Sem categoria

Considerações sobre “Aberfan” e as catástrofes sociais em tempos de Covid-19

Episódio (T3, E3) do seriado “The Crown”[1]

 *Bernardo Tanis

Em 1966, o deslizamento de um aterro de uma mina de carvão causou uma tragédia de proporções gigantescas na vila de Aberfan, no sul do país de Gales, resultando em 140 mortes, das quais 116 eram crianças que estavam na escola Pantglas, a um dia de iniciarem o período de férias.

O episódio a que assistimos retrata a escola no dia que antecede a avalanche de 110.000 metros cúbicos de rejeitos que arrombou suas paredes e soterrou as crianças e professores. Na sequência, vemos imagens assombrosas de pais e familiares buscando nos escombros os sobreviventes. Logo vem o pronunciamento de dirigentes do National Coal Board (NCB), corporação estatutária criada para administrar a indústria nacional de mineração de carvão no Reino Unido, tentando se eximir da responsabilidade pela tragédia, atribuída às “intensas chuvas”. E, então, escutamos falas de famílias de vítimas denunciando que há anos alertavam as autoridades sobre o risco do desastre. Depois disso, vieram os posicionamentos e ações do primeiro ministro do Reino Unido, Wilson, e da rainha Elizabeth, sobre os quais falaremos mais adiante.

Em 2015, vivemos no Brasil uma tragédia semelhante, de ainda maior dimensão, com o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana. Considerado o desastre industrial  que causou maior impacto ambiental da história brasileira e o maior do mundo envolvendo barragens de rejeitos, teve um volume total despejado de 62 milhões de metros cúbicos e deixou 19 mortos. Análises realizadas em Governador Valadares encontraram na massa de lama quantidades superiores aos valores aceitáveis de metais pesados como arsênio, chumbo e mercúrio. Esses metais, possivelmente utilizados em garimpos ilegais ao longo do rio Gualaxo do Norte, foram carregados pela torrente de lama.

O Brasil viu também, em 2019, o rompimento de uma barragem em Brumadinho, que resultou em um desastre de grandes proporções no âmbito industrial, humanitário e ambiental, com 259 mortos e 11 desaparecidos. Foi considerado o segundo maior desastre industrial do século e o maior acidente de trabalho do Brasil.

Mas não vamos hoje falar de todo o show de horrores destas terríveis e abomináveis catástrofes nem é o objetivo desse comentário tratar do comportamento das autoridades no nosso país. Qualquer um de nós pode dar um Google e saber mais sobre elas.  Farei aqui algumas considerações desde a perspectiva psicanalítica, para a qual fui convidado a falar, para podermos ampliá-las no debate.

Os vértices de análise e comentários que esses desastres despertam são vários. Humanitários, ecológicos, psicológicos. No entanto, como disse no início do episódio o primeiro ministro Wilson, devemos lembrar que sem nenhuma dúvida “Tudo é político”. Isso significa que, na esfera da humanidade, nada escapa ao modo como os homens organizam a vida social e econômica das nações. Quando e por que certas áreas e populações são objeto de descuido ou negligência. Muitos governantes preferem naturalizar as catástrofes de modo a não assumir responsabilidades que, como estados e municípios, têm para com os seus habitantes.

Mas antes de adentrar no assunto das atitudes dos líderes políticos perante o desastre, quero falar um pouco do efeito do desastre, do trauma subjetivo e social que ele produz, pois acredito que apenas se compreendermos algo da catástrofe humanitária poderemos vislumbrar o que possa ser um mínimo sentido reparatório. Chamamos de reparação em psicanálise o ato ou o pensamento que visa a reparar um dano real o fantasiado.

Frente a essas catástrofes ecológicas e humanitárias, a pergunta é: há reparação, há perdão, há justiça possível?

Há várias definições para trauma, mas todas concordam que se trata do efeito da incidência de um acontecimento singular (individual ou coletivo) que impacta a subjetividade a ponto de desestruturar o psiquismo, de questionar os alicerces da subjetividade que se constrói na confiança no outro para mitigar o desamparo constitucional do ser humano.

Perante a fragilidade do bebê humano, o outro significativo provê as condições de um vínculo que não apenas ajuda a subsistência biológica, a conservação da vida, mas cria a base da esperança de poder ser acolhido e protegido no mundo, assim como as condições de desenvolver um ego capaz de utilizar os próprios recursos internos no futuro.

Nós, seres humanos, criamos vínculos afetivos, sociais, parcerias de trabalho. Fazemos parte de estruturas mais e mais complexas para existir enquanto grupo na pólis, no mundo social e político. O Estado moderno, além de figura de autoridade, tem como função auxiliar na regulação da vida coletiva, na construção de normas e obrigações, no sentido de zelar pelos seus habitantes, pelo povo e pela nação. Não se trata de bravatas ou sofismas, mas de atos concretos que garantam o amparo social. Assim como o fazem nossos progenitores.

O que esses desastres evidenciam é a falência do Estado e a manifestação de um governo submetido a interesses de determinados grupos, que não se importa em colocar o planeta ou a população em condição de risco. Seja no País de Gales, em Mariana, Brumadinho ou tantas outras regiões do planeta. Essa lógica predatória dizima populações, recursos naturais e gera ainda a desesperança e o trauma social, e com eles o ódio, o ressentimento, a violência.

Como seguir em frente quando a realidade se mostra tão avassaladora? Como se sobrepor ao sentimento de impotência frente ao desamparo? Como poder elaborar o luto quando o ódio e o ressentimento são o oxigênio que alimenta a chama viva da perda?

Nesses momentos de trauma social, a sociedade percebe o que muitas vezes prefere silenciar: a falta das mínimas condições de uma vida digna para grande parte da população, privada de moradia, saneamento, segurança e renda.

Caros ouvintes, não podemos confundir o traumático com o acontecimento. Quero frisar este ponto. O acontecimento é da ordem do factual. O trauma é da ordem do desmantelamento das referências subjetivas que nos conferem nossa identidade, nossa noção de tempo e continuidade, nossos sonhos e projetos. É como se suspendesse a noção de continuidade da vida: parece que tudo congela ou explode em inúmeros fragmentos. Demanda recompor um tecido mental esgarçado, recuperar a confiança, a vontade de viver e de produzir.

Como recompor esses vínculos e ligações, intrapsiquicamente e com o mundo? Essa é a tarefa que temos de enfrentar.

Na psicanálise, a negação dos fatos, recurso empregado frequentemente por líderes autoritários, é conhecida como o mecanismo psíquico da desmentida. Ao seu lado, a hipocrisia e o cinismo do discurso dissociado da ação muitas vezes são encarnados pelas autoridades.

Já o ódio e o ressentimento, experimentados por aqueles que foram afetados, impedem a superação de traumas coletivos porque também funcionam como formas de negação. O luto só começa após o reconhecimento da situação por todos os envolvidos. Significa que é possível seguir adiante, reconhecendo a perda e a dor. Não é possível elaborar o luto enquanto há um apego a essas paixões negativas.

Pois bem, se me alonguei neste ponto é porque penso que os líderes de uma nação, embora nem sempre tenhamos líderes que mereçam ser assim chamados, têm o dever de compreender não apenas o dano material, mas também o dano subjetivo dessas catástrofes sociais, ecológicas e humanitárias. Os líderes de uma nação não podem apenas fazer contas nem podem olhar a realidade como pura estatística. Os líderes de uma nação precisam, quando dispõem de um mínimo de empatia pela dor do outro, agir de modo a acolher e conter a angústia inominável do sofrimento pela perda real e imaginária que a catástrofe produziu.

