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Entre arte e psicanálise: experiência estética e esperança

Parte 2[1]

*João A. Frayze-Pereira

Ao visitarmos uma exposição de arte, pode acontecer que determinada obra chame a nossa atenção, despertando em nós a vontade de entender o que ela nos comunica. E, nessa interação, primordial é a experiência, uma vez que é a obra que abre o debate entre o artista e seu espectador, é ela que suscita inquietações, exigindo estudos e pesquisa, antes que o espectador possa propor uma interpretação fundamentada. Ou seja, a interpretação espontânea de uma obra, com base na imediata associação livre do intérprete, revela antes o próprio intérprete do que a obra visualizada, como sucedeu a Freud diante do Moisés de Michelangelo (1914). Mas, sabemos que Freud não se limitou ao contato com as emoções – admiração e terror – despertadas nele pela obra.  Ele foi além. E realizou um estudo original com os recursos que dispunha em sua época, alargando a sua leitura de si mesmo e da obra.  Mais recentemente, Martha Argerich, considerada uma das maiores intérpretes da obra de Robert Schumann, numa entrevista, discorre sobre a sua atitude como espectadora diante da obra de um compositor e da sua maneira de interpretá-la (Gachot, 2003). E define, em poucas palavras, uma espécie de princípio que deve nortear o intérprete ao se aproximar de uma obra.  Ou seja, o pianista não chega ao piano e executa a composição, de imediato, seguindo a partitura, como se já conhecesse o autor. A interpretação de uma obra leva muito tempo para ser realizada, demanda muitas horas de escuta das composições do autor. E chega um momento em que o pianista toca como se Schumann, por exemplo, tivesse composto para ele. Mas, essa afinidade estética surgiu de uma intensa frequentação das suas composições que exigiram pesquisa e intimidade com o autor, muito estudo de sua obra em seu tempo e no tempo do intérprete.

Ora, o princípio que norteou a atitude de Freud, ao se deparar com o Moisés de Michelangelo, e a relação de Martha Argerich com Schumann, vale para todos nós que apreciamos o contato com as artes. Ou seja, na relação com uma obra de arte, há que se ter um primeiro tempo – o tempo da experiência – segundo o qual a percepção do espectador vai ao encontro da realidade sensível-inteligível que se oferece a ele sem reconhecer nela formas e conteúdos fixos. E, nesse sentido, quer esteja diante de obras de arte ou dos seus analisandos, cabe ao psicanalista aguardar pacientemente a manifestação da poética que articula as maneiras de ser de umas e outros para, então, levar em conta as teorias que poderão fundamentar uma possível interpretação (Frayze-Pereira, 2016).

Assim, considerando o modo da minha própria relação com a arte – inspirado em Freud, bem como em Merleau-Ponty, Winnicott e Bollas, entre outros, afirmo que “experiência” é uma silenciosa abertura para o que não é nós mesmos e que em nós se faz dizer, é o que nos abre para tudo aquilo que é outro, suscitando inquietudes e exigindo de nós criatividade para que dele possamos ter algum conhecimento.  E, nesse momento, cabe considerar com mais atenção a reciprocidade existente entre o artista e o psicanalista, entre a arte e a psicanálise.

Em primeiro lugar, pode-se dizer o seguinte: o que as artes nos oferecem ou nos ensinam é que a percepção e o pensamento não podem se fixar num dos polos das dicotomias tradicionalmente conhecidas: visível ou invisível, palavra ou silêncio, coisa ou consciência, sujeito ou objeto. Mas, como observou Marilena Chauí (2002, p.165), também fundamentada em Merleau-Ponty, as artes ensinam que o “pensamento precisa mover-se no entre-dois, sendo mais importante o mover-se do que o entre-dois, pois o entre-dois poderia fazer supor dois termos positivos separáveis, enquanto o mover-se revela que a experiência e o pensamento são passagem de um termo por dentro do outro, passando pelos poros do outro, cada qual reenviando ao outro sem cessar”. E a realidade que impede a fixação num dos polos das dicotomias é a realidade do próprio corpo que, ontologicamente, é um ser sensível que, ao mesmo tempo, é o que sente. Mais do que isso: é sensível enquanto sente, ou seja, poroso para si mesmo e em relação ao mundo, é um corpo reflexivo. E a reflexão realizada por ele transforma a visão que temos de como acontece o conhecimento (Frayze-Pereira, 1984; 2016).

Por exemplo, no entrecruzamento das mãos, como colocar uma delas como sujeito e a outra como objeto?  Na experiência ambígua do ver, como determinar quem vê e quem é visto, se o corpo não é nem simplesmente coisa vista nem apenas vidente?  Como sabemos, por intermédio de Merleau-Ponty, é preciso rejeitar os preconceitos seculares, subjetivista e objetivista, que colocam o corpo no mundo e o vidente no corpo ou, inversamente, o mundo e o corpo encaixados no vidente; é também preciso reconhecer que a ambígua experiência do corpo consigo mesmo revela o embaralhamento da distinção sujeito-objeto. E esse embaralhamento também se verifica na relação do corpo com as coisas e com os outros. E são as artes que constituem o campo privilegiado no qual essa experiência ambígua tem lugar de modo mais evidente. A partir daí, podemos dizer o que as artes nos ensinam. Elas nos ensinam sobre a impossibilidade de um “pensamento de sobrevoo”, pensamento abstrato, desimplicado do real, operação de um sujeito desencarnado que aplica teorias e conceitos aos objetos para manipulá-los, renunciando a se implicar com eles (Merleau-Ponty, 1964, p. 9).  É esse o principal ensinamento que as artes têm a nos oferecer. Ou seja, o que o artista mostra ao psicanalista é basicamente como ele trabalha no campo simbólico, trabalho que se mostra como um movimento de transcendência, isto é, que ultrapassa o imediato, encontrando para ele um sentido novo através de uma ação orientada em função do possível. E não é exatamente isso que realiza (ou deveria realizar) o psicanalista com o seu outro, ao trabalhar na clínica?  Trata-se de um trabalho que interroga a noção de método, tal como foi inventada na modernidade do século XVII, com o subjetivismo filosófico, e aperfeiçoada no XIX, com o objetivismo científico, para garantir a verdade dos conhecimentos, pressupondo, necessariamente, a separação entre sujeito e objeto do conhecimento. Ora, no trabalho do psicanalista que opera com o processo transferencial (Freud, 1917), assim como no trabalho do artista que se realiza como processo de formatividade (Pareyson, 1988), sujeito e objeto são inseparáveis. Trata-se, em ambos os casos, de um fazer processual que enquanto faz nega o feito, o instituído, e inventa o por fazer e o modo de fazer, o instituinte.  E tal fazer implica uma transformação da postura do pesquisador ou do intérprete, seja ele artista ou psicanalista, não apenas com relação ao conhecimento, mas com relação à cultura no sentido amplo. E, decorrente dessa mudança de postura, talvez a consequência mais grave seja a seguinte: ao frequentar o campo das artes, como espectador, o psicanalista acaba se situando entre elas e, dado o relacionamento com as obras e os artistas, é ele quem sai transformado radicalmente. No contato com o trabalho dos artistas, dada a inquietação suscitada por eles, o espectador tem acesso a si próprio como pensador-vidente que é capaz de um saber nutrido pela experiência interminável da interrogação. Nesse sentido, o que as artes promovem é o contato com um trabalho temporalmente interminável, de tal modo que as experiências suscitadas pelas obras são caminhos para a “iniciação ao mistério do tempo” (Chauí, 2002, 165), isto é, literalmente, abertura ao desconhecido, ao outro, ao impensável que suscita em nós reflexão e transformação.

Numa perspectiva análoga, baseada em ideias de vários filósofos, poetas e artistas, mas sobretudo em diálogo com Freud, Green e Winnicott – Gabriela Goldstein pergunta (2005, p. 63): “por que o tempo da transitoriedade é o tempo da experiência estética?”.  E, após certa elaboração, responde – “a experiência estética é uma experiência de limite cuja ambiguidade permite transitar por zonas inquietantes, entre sonho e fantasia, e dar conta da cisão e do objeto perdido” (p.123). Ou seja, essa experiência pressupõe a ideia da “perda” que se “manifesta no impossível do encontro” (…) ela “inaugura um novo campo de conhecimento, no qual a noção de alteridade, o outro, e a diferença implicam um efeito de subjetivação” (p. 64, 65). Quer dizer, “a experiência estética é uma experiência particular e específica que permite “um ir e vir entre o permitido e o proibido que, atravessando sucessivas camadas, ativa o desejo de conhecer e pensar com outro aqueles velhos capítulos da história do trauma” (…) Então, “o lugar da experiência é essa zona intermediária cujos limites permeáveis abrem a um jogo infinito onde o processo primário e secundário se mesclam e se entrecruzam em uma nova volta que, fora da patologia, podemos denominar “terciária”, desde que implica necessariamente a passagem pelo outro, em sua terceiridade”. Ou seja, trata-se de um lugar que “ é zona de jogo, de domínio e de desejo, de trauma e de fantasia” (p. 124).  Na passagem pela zona da experiência, “zona intermediária, surge uma peça chave: a reprodução do trauma se daria na qualidade de trauma atenuado, o qual dá lugar a um processo onde o antes projetado, cindido ou esquecido poderia, agora, em alguma medida limitada, ir se integrando em um psiquismo ampliado. Não deixamos de notar e destacar que a experiência estética, em determinadas condições, credita uma significativa concordância com o que podem produzir o setting, a transferência e o campo analítico como campo de cura. E é a presença do outro qualificado – em posição de analista – quem, como ‘amigo silencioso’, acompanha os achados”.  (p.125). Essa posição colocada por Gabriela Goldstein é importante e, do meu ponto de vista, merece certa atenção no tocante às suas implicações.

Com efeito, nesse processo em que se instaura a experiência estética, o psicanalista terá que abrir mão da chamada posição do sujeito do conhecimento, inteiramente determinado, terá que abandonar o recurso ao método, como instrumento para conhecer ou para interpretar, supostamente válido para o uso de qualquer psicanalista, independente da sua maneira de ser ou da sua personalidade, e assumir  uma postura compatível com o trabalho no entre-dois – entre experiência e pensamento, entre o eu e o outro, entre corpo e alma, entre sujeito e objeto – postura mais próxima talvez do acrobata, do saltimbanco e do andarilho easy rider, do viajante e do alegorista nos ateliês, finalmente, do narrador na clínica. Em suma, segundo sugere Walter Benjamim (1985), a postura no “entre dois” é aquela adotada por todas as figuras que a modernidade não inclui, mas marginaliza como inúteis e sem localização produtiva definida. O psicanalista, assim como o artista, modernos-contemporâneos, não produzem objetos e conhecimentos positivos: ambos trabalham com a suas respectivas experiências, elaboradas por suas maneiras de ser, a partir das quais trabalham e realizam proposições que são capazes de  instigar elaborações acerca de tudo aquilo que, conforme aprendemos com a leitura de Christopher Bollas (1987, 277), é conhecido mas ainda não foi pensado.

É bom lembrar ainda que foi no mundo moderno, do qual os deuses partiram, que a arte e a psicanálise inauguraram um novo modo sensível de pensar e passaram a ter um papel fundamental na formação de uma perspectiva simultaneamente interrogativa, interpretativa e crítica sobre o próprio mundo em que elas nasceram. E essa perspectiva que não é de ordem primordialmente epistemológica, mas sobretudo estética e ética, é o melhor que a artes e a psicanálise têm a nos oferecer, pois se abrirmos mão da perspectiva estética abdicamos de uma responsabilidade. Parafraseando Marcuse (1979, p.63), pode-se dizer que é uma abdicação que tem como consequência ética privar a humanidade da forma mesma pela qual ela pode criar outro universo no interior da realidade estabelecida: “o universo da esperança”. Essa possibilidade ética e estética é o que norteia a criação de todo objeto que resiste à morte, gestos e situações humanas que transcendem a dor instaurada pelas formas da violência psíquica, social e política, pela decadência física e moral, pelas doenças de todas as ordens. Assim é que em tempo de pandemia e constrangimento social, José Eduardo Agualusa (2020), ao ouvir Yamandu Costa, violonista gaúcho, compreendeu “que se não for através da música, da literatura, do cinema, das artes plásticas, nunca conseguiremos sair do confinamento espiritual que o isolamento físico tende a impor. A música abre portas que nem sabíamos que estavam lá. A arte nos ensinará a romper com este inverno perpétuo, e a avançar para o futuro inevitável, qualquer que ele seja, iluminando e inventando caminhos. Reaprenderemos a beijar-nos através da arte — ou nunca mais nos beijaremos”.

