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FEELING BLUE – A TRISTEZA DE NOSSOS ADOLESCENTES

*Por Sylvia Pupo

A febre dos jogos e séries ligados à temática da morte parece ter dado voz ao apagamento gradual e silencioso do adolescente na nossa sociedade.

O jogo da Baleia Azul e a série 13 Reasons Why, exaustivamente abordados na mídia nas últimas semanas, geraram perplexidade e pânico a respeito de uma possível epidemia de futuros suicídios e uma controvérsia a respeito de ser ou não recomendada sua exibição ao seu público alvo. Havia o receio da indução a mais suicídios, já que a forma romantizada e detalhada com que o tema é abordado são fatores largamente desaconselhados pela Organização Mundial de Saúde. Tentativas prévias são consideradas um fator de risco importante na indução de mais suicídios.

Tanto o jogo quanto a série expõem a angústia e a desesperança dos adolescentes e os destinos possíveis, embora nem sempre desejáveis, para a sua dor. O suicídio é um deles. Retratam com crueza a violência da via-crucis percorrida pelos jovens – como as etapas do jogo – na sua transicionalidade e na busca de lugar no grupo social. Esta é uma violência que às vezes não notamos ou então subestimamos.

Já fomos adolescentes e sobrevivemos – alguns melhor do que outros, é bem verdade – às angústias e maldades, ao desprezo dos amores e à incompreensão dos pais, às incertezas e dúvidas. Até ocorreu a alguns tirar a própria vida em momentos de desespero, mas não o fizeram. O pensamento parece ter dado conta das angústias.

Dados alarmantes da OMS apontam o suicídio como a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. O que será que mudou?

Os motivos pelos quais pessoas tiram suas vidas são variados e individuais, mas supomos que a desesperança e a dor sejam denominadores comuns. Esses suicídios nos dizem que algo vai mal, que está difícil viver. Que não se tem mais esperança e se está muito só. São sintomas do social?

O que não estaríamos podendo escutar? O que as palavras não estão alcançando no uso do corpo nessa falta de nomeação? Nos perguntamos: onde é que falhamos?

Seja um ato impulsivo ou planejado, de vingança ou desespero, no suicídio há uma mensagem – ainda que enigmática – para quem fica. O que nos comunica essa onda de suicídios, sobre a relação dos jovens com a sociedade? Seria a cultura contemporânea que está destruindo os jovens ou seria o modo que interagimos com ela?

É fato que o psiquismo se apoia em traços da realidade, mas não será, necessariamente, uma reprodução dela. A cultura oferece veículos para a expressão da violência interna de cada um e o jogo é mais um deles.

Podemos ter mais de 13 razões e, mesmo assim, conseguirmos encontrar outras vias para processar nossa dor e dar a ela um destino. Aperta-se o botão delete para que o desconforto desapareça? Novas drogas nos deixam em êxtase permanente. Perdemos a capacidade de tolerar o mal-estar – necessário e estruturante do sujeito – inerente ao processo civilizatório, observado por Freud?

Ninguém pode mais esperar, tudo é para já. Há uma pressão contínua para que se “evolua” (o que será isso?) em uma escalada ascendente, mas não há tempo para aprofundar. Não se tem mais tempo a “perder”. Vemos um grande incômodo quando é necessário desacelerar,  “voltar duas casas no jogo da vida” que se torna, ela mesma, uma série de tarefas a serem cumpridas, em vez de uma experiência a ser vivida.

Não é o caso de procurarmos culpados, mas de pensarmos se estamos conseguindo ajudar os jovens a criarem recursos para lidar com as dificuldades da vida, mas, principalmente, com os próprios afetos.

Estaríamos reproduzindo certos valores e ideais que nos dificultam “re-conhecer” nossos filhos?  Seria bom se pudéssemos acreditar que ser feliz é muito mais do que atingirmos os padrões valorizados socialmente. Que é importante construirmos algo que exceda a nossa sobrevivência – algo para além dela, que nos dê prazer e possa ser um veículo para os nossos sonhos. Questionar o sentido de passarmos a mensagem a um adolescente que ele tem que trabalhar muito agora para ter mais trabalho no futuro e que isso é o que vai fazê-lo feliz.  Considerar que é bom buscarmos satisfação nas nossas escolhas e não apenas reconhecimento. Ensinar que podemos ter felicidade apesar de tantas faltas e limitações. Talvez isso soe mais possível.

O submetimento, também suicida, à tirania de ideais, mostra que essa necessidade de reconhecimento encobre, na verdade, uma carência de auto-reconhecimento.  As patologias contemporâneas têm aí suas raízes. Depressão, baixa auto-estima, as chamadas “patologias do vazio”, que se expressam na forma de distúrbios alimentares, compulsões, adicções, intervenções estéticas em excesso, refletem a insatisfação crônica do sujeito consigo mesmo. Ser feliz tornou-se um valor quase masoquista: ser o que não se é, ter o que não se tem… Não se tolera a falta, a incompletude, a imperfeição. Não se tolera mais o humano.

Esse assassinato das individualidades atinge, sobretudo, os adolescentes, que estão em pleno processo de consolidação pessoal. Qual é o preço de pertencer?

Como conseguir tolerar os vazios sem preenchê-los com drogas, comida, consumo, sexo? Essa parece ser uma das tarefas da atualidade – darmos conta das incertezas e dos vazios de maneira não destrutiva.

Infelizmente não podemos prever com certeza quais jovens vão aderir aos jogos mortais ou cometer suicídio. O que sabemos é que pessoas com uma auto- estima mais satisfatória e uma identidade estável e estruturada terão maior capacidade de julgamento, de tolerar a frustração, de acomodar conflitos e pensar. Esse vai ser um recurso importante  nos funcionamentos impulsivos, por exemplo, a capacidade de adiar a ação.

Nossa tarefa então, não será poupar os adolescentes das problemáticas e frustrações. Ao contrário, temos que ajudá-los a desenvolver recursos para que sustentem as idiossincrasias e possam pensar sobre elas.

