Psicopatologia

INVESTIGAÇÕES CIENTÍFICAS E QUESTIONAMENTOS À “PSIQUIATRIA BIOLÓGICA”: A PSICANÁLISE TEM A VER COM ISTO?

Há um constante diálogo e uma eventual tensão quando consideramos a relação entre Psicanálise e Psiquiatria. Muito se discute até que ponto há um prevalecimento dos fatores neurobiológicos na determinação dos distúrbios mentais e, nessa medida, quais seriam os limites da prática psicanalítica em oposição ao uso dos medicamentos, no tratamento desses distúrbios. Sobre o tema, vale conferir a atual reflexão do psicanalista Paulo Duarte Guimarães Filho, que discute mudanças significativas na predominância até então pouco questionada dos aspectos biológicos de tais distúrbios.

Investigações científicas e questionamentos à Psiquiatria Biológica: a psicanálise tem a ver com isso?

Por Paulo Duarte Guimarães Filho*

As relações entre a psicanálise e a psiquiatria são bastante amplas. Talvez uma das mais importantes dessas relações não se dê de um modo direto. O desenvolvimento da neurociência nas últimas décadas teve consequências significativas na psiquiatria, levando mesmo à criação do termo “Psiquiatria Biológica”. Como o nome diz, foi havendo o prevalecimento de noções de que fatores neurobiológicos seriam os principais determinantes dos distúrbios mentais. Destacava-se aí, o papel que o crescimento dos conhecimentos da genética teria na elucidação dos quadros psiquiátricos e o das descobertas farmacológicas no seu tratamento. Muito compreensivelmente, o surgimento e a força ganha por esses pontos de vista atingiram seriamente a psicanálise como corpo de conhecimento e prática profissional. Essa situação, relacionada com o fato da psiquiatria usar recursos prestigiados das ciências naturais, levou em algumas áreas à noção de que a psiquiatria é que seria efetivamente científica, capaz de conhecimentos consistentes e de resultados efetivos na sua pratica terapêutica.

No entanto, em decorrência da própria continuação das investigações científicas na psiquiatria, tem havido mudanças marcantes no quadro acima e que tendem a ser pouco conhecidas na área psicanalítica. Tais mudanças, em grande parte se referem ao exagero do papel atribuído aos fatores neurobiológicos nos distúrbios mentais, o que também favoreceu a posturas desvalorizadoras da psicanálise. Assim, na medida em que esses exageros estão sendo corrigidos, se coloca a indagação sobre a necessidade dessa nova situação ser mais amplamente conhecida e explorada nos meios psicanalíticos. Informações detalhadas sobre essa nova situação estão disponíveis num trabalho, divulgado no Google: ”Psychiatrie biologique: une bulle speculative?”, de François Gonom.

Temos aí dados importantes, através de um amplo levantamento bibliográfico das mudanças que vem ocorrendo, e que têm sido publicadas em algumas das mais respeitadas revistas psiquiátricas e médicas, como, “Science”, “Nature”, “Nature Neuroscience”, “Journal of Nervous and Mental Disease”, “American Journal of Psychiatry” e várias outras. Como esta é uma notícia breve, vamos citar apenas dois dos temas presentes nessas publicações, se referindo a não confirmação de expectativas da psiquiatria biológica. Um deles é em torno do encontro de fatores genéticos, como causadores da maioria dos distúrbios mentais. Isto não tem ocorrido e, ao contrário, o que tem sido mais destacado é a importância da chamada epigenética, isto é, o estudo de como fatores ambientais têm um papel e interagem com os genéticos, para a expressão desses últimos. É bem claro que entre esses fatores ambientais estão os psicológicos, alvo central do estudo da psicanálise, havendo aí, de um modo indireto, uma indicação da validade de suas concepções. Para finalizar, outra questão de grande relevância nas revisões que estão sendo publicadas são os trabalhos evidenciando as limitações das expectativas farmacológicas na área psiquiátrica.

* Paulo Duarte Guimarães Filho* é psicanalista e membro efetivo da SBPSP.

A tragédia produzida pelo copiloto suicida

Acontecimentos trágicos que colocam em evidência a violência humana fogem, muitas vezes, à nossa compreensão. O acidente aéreo da semana passada, após constatada a atitude consciente e deliberada do copiloto de derrubar o avião, passou a integrar esse rol de eventos para os quais, simplesmente, não encontramos explicações. A reflexão que segue abaixo, da psicanalista Elizabeth da Rocha Barros, não tem pretensão de explicar os motivos que levam uma pessoa a fazer isso, mas traz algumas hipóteses que nos ajudam a ver um pouco além do “ato de loucura” tão evidente em uma primeira avaliação.

A tragédia produzida pelo copiloto suicida

Por Elizabeth Lima da Rocha Barros*

Nesta semana ficamos chocados com a tragédia nos Alpes Franceses e nos demos conta de nossa vulnerabilidade. Dorrit Harazim escreveu no Globo desse domingo um excelente artigo sobre essa tragédia. Nos dizeres de uma jornalista francesa Alexandra Schwartzbrod “O Homem vence a Máquina.” Por mais avanços tecnológicos que consigamos desenvolver, estamos ainda à mercê do Homem com todas as intercorrências do significado do Humano.