Ora, não por acaso, a imagem impressa na capa da edição do livro de Gabriela Goldstein em português e as que abrem os capítulos que o compõem fazem parte de uma série pictórica intitulada Promesse du bonheur. Tais imagens podem ser interpretadas como belos emblemas do que atravessa as linhas e entrelinhas do texto dessa autora, isto é, um sentimento de esperança de que certa inquietude estética seja compartilhada por psicanalistas e artistas, definidora da reciprocidade que os relaciona, ao afirmarem com suas práticas uma mesma proposição poética que é, ao mesmo tempo, política: recusar a pretensão de manipular as coisas e lutar contra tudo e todos que poderão nos impedir de habitá-las.


Referências

Agualusa, J.E. Troco tudo por um abraço. O Globo Cultura, 18.07.2020. https://oglobo.globo.com/cultura/troco-tudo-por-um-abraco-24538423

Gachot, G. Martha Argerich, conversation nocturne. France, IMDb, 2003.

Benjamim, W. O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Walter Benjamim. Obras escolhidas. São Paulo: Brasiliense,1985, pp.197-221.

Bollas, C.  The shadow of the object.  New York, Columbia University Press, 1987.

Chauí, M.  Experiência do pensamento. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

Freud, S. O Moisés de Michelangelo (1914). O.C. (vol. 11). São Paulo, Cia das Letras, 2019, ps.373-412.

Frayze-Pereira, J. A.  A tentação do ambíguo. Sobre a coisa sensível e o objetivismo científico. São Paulo: Ed. Ática, 1984.

Frayze-Pereira, J. A   Corpo como obra de arte: tatuagem, clínica e crítica. RBP, 50-2, pp 78-93, 2016

Goldstein, G. La experiência estética – escritos sobre psicoanálisis y arte. Buenos Aires: del estante editorial, 2005. [ A experiência estética – escritos sobre Psicanálise e Arte. Terra de Areia (RS): Triângulo Graf. Ed., 2019].

Marcuse, H. La dimension esthétique. Paris: Seuil, 1979.

Merleau-Ponty, M. L’oeil et l’esprit. Paris: Gallimard,1964.

Pareyson, L.  Estetica, Teoria della formativitá.  Milano: Gruppo Editoriale Fabri, Bompiani, Sozogno, Etas S.P.A., 1988

*João A. Frayze-Pereira é membro efetivo e analista didata da SBPSP. Professor livre docente do Instituto de Psicologia da USP e do Programa de Pós-Graduação em Estética e História da Arte da USP.

Crédito: Gabriela Goldstein. Pintura 4 da série Promesse du bonheur (2008). Téc mix sobre tela (100cm x 70cm)

 

[1] Segunda parte do comentário do livro de Gabriela Goldstein, A experiência estética – escritos sobre Psicanálise e Arte, que seria apresentado no seu lançamento, na SBPSP, em março de 2020, cancelado devido à pandemia. Esta segunda parte, em continuidade ao publicado neste Blog no dia 03 de setembro de 2020, faz parte de um artigo a ser publicado (no prelo).

No princípio é a dor: arte, experiência estética e psicanálise

Parte 1[1]

*João A. Frayze-Pereira

Foi com entusiasmo que li o livro de Gabriela Goldstein, psicanalista da Associação Psicanalítica Argentina (APA), adquirido por mim na livraria Ateneo em Buenos Aires, no ano da sua 1ª edição, 2005. Coincidentemente, este foi o mesmo ano em que foi publicada a 1ª edição do meu Arte, Dor. Inquietudes entre Estética e Psicanálise. Porém, mais do que apenas uma coincidência de datas, nos dois livros, a questão da experiência estética é central. E também é semelhante o modo como a arte é compreendida, começando pelo fato de ser considerada, nos dois livros, um campo de conhecimento, assim como é a medicina, a física, a química, a astronomia, a psicologia, a filosofia e a própria psicanálise. E, nessa medida, como qualquer campo de conhecimento, a arte possui uma especificidade que exige estudos, pesquisa e certa erudição para que se possa trabalhar com ela e a partir dela (Argan, 1988).

Entretanto, essa condição é ignorada na grande maioria dos escritos psicanalíticos nos quais uma obra de arte é objeto de comentários, figurando mais como ilustração dos textos, como matéria sem história e sem contexto, apenas como um suporte para a projeção de representações teórico-conceituais ou como tela para a livre associação pessoal do intérprete que mais revela a si mesmo do que a obra supostamente analisada. Mas, isso não acontece no livro de Gabriela Goldstein que me reservou outra surpresa, outra coincidência: a data da sua publicação em português coincide com a data da edição do Arte, Dor, em russo, lançado em Moscou, também em 2019. Ora, tão longe e tão perto, os dois livros despertaram o interesse de leitores diferentes, que se empenharam em traduzi-los, e com certeza A experiência estética encontrará, entre os leitores brasileiros, um reconhecimento semelhante ao recebido pelo Arte, Dor entre os russos, como tem sido expresso nas ocasiões em que os encontro nos seminários, aulas e supervisões que passei a ministrar, encontros em que as diferenças culturais não impedem a nossa recíproca comunicação. E creio que essa reciprocidade tem a ver com o fato de as artes, especialmente a música e a dança, fazerem parte da vida dos psicoterapeutas russos que tenho encontrado. E esse aspecto corresponde ao que deve ser a condição para todo aquele que deseja fazer alguma aproximação entre arte e psicanálise, quer dizer, é preciso ter experiência nos dois campos – no campo das artes, seja por engajamento em alguma prática como criador, seja por alta frequência em museus, galerias, salas de concerto e de espetáculos como espectador; e, no campo da psicanálise, seja como psicanalista, seja como analisando. Mas, não só isso. É preciso que essa frequentação esteja relacionada à pesquisa permanente nos dois campos, com acumulo de leituras e interlocução com seus pares. Nesse sentido, Gabriela Goldstein é uma intérprete privilegiada que cumpre esses requisitos, pois além de psicanalista, é arquiteta e pintora com exposição da sua belíssima obra, em várias cidades do mundo.  Ora, para o psicanalista, se essa experiência de intensa frequentação do campo da arte não acontecer, a tendência será que o resultado do seu trabalho será superficial e discutível, evidenciando que as obras de arte referidas não passarão de signos que valem apenas por conferirem ao intérprete, seja ele quem for, uma distinção de classe, como bem analisaram Bourdieu e Darbel na pesquisa que norteou o livro L’amour de l’art (1966).

Posto isso, relembrando que Gabriela é pintora e psicanalista, a partir da leitura de A experiência estética, surgiu para mim a seguinte pergunta: o que a psicanalista poderia dizer a um artista sobre a psicanálise e o que a artista poderia dizer a um psicanalista sobre a arte?

Essa é uma pergunta em duas fases que interroga a reciprocidade entre o psicanalista e o artista.  Mas, é uma pergunta que também implica como resposta, qualquer que ela seja, alguma reflexão sobre as especificidades da arte e da psicanálise em contato com a primeira. Tais reflexões são formadas por intermédio da própria experiência ou da frequentação que artista e psicanalista tiveram no campo da arte e no campo da psicanálise, campos de conhecimentos que suscitam discursos cujo destino é constituir o processo da chamada recepção estética que, por sua vez, determina a fortuna crítica das obras. E, nesse processo, a Psicanálise poderá se afirmar, ao lado de outras disciplinas, como uma perspectiva legítima para o conhecimento das artes.  Mas, o que seria a arte?

Gabriela Goldstein responde gradualmente, considerando aspectos diferentes da arte como um processo, ao longo de cada um dos três capítulos que compõe o seu livro (2005/2019), nos quais o seu diálogo é sobretudo com escritos de Freud. No primeiro, a referência é ao relato de Freud sobre a sua experiência na Acrópole. No segundo, ao belo ensaio sobre a transitoriedade. E, no terceiro, ao estranho. E em cada um deles os temas analisados pela autora variam, mas é a memória o tema privilegiado, embora outros sejam trabalhados ao longo da narrativa – a temporalidade, o corpo e, sobretudo, a própria obra de arte – sempre articulados à questão da experiência estética. Não será possível discorrer sobre cada um deles neste breve comentário, mas, procurando ser fiel à autora, destacarei um tópico importante da sua reflexão, retomado por ela mesma em outro texto, mais recente, que diz respeito à arte propriamente dita.

Com efeito, diz a autora (Goldstein, 2020) – “Arte é memória. É memória incorporada na obra de maneira paradoxal. Ou seja, a arte convoca a memória que, em muitos casos, é objeto da própria arte. Pensar sobre essa questão, que articula as naturezas da arte e da memória, implica uma dupla leitura. Por um lado, sabemos que a arte está intimamente ligada ao ‘belo’ enquanto herança clássica e como condição de objeto da arte. Mas, à categoria do belo e do maravilhoso impõe-se, às vezes imperceptivelmente, o outro lado da mesma moeda, o escuro, o horrível e o sinistro. Hoje em dia, observa Gabriela, a reflexão sobre a arte torna inevitável considerar essa duplicidade da condição do belo e do sinistro, do traumático e do inefável, isto é, da memória do impensável da condição humana”. E, de fato, sabemos que a partir da segunda metade do século XX, além da presença de duas fortes tendências poéticas que às vezes se superpõem – a tendência à abstração e a vertente conceitual – também se constata a disposição dos artistas, sobretudo entre os anos 1960 e 1980, de confrontar o público com figuras regressivas: “exaltando o pré-genital e oferecendo-o sem retoques, o artista retoma, sobretudo, o que nos séculos anteriores havia sido omitido, negado, reprimido ou sublimado” (Gagnebin, 1999, p 226).  É uma “poética do mal-estar” que, no mundo moderno/contemporâneo, propõe pensar com crueldade a condição humana.[2] No entanto, muito antes da instauração na arte dessa maneira de pensar, materializada em obras que consideram explicitamente a “memória do impensável da condição humana”, de certo modo, Freud já estava envolvido com ela, como explorador da arqueologia da alma, ao partir para  a Grécia em busca de arte e se encontrar com um outro lado, que o surpreende, no meio da bela paisagem”.  Freud, diz Gabriela (2020), torna-se “dividido em dois”:  de um lado, “se contempla como componente da paisagem” e, de outro, “não admitindo a bela realidade, se retrai na dúvida sobre a existência da mesma”. E investigando a estranha experiência que implicou Freud na Acrópole, Gabriela considera-a como “transtorno da memória cujas razões repousam em experiências dolorosas da vida infantil”.  Quer dizer, no “sentimento de alienação ou estranhamento (Entfremdungefühl), que Freud afirma ter surgido nele, efeitos e perguntas são relançados e se precipitam para além da interpretação freudiana, percebendo-se que uma experiência estética também ocorreu ali”. E a autora observa que no estranho fenômeno que impactou Freud no templo de Atena, “a alienação, o estranhamento e a perda de memória dão conta do que hoje podemos entender, também, como experiência estética, pois no encontro com a arte, com grandes obras, elas nos questionam, exigem de nós uma resposta, tal como aconteceu com Freud que se pergunta, intrigado, como se ele fosse outra pessoa, se o que ele sentiu era real”.

Ora, nesse aspecto, o pensamento de Gabriela Goldstein e o meu se aproximam, pois, no processo descrito por ela, a dor está presente de modo paradoxal. Mas, de que paradoxo se trata aqui?