Neste sentido, a Psicánalise tem muito a contribuir, já que a violência e a maldade vão continuar a existir em toda parte.

*Sylvia Pupo é psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

Morte e vida: tensões

Silvana Rea

 

Há quase cem anos terminava a Primeira Grande Guerra moderna. Mas alguns pensadores afirmam que ela ainda não acabou, já que permanecemos marcados por um espírito belicoso até os dias de hoje. De fato, podemos observar na história que  seguem-se à primeira, a Segunda Guerra, Coreia, Vietnam, Líbano, Bálcãs e terrorismo, entre outros eventos violentos.

As guerras são fruto das paixões destrutivas do homem. Em sua reflexão de 1932, “Porque a guerra?” – tecida em interlocução com Einstein – Freud afirma que são infrutíferas as tentativas de eliminar essas inclinações humanas, como o ódio contra qualquer pessoa além de suas fronteiras. O que se pode fazer é tentar investir em vínculos emocionais amorosos que utilizem a identificação, introduzindo assim as modificações psíquicas que acompanham o processo civilizatório, com o desvio e o deslocamento dos fins instintuais, para a sua limitação.

Mas qual seria o limite possível para as forças destruidoras? Novamente recorremos a Freud (1920) quando nos apresenta a noção de compulsão à repetição, ou seja, a presença da pulsão de morte no psiquismo humano?

Esses são alguns dos desafios que qualquer psicanalista enfrenta em sua compreensão dos fenômenos mundiais e em sua atividade clínica. Em nossos consultórios, também vivemos cotidianamente o embate entre os impulsos destrutivos e a pulsão de vida. Como podemos pensar a tensão entre estas duas forças a partir dos fenômenos psíquicos configurados na contemporaneidade?

Estas são algumas questões que gostaríamos de discutir no evento “Morte e Vida: Tensões”, no sábado, dia 10 de junho, às 9:30, na sede da SBPSP.

Este evento é preparatório para o XXVI Congresso Brasileiro de Psicanálise a ser realizado em Fortaleza, em Novembro de 2017.

 

La muerte es una vida vivida. La vida es una muerte que viene.

Jorge Luis Borges

 

“Morrer, que me importa? (…) O diabo é deixar de viver.”

Mario Quintana

 

 

Silvana Rea é psicanalista e Diretora Científica da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

Como é ser mãe de uma criança pequena

Falar em criança pequena é falar de um ser humano em continuo processo de desenvolvimento e transformação. Sabemos o quão fundamental é o princípio da vida e a relação de dependência do bebê com a mãe e com o ambiente. A criança passa por vários estágios que levam ao seu crescimento e integração, e necessita que os pais acompanhem e ofereçam segurança, confiança e que possam atender suas necessidades para que ela possa caminhar e alcançar sua autonomia. Viver a vida de forma que suas capacidades e potencialidades se realizem é o que faz sentido a ela. Só assim se realizarão como pessoa.

Ser mãe, na maioria das vezes, é sentir-se encantada com o ser que gestou. Esse encantamento faz com que o bebê sinta que tem um valor e importância para alguém. Mas não é só isto.

Ser mãe é se dispor a vivenciar, junto com seu filho, emoções, sentimentos, angústias, medos, sonhos, desejos e vivências corporais intensas.  Sua vida, a partir da gestação, se modifica radicalmente. A mãe grávida tem um relacionamento com seu bebê, sente seus movimentos, sente amor (ou não) embora tenha seus desconfortos e ansiedades. Seus sonhos em relação a este ser que está sendo gestado, a impulsiona e seu desejo (ou não) de ter este bebê o marcará de forma significativa.

A mãe vive um processo de profundas emoções que acordam vivências primordiais de sua própria história de vida. Suas fantasias, suas dificuldades e realizações estão continuamente presentes. Ter um filho pequeno, adolescente ou adulto requer que a mãe (incluindo o pai) se reveja a todo instante em sua vida emocional. As crianças vão denunciando, não propositadamente, as falhas, fragilidades, limites e capacidades, o que pode enriquecer o conhecimento de si mesmo e do outro. Pode ser tranquilizador e surpreendente para uma mãe ver que sua criança é capaz de enfrentar situações que para ela foram difíceis. Assim, vai se diferenciando dela e conhecendo esta nova personalidade se formando.

Ser mãe não é ser técnica de cuidados, é estar viva, envolvida, presente e se dispor como pessoa que enxerga, ouve e se interessa por seu filho em suas particularidades.

Ter um filho é se dispor a uma carga de trabalho intensa já que o bebê depende completamente dos cuidados dela. Assim que nasce a relação entre os dois é de tal intensidade que a m           ãe se oferece devotadamente ao seu bebê. Inicialmente é como se fossem um só, a mãe oferece seu corpo, sustenta  e apresenta o mundo a ele. Sua intuição e capacidade de identificação com a criança favorecerá sua compreensão e conhecimento deste pequeno ser. A mãe sente que sua presença é fundamental e que é ela quem vai dando significados ao que este experimenta. O bebê, inicialmente, não sabe que depende dela. Para ele, a mãe é criação dele e aos poucos vai percebendo que ela é uma pessoa separada dele. Ocupar este lugar de não ser reconhecida como pessoa separada requer uma capacidade amorosa, o que não quer dizer que não possa sentir ambivalência de sentimentos pela exaustão que experimenta.

Sim, amor e ódio fazem parte desta relação e esses conflitos fazem parte da vida de relação. A criança também precisa desenvolver sua capacidade de odiar e isso é importante para sua vida, é esse sentimento que cria a alteridade, a capacidade de perceber o outro como outro. O sentimento de ódio poderá ser negado e atuado de forma impulsiva, o que não será saudável para a criança. Esses conflitos são inerentes à vida e cabe a mãe elaborá-los. Se há confiança nos sentimentos de amor, se a mãe não tiver dificuldades narcísicas ou alguma perturbação psíquica, não se assustará com o fato destes sentimentos existirem. Assim como receber os ataques da criança, também é importante para que sua agressividade não seja inibida, perdendo assim a vitalidade.

