sociedade

As marcas de um massacre. E o sentido de comunidade

Em entrevista ao Nexo Jornal, Bernardo Tanis, psicanalista e presidente da SBPSP, faz uma análise sobre os fenômenos de violência e as tragédias que acometem o Brasil e o mundo, bem como o longo caminho de reconstrução das comunidades após tais acontecimentos.

“O luto deve ser uma ação coletiva: a sociedade precisa digerir o que aconteceu, elaborar alternativas e se reerguer coletivamente […] Isto diz respeito ao Brasil: precisamos reconstruir o mínimo de confiança no coletivo. A ausência desse elo é muitas vezes explorada por extremistas”.

Confira:

As marcas de um massacre. E o sentido de comunidade 

Para Bernardo Tanis, atentados como o de Suzano podem abalar a confiança no coletivo e abrir uma brecha explorada por extremistas, provocando mais atos de violência

Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2019/03/15/As-marcas-de-um-massacre.-E-o-sentido-de-comunidade

Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

 

 

Ficção ou realidade: quando a vida imita a arte

* Julio Hirschhorn Gheller

Tomo para reflexão a premiada série americana “The Handmaid’s Tale” (O Conto da Aia), baseada no romance de mesmo nome, lançado em 1985 pela escritora canadense Margareth Atwood.

A história se passa em um futuro distópico, em que os Estados Unidos sofreram um golpe liderado por uma facção fundamentalista cristã, que tomou o poder, matando o presidente e membros do Congresso. Foi instaurado um governo autoritário, a nova República de Gilead, uma ditadura fortemente militarizada, que faz uso da doutrina religiosa para estabelecer um draconiano código de leis e costumes. As punições para dissidentes e infratores são severas: amputação de membros, fuzilamentos, apedrejamentos e enforcamentos. Os corpos dos enforcados permanecem dependurados em praça pública como macabra advertência para toda a população. Tudo é controlado por uma casta de comandantes – todos eles do sexo masculino – que constituem o alto escalão, detentor do poder de legislar, julgar e condenar.

Por força da poluição e degradação do ambiente, a maioria das mulheres ficou infértil, inclusive as esposas dos comandantes. Daí que, para permitir a procriação, as poucas mulheres férteis são sequestradas, separadas de suas famílias e destinadas a servir aos comandantes como fêmeas reprodutoras. São destituídas de seu nome de origem. Tornando-se propriedade do senhor que as fecundará, adotam o nome dele, precedido da palavra of, enfatizando o caráter de pertencimento e submissão do vínculo que os liga.

A protagonista do seriado é a aia Offred. Ela é “posse” de Fred até cumprir o seu papel de engravidar e parir um filho. Depois de dar à luz, será separada do bebê para cumprir a mesma função em outra casa. Mensalmente, no período fértil, repete-se um ritual para lá de bizarro, denominado de “Cerimônia”, o procedimento específico para se alcançar o objetivo pretendido. A aia se deita entre as pernas da esposa do comandante, assumindo a posição em que será por ele penetrada em um verdadeiro estupro, devidamente endossado pela lei e glorificado pela religião por cumprir os “desígnios divinos”. A esposa participa do ato como espectadora do coito, que, se bem-sucedido, resultará em um bebê considerado como uma bênção para o casal.

Interessante notar que todas as mulheres usam vestimentas iguais no modelo e na cor, identificando sua classe social. É um sinal de que desejos e gostos pessoais, indicativos de liberdade individual, devem ser esmagados. As aias usam uma túnica vermelha com chapéu branco de largas abas, dificultando a visão de seus rostos. As mulheres inférteis, as marthas, que trabalham como empregadas domésticas, usam vestido cinza com um lenço da mesma cor na cabeça. As senhoras da elite portam vestidos verdes. Mesmo estas devem permanecer sempre obedientes e discretas, à sombra dos maridos.

Outro personagem de destaque na série, Serena Joy, esposa de Fred, é uma personalidade complexa e multifacetada.  Foi uma das idealizadoras do sistema vigente em Gilead. Sendo dotada de inteligência e sensibilidade, vai, aos poucos, questionando as regras rígidas e inflexíveis. Pensa em revogar a lei que proíbe as mulheres de ler, condenando-as a um estado de permanente inferioridade diante dos homens. Entretanto, será vítima do monstro que ajudou a criar. Defendendo a ideia diante do alto comando, é punida pela ousadia e insurgência com a amputação de um dedo, em decisão corroborada pelo próprio marido.

As ruas são patrulhadas por militares armados, prontos para entrar em ação à menor manifestação de rebeldia, seguindo ordens superiores. Existe ainda a figura do “Olho”, indivíduo treinado para espionar, mesmo entre as altas esferas, com vistas a apontar quem se desvia dos preceitos vigentes. Tudo converge para um clima de paranoia que a todos atinge. A atmosfera das cenas é sempre angustiante, pesada e sufocante, ressaltada por uma iluminação sombria.

É interessante pensar no caminho que levaria a uma situação de tamanha opressão como a descrita. Quais são os ingredientes para o caldo de cultura favorável à instalação de um regime caracterizado por tamanho horror? Não estaremos distantes de uma resposta acertada se elencarmos fatores como o predomínio de estupidez, arrogância, boçalidade, preconceito, misoginia, xenofobia, homofobia e racismo. Tudo isto conflui para uma naturalização da brutalidade e violência destrutivas. Significa o perigo da barbárie vir a derrotar a civilização, um dos aspectos abordados por Freud ao discutir a inclinação do ser humano para a agressão. É algo que a história da humanidade registra de tempos em tempos, em assustadoras proporções, como nas grandes guerras do século passado. Todavia, também está presente em episódios registrados cotidianamente nas páginas dos jornais e na internet, quando não ao nosso redor. Basta olhar para enxergar.

Tendo assistido a alguns episódios da série, não pude deixar de me lembrar do filme “O Ovo da Serpente”, do grande cineasta sueco Ingmar Bergman, ambientado na Alemanha dos anos que antecedem a ascensão do nazismo, e que mostra o recrudescimento do antissemitismo.  Ele ilustra como aspectos perversos e tirânicos, latentes na sociedade, podem ser cultivados e instrumentalizados por líderes messiânicos, que pretendem representar uma promessa de redenção, em geral, ilusória e enganosa. Encontrar um culpado pelas mazelas de uma nação e, em seguida, transformá-lo em inimigo pode, no limite, conduzir à solução de eliminá-lo. Hitler, com suas ideias radicais e seus maneirismos histriônicos, era até ridicularizado pela classe conservadora que o apoiou, imaginando que poderia controlá-lo e manipulá-lo para atender aos seus interesses. Deu no que deu, como bem sabemos.