No que nós analistas podemos contribuir para as inúmeras discussões que estão surgindo?
Desde o primeiro momento em que escutei sobre a TRAGÉDIA me lembrei dos adolescentes do Massacre de Columbine que mataram tantos jovens. Essa tragédia teria sido muito maior se os assassinos tivessem conseguido derrubar o teto da Escola, como era a sua intenção naquele dia. Nesse caso teriam morrido 600 alunos! Soubemos depois pela reconstrução de suas vidas que além de todas as dificuldades emocionais, predominava o sentimento de humilhação e inferioridade, despertadas por situações de bullying e desencantos amorosos. A impossibilidade de conviver com esses sentimentos foi o combustível de uma terrível vingança. Com esse ato parecem estar dizendo: seremos importantes, temidos e para sempre lembrados nessa morte/ assassinato/ suicídio grandioso em que a dor sentida pelas vítimas do bullying é transformada em um ato visando produzir uma dor imensa em todos os outros vitimados pela tragédia. A fragilidade se transforma em onipotência, a impotência em uma potência mortífera que deixa uma terra arrasada por mortes e sofrimentos que não terminarão nunca, a não ser com a própria morte.

Hoje temos mais informações sobre Lubitz. Essa minha associação com Colombine se confirma.
O medo de não vir a ser alguém, ou melhor, de sentir-se ninguém, o ser a não-pessoa, nos dizeres de Hanna Arendt, parece ser o centro do núcleo mental de Lubitz.

Dorrit relembra o ditado: “a mente é um excelente criado mas um tenebroso mestre”.

Lubitz só pôde se sentir sendo alguém, segundo sua versão mistificada, ao espatifar o avião contra a rocha. A não-pessoa se alimenta desse combustível de vingança e excitação silenciosa e calma, como sua respiração, para se sentir momentaneamente existindo com o poder de matar a todos e causar um enorme impacto de dor em todos e assim surpreender o mundo.

Há muitas discussões de medidas para prevenir tragédias como essas. No entanto, sabemos o quão difícil é prevenir atos individuais voltados para a destruição, pois o homem pode sempre encontrar uma maneira de impingir dor e sofrimento aos demais. Claro que a presença de outra pessoa na cabine irá ajudar a prevenir esse tipo de ato suicida por parte de pilotos. Creio que nós, analistas, deveríamos ser capazes de ajudar a sociedade como um todo a identificar aquelas situações que trazem em seu bojo o potencial de gerar vários Lubitz .

* Elizabeth Lima da Rocha Barros é membro e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

A prevenção ao uso indevido de drogas

O consumo excessivo de drogas é um fenômeno complexo que requer estudos e pesquisas de diferentes áreas. O problema não atinge apenas o usuário, mas repercute em sua organização familiar e na sociedade, de forma geral, configurando atualmente um dos mais graves problemas de saúde pública. Como nós, psicanalistas, podemos contribuir para essa discussão? O que torna a droga um caminho tão tentador e, ao mesmo tempo, tão perigoso, para aqueles que ingressam nesse universo? O artigo abaixo, da psicanalista Maria de Lurdes de Souza Zemel, trata do tema da prevenção e de como esse processo pode ser compreendido sob o viés da psicanálise. Vale a leitura!

A prevenção ao uso indevido de drogas – um grupo para educadores e trabalhadores de saúde mental na SBPSP

Por Maria de Lurdes de Souza Zemel*

Ao nos depararmos com o uso indevido de drogas nos assustamos e tendemos a assumir posições repressivas, policialescas e de negação. Acreditamos que nunca temos relação com o problema a menos que atinja nossas famílias.

Assim é com o crack, que é visto por nós como uma droga amaldiçoada e extremamente perigosa. Vamos usar o crack como exemplo: sempre o vimos como algo da periferia até que os “crackeiros“ atravessaram nossos caminhos expondo sua miséria, habitando os viadutos dos centros das cidades. Ao mostrarem seu abandono social eles nos desafiam a pensar sobre possibilidades de recuperação por meio de ações sociais. Visto por este ângulo, podemos cogitar se a droga é que é tão violenta ou se a vida dessas pessoas é tão descuidada que a droga faz uma grande companhia a elas.

As drogas oferecem uma possibilidade de mudança do nosso estado de consciência, ajudam a negar muitas das nossas dores psíquicas, principalmente as que não conseguimos nomear em determinados momentos da vida, criando a ilusão de um prazer que se pode obter por si mesmo prescindindo do outro e alimentando um sentimento de poder onipotente quando, em realidade, se está incapaz de desejar, fantasiar e fazer projetos reais na vida.

Elas nos dão uma pseudo-identidade, um sentimento de pertencimento: “Sou drogado”… “Sou dependente”… é o que eles nos dizem com arrogância.