Ser mãe de um bebê é diferente de ser mãe de uma criança que começa a andar, que vai ganhando autonomia e que vai se separando dela. No início, a dependência é quase total, mas a criança anseia por crescer, e a mãe também vai aprendendo a viver separada do seu filho. As separações vão fazendo parte da vida, mas a criança precisa de segurança e confiança para ser ela mesma. A mãe percebe e sente essas mudanças e oferece objetos, brinquedos já que a criança precisa de objetos intermediários para elaborar suas vivências, através do brincar e de sua criatividade. A atividade do brincar dá à criança uma condição de elaborar seus conflitos e, com isso, evoluir e ter suas vivências, expandindo sua imaginação.

A cada estágio surgem novas surpresas. Sabemos que a criança está desenvolvendo sua identidade e que poderá ser muito diferente do que seus pais sonharam para ela. Estes precisarão se conhecer e lidar com suas frustrações. Ser mãe é oferecer um ambiente razoavelmente estável, considerar o tempo de seu filho, que é algo fundamental para que ele possa se desenvolver e fazer uso de fantasias, sonhos e tolerar a realidade externa.

Quando falamos de mãe, não estamos excluindo o pai ou substituto, que é quem está presente, junto com a mãe nessa caminhada. Inicialmente não reconhecido como um terceiro, aos poucos vai sendo requisitado pela criança para que possa lidar com a triangularidade edipiana que é um momento de muitas elaborações identitárias e que lhe darão lugar para ser quem é. As questões sexuais se manifestam, a saúde e maturação requerem que mãe e pai estejam disponíveis para auxiliar seu filho nesta caminhada. Para isso, serão mobilizados nas próprias questões sexuais pessoais.

No consultório temos oportunidade de observar algumas dificuldades e patologias graves de crianças onde detecta-se falhas no atendimento dos pais ou da família às necessidades da criança. Vemos paradas no desenvolvimento da criança que vem buscar auxílio terapêutico onde a família apresenta desestruturações que muitas vezes não são sequer percebidas.

*Marlene Rozenberg é membro efetivo e analista didata da SBPSP

DEPRESSÃO

Com sintomas de depressão e tristeza, muitos adolescentes tem sido vítimas do “jogo” Baleia Azul, cujo fim culmina com o suicídio do participante. Depressão não é facilmente detectável, principalmente em crianças e adolescentes e, por essa razão, é preciso se informar a respeito e procurar ajuda quando necessário. A psicanalista Maria Thereza Barros França discute o tema no artigo “Depressão“, publicado originalmente no blog da SBPSP em 2014 e hoje mais atual do que nunca.

Blog de Psicanálise

Vincent van Gogh - Old Man in Sorrow Vincent van Gogh – Old Man in Sorrow

Para a Psiquiatria, a depressão é uma alteração do humor caracterizada por tristeza profunda, acompanhada de apatia, desânimo, inapetência, desinteresse sexual e pela higiene, insônia e um sentimento de falta de sentido na vida. Esses sintomas podem ou não se alternar com seus contrários: humor exaltado, denominado “mania”, ou em grau mais leve,hipomania. Se por um lado os sintomas depressivos nos fazem sentir pesados e pesando aos que convivem conosco, os de mania nos fazem sentir ótimos, não necessitando de nenhum tipo de ajuda, o que, entretanto já não se dá com os familiares, que podem perceber certas inadequações, falta de limites, gastos exagerados e assim por diante.

Esses quadros nos levam a perguntar: se eu tenho esses sintomas, sou doente? Estou doente? O que se passa comigo?

A Psicanálise traz sua contribuição no sentido de pensar estas questões.

Embora não seja…

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A psicanálise e o caso José Mayer

assedio

 Vírus nas redes: vacina para relações de poder?

Uma visão psicanalítica sobre o caso José Mayer

*Por Susana Muszkat

Vimos surgir nas últimas semanas, na esteira do #AgoraEQueSaoElas, mais uma manifestação de indignação e repúdio por parte de um grupo de mulheres: #MexeuComUmaMexeuComTodas.

Este hashtag visa denunciar mais uma de um sem-número de situações de desigualdade nas relações de gênero, manifesta por atos que traduzem o desejo de manutenção de uma determinada ordem nas relações de poder.   Neste caso vemos como, uma somatória de pressupostos paradigmáticos, levou um ator-celebridade a se sentir autorizado a assediar, no espaço de trabalho, uma moça bonita e jovem, sua subordinada.

O que são esses pressupostos paradigmáticos a que me refiro? São ideias que circulam entre nós, tendo o estatuto de ‘normalidade’. Sendo assim, costumam ser aceitas como fazendo parte da ordem natural das coisas, ainda que não nos agradem.

Por exemplo:

  • O predomínio em nossa cultura da ideia de que homens têm, por direito, deliberar sobre o destino das mulheres. Em outras palavras, subjaz um pressuposto de que aos homens cabe ocuparem lugares de decisão e de comando.

Vide, por exemplo, homens que matam companheiras pelo simples motivo de elas não mais os quererem como companheiros.  O inverso é muito raramente o caso.

Ou ainda, a proibição imposta às mulheres de terem liberdade de decidir sobre a própria vida e corpo no que diz respeito ao aborto.  A hierarquização entre homens e mulheres baseada no gênero visa garantir a perpetuação de Relações de Poder que são confundidas como normais ou a norma. Evidencia, ainda, como esse tipo de hierarquização é posta a serviço do preconceito e da discriminação.

  • Além da questão de gênero, vemos aqui uma outra ordem de abuso de lugares hierárquicos uma vez que se trata de um patrão famoso e poderoso e uma funcionária jovem cujo trabalho está subordinado ao dele. Confunde-se aí subordinação trabalhista com subjugação do outro.

Mas por que um homem educado, famoso, poderoso, que parece ter tudo, praticaria um tipo de violência contra alguém em posição de menor força?