No episódio a que assistimos há duas figuras paradigmáticas de liderança. O primeiro ministro Wilson, representado como uma figura sensível, tomada por uma consternação, dor e um sentimento de culpa pela falha do Estado. A rainha encarna aqueles que, perante a catástrofe, não conseguem empatizar ou se condoer. É interessante observar sua travessia ao longo do episódio, a partir da presença de um Wilson “terapêutico” que, sem acusar, ajuda-a a descobrir que não se trata apenas da razão, mas também do afeto. Não se trata de montar um espetáculo, mas sim de poder demonstrar uma emoção genuína.

Aos poucos percebemos que a rainha não é indiferente à dor e ao sofrimento gerado pela catástrofe, mas há uma limitação inerente a sua personalidade, que procurará reparar ao longo dos anos. A série sugere que ela sentiu remorso pela inação pessoal no momento da crise. Desde o ocorrido, Aberfan se tornou a cidade que ela mais visitou no Reino Unido.

A população de um país se sente desamparada quando seu ou sua líder falha em reconhecer a gravidade de uma crise humanitária e a ruptura que ela provoca no tecido social e da subjetividade. Ele precisa ao lado da demonstração de empatia, oferecer à população respostas concretas. O líder que não dá conta desse desafio não pode oferecer um futuro. Se os governantes e a sociedade não reconhecem e assumem as respectivas responsabilidades por aquilo que foi provocado, dificilmente o trauma poderá ser superado.

 

[1] Participação no debate sobre “Aberfan”, episódio da série “The Crown” (T3 E3) que dramatiza a semana seguinte à tragédia galesa. “Aberfan” foi discutido à distância, na edição de abril do Ciclo de Cinema e Psicanálise, evento promovido pela Diretoria de Comunidade e Cultura, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), pela Folha de S. Paulo e pelo MIS. O vídeo do debate está disponível no YouTube (clique aqui)

 

* Bernardo Tanis é psicanalista, Doutor em Psicologia Clínica. Presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

 

O que será que será?

*Luciana Saddi

Como falar de algo que não sabemos definir?

2020, tempos de Covid-19, dias de isolamento ou do eufemismo “afastamento social”. O frenesi habitual das ruas diminui, raros automóveis, baixos e esparsos ruídos. Comércio fechado, ruas vazias. A lentidão urbana prevalece em contraponto às palpitações diárias da população.  Jornalistas, políticos, colegas de profissão e pacientes falam que estamos em guerra como referência ao presente. “Front”, inimigo, ataque, defesa, insumos, armas químicas e biológicas, hospitais de campanha tornaram-se vocabulários frequentes, assim como vitória, derrota e terror. Escolher entre aqueles que podem viver e os que podem morrer se tornou assombração, fantasma, para muitos de nós – seja porque temos parentes trabalhando em hospitais, seja porque alguns de nós, possivelmente, enfrentarão tais desafios. A vida, hoje, imita a arte dos roteiros de filmes de terror e de guerra.

Mas se é guerra, qual o cenário de operações? Hospitais, enfermarias, UTIs. O contingente: enfermeiros e técnicos de saúde; os que estão na “linha de frente”. Na operação de logística e suprimentos, que sustenta as tropas. Cientistas, incansavelmente, vasculham soluções tecnológicas para cuidar dos doentes e diminuir o grau de letalidade. Uma hipotética vacina, ainda que esteja no futuro, é o graal da atualidade! Epidemiologistas, matemáticos, sociólogos e demógrafos são parte integrante do setor de inteligência e planejamento. Testes de laboratório são munição para a informação. Cloroquina? Tiro de festim. Isolamento é tática e estratégia.  O “esforço de guerra” agora é antítese, deve-se paralisar boa parte da atividade econômica.

Estranho, se guerra, sem um único disparo. Há, porém, outras dificuldades para manter a “guerra” como metáfora apropriada.  O isolamento independe da coerção do Estado, o medo nos empurra.  O “exército” ainda não nos tomou como inimigos, nos antecipamos às ordens e entendemos que é o melhor a fazer – talvez a única e desesperada opção no momento em que a propagação do vírus ameaça toda a sociedade. O vírus é o inimigo comum e apenas cooperação, articulação e solidariedade entre países, políticos, cientistas, laboratórios da indústria farmacêutica e, surpresa, até bancos podem contribuir para o enfrentamento da ameaça.

Antigamente, os jornalistas de guerra diziam que a verdade é a primeira vítima nos conflitos. A liberdade associa-se à verdade dessa maneira, ambas são as primeiras baixas do presente.  Em tempos de Covid-19 verdade, liberdade e solidariedade estão unidas. Não há como esconder as mortes e disfarçar os erros estratégicos cometidos pelos países e cidades no combate ao vírus. Como expressa o pensador italiano, Massimo Recalcati (jornal La Repubblica, 14 de março): “a liberdade em tempo de coronavírus não pode ser vivida sem o sentido da solidariedade. Eu me isolo por mim e por você. Você se isola por você e por mim.”

Refletindo, ainda, sobre a dificuldade em encontrar metáforas para tempos de Covid-19 impossível não lembrar das palavras de Svetlana Alexandrovna Aleksiévitch, escritora e jornalista bielorrussa, ganhadora do Nobel de Literatura em 2015. No livro “Vozes de Tchernóbil – A história oral do desastre nuclear”, Svetlana argumenta que a palavra guerra foi usada para designar a luta contra a radiação e seus efeitos. No entanto, se pergunta, que guerra foi capaz de contaminar o solo e as águas de todo um país por um ou dois mil anos? Tornar um território completamente morto, embora plantas e animais insistissem em permanecer e prosseguir. Que guerra impediu para sempre a entrada de pessoas nesse território ou dele retirou todos os seres humanos sem nenhum pertence? Nem em Hiroshima e Nagasaki, segundo Aleksiévitch, as consequências foram tão duradoras. O tempo adquiriu um outro sentido e a palavra guerra não pode dar conta desses acontecimentos. A escritora consumiu mais de vinte anos para escrever sobre o desastre atômico. Faltavam palavras, faltava compreensão. Foi preciso esperar o assombro decantar.

Como falar do novo desconhecido? Do que não tem nome, nem nuca terá? A poesia como transcendência cria novos sentidos.

Espero que o “novo” coronavírus e suas consequências não traga, nem de longe, o caráter de destruição que Svetlana expõe em sua obra. Não conheço a economia parada, o silêncio do mundo. Nunca vivi tal tempo nem conheço quem o tenha vivido antes. Os antigos que experimentaram as guerras do século XX já se foram, quase todos. Havia o “blackout”, mas por quanto tempo? Desconheço o isolamento social, o confinamento como política de Estado. A distância envergonhada e medrosa que temos uns dos outros. A solidariedade com os mais velhos e vulneráveis preenche a vida de jovens que até ontem queriam apenas se divertir – também desconhecia essa forma da força de vida se expressar. Nunca estive na guerra. Nunca vi São Paulo em tempo de espera. Um mundo sem consumo e comércio de futilidades. O que importa é comida e remédios. Ainda não chegamos ao “salve-se quem puder”, pelo menos até agora. As oscilações vertiginosas da Bolsa talvez não sejam a metáfora indicadora da retração econômica de agora nem da que virá.  Pouco sabemos sobre o hoje e menos sobre o amanhã. Como cantou o poeta: “amanhã ninguém sabe.”