Sabemos que uma dor intensa e duradoura pode impedir a ação, suspender o desejo e inibir o pensamento. No entanto, sabe-se também que uma dor profunda pode dar lugar não ao estupor, mas, paradoxalmente, a um ato imaginário que se concretiza em obra.  E, nessa direção, como pensar o paradoxo do artista que se consome na dor ao mesmo tempo em que se consagra a expressar uma catástrofe que o atinge? Ora, é lugar comum pensar que o artista faz arte para espantar sua dor, apaziguar seus males e os de seus interlocutores. No entanto, de que dor se fala, nesse caso? Na história da arte, a questão da dor, assim como a da morte, não é mero tema entre outros, extraído pelos artistas da vida comum. Ao contrário, a história da arte mostra que há um vínculo essencial, mais profundo, entre experiência estética e experiência da dor, vínculo que às vezes surge para o artista e para o espectador de modo inesperado. Um exemplo bastante claro, nesse sentido, nos é fornecido pela relação surpreendente entre o pintor modernista Graham Sutherland e Winston Churchill que, além da política, também, praticava a pintura. Com efeito, sabe-se que em 1954, o pintor britânico foi convidado a fazer o retrato do primeiro ministro, quando este fez 80 anos. E, numa das inúmeras sessões de pose para o retrato, aconteceu um diálogo sobre arte, quando o pintor interrogou o motivo pelo qual Churchill pintou repetidamente o lago situado nos jardins de sua residência. Num dos episódios do seriado The Crown, essa notável conversa é representada, colocando em cheque as ideias de tradição e invenção, passado e futuro, quando entre as associações feitas por ambos, advém uma recordação dolorosa que emociona o ministro, submersa nas profundezas daquele lago, conservada pelo político ao longo da vida, embora ele próprio, enquanto pintor domingueiro, inconscientemente, tenha omitido para si mesmo, deixando-nos perceber, ao escutarmos a conversa, que o conhecido jamais havia sido pensado por ele. Mas, a arte estava lá para revelar, inadvertidamente, como “memória do impensável da condição humana”, uma zona sombria cuja natureza originária se mostrou aos olhos dos dois pintores como experiência estética – misteriosa, emocionante, surpreendente.

É esse vínculo originário entre existência e dor, entre experiência estética, arte e dor, que tem sido o tema motivador das minhas pesquisas nos últimos 30 anos (Frayze-Pereira, 1987; 2019), podendo ele ser vislumbrado desde a mitologia grega que nos permite afirmar: no princípio, não é o verbo; no princípio, é a dor. Nesse plano, Níobe e Dédalo são protagonistas exemplares. Conta a história que Níobe, altiva e fértil esposa do rei de Tebas, chora desesperada a morte de todos os seus inúmeros filhos e filhas, massacrados por ordem da vingativa Leto. Compadecido, Zeus transforma a mãe dolorida em um bloco de pedra do qual brotou para sempre um rio de lágrimas. Assim, o deus-escultor torna menos viva a dor de uma mortal que, petrificada, é eternizada, chorando os mortos. Por outro lado, o primeiro escultor-arquiteto humano, Dédalo, concebe o labirinto onde será encerrado o terrível Minotauro, construindo um cenário no qual se passará o enfrentamento do Homem com o essencial do destino humano: “experiência do monstruoso e luta contra a morte” (Frayze-Pereira, 2010). Ora, não é diferente o sentido da construção da Acrópole  – lugar em que se venera a justiça, a sabedoria e toda forma de combate à decadência, no limite, à dor e à morte. E é Atena – deusa da civilização, da sabedoria, da estratégia em batalha, da justiça e das artes – que reina soberana nesse templo. Mas, Freud encontra o templo desconstruído. O impensável da condição humana se materializou no espaço mutilado, em ruinas. Assim, operar com a dor e através dela não é uma questão dos humanos, em geral, mas daqueles que se dispõem a fazer arte da condição humana, do mistério da existência, da sua comédia ou da sua tragédia. Cabe, então, a pergunta – será o objeto artístico aquele que persiste, depois da dor associada à criação e à destruição (afinal, segundo alguns autores, criar é destruir), atestando que existe sobrevivência à morte, que a imortalidade é possível? Freud teve a experiência dessa questão, ao visitar a Acrópole. E ele não foi o único, pois como muitos filósofos, historiadores e críticos de arte afirmam: o objeto artístico é a única coisa humana que resiste à morte, que transcende a dor instaurada pela violência, pela decadência física e moral, pelas doenças. Por esse motivo, no contato com as obras de arte, mais cedo ou mais tarde, o espectador implicado nelas se verá às voltas com perguntas perturbadoras que exigirão dele criatividade para responde-las, se quiser das obras ter experiência.  Mas, o que seria a experiência?  Esta é uma pergunta cuja resposta ficará para uma próxima vez.

Referências

Argan, G. A Arte e a Crítica de Arte. Lisboa, Stampa, 1988

Bourdieu, P. & Darbel, A.  L’ amour de l’art : les musées et leur public, Paris, Éditions de Minuit, 1966

Frayze-Pereira, J.A. Arte, Dor. Inquietudes entre Estética e Psicanálise (2005). Cotia: Ateliê Ed, 2010 (2ª ed). [Iskusstvo i bol’ Problemy mezhdu estetikoy i psikhoanalizom. Moscou: Izdatel’skiy Neolit, 2019].

Frayze-Pereira, J.A. Olho D’Água: arte e loucura em exposição (1987). São Paulo, Escuta/Fapesp, 1995.

Gagnebin, M  Du divan à l’écran, Paris, PUF, 1999.

Goldstein, G. La experiência estética – escritos sobre psicoanálisis y arte. Buenos Aires: del estante editorial, 2005.

[A experiência estética – escritos sobre Psicanálise e Arte. Terra de Areia (RS): Triângulo Graf. Ed., 2019].

Goldstein, G. La memoria como objeto de arte. La Época APA Online, 2020   https://laepoca.apa.org.ar/7/la-memoria-como-objeto-de-arte/

Merleau-Ponty, M.  Le visible et l’invisible. Paris: Gallimard,1964.

Morgan, P. The crown. Seriado britânico, 2016.

 

[1] Primeira parte do texto escrito a propósito do livro de Gabriela Goldstein, A experiência estética – escritos sobre Psicanálise e Arte, a ser apresentado no seu lançamento, na SBPSP, em março de 2020, cancelado devido à pandemia. Este texto encontra-se no prelo a ser publicado como artigo.

[2] “Pensamento cruel” é uma noção inspirada em Walter Benjamin. Refere-se à elaboração crítica que “desaloja as pessoas dos lugares costumeiros, invalida hábitos, ameaça o conforto do que parece ‘dado’, do que é tido como certo, do que parece natural…”; seu propósito é “expressar as perspectivas nas quais o mundo revela suas fraturas para retomar a questão da atividade do sujeito como redenção, isto é como restituição daquilo de que fomos privados à nossa revelia”. (Frayze-Pereira, J.A. e Patto, M.H.S. orgs) Pensamento cruel – Humanidades e Ciências Humanas: há lugar para a psicologia? São Paulo, Casa do Psicólogo, 2007, ps. x-xi).

*João A. Frayze-Pereira é membro efetivo e analista didata da SBPSP. Professor livre docente do Instituto de Psicologia da USP e do Programa de Pós-Graduação em Estética e História da Arte da USP.

Crédito: Gabriela Goldstein. Pintura 5 da série “Promesse du bonheur” (La promesa de la felicidad). Tec. mix. sobre tela, 170 x 150 cm, 2008.

 

Sobre a transitoriedade: ensaio sobre a pandemia

*Denise Aizemberg Steinwurz

 

No ano de 2020, o ano em que se comemora o centenário da pulsão de morte, quem poderia imaginar que, por conta de um vírus, seríamos assolados pelo risco de morte iminente tendo, inclusive, as fronteiras fechadas no mundo inteiro?

Vivemos hoje uma sobrecarga de estranhezas: um mundo novo tão diferente que a pandemia pela Covid-19 apresentou. Providências de ordem prática que precisaram ser tomadas – uso de máscaras, distanciamento social, excesso de informações que sequer conseguimos acompanhar, nomear e elaborar – trouxeram repercussões emocionais. Fomos subtraídos da convivência social e postos em estado de grande desamparo e insegurança. Obrigados ao isolamento e confinados em nossas casas, passaremos por graves impactos econômicos e na saúde da população, e sofremos sem saber como será o mundo depois.

Freud (1919) fala do Unheimlich, esse estranho assustador, que não é conhecido nem familiar, algo que não sabemos abordar. Para Freud, quanto mais orientados estamos, menos temos a impressão de algo estranho em relação aos objetos e eventos. Hoje, porém, parecemos mais desorientados do que nunca.

Esse vírus é invisível e ameaçador, mas se faz ver quando alguém morre, ou nas reportagens, ou quando vemos pessoas com equipamento de proteção, luvas, máscaras e faceshields, fazendo as regiões parecerem zonas de guerra; de certa forma, são. Zusman (2020) avalia que vivemos outro paradigma: “a recomendação de distanciamento físico é uma mudança de paradigma, já que somos gregários por natureza; precisamos de outros humanos para nos constituir humanos”. Hoje, porém, o outro, o espaço e a proximidade parecem nossos inimigos.

As impressões sobre um tempo semelhante estão descritas por Freud (1916), a partir de uma conversa com um poeta, um ano antes da guerra: “um ano depois irrompeu o conflito que lhe subtraiu o mundo de suas belezas. Não só destruiu a beleza dos campos que atravessava e as obras de arte que encontrava em seu caminho, como também destroçou nosso orgulho pelas realizações de nossa civilização, nossa admiração por numerosos filósofos e artistas, e nossas esperanças quanto a um triunfo final sobre as divergências entre as nações e as raças. Maculou a elevada imparcialidade da nossa ciência, revelou nossos instintos em toda a sua nudez e soltou de dentro de nós os maus espíritos que julgávamos terem sido domados para sempre, por séculos de ininterrupta educação pelas mais nobres mentes. Amesquinhou mais uma vez nosso país e tornou o resto do mundo bastante remoto. Roubou-nos do muito que amáramos e mostrou-nos quão efêmeras eram inúmeras coisas que consideráramos imutáveis” (p. 347).

Essa pandemia é, sem dúvida, um momento assim, uma situação traumática, relacionada a perdas significativas. O novo Coronavírus atacou partes fundamentais de nossa vida, e assim como o sistema imunológico de defesas, as defesas emocionais buscam lidar com o clima de insegurança e ameaça. Para Zusman (2020), “as defesas não são por si só patológicas; elas vêm para nos ajudar e se tornam patológicas quando se instalam sem podermos recompor nossas defesas habituais”.

A possibilidade de elaboração dessas angústias depende da estrutura emocional de cada indivíduo. Vemos pessoas com um nível normal de angústia, dada a estranheza do que vivemos; porém, vemos pessoas em quem – frente a essa situação inesperada, geradora de angústias que não podem ser digeridas pelo aparelho psíquico – isso transborda para o corpo que adoece. Se a mente não dá conta, é no corpo que aparecem as manifestações, ou seja, na ausência do símbolo e da palavra, é o corpo que sofre: via atuação (formas brandas, como andar pela casa, bater nas paredes, reclamar ou brigar com alguém, até formas mais graves, como o suicídio); via adicção (compulsão alimentar, uso excessivo de bebidas, cigarros e drogas); via psicossomática.

As organizações psicossomáticas diferem pelo sistema defensivo, pelo nível evolutivo e pela quantidade e qualidade das representações mentais. São as pulsões de vida e de morte que põem em movimento o sistema; há organizações mais emaranhadas na expressão corporal e outras mais próximas da neurose. Quanto mais evoluído o sistema representacional e a simbolização, melhores as defesas para lidar com movimentos regressivos. Uma situação traumática atual reativa a situação traumática precoce, expressa tanto no psíquico quanto no somático, como resultado das modificações na estrutura psicossomática (Steinwurz, 2017).

Quadros somáticos podem surgir ante uma situação traumática e depois desaparecer; porém, podem se instalar como doenças crônicas que geram incapacidade na vida pessoal e profissional, em diversos graus (Steinwurz, 2017). Eles são um sinal de que algo não correu bem no princípio do desenvolvimento. Houve uma dissociação na personalidade, que impede o indivíduo de perceber a relação entre a disfunção somática e seu psiquismo e integrá-la; sem conseguir uni-las, adoece.

Marty (1993) define a função materna como determinante na constituição do psiquismo, bem como na organização psicossomática. Um vínculo afetivo precário com a mãe cria matrizes traumáticas no desenvolvimento psíquico.

