente na comunidade gay do país.

Sai atordoado do cinema naquele fim de domingo nublado, e, como num filme de Antonioni, vaguei pelo Largo do Paissandu, por seus bares decrépitos, seus corpos abjetos (no sentido de Judith Butler, retomado por Tiago Porto, em artigo recente na Revista IDE), seus prédios feios…

Sim. À primeira vista, me atraía a feiura e a aridez daquele cenário da tragédia anunciada para mais algumas semanas: um incêndio, um desabamento e o escancaramento da nossa imensa dissociação social, intrigante recalque em massa – ou das massas – que nos afasta fragorosamente do mundo, dos outros.

Só fui resgatado do meu soturno unheimlich, ao me deparar com a placa na entrada da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no centro do Largo. A placa contava brevemente a história da igreja (os detalhes vim a conhecer depois), fundada em 1906, após a desapropriação da antiga Igreja dos escravos, e também do seu cemitério, motivada por um projeto de modernização urbanística, parte de uma evidente ação higienista da prefeitura.

A construção da nova igreja fora assim assentada em soluções de compromisso: entre a proibição de que os negros entrassem na igreja dos brancos e a obsessão em catequizá-los, mantê-los atrelados à fé católica. Entre conciliar a necessidade de uma igreja à parte para os negros e o projeto higienista da prefeitura.

A placa da igreja me arrancara da condição de perambulante estrangeiro num território alheio, mas visceralmente meu. No coração do Largo do Paissandu, bem ali, na sinceridade que evola daqueles que não estão tão tomados por ideais enrijecidos, podia circular mais livremente a radicalidade do sexual freudiano, redescoberto no mal-estar da neurose. Cinemas de sexo explícito – “Assista agora: a trans e a garota” -, bêbados desagradáveis, mas irreverentes, mães suficientemente peculiares que seguram seus filhos com gritos brutos, odores de esgoto, de urina, uma bicicleta que passa veloz e leva o celular do incauto. Era nesta língua em que eu me encontrava imerso: “língua errada do povo, língua certa do povo”, que a despeito da confiança de Bandeira de que “é ele que fala gostoso o português do Brasil”, é secularmente relegada à mais perversa e dura invisibilidade.

Os sobrados e prédios do Paissandu exibiam suas janelas quebradas, remendos de papelão e plástico, cortinas improvisadas em tecidos aleatórios, varais expostos aos olhos do mundo. Qualquer um de nós que por ali passasse, poderia assistir a intimidade miserável – mas solidária – de pessoas tentando se amparar na privação absoluta revelada nos fios desencapados que, negligenciados pelos olhos de toda uma cidade – vejo e não vejo – explodiram em fogo, em morte, sintoma desvelado em êxito letal.

Após o convite de Carlos Frausino para escrever essa pequena reflexão sobre o desabamento no Paissandu, voltei à praça com o intuito de copiar ipsis litteris os escritos da placa que me aturdiram à saída do cinema. Encontrei um campo de guerra, com grades de interdição ao redor de centenas de pessoas, inúmeras crianças jogadas sobre as calçadas sujas, disputando marmitas oferecidas por vizinhos ou alguns brinquedos Fisher-Price doados por passantes. Cercados pela polícia, passavam o dia a esmo, à espera de uma algo não sabido, dependentes da velocidade com que as pás escavadeiras possam levar para desenterrar em escombros séculos de história.

Convencido de que não poderia chegar até a placa, conversei com um rapaz negro da organização que, aparentemente simpático à minha causa, caminhou até um colchão indicado por mim, atrás do qual imaginei estivesse a placa, e nada! Olhou-me com a solidariedade com que se olha para os ingênuos e me falou docemente: “Mas, olha, os padres sumiram. Tem comida lá dentro, mas eles trancaram e não abrem a Igreja há uma semana”! Não confirmei a veracidade da informação, sua realidade material, mas o conteúdo me pareceu absolutamente coerente com a história da Irmandade dos Homens Pretos do Largo do Paissandu.

Acima do alambrado, num novo varal improvisado, cartazes feitos em cartolina corajosamente tentavam responder às acusações sofridas nos últimos dias pelos moradores do prédio desabado e de tantos outros prédios da redondeza: “Todos temos direito à cidade e à moradia”.

Os cartazes parecem frágeis, mas não são! Integram a presença resistente e a atitude firme dos movimentos sociais que há séculos enfrentam a invisibilidade que perversamente, por via de denegação, grande parte da população e do poder público insiste em oferecer aos negros e aos pobres do país.

