relações humanas

Narciso sob a tinta

*Vera Lamanno Adamo

Por que publicamos experiências vividas na clínica? Escrevemos porque aquele algo da experiência vivida pode ser útil para pensarmos o que falta, o que ainda não foi dito? Escrevemos por conta do espanto? Para abrir um espaço onde se está sempre a desaparecer?

Uma paciente frequentemente dizia que a grande preocupação de um poeta era saber se aquilo que havia escrito era poesia. Na poesia, salientava, o autor está praticamente imperceptível. Por isso, insistia em afirmar que: “a crônica, uma espécie de diário, é considerada uma escrita de segunda categoria. Na crônica, o escritor está todo lá, sem nenhuma invisibilidade”. Para ela, poesia era fruto de um processo intelectivo altamente planejado e consciente, completamente desligado da pessoa do autor. O autor estaria completamente desaparecido por trás de sua obra.

Este argumento sobre o que considerava ser poesia era condizente com o seu ideal de eu fundamentado numa espécie de assepsia do ser. Obstinada a rejeitar qualquer alteração em si, nunca ou muito raramente perdia a paciência. Jamais uma palavra áspera para alguém. Não se queixava, não reclamava, não criticava ninguém, não se zangava com ninguém de maneira evidente. Não mostrava qualquer desapontamento em relação a mim ou em relação às pessoas de sua convivência.

Um dia ela me trouxe uma de suas poesias e ficou absolutamente inquieta ao perceber a totalidade de sua presença naquilo que escrevera. Desejo, conflito e fantasia estavam todos lá. É certo que sob a tinta e meio de canto, nas entrelinhas, enviesados. Mas estavam todos lá.

Cada vez que colocamos no papel uma experiência clínica, a questão da inclusão e exclusão do narrador naquilo que escreve se apresenta. Tomado por um ideal de assepsia, envolto numa espécie de armadura, escreve-se um texto inteligente, erudito, controlado. Quase nada se transmite de si para si, de si para o outro. Uma escrita imóvel, estática, uma narrativa que não abre para o desconhecido, aquele desconhecido que entra e atrapalha.

Se eu tivesse que advogar sobre a escrita psicanalítica, defenderia a ideia de que fosse feita com menos erudição e mais crônica.

A palavra crônica se origina do latim Chronica e do grego Khrónos (tempo). O significado principal neste tipo de texto é precisamente o conceito de tempo, ou seja, é o relato de um ou mais acontecimentos em um determinado período. É a narração do cotidiano das pessoas, fazendo com que se veja de uma forma diferente aquilo que parece óbvio demais para ser observado. Uma boa crônica é rica nos detalhes, descritos pelo cronista de forma bem particular, com originalidade.

A crônica, na maioria dos casos, é narrada em primeira pessoa, ou seja, o próprio escritor está “dialogando” com o leitor, não está falando do “alto”, está sentado ao lado do leitor num meio-fio.

Geralmente, as crônicas apresentam linguagem simples, espontânea, situada entre a oral e a literária. Isso contribui também para que o leitor se identifique com o cronista, que acaba se tornando o porta-voz daquele que lê. Com base nisso, o cronista pode ser considerado o poeta dos acontecimentos do dia-a-dia.

O cronista Werneck (2011), na abertura de seu livro Esse inferno vai acabar, afirma que em Minas Gerais não acontece nada, mas o pessoal se lembra de tudo. Nesta frase, está contida uma das mais instigantes definições do gênero. O não acontecimento, o comezinho, a miudeza que são a matéria prima da crônica.

A repórter Eliane Brum, anos atrás, foi escolhida por Marcelo Rech um diretor de redação que buscava inovação para o jornalismo brasileiro, para um desafio: extrair crônicas reais de pessoas comuns e situações corriqueiras. Ela capturou a ideia e escreveu uma série de reportagens sobre personagens e cenas cotidianas em forma de crônicas da vida real, transformando-as numa coletânea de quarenta e seis colunas por quase onze meses.

Aí encontramos uma repórter que não está à procura do espetacular, mas à procura de histórias escondidas na vida anônima de cada um. A vida que ninguém vê (2006), mas que Eliane viu, é um mergulho no cotidiano para provar que não existem vidas banais.

Assim como o cronista, o psicanalista escreve sobre o humano inspirado nos acontecimentos diários de um processo de análise. Com o olhar inspirado no cotidiano de sua clínica, as histórias de um paciente ou de um processo de análise nos inquietam e nos despertam para outras histórias, ideias, pensamentos. O resultado, quando tudo corre bem, é uma espécie de conversa que revela a humanidade dos personagens e a nossa própria.

A escrita psicanalítica com mais crônica e menos erudição é móvel, transitiva, inquietante, se cumpre sem um total planejamento intelectual e consciente, inspirando continuar falando de uma voz que não quer se apagar. Quanto mais se vê, mais se quer enxergar.