Para Winnicott (1949), o ambiente também é fundamental no desenvolvimento emocional. Uma mãe não suficientemente boa – com uma maternagem precária ou inconstante – interrompe esse processo, levando à dissociação entre psique e soma, característica da psicossomática. Sem uma preocupação materna primária, a mãe não oferece suporte egoico para o bebê, que é deixado por conta própria. Ele tem que se haver com suas próprias necessidades quando, muito precocemente, a mãe deveria cuidar delas.

A doença psicossomática seria um pedido de socorro para que se constitua esta integração. Cada sintoma terá um significado emocional, do qual o ego tira proveito para alívio dos conflitos. Estes sintomas orgânicos podem evitar que o paciente desenvolva sintomas psicológicos mais severos. Portanto, com a melhora do orgânico, o ego terá de encontrar outros meios de vazão para as tendências antes aliviadas pelo corpo.

Na busca desses outros meios, no isolamento que vivemos, encontramos o tempo como um aliado, em contraponto a tanto que perdemos. Muitos têm mais tempo para atividades que não faziam, como pintar, bordar e cozinhar, e para aproximar-se de amigos e parentes ainda que virtualmente. Na psicanálise, vemos um aumento da disposição para trabalhos voluntários para pessoas em estado de vulnerabilidade, e para profissionais da saúde da linha de frente com os pacientes com Covid-19.

Em belíssimo texto sobre a transitoriedade, em que relata uma conversa sobre o tempo, Freud (1916) fala sobre o significado dele para cada um: “o poeta admirava a beleza do cenário à nossa volta, mas não extraía disso qualquer alegria. Perturbava-o o pensamento de que toda aquela beleza estava fadada à extinção, de que desapareceria quando sobreviesse o inverno, como toda a beleza humana e toda a beleza e esplendor que os homens criaram ou poderão criar. Tudo aquilo que, em outra circunstância, ele teria amado e admirado, pareceu-lhe despojado de seu valor por estar fadado à transitoriedade” (p. 345). A evidência de que tudo que é belo e perfeito findará pode dar margem a esse pesado desalento, ou levar à rebelião contra tal fato: “de uma maneira ou de outra essa beleza deve ser capaz de persistir e de escapar a todos os poderes de destruição” (p. 345). Essa exigência de imortalidade, porém – alerta Freud – é um desejo nosso, não uma realidade.

E como estamos nesta pandemia? Descrentes e pessimistas como o poeta? Adoecendo no corpo ou na alma? Ou conseguimos lançar mão de defesas psíquicas, meios mais elaborados e alternativas criativas? A necessária adaptação às adversidades para enfrentar essa pandemia nos colocou em contato com nossa capacidade de resiliência, o que nos faz crescer emocionalmente.

Freud (1916) tem uma versão mais otimista da transitoriedade: “Uma flor que dura apenas uma noite nem por isso nos parece menos bela. Tampouco posso compreender melhor porque a beleza e a perfeição de uma obra de arte ou de uma realização intelectual deveriam perder seu valor devido à sua limitação temporal” (p. 346).

A análise será um recurso para criar, por meio do encontro analista-analisando, condições favorecedoras da ampliação do repertório psíquico, para que os conflitos possam ser pensados e experienciados ao invés de depositados no corpo. Para isso, nos aproximaremos de nossas vozes internas, para ajudarmos nossos pacientes a se aproximarem de suas vozes internas.

Nessa pandemia, tivemos de nos reinventar e nos adaptar a novas regras, novas maneiras, viver lutos. Tomo novamente as palavras de Freud (1916), quando fala da necessidade de renunciarmos ao que era precioso, mas terminou: “o luto […], por mais doloroso que possa ser, chega a um fim espontâneo. Quando renunciou a tudo que foi perdido, então consumiu-se a si próprio, e nossa libido fica mais uma vez livre (enquanto ainda formos jovens e ativos) para substituir os objetos perdidos por novos igualmente, ou ainda mais, preciosos. É de esperar que isso também seja verdade em relação às perdas causadas pela presente guerra. Quando o luto tiver terminado, verificar-se-á que o alto conceito em que tínhamos as riquezas da civilização nada perdeu com a descoberta de sua fragilidade. Reconstruiremos tudo o que a guerra destruiu, e talvez em terreno mais firme e de forma mais duradoura do que antes” (p. 347-348). Que nossa reconstrução, no pós-pandemia, seja firme, rica e forte.

 

Referências

Freud, Sigmund (1916). Sobre a transitoriedade. In: _____. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud (V. 14, pp. 345-348). Rio de Janeiro: Imago, 1976.

Freud, Sigmund (1919). O estranho. In: _____. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud (V. 17, pp. 273-318). Rio de Janeiro: Imago, 1976.

Marty, Pierre. A psicossomática do adulto. Porto Alegre: Artmed, 1993.

Steinwurz, Denise Aizemberg. Doença de Crohn e retocolite: abordagem psicanalítica dos fenômenos somáticos. In: Bejar, Victoria R. (Org.) Dor psíquica, dor corporal: uma abordagem multidisciplinar. São Paulo: Blucher, 2017. (p. 175-198).

Zusman, Alberto. Psicanálise e conflitos emocionais em tempos de covid. Encontro virtual promovido pela Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro, em 23 maio 2020.

Winnicott, Donald W. (1949). A mente e a relação com o psicossoma. In: _____. Da pediatria à psicanálise: obras escolhidas D. W. Winnicott. Rio de Janeiro: Imago, 2000. p. 332-346.

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Sobre a transitoriedade[1]: ensaio sobre a pandemia
[1]em referência ao título do texto de Freud de 1916.

*Denise Aizemberg Steinwurz é psicanalista, membro associado da SBPSP e mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP e membro do Espaço Potencial Winnicott (Depto. de Psicanálise da Criança) do Instituto Sedes Sapientiae. Contato: steinwurz@uol.com.br

 

Liberdade, Destino

Saiu a edição 67-68 da Revista Ide – psicanálise e cultura, trazendo artigos focados no tema ‘Liberdade, Destino‘; além de trabalhos não temáticos, contos, poemas ou crônicas e resenhas de livros (clique aqui para acessar o sumário).

Editada desde 1975 pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, a publicação aceita trabalhos independentemente de os autores serem filiados à SBPSP e privilegia reflexões na interface da Psicanálise com a Cultura, buscando um diálogo com autores enraizados em diferentes áreas do conhecimento – antropologia, artes, filosofia, história, literatura, medicina, política, sociologia.

Para obter informações sobre o envio de trabalhos para publicação e ver as edições anteriores, clique aqui

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EDITORIAL Ide 67-68

*João A. Frayze-Pereira

Considerando a grande quantidade de artigos recebidos como resposta à carta-convite que divulgamos para a composição da Ide 66, decidimos dar continuidade à reflexão sobre as questões decorrentes do tema que propusemos – Easy rider: sem destino[1] – nos números 67 e 68, reunidos num só volume. Assim, ampliamos a elaboração iniciada anteriormente, com as proposições dos autores que nos prestigiaram com seus escritos sobre liberdade e destino, muitos dos quais inesperados, como, por exemplo, a bela crônica escrita por Paloma Jorge Amado, lembrando João Gilberto[2]. Mas, há também uma razão prática que justifica este volume duplo: desde que fomos convidados a assumir a editoria da Ide, em 2015, notamos o descompasso entre ano da edição e volume editado, descompasso existente há alguns anos. Então, considerando a avaliação feita pelos órgãos competentes, à qual a revista é submetida, periodicamente, decidimos acertar o passo com esta edição com dois números, correspondentes ao ano de 2019. Finalmente, resta-nos dizer que, por ser um volume duplamente temático, justifica-se um editorial mais extenso que os anteriores.

Liberdade, Destino – o que esses temas querem dizer?

A ideia da liberdade é tema presente em vários momentos da história da filosofia. Entretanto, no momento contemporâneo, como podemos ver em Sartre, ela surge referida ao estado para o qual o homem tende como projeto. Quer dizer, definido como projeto existencial, o ser humano é condenado a ser livre. Nessa medida, pode-se pensar a liberdade como a potência humana para ultrapassar qualquer adversidade que impeça o seu desenvolvimento pessoal – ideia que cabe bem na clínica psicanalítica. Entretanto, se para o senso comum, muitas vezes, liberdade significa poder – é livre quem não encontra obstáculo para a realização do que quer –, não é nesse sentido que Sartre pensa a liberdade cuja experiência pode ser situada desde o corpo, que não interfere na condição livre do ser humano. Quer dizer, posso estar cansado, doente ou apenas com mal-estar e minha liberdade não sofre com minhas dores; ao contrário, sendo livre, “posso desafiá-las, ultrapassá-las ou mesmo negá-las”. (Carrasco, 2011, p. 40; Sartre, 1943, p. 29). Assim, se a liberdade é um valor que funda o humano, a sua radicalidade está justamente nessa condição de que não há nada que me reduza à matéria senão a morte. Ou seja, até a morte somos livres para decidir o nosso destino. Até o advento da morte no curso de uma doença, somos livres para querer viver com tratamentos ou morrer. E resignar-se é uma decisão livre, tanto quanto não se resignar, quando há luta contra as circunstâncias. Ora, não por acaso, Merleau-Ponty, contemporâneo de Sartre, também se interessa pela experiência da doença, pois no campo das enfermidades, mais do que em qualquer outra situação, é mais claro perceber que temos um corpo, que este nos dá limites, mais limites do que supomos ter e, no entanto, a doença não nos reduz a um pedaço de natureza. Quer dizer, mesmo subjugados pela doença, não renunciamos a dar-lhe um sentido humano, a vivê-la como experiência humana. Na doença, somos capazes de exercitar a nossa liberdade, ao não aceitarmos sermos parte inerte da Natureza. E, novamente, essas ideias nos remetem à psicanálise, ao que, muitas vezes, vemos acontecer na clínica. No entanto, parece-nos que a concepção do homem como projeto existencial é necessária, mas não suficiente para dar conta da questão da liberdade no âmbito do pensamento clínico-psicanalítico, posto que, como projeto, o homem é lançado no indeterminado, e é essa indeterminação existencial que demanda reflexão no tocante ao seu estar no mundo. Em outras palavras, há fatos que dispensam a nossa vontade para ocorrer, mas que só podem ser aceitos nos nossos termos. Por exemplo, não dependeu da nossa vontade a geração do nosso ser: nascer é um dado não deliberado pela nossa consciência. Entretanto, ao sermos colocados no mundo, podemos ir além do que somos, podemos nos inventar. A vida pode deixar de ser anônima para se tornar vida vivida, e esta, então, se inscreve na cultura e passa pela liberdade. Porque somos livres, nosso destino, implicado pelo fato de ter nascido, faz-se história, nossa história, que Merleau-Ponty (1945, p. 517), por exemplo, entende como a passagem do natural ao humano. A liberdade seria, então, a capacidade para darmos um sentido novo ao que parecia fatalidade, transformando a situação de fato numa realidade nova, criada por nossa ação e nosso pensamento. Nesse sentido, a liberdade não seria uma condenação à qual estaria sujeito o ser humano (como pensava Sartre), mas uma conquista feita por ele (como pensava Merleau-Ponty). Mas, por que os homens se ocupariam com a conquista da liberdade; afinal, para que serve a liberdade? Quanto a essa questão, lembramos de Hannah Arendt (2019), cuja concepção da liberdade é precisa – a liberdade não se define por um fim exterior a ela mesma, pois a liberdade é apenas para ser livre. Nessa medida, livre é o ser que não se pauta por uma condição exterior a ele, é aquele cuja liberdade não é uma escolha entre várias possíveis, mas aquele que, não se deixando determinar por forças externas, tem a força para se autodeterminar. Assim, “a liberdade, recusa da heteronomia, é autonomia” (Chaui, 2013, p. 198). Ora, essa ideia de liberdade ecoa na psicanálise contemporânea, correspondendo à noção de verdadeiro self, tal como proposta por Cristopher Bollas.

