Sem categoria

Uma ilusão de ter a mesma ilusão

Regina Maria Rahmi

Em O Mal-estar na Civilização (1930/2010), Freud faz uma importante ligação entre subjetividade e cultura, enfatizando o sofrimento psíquico diante da impossibilidade de o amor conseguir uma completa satisfação quando o prazer está ligado à escolha amorosa. Para ele, o sofrimento aparece como consequência do desprezo, da perda de um laço amoroso.

No auge do enamoramento, borrando-se as fronteiras entre o eu e o outro, os amantes agem por vezes como se fossem um só. Em “Eu te amo” (1980), Chico Buarque canta:

Se nós, na travessura das noites eternas

Já confundimos tanto as nossas pernas

Diz com que pernas eu devo seguir

Adentrando-se um território de complexidades e incertezas:

Gradiva é nome do livro de Jensen analisado por Freud (1907/1996). Nele, o autor narra a história do jovem arqueólogo Norbert Hanold, que descobre, num museu em Roma, um relevo que o atrai e do qual obtém uma cópia em gesso. A escultura representa uma jovem caminhando, cujo vestido esvoaçante deixa entrever seus pés calçados em sandálias. O interessante aí é o que o relevo desperta em Norbert. Com o resultado de suas fantasias, o arqueólogo conclui que o modo de andar da Gradiva não é encontrável na realidade, o que o enche de tristeza e desânimo. Pouco depois, tem um sonho no qual eles se encontram em Pompeia, no dia da erupção do Vesúvio, testemunhando a destruição da cidade. A Gradiva desaparece, e Norbert continua procurando por ela, no decorrer do texto Freud faz importantes considerações a respeito se ele estaria vendo, delirando ou sonhando. Posteriormente, em um longo e complexo processo, o rapaz começa a tecer uma ligação entre a Gradiva e um amor de sua infância, Zoe. Ele havia associado a mulher idealizada, a Gradiva que o fascinava à menina da infância. Como triunfo do amor, aquilo que era belo nos seus sonhos foi finalmente reconhecido.

As lembranças das relações infantis de Norbert com a amiga de andar gracioso estavam no esquecimento. Diante do achado arqueológico, o que ele viu tinha ligações com a imagem do passado.

O herói da Gradiva é um enamorado. Ele sonha/delira o que outros apenas evocariam. A Gradiva, figura daquela a quem ele ama, é percebida como pessoa real. Zoe não quebra imediatamente essa ilusão, não o acorda bruscamente do sonho.

No território da arqueologia amorosa, busca-se encontrar as marcas dos primeiros amores, repetições de experiências infantis presentes nas escolhas amorosas e, de maneira singular, o desejo do reconhecimento e do amor do outro. Seria a órbita narcísica inerente ao amor?

Entre o encanto do encontro e a desilusão que se apresente, o outro encontrado nem sempre se mantém como o Outro sonhado. Com isso, surgem algumas indagações: qual é o grau de tolerância ante a percepção de que o outro tem existência própria e não alberga somente nossas projeções? Qual é o espaço para a alteridade?

Nas relações afetivas, pelo encontro de duas subjetividades, a turbulência estará sempre presente, embora nem sempre explicitada – suas origens são desconhecidas. Tomo como exemplo uma cena comum. Após uma calorosa discussão, um diz ao outro: “Afinal, por que mesmo estamos discutindo?”

No conflito, provavelmente o desconhecido implícito esfumaçou o conhecido explícito. Pela interferência do desconhecido em nós, e no outro também, surgem inquietações e novas descobertas. O jogo entre implícito e explícito talvez seja a chama da tolerância e da curiosidade em relação ao outro que se apresenta.

Em “Arte de amar” (2013, p. 224), Manuel Bandeira diz:

As almas são incomunicáveis

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo

Porque os corpos se entendem, mas as almas não

Referências

Bandeira, M. (2013). Antologia poética. São Paulo: Global.

Buarque, C. & Jobim, T. (1980). Eu te amo [Gravada por Chico Buarque]. In Chico Buarque: vida [LP].

Polygram; Philips. Recuperado em 4 jul. 2019, de http://www.chicobuarque.com.br/letras/euteamo_80.htm.

Freud, S. (1996). Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, Trad., Vol. 9, pp. 17-88). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1907) Freud, S. (2010). O mal-estar na civilização. In S. Freud, Obras completas (P. C. Souza, Trad., Vol. 18, pp. 13-122). São Paulo: Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1930)

 

 

Regina Maria Rahmi é Psicanalista, Membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, integra a Diretoria de Cultura e Comunidade da SBPSP, a Diretoria de Atendimento à Comunidade da SBPSP e o corpo editorial da Revista IDE.

Da somatização, seus genéricos e afins

Abigail Betbedé

Quem alguma vez não passou mal antes de uma ansiada viagem ou uma prova? Sentiu dores inexplicáveis que assim como vieram foram embora ou padeceu de uma dessas doenças terminadas em –ite (gastrite, bronquite, colite e assim por diante) acompanhada do adjetivo “nervosa” ou caracterizada como “de fundo emocional” por um período mais prolongado? Somatizar é comum e muito frequente. Desde a tenra infância, a somatização é a primeira e mais primitiva maneira de expressar nossos mal estares; desde a época em que não sabíamos reconhecer nossas emoções, nem expressar sentimentos através da palavra e nos comunicávamos com corpo. Se bem intuitivamente estamos familiarizados com a ideia da somatização, em termos conceituais acaba por ser um verdadeiro ‘balaio de gato’.

Somatização é um termo vago e genérico utilizado, tanto popularmente quanto na academia, para nomear mecanismos, sintomas e estados mórbidos cuja manifestação é uma queixa orgânica. Traz em si a idéia de ser algo que se expressa através do corpo, mas que não se sabe ao certo o que é, nem qual seria sua ‘verdadeira’ origem. Aqui se abre um grande leque − incluindo as perspectivas de pacientes e profissionais − que vai desde quem acredita na etiologia concretamente orgânica dos sintomas, até quem se permita pensar na participação de outros fatores menos evidentes, passando por aqueles que nem registraram que estavam doentes. Quando existe a possibilidade de estabelecer uma ligação com o mundo emocional, vislumbra-se a existência da ordem psíquica e a necessidade de trabalhar num campo que leve em consideração o conteúdo latente, além do conteúdo presente no manifesto dos sintomas somáticos. Eis o terreno onde a psicanálise tem muito a oferecer.