Enquanto psicanalistas e estudiosos da mente humana, não vamos nos ocupar com ações repressivas em relação ao uso indevido de drogas, mas também não podemos mais negar sua presença nos nossos consultórios e nem nossa responsabilidade social com esse problema.

O DAC (Departamento de Atendimento a Comunidade), por meio do Setor de Parcerias e Convênios, organizou um projeto chamado “Encontros e Conversas” e está oferecendo gratuitamente à comunidade de educadores e cuidadores da saúde um grupo de Prevenção ao Uso Indevido de Drogas.

Esse grupo não pretende dar diretrizes de ações preventivas, mas pretende mostrar que para compreender e lidar com esse problema, precisamos também contar com um conhecimento sobre a pessoa que usa/abusa da droga. Que essa pessoa tem que ser respeitada na sua dor e que o caminho dela é traçado por ela e não pelo nosso desejo.

O grupo pretende mostrar que “prevenção” não quer dizer ações pré-estabelecidas, que só podem ser eficientes se o uso de drogas acabar. Existem ações chamadas “redução de danos” que protegem as pessoas que usam drogas quando é impossível parar com seu uso. É possível identificarmos as vulnerabilidades em crianças ou jovens ou em determinadas organizações sociais, como as famílias.

O fato é que precisamos enfrentar nossos preconceitos e entender que a prevenção não é uma ação que livra o ser humano bom desse demônio que se apossa dele para torná-lo um drogado. Que a droga não tem poderes de nos tornar o que não somos. Ela nos leva sim para caminhos estranhos, muitas vezes porque nossa “estranheza” favorece isso.

*Maria de Lurdes de Souza Zemel é psicanalista e Coordenadora do Grupo de Prevenção ao Uso Indevido de Drogas da SBPSP.

Pânico, desamparo e psicanálise

Dizem que somente quem já viveu uma crise de pânico sabe como é, dadas as dificuldades de se descrever em palavras o grau de angústia e sofrimento físico envolvidos. No contato com quem sofre do transtorno nós, psicanalistas, procuramos nos aproximar de sua experiência e fazê-lo reconhecer os sintomas e nomear os sentidos que deles advêm. Como isso pode ser feito? Veja abaixo o interessante artigo da psicanalista e membro da SBPSP, Norma Lottemberg Semer, sobre o tema.

Por Norma Lottemberg Semer*

O transtorno do pânico

Descrito pela psiquiatria contemporânea oficialmente desde 1980, quando apareceu no Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais (o DSM), o transtorno do pânico é também citado no Código Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (o CID-10), publicado pela Organização Mundial de Saúde.

O transtorno do pânico caracteriza-se por um período de intenso temor ou desconforto no qual quatro dos seguintes sintomas surgem abruptamente: palpitações ou ritmo cardíaco acelerado; sudorese; tremores ou abalos; sensação de falta de ar ou sufocamento; sensação de asfixia; dor ou desconforto torácico; náuseas ou desconforto abdominal; sensação de tontura, instabilidade, vertigem ou desmaio; desrealização (sensação de irrealidade) ou despersonalização (estar distanciado de si mesmo); medo de perder o controle ou enlouquecer; medo de morrer; anestesia ou sensação de formigamento e calafrios ou ondas de calor.

O pânico é uma reação de ansiedade em relação a sensações do próprio corpo. Enquanto nas fobias a pessoa sente ansiedade em relação a um objeto externo, no pânico ela fica ansiosa frente ao que sente em seu próprio corpo. Esta é uma das características centrais do pânico: os perigos vêm de dentro, vêm do próprio corpo, numa sensação de grande angústia.

Os sintomas sugerem que o indivíduo está sob ameaça de algo terrível, do qual precisa fugir, embora não haja perigo concreto aparente.

Em 1895, Freud descreveu a neurose de angústia nos mesmos moldes em que hoje é descrito o transtorno do pânico, com manifestações corporais e ataque de angústia, sem nenhuma representação psíquica, além de um sofrimento intenso. Freud assinala ser possível que o sujeito venha a recorrer “à interpretação que estiver mais à mão” (medo de morrer, loucura, crença no distúrbio de uma função corporal) como uma tentativa de configuração, de uma busca de explicação causal, que poderia reduzir sua angústia.

O transtorno do pânico pode parecer não possuir significado psicológico. Os ataques podem surgir “inesperadamente”, sem desencadeantes ambientais ou intrapsíquicos conhecidos. Por vezes a pessoa fala do pânico como algo totalmente alheio à sua experiência, à sua história, sem qualquer conexão com suas emoções ou com sua história de vida. Expressa-se como se tivesse uma virose ou sido contaminada por algo desconfortável, incômodo, estranho, alheio à sua pessoa.

Para a Psicanálise, entretanto, existe um sofrimento psíquico que precisa ser reconhecido, sobretudo pelo próprio paciente. É importante lembrar que Freud mostrou o desamparo como condição intrínseca do bebê humano ao lado da importância e da necessidade de um outro para que cada um de nós sobreviva e se desenvolva biológica e psiquicamente. Assim, o pânico corresponderia à angústia decorrente da percepção do desamparo e da impossibilidade de tolerar essa condição, algo sempre presente na experiência humana e não restrito aos tempos atuais.