Para finalizar, vale acrescentar outra referência importante do mundo do cinema. O genial Chaplin, em 1940, fez sua primeira incursão em filmes sonoros com a obra-prima “O Grande Ditador”. Trata-se de uma impiedosa sátira contra o nazismo e o fascismo. Com ironia cáustica focaliza especialmente a figura do “Führer” Hitler, mas não poupa o “Duce” Mussolini, outro tirano da época. O clima de paródia corrosiva percorre o roteiro todo, sendo interrompido no final por um emocionado e comovente discurso em prol da igualdade e democracia.

Já que a vida pode imitar a arte, esperemos que a profecia do “Conto da Aia” não se realize.

Julio Hirschhorn Gheller é psiquiatra, psicanalista, membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Sobre os dias de hoje

* Gizela Turkiewicz

Na política e na vida cotidiana, vivemos tempos de intolerância e de polarizações. Quando alguém vem ao nosso encontro, traz consigo uma parte do seu mundo lá de fora, e nós, analistas, também somos permeados por nossas experiências. A escuta analítica não se restringe à sala de análise, mas pode ser ampliada ao nos atentarmos para os acontecimentos do mundo ao redor, numa espécie de escuta da cultura, da qual todos somos sujeitos. Qualquer ameaça à democracia, ao livre pensamento e aos direitos básicos da humanidade, afeta a todos nós.

Hoje, eu atendi uma menina, uma moça, uma mulher. Ela chorou pela travesti do Arouche, pelo estudante queimado com ferro, pela mulher marcada com a suástica, por alguém morrendo a facadas. Como alguém é capaz de perseguir outro alguém e o matar com facadas? Será que eles não veem?

Chorou de medo e de decepção. Medo de ser atacada, violentada, de ter seus direitos roubados, de perder a liberdade, de não poder decidir. Medo de não mais existir. Não era medo da morte morrida, mas de ser apagada, anulada, desconsiderada, exilada. Exilada sem sair do país, exilada num isolamento onde ninguém a vê ou escuta.

Decepcionada, horrorizada com a liberdade ameaçada, a violência amenizada, com a relativização da barbárie, com o lugar a que já estamos. A que ponto chegamos? Isso já é triste, é muito triste termos chegado até aqui.

No divã, ela chorou lágrimas de decepção, de medo, de indignação; por não acreditar. Lágrimas de preocupação pelo amigo gay, pela mãe ativista, pelo pai professor, pelo namorado ateu, pela turma feminista, pelo colega cotista, por aqueles que não sabem o que estão fazendo.

Eu gostaria de ter algo a dizer. Eu gostaria de poder fazer uma associação que falasse sobre seu mundo interno, ou sobre algo que lhe fosse muito particular. Mas eu não pude. A única coisa que eu poderia oferecer a ela naquele momento era minha solidariedade.

Essa mulher poderia ser minha filha, minha mãe, minha irmã, minha melhor amiga ou uma desconhecida. Poderia ser eu ou você. Poderia ser todas e qualquer uma nós. Isso nos diz respeito.

Gizela Turkiewicz é psiquiatra e psicanalista, membro filiado do Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

O Desamparo na Cidade

* Adriana Casagrande e Rita Andréa Alcântara de Mello

Como descrever uma cidade? Como descrever uma experiência com a cidade?

Vem à cabeça a personagem de Saint-Preux em A nova Heloisa, de Rousseau, quando narra sua experiência com uma cidade grande pela primeira vez: “Eu começo a sentir a embriaguez a que essa vida agitada e tumultuosa me condena. Com tal quantidade de objetos desfilando diante dos meus olhos, eu vou ficando aturdido…perturbam meus sentimentos, de modo a fazer com que eu esqueça o que sou e qual o meu lugar”.

Essa vivência pode ocorrer quando nos defrontamos com qualquer metrópole como Tóquio, Deli, Nova York, Cidade do México ou Pequim. Segundo a ONU, a previsão para 2050 é que seremos cerca de 9,8 bilhões de habitantes no planeta e, nas próximas décadas, as principais cidades terão mais de 10 milhões de habitantes.

Na década de 60, quando comecei a conhecer São Paulo, a cidade possuía aproximadamente quatro milhões de habitantes. Hoje, em um pouco mais de meio século, a população e a cidade mais que triplicaram, multiplicando, e muito, os seus problemas.

A cidade, com suas referências históricas, cedeu lugar a conglomerados indiferenciados. O espaço coletivo foi diminuindo, favorecendo o anonimato de pessoas e lugares. O crescimento, desordenado e desenfreado, favoreceu o rompimento das possibilidades de troca, de construções e de elaboração no tecido cultural da cidade.

Com esses problemas, como deixar de associar condições da vida urbana com condições de humanidade da população?

A cidade foi mudando para dar mais mobilidade e escoamento em suas vias. Surgiram grandes avenidas, marginais e calçadões dificultando o contato, a troca e a noção de individualidade; transformamo-nos em uma grande massa compactada, onde o tempo é sempre escasso, a correria é cotidiana, as pessoas são anônimas e os lugares sem narrativa.

O coração de São Paulo foi se transformando em um lugar frio e vazio, e essa “desordenação” deu lugar a uma cidade fragmentada, quebrando elos de comunicação e gerando grupos de pessoas isoladas, que sobrevivem num meio cultural empobrecido.

No último século, a cidade, relativamente segura, passou a ser relacionada a um lugar perigoso.  Os sociólogos B. Diken e C. Laustsen chegam a sugerir que o milenar “vínculo entre civilização e barbárie se inverteu. A vida urbana se transformou num estado de natureza caracterizado pelo domínio do terror, acompanhado pelo medo onipresente”.

Quando a cidade deixa de exercer sua função geradora e organizadora de sentidos, há a possibilidade de uma desagregação da rede simbólica que sustenta as trocas intersubjetivas, voltando a modos de funcionamento primitivos, formando aglomerações instáveis, desestabilizadoras e refratárias nas relações entre seus habitantes.