Pois é, parece ter tudo…  No entanto…

Freud, nos esclarece a respeito da condição básica de desamparo em que nós, seres humanos, nascemos. Necessitamos, desde o primeiro momento de nossa existência, de um outro adulto que nos deseje e se dedique a cuidar de nós amorosamente para que possamos sobreviver.  O problema é que o temor em não sermos plenos e o desejo de nos livrarmos de nossa incompletude humana não termina na infância, mas ao contrário, continua pela vida toda!

Então, de que forma essas duas situações se interligam?

– De um lado temos a cultura que autoriza ou ensina aos homens (e às mulheres também!) que eles têm direitos sobre o desejo das mulheres, fazendo-os pensar que seu desejo é soberano.

– De outro, o temor do desamparo, de sentir-se frágil, não ter tudo.

A ilusão, portanto, de muitos homens, é a de que, por serem homens estarão autorizados a que seu desejo prevaleça sobre o das mulheres. É o desamparo disfarçado de força. É a ilusão respaldada pela cultura de machismo hegemônico, fazendo com que homens acreditem que de fato são mais poderosos. O risco é sempre a confusão da ilusão com a realidade. Pois a realidade revelada expõe a falácia da ilusão, trazendo à tona a reação violenta. A violência contra a mulher que frustra visa encontrar um culpado a fim de poder tolerar que o que parecia realidade era mera ilusão: ninguém pode tudo. Todos somos frágeis. Todos estamos sujeitos ao desamparo.

Mentalidades têm mudado, vêm mudando, e mulheres vêm se mobilizando mais e mais, inclusive, é importante que se diga, com apoio de muitos homens. Essas mudanças buscam estabelecer relações mais equitativas, respeitosas, onde o gênero não seja mais o fator determinante dos lugares que cada um de nós ocupa.

Como última nota: a cultura muda, mas sempre de forma muito lenta. No entanto, a internet e as redes sociais aceleraram construção de redes de apoio e de divulgação jamais imaginadas ou possíveis.  Essa velocidade que reúne tantas pessoas em torno de algo em tão pouco tempo, vem criando efeitos marcantes no fiel da balança, alternado as relações de poder. É a isso que assistimos quando algo é ‘viralizado’, e milhares ou milhões de pessoas passam a reproduzir e divulgar uma mesma ideia num tempo comprimido. Isso definitivamente tem repercussões nos ritmos de mudanças de mentalidades e consequentemente da cultura. A Internet e as redes sociais parecem ser o novo poder prevalente.  É, sem dúvida, um recurso novo e poderoso.

Deve, contudo, ser usado com cautela, pois vírus podem salvar-nos de doenças através de vacinas ou podem eliminar povos ou contagiá-los de forma irreversível.

*Susana Muszkat é psicanalista, membro efetivo e docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). É psicanalista em consultório particular de adolescentes, adultos, casais e famílias. É mestre em Psicologia Social pelo Instituto de Psicologia da USP, e autora do livro Violência e Masculinidade(2011) ed. Casa do Psicólogo e Violência Familiar (co-autora),  (2016) ed. Blucher, que faz parte da coleção O que fazer?, da qual é uma das coordenadoras editoriais.  

Sobre a vergonha

Por Marina Kon Bilenky*

Quem nunca sentiu vergonha na vida? Com intensidade que varia desde o mais leve rubor até um forte sentimento de vexame, a experiência da vergonha é a vivência de uma emoção que pode ser profunda, dolorosa e universal, com efeitos duradouros.

Sentimento eminentemente humano, a vergonha tem muito a nos ensinar sobre nós mesmos e nosso mundo.

A vergonha nem sempre aparece de forma direta e é preciso identificar seus diferentes disfarces para que se possa lidar com ela. A arrogância, a solicitude extrema e o isolamento podem ser maneiras de lidar com esse sentimento, formas que escondem a vergonha por trás de uma máscara e que dificultam o processo de enfrentá-la.

O problema com a vergonha é o comportamento quase instintivo de ocultá-la. Mas e se procurarmos fazer o inverso? O aparecimento da vergonha é uma oportunidade para nos conhecermos melhor. Prestar atenção a seus sinais e não simplesmente se render a eles, poder receber a vergonha sem imediatamente tentar escondê-la, considerar a vergonha e procurar entender a que ela se refere, pode ser um caminho para entrar em contato consigo e perceber o próprio funcionamento.  Ao conhecer as forças que nos dominam, podemos modificar as condições em que vivemos.

*Membro da SBPSP, Marina Kon Bilenky é autora do livro “Vergonha” (Blucher), da série “O que fazer?”, coordenada por Luciana Saddi, Sonia Soicher Terepins, Susana Muszkat e Thais Blucher. O texto acima está no livro lançado recentemente e disponível nas livrarias

 

In-Tolerância – O que a psicanálise tem a dizer?

 

 Na visão freudiana, o trabalho cotidiano de criar laços, estabelecer e sustentar relações e identificações, construindo valores e projetos,  é o único caminho para instaurar a tolerância entre os homens.

Por Ilana Waingort Novinsky *

Observamos todos os dias nos jornais, nas redes sociais ou na TV, conflitos, atentados e guerras causados pelos mais diversos tipos de intolerância  –xenofobia, racismo,antissemitismo, nacionalismos, homofobia–, que muitas vezes nos surpreendem por sua violência. No dia a dia, também experimentamos “pequenas” intolerâncias no trânsito, com vizinhos ou com nossos familiares. Todas estas situações causam angústia, insegurança, sofrimento e preocupação.

Como a psicanálise pode ajudar a compreender estas diversas demontrações de intolerância?

Sigmund Freud, com a criação da psicanálise, mudou para sempre a experiência humana. Seu legado representa uma força e uma abertura para que nos tornemos conscientes de nossa precariedade, das ambiguidades da existência humana e especialmente mais livres frente ao destino. Durante toda a vida e através de sua obra, Freud lutou contra a discriminação, a hipocrisia, contra a intolerância social ou política. Lutou sobretudo pela liberdade humana.