*Texto publicado na íntegra no Jornal de Psicanálise 50 (92), 91-97, 2017

Referências
Brum, E. (2006). A vida que ninguém vê. Porto Alegre: Editorial Arquipélago.
Werneck, H. (2011). Esse inferno vai acabar. Porto Alegre: Arquipélago Editorial.

*Vera Lamanno Adamo é membro efetivo e analista didata do GEPCampinas e da SBPSP.

 

 

 

Somos mais realistas que os reis?

* Noemi Moritz Kon

19 de maio deste ano foi marcado pela transmissão midiática em escala planetária da cerimônia de casamento entre o príncipe Harry e a atriz Meghan Markle na Capela St. George, em Windsor, Inglaterra. Foram muitos os detalhes que desafiaram simbolicamente convenções antes inquestionáveis de eventos deste porte envolvendo a Coroa britânica, talvez hoje a mais tradicional e cultuada das realezas que ainda subsistem nos Estados modernos. Uma linda princesa norte-americana, trajando um vestido esteticamente simples, sem brilhos ou adereços, chega acompanhada exclusivamente pela mãe, Doria Ragland, professora de ioga, que, com seu penteado rastafári, vestia um traje de cor semelhante ao da rainha.

Meghan Markle atravessa a nave da Capela St. George sozinha, sem a presença usual do pai – branco – ou qualquer outra pessoa. Durante a cerimônia, o coral gospel The Kingdom Choir, formado majoritariamente por músicos negros, entoa Stand by Me, do cantor de soul Ben E. King, conduzido pela maestrina Karen Gibson, também negra. Ouvimos surpresos, ainda, o sermão do reverendo Michael Curry – ele também negro – que inicia sua fala citando o maior ícone da militância pacífica negra dos Estados Unidos, Martin Luther King Jr.: “Nós precisamos descobrir a força redentora do amor e, quando fizermos isso, faremos desse velho mundo um mundo novo”.

Que beleza! Que espetáculo! Quantos marcadores sociais de opressão, raça/cor, gênero e classe foram colocados em evidência e, de alguma forma, em xeque nesse momento de comoção ritual! (Evidentemente, nada do que foi exibido escapou aos rigores do protocolo da realeza. Nenhum desses detalhes foi mera coincidência).

Para além de um possível e esplêndido golpe publicitário, minha ingenuidade fez-me pensar em como nós da colônia, nós psicanalistas brasileiros, temos sido mais realistas, mais embevecidos com as insígnias da realeza e da aristocracia, do que os próprios reis. Em como nossa comunidade tem se mostrado conservadora, desatualizada, mantendo-se presa ao “Velho Mundo”. Em como sustentamos, cultivamos e promovemos, naquilo que temos produzido – ou no que não temos produzido –, uma teoria, uma ação e um discurso eivado de valores ideológicos elitistas e meritocráticos, que se protege e se justifica ao fazer-se passar por um discurso científico, a-histórico e universal, um discurso neutro, não contaminado pelas variáveis raça/cor, gênero/orientação sexual e classe.

Ora, não há mais como manter e defender esse tipo de posição; precisamos retomar urgentemente nossas reflexões críticas.

Não somos tão multicoloridos como deveríamos ou poderíamos ser; não somos tão abertos à sexualidade e às suas manifestações, nem mesmo à equidade entre gêneros, como deveríamos ou poderíamos ser; não somos tão receptivos à diferença de classe como poderíamos ou deveríamos ser.

Basta observar o público de nossos encontros e congressos – os nossos rituais -, para verificar que não correspondem à proporcionalidade da distribuição demográfica racial brasileira, com seus mais de 50% de negros e pardos, e que tampouco correspondem aos índices de distribuição de renda, pois somos uma elite também econômica, e congregamos uma porcentagem bem maior de pessoas que recebem mais de 27 mil reais ao mês, o que nas estatísticas da população brasileira conforma seu 1% mais rico.

As mulheres são hoje 51% da população do país, mas entre nós, psicanalistas, a distribuição parece ser bastante diferente: o número de mulheres que preenche os assentos das plateias em nossas reuniões e aulas é bem maior do que a de homens. O mesmo não parece acontecer com relação à distribuição dos lugares de poder e fala, ocupados, preferencialmente, por homens, brancos e, provavelmente, héteros e cis. Neste quesito, em particular, nossos indicadores não diferem sobremaneira dos da nossa sociedade patriarcal e falocêntrica.

Nossa produção teórica, nossa clínica e o funcionamento de nossos centros, departamentos e sociedades parecem também não se coadunar muito bem com o retrato obtido pelos institutos de pesquisas socioeconômicas: quem são nossos analisandos, qual é a sua renda, a sua profissão, o seu nível educacional, a sua cor? Quem são os que procuram as instituições psicanalíticas para avançar em sua formação? Quem prioritariamente ocupa os lugares de poder em tais instituições? Sobre quem falamos em nossos textos? Onde se localizam nossos consultórios? Qual o valor cobrado em nossos cursos e em nossas consultas e supervisões?