Desta forma, sendo mais específicos, a somatização nos remete a uma região fronteiriça cuja especificidade é a de enlaçar eventos psíquicos e eventos somáticos. Uma fronteira que resulta ser nada mais, nada menos, o cerne da psicanálise. Caminho inverso, sabemos que a pulsão é o conceito psicanalítico fronteiriço par excellence. O ‘pulo do gato’ freudiano que permitiu imaginar como a excitação puramente somática, necessariamente significada, se transformaria em material psíquico. Esse é o alicerce metapsicológico que sustenta como se dá (ou não) a qualificação do somático em psíquico nos albores do ser, marcando o nascimento do corpo − que é o soma psiquisizado. Tomaremos esse marco referencial para as considerações a seguir, que visam chamar a atenção sobre as queixas somáticas que surgem cotidianamente na clínica.

Como mecanismo de defesa a somatização denuncia uma demanda que não conseguiu ser tramitada psiquicamente, servindo o corpo como meio para estancar e circunscrever a sobrecarga afetiva, outorgando-lhe temporariamente um ‘nome de fantasia’. Assim, será possível falar da ‘dor de cabeça’ ou da ‘contratura nas costas’ sem sofrer a inundação da angústia derivada do conflito subjacente. O corpo entra de gaiato, enquanto o discurso oferece geralmente associações que permitem trazer à tona a mencionada conflitiva, escoar a angústia e atribui-lhe sentido; denotando um bom funcionamento do circuito representacional e uma estrutura egoica, que dará conta do gerenciamento pulsional.

Em um segundo nível encontramos queixas somáticas que caracterizam sintomas, cujo exemplo mítico e fundante da psicanálise é o sintoma conversivo histérico. O corpo entra em cena como coadjuvante de uma sofisticada trama que possibilita o retorno do recalcado através de uma solução de compromisso − resultado do embate entre a censura e o desejo − que cumpre com a satisfação das moções pulsionais, de maneira disfarçada. Graças à dissociação ideo-afetiva das moções, junto com a repressão do componente ideativo e o deslocamento do investimento afetivo em direção ao corpo, se garante o gozo na embalagem da belle indifférence: a gravidade do sintoma não angustia seu portador. Decifra-me ou te devoro, os sintomas carregam a marca dos anseios edipianos que, se são decifrados a tempo, tem chance de virar anedóticas curiosidades da biografia do sujeito. Caso contrário, sua perniciosidade poderá engolir − qual buraco negro − toda sua existência. O amor ao sintoma é proporcional ao amor à sua causa, tornando o desenlace desta tensa novela neurótica imprevisível.

O pai da medicina, Hipócrates, dizia há milênios que antes de tentar curar alguém precisamos saber se ele está disposto a renunciar àquilo que o fez adoecer, prenunciando, quem sabe, o que a psicanálise soube esclarecer: o sintoma tem um sentido. Não podemos simplesmente removê-lo. Esta é a região fronteiriça à qual me referi anteriormente que solicita a intervenção do psicanalista para devolver ao campo psíquico o que lhe pertence. Região onde analisar também é curar. Dentro do consultório nos parece obvio, mas fora dele tanto os pacientes quanto outros profissionais se desgastam em uma busca incessante de respostas, uma peregrinação sem fim que consome recursos de todo tipo, inclusive somas nada insignificantes dos cofres públicos. Dai a importância de não ficarmos desconectados de outras disciplinas e possibilidades de clinicar.

Conforme a psicanálise se desenvolveu, adentrou no campo não neurótico ampliando para o ‘mais além’ as bordas do mapa clássico da nosologia psicanalítica. Deparamo-nos com os vestígios do trauma. Clivagens. Um acervo representacional comprometido, pois as cicatrizes mnêmicas não são plásticas e não comportam a demanda pulsional. Faltam processos terciários e sobra excitação que não sendo comportada psiquicamente transborda, sendo um dos caminhos o curto-circuito somático. O desassossego impera.

O retorno do cindido se encena de maneira diferente. Trata-se daquela queixa desconexa, aquela dor, aquele déficit erguido, surda e solitariamente. Os órgãos, os membros, as partes se destacam: o fígado, a mão, a cabeça são os protagonistas. Escassas associações, precisamos resgatá-las com astúcia e/ou construí-las com imaginação. O soma é o porta-voz da tragédia que precisa ser auxiliado a significar. Parte do nosso trabalho passa pela validação do sofrimento que só poderá acontecer através do seu reconhecimento. Operamos a transformação de uma queixa somática em sofrimento ao atribuir-lhe qualidades psíquicas. O sujeito poderá assim apropriar-se do seu sofrimento, para sua posterior elaboração.

No Ambulatório de Transtornos Somáticos (SOMA)[1] recebemos pacientes ‘fim de linha do balaio do gato’. Sujeitos que depois de percorrerem anos de caminhos carregando no corpo e no soma suas novelas e tragédias, chegam à toca da psicanálise, um lugar improvável do SUS dentro de um marco institucional declaradamente biologista. Um lugar onde a leitura psicanalítica é chave para compreender seu sofrimento e interromper o ciclo de repetição. O SOMA cobra vida toda quarta-feira,  quando a porta da Sala 50 se abre para alojar as atividades de uma equipe multidisciplinar, com cerca de trinta profissionais que ad honorem se reúnem para escutar esses indivíduos e problematizar suas genéricas queixas somáticas, tornando-as matéria prima para o desenvolvimento de atividades académicas, assistenciais e de pesquisa.

Os R1 de psiquiatria realizam atendimentos sob uma cuidadosa supervisão que visa o desenvolvimento integral do médico; introduzir conceitos psicanalíticos que permitam a superação do dualismo corpo-mente, favorecendo a integração psicossomática; assim como contribuir em termos de modelo identificatório com a formação de profissionais capazes de reconhecer no paciente um sujeito único em seu modo de ser, adoecer e sofrer.

Para finalizar, aproveitamos a ambiguidade do terreno transitado, para diluir fronteiras, aproximar saberes e fomentar uma cultura de trabalho no marco do paradigma da complexidade que inclua novamente a psicanálise dentro do debate transdisciplinar da vida.