Talvez a metáfora da guerra não seja adequada ao presente. Mais parece com um trapo do que uma roupa, somente esconde partes do corpo, não serve para vestir. Entendo que o presente sempre nos escapa. Precisaremos, de mais tempo ainda para encontrar as melhores palavras e designar o momento e responder: o que foi feito da vida?

O conceito psicanalítico de elaboração trata da procura de sentido para uma experiência traumática. O trauma percorre um longo caminho até que a elaboração o dome minimamente, o civilize. A prática nos ensina que algumas experiências adquirem tal magnitude, causam tantos danos, que a elaboração nunca termina. Nesse sentido o Covid-19 veio para ficar. No sentido biológico desejo vida breve ao vírus.

*Luciana Saddi é escritora e psicanalista, membro efetivo, docente e diretora de Cultura e Comunidade da SBPSP. Mestre em Psicologia Clínica pela PUC/SP. Autora de Educação para a Morte, ed. Patuá, coautora de Alcoolismo, Ed. Blucher, dentre outros livros e artigos publicados em revistas especializadas. Coordena junto ao MIS, com apoio da Folha de S. Paulo, o Ciclo de Cinema e Psicanálise “Mal-Estar na Civilização e Formas Contemporâneas de Sofrimento”. Também coordena junto à Livraria da Vila a série “Encontros sobre o Mal-Estar na Civilização”.

Nara: a menina invisível dos olhos fugitivos

Prefácio

Mirian Malzyner, autora e ilustradora deste belo livro para crianças, remete-nos à estória de Nara e nos conduz de forma lúdica a entrar na vida real da autora por meio da imaginação.

Nara enfrenta o estrabismo e a timidez, desafios que a fazem sentir-se diferente de outras crianças. Com belíssimas ilustrações e enredo, os conflitos e a imagem de si mesma vão sendo apresentados. Há uma questão física e uma psicológica. O “olhar fugitivo” – forma brincalhona que Mirian usa para ilustrar o estrabismo – torna-se um problema. O olhar da mãe reflete sua preocupação, o que contribui para a timidez da menina. É quando a busca pela invisibilidade surge como forma de proteção. Por meio dos sonhos e de sua capacidade imaginativa, Nara, que só era colorida pelo lápis vermelho em seu rostinho, descobre como usar outras cores e desenvolve o desejo de tornar-se visível.

Os olhos fugitivos de Nara contam a história de Mirian, que passada a experiência da infância, mergulha na profundidade e complexidade do mundo psíquico do ser humano, pois se torna psicanalista. O tempo passou, mas a imaginação ainda potencializa sua capacidade artística. Usando cores, pintando quadros, escrevendo livros… Criando um universo em que lápis de cor e tintas coloridas apontam para sua vitalidade e visibilidade.

Acompanho Mirian há muitos anos e é visível sua dedicação a tudo que se propõe e ama. Sempre interessada em pintar figuras humanas, com estilo próprio, onírico e singular. Como artista plástica e psicanalista faz uma ótima combinação entre razão e imaginação.

Este livro, além de encantador, pode ser útil, pois possibilita diálogos que fortalecem a autoestima de crianças que vivem numa condição que as difere das demais. A criança pode sentir-se inadequada por ser diferente, tende a se apagar e a tornar-se invisível. Talvez, o lápis vermelho da timidez tenha sido amigo de Nara, já que, mesmo de uma forma difícil, mostrava que algo acontecia dentro dela. Vermelho é cor de emoção e é preciso confiança para permitir que outras cores apareçam.

Quando Nara se torna colorida, pode rir e gargalhar pela “simples” alegria de se sentir viva e visível. Penso que só é possível sentir a felicidade quando a vida ganha sentido e quando a criança pode ser e existir, para si e para o outro.

Marlene Rozenberg

Psicanalista, membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

Uma ilusão de ter a mesma ilusão

Regina Maria Rahmi

Em O Mal-estar na Civilização (1930/2010), Freud faz uma importante ligação entre subjetividade e cultura, enfatizando o sofrimento psíquico diante da impossibilidade de o amor conseguir uma completa satisfação quando o prazer está ligado à escolha amorosa. Para ele, o sofrimento aparece como consequência do desprezo, da perda de um laço amoroso.

No auge do enamoramento, borrando-se as fronteiras entre o eu e o outro, os amantes agem por vezes como se fossem um só. Em “Eu te amo” (1980), Chico Buarque canta:

Se nós, na travessura das noites eternas

Já confundimos tanto as nossas pernas

Diz com que pernas eu devo seguir

Adentrando-se um território de complexidades e incertezas:

Gradiva é nome do livro de Jensen analisado por Freud (1907/1996). Nele, o autor narra a história do jovem arqueólogo Norbert Hanold, que descobre, num museu em Roma, um relevo que o atrai e do qual obtém uma cópia em gesso. A escultura representa uma jovem caminhando, cujo vestido esvoaçante deixa entrever seus pés calçados em sandálias. O interessante aí é o que o relevo desperta em Norbert. Com o resultado de suas fantasias, o arqueólogo conclui que o modo de andar da Gradiva não é encontrável na realidade, o que o enche de tristeza e desânimo. Pouco depois, tem um sonho no qual eles se encontram em Pompeia, no dia da erupção do Vesúvio, testemunhando a destruição da cidade. A Gradiva desaparece, e Norbert continua procurando por ela, no decorrer do texto Freud faz importantes considerações a respeito se ele estaria vendo, delirando ou sonhando. Posteriormente, em um longo e complexo processo, o rapaz começa a tecer uma ligação entre a Gradiva e um amor de sua infância, Zoe. Ele havia associado a mulher idealizada, a Gradiva que o fascinava à menina da infância. Como triunfo do amor, aquilo que era belo nos seus sonhos foi finalmente reconhecido.

As lembranças das relações infantis de Norbert com a amiga de andar gracioso estavam no esquecimento. Diante do achado arqueológico, o que ele viu tinha ligações com a imagem do passado.

O herói da Gradiva é um enamorado. Ele sonha/delira o que outros apenas evocariam. A Gradiva, figura daquela a quem ele ama, é percebida como pessoa real. Zoe não quebra imediatamente essa ilusão, não o acorda bruscamente do sonho.

No território da arqueologia amorosa, busca-se encontrar as marcas dos primeiros amores, repetições de experiências infantis presentes nas escolhas amorosas e, de maneira singular, o desejo do reconhecimento e do amor do outro. Seria a órbita narcísica inerente ao amor?

Entre o encanto do encontro e a desilusão que se apresente, o outro encontrado nem sempre se mantém como o Outro sonhado. Com isso, surgem algumas indagações: qual é o grau de tolerância ante a percepção de que o outro tem existência própria e não alberga somente nossas projeções? Qual é o espaço para a alteridade?

Nas relações afetivas, pelo encontro de duas subjetividades, a turbulência estará sempre presente, embora nem sempre explicitada – suas origens são desconhecidas. Tomo como exemplo uma cena comum. Após uma calorosa discussão, um diz ao outro: “Afinal, por que mesmo estamos discutindo?”