Atendo-me aqui no marcador de diferença raça/cor, com o qual venho trabalhando mais detidamente nos últimos tempos – mas o raciocínio poderia ser também aplicado aos outros marcadores de desigualdade -, é possível perceber como temos abusado do “esquecimento” de nossa história, da barbárie brasileira que se instaurou com o genocídio dos índios – 5 milhões em 1500, não mais de 850 mil hoje, segundo dados do IBGE – habitantes destas terras, que se prorrogou nos quase 400 anos de escravização mercantil, e que transformou mulheres e homens em objetos, em mercadorias (bens semoventes, como os escravizados eram denominados). Como temos trabalhado tão pouco as questões contemporâneas derivadas de tais processos históricos que conformaram tanta disparidade de oportunidades, e como temos, assim, acalentado por meio da negação e da recusa, a manutenção de privilégios – nossas casas grandes e nossas senzalas -, justificando a desigualdade como o simples resultado de diferenças individuais naturais que, obviamente, se presentificariam em nosso dia a dia.

Não devemos fazer pouco do que aprendemos em nossas boas escolas e, dessa forma, esquecer que o sistema escravocrata, pilar da economia colonial que sequestrou e trouxe ao Brasil mais de 4,5 milhões de africanos – cifra que representa 46% dos que foram escravizados naquele momento –, cerca de 12,5 milhões de africanos e africanas entre os séculos XVI e XIX, fundou e estruturou, desde nossa origem, um estado de violência e exploração, que produziu e continua produzindo marcas profundas em todos nós brasileiros, mas que recaem discriminatoriamente sobre os mais de setenta milhões de cidadãos negros e pardos – que de acordo com o atual senso demográfico conforma a maior população negra fora da África, o segundo maior contingente de afrodescendentes do mundo, número só inferior ao da Nigéria –, estabelecendo uma condição inescapável e inaceitável de desigualdade e subjugação, que arma nosso cotidiano público e doméstico e que é evidenciada, de maneira inequívoca, em todos os indicadores sociais: saúde, longevidade, salário, emprego, distribuição de renda, educação, moradia, transporte, segurança, justiça e direitos civis1.

Nós, o último país a abolir a escravidão mercantil da era moderna – dois anos depois de Cuba e mais de 20 anos depois dos EUA –, ao que parece, temos apenas ampliado as mesmas estatísticas, estabelecendo mais e mais desigualdades entre nós, dando corpo ao racismo estrutural que vigora em nosso país e que estabeleceu nosso modo de convivência mesmo depois de 130 anos da promulgação da Lei Áurea.

Como podemos nos organizar diante de tudo isso? Qual pode ser nossa participação? Pois sabemos que estamos matando gerações de negros e negras (e indígenas) no Brasil e não apenas por dar fim a seus corpos2. Temos assassinado, igualmente, suas almas, seu psiquismo.

O evento O racismo e o negro no Brasil: questões para a psicanálise promovido pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, em 2012, e o livro que dele se originou, lançado pela editora Perspectiva em 20173, são parte de um movimento, ainda incipiente, para tornar mais evidentes as marcas do racismo institucional que se revela também entre nós, psicanalistas brasileiros.

Foram ambos frutos de um grande esforço de superação de resistências para que pudéssemos assumir o quanto temos negligenciado pensar sobre a potência de destruição e morte que compõem as formas de preconceito e discriminação estabelecidos contra grupos que são ativamente excluídos, excluídos também da oportunidade de desfrutar do que a psicanálise tem para oferecer: a liberdade possível e a ética de nosso desejo. Raros eram (e ainda são) os estudos psicanalíticossobre o preconceito contra o negro no Brasil; pudemos, naquele momento, contar com a reflexão oferecida por outras disciplinas – a história, a sociologia, a política, a educação e as artes – para, aos poucos, nos localizar e iniciar um movimento de apropriação, desalienação e, tomara, de contribuição. Esse meu texto, escrito a convite do blog da Sociedade Brasileira de Psicanálise, ao qual agradeço, tem a ver com o reconhecimento da relevância desse movimento para além da comunidade de psicanalistas formada pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. E isso é importante.

Temos procurado dialogar mais, aprender mais com nossos colegas engajados nos movimentos de proteção e valorização do negro para, a partir dessa nova qualificação, construir parcerias e ações que viabilizem a formação de um número maior de psicanalistas atentos à questão racial e a seus efeitos sobre o psiquismo de todos os brasileiros. É só um começo, e ainda há muito a fazer.

Quem sabe essas iniciativas permitam que nos próximos anos possamos estabelecer um verdadeiro encontro, mais colorido, mais equânime, mais vitalizado pelas diferentes diferenças, e que o som ao nosso redor , que tem nos ensurdecido em sua desarmonia, torne-se ato de tradução de Stand by Me, a canção entoada no casamento real, e que nos postemos todos juntos, lado a lado, um pelo outro, por sermos brasileiros, por sermos humanos, por sermos.