A cidade é o palco dos nossos dramas cotidianos; podemos fazer um paralelo dessa cidade fria, vazia, insegura e assustadora com os sentimentos despertos no morador da megalópole – a vivência do drama do vazio, da falta de sentido, do medo e do desamparo.

Em uma entrevista recente, o sociólogo Danilo Lima fala da cidade como ‘pessoa’; se a cidade é uma pessoa, que pessoa nossa cidade se tornou? Caótica, violenta, sem história, culturalmente empobrecida, sem condições de acolher seus filhos-cidadãos. Uma cidade em crise que espelha a crise que estamos vivendo psiquicamente.

Através de Winnicott conhecemos a mãe suficientemente boa, que oferece ao bebê condições para desenvolver seu potencial de vida. Sim, nascemos com um potencial e necessitamos de um espaço, onde possamos dar continuidade a esse desenvolvimento. Esse espaço é conquistado na relação mãe-bebê, mas não podemos esquecer que se faz necessária a presença de objetos e experiências culturais significativas para o amadurecimento. Se houver a ausência dessas experiências tão necessárias, o desamparo pode se instalar.

Voltando ao personagem de Nova Heloisa, que traz o contraste entre a pureza da vida – em contato com a natureza – e a corrupção da sociedade urbana; Rousseau apresenta o sentimento de embriaguez de Saint-Preux ao se defrontar, pela primeira vez, com a agitação e tumulto de Paris. Por vezes somos invadidos por esse sentimento frente ao ritmo alucinado da “cidade que nunca dorme” e da violência presente em seu dia a dia. Cotidianamente, vamos mantendo uma relação desumanizada com a cidade, tornando-nos desconectados das pessoas, do meio e de nós mesmos. O desamparo que experimentamos com essa desconexão pode nos paralisar. Passamos a sobreviver, e não mais viver todo o nosso potencial de vida.

Será que assim como Saint-Preux, estamos perto de esquecer quem somos, ou qual é o nosso lugar?

 

Adriana Casagrande é membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e especialista em Psicoterapia Psicanalítica pelo CEPSI

Rita Andréa Alcântara de Mello é membro filiado do Instituto Durval Marcondes da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e membro do Departamento de Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.

Psicanálise e formação de massa

*José Martins Canelas Neto

“A meu ver a questão decisiva para a espécie humana é saber se, e em que medida, a sua evolução cultural poderá controlar as perturbações trazidas à vida em comum pelas pulsões humanas de agressão e autodestruição.” (S. Freud, O mal-estar na civilização, 1930).

Diante da preocupante onda de ódio e violência que estamos vivendo no Brasil atualmente, proponho trazer algumas reflexões psicanalíticas que podem nos ajudar a compreender esse sombrio momento que vivemos.

Freud foi um importante pensador da cultura humana e publicou muitos livros e textos sobre o assunto. O mais famoso deles é O mal-estar na civilização, de 1930. Nessa obra o inventor da psicanálise se pergunta: como os homens, em suas condutas, revelam algo sobre a finalidade da vida? Para ele a resposta é simples: eles buscam a felicidade. No entanto, é bem mais comum experimentarmos a infelicidade. Esta é proveniente de três fontes: do próprio corpo, do mundo externo e das relações com outros humanos. O sofrimento provocado por essa última fonte de infelicidade é, para Freud, aquele que experimentamos mais dolorosamente. Isso tem sido verificado por vários psicanalistas atualmente, devido ao clima de ódio e horror que se instalou no país.

Em 1921, numa obra quase premonitória quanto à ascensão do nazismo na Alemanha, Psicologia das massas e análise do Eu, Freud mostra que a psicologia individual e a psicologia social não se opõem na medida em que “na vida psíquica do ser individual, o Outro é via de regra considerado enquanto modelo, objeto, auxiliador e adversário, e portanto, a psicologia individual é também, desde o início, uma psicologia social.” A psicanálise provocou uma ferida no amor-próprio do homem, ao mostrar que o Eu não é mais o senhor em sua própria casa. A questão da alteridade, assim como a do diferente, fazem parte da essência do ser humano. Um outro interno, constituído pelo nosso inconsciente e nosso corpo (que é um outro para nós) e o outro externo, o semelhante. Nesse texto Freud estuda o que chamou de formação de massa. Trata-se de uma formação que pode aparecer com diferentes formas e durações em diferentes tipos de grupo. No fascismo, o papel do líder, para o qual é transferida toda a autoridade, é fundamental para instigar a formação de massa. A massa assim formada é impulsiva, volúvel e excitável. Freud enumera algumas características da formação de massa: “a massa não tolera qualquer demora entre seu desejo e sua realização, tem o sentimento da onipotência, a noção do impossível desaparece para o indivíduo na massa. A massa é extraordinariamente crédula e influenciável, é acrítica, pensa em imagens que evocam umas às outras associativamente… e não têm sua coincidência com a realidade por uma instância razoável. Ao se reunirem os indivíduos numa massa, todas as inibições individuais caem por terra e todos os instintos cruéis, brutais, destrutivos, que dormitam no ser humano, como vestígio dos primórdios do tempo, são despertados para a livre satisfação instintiva.”

Vemos nessa descrição um modelo para pensarmos a disseminação do ódio por meio de notícias falsas (fake news) e, em geral, violentas, que se estabelecem como verdades absolutas. O indivíduo dentro da formação de massa não consegue ter um trabalho de pensamento crítico. Estamos vendo nessas eleições no Brasil o papel proeminente das redes sociais dentro do ciberespaço. O ciberespaço favorece um fracasso do trabalho de pensamento crítico das pessoas, na medida em que se trata de um mundo real, embora virtual, no qual não existe temporalidade, nem espacialidade. O trabalho de pensamento se faz numa temporalidade, com pequenas quantidades de energia, e é muito diferente das concepções passionais nas quais é o afeto de ódio, trabalhando com grandes quantidades de energia, que conduz o pensamento.

A contaminação do pensamento pelo ódio perturba a possibilidade de se desenvolver um verdadeiro trabalho do pensar, para o qual necessitamos que as palavras não sejam banalizadas. Trabalho do pensar que é fundamental na sustentação da democracia num sentido amplo. A democracia não se limita à existência de eleições livres por voto secreto de todos os cidadãos. Ela necessita que haja um clima de tolerância ao outro e às diferenças para que o debate de propostas possa ocorrer entre as forças políticas que estão em jogo num determinado momento. Quando afirmações homofóbicas, racistas, de incentivo à violência e à tortura, por parte do líder são banalizadas, abrimos a porta para o que Hanna Arendt chamou de “banalidade do mal”. As palavras perdem seu valor e seu papel de único meio para evitarmos o confronto violento. Não há mais espaço algum para o debate de ideias, uma vez que incitações ao mal não são levadas a sério.