Os tempos sombrios em que viveu, sua trajetória pessoal, assim como o trabalho clínico com suas primeiras e mais importantes pacientes – as histéricas, foram as três vertentes fundamentais da formulação das teorias  freudianas.

Nestas três facetas encontramos experiências de intolerância: em sua história de vida, Schlomo Sigismund Freud sofreu, por sua origem judaica, inúmeras experiências de preconceito e discriminação;  no trabalho de construção da psicanálise, com as teorias sobre o inconsciente – o estranho e o inacessível em nós – e por sua visão da sexualidade foi, por muito tempo, duramente combatido.

A própria origem da psicanálise está repleta de experiências de perseguição e de intolerância, tanto por parte de uma moral hipócrita da época – que a rejeitava – quanto dos governos totalitários, como o nazismo e o stalinismo, que proibiram os estudos psicanalíticos e queimaram seus livros.

Por tudo isso podemos dizer que a psicanálise não apenas está apta a contribuir para a compreensão da intolerância, mas também tem, junto com outros campos de saber, um grande compromisso com esta questão.

Os mais de cem anos de prática psicanalítica hoje nos contam uma história de lutas pela tolerância com o Outro, pelo reconhecimento do estrangeiro que vive em cada um de nós, e para manter viva a psicanálise como prática não totalizadora, sempre aberta ao desconhecido.

Freud descreveu em seus textos teóricos e meta-psicológicos as bases do psiquismo na psicanálise, e o reconhecimento e a aceitação  – ou não – do outro, pelo que nos é estranho ou diferente. Já nos alertava, entretanto, que algo sempre permanecerá misterioso em nós, que o mal estar na cultura é o mal radical, inerente à condição humana, do qual não podemos nos livrar, apesar de tentarmos transformá-lo pela construção da civilização.

Como dizia Freud, o “narcisismo das pequenas diferenças” permite alguma satisfação “conveniente e relativamente inócua da inclinação para a agressão, através da qual a coesão entre os membros da comunidade torna-se mais fácil” (S. Freud, O Mal Estar na Civilização-1930, Imago Editora, 1969, p.136). Cita como exemplo a animosidade entre populações que habitam regiões próximas como os alemães do norte e os do sul, os ingleses e os escoceses, os portugueses e os espanhóis ou mesmo os  argentinos e os brasileiros. Esta é também a base de muitas formas de intolerância que vivemos cotidianamente.

De acordo com Freud, as relações de intolerância nos remetem às relações de agressividade primeva, “essa pulsão agressiva que é o derivado e o principal representante da pulsão de morte, que descobrimos lado a lado de Eros e que com este divide o domínio do mundo”. (Freud, 1930) Na espécie humana há, para Freud, uma constante luta entre uma pulsão de vida e outra de destruição e, portanto, “a evolução da civilização pode ser simplesmente descrita como a luta da espécie humana pela vida”.

Criamos leis e regras na tentativa de controlar nosso desejo de causar dano ao outro, num processo a serviço de Eros, “cujo propósito é combinar indivíduos humanos isolados, depois famílias e, mais tarde, raças, povos e nações numa única grande unidade, a unidade da humanidade”. (Freud, 1930).

Na visão freudiana, o trabalho cotidiano de criar laços, estabelecer e sustentar relações e identificações, e a partir dessas práticas construir valores e projetos, é o único caminho que pode instaurar a tolerância entre os homens.

Ainda hoje estamos compreendendo o enorme legado de Freud e todas as implicações de suas descobertas.  A psicanálise criou uma nova definição do destino humano, colocando em nossas mãos os meios que permitem transformar situações antes consideradas irremediáveis.

Freud apontou que não precisamos ser vítimas do passado, ou do meio em que vivemos. Fez surgir um novo tipo de liberdade, ideia que era seu valor fundamental.

Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que contribuiu, através da psicanálise, para a modernidade e para a construção do homem moderno, Freud teve vida e obra marcadas pelas perseguições e pelo nazismo, frutos deste mesmo mundo que ele ajudou a criar.

Os psicanalistas, seus herdeiros, têm como missão levar adiante seu legado, através do estudo e da crítica tanto da própria prática clínica, quanto do mundo em que vivemos.  Ao desconfiar das respostas fechadas, simplistas e reducionistas muitas vezes dadas aos fenômenos humanos, podemos procurar contribuir para compreender a crescente complexidade do mundo com estranhas e dolorosas manifestações como a intolerância.

 

*A psicanalista Ilana Waingort Novinsky é  Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e o texto acima é primeira parte de um ensaio em que discute e intolerância.

 

Robôs no tratamento do autismo…será?

O autismo é um tema que tem aparecido com frequência na mídia e também aqui no Blog. No dia 13/10, publicamos entrevista com a psicanalista e psiquiatra Vera Regina Fonseca para falar sobre autismo em adultos.
O post de hoje se contrapõe à matéria publicada no jornal O Estado de S. Paulo (04/10/2014), sobre a utilização de robôs no tratamento de indivíduos com algum TEA (transtorno do espectro do autismo). A reflexão foi feita pela psicanalista e membro da SBPSP, Maria Thereza França.
A discussão é ampla e segue aberta a todos que quiserem participar.

***

Por Maria Thereza França

Sobre a matéria publicada recentemente no jornal O Estado de S. Paulo (04/10/2014) – Autista interage com robô que auxilia tratamento – faço as seguintes considerações:

Diz a matéria:

“O que parece ser um brinquedo pode ajudar a melhorar a interação das pessoas com autismo e, assim dar mais qualidade de vida a elas.”

“Quando o robô começou o gingado de capoeira, um dos pacientes levantou e imitou o movimento.”

Do experimento com o robô de tecnologia francesa participaram quatro crianças autistas atendidas por uma ONG. Segundo a mesma notícia, a Organização Mundial de Saúde divulga que há mais de 2 milhões de autistas no Brasil e 70 milhões no mundo.

Com os atuais conhecimentos, não podemos mais falar em “autismo” e sim “autismos”, pois é amplo o espectro a ser estudado.