Para o psicanalista, a tarefa seria levar o paciente a se envolver no seu sofrimento, a desenvolver interesse e curiosidade com o que acontece a si próprio, para que possa encontrar um significado nos seus sintomas.
Em geral os pacientes apresentam dificuldades frente à ameaça de perda de vínculos, intolerância às frustrações, dificuldade de pensar e conter seus estados emocionais, ao lado de fragilidade no senso de identidade pessoal e aspectos ligados à dependência.

O trabalho psicanalítico é uma experiência que pode auxiliar o desenvolvimento psíquico, expandir o mundo interno com maior participação de fantasias e de sentimentos. Assim, é possível que, ao longo do tempo, o paciente encontre outras formas de expressar e de lidar com seu sofrimento.

O objetivo do psicanalista é, então, despertar o interesse do paciente para seu próprio funcionamento psíquico, a partir de um encontro vivo entre duas pessoas que se comunicam. Por meio do acolhimento que ocorre nesta relação, espera-se que o paciente possa estabelecer vínculos mais consistentes consigo mesmo e com a vida.

*Norma Lottenberg Semer é psicanalista, membro associado da SBPSP, doutora em Saúde Mental e professora afiliada na UNIFESP.

PSICOSSOMÁTICA PSICANALÍTICA EM DEBATE

No dia 31 de outubro, a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo promoverá a 1ª Jornada de Psicossomática Psicanalítica. O encontro tem como objetivo apresentar os referenciais teórico e clínico desse campo de estudo que, além de nos oferecer novos vértices de observação, amplia a possibilidade de compreensão e do tratamento das psicopatologias contemporâneas.

O texto abaixo discute alguns dos conceitos principais dessa área de conhecimento e aborda qual a sua contribuição para uma compreensão mais ampla das patologias contemporâneas, nas quais o corpo está cada vez mais implicado.

1. Afinal, o que é a psicossomática psicanalítica?

Do ponto de vista teórico, a psicossomática psicanalítica constitui uma abordagem dos fenômenos psíquicos primitivos que podem ser observados nas psicopatologias psicanalíticas contemporâneas. Entre essas patologias, incluem-se as doenças psicossomáticas que se caracterizam por um comprometimento da constituição do narcisismo primário e do processo de simbolização. Há um déficit na transformação do corporal em psíquico, isto é, na aquisição da representação por meio da palavra. Em outras palavras, pode-se dizer que esta abordagem fornece ferramentas para a escuta corporal.

Nesse contexto, é fundamental reconhecer corpo e mente como uma unidade, um mesmo território, ocupado por estruturas psicossomáticas que se diferenciam pelos diferentes graus de complexidade psíquicas. Essa perspectiva de compreensão opõe-se às ideias vigentes da psicossomática médica, para a qual corpo e mente são tidos como duas estruturas separadas que se influenciam mutuamente.

De acordo com a Escola de Psicossomática de Paris, existe uma relação inversamente proporcional entre a gravidade dos sintomas somáticos e o grau de complexidade do funcionamento psíquico. Isso significa que, em quadros patológicos, quanto mais primitiva e menos complexa for a atividade psíquica e a capacidade de representação, mais poderemos observar alterações somáticas importantes.

Resumidamente, o princípio que rege o funcionamento psíquico dos pacientes que somatizam é a desorganização progressiva, um conjunto de movimentos profundos que atravessam toda a estrutura psicossomática e a negativizam. Ocorre uma espécie de apagamento gradual de todas as formações psíquicas, das mais às menos evoluídas, em consequência da fragmentação generalizada da rede representacional e da ruptura com as fontes pulsionais inconscientes, que pode se dar de forma mais ou menos acentuada. Para Pierre Marty, esses movimentos desorganizadores são decorrentes da pulsão de morte.

A desorganização progressiva desencadeia dois tipos de processos de somatização: a regressão somática e o desligamento psicossomático. Na regressão somática a desorganização se detém em determinado órgão ou segmento corporal, que serve de platô de fixação para que os movimentos evolutivos reorganizadores da pulsão de vida reconduzam aos níveis psíquicos mais complexos. A função do sintoma é deter o processo regressivo e criar as condições necessárias para que o psiquismo se reorganize. Ocorre nas organizações psíquicas neuróticas. Tais movimentos de regressão somática são sustentados pela libido.

Já o desligamento psicossomático refere-se a um processo de longa duração, no qual a regressão atinge os níveis mais primitivos da vida emocional inseridos no somático. Instala-se a doença somática que se cronifica e conduz o sujeito a graus significativos de incapacidade para a vida, podendo levá-lo à morte. Este processo decorre da perda dos valores libidinais e tem como maior consequência a liberação da destrutividade interna. Os parâmetros narcisista e quantitativo, por um lado, e a duração do estado de desligamento pulsional, por outro, concorrem para a instalação e a manutenção da doença somática.