O psicanalista francês Charles Melman, em seu livro O homem sem gravidade, considera que atualmente vivemos numa cultura que sofreu importante mutação em sua economia psíquica passando de uma economia organizada pelo recalque a uma economia organizada pela exibição do gozo. Essa lógica do gozo tem relação profunda com um além do prazer e com a pulsão de morte e nela impera o imediatismo da necessidade e não o desejo.
Freud supõe a existência no homem de um fator hostil à civilização. Supõe que uma profunda insatisfação com a civilização existente, em determinadas situações históricas, originou uma condenação da civilização.

A cultura, conclui Freud, é edificada sobre a renúncia pulsional, pressupõe a não satisfação de poderosas pulsões. Esse fato leva à frustração causada pela cultura. Essa frustração é causa de todas as hostilidades que a cultura tem de combater. (p.60)

O sentido da evolução cultural é que ela nos apresenta a luta entre Éros e morte, pulsão de vida e pulsão de destruição, tal como se desenrola na espécie humana. Essa luta é o conteúdo essencial da vida e, por isso, a evolução cultural pode ser designada brevemente como a luta vital da espécie humana. (p.90-91)

Freud introduz a noção de narcisismo das pequenas diferenças. O mal-estar na civilização mostra de maneira detalhada como a agressividade primária e o narcisismo das pequenas diferenças (diferenças de cor da pele, de orientação sexual, de classes, etc) se opõem à identificação mútua: por que preferiria eu um estrangeiro aos meus próximos, por que amaria eu um estrangeiro que está prestes a me detestar e a me maltratar? Esse é o pressuposto que sustenta esse narcisismo das pequenas diferenças e que se exprime na intolerância com o outro diferente de mim.

A limitação do narcisismo é produzida apenas por um fator, pela ligação libidinal a outras pessoas. O amor a si encontra limite apenas no amor ao outro, amor aos objetos. (p.58) Essa condição é necessária para a evolução cultural e do trabalho em comum. Esse é o papel das pulsões de vida e do amor num sentido ampliado.

O escritor, prêmio Nobel de Literatura, Elias Canetti, escreveu um livro – Massa e poder (1960) – para pensar as diferentes formações de massa para compreender as que surgiram durante o nazismo. Descreve em seu livro um tipo extremo de formação de massa que chama de malta. Na malta é a lógica da sobrevivência pura que impera: O momento do sobreviver é o momento do poder. O horror ante a visão da morte desfaz-se em satisfação pelo fato de não se ser o morto. Este jaz, ao passo que o sobrevivente permanece em pé[…] A forma mais baixa do sobreviver é o matar. (p.227)

Será preciso sempre um grande esforço daqueles que acreditam nas pulsões de vida, na tolerância, na democracia para lutarmos contra as tendências maléficas da alma humana. Cito, para terminar o poema de Schiller, citado por Freud em O mal-estar na civilização:
Que se alegre,
Aquele que respira no alto na rósea luz!
Porque embaixo, é o horror,
E o homem não deve tentar os deuses
Nem nunca, para um sempre nunca, desejar ver
O que eles se dignam cobrir de noite e de terror.

 

Referências:
Canetti, E. (1960). Massa e poder. São Paulo, Companhia das Letras, 2008.
Freud, S. (1921). Psicologia das massas e análise do Eu, tradução de Paulo César de Souza, São Paulo, Companhia das Letras, 2011.
Freud, S. (1930). O mal-estar na civilização, tradução de Paulo César de Souza, São Paulo, Companhia das Letras, 2010.
Melman, Ch. (2002). L’homme sans gravité. Éditions Denoël, Paris, 2005.

 

José Canelas é membro efetivo e analista didata da SBPSP, psiquiatra formado pela Universidade de Paris, tendo feito sua formação psicanalítica na França, na Sociedade Psicanalítica de Paris, onde residiu entre 1983 e 1997.

(Poder) chorar as dores do mundo

*Eduardo de São Thiago Martins

 

Estupefato com o retrocesso civilizatório que estamos vivendo, mesmo conhecendo o vai-e-vem do pêndulo da História, me peguei imaginando como diria a uma criança de quatro anos (e meio!) – inteligente, corajosa, curiosa e sensível –  o porquê que ela, que será o futuro, ainda não pode agir sobre ele.

Diria assim:

“Sabe, sentir ódio é humano.
Mas pensar sobre o ódio que se sente, sem disseminá-lo, sem partir para a ação violenta, é mais que humano – é o trabalho da civilização.”

Foi assim que saímos da Idade Média, a Era das Trevas. Foi assim que algumas pessoas sobreviveram a guerras terríveis, ao fascismo, ao holocausto, aos ataques atômicos, aos exílios, censuras, torturas e assassinatos das ditaduras militares – sim, tudo isso aconteceu, de verdade. E é por isso, por conseguirmos ir aprendendo a conter as violências e os discursos de ódio, dia após dia, que muitos de nós tivemos o privilégio de não ter de enfrentar nenhum destes terrores.

Tudo aquilo que nós não conhecemos e não dominamos – dentro e fora da gente – dá medo. As doenças, as pobrezas, as violências, os desejos proibidos, e também as pessoas, todos aqueles que são diferentes de nós – seja pelo tom da pele, pelo jeito de amar, pelos hábitos, pelo jeito de pensar, pelo formato do corpo – aqueles que não conseguimos entender; tudo isso pode dar muito medo.

Fobia!

Quando somos crianças e sentimos medo, rapidamente, buscamos a proteção que está mais perto; a proteção de um adulto, que julgamos ser seguro, forte e confiável.

Mas quando nos tornamos adultos, percebemos que esse adulto-herói em quem acreditávamos, era só uma ilusão. Porque agora os adultos somos nós e continuamos sentindo muito medo e insegurança, por nós e por todos que amamos.

Então, se é assim, qual é a diferença entre adultos e crianças?