[1] Vale a pena conhecer o manual produzido pelo IPEA (Instituto de Política Econômica Aplicada), Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça in http://www.ipea.gov.br/retrato/pdf/revista.pdf

[2] O Atlas da violência 2017 do IPEA indica, por exemplo, que de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. http://www.ipea.gov.br/portal/images/170602_atlas_da_violencia_2017.pdf.

[3] Kon, N.M., Silva, M. L. e Abud, C.C., O racismo e no negro no Brasil: questões para a psicanálise, S. Paulo, Ed. Perspectiva, 2017.

[4] Vale a leitura de trabalhos inaugurais de Neusa Santos Souza e Isildinha Nogueira Baptista no campo da psicanálise: Souza, N.S.,Tornar-se negro, Ed. Graal, 1a.edição, Rio de Janeiro. 1982. https://escrevivencia.files.wordpress.com/2015/02/tornar-se-negro-neusa-santos-souza.pdf e Baptista, I. N. Significações do corpo negro, tese de doutorado defendida no IPUSP no Departamento de Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano, 1988. http://psicologiaecorpo.com.br/pdf/Isildinha%20Baptista%20Nogueira-Significacoes%20do%20Corpo%20Negro-1.pdf, acessado em 13/01/2016

 

*Noemi Moritz Kon é psicanalista, Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, Mestre e Doutora pelo Departamento de Psicologia Social do Instituto de Psicologia da USP e autora de Freud e seu Duplo. Reflexões entre Psicanálise e Arte, S. Paulo, Edusp/Fapesp, 1996, A Viagem: da Literatura à Psicanálise, São Paulo, Companhia das Letras, 2006 e organizadora de 125 contos de Guy de Maupassant, São Paulo, Companhia das Letras, 2009 e co-organizadora com Cristiane Curi Abud e Maria Lúcia da Silva de O racismo e no negro no Brasil: questões para a psicanálise, S. Paulo, Ed. Perspectiva, 2017. Professora do curso de pós-graduação: “Conflito e Sintoma: Clínica Psicanalítica” do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae

O íntimo, o estranho e o duplo no mundo digital

Vera Lamanno Adamo*

Be right back (Volte já), é o título do primeiro episódio da segunda temporada de Black Mirror, um seriado em exibição, criado pelo inglês Charlie Brooker.

Este episódio começa mostrando os personagens Ash (Domhnall Gleeson) e Martha (Hayley Atwell) mudando-se para uma remota casa de campo. Nos primeiros minutos nos deparamos com cenas corriqueiras de um jovem casal criando uma intimidade. Ele às voltas com o celular, ela tentando ser vista e ouvida. A intimidade sendo construída na constatação do estranho em si mesmo e no outro. O estranho remetendo àquilo que é o mais intimamente familiar. O estranho garantindo o íntimo e vice-versa.

Este cotidiano é abruptamente interrompido pela morte de Ash em um acidente de carro. A integridade de Martha fica ameaçada. Inconformada com limitações e com a mortalidade, Martha constrói um duplo (Ash/digital/androide) que, a princípio, é benevolente, pois protege o seu eu de fragmentação e aniquilamento. Eles formam um casal unitário, são praticamente um. Ash/androide é o reflexo e o complemento de Martha.

Entregando-se à onipotência do pensamento e valendo-se do artifício do mundo digital, Martha tenta manter Ash imortal para satisfazer o desejo narcísico de preencher a expectativa nostálgica do ideal. Mas o duplo benevolente, que antes bastava para protegê-la contra a solidão e o desamparo não é totalmente eficaz. Ash/androide acaba tornando-se o representante da morte. Um estranho anunciador da limitação e da alienação.

O androide de Ash não sangra, age de forma programada no sexo e só se revolta quando solicitado por Martha. Ela não consegue lidar com o papel de administradora de um Ash/androide feito apenas para satisfazer seus desejos. Isto leva Martha a querer destruí-lo. “Você é sinistro”, ela diz.

A cena final de Be right back acontece vários anos mais tarde e mostra Martha levando sua filha (Indira Ainger), agora com sete anos de idade, até a casa de campo, onde ela está mantendo o Ash/androide trancado no sótão. Ela permite que sua filha o encontre nos fins de semana. Enquanto sua filha está no sótão com o androide, Martha espera com lágrimas no rosto, antes de se juntar a eles.

Apesar de eficiente e tão próximo da realidade, o duplo não eliminou a angústia. A cópia não substituiu o original e não foi totalmente satisfatória. Criar um duplo é apenas um dispositivo psíquico utilizado para neutralizar o eu fragmentado, em vias de aniquilamento, até que se siga adiante.

O duplo, ao mesmo tempo exterior e íntimo, está logo ali: no quarto ao lado, no sótão, na mesma estrada, no black mirror, apto a representar tudo que nega a limitação do eu, apto a encenar o roteiro fantástico do desejo.

 

Texto publicado na íntegra na IDE, n.63, 2017

 

Vera Lamanno Adamo é membro efetivo e analista didata do GEPCampinas e da SBPSP.