Seja na violência das fake news agressivas, veiculadas via internet, que achincalham os movimentos sociais, generalizando-os como grupos de bandidos ou desordeiros, seja na irritação mais comedida, mas não menos cínica, dos que em 1906 chamavam a polícia para reclamar dos batuques, danças e símbolos religiosos do povo africano na Praça Antonio Prado, ou dos que, em 2018, chamam a polícia para dar solução rápida ao imbróglio da falta de moradia do país e das invasões no centro da cidade, haverá sempre o ranço da denegação. Se bem trabalharem as pás escavadeiras do Estado de São Paulo, encontrarão bem no fundo dos escombros do Largo do Paissandu, viva, a escravidão no Brasil.

Texto originalmente publicado no Observatório Psicanalítico.

*Rodrigo Lage Leite é psicanalista, membro associado da SBPSP  e editor do blog de psicanálise

Notas sobre Fanatismo e Mentira

*Roosevelt  Cassorla

O mentiroso tem que saber a verdade para poder deformá-la. Portanto, sua capacidade de pensar é considerável. A mulher de Putifar, quando acusa José – personagem bíblico – de violentá-la, sabe que sua mentira é fruto do ressentimento por ter sido rejeitada sexualmente. Defrontamo-nos com aspectos perversos, diferentes dos ingênuos e psicóticos, em que erros de percepção redundam em falsidades. O ingênuo acredita que o Sol gira em torno da Terra. O psicótico afirma que está sendo perseguido. Ambos não estão mentindo, ao contrário da mulher de Putifar. O aspecto perverso pode confundir o analista quando o paciente se coloca como no paradoxo de Eumênides: “Um homem diz que é mentiroso. Isso é verdade ou mentira?”.

A perversão pode ramificar-se em mentira narcísica – aquela cuja função é apenas proteger-se da alteridade – e mentira com perversidade, aquela que também visa  atacar, difamar, caluniar e maltratar o outro.  Uma criança pode mentir por vergonha ou para evitar ser punida. Um criminoso mente para roubar ou matar alguém. Um invejoso mentirá para prejudicar o outro. A primeira é mentira narcísica.  As últimas, como as da mulher de Putifar, envolvem perversidade.

O fanático está absolutamente certo que suas ideias estão corretas. Seu trabalho é “salvar” os que não acreditam na “verdade”. Aqueles que não se deixam “salvar” serão considerados inimigos. O fanático raramente mente. No entanto acredita em qualquer mentira que reforce sua crença. A parte fanática de todos nós é alvo fácil de “fake news”.

O termo “fanático’ vem do latim “fanus”, templo ou santuário. O fanático era o vigilante ou porteiro, que velava cuidadosamente pelo templo e, por extensão, pela crença. Ao contrário da maioria dos romanos que veneravam vários deuses, o fanático se dedicava, com fervor e exaltação, a apenas uma crença. Sua crença é a única verdadeira. Os não crentes serão combatidos e, se não vencidos, serão eliminados – até fisicamente – a solução “final”.

Em tempos mundiais de “nós contra eles”, o lado fanático de todos nós é facilmente estimulado. A mentira acompanhará a crença falsa quando necessário. Os judeus são exploradores, os negros e as mulheres inferiores, os homossexuais anormais indecentes, os islâmicos terroristas, os favelados são traficantes. Estas são as falsidades e mentiras predominantes em nosso tempo. O leitor conhece inúmeras situações de seu entorno.

Como vimos, as configurações apresentadas atacam a alteridade. O outro não é considerado como sujeito, mas como objeto de desprezo, de manipulação e ataque. O contato com a alteridade é traumático e, por isso, o outro tem que ser eliminado. O tratamento psicanalítico – quando viável – entrará em contato com áreas altamente traumatizadas, vazios apavorantes, compensados por certezas e terrorismo excitantes.

O escritor Amos Oz nos conta de um motorista de táxi judeu cuja solução para o problema com os árabes era “matar todos eles”. Ao final de um diálogo, fingindo concordar, o interlocutor indaga: “Agora imagine que você entrou em uma casa e matou todos os árabes. Você se afasta e ouve o choro de um bebê, dentro da casa”. O motorista retruca, impactado: “O sr. é muito cruel !”. Este motorista não era, na realidade um fanático. Ao entrar em contato com a realidade, com a alteridade, pôde rever-se.

Atualmente os fanáticos de “direita” querem eliminar os de “esquerda” e vice-versa, não somente no Brasil. Não existe o desejo de colocar-se empaticamente no lugar do outro para abrir as possibilidades de diálogo. Como cidadãos e psicanalistas, temos que descobrir como fazer isso com nossos vizinhos, colegas, amigos e adversários. E com nós mesmos.

A denegação do fanatismo e da mentira pode conduzir-nos às situações tão bem descritas no poema de Niemöller (muitas vezes atribuído a Maiakovsky): “Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram; já não havia mais ninguém para reclamar”

 

Roosevelt Cassorla é membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e do Grupo de Estudos Psicanalíticos de Campinas. Professor Titular da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. Sigourney Award 2017.