A diferença é que a criança se assusta e logo chora; sente raiva e logo bate; quando quer alguma coisa, pega logo sem pedir, tanto faz se é dos outros; e quando a criança não quer alguma coisa, quando se incomoda com alguma coisa, ela joga fora, quebra, destrói, pisa em cima. E neste momento, a criança fica com medo até dela mesma, medo do que é capaz de fazer contra os outros.

Por isso, a criança só confia no adulto porque supõe que ele não vai fazer igual. Supõe que ele pode se conter, vai parar para pensar, vai tentar entender e explicar o que está se passando.

Frente ao ódio e ao medo, essa é a diferença entre eles. Fora isso, o adulto continua sentindo tudo o que sentia quando era criança, e quando age com violência e intolerância, quando pega em armas, está sendo apenas uma criança grande.

É por estes motivos que criança não pode votar… E nem se candidatar ao governo. Porque ela ainda acredita na ilusão do superadulto. Ela ainda não consegue pensar sozinha em tudo o que sente, ainda não é capaz de buscar soluções mais elaboradas para os problemas do mundo; aliás, a criança ainda não pensa muito no mundo, pensa mais nela mesma, porque ainda precisa que seja assim.

O poder, nas mãos de quem ainda não pode, é sempre perigoso demais.

Explode.

Democracia, então, é um complicado projeto dos adultos.

Direitos Humanos são frutos de muito trabalho e pensamento, daqueles que, além da própria dor, um dia se viram chorando diferente porque choravam as dores do mundo.

E liberdade é diferente de fazer tudo o que queremos ou exterminar tudo o que não queremos; liberdade é poder sentir, tolerar, pensar bem e, finalmente, – e isso é muito importante – escolher as melhores ações. Poder se posicionar.

Tornar-se civil é aprender a considerar a necessidade do outro, é enxergar e cuidar dos diferentes mundos que cabem num só, por mais estranhos que possam parecer, por mais medo e ódio que possam gerar.

Democracia e Direitos Humanos, sim.

Violência e discriminação, não!

Não mais.

Eduardo de São Thiago Martins é psicanalista e psiquiatra, atual presidente da Associação dos Membros Filiados ao Instituto Durval Marcondes da SBPSP e colaborador do núcleo de psicanálise do serviço de psicoterapia do IPq-HC FMUSP.

Quarta-feira de manhã

* Pedro Colli Badino de Souza Leite

           

            – Oi.

            – Oi.

            – Essa noite eu tive aquele sonho de novo.

Eu o conheço, já nos vimos algumas vezes, mas, apesar do meu esforço, ainda não consigo me lembrar de sua história ou de seu sonho repetido.

            – Você me conta o sonho de novo?

            – Eu sonhei que estava preso aqui mesmo, na Fundação [Casa], e eles tinham comprado espelhos pra pôr nos quartos. Mas quando eu me olhava, eu não tinha um rosto. Fiquei assustado e acordei.

Qual a prioridade desse rapaz ao me ver novamente depois de um mês? Falar sobre o seu sintoma? Sobre a medicação? Sobre as terríveis condições de sua internação? Sobre sua realidade socioeconômica, um pesadelo desperto? Sobre seus crimes, seu envolvimento com facções criminosas? Nada disso. Sua prioridade é me abraçar e me contar um sonho. O efeito da narração é imediato, a imagem que tenho dele se torna um tanto mais consistente e uma série de memórias sobre sua história passam a emergir dentro de mim. Respondo a partir do local onde fui colocado:

      – Agora eu me lembrei do seu sonho. Por que você acha que ele se repete tantas vezes?

      -Sei lá, talvez ele esteja me mandando alguma mensagem.

      -Qual mensagem?

      – Não sei… (algum tempo em silêncio). Essa semana eu estava vendo de novo uns episódios daquele seriado que eu gosto, aquele dos tronos, sabe? Então, tem uma parte que eu gosto bastante, é sobre uma menina que perde os pais e tem que se virar sozinha, esqueci o nome dela. Ela encontra uma grupo de assassinos que dão casa e comida pra ela, e que começam a treinar ela pra ser uma assassina também. Eles acreditam no Deus de Muitas Faces, que é um deus da morte. No treinamento, ela tem que esquecer que ela é ela, que ela tem um nome, que ela tinha pais, que ela tinha irmãos e amigos. Ela tem que se tornar Ninguém pra depois poder se disfarçar com qualquer identidade que ela queira. Esse é o melhor jeito pra poder se aproximar dos outros e matar quem precisa ser morto. Nesse treinamento, o mestre dela fica perguntando: “Qual é seu nome?”; ela responde: “Eu não tenho nome”. Daí, se ele acha que ela não acredita no que está dizendo, ele a espanca e diz que ela ainda acredita que é Alguém. E daí…doutor, posso tirar minha blusa, tô com calor…

    – Sim, claro.

Nos outros ambientes da Fundação ele não pode tirar a blusa, deve ficar uniformizado com o moletom azul comum a todos os adolescentes. Do meu ponto de vista, tal uniformização contribui bastante com o Deus de Muitas Faces. Ele tira a blusa e por baixo veste uma camiseta de mangas curtas. Tem braços fortes e os apoia sobre a mesa, na minha direção. Suas tatuagens se fazem presente ao meu olhar.

      – Você tem muitas tatuagens.

      – Ah, é verdade, quer saber o que elas significam?

      – Sim.

Ele começa a descrever os significados das tatuagens, uma a uma, e penso que elas poderiam ser reunidas em dois grupos diferentes. O primeiro grupo representa o processo de despersonalização. Tornar-se Ninguém, ser eficiente dentro de um grupo criminoso, adorar o deus da morte. Ele fala, um tanto desafetado:

      – Essa aqui significa que sou membro do grupo P. Essa aqui significa que um policial está cercado por quatro bandidos e que ele vai morrer. Essa aqui significa paciência para que o crime possa ser premeditado com frieza. Essa aqui significa que a vida é só um jogo, como um jogo de cartas ou de dados, então tanto faz viver ou morrer. Essa aqui significa o tráfico de drogas. Essa aqui…não, essa aqui deixa pra lá. Essa outra aqui significa…

       – Espera, por que você pulou essa aí?

       – Ah, é porque essa é triste, essa é pra lembrar de um amigo meu de infância que morreu no crime. A gente era muito parça [parceiro].