No conflito, provavelmente o desconhecido implícito esfumaçou o conhecido explícito. Pela interferência do desconhecido em nós, e no outro também, surgem inquietações e novas descobertas. O jogo entre implícito e explícito talvez seja a chama da tolerância e da curiosidade em relação ao outro que se apresenta.

Em “Arte de amar” (2013, p. 224), Manuel Bandeira diz:

As almas são incomunicáveis

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo

Porque os corpos se entendem, mas as almas não

Referências

Bandeira, M. (2013). Antologia poética. São Paulo: Global.

Buarque, C. & Jobim, T. (1980). Eu te amo [Gravada por Chico Buarque]. In Chico Buarque: vida [LP].

Polygram; Philips. Recuperado em 4 jul. 2019, de http://www.chicobuarque.com.br/letras/euteamo_80.htm.

Freud, S. (1996). Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, Trad., Vol. 9, pp. 17-88). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1907) Freud, S. (2010). O mal-estar na civilização. In S. Freud, Obras completas (P. C. Souza, Trad., Vol. 18, pp. 13-122). São Paulo: Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1930)

 

 

Regina Maria Rahmi é Psicanalista, Membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, integra a Diretoria de Cultura e Comunidade da SBPSP, a Diretoria de Atendimento à Comunidade da SBPSP e o corpo editorial da Revista IDE.

Da somatização, seus genéricos e afins

Abigail Betbedé

Quem alguma vez não passou mal antes de uma ansiada viagem ou uma prova? Sentiu dores inexplicáveis que assim como vieram foram embora ou padeceu de uma dessas doenças terminadas em –ite (gastrite, bronquite, colite e assim por diante) acompanhada do adjetivo “nervosa” ou caracterizada como “de fundo emocional” por um período mais prolongado? Somatizar é comum e muito frequente. Desde a tenra infância, a somatização é a primeira e mais primitiva maneira de expressar nossos mal estares; desde a época em que não sabíamos reconhecer nossas emoções, nem expressar sentimentos através da palavra e nos comunicávamos com corpo. Se bem intuitivamente estamos familiarizados com a ideia da somatização, em termos conceituais acaba por ser um verdadeiro ‘balaio de gato’.

Somatização é um termo vago e genérico utilizado, tanto popularmente quanto na academia, para nomear mecanismos, sintomas e estados mórbidos cuja manifestação é uma queixa orgânica. Traz em si a idéia de ser algo que se expressa através do corpo, mas que não se sabe ao certo o que é, nem qual seria sua ‘verdadeira’ origem. Aqui se abre um grande leque − incluindo as perspectivas de pacientes e profissionais − que vai desde quem acredita na etiologia concretamente orgânica dos sintomas, até quem se permita pensar na participação de outros fatores menos evidentes, passando por aqueles que nem registraram que estavam doentes. Quando existe a possibilidade de estabelecer uma ligação com o mundo emocional, vislumbra-se a existência da ordem psíquica e a necessidade de trabalhar num campo que leve em consideração o conteúdo latente, além do conteúdo presente no manifesto dos sintomas somáticos. Eis o terreno onde a psicanálise tem muito a oferecer.

Desta forma, sendo mais específicos, a somatização nos remete a uma região fronteiriça cuja especificidade é a de enlaçar eventos psíquicos e eventos somáticos. Uma fronteira que resulta ser nada mais, nada menos, o cerne da psicanálise. Caminho inverso, sabemos que a pulsão é o conceito psicanalítico fronteiriço par excellence. O ‘pulo do gato’ freudiano que permitiu imaginar como a excitação puramente somática, necessariamente significada, se transformaria em material psíquico. Esse é o alicerce metapsicológico que sustenta como se dá (ou não) a qualificação do somático em psíquico nos albores do ser, marcando o nascimento do corpo − que é o soma psiquisizado. Tomaremos esse marco referencial para as considerações a seguir, que visam chamar a atenção sobre as queixas somáticas que surgem cotidianamente na clínica.

Como mecanismo de defesa a somatização denuncia uma demanda que não conseguiu ser tramitada psiquicamente, servindo o corpo como meio para estancar e circunscrever a sobrecarga afetiva, outorgando-lhe temporariamente um ‘nome de fantasia’. Assim, será possível falar da ‘dor de cabeça’ ou da ‘contratura nas costas’ sem sofrer a inundação da angústia derivada do conflito subjacente. O corpo entra de gaiato, enquanto o discurso oferece geralmente associações que permitem trazer à tona a mencionada conflitiva, escoar a angústia e atribui-lhe sentido; denotando um bom funcionamento do circuito representacional e uma estrutura egoica, que dará conta do gerenciamento pulsional.

Em um segundo nível encontramos queixas somáticas que caracterizam sintomas, cujo exemplo mítico e fundante da psicanálise é o sintoma conversivo histérico. O corpo entra em cena como coadjuvante de uma sofisticada trama que possibilita o retorno do recalcado através de uma solução de compromisso − resultado do embate entre a censura e o desejo − que cumpre com a satisfação das moções pulsionais, de maneira disfarçada. Graças à dissociação ideo-afetiva das moções, junto com a repressão do componente ideativo e o deslocamento do investimento afetivo em direção ao corpo, se garante o gozo na embalagem da belle indifférence: a gravidade do sintoma não angustia seu portador. Decifra-me ou te devoro, os sintomas carregam a marca dos anseios edipianos que, se são decifrados a tempo, tem chance de virar anedóticas curiosidades da biografia do sujeito. Caso contrário, sua perniciosidade poderá engolir − qual buraco negro − toda sua existência. O amor ao sintoma é proporcional ao amor à sua causa, tornando o desenlace desta tensa novela neurótica imprevisível.

O pai da medicina, Hipócrates, dizia há milênios que antes de tentar curar alguém precisamos saber se ele está disposto a renunciar àquilo que o fez adoecer, prenunciando, quem sabe, o que a psicanálise soube esclarecer: o sintoma tem um sentido. Não podemos simplesmente removê-lo. Esta é a região fronteiriça à qual me referi anteriormente que solicita a intervenção do psicanalista para devolver ao campo psíquico o que lhe pertence. Região onde analisar também é curar. Dentro do consultório nos parece obvio, mas fora dele tanto os pacientes quanto outros profissionais se desgastam em uma busca incessante de respostas, uma peregrinação sem fim que consome recursos de todo tipo, inclusive somas nada insignificantes dos cofres públicos. Dai a importância de não ficarmos desconectados de outras disciplinas e possibilidades de clinicar.

Conforme a psicanálise se desenvolveu, adentrou no campo não neurótico ampliando para o ‘mais além’ as bordas do mapa clássico da nosologia psicanalítica. Deparamo-nos com os vestígios do trauma. Clivagens. Um acervo representacional comprometido, pois as cicatrizes mnêmicas não são plásticas e não comportam a demanda pulsional. Faltam processos terciários e sobra excitação que não sendo comportada psiquicamente transborda, sendo um dos caminhos o curto-circuito somático. O desassossego impera.