*Abigail Betbedé é médica psicanalista. Psiquiatra colaboradora do Ambulatório de Transtornos Somáticos – SOMA IPq HCFMUSP. Membro filiado ao Instituto da SBPSP, pós-graduanda em psicanálise pela Universidad del Salvador – Asociación Psicoanalítica Argentina.

 

[1] O SOMA pertence ao Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – IPq HCFMUSP.

PENSAMENTOS SELVAGENS

*João Carlos Braga

Como muitos conceitos e formulações, a expressão pensamentos selvagens é encontrada tanto sendo utilizada como parte do pensamento psicanalítico quanto em linguagem leiga. Em ambas utilizações, o significado da expressão é convergente, mas há especificidades em seu uso como um referente em Psicanálise. Será este último o enquadre do que se segue.

 A) COLOCANDO EM PERSPECTIVA.

A contribuição de Wilfred R. Bion (1897-1978) à Psicanálise pode ser resumida na proposta de estudar o papel do pensar e dos pensamentos na teoria e na prática psicanalítica. Para isso, delimita a atividade do analista à observação e formulação da experiência que vive com seu (sua) analisando(a) na sessão analítica; ou seja, o campo de formação, captação e operacionalização de pensamentos, assim como os processos do pensar.

Em sua teoria do pensar (1962), Bion propôs uma inversão na forma tradicional de compreendermos os pensamentos e sua gênese: os pensamentos existem antes do pensar e é sua existência que cria a necessidade de desenvolvermos um “aparelho para pensar”. Esta teoria limita-se aos pensamentos formados a partir da experiência do indivíduo, ou seja, os pensamentos de um pensador.

Após fazer expansões em sua visão da mente com a teoria das transformações (1965), Bion propõe um novo parâmetro para os pensamentos, possivelmente apoiando-se em Gotlob Frege (1918): pensamentos existem independentemente dos pensadores. São realidades com existência própria e cabe ao pensador deixar-se acessar por eles. Mais uma vez, uma inversão na perspectiva tradicional.

Refere-se a esta visão de pensamentos sem pensador em poucos trabalhos subsequentes. Dentre estes, em um momento de livre pensar, gravado em fita cassete ao se preparar para os seminários que iria fazer em Roma (1977), faz uma espécie de classificação dos pensamentos sem pensador: pensamentos extraviados, pensamentos com nome e endereço do autor e pensamentos selvagens.

B) PENSAMENTOS SELVAGENS

Em Domesticando pensamentos selvagens [1977 (2016), p.39] descreve os pensamentos selvagens como a nomeação de uma conjunção constante que reúne um grupo de pensamentos com as seguintes características: i) para os quais não há possibilidade  de traçar de imediato qualquer tipo de propriedade (autor) e ii) para os quais não há possibilidade de se tomar conhecimento da genealogia deste pensamento.

Além destas características descritas por Bion, gostaria de acrescentar que são pensamentos que irrompem na mente subvertendo a camada de pensamentos organizados (civilizados, então), advindos de um contato direto com a realidade ou do funcionamento somático-fisiológico do indivíduo (mente primordial), provocando estranhamento, estados de repulsa, de medo ou mesmo de terror.

Em Psicanálise, o pensamento pensamentos selvagens permanece sem uma conceituação suficiente para reivindicar um valor científico. Penso que foi uma tentativa de Bion de abarcar, em um nível de maior abstração, diferentes manifestações diretas de pensamentos sem pensador. Penso também que o curto período em que esta concepção aparece em suas formulações (maio de 1977 a abril de 1978), deixa entrever o pequeno interesse do autor por ela. Por exemplo, não identifiquei registros de que ele a tenha utilizado, explicitamente, em supervisões em 1978, em São Paulo. Pode, porém, deliberadamente, tê-la deixado obscura, evitando conceituá-la para não a engessar, como nos apontou em várias passagens sobre cuidados na apropriação de pensamentos com características não simbólicas; ou que não identificou nela um maior potencial para explorações psicanalíticas. De fato, a aquisição de uma condição científica tornaria esta concepção pouco útil na prática clínica voltada ao tornar-se a realidade, embora seja útil para a comunicação entre psicanalistas – a dimensão do conhecer, pois.

Há três concepções de pensamentos selvagens que podemos deduzir convivendo nesta conjectura de Bion:

  1. Pensamentos selvagens são pensamentos sem pensador capturados por um pensador – ou que capturam o pensador – sem história prévia de fazer parte do campo de conhecimento humano. Neste sentido, psicanálise, ao ser concebida e formulada por Freud, seria um exemplo. Situações clínicas em sessões analíticas, próprias a um evento único, seriam outros exemplos.
  2. Pensamentos selvagens são pensamentos sem pensador que se extraviaram na dimensão do conhecer, que ainda não foram domesticados pelo indivíduo que os captura (ou que por eles é capturado), embora já tenham sido anteriormente domesticados e formulados por autores conhecidos pelo pensador. O próprio pensamento pensamento selvagem pode ser um bom exemplo desta compreensão: um pensamento sem pensador extraviado, com proprietário (Bion) e endereço (Domesticando pensamentos selvagens, 1977), mas que é selvagem para o indivíduo que ainda não tomou conhecimento desta formulação.
  3. Pensamentos selvagens são pensamento sem um pensador que se extraviaram e que aparecem no campo do conhecer, sem que nele tenham adquirido um pensador ou que por este ainda não tenham sido adquiridos. Nesta compreensão, pensamentos selvagens seriam equacionados a coisas-em-si, a pensamentos sem pensador em estado originário, fora de nosso alcance e assim também fora de nossas possibilidades de com eles operar.

C) UM EXEMPLO CLÍNICO

Amália entra na sala de sessões, após nos encontrarmos na sala de espera, em um contato em que nada em especial chamara minha atenção. Seguindo-a, vejo-a sentada na beirada do divã fazendo movimentos de arrumar a blusa, ajeitando-a em torno do pescoço, com cuidado, para em seguida deitar-se. Cruza-me um pensamento inesperado: “arruma a gravata”. Fico surpreso e me percebo em um trabalho mental de fazer associações, de buscar significados em minha experiência de análise com ela. Ao tomar consciência deste esforço, busco manter minha mente livre, mas disponível para algum elemento que venha a surgir durante a sessão e que possa se conjugar com este pensamento e dar-lhe algum sentido. Nada digo a Amália sobre meu pensamento estranho.