As bases freudianas da psicossomática residem em dois conceitos fundamentais:
– a vida pulsional e as relações de estrutura e funcionamento das famílias de neuroses;
– a oposição entre neuroses atuais e psiconeuroses de defesa.
As pulsões são as operadoras da estrutura psicossomática: ao mesmo tempo a marca do orgânico e do psíquico, assegurando permanentemente o vínculo somato-psíquico. Isso se dá por meio de vias que se originam na geografia do corpo e que confluem ao psiquismo.

2. Como essa abordagem contribui para a compreensão e tratamento das patologias contemporâneas, nas quais o corpo está cada vez mais implicado?

A psicossomática psicanalítica, inicialmente, desenvolveu uma compreensão do funcionamento emocional nas somatizações. No entanto, com o decorrer do tempo, constatou-se seu maior potencial de abrangência. Seu corpo de teorias passou a dar conta também dos quadros psicopatológicos contemporâneos, nos quais há o comprometimento da constituição do narcisismo primário e falhas do processo de simbolização, o que dificulta a transformação do corporal em psíquico.

O corpo, assim, impera como palco da dor psíquica. Nas somatizações, o que se expressa é o corpo libidinal e o sintoma corporal não possui significado, uma vez que houve comprometimento na instauração do recalque primário, substituído pelos processos de recusa e cisão.

Tais conceitos nos auxiliam a compreender o funcionamento de indivíduos com dificuldade de sentirem e de se apropriarem das próprias emoções. Estas acabam por permanecer no corporal devido ao prejuízo da capacidade de representação. O mecanismo descrito é o que está na base das somatizações e dos quadros denominados de clinica contemporânea ou clinica do vazio.

Para os analistas, a dificuldade se encontra na precariedade dos processos de simbolização e mentalização que tais indivíduos geralmente apresentam. Em análise, isso se expressa na ausência da capacidade de associar e abstrair. O vazio interno é preenchido por uma verborragia sem fim, na qual não há espaço para, sequer, um momento de escuta. Fatos do cotidiano são contados sem ligação associativa, sem correlação, sem ligação afetiva. Pode-se observar ainda uma inercia total frente aos fatos da vida. Falta vitalidade, falta libido. Só há o corpo que dói e que se expressa por si, sem representação por meio da palavra. Denominamos esse quadro de depressão essencial, um importante referencial da psicossomática psicanalítica.

Nesses casos, uma das funções do analista é tentar estabelecer as correlações possíveis que se perderam.

3. Qual será o enfoque da Jornada e principais presenças/temas?

Nesta Jornada, duas conferências irão contextualizar a psicossomática psicanalítica na clínica contemporânea.

Diana Tabacof, membro da Sociedade Psicanalítica de Paris e do Instituto de Psicossomática de Paris, discorrerá sobre a psicossomática psicanalítica hoje: o modelo pulsional da Escola de Paris.

Mikel Zubiri, analista didata da Sociedade Psicanalítica de Madri, discutirá a abordagem psicanalítica dos pacientes somáticos graves.

Além das conferências, haverá três mesas redondas com a participação de colegas brasileiros que investigam e trabalham com este tema. O foco aqui é refletir sobre as relações da psicossomática com o narcisismo, com o meio ambiente e com a dor psíquica. Por fim, a apresentação de material clínico vai propiciar uma análise cuidadosa das vicissitudes da prática clinica, nesse campo.

Fontes:
Comissão Organizadora da 1ª Jornada de Psicossomática Psicanalítica da SBPSP: Victoria Regina Béjar, Candida Sé Holovko, Denise Aizemberg Steinwurz, Eliana Riberti Nazareth e Silvia Joas Erdos.

Robôs no tratamento do autismo…será?

O autismo é um tema que tem aparecido com frequência na mídia e também aqui no Blog. No dia 13/10, publicamos entrevista com a psicanalista e psiquiatra Vera Regina Fonseca para falar sobre autismo em adultos.
O post de hoje se contrapõe à matéria publicada no jornal O Estado de S. Paulo (04/10/2014), sobre a utilização de robôs no tratamento de indivíduos com algum TEA (transtorno do espectro do autismo). A reflexão foi feita pela psicanalista e membro da SBPSP, Maria Thereza França.
A discussão é ampla e segue aberta a todos que quiserem participar.

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Por Maria Thereza França

Sobre a matéria publicada recentemente no jornal O Estado de S. Paulo (04/10/2014) – Autista interage com robô que auxilia tratamento – faço as seguintes considerações:

Diz a matéria:

“O que parece ser um brinquedo pode ajudar a melhorar a interação das pessoas com autismo e, assim dar mais qualidade de vida a elas.”

“Quando o robô começou o gingado de capoeira, um dos pacientes levantou e imitou o movimento.”

Do experimento com o robô de tecnologia francesa participaram quatro crianças autistas atendidas por uma ONG. Segundo a mesma notícia, a Organização Mundial de Saúde divulga que há mais de 2 milhões de autistas no Brasil e 70 milhões no mundo.