O retorno do cindido se encena de maneira diferente. Trata-se daquela queixa desconexa, aquela dor, aquele déficit erguido, surda e solitariamente. Os órgãos, os membros, as partes se destacam: o fígado, a mão, a cabeça são os protagonistas. Escassas associações, precisamos resgatá-las com astúcia e/ou construí-las com imaginação. O soma é o porta-voz da tragédia que precisa ser auxiliado a significar. Parte do nosso trabalho passa pela validação do sofrimento que só poderá acontecer através do seu reconhecimento. Operamos a transformação de uma queixa somática em sofrimento ao atribuir-lhe qualidades psíquicas. O sujeito poderá assim apropriar-se do seu sofrimento, para sua posterior elaboração.

No Ambulatório de Transtornos Somáticos (SOMA)[1] recebemos pacientes ‘fim de linha do balaio do gato’. Sujeitos que depois de percorrerem anos de caminhos carregando no corpo e no soma suas novelas e tragédias, chegam à toca da psicanálise, um lugar improvável do SUS dentro de um marco institucional declaradamente biologista. Um lugar onde a leitura psicanalítica é chave para compreender seu sofrimento e interromper o ciclo de repetição. O SOMA cobra vida toda quarta-feira,  quando a porta da Sala 50 se abre para alojar as atividades de uma equipe multidisciplinar, com cerca de trinta profissionais que ad honorem se reúnem para escutar esses indivíduos e problematizar suas genéricas queixas somáticas, tornando-as matéria prima para o desenvolvimento de atividades académicas, assistenciais e de pesquisa.

Os R1 de psiquiatria realizam atendimentos sob uma cuidadosa supervisão que visa o desenvolvimento integral do médico; introduzir conceitos psicanalíticos que permitam a superação do dualismo corpo-mente, favorecendo a integração psicossomática; assim como contribuir em termos de modelo identificatório com a formação de profissionais capazes de reconhecer no paciente um sujeito único em seu modo de ser, adoecer e sofrer.

Para finalizar, aproveitamos a ambiguidade do terreno transitado, para diluir fronteiras, aproximar saberes e fomentar uma cultura de trabalho no marco do paradigma da complexidade que inclua novamente a psicanálise dentro do debate transdisciplinar da vida.

*Abigail Betbedé é médica psicanalista. Psiquiatra colaboradora do Ambulatório de Transtornos Somáticos – SOMA IPq HCFMUSP. Membro filiado ao Instituto da SBPSP, pós-graduanda em psicanálise pela Universidad del Salvador – Asociación Psicoanalítica Argentina.

 

[1] O SOMA pertence ao Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – IPq HCFMUSP.

PENSAMENTOS SELVAGENS

*João Carlos Braga

Como muitos conceitos e formulações, a expressão pensamentos selvagens é encontrada tanto sendo utilizada como parte do pensamento psicanalítico quanto em linguagem leiga. Em ambas utilizações, o significado da expressão é convergente, mas há especificidades em seu uso como um referente em Psicanálise. Será este último o enquadre do que se segue.

 A) COLOCANDO EM PERSPECTIVA.

A contribuição de Wilfred R. Bion (1897-1978) à Psicanálise pode ser resumida na proposta de estudar o papel do pensar e dos pensamentos na teoria e na prática psicanalítica. Para isso, delimita a atividade do analista à observação e formulação da experiência que vive com seu (sua) analisando(a) na sessão analítica; ou seja, o campo de formação, captação e operacionalização de pensamentos, assim como os processos do pensar.

Em sua teoria do pensar (1962), Bion propôs uma inversão na forma tradicional de compreendermos os pensamentos e sua gênese: os pensamentos existem antes do pensar e é sua existência que cria a necessidade de desenvolvermos um “aparelho para pensar”. Esta teoria limita-se aos pensamentos formados a partir da experiência do indivíduo, ou seja, os pensamentos de um pensador.

Após fazer expansões em sua visão da mente com a teoria das transformações (1965), Bion propõe um novo parâmetro para os pensamentos, possivelmente apoiando-se em Gotlob Frege (1918): pensamentos existem independentemente dos pensadores. São realidades com existência própria e cabe ao pensador deixar-se acessar por eles. Mais uma vez, uma inversão na perspectiva tradicional.

Refere-se a esta visão de pensamentos sem pensador em poucos trabalhos subsequentes. Dentre estes, em um momento de livre pensar, gravado em fita cassete ao se preparar para os seminários que iria fazer em Roma (1977), faz uma espécie de classificação dos pensamentos sem pensador: pensamentos extraviados, pensamentos com nome e endereço do autor e pensamentos selvagens.

B) PENSAMENTOS SELVAGENS

Em Domesticando pensamentos selvagens [1977 (2016), p.39] descreve os pensamentos selvagens como a nomeação de uma conjunção constante que reúne um grupo de pensamentos com as seguintes características: i) para os quais não há possibilidade  de traçar de imediato qualquer tipo de propriedade (autor) e ii) para os quais não há possibilidade de se tomar conhecimento da genealogia deste pensamento.

Além destas características descritas por Bion, gostaria de acrescentar que são pensamentos que irrompem na mente subvertendo a camada de pensamentos organizados (civilizados, então), advindos de um contato direto com a realidade ou do funcionamento somático-fisiológico do indivíduo (mente primordial), provocando estranhamento, estados de repulsa, de medo ou mesmo de terror.

Em Psicanálise, o pensamento pensamentos selvagens permanece sem uma conceituação suficiente para reivindicar um valor científico. Penso que foi uma tentativa de Bion de abarcar, em um nível de maior abstração, diferentes manifestações diretas de pensamentos sem pensador. Penso também que o curto período em que esta concepção aparece em suas formulações (maio de 1977 a abril de 1978), deixa entrever o pequeno interesse do autor por ela. Por exemplo, não identifiquei registros de que ele a tenha utilizado, explicitamente, em supervisões em 1978, em São Paulo. Pode, porém, deliberadamente, tê-la deixado obscura, evitando conceituá-la para não a engessar, como nos apontou em várias passagens sobre cuidados na apropriação de pensamentos com características não simbólicas; ou que não identificou nela um maior potencial para explorações psicanalíticas. De fato, a aquisição de uma condição científica tornaria esta concepção pouco útil na prática clínica voltada ao tornar-se a realidade, embora seja útil para a comunicação entre psicanalistas – a dimensão do conhecer, pois.

Há três concepções de pensamentos selvagens que podemos deduzir convivendo nesta conjectura de Bion:

  1. Pensamentos selvagens são pensamentos sem pensador capturados por um pensador – ou que capturam o pensador – sem história prévia de fazer parte do campo de conhecimento humano. Neste sentido, psicanálise, ao ser concebida e formulada por Freud, seria um exemplo. Situações clínicas em sessões analíticas, próprias a um evento único, seriam outros exemplos.
  2. Pensamentos selvagens são pensamentos sem pensador que se extraviaram na dimensão do conhecer, que ainda não foram domesticados pelo indivíduo que os captura (ou que por eles é capturado), embora já tenham sido anteriormente domesticados e formulados por autores conhecidos pelo pensador. O próprio pensamento pensamento selvagem pode ser um bom exemplo desta compreensão: um pensamento sem pensador extraviado, com proprietário (Bion) e endereço (Domesticando pensamentos selvagens, 1977), mas que é selvagem para o indivíduo que ainda não tomou conhecimento desta formulação.
  3. Pensamentos selvagens são pensamento sem um pensador que se extraviaram e que aparecem no campo do conhecer, sem que nele tenham adquirido um pensador ou que por este ainda não tenham sido adquiridos. Nesta compreensão, pensamentos selvagens seriam equacionados a coisas-em-si, a pensamentos sem pensador em estado originário, fora de nosso alcance e assim também fora de nossas possibilidades de com eles operar.