A partir dessas brevíssimas considerações, percebe-se que o tema da liberdade se articula a outra problemática – a questão do destino. Na verdade, ela é uma das temáticas-chave no pensamento dos filósofos, desde a antiguidade clássica, como Alexandre de Afrodisias que indaga: até que ponto o indivíduo, submetido ao destino, não deixaria de ser livre? (Sousa, 1999, p. 91). E, de fato, a interrogação do relacionamento entre liberdade e necessidade, relação que a figura do destino implica, é tão velha quanto a humanidade, e é por si só um capítulo antropológico, cujo desenvolvimento exigiria uma longa passagem não apenas pela história da filosofia, mas também pela mitologia e pela arte, antes de chegarmos à psicanálise. E, no campo da psicanálise, é interessante lembrar, como essa temática, mantida a articulação com a filosofia, pode ser abordada. Nesse sentido, apenas como um exemplo, lembro a distinção feita por Christopher Bollas (1992) entre “destino” e “fado”, termos cujas etimologias são diferentes: “fadoderiva do latim fatum, que é o particípio passado de fari, que significa falar. Fatum é uma declaração profética e fatus é um oráculo. Se fizermos uma revisão da literatura clássica – observa Bollas – , descobriremos ser o fado geralmente anunciado por meio de um oráculo ou pelas palavras de uma pessoa, por exemplo, quando o fado de Édipo é revelado pelo oráculo de Apolo em Delfos. No entanto o destino de Édipo é determinado pela sequência de acontecimentos que o oráculo anuncia. Destino, do latim destinare, significa fixar, segurar, tornar firme e a palavra destinaçãoé derivada dessa raiz. Assim, destino está vinculado mais à ação do que às palavras. Se fado surge das palavras dos deuses, destino é então um caminho pré-ordenado que o homem pode preencher (Bollas, 1992, p. 46).

Que lugar esses termos podem ocupar numa psicanálise? Considerando que a pessoa, ao procurar uma análise, está sofrendo e diz o que sente, ainda que de maneira vaga e imprecisa, pode-se afirmar que essa pessoa está fadada, isto é, pode interferir em seu campo de relações por intermédio do fluxo associativo e de interpretações, vindo a se livrar da maldição que a faz sofrer, cujo responsável foi o seu desconhecimento. Porém, simultaneamente ao fado, tal pessoa traz um destino, isto é, um potencial cuja realização depende menos de uma pesquisa reveladora do sentido da “sintomatologia oracular”, do que do movimento para o futuro através do uso do objeto, um desenvolvimento articulado à transferência (Bollas, 1992, p. 47). Em outras palavras, Bollas associa o sentido do fado ao conceito de falso self e à concepção winnicottiana do viver reativo, assim como articula a ideia de destino ao desenvolvimento do self verdadeiro da pessoa por intermédio do seu idioma pessoal que faz parte do “conhecido não-pensado” (1992, p. 56). Segundo essa concepção, sintonizada com a etimologia e a literatura clássica rastreadas pelo autor, destino refere-se a um potencial na vida de alguém, potencial que uma análise pode contribuir para fazer eclodir e facilitar ao indivíduo desenvolver. Nessa medida, uma das perspectivas de uma psicanálise é pensar o conhecido ainda não pensado, por intermédio do uso do objeto e da pulsão para revelar o self através do espaço e do tempo. Segundo essa perspectiva, ao pensar a sua situação, o indivíduo pode se tornar livre para usar os objetos e conquistar o seu destino, possibilidade cuja realização não é fácil, pois, no mundo atual, ela costuma implicar um alto custo. Quanto a isso, pode-se destacar, entre os artigos aqui publicados, o de Eduardo Goldenstein que se refere a Clarice Lispector, citando: “Ela é tão livre que um dia será presa. Presa por quê? Por excesso de liberdade. Mas, essa liberdade é inocente? É. Até mesmo ingênua. Então, por que a prisão? Porque a liberdade ofende”. Quer dizer, a liberdade, contrária à necessidade e ao medo, inibe e aterroriza aqueles que preferem a prisão oferecida pela confortável, mas entediante repetição do mesmo.

Em suma, as ideias que acabamos de resumir permitem a associação de outras, abrindo um campo bastante amplo para o leitor interessado nas relações entre cultura e psicanálise. Nesse sentido, cabe observar a composição da capa desta Ide, uma espécie de campo alegórico que alude à dimensão vertical da existência, desde o céu inquieto para onde aponta o braço da liberdade até o interior profundo da terra, uma caverna, em que é tecido o destino de cada um. E desde esse espaço duplicado na capa até o miolo desse volume duplo, nossa proposição foi a de instigar a liberdade da reflexão dos leitores, estimulando-os a associar livremente o espírito crítico ao destino da própria revista e, mais que isso, a encontrar durante a leitura o saber ligado ao sabor.

[1] Peter Fonda, conhecido sobretudo pelo filme Easy rider (1969), pelo qual foi indicado ao Oscar pelo roteiro, faleceu em 16/08/2019. Ícone dos anos 1960, não apenas por sua atuação como ator, mas por sua posição política, junto com a irmã, Jane. Com relação à sua passagem, a família Fonda declarou: “enquanto lamentamos a perda deste doce e gracioso homem, também desejamos que todos celebrem seu espírito indomável e amor pela vida. Em homenagem a Peter, por favor, façam um brinde à liberdade” (www1. folha.uol.com.br/ilustrada/2019/08).

[2] João Gilberto, cantor, violonista e compositor brasileiro, faleceu em 06/07/2019. Considerado por musicólogos e críticos como o artista que revolucionou a música brasileira ao inventar uma nova batida de violão, com influências do jazz para tocar samba, criou livremente a “bossa nova”. Lembrando a passagem de Joãozinho com saudade, Paloma Jorge Amado nos autorizou a publicação da crônica que escreveu na ocasião, a quem agradecemos, sensibilizados.

Referências

Arendt, H. (2019). Liberdade para ser livre. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo.

Bollas, C. (1992). Forças do destino. Rio de Janeiro: Imago. Carrasco, A. O. T. (2011). A liberdade. São Paulo:

Martins Fontes. Chaui, M. (2013). Contra a servidão voluntária. São Paulo: Autêntica.

Merleau-Ponty, M. (1945). Phénoménologie de la perception. Paris: Gallimard.

Sartre, J.P. (1943). L’être et le néant. Paris: Gallimard.

Sousa, E. L. A. (1999). O destino: a voz outra da incerteza. Neurose obsessiva. Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, 17, pp. 88-93.

*João A. Frayze-Pereira é editor da Ide — psicanálise e cultura. Psicanalista, membro efetivo e analista didata da SBPSP.

O futuro da Psicanálise e o mundo em que vivemos

*Bernardo Tanis

Recentemente comemoramos os 50 anos da Associação dos Membros Filiados, integrada pelos analistas em formação no nosso Instituto. Foi um dia de festa, apesar de não contar com os abraços e brindes. Tive o prazer e a honra de participar do debate cujo título foi: O futuro da Psicanálise, com o querido Marcelo Viñar psicanalista, pensador e uma liderança da psicanálise latinoamericana, assim como com Gizela Turkiewicz, presidente da AMF e que contou com a coordenação da Cibele Rays.

Pertencemos a gerações diferentes e ao mesmo tempo compartilhamos o espaço-tempo presente, isto reflete a nossa perspectiva da vida institucional, pois não vejo outro caminho para o futuro da psicanálise que aquele a ser construído no entrelaçamento e parceria entre as gerações, entre as rugas e cicatrizes da experiência e maturidade, com as percepções, vigor , contribuições, críticas e sonhos acalentados pelas novas gerações.

Há anos me interesso e acompanho estudos sobre a história da psicanálise e suas instituições, seus diferentes modelos clínico-teóricos, os embates sobre a formação, muita tinta foi derramada em torno destes desafiadores assuntos. Considero que a perspectiva histórica-crítica retomada geração após geração, constitui um verdadeiro anticorpo, uma vacina (em tempos de Covid-19…) contra o pensamento dogmático e a ideia de que certas teorias ou modelos deteem a verdade última em contraposição ao pluralismo inerente ao nosso campo.

Recentemente li uma curta e impactante crônica do jovem e já consagrado escritor Julian Fuks: “No tempo da morte, a morte do tempo”, ficção necessária para dar conta do mal-estar real ao qual estamos submetidos em face à pandemia. Destaco uma imagem, fotograma pregnante 2 que alude a um inchaço do presente como se seu vulto engordasse tanto que ocultasse e bloqueasse a visão do futuro.

Com menos poesia que o meu escritor escolhido dei sequência associativa a esta imagem e brotou em mim o desejo de perfurar esse vulto agigantado de modo a recuperar a perspectiva temporal que tinha sido anulada. É isso que muitas vezes fazemos no processo de acolher a angústia avassaladora dos nossos analisandos quando algo que podemos imaginar, intuir, dizer ou sinalizar desanuvia a penumbra que assola o eu.

Ao olhar para a história de nossas instituições, para os processos de formação e participação na comunidade, para a inserção da psicanálise no mundo em permanente e desconcertante transformação, acredito ser necessário recuperar a perspectiva histórica-temporal, espetar a bolha do absoluto e avassalador presente pois ela poderá balizar o movimento e mobilidade necessários para não sucumbir à nostálgica idealização ou apego ao já conhecido, ao aparentemente seguro, mas não por isso menos defensivo da tradição.

Foi por isso que batizamos nosso II Simpósio Bienal da SBPSP, que acontecerá este mês, com a título, Fronteiras da Psicanálise: A clínica em movimento. Fronteiras móveis, mundo em permanente transição, subjetividades em transformação demandam uma clínica viva, em movimento e uma formação analítica à altura destes desafios.

Lembremos com Agambem da importância de não sucumbir de modo fusional e indiscriminado ao presente, de reconhecer sua opacidade, a nossa perplexidade e estrangeiridade para desse modo sim sermos contemporâneos. Perplexidade e estrangeiridade tão preciosas à psicanálise ancoradas na ideia do inconsciente na irredutível alteridade em face ao Outro.

Vivemos um presente sem narrativa, já sinalizado há décadas por Walter Benjamim, tomado por identificações e discursos alienantes. Presente dominado por uma ditadura da imagem, do imediato, por palavras de ordem, sofismas ou por um minimalismo de caracteres cifrados que incentivam o ódio e a intolerância; por uma urgência voraz que destrói o pensamento e quantifica ou melhor precifica a dor da perda ou morte. A história, a análise crítica, os argumentos e a busca do conhecimento têm sido muito maltratados e ignorados ultimamente!

Para Benjamin, a reflexão sobre a transmissão se torna essencial em oposição a uma concepção da tradição como uma continuidade canônica. O processo de transmissão faz parte integrante da “tradição”, e esta deve ser consequentemente desconstruída e interrogada.

Cabe-nos imaginar e criar o futuro da nossa disciplina, e não assistir melancólica e passivamente às catástrofes vindouras que muitos anunciam.

*Bernardo Tanis é psicanalista, doutor em Psicologia Clínica. Presidente da SBPSP.

Crédito: Gelgas Airlangga

‘Depressão: expressões na infância’, ‘Criança: qual o mundo para ela?’ e ‘Fenomenologia e Psicanálise: o lugar do corpo na clínica’

Confira os resumos das apresentações de Audrey Setton Lopes de Souza, Vera Regina Marcondes Fonseca e Marilsa Taffarel no II Simpósio Bienal SBPSP – Fronteiras da Psicanálise: a clínica em movimento.

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Depressão: expressões na infância

A depressão, como sintoma na infância, pode se manifestar, sim, por um lado, como apatia, autodepreciação, sentimentos de não ser amado pelos pais e pelos amigos, mas também como agitação, hiperatividade, dificuldades de aprendizagem, mentiras, comportamentos antissociais, agressividade ou mesmo sintomas hipocondríacos. Em psicanálise, não consideramos apenas o sintoma aparente, mas sim todo o aspecto dinâmico das manifestações e por isto é possível considerar alguns comportamentos como representando a tentativa da criança de se defender de angústias depressivas.

Para entender esta questão é preciso entender que no desenvolvimento infantil existe o que alguns autores destacam como depressividade, isto é, o desenvolvimento implica na elaboração de alguns lutos imprescindíveis para o caminho rumo ao crescimento.

Quando estamos no campo do infantil precisamos destacar a importância da elaboração do primeiro grande luto: a percepção da mãe como um objeto separado, com todas as angústias daí decorrentes, a perda da onipotência infantil, o medo da perda real deste objeto amado, a culpa, a responsabilidade, a preocupação com o outro.