João Carlos Braga é membro efetivo e analista didata da SBPSP e GPC.

 

O Duplo: permanência e transitoriedade

*Ignácio Paim Filho

XXVII Congresso Brasileiro de Psicanálise – 2019

O Estranho – Inconfidências

 

A verdade, porém, é que o escritor verdadeiramente criativo jamais obedece a essa injunção. A descrição da mente humana é, na verdade, seu campo mais legitimo; desde tempos imemoriais ele tem sido um precursor da ciência e, portanto, também da psicologia cientifica (Freud. 1907,)

 

São Paulo, 30 de novembro e 01 de dezembro de 2018. Nestas datas, a FEBRAPSI e a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo promoverão uma atividade conjunta, com o objetivo de trabalhar a temática do próximo congresso brasileiro, que ocorrerá em Belo Horizonte, de 19 a 22 de junho de 2019.

Nessa oportunidade abordaremos, com especial atenção, o intrigante fenômeno do Duplo (alma imortal?) exercitando um diálogo interrogativo entre a metapsicologia, a clínica e a literatura. Por esse intercurso pretendemos abordar o estranho processo pelo qual ocorre a constituição do Eu, no seu trânsito entre Narciso e Édipo, com seus mandatos endogâmicos e exogâmicos.

Freud (1919), com um objetivo semelhante, faz uma interlocução com Hoffmann, através do Homem de Areia, que legitima sua sinistra afirmação de 1907, em relação os escritores criativos: precursor da ciência, ou ainda, da psicologia cientifica. Prenuncio da sua celebre confidência, com certa dose de inconfidência, de 1922, em relação à Schnitzler: Acho que evitei o senhor por causa de uma espécie de relutância em conhecer o meu duplo. Modo próprio, de usar si como objeto de estudo, visando ratificar a sua busca, para fazer do estranho, exemplificado no duplo, um conceito especifico. Nesse sentido segue: […] suas reflexões sobre a polaridade do amor e a morte, tudo isso me comoveu com inquietante familiaridade (Freud, 1922).

Por meio de uma fértil interação com o mestre da literatura fantástica, Freud, tal qual Schnitzler, vai explorar as profundezas psicológicas que estão implicadas nas vicissitudes pulsionais de Natanael: do representável ao irrepresentável. O estranho se apresentado em suas diferentes roupagens, desacomodando a lógica do processo secundário, permitindo que venha a luz o secreto, de forma clandestina, com seus inebriantes mistérios. Nosso enigmático protagonista desliza em meio a figuras – Pai/Coppelius; Olímpia/Clara; Coppola/Spalanzani – com os quais estabelece uma relação de complementariedade, que dão voz ao conhecido/desconhecido em si: revelando o duplo, em seu aspecto protetor, garantia de viabilizar uma existência para Eu e o tanático, quando da sua persistência não metabolizada (sombra do objeto?). Por esses caminhos a temática da cisão, o mais além do recalque, se presentifica. A renegação começa a desenhar o seu lugar na estruturação anímica: enérgico desmentido do poder da morte (Rank, 1914). Diante dessas considerações poderíamos compreender o duplo como tendo seu destino determinado pela pulsão de apoderamento das figuras parentais? Império do ser em detrimento do ter? Permanência e transitoriedade tecendo o elo entre Eros e destrutividade?

Na narrativa do Das Unheimliche (1919), o escritor/analista Freud, tal quais os escritores criativos, vai convidando o leitor a deixar-se levar por essa experiência estética: a importância de viver em si essa peculiar sensação. A qualidade do sentir no intercâmbio entre o repulsivo e o doloroso, vai gerando estranhamentos e anunciando a problemática da eterna repetição do mesmo. A castração, marca do corte, vai sendo teatralizada, entre ser reconhecida e não conhecida, na vida fantasmática dos personagens do conto de Amadeus Hoffmann, gerando dúvidas quanto à veracidade dos fatos: fantasia ou realidade?

Esses são alguns apontamentos, que deixo registrado, na expectativa que sejam propulsores do desejo de revisitar o pensamento freudiano. Tendo como sinalizador a inquietante recomendação: Olhar as mesmas coisas repetidas vezes até que elas comecem a falar por si mesma (Charcot, citado por Freud, 1914).

Abraços, até breve.

Aguardamos vocês

Ignácio Paim Filho é psicanalista, membro titular da  SBPdePA (Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre) e diretor cientifico da FEBRAPSI.   

Sobre o incêndio no Museu Nacional

Nós, psicanalistas da SBPSP, consternados com o acontecido com o Museu de História Nacional, endossamos a carta da Federação Brasileira de Psicanálise abaixo publicada.

Acontecimentos como este devem alertar os poderes públicos e a sociedade como um todo para importância da preservação e conservação dos nossos acervos de memória histórica e cultural. Fatos como este – assim como em outras esferas, a traumática tragédia de Mariana – não podem ser vistos como acidentes. Eles acendem uma luz vermelha sobre o descaso com o nosso patrimônio histórico cultural e nossa população.

Bernardo Tanis

Presidente da SBPSP

Carta aberta à comunidade científica, endereçada ao presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC:

A Federação Brasileira de Psicanálise – FEBRAPSI sente imensa perplexidade pela tragédia que se abateu sobre o mais antigo patrimônio histórico do Brasil. Sua dor e sua tristeza ecoam em todo Brasil. Muito de nós, ainda crianças, fomos a este museu e com olhos ávidos de curiosidade olhamos as múmias, pela primeira vez na vida, os imensos esqueletos, que naquela época ainda ficavam maiores diante de nosso pequeno tamanho. O que dizer da sensação de estar no local onde monarcas viveram, as louças, os adereços e as roupas? Tudo nos ensinava como numa época mais antiga as pessoas se vestiam e viviam. Nunca esquecemos e nem esqueceremos esta primeira visita. Mais tarde, levamos nossos filhos que, para nossa alegria, também se inebriaram com a beleza e riqueza deste museu, testemunha viva de nossa história. Hoje, perplexos percebemos que não poderemos mostrar este museu do jeitinho que nós o vimos pela primeira vez. Apesar da luta de vocês por todos esses anos, muitas preciosidades foram perdidas. Perdas irreparáveis! Não valorizar o passado é perder a memória e com isso a própria identidade. Perde o Brasil mais uma vez.