Com os atuais conhecimentos, não podemos mais falar em “autismo” e sim “autismos”, pois é amplo o espectro a ser estudado.

A partir da descrição de Kanner em 1943, do Autismo Infantil Precoce, muitos estudos trouxeram importantes contribuições para o entendimento do que se passa com as crianças com autismo, entre elas as contribuições advindas da Psicanálise.

Os distúrbios que resultam em prejuízos importantes para o desenvolvimento como um todo, mas especialmente para a linguagem e as relações afetivas da criança, têm causalidade múltipla.

A Psicanálise não descarta a possibilidade de que existam fatores orgânicos ou mesmo genéticos, além das questões emocionais. Em conjunto com outras áreas do conhecimento científico, tem desenvolvido recursos para ajudar as crianças com autismo a saírem do universo em que se encontram encerradas, no qual o contato afetivo não existe, ou é tênue.

Necessitamos utilizar ferramentas próprias para que essas crianças possam vir a se interessar pelo humano e abandonar suas relações desvitalizadas, repetitivas e controladas (robotizadas).

A Psicanálise é construída sobre a premissa de que há uma força que move o ser humano, que o movimenta e o diferencia de qualquer outro animal e que as necessidades humanas vão além das biológicas e físicas compartilhadas com todos os animais. A linguagem, a capacidade de pensar, desejar, simbolizar, nascem com as funções corporais, mas a elas transcendem.

É importante que se possa compreender as produções das crianças com autismo, perceber que naquela criança existe um traço, potencialidades, um vestígio de sujeito que precisa desabrochar como ser humano.

É fundamental recriar as condições que possam favorecer o estabelecimento e/ou fortalecimento dos vínculos afetivos e, como consequência, o desenvolvimento das funções mentais, consolidando o vínculo com o humano, que se encontra pouco desenvolvido, em detrimento do contato com objetos concretos, que fornecem estímulos sensoriais, aos quais estas crianças se mostram fortemente aderidas.

Assim, vemos que esse experimento só se justifica no caso de se desenvolver inserido dentro de uma relação afetiva, com outro ser humano, para que o sentido do interagir, “brincar” com um robô (arremedo de gente) possa se ampliar e fortalecer o desenvolvimento de um psiquismo colorido pelas trocas afetivas.

A imitação pode ser um passo para as identificações humanas, porém, pode também cristalizar a adesão a padrões desvitalizados, tendência defensiva tão observada nas crianças com autismo.

As crianças, de um modo geral, hoje, estão perdendo a capacidade de brincar, ou melhor, a brincadeira tende a ocorrer como descargas físicas excitadas, agitação, chegando frequentemente à hiperatividade, o que representa a adesão ao movimento. Do mesmo modo, o uso de iPads como babás eletrônicas, ou a adesividade aos jogos eletrônicos, substitutos precários do contato humano, é cada vez mais estimulado.

Vale registrar que nem a atividade física, nem as mídias e jogos eletrônicos representam em si algo pernicioso, pelo contrário! A atividade física e lazer são saudáveis e estarmos conectados nos dá condições de inserção ao mundo atual. O problema diz respeito ao uso dos mesmos como condutas aditivas, sem que se tenha o entendimento da função a que se prestam: uma tentativa – ineficaz – de preenchimento interno por meio de sensações externas.

Como diz o psiquiatra Jairo Bauer (“As novas dependências”, O Estado de S. Paulo, p. A34, 24/08/2014):

“trocar interações sociais, interesse na escola e no trabalho e opções variadas de lazer pela busca ininterrupta de tempo para se exercitar ou jogar mostra que há uma dificuldade de controle, e, pior, quanto mais se faz, mais se sente que falta algo que ainda deve ser feito.”

E o que faltaria afinal?
Falta o investimento no fortalecimento de um mundo interno, de uma mente que seja capaz de lidar com as questões humanas do dia a dia, modular nossos sentimentos, ajudando a conviver com as agruras da vida e que seja fonte de verdadeira satisfação.

Será que nós seres humanos estamos dispostos a correr o risco de oferecer às nossas crianças já tão prejudicadas modelos robotizados?

*Maria Thereza de Barros França é psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

Transtorno Obsessivo-compulsivo: rituais, manias e aprisionamento.

Rituais e manias, em alguma medida, fazem parte do nosso dia a dia e o ideal é que sejam formas de nos ajudar com a organização da rotina, das nossas tarefas, ou mesmo no trabalho. Mas pode não ser sempre assim. A partir do momento em que tais comportamentos tornam-se imperativos e controlam a vida do indivíduo, causando sofrimento e prejuízo em sua vida social e emocional, podemos estar diante de um transtorno grave, que requer tratamento. Confira na sequência mais informações sobre transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), e sinta-se à vontade para deixar comentários e dúvidas.

Transtorno Obsessivo-compulsivo: rituais, manias e aprisionamento.