Aí estaria a grande questão do desenvolvimento psíquico, como viver a depressividade sem ser vencido por ela e sucumbir à depressão ou ter que recorrer a maciças defesas para não entrar em contato? Este é o campo que gostaria de explorar para abordar as diversas manifestações da depressão na infância.

Assim destaco a importância de estarmos atentos a estas manifestações, que precedem a depressão propriamente dita, oferecendo uma escuta a estas manifestações como agitação, agressividade ou mesmo atitudes onipotentes e desafiadoras, podendo encobrir a emergência de estados depressivos. Outro aspecto destacado na literatura é que alguns destes sintomas podem ser entendidos como um pedido de socorro da criança para que o adulto possa olhar para ela e dar voz a suas angústias.

É sempre importante destacar que nenhum destes sintomas deve ser considerado isoladamente e sim dentro de um contexto mais amplo, como algo que revela a existência de um conflito. Às vezes pode ser uma manifestação temporária como reação a alguma perda, outras vezes, quando alguém se propõe a ouví-la, entendendo suas manifestações como uma forma de pedido de ajuda, isto permite que a criança consiga elaborar suas dificuldades. Assim sendo, o pedido de ajuda de um psicanalista deve ser pensado quando estes comportamentos se instalam ao longo do tempo, evidenciando o sofrimento infantil e a dificuldade de encontrar outras soluções para seus conflitos.

Em face da pandemia do Covid-19 que nos atingiu de forma abrupta, o foco desta mesa será aprofundar a conversa de um ponto de vista metapsicológico sobre os possíveis destinos que poderemos dar às marcas psíquicas deixadas no seu rastro: trauma, ausência de representação… sentidos possíveis?

Eixo 1: A clínica em movimento
Sábado, 22/8
das 9:00 às 10:30
Mesa: Depressão: expressões na infância
Leonardo Posternak (HIAE) e Audrey Setton Lopes de Souza (SBPSP)
Coordenação Monica C. A. Povedano (SBPSP)

*Audrey Setton Lopes de Souza é membro efetivo e docente da SBPSP, professora aposentada do IP-USP, Doutora pelo IP-USP, professora do curso de Psicanálise com crianças do Sedes Sapientiae.

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Criança: qual o mundo para ela?

Para apresentar sua visão sobre o mundo suficientemente bom para o desenvolvimento da criança, parto dos seguintes princípios:

1- A adaptação da sociedade e do Estado às necessidades da criança, que implica também a proteção ao casal parental para que se dediquem à tarefa de criá-la, é um elemento fundamental (ainda que não suficiente) para o desenvolvimento de um mínimo de segurança básica, a partir da qual diversos desenlaces podem ocorrer.

2- Tal proteção é essencial, pois a vulnerabilidade e o medo modulam a infância do homem e seu desenvolvimento, sendo tarefa precípua dos pais e da sociedade criarem um ambiente em que o medo possa ser minimamente elaborado.

A elaboração dependerá tanto da realidade externa quanto dos recursos de transformação simbólica que permitirão à criança negociar com o perigo e o medo, sem expulsá-los imediatamente, o que levaria às defesas maníacas, mas também sem se deixarem massacrar e paralisar por eles.

Finalizo a apresentação com a descrição do sonho de uma infância em que tais condições seriam facilitadas pela sociedade e pelo Estado.

Sábado, 22/8
das 11:00 às 12:30
Eixo 1: A clínica em movimento
Mesa: Criança: qual o mundo para ela?
Ana Cristina de Araújo Cintra (Instituto Acaia) e Vera Regina Marcondes Fonseca (SBPSP)
Coordenação Marielle Kellermann Barbosa  (Instituto-SBPSP)

*Vera Regina Jardim Marcondes Fonseca é analista didata e docente da SBPSP, psiquiatra, Pós-doutora pelo IP-USP, Diretora do Instituto Durval Marcondes da SBPSP, membro do Editorial Board do Int Journal.

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Fenomenologia e psicanálise: o lugar do corpo na clínica

O propósito da fenomenologia é voltar à experiência vivida (Lebenswelt) para cuidadosamente descrevê-la. Sem aventar hipóteses.

A fenomenologia propõe um contato anti-conceitual, anti-predicativo com o mundo. Suspendendo todos os julgamentos sobre as coisas para que delas recuperemos a presença.

Uma concepção fundamental da fenomenologia é da consciência como sendo sempre consciência de algo. Não ha separação entre ela e o mundo.

A psicanálise mostrou um recuo em relação à fenomenologia e ao perigo de perder sua potência transformadora caso permanecêssemos no plano dos fenômenos.

Nessa apresentação, falo brevemente sobre dois psicanalistas que, entre outros, puderam aproveitar o legado da fenomenologia em alguma de suas vertentes. Fábio Herrmann e P. Fédida, cada um a seu modo. Fábio, na redescrição que faz do método psicanalítico e Fédida, do qual tomo sobretudo um ensaio.

Fédida chama toda atenção para o que deve ser “posto entre parênteses”, suspenso: a margem exterior da linguagem – a da significação estabelecida – a fim de nos abrirmos para a margem interior, onde se encontra a “magia da linguagem”. (W. Benjamin)

O nome é para os gregos antigos – o lado interior da linguagem, o que fala a coisa mesma. Ele está dirigido para uma objetificação primária, uma metáfora original, enquanto a objetividade secundaria está na significação.

Precisamos esquecer nossas representações veiculadas por nosso hábito de pensar, dependentes do discurso por isso conscientemente harmoniosas, consonantes para irmos em direção ao dissonante que nos põe em contato com a alma do corpo.

Sábado, 29/8
das 9:00 às 10:30
Eixo 2: Psicanálise: diálogo nas fronteiras
Mesa: Fenomenologia e Psicanálise: o lugar do corpo na clínica
Miguel Calmon du Pin Almeida (SBPRJ) e Marilsa Taffarel (SBPSP)
Coordenação Mariangela de O. Kamnitzer Bracco (Instituto-SBPSP)

*Marilsa Taffarel é membro efetivo da SBPSP, docente do Instituto Durval Marcondes da SBPSP, psiquiatra pela Escola Paulista de Medicina, Doutora em Psicanálise pela PUC-SP. 

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Acesse aqui a programação completa do II Simpósio Bienal SBPSP

“Herdeiros do suicídio: sobre aqueles que ficam” e “Cidade em movimento: fronteiras e travessias”

Começa em 21/08, o II Simpósio Bienal SBPSP – Fronteiras da Psicanálise: a clínica em movimento, trazendo quatro plenárias e quinze mesas que visam o diálogo interdisciplinar e dentro da própria Psicanálise, com foco nas questões do mundo atual e da clínica contemporânea, como o traumático da pandemia, violência doméstica, faces da depressão na infância, relações entre fenomenologia e Psicanálise.

No sábado 22/8, dentro do Eixo 1: A clínica em movimento, acontece a Mesa Herdeiros do suicídio: sobre aqueles que ficam, com a participação de Maria Júlia Kovács (IP-USP) e Cintia Buschinelli (SBPSP), sob a coordenação de Leda Spessoto (SBPSP).

No sábado 29/8, como parte do Eixo 2: Psicanálise: diálogo nas fronteiras, será realizada a Mesa: Cidade em movimento: fronteiras e travessias, com Paula Rochlitz Quintão (FAU-USP) e Tiago Porto (SBPSP), sob a coordenação de Rodrigo Lage Leite (SBPSP).

Confira a seguir os resumos das apresentações de Cíntia Buschinelli, Tiago Porto e Paula Rochlitz Quintão. Para acessar a programação completa do II Simpósio Bienal SBPSP, clique aqui.

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*Cíntia Buschinelli

Inicio estas reflexões a partir de um poema escrito por John Donne, poeta inglês do século XVIII: “Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa ficará diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de seu amigos ou o seu próprio. A morte de qualquer homem me diminui porque sou parte do gênero humano. Por isso, não pergunte por quem os sinos dobram, eles dobram por ti.”.

Cada morte, mesmo aquela de alguém que não conhecemos, leva uma parte de nós, esclarece o poeta. O que dizer da morte auto infligida por um ser humano não só próximo, mas alguém que contribuiu definitivamente para nossa existência, e que por desejo próprio, se é que se pode falar em desejo nessa circunstância, desiste da vida?

Reconheço que as palavras até aqui utilizadas não traduzem a força do fenômeno que desejo discutir. Quando faltam as palavras, há algo que nossa compreensão ainda não atingiu. Ao escrevê-las, parece que são diminutas, superficiais, pedagógicas e não trazem à tona as emoções muitas vezes ambivalentes que tal tema possui. Mas, vamos adiante, com atenção redobrada, para sentir se elas, as palavras, conseguem tomar corpo.

“O que se passa com aquele que viveu a experiência da perda de alguém por suicídio?” é a pergunta que norteará nossas reflexões.

*Cíntia Buschinelli é membro associado da SBPSP.

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*Tiago Porto

Em evento trágico recente, que culminou com a morte de George Floyd, foi explicitamente exposta a violência de uma sociedade fortemente marcada pelo racismo. Este evento desencadeou globalmente uma forte onda de protestos antirracistas, justamente em uma época onde toda a humanidade percebe sua vulnerabilidade ao ser tomada por uma pandemia. Em nosso país eventos como aquele acontecem diariamente há décadas, com evidente normalização da violência por toda nossa sociedade. O racismo é uma estrutura de poder que se apresenta por diversas formas. Além de sua concretude econômica e política, o racismo é um discurso de poder que se apresenta como uma ideologia, a qual introjetamos, fazendo marcas profundas em nossa subjetividade. Esta introjeção encontra campo fértil em um sujeito pronto a eleger um corpo abjeto que o afaste de sua própria vulnerabilidade. Erguemos, portanto, fronteiras subjetivas de difícil transposição, onde o outro toma forma de inimigo, que não só deve ser excluído como destruído. Para nós nos mantermos em uma ilusão de uma identidade coesa e não vulnerável, destinamos ativamente uma série de corpos para a abjeção. A psicanálise pode se apresentar como uma ferramenta útil para a travessia destas fronteiras e para a descolonização das subjetividades, desde que o analista se disponha a escutar estes corpos excluídos e tenha coragem para sustentar a provocação de seus referenciais epistêmicos advinda desta escuta.

*Tiago Porto é médico pela Faculdade de Medicina da USP, membro associado da SBPSP e membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.
 

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*Paula Rochlitz Quintão

Em tempos de pandemia faz-se necessário falar sobre os mais vulneráveis, aqueles que não apenas perderam o emprego, mas os que nem sequer têm onde fazer quarentena: as “Pessoas em Situação de Rua”.

A existência de pessoas que moram nas ruas é um fenômeno global. Embora com características diversas, é presente em todas as metrópoles mundiais, mesmo em países desenvolvidos. Na pandemia de 2020, como era de esperar, este número cresceu em todo o mundo. Ainda não há dados concretos sobre o número global, mas dados parciais de várias cidades que têm incluído esta população no seu cenário presente apontam para essa tendência.

Trata-se de uma população heterogênea, como têm mostrado os Censos realizados na cidade de São Paulo desde  2000, que quantificaram e traçaram o perfil geral desta população. Para esta, as políticas públicas apresentadas têm como intenção final a retirada destes indivíduos do espaço urbano.

Mas a análise do que chamamos de maneira generalizada de “população em situação de rua” mostra que há pessoas que desejam sair dessa situação – condição, portanto, circunstancial, – e outras que continuam / continuarão a habitar as ruas por motivos variados – condição, portanto, permanente. Uma variável importante refere-se ao tempo de rua, uma vez que a permanência na rua altera o comportamento das pessoas, suas percepções, e cria um tipo de sociabilização que torna a saída das ruas cada vez mais difícil[2]. Dados do Censo (2009) mostram que 25% da população mora nas ruas há menos de 1 ano. Por outra parte, 25% permanece nas ruas há mais de 10 anos[3]  – ou seja, quanto maior o tempo de rua,  mais improvável as possibilidades de saída desta.

As mesmas políticas públicas que definem como morador de rua aquele que “por contingência temporária ou permanente, pernoita em logradouros públicos, (…)”, parecem não contemplar esta parcela que estará sempre nessa situação – seja por impossibilidade de saída desta condição, seja por permanência prolongada, por resistência ou mesmo por renovação do contingente (no sentido de que, mesmo com a saída daquele indivíduo, outro entrará no seu lugar). Haverá, portanto, continuadamente, uma parcela flutuante que, efetivamente, habitará as ruas.