Aproveitamos para parabenizá-los pelo esforço de todos vocês em manter e proteger durante todos esses 200 anos esta relíquia que é o Museu Nacional.

Anette Blaya Luz
Presidente

Rosa Maria Carvalho Reis
Secretária Geral

Foto: O Estado de S. Paulo

Somos mais realistas que os reis?

* Noemi Moritz Kon

19 de maio deste ano foi marcado pela transmissão midiática em escala planetária da cerimônia de casamento entre o príncipe Harry e a atriz Meghan Markle na Capela St. George, em Windsor, Inglaterra. Foram muitos os detalhes que desafiaram simbolicamente convenções antes inquestionáveis de eventos deste porte envolvendo a Coroa britânica, talvez hoje a mais tradicional e cultuada das realezas que ainda subsistem nos Estados modernos. Uma linda princesa norte-americana, trajando um vestido esteticamente simples, sem brilhos ou adereços, chega acompanhada exclusivamente pela mãe, Doria Ragland, professora de ioga, que, com seu penteado rastafári, vestia um traje de cor semelhante ao da rainha.

Meghan Markle atravessa a nave da Capela St. George sozinha, sem a presença usual do pai – branco – ou qualquer outra pessoa. Durante a cerimônia, o coral gospel The Kingdom Choir, formado majoritariamente por músicos negros, entoa Stand by Me, do cantor de soul Ben E. King, conduzido pela maestrina Karen Gibson, também negra. Ouvimos surpresos, ainda, o sermão do reverendo Michael Curry – ele também negro – que inicia sua fala citando o maior ícone da militância pacífica negra dos Estados Unidos, Martin Luther King Jr.: “Nós precisamos descobrir a força redentora do amor e, quando fizermos isso, faremos desse velho mundo um mundo novo”.

Que beleza! Que espetáculo! Quantos marcadores sociais de opressão, raça/cor, gênero e classe foram colocados em evidência e, de alguma forma, em xeque nesse momento de comoção ritual! (Evidentemente, nada do que foi exibido escapou aos rigores do protocolo da realeza. Nenhum desses detalhes foi mera coincidência).

Para além de um possível e esplêndido golpe publicitário, minha ingenuidade fez-me pensar em como nós da colônia, nós psicanalistas brasileiros, temos sido mais realistas, mais embevecidos com as insígnias da realeza e da aristocracia, do que os próprios reis. Em como nossa comunidade tem se mostrado conservadora, desatualizada, mantendo-se presa ao “Velho Mundo”. Em como sustentamos, cultivamos e promovemos, naquilo que temos produzido – ou no que não temos produzido –, uma teoria, uma ação e um discurso eivado de valores ideológicos elitistas e meritocráticos, que se protege e se justifica ao fazer-se passar por um discurso científico, a-histórico e universal, um discurso neutro, não contaminado pelas variáveis raça/cor, gênero/orientação sexual e classe.

Ora, não há mais como manter e defender esse tipo de posição; precisamos retomar urgentemente nossas reflexões críticas.

Não somos tão multicoloridos como deveríamos ou poderíamos ser; não somos tão abertos à sexualidade e às suas manifestações, nem mesmo à equidade entre gêneros, como deveríamos ou poderíamos ser; não somos tão receptivos à diferença de classe como poderíamos ou deveríamos ser.

Basta observar o público de nossos encontros e congressos – os nossos rituais -, para verificar que não correspondem à proporcionalidade da distribuição demográfica racial brasileira, com seus mais de 50% de negros e pardos, e que tampouco correspondem aos índices de distribuição de renda, pois somos uma elite também econômica, e congregamos uma porcentagem bem maior de pessoas que recebem mais de 27 mil reais ao mês, o que nas estatísticas da população brasileira conforma seu 1% mais rico.

As mulheres são hoje 51% da população do país, mas entre nós, psicanalistas, a distribuição parece ser bastante diferente: o número de mulheres que preenche os assentos das plateias em nossas reuniões e aulas é bem maior do que a de homens. O mesmo não parece acontecer com relação à distribuição dos lugares de poder e fala, ocupados, preferencialmente, por homens, brancos e, provavelmente, héteros e cis. Neste quesito, em particular, nossos indicadores não diferem sobremaneira dos da nossa sociedade patriarcal e falocêntrica.

Nossa produção teórica, nossa clínica e o funcionamento de nossos centros, departamentos e sociedades parecem também não se coadunar muito bem com o retrato obtido pelos institutos de pesquisas socioeconômicas: quem são nossos analisandos, qual é a sua renda, a sua profissão, o seu nível educacional, a sua cor? Quem são os que procuram as instituições psicanalíticas para avançar em sua formação? Quem prioritariamente ocupa os lugares de poder em tais instituições? Sobre quem falamos em nossos textos? Onde se localizam nossos consultórios? Qual o valor cobrado em nossos cursos e em nossas consultas e supervisões?

Atendo-me aqui no marcador de diferença raça/cor, com o qual venho trabalhando mais detidamente nos últimos tempos – mas o raciocínio poderia ser também aplicado aos outros marcadores de desigualdade -, é possível perceber como temos abusado do “esquecimento” de nossa história, da barbárie brasileira que se instaurou com o genocídio dos índios – 5 milhões em 1500, não mais de 850 mil hoje, segundo dados do IBGE – habitantes destas terras, que se prorrogou nos quase 400 anos de escravização mercantil, e que transformou mulheres e homens em objetos, em mercadorias (bens semoventes, como os escravizados eram denominados). Como temos trabalhado tão pouco as questões contemporâneas derivadas de tais processos históricos que conformaram tanta disparidade de oportunidades, e como temos, assim, acalentado por meio da negação e da recusa, a manutenção de privilégios – nossas casas grandes e nossas senzalas -, justificando a desigualdade como o simples resultado de diferenças individuais naturais que, obviamente, se presentificariam em nosso dia a dia.