 

 

 

 

Solidão em cena

Ontem pela manhã eu saí sozinha. Tinha coisas para fazer  e aproveitei para ir a uma exposição. Tive ímpetos de chamar amigas, amigos, até tentei, estavam ocupados. Não me sentia sozinha, estava acompanhada pelos amigos, pelos meus pensamentos, por cada artista sobre cuja obra me detinha, com quem eu parecia estabelecer uma comunicação, não virtual, anímica, se posso chamar assim. A semana passada, porém, não fora tão animada assim. Em um dos meus grupos de WhatsApp a discussão sobre política ferveu. Até tentei acalmar os ânimos – inutilmente, devo confessar, propondo que as diferenças fossem respeitadas. Nesse momento, o sentimento de solidão abateu-se sobre mim: quem eram aquelas pessoas? Que orientação de vida tão diferente da nossa juventude de militância universitária.

Gostaria de discorrer sobre o sentimento de solidão, que não está apoiado na ausência de pessoas, mas antes na qualidade de relação estabelecida e internalizada. Melanie Klein tem um texto “Sobre o sentimento de solidão” (1963), no qual tece elaborações sobre a fonte do sentimento de solidão, referindo-se não à situação objetiva de privação de companhia externa, mas, antes ao sentimento de solidão interior, que pode surgir mesmo em companhia. Para a autora, a relação inicial com a mãe implica um contato íntimo entre o inconsciente da mãe e o da criança e este contato será o alicerce para a vivência de compreender e ser compreendido. Porém, como esta vivência está baseada no estágio pré-verbal, geraria um anseio futuramente de uma compreensão sem palavras, que contribui para o sentimento de solidão e, derivado de um sentimento de perda irrecuperável. O que pretendo enfatizar é a necessidade de um bom contato inicial (que depende tanto das condições da mãe, quanto das do bebê) para garantir a introjeção de um bom objeto que será futuramente um bom objeto interno, que poderemos contar na vida adulta. Para que o outro  me acompanhe, é vital que eu esteja “de bem” com este objeto interno.

Antes, porém, necessito situar nossa subjetividade historicamente. Para Kollontai, na base da nossa psique está a forja individualista que começa na família e estende-se a todos os aparelhos ideológicos do poder capitalista, da escola à Igreja, à mídia e por todos os poros. Esse é o ar que nossa subjetividade respira. A base do capitalismo está ancorada no individualismo: elementos importantes da vida comunal ou tribal ancestral, não são substituídos por relações sociais coletivas, de aproximação espiritual entre as pessoas: isto é, nas grandes e pequenas metrópoles do capital emergem e prevalecem relações humanas que, em regra, nada se parecem com solidariedade nem camaradagem. Ao contrário disso, desde o berço até o final da vida adulta, o imperativo de relações de propriedade, de competição e mesmo de posse entre pessoas e obviamente opressão, passa a ser uma norma. Uma espécie de “lei da selva” passa a ser naturalizada. O processo de acumulação do capital necessita, retroalimenta e se funda nesse marco, e assim funciona o mercado, a mercadoria. (http://www.esquerdadiario.com.br/Alexandra-Kollontai-e-a-solidao-da-sociedade-moderna).

Uma expectativa de um sujeito centrado, autossuficiente, capaz de ser produtivo full time! Ora, sabemos desde que Freud construiu a psicanálise, que existem condições extremamente delicadas para que o infans possa chegar ao estatuto de sujeito. Nossa constituição depende e se direciona para o outro. Para Freud (1972, p.118), o mal-estar a que o sujeito se vê submetido para ingressar na civilização está relacionado à repressão de suas pulsões·. Acontecimentos de toda sorte ameaçam a integridade de cada um de nós, e a ocorrência de fatos traumáticos – que excedem a capacidade psíquica do indivíduo avolumam-se de tal maneira com a desestruturação da família e dos costumes, que nos vemos assoberbados por questões que certamente não inquietavam os contemporâneos de Freud, na sociedade austríaca do começo do século XX.

Para restringir um pouco o problema, vou tratar de duas repostagens recentes que me chamaram muito a atenção e que trazem as duas populações mais desfavorecidas: os bebês e os idosos.

Tomemos o caso de uma mãe, cujo bebê nasceu prematuro (com apenas 12 semanas de gestação, devido a uma pré-eclampsia, pressão alta, etc.). Esta mãe , doutora em ergonomia e em franca sintonia com seu filho, criou uma luva preenchida com sementes, que serviria de consolo ao filho na sua ausência. Ela carregava a luva consigo para impregná-la com seu próprio aroma, afim de que bebê pudesse sentir sua presença pelo olfato. A luva forneceu conforto ao bebê e também ajudou na autorregulação da respiração, bem como reduziu os episódios de falta de oxigênio. Então esta mãe pensou nos outros bebês  criou o site:

Esta mãe criou condições para que o bebê , sentindo a presença dela, pudesse ter experiências positivas, de modo a desenvolver um bom objeto interno.