A partir da descrição de Kanner em 1943, do Autismo Infantil Precoce, muitos estudos trouxeram importantes contribuições para o entendimento do que se passa com as crianças com autismo, entre elas as contribuições advindas da Psicanálise.

Os distúrbios que resultam em prejuízos importantes para o desenvolvimento como um todo, mas especialmente para a linguagem e as relações afetivas da criança, têm causalidade múltipla.

A Psicanálise não descarta a possibilidade de que existam fatores orgânicos ou mesmo genéticos, além das questões emocionais. Em conjunto com outras áreas do conhecimento científico, tem desenvolvido recursos para ajudar as crianças com autismo a saírem do universo em que se encontram encerradas, no qual o contato afetivo não existe, ou é tênue.

Necessitamos utilizar ferramentas próprias para que essas crianças possam vir a se interessar pelo humano e abandonar suas relações desvitalizadas, repetitivas e controladas (robotizadas).

A Psicanálise é construída sobre a premissa de que há uma força que move o ser humano, que o movimenta e o diferencia de qualquer outro animal e que as necessidades humanas vão além das biológicas e físicas compartilhadas com todos os animais. A linguagem, a capacidade de pensar, desejar, simbolizar, nascem com as funções corporais, mas a elas transcendem.

É importante que se possa compreender as produções das crianças com autismo, perceber que naquela criança existe um traço, potencialidades, um vestígio de sujeito que precisa desabrochar como ser humano.

É fundamental recriar as condições que possam favorecer o estabelecimento e/ou fortalecimento dos vínculos afetivos e, como consequência, o desenvolvimento das funções mentais, consolidando o vínculo com o humano, que se encontra pouco desenvolvido, em detrimento do contato com objetos concretos, que fornecem estímulos sensoriais, aos quais estas crianças se mostram fortemente aderidas.

Assim, vemos que esse experimento só se justifica no caso de se desenvolver inserido dentro de uma relação afetiva, com outro ser humano, para que o sentido do interagir, “brincar” com um robô (arremedo de gente) possa se ampliar e fortalecer o desenvolvimento de um psiquismo colorido pelas trocas afetivas.

A imitação pode ser um passo para as identificações humanas, porém, pode também cristalizar a adesão a padrões desvitalizados, tendência defensiva tão observada nas crianças com autismo.

As crianças, de um modo geral, hoje, estão perdendo a capacidade de brincar, ou melhor, a brincadeira tende a ocorrer como descargas físicas excitadas, agitação, chegando frequentemente à hiperatividade, o que representa a adesão ao movimento. Do mesmo modo, o uso de iPads como babás eletrônicas, ou a adesividade aos jogos eletrônicos, substitutos precários do contato humano, é cada vez mais estimulado.

Vale registrar que nem a atividade física, nem as mídias e jogos eletrônicos representam em si algo pernicioso, pelo contrário! A atividade física e lazer são saudáveis e estarmos conectados nos dá condições de inserção ao mundo atual. O problema diz respeito ao uso dos mesmos como condutas aditivas, sem que se tenha o entendimento da função a que se prestam: uma tentativa – ineficaz – de preenchimento interno por meio de sensações externas.

Como diz o psiquiatra Jairo Bauer (“As novas dependências”, O Estado de S. Paulo, p. A34, 24/08/2014):

“trocar interações sociais, interesse na escola e no trabalho e opções variadas de lazer pela busca ininterrupta de tempo para se exercitar ou jogar mostra que há uma dificuldade de controle, e, pior, quanto mais se faz, mais se sente que falta algo que ainda deve ser feito.”

E o que faltaria afinal?
Falta o investimento no fortalecimento de um mundo interno, de uma mente que seja capaz de lidar com as questões humanas do dia a dia, modular nossos sentimentos, ajudando a conviver com as agruras da vida e que seja fonte de verdadeira satisfação.

Será que nós seres humanos estamos dispostos a correr o risco de oferecer às nossas crianças já tão prejudicadas modelos robotizados?

*Maria Thereza de Barros França é psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

O autismo na idade adulta

No universo infantil, os quadros de autismo são bastante debatidos, tanto na mídia como entre os profissionais da área. O mesmo não se pode dizer em relação aos adultos portadores de transtornos do espectro do autismo (TEA), dos quais pouco se fala.
O que acontece quando essas crianças crescem? Quais as perspectivas para um adulto que desenvolveu, nos primeiros anos de vida, algum TEA? Há formas de subverter o processo de exclusão social aos quais, com frequência, esses indivíduos estão expostos?
A entrevista abaixo, com a Dra. Vera Regina Fonseca, psicanalista, psiquiatra e membro da SBPSP, tem como objetivo trazer à tona esse tema e refletir sobre as principais questões que o permeiam.

1) Em psicanálise, fala-se da importância do diagnóstico precoce e de tratamentos adequados para as crianças que possam apresentar aspectos autistas. Já sobre autismo em adultos muito menos se fala ou discute. Como a psicanálise entende/estuda o autismo em adultos? É comum/usual os psicanalistas usarem essa categoria diagnóstica na clínica de paciente adultos? Se sim, como isso se dá?

Um número menor de adultos do que de crianças chega ao consultório dos psicanalistas. Algumas hipóteses para explicar tal fato seriam a acomodação da família ao quadro, a aparência de déficit ao invés de conflito e a típica dificuldade relacional do paciente que faz com que seja mais raro surgir dele a demanda de ajuda e tratamento. Mas os que chegam serão abordados de modo semelhante a qualquer outro paciente, na tentativa de compreender seu mundo mental e seu funcionamento, auxiliando-o a expandir seus recursos para viver as emoções relacionais sem ser massacrado pelas mesmas. Ainda que em tais pacientes haja maior prevalência de modos autísticos de funcionar, sua personalidade é singular e única, o que faz com que o diagnóstico seja pouco útil, a priori, no processo analítico propriamente dito.

2) Como poderia ser feita a inserção de adultos autistas na sociedade (no mercado de trabalho, por exemplo)? E qual poderia/deveria ser a participação dos pais nesse processo?