Não devemos fazer pouco do que aprendemos em nossas boas escolas e, dessa forma, esquecer que o sistema escravocrata, pilar da economia colonial que sequestrou e trouxe ao Brasil mais de 4,5 milhões de africanos – cifra que representa 46% dos que foram escravizados naquele momento –, cerca de 12,5 milhões de africanos e africanas entre os séculos XVI e XIX, fundou e estruturou, desde nossa origem, um estado de violência e exploração, que produziu e continua produzindo marcas profundas em todos nós brasileiros, mas que recaem discriminatoriamente sobre os mais de setenta milhões de cidadãos negros e pardos – que de acordo com o atual senso demográfico conforma a maior população negra fora da África, o segundo maior contingente de afrodescendentes do mundo, número só inferior ao da Nigéria –, estabelecendo uma condição inescapável e inaceitável de desigualdade e subjugação, que arma nosso cotidiano público e doméstico e que é evidenciada, de maneira inequívoca, em todos os indicadores sociais: saúde, longevidade, salário, emprego, distribuição de renda, educação, moradia, transporte, segurança, justiça e direitos civis1.

Nós, o último país a abolir a escravidão mercantil da era moderna – dois anos depois de Cuba e mais de 20 anos depois dos EUA –, ao que parece, temos apenas ampliado as mesmas estatísticas, estabelecendo mais e mais desigualdades entre nós, dando corpo ao racismo estrutural que vigora em nosso país e que estabeleceu nosso modo de convivência mesmo depois de 130 anos da promulgação da Lei Áurea.

Como podemos nos organizar diante de tudo isso? Qual pode ser nossa participação? Pois sabemos que estamos matando gerações de negros e negras (e indígenas) no Brasil e não apenas por dar fim a seus corpos2. Temos assassinado, igualmente, suas almas, seu psiquismo.

O evento O racismo e o negro no Brasil: questões para a psicanálise promovido pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, em 2012, e o livro que dele se originou, lançado pela editora Perspectiva em 20173, são parte de um movimento, ainda incipiente, para tornar mais evidentes as marcas do racismo institucional que se revela também entre nós, psicanalistas brasileiros.

Foram ambos frutos de um grande esforço de superação de resistências para que pudéssemos assumir o quanto temos negligenciado pensar sobre a potência de destruição e morte que compõem as formas de preconceito e discriminação estabelecidos contra grupos que são ativamente excluídos, excluídos também da oportunidade de desfrutar do que a psicanálise tem para oferecer: a liberdade possível e a ética de nosso desejo. Raros eram (e ainda são) os estudos psicanalíticossobre o preconceito contra o negro no Brasil; pudemos, naquele momento, contar com a reflexão oferecida por outras disciplinas – a história, a sociologia, a política, a educação e as artes – para, aos poucos, nos localizar e iniciar um movimento de apropriação, desalienação e, tomara, de contribuição. Esse meu texto, escrito a convite do blog da Sociedade Brasileira de Psicanálise, ao qual agradeço, tem a ver com o reconhecimento da relevância desse movimento para além da comunidade de psicanalistas formada pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. E isso é importante.

Temos procurado dialogar mais, aprender mais com nossos colegas engajados nos movimentos de proteção e valorização do negro para, a partir dessa nova qualificação, construir parcerias e ações que viabilizem a formação de um número maior de psicanalistas atentos à questão racial e a seus efeitos sobre o psiquismo de todos os brasileiros. É só um começo, e ainda há muito a fazer.

Quem sabe essas iniciativas permitam que nos próximos anos possamos estabelecer um verdadeiro encontro, mais colorido, mais equânime, mais vitalizado pelas diferentes diferenças, e que o som ao nosso redor , que tem nos ensurdecido em sua desarmonia, torne-se ato de tradução de Stand by Me, a canção entoada no casamento real, e que nos postemos todos juntos, lado a lado, um pelo outro, por sermos brasileiros, por sermos humanos, por sermos.

[1] Vale a pena conhecer o manual produzido pelo IPEA (Instituto de Política Econômica Aplicada), Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça in http://www.ipea.gov.br/retrato/pdf/revista.pdf

[2] O Atlas da violência 2017 do IPEA indica, por exemplo, que de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. http://www.ipea.gov.br/portal/images/170602_atlas_da_violencia_2017.pdf.

[3] Kon, N.M., Silva, M. L. e Abud, C.C., O racismo e no negro no Brasil: questões para a psicanálise, S. Paulo, Ed. Perspectiva, 2017.

[4] Vale a leitura de trabalhos inaugurais de Neusa Santos Souza e Isildinha Nogueira Baptista no campo da psicanálise: Souza, N.S.,Tornar-se negro, Ed. Graal, 1a.edição, Rio de Janeiro. 1982. https://escrevivencia.files.wordpress.com/2015/02/tornar-se-negro-neusa-santos-souza.pdf e Baptista, I. N. Significações do corpo negro, tese de doutorado defendida no IPUSP no Departamento de Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano, 1988. http://psicologiaecorpo.com.br/pdf/Isildinha%20Baptista%20Nogueira-Significacoes%20do%20Corpo%20Negro-1.pdf, acessado em 13/01/2016

 

*Noemi Moritz Kon é psicanalista, Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, Mestre e Doutora pelo Departamento de Psicologia Social do Instituto de Psicologia da USP e autora de Freud e seu Duplo. Reflexões entre Psicanálise e Arte, S. Paulo, Edusp/Fapesp, 1996, A Viagem: da Literatura à Psicanálise, São Paulo, Companhia das Letras, 2006 e organizadora de 125 contos de Guy de Maupassant, São Paulo, Companhia das Letras, 2009 e co-organizadora com Cristiane Curi Abud e Maria Lúcia da Silva de O racismo e no negro no Brasil: questões para a psicanálise, S. Paulo, Ed. Perspectiva, 2017. Professora do curso de pós-graduação: “Conflito e Sintoma: Clínica Psicanalítica” do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae

A SBPSP manifesta seu apoio às cartas das organizações psicanalíticas federadas FEBRAPSI e FEPAL, nas quais é denunciada a recente manifestação de violência contra crianças migrantes e suas famílias por parte do governo dos Estados Unidos

A Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo manifesta seu apoio às cartas das organizações psicanalíticas federadas FEBRAPSI e FEPAL, nas quais é denunciada a recente manifestação de violência contra   crianças migrantes e suas famílias por parte do governo dos Estados Unidos. Transcrevemos a seguir o Pronunciamento da Presidente da Associação Psicanalítica Internacional, Dra. Virginia Ungar, ao qual declaramos nossa total adesão.