O Transtorno Obsessivo Compulsivo, mais conhecido como TOC, é um Transtorno  Mental caracterizado pela presença de ideias estranhas e incontroláveis que atormentam incessantemente o sujeito, e pela constante luta contra esses pensamentos. Há também compulsão a realizar atos indesejáveis, rituais esconjuratórios e um modo de pensar ruminante. Pensamentos mágicos e dúvidas que levam à inibição do pensamento e da ação, também fazem parte do quadro (esses pensamentos dominam as ações da pessoa e impedem que ela se comporte livremente).

Segundo a psicanalista Luciana Saddi, membro da SBPSP, nas primeiras iniciativas de se estudar os transtornos mentais, entre 1894 e 1895, a neurose obsessiva foi isolada por Freud de outros sintomas psiquiátricos. Naquele momento, Freud compreendeu-a como um quadro psiquiátrico autônomo e independente, pertencente à família das psiconeuroses. Na época, os médicos consideravam que era uma degeneração e que o quadro era incurável.

De acordo com ela, atualmente, na Psicanálise, fala-se em uma estrutura mental obsessiva ou em traços obsessivos de personalidade e a formação dos sintomas ocorre quando conflitos irremediáveis, recheados de afetos intensos e simultâneos de amor e ódio surgem e, por algum motivo, não se resolvem. Diante disso, nasce a necessidade de controlar a vida pulsional e desviar a sexualidade e a agressividade para fins aceitáveis. Mas, como é característico das formações sintomáticas, o ‘tiro sai pela culatra’ e a defesa se torna adoecimento. No caso desse transtorno, os mecanismos de defesa mais evidentes são: o deslocamento de afetos para ideias distantes das que originaram o conflito e o isolamento, que quebra as conexões do pensamento, e desliga o sujeito de sua própria história e de seus afetos.

Segundo a psiquiatra e psicanalista Suzana Grunspun, esse é um dos transtornos mais prevalentes na população e considera-se que sua variabilidade clínica e diversidade de sintomas são fatores complicadores de diagnóstico. Isso preocupa a Organização Mundial de Saúde (OMS), pois o TOC é considerado uma doença incapacitante.

Desde a década de 50 a Associação Psiquiátrica Americana publica o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, cujo objetivo é fornecer uma fonte segura e científica para fundamentar a pesquisa e a prática clínica. A psiquiatria preconiza a identificação de sintomas, segundo as normas estabelecidas pelo manual DSM V, para fins de diagnóstico e para o tratamento dos pacientes. A psiquiatria não se dedica tanto, como a psicanálise, à compreensão dos aspectos emocionais que podem estar subjacentes ao quadro estabelecido.

No DSM V, o TOC é descrito pela presença de obsessões, compreendidas como pensamentos repetitivos e persistentes, imagens ou impulsos e/ou compulsões que são comportamentos com rituais repetitivos ou atos mentais, nos quais a pessoa se vê obrigada a fazer em resposta a uma obsessão. O psiquiatra, baseando-se na presença quantificada  de obsessões e/ou compulsões e a partir de critérios estabelecidos, proporá o diagnóstico. Atualmente, existem medicamentos indicados para o tratamento, que devem ser prescritos com rigor e que ajudam no alívio dos sintomas. Isso reduz a carga de sofrimento do indivíduo e propicia uma melhora em sua qualidade de vida.

Mas como a Psicanálise compreende o TOC?

Como se sabe, a noção de inconsciente é fundamental na Psicanálise e, segundo Luciana Saddi, no núcleo desse sofrimento e desse conjunto de sintomas está a imperativa necessidade inconsciente de controlar. Controlar afetos indesejados, ideias que podem surgir de repente causando desordem ao sujeito e impulsos de natureza sexual ou hostil que perturbam a ordem estabelecida. Se juntarmos a necessidade de controle com o pensamento mágico e acrescentarmos, nessa equação, a confusão entre desejo e ação, teremos todos os ingredientes para a estrutura mental obsessiva.

Além do tratamento com medicamentos, também a análise pode contribuir para a melhora dos sintomas. Analista e analisando trabalham no sentido do surgimento de um saber singular sobre o sujeito em análise. Trata-se, assim, de identificar as entranhas que dão suporte aos sintomas, aquilo que está na base dessas defesas. Procurar eventuais explicações sobre como se formam tais pensamentos e afetos que geram os sintomas não é, na Psicanálise, o foco do tratamento. O discurso do paciente revela uma verdade intrínseca a ele e o trabalho de análise oferece uma oportunidade única: o analisando pode ser escutado por alguém que não participa de sua vida familiar e que não deseja lhe impor nenhuma verdade ou saber pronto. O analisando pode falar e se escutar ou se calar. O espaço é livre de obrigações e performances, e a ideia é que, por meio de trocas e experiências que só dizem respeito àquela dupla, seria possível chegar aos núcleos inconscientes que mantém os sintomas ativos.