No extremo oposto, observamos que a população de idosos vem crescendo mundialmente e a solidão é um grande problema a ser encarado. Podemos pensar quantos sujeitos atravessam a vida de modo precário, em termos psíquicos, contando sabe-se lá com quais defesas, muitas vezes criando família e restringindo-se a ela. Outras vezes desentendendo-se com as pessoas e isolando-se progressivamente. Criar laços de amizade duradouros implica em capacidade psíquica para tolerar altos e baixos, frustrações e gratificações, encontros e separações.

Em matéria recente , temos a noticia que no Reino Unido acaba de ser criado um Ministério para Solidão. Thereza May classificou o problema como “triste realidade moderna”. Lá é estimado que quase nove milhões de pessoas sentem-se sozinhas, incluindo casos em que a pessoa pode ficar meses sem conversar com ninguém!

Dependemos do outro e da nossa capacidade de estabelecer uma boa relação por toda a nossa vida. O mundo humano é o mundo das relações que estabelecemos na vida e  carregamos dentro de nós.  Sem dúvida, a capacidade de amar é uma construção desde o nascimento. Pessoas que tiveram traumas importantes no começo da vida começam desfavorecidas; muitas vezes o caminho que encontram é o isolamento afetivo, porém é o que chamamos de solução defensiva. Crianças bem cuidadas aceitam melhor os cuidados de professores do que as que foram largadas à própria sorte. Como podemos ver tema extenso e complexo, porém fundamental!

 

Elisabeth Antonelli: psicóloga, psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, membro associada da Sociedade Brasileira de Psicanálise, professora do COGEAE, da PUC-SP e do Instituto Sedes Sapientiae, autora do livro: “Os Sentimentos do Analista: A Contratransferência em Casos de Difícil Acesso”, ed. Zagodoni, além de artigos em revistas científicas.

 

Homens mais novos, mulheres mais velhas: uma feliz combinação

Mirian Goldenberg, antropóloga e professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro, concedeu uma entrevista por e-mail ao blog da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) sobre um tema que tem despertado curiosidade e causado agitação social: homens mais novos casados com mulheres bem mais velhas. Autora do livro “Por que os Homens Preferem as Mulheres mais Velhas?”, lançado esse ano pela editora Record, Mirian, que estuda arranjos conjugais no Brasil desde 1988, chegou à conclusão de que essa é uma das combinações mais equilibradas, satisfatórias e felizes.

 

É preciso muita coragem para enfrentar os próprios preconceitos, medos e insegurança. Qual foi o caminho dos casais que você entrevistou para isso? O que os fez chegar a esse grau de superação dos próprios preconceitos?

No início, elas (mais do que eles) tinham muito medo e preconceitos. Afinal, são elas que são mais rotuladas e acusadas quando iniciam a relação. Apesar das resistências internas e externas, as mulheres decidem aproveitar o momento e “curtir” a relação, o que torna tudo sem expectativas, mais leve e divertido. Elas têm a certeza de que não vai durar, mesmo quando já estão casadas há 10, 20, 30 anos. Esta “insegurança” faz com que o casamento seja uma batalha diária, uma conquista de todos os dias. Paradoxalmente, a insegurança leva a uma segurança do amor, da parceria, da superioridade da relação que construíram.

 

Em algumas entrevistas você afirmou que a mulher é a que sofre mais com a aceitação da própria relação e com o olhar acusador do outro. Por quê?

As mulheres são mais críticas e inseguras com a inversão da lógica da dominação masculina. O “normal” é casar com um homem superior: mais alto, mais velho, mais poderoso, com mais sucesso e dinheiro, etc. Inverter esta lógica é questionar a própria lógica reproduzida pela maior parte das mulheres. O que incomoda muito!Assim, acusam as mulheres que invertem a lógica de serem ridículas, sem noção, periguetes, de não aceitarem a própria idade, de quererem se fazer de garotinhas etc.Interessante perceber que os homens pesquisados não enxergam suas esposas como mais velhas, mas como “superiores” às demais mulheres, principalmente às mais jovens. No início, elas têm muita dificuldade, muita insegurança e muito medo. Elas sofrem muito, principalmente no início. Acham que é algo provisório, que serão trocadas por mulheres mais jovens. Elas têm pânico de envelhecer. Só com o tempo, e com a certeza de que o amor deles é realmente especial e único, elas conseguem ter um pouco mais de segurança. No entanto, elas, muito mais do que eles, demonstram ter medo de perder o amor do parceiro, com o envelhecimento. A ideia de que elas são ou parecem mais jovens do que eles é compartilhada pelos dois. Tanto pela energia delas, a capacidade de fazer muitas coisas, de desejar se aventurar e fazer coisas diferentes, enquanto eles preferem ficar em casa vendo televisão e namorando, quanto pela aparência. Eles, em vários casos, parecem mais velhos fisicamente ou da mesma idade. As mulheres têm muito mais recursos para parecer mais jovens (tintura do cabelo, roupas, corpo etc). Mas, o mais importante, é que eles não enxergam a idade delas, isso não é importante para eles. Mas, para elas é muito importante. Daí a necessidade de reforçar que eles é que são mais velhos. Elas são superiores, mas não mais velhas.