Ele se entristece, seus olhos ficam marejados. Ele tenta engolir o choro e continua a falar sobre o primeiro grupo de tatuagens. Tenta fazer a raiva triunfar sobre a tristeza mas já não consegue, começa a chorar bastante. A tatuagem do luto de seu parça é representante do segundo grupo. São tatuagens que erguem um espelho diante de si e lhe mostram que ele ainda acredita ser Alguém. Também nesse grupo estão tatuados: o nome de sua filha, o nome da sua mãe, o nome da sua avó, o nome das suas irmãs e irmãos (não há o nome do pai, e também nunca houve um pai), uma estrela que representa a mulher que ama (ele não sabe que ainda a ama, ficou revoltado com o afastamento dela depois de seu terceiro crime, mas fala dela quase o tempo todo quando conversamos), o time de coração (aquele que sabe ser o mesmo time de seu avô materno), uma lágrima tatuada logo abaixo do seu olho que significa a tristeza provocada em quem está lá fora.

O tempo da consulta já se esgotou há muito tempo, ouço vozes do lado de fora que estão interrogando sobre meu atraso. Apesar da pressão, sustento o espaço para que meu paciente possa elaborar um pouco mais em silêncio. Enquanto isso, reflito sobre o longo caminho que percorremos até aqui. De início, meses e meses diante de graves sintomas psiquiátricos e repetidas atuações autodestrutivas, até que um sonho pudesse ser constituído. Dali, mais uma travessia até hoje, quando o sonho repetido ganha significados que possam ser falados e escutados. E daí em diante não sei, veremos. Mas quando se sonha ser Ninguém, já não se é Ninguém. Neste momento, ele é Alguém que sonha ser Ninguém, e aqui se apresenta uma das potencialidades fundamentais do trabalho psicanalítico. A possibilidade da Fundação de uma Casa psíquica.

 

Este texto é um recorte do artigo “Quarta-feira de manhã”, publicado na Revista Brasileira de Psicanálise [Volume 51, n. 4, 107-21 · 2017]. O autor trabalhou por alguns anos como psiquiatra de adolescentes internados em diversas unidades da Fundação Casa. Invadido e pressionado por memórias daquele período, o trabalho da escrita se mostrou útil para elaborar suas experiências

 

Pedro Colli Badino de Souza Leite é membro filiado ao Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, psiquiatra pelo IPq-HCFMUSP e supervisor de médicos residentes em psiquiatra no estágio de psicoterapia.

 

Narcisismo terciário

*Marilsa Taffarel

No dia seguinte à manifestação “Ele não” era mais nítido o sentimento de alegria… contentamento… satisfação… realização de algo significativo… das pessoas próximas que continuavam a enviar mensagens, vídeos, fotos, relatos.

Após manifestações acontece isso, mas nessa, decididamente, aconteceu mais, aconteceu maior, aconteceu muito.

Uma placa indicativa nomeava o epicentro do acontecimento: Potato Square. Vem a calhar a indicação em inglês, língua ainda internacional, pensamos. Trata-se de uma manifestação que ganhou essa dimensão e, em consequência as praças de varias capitais do mundo ocidental.
Na verdade, o epicentro era apenas nominal, porque havia vários pequenos centros em torno de um som, de alguma banda. O Largo da Batata perdeu seus contornos, ampliou seus limites. O que nos chamou a atenção foi justamente a manifestação consistir em estar ali, caminhar por ali, sentar no meio fio ou em alguma mureta. Estar entre as pessoas.

A defesa da diversidade, da multiplicidades, das singularidades estava ali estampada em gentes tão diferentes nas roupas, nos gêneros, nos adereços, embora sempre em algum lugar no rosto, nos braços, nas costas, nas testas, nas camisetas, nos lenços estivesse o “ Ele não”.

Estávamos caminhando entre as pessoas, sentindo com todos os sentidos e nos perguntando o que é uma manifestação, além de ser isso mesmo: uma manifestação?
Muitos cartazes diziam: “não é uma manifestação política, é moral”, pelo direito de ser diverso. Diríamos: uma manifestação desconstrutiva de enunciados totalizantes, hierarquizantes e fundados no desejo de uniformização do humano.

No entanto, fica a pergunta: afinal o que é uma manifestação? O fato é que não há uma manifestação. Há manifestações. Muitas delas constituem-se como fenômenos de massa que Freud descreveu. Massas mesmerizadas por líderes que encarnam figuras onipotentes, oniscientes. Líderes que convocam o desejo de obediência. Assujeitados, acríticos e passionalizados, os liderados abdicam de sua condição de sujeitos na entrega ao líder que os conduzirá ao poder e extermínio dos opositores.

Nessa manifestação “desconstrutiva”, tratava-se do prazer de estar entre pessoas as mais diversas de seu gênero, de sua classe, de seu nível, de sua geração. Estar além de todos esses atributos.

Pensei, para caracterizá-la e diferenciá-la em um conceito que reencontrei há algum tempo: narcisismo terciário. Conceito formulado por Alcira Marian Alizade, psicanalista argentina, falecida em 2012 , cofundadora da COWAP, autora de diversos livros sobre seu pensamento psicanalítico e também de livros de ficção.

Como ela pensa esse, que ela chama de “novo ato psíquico”, sem medo de usar as mesmas palavras que Freud utiliza para designar o narcisismo que se instala unificando as pulsões autoeróticas?

O narcisismo terciário dependeria de haver um investimento de amor que se inscreveria no bebê. Tal moção seria o suporte de investimentos que, à diferença dos narcisismos primário e secundário, não retornam ao ego. Eles não estariam ligados à castração, ao Édipo. Seriam pré- edípicos ou para edípicos e assim se manteriam.

Trata-se para ela da condição de possibilidade do relacionamento com o alheio, o distante, o social. Com objetos que estão além dos limites e dos interesses do nosso entorno social, estético, financeiro imediato. A vivência e a experiência da contingência e da transitoriedade da vida fariam emergir com mais força as possibilidades transformadoras, a conquista de espaços da pulsão de vida. Alicira pensa também a clínica como conquista desses espaços.
Vemos que, de forma ousada, essa autora – conhecedora do pensamento freudiano, kleiniano e do pensamento psicanalítico francês contemporâneo – prioriza, nessa conceituação, a pulsão de vida, o corpo – o corpo impõe sua presença viva e mortal – e os investimentos não-edípicos.