C) UM EXEMPLO CLÍNICO

Amália entra na sala de sessões, após nos encontrarmos na sala de espera, em um contato em que nada em especial chamara minha atenção. Seguindo-a, vejo-a sentada na beirada do divã fazendo movimentos de arrumar a blusa, ajeitando-a em torno do pescoço, com cuidado, para em seguida deitar-se. Cruza-me um pensamento inesperado: “arruma a gravata”. Fico surpreso e me percebo em um trabalho mental de fazer associações, de buscar significados em minha experiência de análise com ela. Ao tomar consciência deste esforço, busco manter minha mente livre, mas disponível para algum elemento que venha a surgir durante a sessão e que possa se conjugar com este pensamento e dar-lhe algum sentido. Nada digo a Amália sobre meu pensamento estranho.

João Carlos Braga é membro efetivo e analista didata da SBPSP e GPC.

 

O Duplo: permanência e transitoriedade

*Ignácio Paim Filho

XXVII Congresso Brasileiro de Psicanálise – 2019

O Estranho – Inconfidências

 

A verdade, porém, é que o escritor verdadeiramente criativo jamais obedece a essa injunção. A descrição da mente humana é, na verdade, seu campo mais legitimo; desde tempos imemoriais ele tem sido um precursor da ciência e, portanto, também da psicologia cientifica (Freud. 1907,)

 

São Paulo, 30 de novembro e 01 de dezembro de 2018. Nestas datas, a FEBRAPSI e a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo promoverão uma atividade conjunta, com o objetivo de trabalhar a temática do próximo congresso brasileiro, que ocorrerá em Belo Horizonte, de 19 a 22 de junho de 2019.

Nessa oportunidade abordaremos, com especial atenção, o intrigante fenômeno do Duplo (alma imortal?) exercitando um diálogo interrogativo entre a metapsicologia, a clínica e a literatura. Por esse intercurso pretendemos abordar o estranho processo pelo qual ocorre a constituição do Eu, no seu trânsito entre Narciso e Édipo, com seus mandatos endogâmicos e exogâmicos.

Freud (1919), com um objetivo semelhante, faz uma interlocução com Hoffmann, através do Homem de Areia, que legitima sua sinistra afirmação de 1907, em relação os escritores criativos: precursor da ciência, ou ainda, da psicologia cientifica. Prenuncio da sua celebre confidência, com certa dose de inconfidência, de 1922, em relação à Schnitzler: Acho que evitei o senhor por causa de uma espécie de relutância em conhecer o meu duplo. Modo próprio, de usar si como objeto de estudo, visando ratificar a sua busca, para fazer do estranho, exemplificado no duplo, um conceito especifico. Nesse sentido segue: […] suas reflexões sobre a polaridade do amor e a morte, tudo isso me comoveu com inquietante familiaridade (Freud, 1922).

Por meio de uma fértil interação com o mestre da literatura fantástica, Freud, tal qual Schnitzler, vai explorar as profundezas psicológicas que estão implicadas nas vicissitudes pulsionais de Natanael: do representável ao irrepresentável. O estranho se apresentado em suas diferentes roupagens, desacomodando a lógica do processo secundário, permitindo que venha a luz o secreto, de forma clandestina, com seus inebriantes mistérios. Nosso enigmático protagonista desliza em meio a figuras – Pai/Coppelius; Olímpia/Clara; Coppola/Spalanzani – com os quais estabelece uma relação de complementariedade, que dão voz ao conhecido/desconhecido em si: revelando o duplo, em seu aspecto protetor, garantia de viabilizar uma existência para Eu e o tanático, quando da sua persistência não metabolizada (sombra do objeto?). Por esses caminhos a temática da cisão, o mais além do recalque, se presentifica. A renegação começa a desenhar o seu lugar na estruturação anímica: enérgico desmentido do poder da morte (Rank, 1914). Diante dessas considerações poderíamos compreender o duplo como tendo seu destino determinado pela pulsão de apoderamento das figuras parentais? Império do ser em detrimento do ter? Permanência e transitoriedade tecendo o elo entre Eros e destrutividade?

Na narrativa do Das Unheimliche (1919), o escritor/analista Freud, tal quais os escritores criativos, vai convidando o leitor a deixar-se levar por essa experiência estética: a importância de viver em si essa peculiar sensação. A qualidade do sentir no intercâmbio entre o repulsivo e o doloroso, vai gerando estranhamentos e anunciando a problemática da eterna repetição do mesmo. A castração, marca do corte, vai sendo teatralizada, entre ser reconhecida e não conhecida, na vida fantasmática dos personagens do conto de Amadeus Hoffmann, gerando dúvidas quanto à veracidade dos fatos: fantasia ou realidade?

Esses são alguns apontamentos, que deixo registrado, na expectativa que sejam propulsores do desejo de revisitar o pensamento freudiano. Tendo como sinalizador a inquietante recomendação: Olhar as mesmas coisas repetidas vezes até que elas comecem a falar por si mesma (Charcot, citado por Freud, 1914).

Abraços, até breve.

Aguardamos vocês

Ignácio Paim Filho é psicanalista, membro titular da  SBPdePA (Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre) e diretor cientifico da FEBRAPSI.   

Sobre o incêndio no Museu Nacional

Nós, psicanalistas da SBPSP, consternados com o acontecido com o Museu de História Nacional, endossamos a carta da Federação Brasileira de Psicanálise abaixo publicada.

Acontecimentos como este devem alertar os poderes públicos e a sociedade como um todo para importância da preservação e conservação dos nossos acervos de memória histórica e cultural. Fatos como este – assim como em outras esferas, a traumática tragédia de Mariana – não podem ser vistos como acidentes. Eles acendem uma luz vermelha sobre o descaso com o nosso patrimônio histórico cultural e nossa população.

Bernardo Tanis

Presidente da SBPSP

Carta aberta à comunidade científica, endereçada ao presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC:

A Federação Brasileira de Psicanálise – FEBRAPSI sente imensa perplexidade pela tragédia que se abateu sobre o mais antigo patrimônio histórico do Brasil. Sua dor e sua tristeza ecoam em todo Brasil. Muito de nós, ainda crianças, fomos a este museu e com olhos ávidos de curiosidade olhamos as múmias, pela primeira vez na vida, os imensos esqueletos, que naquela época ainda ficavam maiores diante de nosso pequeno tamanho. O que dizer da sensação de estar no local onde monarcas viveram, as louças, os adereços e as roupas? Tudo nos ensinava como numa época mais antiga as pessoas se vestiam e viviam. Nunca esquecemos e nem esqueceremos esta primeira visita. Mais tarde, levamos nossos filhos que, para nossa alegria, também se inebriaram com a beleza e riqueza deste museu, testemunha viva de nossa história. Hoje, perplexos percebemos que não poderemos mostrar este museu do jeitinho que nós o vimos pela primeira vez. Apesar da luta de vocês por todos esses anos, muitas preciosidades foram perdidas. Perdas irreparáveis! Não valorizar o passado é perder a memória e com isso a própria identidade. Perde o Brasil mais uma vez.