 

Por falar em outro, por que essa situação causa tanto incômodo ainda que o casal pareça feliz, realizado e bem resolvido em relação à diferença de idade?

Porque questiona todos os outros modelos de casamento mais aceitos e legítimos socialmente. Porque questiona a lógica da dominação masculina. Porque demonstra que as mulheres têm poder de escolha. Porque mostra que as mulheres podem ser superiores. Porque revela que a juventude e o corpo-capital não são os principais atributos femininos. Porque mostra que estes casais são mais satisfeitos, equilibrados e felizes. E muitos outros motivos que estão no meu livro “Por que os homens preferem as mulheres mais velhas?”

 

Quais são os principais fatores de atração da mulher mais velha em relação ao homem mais novo? E deles em relação a elas? Depois da atração, quais são os atributos de um de outro que são fundamentais para a sustentação do relacionamento?

Eles dizem que elas são mais atraentes, mais interessantes, mais maduras, mais seguras, mais divertidas, mais carinhosas, mais compreensivas, mais companheiras, mais atenciosas, mais inteligentes, mais, mais, mais… superiores às demais mulheres, especialmente às mais jovens. Elas dizem que eles as fazem sentir mais atraentes, mais jovens, mais interessantes, mais, mais, mais….superiores às demais mulheres, especialmente às mais jovens. Quando a diferença de idade é maior, os preconceitos e estigmas são maiores. Eles precisam enfrentar as acusações e preconceitos dentro da própria família. Nos casos que pesquisei, estas dificuldades acabam fortalecendo o amor, o respeito e a admiração. A segurança se torna cada vez maior, porque eles precisam estar muito unidos e certos do que realmente querem. Eles lutam, cotidianamente, para manter a relação. São mais cuidadosos, mais atenciosos, mais compreensivos do que os casais que pesquisei anteriormente, que vivem relações consideradas “normais” ou “comuns”. Eles valorizam muito mais o outro, e não se perdem em briguinhas bobas, joguinhos de dominação e disputas tão frequentes nos casamentos.

Vejo que a maturidade dos dois, não apenas dela, faz com que o casamento seja mais satisfatório e feliz. Muito frequentemente, as mesmas pessoas que têm preconceitos são as que têm mais inveja da felicidade e da coragem do casal, pois é preciso ter muita coragem para enfrentar os próprios preconceitos, medos e inseguranças. Os pesquisados comparam suas esposas a mulheres pegajosas, ciumentas, infantis. Admiram a leveza, a maturidade, a segurança delas. Como elas achavam que não iria dar em nada, viveram plenamente cada minuto da relação, sem expectativas e cobranças. Puderam ser “a melhor versão de si mesmas”, mais divertidas, alegres, leves. E, exatamente por isso, eles se apaixonaram. Elas tentam continuar sendo assim todos os dias, já que sabem que a relação pode acabar a qualquer momento. Vivem intensamente o amor e o carinho, valorizam o parceiro, são mais compreensivas, carinhosas, cuidam mais do parceiro e da relação.

O fato de já terem sido casadas (todas com homens bem mais velhos) também é uma referência para elas. Elas sabem que o fim de um casamento e de um amor não tem a ver com a idade, e sim com o que fazemos no nosso dia a dia. Acho que o segredo dos casais que pesquisei é exatamente este: eles cuidam, são atenciosos e carinhosos todos os dias, valorizam o parceiro e sentem que são únicos e especiais.

 

Você que estuda diversos arranjos conjugais avalia, com base nas suas pesquisas, essa como uma das combinações mais felizes. Quais são as evidências disso?

O fato de terem que enfrentar tantos obstáculos e preconceitos faz com que eles briguem menos e brinquem mais. Aprendem a valorizar o que possuem e não o que falta (como os casais mais tradicionais). Somente nestes casamentos encontrei um maior equilíbrio e uma maior reciprocidade. O fato de enfrentarem tantos preconceitos, medos e inseguranças acaba fortalecendo o amor e a parceria. Eles enxergam nelas o que é invisível para os outros homens, elas valorizam neles o que é desvalorizado por outras mulheres. Não faço uma apologia desse tipo de arranjo conjugal, mas é inegável que, para os casais pesquisados, as esposas são superiores às demais mulheres. E os homens dão a suas esposas o que elas mais desejam: a certeza de que elas são únicas e especiais, em um mercado matrimonial claramente desvantajoso para as mulheres mais velhas.

 

Na sua pesquisa, você se concentrou em casais com mais de dez anos de relacionamento, mas você acha que de um modo geral as pessoas estão mais dispostas a experimentar combinações amorosas com parceiros de perfis diferentes? No caso de homens mais novos e mulheres mais velhas, histórias de figuras públicas e respeitadas como o Emmanuel Macron ou a Fátima Bernardes exploradas pela mídia podem encorajar?