O narcisismo terciário pode ajudar a compreender como descobrimos a condição humana mais do que atravessando barreiras estéticas, intelectuais, diferenças de gênero. E sim recuperando investimentos em sistemas não centrados, não hierárquicos. Investimentos nas coisas humanas, em todos os seres que constituem nosso pequeno e frágil planeta.

 

Imagem: AFP para a Revista Época.

 

Marilsa Taffarel é membro efetivo e professora da SBPSP, mestre em filosofia da psicanálise pela PUC-SP, doutora pelo núcleo de psicanálise da PUC-SP e co-autora do livro “Isaias Melsohn, a psicanálise e a vida”.

Manifesto da Diretoria da SBPSP pela defesa da democracia e contra o autoritarismo

A Diretoria da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo acredita ser importante e necessário se manifestar frente aos últimos acontecimentos e ao clima que se estabeleceu em nosso país.

A psicanálise sempre teve como valor máximo a coragem de enfrentar a verdade, defender a liberdade do indivíduo, o respeito ao grupo, e a tolerância em face às diferenças. Esta disposição é base de nosso trabalho clínico e do conhecimento que adquirimos, ao longo dos mais de cem anos de nossa história.

Estes valores são imprescindíveis para construção de uma sociedade democrática e da nossa prática; repudiamos toda e qualquer ameaça a estes princípios.

Assim, vimos reforçar nossa preocupação e necessidade de unirmos forças contra o perigo de perdermos nossos valores de base e, assim, nossas condições de exercício da cidadania e da psicanálise.

A história nos serve como alerta; saibamos levá-la em conta!

Diretoria
SBPSP

O “pensamento” fascista e a função po-ética da psicanálise

*Ricardo Trapé Trinca

Isso que escutamos é o estalar de nosso “Ovo da Serpente”[1]? Ah, mas que estranho fascínio é esse exercido sobre nós, que perturba com um choque inebriante! E, enquanto esperamos nascer um monstro horrível, o que vemos é um filhote chamado propaganda, uma sereia que cativa e engrandece… Ah, mas como nos atrai essa sedutora vontade de poder!

Para nós, psicanalistas interessados nas interfaces entre a sociedade e a clínica contemporânea, os tempos atuais têm sido extremamente inquietantes e perturbadores. Escutamos de nossos pacientes com frequência cada vez maior a ideia de que a vida pública e privada deveria ser organizada com autoritarismo e rigidez. De que é preciso se aliar às pessoas de “bem”, contra a corrupção, etc. O que nos faz apreender um espírito justiceiro, segregador e antidemocrático, que cresceu e se desenvolveu entre nós. Este texto é um pedido para que observemos tanto em nós mesmos como em nossos pacientes tal presença, digamos, funesta e dissociada.

Vamos tentar descrevê-la. Podemos observar inicialmente o predomínio de um intenso sentimento de frustração, no qual o orgulho pessoal parece ter sido ferido ou roubado. Trata-se de uma frustração pessoal, mas também social. Essa frustração associa-se à ideia de que algo ou alguém destruiu a esperança de se ter uma vida melhor. Uma vida em que não só haveria menor necessidade de negociação dos nossos impulsos com o mundo, mas no qual nosso autoritarismo pessoal encontraria finalmente a esperança de ser autorizado, como um direito. Esta maneira de pensar, que chamamos de fascista, surge como uma conclamação à recuperação, por meio da força, deste orgulho roubado por alguém que, por sua vez, se tornou um usurpador.

Com este conclame, o fascismo impõe-se com uma linguagem traumatizante, cuja presença torna-se ameaçadora. Ele cria repentinamente um impacto imprevisível. Enquanto aquele que escuta tal discurso tende a sofrer o golpe de certas palavras e a se demorar sobre elas, tentando questioná-las, o discurso já foi adiante, como uma metralhadora de disparos contínuos. Contra esse discurso não há conversa; não existe um diálogo ou ponderações a serem feitas. Ou se aceita ou não se aceita. Caso seja aceito, o discurso transforma-se em algo que serve para ser retransmitido. Caso não se aceite, uma reação violenta contra o discurso é frequente; e, assim, ele é reproduzido na forma de seu avesso, propagando o ódio e uma organização maniqueísta da realidade. O poder que dele surge, cooptando seguidores e divergentes numa empreitada beligerante, advém de sua sede por obtenção de justiça, ou seja, de que o autovalor ou a posição perdida deve ser recuperada a qualquer custo; comportamento que encontra eco na formulação winnicottiana de tendência antissocial. É um discurso que visa ao poder perdido e à subjugação do perdedor.

Esse discurso, como a correnteza de um rio, corre numa só direção. Diferentemente de outros discursos humanos, polifônicos, nele há uma simplificação de sentidos possíveis. Portanto, a fala humana se empobrece, como numa fala de propaganda. E, como um autofalante, o discurso fascista não tem nenhuma receptividade, é uma propagação sem audição, cujo objetivo é realizar um reclame e conclamar outros iguais para realizar uma espécie de polarização narcísica, na qual se tende a girar em torno de ideias desprovidas de amizade e negociação. Há enorme fragilidade no conteúdo que é propagado, porque ele não é dialógico, reflexivo, e sim uma enorme restrição do escopo do pensamento[2] e da história. Além disso – e talvez um dos seus principais aspectos – a forma do dizer, sua estética, tende a ser tão ou mais importante do que seu conteúdo. Como não se trata de uma experiência do pensar emocional que se pode ter com alguém, ele assume a forma de um discurso e o seu valor parece repousar justamente nisso, em uma fala que desconsidera a outra mente, e que se faz de cima para baixo, composta por autoritarismo, agressividade e empoderamento. O conteúdo, cujo valor de verdade inexiste, fica em segundo plano, já que o principal é a sua estética. Assim, o valor de verdade de uma afirmação é substituído pelo valor de seu espetáculo impactante, em uma espécie de estética do choque, mas destituída do poder emancipatório que essa estética trouxe para a modernidade, especialmente nas artes (Parente, 2018). Quase não precisamos dizer quanto esse discurso é sedutor; a história que nos diga [3]!

Nessa maneira de constituir um “pensamento”, ou uma fala desprovida de apreço com a verdade, o conteúdo que se propaga é autoengendrado. Ela não se torna apenas uma falsificação da realidade, mas uma nova realidade, cuja existência se baseia no número de apreciações ou visualizações que recebeu. Não é necessário que encontre correspondência no real. Qualquer coisa pode ser dita sem ser refutada, pois o importante é a sua força de caráter traumatizante. Como a verdade, assim, não tem referência na realidade, ou na experiência emocional, mas na repetição do “meme”, a verdade transmitida passa a ser a do choque, que é sentido como “estar se falando a verdade”. E, paradoxalmente, nesse discurso há um reclame contra a mentira, de modo que sua estética passa a ser considerada, por si só, a expressão de algo verdadeiro.