Aproveitamos para parabenizá-los pelo esforço de todos vocês em manter e proteger durante todos esses 200 anos esta relíquia que é o Museu Nacional.

Anette Blaya Luz
Presidente

Rosa Maria Carvalho Reis
Secretária Geral

Foto: O Estado de S. Paulo

Somos mais realistas que os reis?

* Noemi Moritz Kon

19 de maio deste ano foi marcado pela transmissão midiática em escala planetária da cerimônia de casamento entre o príncipe Harry e a atriz Meghan Markle na Capela St. George, em Windsor, Inglaterra. Foram muitos os detalhes que desafiaram simbolicamente convenções antes inquestionáveis de eventos deste porte envolvendo a Coroa britânica, talvez hoje a mais tradicional e cultuada das realezas que ainda subsistem nos Estados modernos. Uma linda princesa norte-americana, trajando um vestido esteticamente simples, sem brilhos ou adereços, chega acompanhada exclusivamente pela mãe, Doria Ragland, professora de ioga, que, com seu penteado rastafári, vestia um traje de cor semelhante ao da rainha.

Meghan Markle atravessa a nave da Capela St. George sozinha, sem a presença usual do pai – branco – ou qualquer outra pessoa. Durante a cerimônia, o coral gospel The Kingdom Choir, formado majoritariamente por músicos negros, entoa Stand by Me, do cantor de soul Ben E. King, conduzido pela maestrina Karen Gibson, também negra. Ouvimos surpresos, ainda, o sermão do reverendo Michael Curry – ele também negro – que inicia sua fala citando o maior ícone da militância pacífica negra dos Estados Unidos, Martin Luther King Jr.: “Nós precisamos descobrir a força redentora do amor e, quando fizermos isso, faremos desse velho mundo um mundo novo”.

Que beleza! Que espetáculo! Quantos marcadores sociais de opressão, raça/cor, gênero e classe foram colocados em evidência e, de alguma forma, em xeque nesse momento de comoção ritual! (Evidentemente, nada do que foi exibido escapou aos rigores do protocolo da realeza. Nenhum desses detalhes foi mera coincidência).

Para além de um possível e esplêndido golpe publicitário, minha ingenuidade fez-me pensar em como nós da colônia, nós psicanalistas brasileiros, temos sido mais realistas, mais embevecidos com as insígnias da realeza e da aristocracia, do que os próprios reis. Em como nossa comunidade tem se mostrado conservadora, desatualizada, mantendo-se presa ao “Velho Mundo”. Em como sustentamos, cultivamos e promovemos, naquilo que temos produzido – ou no que não temos produzido –, uma teoria, uma ação e um discurso eivado de valores ideológicos elitistas e meritocráticos, que se protege e se justifica ao fazer-se passar por um discurso científico, a-histórico e universal, um discurso neutro, não contaminado pelas variáveis raça/cor, gênero/orientação sexual e classe.

Ora, não há mais como manter e defender esse tipo de posição; precisamos retomar urgentemente nossas reflexões críticas.

Não somos tão multicoloridos como deveríamos ou poderíamos ser; não somos tão abertos à sexualidade e às suas manifestações, nem mesmo à equidade entre gêneros, como deveríamos ou poderíamos ser; não somos tão receptivos à diferença de classe como poderíamos ou deveríamos ser.

Basta observar o público de nossos encontros e congressos – os nossos rituais -, para verificar que não correspondem à proporcionalidade da distribuição demográfica racial brasileira, com seus mais de 50% de negros e pardos, e que tampouco correspondem aos índices de distribuição de renda, pois somos uma elite também econômica, e congregamos uma porcentagem bem maior de pessoas que recebem mais de 27 mil reais ao mês, o que nas estatísticas da população brasileira conforma seu 1% mais rico.

As mulheres são hoje 51% da população do país, mas entre nós, psicanalistas, a distribuição parece ser bastante diferente: o número de mulheres que preenche os assentos das plateias em nossas reuniões e aulas é bem maior do que a de homens. O mesmo não parece acontecer com relação à distribuição dos lugares de poder e fala, ocupados, preferencialmente, por homens, brancos e, provavelmente, héteros e cis. Neste quesito, em particular, nossos indicadores não diferem sobremaneira dos da nossa sociedade patriarcal e falocêntrica.

Nossa produção teórica, nossa clínica e o funcionamento de nossos centros, departamentos e sociedades parecem também não se coadunar muito bem com o retrato obtido pelos institutos de pesquisas socioeconômicas: quem são nossos analisandos, qual é a sua renda, a sua profissão, o seu nível educacional, a sua cor? Quem são os que procuram as instituições psicanalíticas para avançar em sua formação? Quem prioritariamente ocupa os lugares de poder em tais instituições? Sobre quem falamos em nossos textos? Onde se localizam nossos consultórios? Qual o valor cobrado em nossos cursos e em nossas consultas e supervisões?

Atendo-me aqui no marcador de diferença raça/cor, com o qual venho trabalhando mais detidamente nos últimos tempos – mas o raciocínio poderia ser também aplicado aos outros marcadores de desigualdade -, é possível perceber como temos abusado do “esquecimento” de nossa história, da barbárie brasileira que se instaurou com o genocídio dos índios – 5 milhões em 1500, não mais de 850 mil hoje, segundo dados do IBGE – habitantes destas terras, que se prorrogou nos quase 400 anos de escravização mercantil, e que transformou mulheres e homens em objetos, em mercadorias (bens semoventes, como os escravizados eram denominados). Como temos trabalhado tão pouco as questões contemporâneas derivadas de tais processos históricos que conformaram tanta disparidade de oportunidades, e como temos, assim, acalentado por meio da negação e da recusa, a manutenção de privilégios – nossas casas grandes e nossas senzalas -, justificando a desigualdade como o simples resultado de diferenças individuais naturais que, obviamente, se presentificariam em nosso dia a dia.

Não devemos fazer pouco do que aprendemos em nossas boas escolas e, dessa forma, esquecer que o sistema escravocrata, pilar da economia colonial que sequestrou e trouxe ao Brasil mais de 4,5 milhões de africanos – cifra que representa 46% dos que foram escravizados naquele momento –, cerca de 12,5 milhões de africanos e africanas entre os séculos XVI e XIX, fundou e estruturou, desde nossa origem, um estado de violência e exploração, que produziu e continua produzindo marcas profundas em todos nós brasileiros, mas que recaem discriminatoriamente sobre os mais de setenta milhões de cidadãos negros e pardos – que de acordo com o atual senso demográfico conforma a maior população negra fora da África, o segundo maior contingente de afrodescendentes do mundo, número só inferior ao da Nigéria –, estabelecendo uma condição inescapável e inaceitável de desigualdade e subjugação, que arma nosso cotidiano público e doméstico e que é evidenciada, de maneira inequívoca, em todos os indicadores sociais: saúde, longevidade, salário, emprego, distribuição de renda, educação, moradia, transporte, segurança, justiça e direitos civis1.

Nós, o último país a abolir a escravidão mercantil da era moderna – dois anos depois de Cuba e mais de 20 anos depois dos EUA –, ao que parece, temos apenas ampliado as mesmas estatísticas, estabelecendo mais e mais desigualdades entre nós, dando corpo ao racismo estrutural que vigora em nosso país e que estabeleceu nosso modo de convivência mesmo depois de 130 anos da promulgação da Lei Áurea.