As estruturas urbanísticas voltadas a esse grupo são escassas, pouco eficazes e parecem partir do pressuposto de que há um desejo em todos moradores de deixar de morar nas ruas. Espera-se uma solução definitiva, simples (e simplista): prevalece a ideia de que este fenômeno tem causas exclusiva ou simplesmente concretas (pandemia, perda de emprego, de casa, ausência de vínculos familiares, desigualdade social, fragilidades psíquicas, drogas, entre outros), que poderiam ser resolvidas com ações pontuais: provendo a casa, o emprego, ou reestabelecendo os laços familiares, por exemplo, retiraríamos esses indivíduos da rua e, portanto, em teoria, não haveria mais moradores de rua no cenário das nossas cidades. Esta noção é, no entanto, equivocada.

Se, então, para uma parte dessa população, a resposta adequada seria a oferta aos meios que proporcionem sua saída das ruas – e, neste caso, o albergamento e outros centros de apoio e acolhida aparecem como possibilidades – o grande e novo desafio diz respeito aos que continuarão a viver nas ruas. Soluções urbanas homogeneizantes resolvem apenas parcialmente o problema, pois desprezam o cerne da problemática: a complexidade que é inerente à natureza da vida humana, principalmente nos grandes centros urbanos. Se há possibilidade de outras intervenções na contemporaneidade, é preciso aceitar trabalhar com esta contingência.

Partindo de um ponto de vista concreto – da cidade como território ocupado / espaço urbano construído, em contraponto ao discurso da subjetividade, – a ideia seria abrir a discussão para as fronteiras, não do psíquico, mas do espaço propriamente dito: fronteiras do espaço físico ocupado pelo sujeito, e os fluxos e deslocamentos desta população, que tem uma lógica de ser, e precisa ser analisada para que se possa, somente então, se propor estratégias de melhoria, retirada, ou inclusão destes indivíduos no cenário urbano.

Projetar para a população de rua inicia-se, portanto, pelo estudo de sua inserção física no tecido urbano – sua localização – e, por fim, do seu espaço imediato, seu entorno, seja ele na rua ou no projeto de seu quarto dentro do abrigo, albergue ou afins – o lugar (lugar). Passa também por uma análise objetiva, quantitativa, de dados estatísticos (mapas, dados, Censos) entendidos como complemento aos saberes a respeito da subjetividade, do desejo do sujeito.

No presente trabalho, analisaremos a movimentação da população de rua por duas variáveis que são inerentes a sua existência: Fluxos (movimentos) e Fronteiras (limites).

O diálogo entre os campos da Arquitetura e do Urbanismo e o da Psicanálise se presta a demonstrar que essas não são falas excludentes nem opostas, mas sim complementares, sem as quais um fenômeno tão complexo como o “morar na rua”, não poderá ser contemplado.

[1] Derivado da dissertação de Mestrado em Arquitetura e Urbanismo da autora: “Morar na rua: há projeto possível?”, com orientação de  Prof. Dr. Carlos Roberto Zibel Costa, defendida na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, FAUUSP, em 2012.

[2] FIPE, 2009/2010, arquivo 3, p.6.

[3] FIPE, 2009/2010, arquivo 3, p.6.

*Paula Rochlitz Quintão é mestre em Arquitetura e Urbanismo pela FAU-USP, pesquisadora sobre população de rua na área de urbanismo. Atua como arquiteta em escritório próprio.

A grama do vizinho é mais verde – reflexões sobre a inveja

“Viver é muito perigoso… Querer o bem com demais força, de
incerto jeito, pode já estar sendo o querendo mal, por principiar.
(Rosa, 2006, p. 16)

*Teresa Cristina Ribeiro Kfouri

Pouco antes de sua morte em 1961, Melanie Klein surpreende mais uma vez com sua criatividade a comunidade psicanalítica, discorrendo sobre a inveja primária e seus desdobramentos na personalidade. Diz ela: “Meu trabalho ensinou-me que o primeiro objeto a ser invejado é o seio nutridor, pois o bebê sente que o seio possui tudo que ele deseja e que tem o fluxo ilimitado de leite e de amor que guarda para sua própria gratificação.” (Klein, 1991a, p. 214)

Ela diferencia a inveja do ciúme e da voracidade dizendo que o ciúme é baseado no amor e visa a posse do objeto amado e a tentativa de eliminar o rival. No caso da inveja, a relação é dual, onde a pessoa inveja o objeto por alguma posse ou qualidade não havendo necessidade de outro objeto vivo na relação.

Nos desenvolvimentos patológicos do Édipo, a inveja do relacionamento dos pais desempenham papel importante, mais do que os sentimentos de ciúme. Fortes sentimentos de inveja conduzem ao desespero. Não sendo encontrado o bom objeto não há esperança de amor e até mesmo de qualquer possibilidade de ajuda. Os objetos são destruídos e tornam-se fonte de perseguição e de culpa. Ataques invejosos aos bons objetos – pai, casal, mãe que alimenta – interferem nos processos introjetivos e o resultado é um sofrimento para aprender, pensar e amar.

Klein, no início do texto Inveja e Gratidão, um dos mais significativos e o último de seus trabalhos teóricos de maior importância, diz : “Há muitos anos venho me interessando pelas fontes de duas atitudes que sempre foram familiares: a inveja e a gratidão. Cheguei à conclusão de que a inveja é um fator muito poderoso de solapamento das raízes dos sentimentos de amor e gratidão, pois ela afeta a relação mais antiga de todas, a relação com a mãe”. (Klein, 1991a, p. 207)

A inveja é a mais radical das manifestações dos impulsos destrutivos, pois leva ao ataque e à destruição dos bons objetos cuja introjeção é a base para uma vida psíquica saudável. Klein descreve a inveja como manifestação de impulsos destrutivos de raízes profundas associada a voracidade sempre insaciável, a inveja consiste em uma ânsia pelo bom do outro entrelaçado com forte desejo de destruir, devido a falta de um sentimento básico de satisfação íntima, fruto de frustrações iniciais que desencadeiam ódio e ressentimento contra tudo que é bom – no dito de nossas avós, “o saco sem fundo”.

Ao descrever a dinâmica da inveja primária, Klein introduz a capacidade de experimentar gratidão como uma espécie de antídoto. É pela gratidão para com a bondade do objeto e pela capacidade de usufruto dos benefícios que dele se infere, que a inveja fica amenizada e às vezes até neutralizada – desenvolvimento e crescimento mental são evidências dos efeitos da capacidade de ser grato. A inveja é um destruidor do bem estar do próprio invejoso, a auto-inveja que ataca o que tem de bom e esvazia o sujeito, quando associada à avidez e à voracidade, quero tudo e muito, a experiência é a de “quem tudo quer e nada tem”.

Diz a sabedoria popular, como expressão da inveja, que a grama do vizinho é mais verde. Nesse sentido, a inveja é também um sentimento doloroso – o que eu tenho não serve e não presta e o bom esta lá fora com o outro. No caso de a cisão ser profunda, tudo se volta contra o outro, mas não se trata de que o ódio não deixe de corroer o íntimo de quem ataca. É como no caso do homem bomba que destrói seu entorno, mas antes de tudo é o primeiro a ser destruído. O alvo principal da inveja é a bondade que engloba as boas qualidades, a capacidade criativa e a generosidade do bom objeto.

Inveja e Gratidão foi um texto causador de muita polêmica no meio psicanalítico. Winnicott foi um dos que tomou posição sobre o tema da inveja para uma discordância profunda e explícita. Esse trabalho reafirma a importância da necessidade de análise longa e duradoura como possibilidade de permitir ao paciente ter acesso a seus sentimentos de inveja obscuros desde a vivência materna primária e que insistem em ser “esquecidos”, penso que com a colaboração dos fatores de religiosidade e puritanismo que a inveja atinge. É necessário a despeito da dificílima tarefa de elaboração, que na relação analítica possa se repetir a relação com o objeto primário e admitir a inveja da vitalidade, da capacidade de luta e criatividade, da fecundidade e generosidade da fonte de vida de que precisamos e somos dependentes.

*Teresa Cristina Ribeiro Kfouri é membro filiado da SBPSP e do GEP S. J. Rio Preto e região.

Considerações sobre “Aberfan” e as catástrofes sociais em tempos de Covid-19

Episódio (T3, E3) do seriado “The Crown”[1]

 *Bernardo Tanis

Em 1966, o deslizamento de um aterro de uma mina de carvão causou uma tragédia de proporções gigantescas na vila de Aberfan, no sul do país de Gales, resultando em 140 mortes, das quais 116 eram crianças que estavam na escola Pantglas, a um dia de iniciarem o período de férias.

O episódio a que assistimos retrata a escola no dia que antecede a avalanche de 110.000 metros cúbicos de rejeitos que arrombou suas paredes e soterrou as crianças e professores. Na sequência, vemos imagens assombrosas de pais e familiares buscando nos escombros os sobreviventes. Logo vem o pronunciamento de dirigentes do National Coal Board (NCB), corporação estatutária criada para administrar a indústria nacional de mineração de carvão no Reino Unido, tentando se eximir da responsabilidade pela tragédia, atribuída às “intensas chuvas”. E, então, escutamos falas de famílias de vítimas denunciando que há anos alertavam as autoridades sobre o risco do desastre. Depois disso, vieram os posicionamentos e ações do primeiro ministro do Reino Unido, Wilson, e da rainha Elizabeth, sobre os quais falaremos mais adiante.

Em 2015, vivemos no Brasil uma tragédia semelhante, de ainda maior dimensão, com o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana. Considerado o desastre industrial  que causou maior impacto ambiental da história brasileira e o maior do mundo envolvendo barragens de rejeitos, teve um volume total despejado de 62 milhões de metros cúbicos e deixou 19 mortos. Análises realizadas em Governador Valadares encontraram na massa de lama quantidades superiores aos valores aceitáveis de metais pesados como arsênio, chumbo e mercúrio. Esses metais, possivelmente utilizados em garimpos ilegais ao longo do rio Gualaxo do Norte, foram carregados pela torrente de lama.

O Brasil viu também, em 2019, o rompimento de uma barragem em Brumadinho, que resultou em um desastre de grandes proporções no âmbito industrial, humanitário e ambiental, com 259 mortos e 11 desaparecidos. Foi considerado o segundo maior desastre industrial do século e o maior acidente de trabalho do Brasil.

Mas não vamos hoje falar de todo o show de horrores destas terríveis e abomináveis catástrofes nem é o objetivo desse comentário tratar do comportamento das autoridades no nosso país. Qualquer um de nós pode dar um Google e saber mais sobre elas.  Farei aqui algumas considerações desde a perspectiva psicanalítica, para a qual fui convidado a falar, para podermos ampliá-las no debate.

Os vértices de análise e comentários que esses desastres despertam são vários. Humanitários, ecológicos, psicológicos. No entanto, como disse no início do episódio o primeiro ministro Wilson, devemos lembrar que sem nenhuma dúvida “Tudo é político”. Isso significa que, na esfera da humanidade, nada escapa ao modo como os homens organizam a vida social e econômica das nações. Quando e por que certas áreas e populações são objeto de descuido ou negligência. Muitos governantes preferem naturalizar as catástrofes de modo a não assumir responsabilidades que, como estados e municípios, têm para com os seus habitantes.

Mas antes de adentrar no assunto das atitudes dos líderes políticos perante o desastre, quero falar um pouco do efeito do desastre, do trauma subjetivo e social que ele produz, pois acredito que apenas se compreendermos algo da catástrofe humanitária poderemos vislumbrar o que possa ser um mínimo sentido reparatório. Chamamos de reparação em psicanálise o ato ou o pensamento que visa a reparar um dano real o fantasiado.

Frente a essas catástrofes ecológicas e humanitárias, a pergunta é: há reparação, há perdão, há justiça possível?

Há várias definições para trauma, mas todas concordam que se trata do efeito da incidência de um acontecimento singular (individual ou coletivo) que impacta a subjetividade a ponto de desestruturar o psiquismo, de questionar os alicerces da subjetividade que se constrói na confiança no outro para mitigar o desamparo constitucional do ser humano.