Bernardo Tanis

Presidente da SBPSP

 

Pronunciamiento del Presidente de la API con respecto a la Violencia hacia Niños Migrantes

Las noticias que han circulado por los medios sobre la terrible decisión de separar a los hijos de inmigrantes de sus familias en Estados Unidos han puesto el foco en una desoladora situación de maltrato hacia los niños que ocurre también en otras latitudes, como el Mediterráneo, Medio Oriente y África, entre otras.

Hace varios años que la situación de los inmigrantes y sus familias es desesperante, pero lo ocurrido en Estados Unidos ha levantado la indignación mundial contra los que no respetan los derechos básicos de las personas.

La Asociación Psicoanalítica Internacional (API) ha creado espacios para estudiar a fondo el problema y también para ofrecer intervenciones basadas en la teoría y en la práctica psicoanalíticas. Hemos inaugurado recientemente una nueva estructura llamada API en la Comunidad, compuesta por varios comités entre ellos Migraciones y Refugiados, Organizaciones Humanitarias, Educación, Salud, y Violencia. Trabajan junto con el Comité de Análisis de Niños y Adolescentes y el Inter-Committee on Child Abuse y llevan adelante investigaciones y proyectos de acción comunitaria que buscan mitigar el dolor y la vivencia de desarraigo traumático producido por políticas que llevan a niveles no humanos a millones de personas.

Los pioneros del psicoanálisis como Sigmund Freud, Anna Freud, Melanie Klein, Donald Winnicott, Serge Lebovici y muchos otros que siguiendo el camino de los maestros, han buscado comprender el delicado balance del desarrollo psico emocional de los niños y la manera en que las situaciones traumáticas interfieren en el mismo.

Desde esta base, repudiamos cualquier forma de violencia contra niños y adolescentes que altere los parámetros cruciales de crianza en todo el planeta. Incluimos en ello las separaciones forzadas o precoces de la familia, la falta de cuidados básicos y de respeto por los derechos de niños y adolescentes. Como profesionales de la Salud Mental es nuestra obligación proteger a los niños y jóvenes y defenderlos de cualquier tipo de violencia y amenaza a su desarrollo.

Virginia Ungar, Presidente de API

Sergio Nick, Vicepresidente de API

 

 

 

Nova coordenação de comunicação e editoria do blog da SBPSP

A partir desse mês, assumem a coordenação de comunicação e editoria do blog da SBPSP os psicanalistas Rodrigo Lage e Tiago Porto. Nesse último ano, estiveram à frente da função Telma Weiss e Karin Szapiro, que conduziram um intenso e desafiador trabalho de produção, sempre atentas aos acontecimentos cotidianos, prontas para mobilizar os membros da SBPSP para difundir o pensamento psicanalítico e associá-lo a assuntos do dia a dia das pessoas. O legado é evidente. Rodrigo e Tiago seguirão com esse propósito, trazendo algumas novas ideias e propostas e valendo-se do aprendizado. Acompanhem as novidades. Seguimos atentos a sugestões.

Como escolher uma profissão?

Maria Stella Sampaio Leite*

Ao longo da experiência de 30 anos com orientação profissional ou orientação vocacional, como é mais conhecida essa prática, escuto  inquietações de jovens e seus familiares sobre a escolha de uma profissão. Como fazer uma escolha profissional aos 17 anos para o resto da vida é uma questão muito frequente. O problema é que não se trata de uma escolha para o resto da vida. Trata-se da primeira escolha.

Nessa idade, o jovem realiza somente sua primeira escolha profissional, aquela que deve ser interessante a ponto de motivá-lo a conduzir os estudos com dedicação até sua conclusão. Isso porque, ao término dessa formação, em posse do seu diploma de graduação,  ele terá um leque de possibilidades de trabalho diante de si e aí, novas escolhas irão se impor.

As profissões hoje em dia têm fronteiras muito tênues e tangenciam várias outras áreas. Por exemplo, todas as áreas do conhecimento rapidamente farão uso dos avanços tecnológicos.

A escolha por uma profissão é temporária, a realidade muda e nós mudamos. Apesar disso, temos um fio condutor, ninguém acorda de um dia para o outro uma pessoa diferente. Há sempre uma continuidade, mesmo que às vezes esse intercurso dê muitas voltas.

Mas como fazer essa primeira escolha? Todos temos muitos interesses e aspectos. O importante é enumerá-los, estabelecendo prioridades. Na primeira escolha, ao término do Ensino Médio, escolhe-se aquela profissão que reúne o maior número de interesses, habilidades e oportunidades. Uma parte das opções ficará de lado, no aguardo de um segundo momento, quando entrará na composição da carreira profissional da pessoa. Ao longo da vida, parte dessas profissões que ficaram na gaveta, ou aspectos delas, entram na formação da identidade profissional da pessoa. Identidade profissional é aquele exercício profissional que nos cai sob medida,  algo que faz todo sentido. Dificilmente isso ocorre no início de uma faculdade ou no começo de um percurso profissional. A gente se dá conta de ter construído uma carreira quando olha para trás, após um tempo, como em uma visada no espelho retrovisor, e constata que juntou vários aspectos que tinham sido deixados de lado na época da primeira escolha.

O futuro é muito angustiante para todos nós, sobretudo para um jovem ainda com pouca experiência de vida. Todos queremos soluções que deem conta da angústia com relação ao futuro. Um dia desses um pai perguntou-me se diante de tantas reformulações das profissões “Como prever quais profissões estarão em alta daqui 20 anos?” “Não seria o caso de buscar formações muito mais funcionais ou aplicáveis, uma faculdade que fornecesse ferramentas para o jovem equipar-se para o futuro em constante mudança?” Não é bem assim que se forma um equipamento sólido e resistente a intempéries. Uma formação universitária tem que ajudar o jovem a pensar, analisar e ser crítico e, para isso, precisa ser desafiado em diferentes campos das humanidades, das ciências além das atualidades.

Um moço cursando engenharia, insatisfeito com a graduação escolhida, me fez a seguinte pergunta: “Você tem um truque, uma chave que, aplicada, resolva meu dilema sobre o que cursar em substituição à engenharia? Eu aprendo rápido o funcionamento das coisas é somente saber o truque”, diz ele. Ora, não há uma chave, nem mesmo testes que se consigam medir atributos das pessoas relacionando-os a diferentes profissões. A reflexão e análise são indispensáveis, porém, não dão respostas certeiras sem risco, preto no branco.