O processo deve ser incluído desde cedo na programação terapêutica global da criança, sob forma de apresentação da realidade, ainda que se leve em conta seus limites (por exemplo, propiciando experiências com os fatos da vida diária). Do ponto de vista prático, isto implica um esforço contínuo de intermediar o contato da criança com a realidade, sem excluí-la das trocas sociais. Deste modo, ao chegar à adolescência, alguns caminhos de inserção já poderão ser identificados. Acredito que a escola e os pais têm um papel central neste trajeto, sendo fundamental para a saúde mental do indivíduo que ele participe dos processos de trabalho do modo que lhe for possível.

3) Um adulto autista pode se beneficiar de um tratamento analítico? Se sim, de que forma?

De modo geral, sim. Com freqüência a experiência de ser compreendido leva a um ganho na capacidade de regular as próprias emoções, de se comunicar e de se interessar pelas relações com os outros. Um aspecto dramático das pessoas com TEA é que, ainda que aparentem não ter motivação para o contato humano, dele necessitam como qualquer pessoa, ou até mais. É importante ter em mente que o desenvolvimento da mente se processa de um modo diverso nos TEA: a busca por relações é substituída por uma busca por sensações, o que leva a dificuldades frente às demandas do viver com as pessoas, já que as experiências de relação com o outro ficaram prejudicadas. Geralmente, constitui-se uma organização mental mais rígida, menos apta para as adaptações necessárias à imprevisibilidade do mundo humano. A análise, tanto em crianças quanto em adultos, tem por objetivo criar novos caminhos para lidar com a vida e com as emoções a ela associadas.

4) O que podemos esperar de um adulto que, na infância, tenha recebido o diagnóstico de autismo? É possível que, por meio de tratamento adequado, este sujeito saia do espectro autista na idade adulta? Será que a inserção social contribui para minimizar os sintomas e manifestações autistas?

Tudo dependerá da gravidade do quadro E da cristalização dos modos autísticos de funcionar.
Por vezes crianças com um desenvolvimento menos comprometido apresentam resistência a mudanças e, outros mais graves, podem até evoluir melhor, ainda que não seja esta a regra.
Mas estamos vendo várias crianças (que logo se tornarão adultos) saindo do espectro com o tratamento adequado, mesmo que não sempre. Na grande maioria dos casos, o ganho é marcante. Propiciar experiências sociais regulares e bem dosadas é, sem dúvida, positivo para a evolução.

5) O que você diria aos pais de um adulto autista? Como orientá-los na educação e nos cuidados com o filho?

Provavelmente os pais de um adulto já desenvolveram estratégias para lidar com o filho, daí meu uso do termo acomodação, acima. Como os primeiros anos, em geral, são muito sofridos para os pais, criança e família, na idade adulta pode-se chegar a certa “calmaria”. Talvez a pergunta importante que os pais devam se fazer é se a acomodação se tornou rígida, constituindo uma barreira para as mudanças inevitáveis que são demandadas pela própria vida, ou se tem alguma plasticidade para os ajustes necessários.

6) De que modo a psicanálise poderia contribuir/está contribuindo para propostas de políticas públicas para o tratamento de adultos autistas?

O MPASP (Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública), que já existe há dois anos, tem se dedicado a discutir e tentar influir nas políticas públicas para o indivíduo com um TEA. Este é um bom exemplo que responde a pergunta feita.

7) Você considera que existam preconceito e discriminação em relação aos adultos autistas (por exemplo, no momento de disputar uma vaga de emprego, ou mesmo nas relações pessoais)? Se sim, de que modo a psicanálise poderia contribuir para a redução desse preconceito?

Acredito que preconceitos haja sempre e que eles fazem parte do programa humano: preconceito frente ao estrangeiro, ao diferente, ao novo etc.
Na medida em que o diferente e desconhecido ficam apreensíveis, atenua-se a tendência à exclusão. Tornar mais compreensível o universo autístico é uma das tarefas particulares da psicanálise, que pode contribuir para trazer mais familiaridade com o mesmo.
Ainda assim, corremos o risco de divulgarmos clichês: daí a importância de levarmos em conta a diversidade e a singularidade de cada um de nossos pacientes.

*Vera Regina J. R. M. Fonseca é psiquiatra, psicanalista, membro e atual Diretora Científica da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

Psicanálise e Educação: construção de conhecimento, subjetividade e performance

Qual as interfaces entre Psicanálise e Educação? Em que pontos elas se encontram? Como permitir que a realidade de fantasias da criança não se perca diante da necessidade de aquisição de conhecimento científico? A lógica racional é incompatível com o universo da imaginação infantil?

De perspectivas diferentes, a Educação e a Psicanálise se ocupam do desenvolvimento humano e o diálogo entre as duas áreas tem se mostrado cada vez mais profícuo. A construção do conhecimento e a constituição subjetiva são processos que se comunicam, ao longo do crescimento. Daí a importância de refletirmos sobre essa interface.

Essas e outras questões serão debatidas na 4ª Jornada de Psicanálise e Educação, no dia de 27 de setembro, na sede da SBPSP.

Para quem quiser saber mais, leia abaixo a ótima conversa que tivemos com as psicanalistas e membros da SBPSP, Heloisa Ditolvo, Marina Bilenky e Silvia Deroualle, coordenadoras da Jornada.

1 – Por que uma jornada que reúne os temas psicanálise e educação?

A psicanálise e a educação são áreas de estudo que abordam questões que possuem intersecções. Ambas se interessam pelo desenvolvimento humano, partem de diferentes  perspectivas, porém dialogam muito bem, por entenderem a necessidade de se cuidar e de se criar condições favoráveis para que este desenvolvimento aconteça.

2 – Quais as principais interfaces entre ambas?

A escola está ocupada com a construção do conhecimento, formação da cidadania e da ética, de um ser social e criativo. A escola funciona como mecanismo de transmissão da cultura.