O caso do Macron e Brigitte é maravilhoso justamente porque mostra que não é considerado “natural” nem comum um homem amar e casar com uma mulher muito mais velha. Como mostro no livro, se a diferença fosse menor, seria mais aceitável. Mas como ele tem a idade dos filhos dela, como poderia ser filho dela (e ela mãe dele), o caso se torna inaceitável para grande parte das pessoas, especialmente para as mulheres. Discuto no livro o tabu da idade associado ao tabu do incesto. As pesquisadas falam, com vergonha e culpa: “ele tem idade para ser meu filho”, “ele poderia ser meu filho”. Muitas têm filhos da idade do marido (ou mais velhos). Algumas chamam o marido de filho. Elas contam situações em que os maridos foram confundidos com os filhos, e sentem muita vergonha e sofrimento com o olhar acusador dos outros, principalmente das outras mulheres. Eles nunca falam o mesmo, e reagem quando são chamados de filhos. Dão beijo na boca delas quando percebem o olhar preconceituoso. Como Macron, eles têm muito orgulho, respeito e admiração pelas esposas. Estão casados há muitos anos e continuam com o mesmo amor, tesão e admiração. Para eles, elas são superiores às demais mulheres, por serem mais companheiras, mais interessantes, mais compreensivas, mais carinhosas e muitos outros MAIS. Não é a diferença de idade o mais importante para eles, mas a superioridade delas com relação às demais mulheres, inclusive (e talvez principalmente) às mais jovens.

O fato de mulheres famosas assumirem, cada vez mais, suas escolhas por homens mais jovens reforça a ideia de que é possível amar e casar fora dos padrões. No entanto, o fato de POUCOS homens famosos escolherem mulheres mais velhas, mostra que essa escolha não é tão legítima assim. Parece que só mulheres muito poderosas podem ser livres para escolher homens mais jovens. Precisamos de mais MACRONS!!!! Só é preciso lembrar que ele não era famoso nem poderoso quando escolheu Brigitte. O mais bacana neste caso, como acontece em alguns casos que pesquisei, é que ele continua amando, admirando e respeitando a mesma mulher por quem se apaixonou aos 15 anos.

 

A instabilidade e o fracasso das negociações

A Sociedade Brasileira de Psicanálise colabora com a Revista Psique.  

Abaixo, trechos do artigo de Ricardo Trapé Trinca* para a revista Psique nº 140, de outubro de 2017

(…) a vida, inevitavelmente, impõe duas tendências conflitivas e antagônicas, com as quais todos têm de lidar: os desejos – e necessidades – de toda espécie, que são sentidos às vezes com grande intensidade, e uma realidade que constantemente frustra esses desejos e imputa condições nem sempre fáceis para suas realizações. E isso faz com que se tenha que negociar, a todo o tempo, entre o dentro e o fora (…)

Viver em nosso tempo é, inevitavelmente, negociar com uma pluralidade de situações e acontecimentos internos e externos. Vivemos em uma época histórica marcada pelo predomínio da negociação, como parte do espírito do capitalismo, e isso é também um modelo mental. Mas, dependendo das circunstâncias, torna-se muito difícil ou até mesmo impossível negociar. Os fracassos nas negociações são tema recorrente dos psicanalistas, nas formas de traumas psíquicos, splittings, neuroses de toda espécie e psicoses. O trabalho do psicanalista consiste em grande parte de cuidar das formas do mal-estar baseadas nos fracassos das negociações possíveis do sujeito consigo mesmo e com o mundo, não para torná-lo adaptado, mas para ajudá-lo a dar-se conta de sua diversidade interior e poder sê-la no mundo da cultura. No splitting, partes autônomas não se relacionam mais com o restante do psiquismo, procurando resolver suas necessidades de satisfação, independentemente de outras negociações.

A indústria da informação, na sociedade contemporânea, tende a se comportar como uma indústria do entretenimento (…) tendo a função de oferecer passatempo e prazer, ao invés de criar condições para que o homem contemporâneo conviva com a diversidade da cultura e de si mesmo (…) É improvável que uma pessoa que não consiga conviver com a alteridade cultural, possa ter um contato consigo mesmo que não seja derivado de formas de autoritarismo, um autoritarismo do eu, que procura afirmar sua hegemonia e força imaginando que, assim, se tornaria independente e autônomo. No entanto, aquilo que parece uma autonomia é, na verdade, uma alienação em relação a vida mental, que foi calada ou silenciada a ponto de não mais saber quais seriam suas reivindicações.

*Ricardo T Trinca é psicanalista, doutor em psicologia clínica pela USP, membro filiado ao instituto “Durval Marcondes” da SBPSP e autor do livro “A Visitação do Real nos Fatos Clínicos Psicanalíticos” (Edusp). E-mail: ricardotrinca@hotmail.com