O fato de haver muitas alternativas de profissão na atualidade não é impedimento para escolher. Se observarmos com cuidado, parte dessas alternativas são desdobramento de profissões mais antigas, das profissões com maior história. Outras, têm currículos muito semelhantes umas das outras. Algumas delas são apelos mercadológicos. Contudo, principalmente em se tratando de áreas ligadas aos avanços tecnológicos, foram criados cursos novos com esse foco especifico. Há profissões mais práticas cuja formação se dá por cursos tecnológicos (aqueles cujos cursos têm de 2 a 3 anos de duração), indicadas aos jovens avessos ao estudo formal. Todavia, não há profissões blindadas contra crises. Um profissional muito identificado com sua escolha terá maiores chances de se manter atualizado. Com isso, encontrará frestas nas quais poderá atuar superando as dificuldades que a realidade da sua profissão for impondo.

 

Uma pessoa que goste do que faz tem maiores chances de ser bom no que faz, não digo ser o melhor no que faz porque isso é uma ilusão. Não há como ser o melhor no que faz, mas, sim, talvez ser sempre melhor na comparação consigo mesmo. Quando a ideia é ser o melhor, devemos nos perguntar sobre os critérios dessa classificação. Uma preocupação tão grande com resultados costuma desprezar o processo, o desenvolvimento.

O que esperar de uma profissão? Satisfação, felicidade, prazer, dinheiro, fazer a diferença na sociedade, o respeito dos familiares e amigos e conhecimento. Esses e outros retornos e outros, nos movem no exercício de uma profissão. Esses atributos podem ser conquistados independentemente da profissão escolhida porque cada um deles se relaciona às características da pessoa. Vejam por exemplo o dinheiro. Não há profissão que dê dinheiro, mas profissional que sabe ganhar dinheiro. São frequentes as idealizações e os preconceitos com respeito a profissões: as mais ou menos rentáveis, as mais ou menos respeitadas pela sociedade, mais ou menos criativas, mais ou menos práticas. Mas toda profissão tem sua importância para a sociedade.

Por tudo isso, escolher uma profissão não é uma tarefa simples e pode envolver sofrimento. Quando há incerteza quanto à melhor carreira a seguir, convém buscar ajuda de um profissional especializado em orientação vocacional/profissional.

Maria Stella Sampaio Leite é psicanalista pela SBPSP, orientadora profissional e autora do livro “Orientação Profissional”, Ed.Pearson, 2015.

Protect me from what I want

*Helena Cunha Di Ciero Mourão

Somos feitos de som e fúria, já dizia Sheakespeare. O velho Freud adicionaria que, entre fezes e sangue, nascemos. A verdade é que não somos assim tão puros e limpos como postamos por aí. Embora os filtros virtuais tentem a todo custo disfarçar nossas impurezas, existem desejos inconfessáveis inclusive para nós mesmos: provocam vergonha, são menos civilizados, trazem afetos menos aceitos, mais brutos,  geram culpa, medo e inveja. Embora o desejo nos mova, nem sempre pode ser comunicado às claras.

Muitas vezes é preciso reprimir certos sentimentos para manter determinadas escolhas. Por outro lado, quanto maior essa repressão, maior a força na tentativa de realizá-los. É que nossos instintos costumam ser  persistentes e teimosos. E, nessa tentativa de domínio, o indivíduo sofre. Conclusão: essa luta constante gera uma tensão muito forte – de um lado, uma exigência de satisfação, de outro, as leis, a moral, minhas escolhas.

O desejo nasce num lugar poderoso, uma  instância psíquica inconsciente que recebe o  nome de Id. Este vive em pé de guerra com um outro lado responsável pela censura – que recebe o nome de Superego – , que é igualmente forte e é responsável por representar internamente a moral, as leis vigentes e os valores familiares.

A civilização funciona como uma tentativa de dominar nossos desejos, de freá-los. Sejam os sexuais ou os agressivos, a  sociedade de alguma forma tenta manter uma certa ordem a fim de que a humanidade se preserve de seus próprios instintos. Sabemos que a violência do homem é inerente, tornando-o facilmente presa. Convenhamos, por mais falha que seja a sociedade, o ser humano precisa dela para relativamente se organizar .

Mas existe um lugar onde meu desejo encontra uma possibilidade de existir: os sonhos. Quando sonhamos, estamos com a censura baixa, certas coisas podem aparecer. Mesmo assim algumas são censuradas por nós mesmos – juntando uma série de elementos que criam uma espécie de quebra-cabeça simbólico, somando vivências e experiências singulares e individuais, que para cada um tem um significado. Ou seja, certas coisas aparecem de forma disfarçada quando dormimos.

Por isso, dicionário de sonhos  não deve ser levado muito a sério. Para cada pessoa, um símbolo que aparece num sonho tem um significado específico, que só pode ser  decifrado pelo próprio sujeito sonhador. O sonho é o território da realização do desejo. Mesmo que apareça de maneira torta, ele conta sobre um sentimento que, acordado, pode ser muito ameaçador.

É  como se, dormindo, nosso desejo acordasse no sonho e se apresentasse de uma forma mascarada.  Isto é, a fantasia é um dos veículos onde o desejo pode se apresentar, sem ter que brigar com nosso lado responsável pela censura. Tudo pode acontecer. E o ato de sonhar, fantasiar, nos possibilita uma tolerância maior à realidade.

Qualquer veículo onde o sonho possa emergir dá voz ao desejo. Arte, literatura, música… Não é raro sabermos de pessoas que suportaram uma condição muito difícil  utilizando-se da imaginação. Anne Frank é um exemplo.  O filme “A vida é bela”, outro.

Precisamos do sonho para dar voz ao nosso desejo e, assim, resgatar a força de lutar para viver.  É como se nos alimentássemos do território do sonho,  o desejo que ali pode aparecer  fica com sua força atenuada e nos ajuda a suportar a realidade com suas chatices.

Por isso sempre me incomodei quando escutei a frase “Isso é apenas uma ilusão”. A palavra apenas desqualifica o lugar onde o sujeito é livre, puro e existe em seu estado bruto.

Em algum lugar é preciso soltar todo nosso som e toda nossa fúria, do contrário a vida vira uma canção  monotemática e empobrecida.

 *Helena Cunha Di Ciero Mourão é  membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e especialista em psicologia psicanalítica pela Universidade de São Paulo | hcdiciero@gmail.com