A psicanálise vai criar um campo de busca de conhecimento do sujeito, de suas demandas pessoais. Para isto, precisa pensar o indivíduo dentro de sua realidade, interna, e da realidade social, externa, para que possa instrumentalizar esse indivíduo portador dessa cultura, a ser reflexivo, crítico, pleno de suas potências, criativo.

Partindo de direções opostas, ambas procuram entender e trabalhar com o ser humano que vive dentro de uma cultura que lhe é própria.

3 – Do ponto de vista da psicanálise, como se dá a construção do conhecimento?

Diante de uma novidade, o sujeito passa por um processo de desestabilização. A partir desse desequilíbrio, ele precisará elaborar a nova informação, integrá-la ao conhecimento que já havia adquirido, atingindo uma nova estabilização, agora transformada e enriquecida.
Para que esse processo ocorra, o sujeito, num primeiro momento, precisa suportar manter-se num estado de não saber para, em seguida, encontrar um sentido e um lugar para este novo conteúdo, que passa a fazer parte do conjunto de conhecimentos que ele possui.
As informações recebidas precisam vir acompanhadas de significado para quem as recebe, e a partir daí se vinculam afetivamente ao sujeito. Esse patrimônio vai sendo constituído a partir de permanentes rupturas dos antigos saberes.

4 – Como ensinar uma criança a pensar, do ponto de vista da lógica racional, sem que ela perca aquilo que é da ordem da imaginação e do sonho?

Até mais ou menos 7 anos, a criança vive num mundo de fantasias. É a partir de sua imaginação, sonhos, brincadeiras e projetos que ela experimenta o mundo e vai construindo a realidade. O adulto deve aceitar o funcionamento da criança, partir da lógica que existe na fantasia para ensinar a lógica racional. Ao invés de dizer que algo é “besteira” ou errado, tentar compreender qual a lógica que norteou aquela resposta, para então apresentar outras possibilidades.

Por exemplo: uma criança, ao executar sua tarefa de escola em que lhe foi pedido desenhar 3 frutas diferentes na tigela, desenha 7 frutas.  A professora pode garantir o conhecimento aritmético de unidades, e também descobrir junto com seu aluno qual o sentido das outras 4 frutas que ele espontaneamente acrescentou à tarefa pedida. Dessa maneira, pode perceber se há ou não alguma outra lógica na resposta da criança, sem a necessidade de taxar a resposta de errada sem investigação.

5 – É possível conciliar o pensamento infantil com o conhecimento científico?

Quando Isaac Newton descobriu como a refração da luz branca solar incidindo na  atmosfera úmida provoca o arco-íris, não retirou a surpresa e o encanto que nos provoca a visão das cores que se descortinam diante de nossos olhos. Nem tampouco desfez  a fantasia de que o arco-íris ao tocar o chão, indica o local exato de onde se encontra um baú repleto de tesouros.

6 – Como evitar “enquadrar” o pensamento infantil e perder suas melhores qualidades?

Evitando dar  regras que formatem o curso do pensamento e taxar de erradas respostas que não se enquadram ao modelo de forma imediata.

Meltzer, psicanalista, afirma que nossa mente tem a função de gerar metáforas para podermos escrever a poesia e pintar o quadro de um mundo repleto de significados das nossas paixões relacionadas às belezas do mundo.
Essas metáforas são essenciais para o pensamento, são a expressão do desenvolvimento do simbólico, das associações, matéria prima para o aumento da capacidade de elaboração e consequente compreensão do mundo.

7 – Como manter e até incentivar a narrativa infantil e conciliá-la com a necessidade do discurso científico?

Garantindo situações que favoreçam a liberdade de perguntar, de exercer a curiosidade. É essencial sermos sujeitos da nossa experiência. Há que se garantir o projeto, a experimentação, o engano, a dúvida, o erro e a reparação, para podermos nos lançar em outras experiências. Quando somos autorizados a expressar ideias e a refletir, quando sentimos que nosso pensamento tem valor, continuamos formulando novas perguntas e demonstrando interesse em aprender novas formas de pensamento, inclusive o discurso científico.

A arte, o sonho e a fantasia são elementos que enriquecem a concepção do humano, ilumina e dá valiosas contribuições no sentido de suportarmos o impacto do cotidiano da vida. Quando isto está minimamente garantido, o indivíduo tem condições intelectuais e emocionais de lançar-se na aventura do conhecimento científico.

8 – Como conciliar a construção adequada de conhecimento com as necessidades do mundo atual, que exige, de todos, altas performances?

Será que podemos conciliar estas realidades? A exigência de eficiência a toda prova vai na contramão da construção de conhecimento tal como viemos tratando até aqui. A velocidade dos acontecimentos, a demanda por absorver inúmeras e tão variadas informações, objetivo praticamente impossível de ser cumprido, nos coloca num estado de insatisfação crônica que nos leva ao sentimento de estarmos permanentemente devendo ou de sermos insuficientes.

Nossa natureza carece de tempo e espaço para sentirmos, pensarmos, e refletirmos para compreendermos o que se passa dentro e fora de cada um de nós.

Talvez a saída para esse impasse seja uma reflexão profunda a respeito de  qual aspecto deve ser priorizado em cada etapa do processo educacional.

9 – O que dizer do alto índice de medicalização que existe entre as crianças e os jovens atualmente?

A medicalização precisa ser entendida como uma ferramenta auxiliar e não como a solução de todos os problemas e dificuldades que precisam ser enfrentados.

Em recente pesquisa constatou-se que, nos últimos 3 anos, houve um aumento de 775% no uso de Ritalina para crianças  e adolescentes em São Paulo. Precisamos analisar estes números para pensar se estamos nos defrontando com uma atitude de banalização da medicação ou se isso se deve à melhoria nos diagnósticos do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Esta é uma das perguntas que esperamos poder responder durante a Jornada.

Heloisa Helena Sitrângulo Ditolvo é psicanalista e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)

Marina Kon Bilenky é psicanalista e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) 

Silvia Martinelli Deroualle é psicanalista e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)