Mas esse discurso não estaria, por sua vez, tamponando sentimentos de desamparo? Acreditamos, no entanto, que tais sentimentos passam a ser atribuídos àqueles que sentem o seu impacto, em movimentos de identificação projetiva. E assim, essa maneira de não pensar acaba por se tornar propaganda de preconceitos (discriminação social, étnica, racial, de gênero, etc), de alguém “forte” para alguém “fraco”.  Essa é uma das razões pelas quais nessa forma de discurso não se permitem dúvidas, incertezas e insegurança. Elas são combatidas radicalmente, pois a dúvida abriria a percepção para a apreensão dos sentimentos de desamparo dos quais se pretende evadir.

Não podemos esquecer que estamos todos em igualdade de condições para nos tornarmos expressão de uma tendência humana como esta, que avista nossa maior desumanidade e barbárie. Precisamos constantemente pensar como, a cada dia, cada um de nós não se tornará um fascista[4]. Como fazer para que o nosso discurso não seja, ele mesmo, uma ferramenta de poder, cuja intenção seria impedir o encontro humano no qual o pensamento se desenvolva, envolvido pelo desconhecido das coisas. O encontro com o rosto do outro será sempre o encontro com o mistério. Por isso, é fundamental que possamos, a cada vez, reconhecer a presença de nosso próprio fascismo, podendo, por meio desse reconhecimento, dizer não a isso a cada vez, a cada instante de seu acontecimento. O problema, portanto, passa a não ser mais se somos ou não fascistas, mas quando somos, e reconhecer o momento de nosso enlouquecimento [5].

Como sabemos muito pouco sobre a nossa própria vida, estamos sempre rodeados por impotência, medos e sentimentos de desamparo. E, em face do desamparo, criamos ilusões alucinadas da realidade, com a intenção de nos protegermos dela. Se o desamparo, por um lado, é uma condição fundante do psiquismo humano, por outro, seu aparecimento pode revelar a ocorrência de fraturas éticas (Safra, 2004). Estas fraturas estão relacionadas a uma ruptura com a confiança e com a espera pela mente de um outro, condição indispensável – de amparo – para a ampliação das possibilidades psíquicas em face do desamparo.  A aliança com o pensar fascista é a expressão da desesperança em relação ao outro, como alteridade, mas ocorre quando, pela impotência, busca-se a onipotência. Trata-se, portanto, de um falso amparo narcísico, que pode ser buscado, como comportamento político, em qualquer ideologia.

Sabemos que a atividade psicanalítica sustenta as incertezas do não saber, para ser surpreendido com a aparição do pensamento numa relação dialógica. Na situação clínica, a função po-ética consiste na surpreendente criação ou revelação da alteridade. Uma alteridade concebida como uma nova formação de metáforas e de histórias possíveis para um sofrimento[6]. Trata-se de uma atividade que devolve o valor da verdade ao seu conteúdo correspondente e restabelece o valor estético da pesquisa e da incerteza em relação ao saber, tornando a ação política oposta ao discurso de poder. Isso porque as metáforas e histórias são sempre incapazes de expressar todo o sofrimento. Ou seja, trata-se de uma ação de des-empoderamento, que restabelece, assim, a força da verdade. A função po-ética tem implícita uma ética do cuidado e da atenção aos sofrimentos humanos, que são muitas vezes impensáveis, ainda mais quando associados à nossa condição de desamparo.

Num mundo em que o discurso fascista se propaga como rastilho de pólvora, com um encantamento pelo choque, com ares de espetáculo, a tarefa psicanalítica, como resistência ao fogo, é continuar a mostrar seus princípios po-éticos. Pois o alimento que nossa mente precisa é aquele do encontro com a alteridade, que nos nutre com o sentimento de verdade, mesmo que seja provisória e incompleta.

 

[1] Faço alusão ao filme de Ingmar Bergman “O Ovo da Serpente”, Das Schlangenei(1977), que tratado período de incubação do nacional-socialismo na Alemanha.

[2]George Orwell em seu livro 1984, descreve o controle sobre a linguagem como um dos modos de se restringir o escopo do pensamento. Orwell descreve a Novilíngua, uma língua cujo objetivo seria tornar impossível designar certas coisas, de modo que aquilo tenderia a se tornar inexistente pela impossibilidade de ser designada. Ou seja, ideias indesejáveis a um sistema fascista não teriam como surgir de dentro dele.

[3]Brun (2018): “Por que o fascismo continua sendo tão atraente? Em Israel se apresenta o fascismo como um monstro terrível. Creio que é um erro, porque como todo mal tem uma cara amável e sedutora. (…) Como é possível que milhões de alemães tenham apoiado Hitler? Deixaram-se levar porque os fazia se sentir especiais, importantes, belos. Por isso é tão atraente”. No filme de Peter Cohen, Arquitetura da Destruição (1992), logo no seu início, o narrador diz: ”Dizem que numa aldeia alemã dos anos trinta, o povo tinha um conceito próprio do que era o nacional-socialismo. Eles achavam que o nacional-socialismo tinha uma ligação com a pureza (…) o sonho de criar, através da pureza, um mundo mais harmonioso”.

[4] Em 1977, Foucault escreve o prefácio do Anti-Édipo, de Deleuze e Guattari, formulando que há um inimigo maior a ser combatido, o fascismo. “Não somente o fascismo histórico de Hitler e Mussolini – que soube tão bem mobilizar e utilizar o desejo das massas, mas também o fascismo que está em todos nós, que ronda nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz gostar de poder, desejar essa coisa mesma que nos domina e explora”.

[5] Na forma de transformações em alucinose (Bion, 1965/2004).

[6] Pensamos em Hanna Arendt: “Toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história”.

Imagem: Retirada do filme de Ingmar Bergman, “O Ovo da Serpente”.

Ricardo Trapé Trinca é psicanalista, doutor em Psicologia Clínica pela USP, mestre em Filosofia pela PUC-SP e membro filiado ao Instituto “Durval Marcondes” da SBPSP.