Como podemos nos organizar diante de tudo isso? Qual pode ser nossa participação? Pois sabemos que estamos matando gerações de negros e negras (e indígenas) no Brasil e não apenas por dar fim a seus corpos2. Temos assassinado, igualmente, suas almas, seu psiquismo.

O evento O racismo e o negro no Brasil: questões para a psicanálise promovido pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, em 2012, e o livro que dele se originou, lançado pela editora Perspectiva em 20173, são parte de um movimento, ainda incipiente, para tornar mais evidentes as marcas do racismo institucional que se revela também entre nós, psicanalistas brasileiros.

Foram ambos frutos de um grande esforço de superação de resistências para que pudéssemos assumir o quanto temos negligenciado pensar sobre a potência de destruição e morte que compõem as formas de preconceito e discriminação estabelecidos contra grupos que são ativamente excluídos, excluídos também da oportunidade de desfrutar do que a psicanálise tem para oferecer: a liberdade possível e a ética de nosso desejo. Raros eram (e ainda são) os estudos psicanalíticossobre o preconceito contra o negro no Brasil; pudemos, naquele momento, contar com a reflexão oferecida por outras disciplinas – a história, a sociologia, a política, a educação e as artes – para, aos poucos, nos localizar e iniciar um movimento de apropriação, desalienação e, tomara, de contribuição. Esse meu texto, escrito a convite do blog da Sociedade Brasileira de Psicanálise, ao qual agradeço, tem a ver com o reconhecimento da relevância desse movimento para além da comunidade de psicanalistas formada pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. E isso é importante.

Temos procurado dialogar mais, aprender mais com nossos colegas engajados nos movimentos de proteção e valorização do negro para, a partir dessa nova qualificação, construir parcerias e ações que viabilizem a formação de um número maior de psicanalistas atentos à questão racial e a seus efeitos sobre o psiquismo de todos os brasileiros. É só um começo, e ainda há muito a fazer.

Quem sabe essas iniciativas permitam que nos próximos anos possamos estabelecer um verdadeiro encontro, mais colorido, mais equânime, mais vitalizado pelas diferentes diferenças, e que o som ao nosso redor , que tem nos ensurdecido em sua desarmonia, torne-se ato de tradução de Stand by Me, a canção entoada no casamento real, e que nos postemos todos juntos, lado a lado, um pelo outro, por sermos brasileiros, por sermos humanos, por sermos.

[1] Vale a pena conhecer o manual produzido pelo IPEA (Instituto de Política Econômica Aplicada), Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça in http://www.ipea.gov.br/retrato/pdf/revista.pdf

[2] O Atlas da violência 2017 do IPEA indica, por exemplo, que de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. http://www.ipea.gov.br/portal/images/170602_atlas_da_violencia_2017.pdf.

[3] Kon, N.M., Silva, M. L. e Abud, C.C., O racismo e no negro no Brasil: questões para a psicanálise, S. Paulo, Ed. Perspectiva, 2017.

[4] Vale a leitura de trabalhos inaugurais de Neusa Santos Souza e Isildinha Nogueira Baptista no campo da psicanálise: Souza, N.S.,Tornar-se negro, Ed. Graal, 1a.edição, Rio de Janeiro. 1982. https://escrevivencia.files.wordpress.com/2015/02/tornar-se-negro-neusa-santos-souza.pdf e Baptista, I. N. Significações do corpo negro, tese de doutorado defendida no IPUSP no Departamento de Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano, 1988. http://psicologiaecorpo.com.br/pdf/Isildinha%20Baptista%20Nogueira-Significacoes%20do%20Corpo%20Negro-1.pdf, acessado em 13/01/2016

 

*Noemi Moritz Kon é psicanalista, Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, Mestre e Doutora pelo Departamento de Psicologia Social do Instituto de Psicologia da USP e autora de Freud e seu Duplo. Reflexões entre Psicanálise e Arte, S. Paulo, Edusp/Fapesp, 1996, A Viagem: da Literatura à Psicanálise, São Paulo, Companhia das Letras, 2006 e organizadora de 125 contos de Guy de Maupassant, São Paulo, Companhia das Letras, 2009 e co-organizadora com Cristiane Curi Abud e Maria Lúcia da Silva de O racismo e no negro no Brasil: questões para a psicanálise, S. Paulo, Ed. Perspectiva, 2017. Professora do curso de pós-graduação: “Conflito e Sintoma: Clínica Psicanalítica” do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae

A SBPSP manifesta seu apoio às cartas das organizações psicanalíticas federadas FEBRAPSI e FEPAL, nas quais é denunciada a recente manifestação de violência contra crianças migrantes e suas famílias por parte do governo dos Estados Unidos

A Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo manifesta seu apoio às cartas das organizações psicanalíticas federadas FEBRAPSI e FEPAL, nas quais é denunciada a recente manifestação de violência contra   crianças migrantes e suas famílias por parte do governo dos Estados Unidos. Transcrevemos a seguir o Pronunciamento da Presidente da Associação Psicanalítica Internacional, Dra. Virginia Ungar, ao qual declaramos nossa total adesão.

Bernardo Tanis

Presidente da SBPSP

 

Pronunciamiento del Presidente de la API con respecto a la Violencia hacia Niños Migrantes

Las noticias que han circulado por los medios sobre la terrible decisión de separar a los hijos de inmigrantes de sus familias en Estados Unidos han puesto el foco en una desoladora situación de maltrato hacia los niños que ocurre también en otras latitudes, como el Mediterráneo, Medio Oriente y África, entre otras.

Hace varios años que la situación de los inmigrantes y sus familias es desesperante, pero lo ocurrido en Estados Unidos ha levantado la indignación mundial contra los que no respetan los derechos básicos de las personas.

La Asociación Psicoanalítica Internacional (API) ha creado espacios para estudiar a fondo el problema y también para ofrecer intervenciones basadas en la teoría y en la práctica psicoanalíticas. Hemos inaugurado recientemente una nueva estructura llamada API en la Comunidad, compuesta por varios comités entre ellos Migraciones y Refugiados, Organizaciones Humanitarias, Educación, Salud, y Violencia. Trabajan junto con el Comité de Análisis de Niños y Adolescentes y el Inter-Committee on Child Abuse y llevan adelante investigaciones y proyectos de acción comunitaria que buscan mitigar el dolor y la vivencia de desarraigo traumático producido por políticas que llevan a niveles no humanos a millones de personas.

Los pioneros del psicoanálisis como Sigmund Freud, Anna Freud, Melanie Klein, Donald Winnicott, Serge Lebovici y muchos otros que siguiendo el camino de los maestros, han buscado comprender el delicado balance del desarrollo psico emocional de los niños y la manera en que las situaciones traumáticas interfieren en el mismo.

Desde esta base, repudiamos cualquier forma de violencia contra niños y adolescentes que altere los parámetros cruciales de crianza en todo el planeta. Incluimos en ello las separaciones forzadas o precoces de la familia, la falta de cuidados básicos y de respeto por los derechos de niños y adolescentes. Como profesionales de la Salud Mental es nuestra obligación proteger a los niños y jóvenes y defenderlos de cualquier tipo de violencia y amenaza a su desarrollo.

Virginia Ungar, Presidente de API

Sergio Nick, Vicepresidente de API