Perante a fragilidade do bebê humano, o outro significativo provê as condições de um vínculo que não apenas ajuda a subsistência biológica, a conservação da vida, mas cria a base da esperança de poder ser acolhido e protegido no mundo, assim como as condições de desenvolver um ego capaz de utilizar os próprios recursos internos no futuro.

Nós, seres humanos, criamos vínculos afetivos, sociais, parcerias de trabalho. Fazemos parte de estruturas mais e mais complexas para existir enquanto grupo na pólis, no mundo social e político. O Estado moderno, além de figura de autoridade, tem como função auxiliar na regulação da vida coletiva, na construção de normas e obrigações, no sentido de zelar pelos seus habitantes, pelo povo e pela nação. Não se trata de bravatas ou sofismas, mas de atos concretos que garantam o amparo social. Assim como o fazem nossos progenitores.

O que esses desastres evidenciam é a falência do Estado e a manifestação de um governo submetido a interesses de determinados grupos, que não se importa em colocar o planeta ou a população em condição de risco. Seja no País de Gales, em Mariana, Brumadinho ou tantas outras regiões do planeta. Essa lógica predatória dizima populações, recursos naturais e gera ainda a desesperança e o trauma social, e com eles o ódio, o ressentimento, a violência.

Como seguir em frente quando a realidade se mostra tão avassaladora? Como se sobrepor ao sentimento de impotência frente ao desamparo? Como poder elaborar o luto quando o ódio e o ressentimento são o oxigênio que alimenta a chama viva da perda?

Nesses momentos de trauma social, a sociedade percebe o que muitas vezes prefere silenciar: a falta das mínimas condições de uma vida digna para grande parte da população, privada de moradia, saneamento, segurança e renda.

Caros ouvintes, não podemos confundir o traumático com o acontecimento. Quero frisar este ponto. O acontecimento é da ordem do factual. O trauma é da ordem do desmantelamento das referências subjetivas que nos conferem nossa identidade, nossa noção de tempo e continuidade, nossos sonhos e projetos. É como se suspendesse a noção de continuidade da vida: parece que tudo congela ou explode em inúmeros fragmentos. Demanda recompor um tecido mental esgarçado, recuperar a confiança, a vontade de viver e de produzir.

Como recompor esses vínculos e ligações, intrapsiquicamente e com o mundo? Essa é a tarefa que temos de enfrentar.

Na psicanálise, a negação dos fatos, recurso empregado frequentemente por líderes autoritários, é conhecida como o mecanismo psíquico da desmentida. Ao seu lado, a hipocrisia e o cinismo do discurso dissociado da ação muitas vezes são encarnados pelas autoridades.

Já o ódio e o ressentimento, experimentados por aqueles que foram afetados, impedem a superação de traumas coletivos porque também funcionam como formas de negação. O luto só começa após o reconhecimento da situação por todos os envolvidos. Significa que é possível seguir adiante, reconhecendo a perda e a dor. Não é possível elaborar o luto enquanto há um apego a essas paixões negativas.

Pois bem, se me alonguei neste ponto é porque penso que os líderes de uma nação, embora nem sempre tenhamos líderes que mereçam ser assim chamados, têm o dever de compreender não apenas o dano material, mas também o dano subjetivo dessas catástrofes sociais, ecológicas e humanitárias. Os líderes de uma nação não podem apenas fazer contas nem podem olhar a realidade como pura estatística. Os líderes de uma nação precisam, quando dispõem de um mínimo de empatia pela dor do outro, agir de modo a acolher e conter a angústia inominável do sofrimento pela perda real e imaginária que a catástrofe produziu.

No episódio a que assistimos há duas figuras paradigmáticas de liderança. O primeiro ministro Wilson, representado como uma figura sensível, tomada por uma consternação, dor e um sentimento de culpa pela falha do Estado. A rainha encarna aqueles que, perante a catástrofe, não conseguem empatizar ou se condoer. É interessante observar sua travessia ao longo do episódio, a partir da presença de um Wilson “terapêutico” que, sem acusar, ajuda-a a descobrir que não se trata apenas da razão, mas também do afeto. Não se trata de montar um espetáculo, mas sim de poder demonstrar uma emoção genuína.

Aos poucos percebemos que a rainha não é indiferente à dor e ao sofrimento gerado pela catástrofe, mas há uma limitação inerente a sua personalidade, que procurará reparar ao longo dos anos. A série sugere que ela sentiu remorso pela inação pessoal no momento da crise. Desde o ocorrido, Aberfan se tornou a cidade que ela mais visitou no Reino Unido.

A população de um país se sente desamparada quando seu ou sua líder falha em reconhecer a gravidade de uma crise humanitária e a ruptura que ela provoca no tecido social e da subjetividade. Ele precisa ao lado da demonstração de empatia, oferecer à população respostas concretas. O líder que não dá conta desse desafio não pode oferecer um futuro. Se os governantes e a sociedade não reconhecem e assumem as respectivas responsabilidades por aquilo que foi provocado, dificilmente o trauma poderá ser superado.

 

[1] Participação no debate sobre “Aberfan”, episódio da série “The Crown” (T3 E3) que dramatiza a semana seguinte à tragédia galesa. “Aberfan” foi discutido à distância, na edição de abril do Ciclo de Cinema e Psicanálise, evento promovido pela Diretoria de Comunidade e Cultura, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), pela Folha de S. Paulo e pelo MIS. O vídeo do debate está disponível no YouTube (clique aqui)

 

* Bernardo Tanis é psicanalista, doutor em Psicologia Clínica. Presidente da SBPSP.

 

O que será que será?

*Luciana Saddi

Como falar de algo que não sabemos definir?

2020, tempos de Covid-19, dias de isolamento ou do eufemismo “afastamento social”. O frenesi habitual das ruas diminui, raros automóveis, baixos e esparsos ruídos. Comércio fechado, ruas vazias. A lentidão urbana prevalece em contraponto às palpitações diárias da população.  Jornalistas, políticos, colegas de profissão e pacientes falam que estamos em guerra como referência ao presente. “Front”, inimigo, ataque, defesa, insumos, armas químicas e biológicas, hospitais de campanha tornaram-se vocabulários frequentes, assim como vitória, derrota e terror. Escolher entre aqueles que podem viver e os que podem morrer se tornou assombração, fantasma, para muitos de nós – seja porque temos parentes trabalhando em hospitais, seja porque alguns de nós, possivelmente, enfrentarão tais desafios. A vida, hoje, imita a arte dos roteiros de filmes de terror e de guerra.

Mas se é guerra, qual o cenário de operações? Hospitais, enfermarias, UTIs. O contingente: enfermeiros e técnicos de saúde; os que estão na “linha de frente”. Na operação de logística e suprimentos, que sustenta as tropas. Cientistas, incansavelmente, vasculham soluções tecnológicas para cuidar dos doentes e diminuir o grau de letalidade. Uma hipotética vacina, ainda que esteja no futuro, é o graal da atualidade! Epidemiologistas, matemáticos, sociólogos e demógrafos são parte integrante do setor de inteligência e planejamento. Testes de laboratório são munição para a informação. Cloroquina? Tiro de festim. Isolamento é tática e estratégia.  O “esforço de guerra” agora é antítese, deve-se paralisar boa parte da atividade econômica.

Estranho, se guerra, sem um único disparo. Há, porém, outras dificuldades para manter a “guerra” como metáfora apropriada.  O isolamento independe da coerção do Estado, o medo nos empurra.  O “exército” ainda não nos tomou como inimigos, nos antecipamos às ordens e entendemos que é o melhor a fazer – talvez a única e desesperada opção no momento em que a propagação do vírus ameaça toda a sociedade. O vírus é o inimigo comum e apenas cooperação, articulação e solidariedade entre países, políticos, cientistas, laboratórios da indústria farmacêutica e, surpresa, até bancos podem contribuir para o enfrentamento da ameaça.

Antigamente, os jornalistas de guerra diziam que a verdade é a primeira vítima nos conflitos. A liberdade associa-se à verdade dessa maneira, ambas são as primeiras baixas do presente.  Em tempos de Covid-19 verdade, liberdade e solidariedade estão unidas. Não há como esconder as mortes e disfarçar os erros estratégicos cometidos pelos países e cidades no combate ao vírus. Como expressa o pensador italiano, Massimo Recalcati (jornal La Repubblica, 14 de março): “a liberdade em tempo de coronavírus não pode ser vivida sem o sentido da solidariedade. Eu me isolo por mim e por você. Você se isola por você e por mim.”

Refletindo, ainda, sobre a dificuldade em encontrar metáforas para tempos de Covid-19 impossível não lembrar das palavras de Svetlana Alexandrovna Aleksiévitch, escritora e jornalista bielorrussa, ganhadora do Nobel de Literatura em 2015. No livro “Vozes de Tchernóbil – A história oral do desastre nuclear”, Svetlana argumenta que a palavra guerra foi usada para designar a luta contra a radiação e seus efeitos. No entanto, se pergunta, que guerra foi capaz de contaminar o solo e as águas de todo um país por um ou dois mil anos? Tornar um território completamente morto, embora plantas e animais insistissem em permanecer e prosseguir. Que guerra impediu para sempre a entrada de pessoas nesse território ou dele retirou todos os seres humanos sem nenhum pertence? Nem em Hiroshima e Nagasaki, segundo Aleksiévitch, as consequências foram tão duradoras. O tempo adquiriu um outro sentido e a palavra guerra não pode dar conta desses acontecimentos. A escritora consumiu mais de vinte anos para escrever sobre o desastre atômico. Faltavam palavras, faltava compreensão. Foi preciso esperar o assombro decantar.

Como falar do novo desconhecido? Do que não tem nome, nem nuca terá? A poesia como transcendência cria novos sentidos.

Espero que o “novo” coronavírus e suas consequências não traga, nem de longe, o caráter de destruição que Svetlana expõe em sua obra. Não conheço a economia parada, o silêncio do mundo. Nunca vivi tal tempo nem conheço quem o tenha vivido antes. Os antigos que experimentaram as guerras do século XX já se foram, quase todos. Havia o “blackout”, mas por quanto tempo? Desconheço o isolamento social, o confinamento como política de Estado. A distância envergonhada e medrosa que temos uns dos outros. A solidariedade com os mais velhos e vulneráveis preenche a vida de jovens que até ontem queriam apenas se divertir – também desconhecia essa forma da força de vida se expressar. Nunca estive na guerra. Nunca vi São Paulo em tempo de espera. Um mundo sem consumo e comércio de futilidades. O que importa é comida e remédios. Ainda não chegamos ao “salve-se quem puder”, pelo menos até agora. As oscilações vertiginosas da Bolsa talvez não sejam a metáfora indicadora da retração econômica de agora nem da que virá.  Pouco sabemos sobre o hoje e menos sobre o amanhã. Como cantou o poeta: “amanhã ninguém sabe.”

Talvez a metáfora da guerra não seja adequada ao presente. Mais parece com um trapo do que uma roupa, somente esconde partes do corpo, não serve para vestir. Entendo que o presente sempre nos escapa. Precisaremos, de mais tempo ainda para encontrar as melhores palavras e designar o momento e responder: o que foi feito da vida?

O conceito psicanalítico de elaboração trata da procura de sentido para uma experiência traumática. O trauma percorre um longo caminho até que a elaboração o dome minimamente, o civilize. A prática nos ensina que algumas experiências adquirem tal magnitude, causam tantos danos, que a elaboração nunca termina. Nesse sentido o Covid-19 veio para ficar. No sentido biológico desejo vida breve ao vírus.

*Luciana Saddi é escritora e psicanalista, membro efetivo, docente e diretora de Cultura e Comunidade da SBPSP. Mestre em Psicologia Clínica pela PUC/SP. Autora de Educação para a Morte, ed. Patuá, coautora de Alcoolismo, Ed. Blucher, dentre outros livros e artigos publicados em revistas especializadas. Coordena junto ao MIS, com apoio da Folha de S. Paulo, o Ciclo de Cinema e Psicanálise “Mal-Estar na Civilização e Formas Contemporâneas de Sofrimento”. Também coordena junto à Livraria da Vila a série “Encontros sobre o Mal-Estar na Civilização”.