Em relação à cura, sim, ela pode ser alcançada em muitos casos. Em outros, trabalha-se em busca do abrandamento dos sintomas, para que o sujeito possa seguir com sua vida, sem tantos prejuízos. O importante é que as pessoas busquem ajuda, pois existe sim tratamento, tanto do ponto de vista psiquiátrico como psicanalítico. Se vai haver a supressão total da sintomatologia, ou apenas seu abrandamento, é impossível saber de antemão. O que se sabe é que atualmente as ciências da área da saúde dispõem de recursos que se complementam e que não só podem como devem ser utilizados em conjunto, buscando o alívio do sofrimento e a recuperação da energia de vida que os transtornos mentais subtraem dos indivíduos.

Fontes:

Luciana Saddi – mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, psicanalista e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

Suzana Grunspun – psiquiatra, psicanalista e membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). 

 

 

 

SUICÍDIO E PSICANÁLISE

Por Sandra Maria Gonçalves

Viver implica sentir prazer e dor. A ciência médica, hoje em dia, nos propõe alívio para qualquer dor física.

Quanto à dor psíquica, aquela angústia inerente às nossas perdas, frustrações, escolhas, imperfeições e limitações, a natureza nos dotou do sono para não termos que enfrentar a realidade o tempo todo, sendo que o sonhar nos ajuda a organizar e dar sentido às experiências prazerosas, enigmáticas ou dolorosas vividas durante o dia. Mesmo acordados não precisamos estar o tempo todo em contato com a realidade, podemos fantasiar, ou seja “sonhar acordado”.

O suicídio é um sono sem sonhos do qual não se acorda jamais.

Para algumas pessoas o sono e o sonhar são suficientes; outras buscam as opções criadas pela cultura: álcool, drogas, psicofármacos; para 3 mil, diariamente, segundo a Organização Mundial da Saúde, só o suicídio é visto como solução. Por quê? Porque a capacidade para lidar com os afetos dolorosos sem que o Eu se desagregue é extremamente variável entre as pessoas e também na mesma pessoa ao longo da vida.

Cada um comete o ato suicida por razões singulares. Vingança, raiva, autopunição, culpa, desesperança, vergonha, humilhação, inferioridade são estados afetivos comumente narrados pelas pessoas com ideias suicidas, mas sob estes subjazem outros que no momento não estão acessíveis à percepção da pessoa. Esses afetos vão se tornando intoleráveis, as ideias suicidas vão aparecendo, preparações para o ato começam a ser construídas e em determinado momento o controle egóico entra em falência e o ato ocorre.

A psicanálise nos ensina que em todo evento psíquico há conflito, há dois lados: no caso do suicida é entre a vontade de matar o corpo e a vontade de sobreviver. O suicida espera que vá existir um “estado de não sofrimento”, quando na realidade não existirá “estado” nenhum, apenas um puro corpo morto.

A lógica do suicida não é a lógica comum, mas para este faz todo o sentido. A pessoa deve ser levada a sério em suas ideias. Quanto antes estas forem identificadas maior é a possibilidade de ajudar a pessoa a se reconciliar com seu lado que quer sobreviver, dando significados que tornem suportáveis a dor de viver nesse mundo que ela quer deixar e, quem sabe, modificar sua convicção suicida.

*Sandra Maria Gonçalves é psicanalista, membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

DEPRESSÃO

Vincent van Gogh - Old Man in Sorrow

Vincent van Gogh – Old Man in Sorrow

Para a Psiquiatria, a depressão é uma alteração do humor caracterizada por tristeza profunda, acompanhada de apatia, desânimo, inapetência, desinteresse sexual e pela higiene, insônia e um sentimento de falta de sentido na vida. Esses sintomas podem ou não se alternar com seus contrários: humor exaltado, denominado “mania”, ou em grau mais leve,hipomania. Se por um lado os sintomas depressivos nos fazem sentir pesados e pesando aos que convivem conosco, os de mania nos fazem sentir ótimos, não necessitando de nenhum tipo de ajuda, o que, entretanto já não se dá com os familiares, que podem perceber certas inadequações, falta de limites, gastos exagerados e assim por diante.

Esses quadros nos levam a perguntar: se eu tenho esses sintomas, sou doente? Estou doente? O que se passa comigo?

A Psicanálise traz sua contribuição no sentido de pensar estas questões.

Embora não seja claramente detectável, há sempre um evento desencadeador dos sintomas, que pode ser um sentimento de perda, de luto. Às vezes ele pode passar despercebido, mas está lá.

O que acontece é que cada vivência desse tipo em nossas vidas “engancha” em outras anteriores, ainda que possamos não nos dar conta disso, potencializando cada uma delas.

É importante distinguir quando se trata de tristeza como resposta ajustada a situações normais de vida, mas que cada vez mais temos dificuldade de conviver. Infelizmente, estamos cada vez menos “preparados” para suportar os sentimentos de tristeza pois além de os evitarmos, estamos muito frequentemente em busca do prazer, da satisfação e da preferência imediata.

Pode parecer estranho, mas é muito comum em adolescentes sentimentos depressivos, pelo luto, um luto difícil de fazer diante da perda do corpo infantil, das vivências e expectativas da vida de criança que, comparadas às novas e complexas expectativas do mundo adolescente, eram familiares e administráveis pelo jovem.

Também parece estranho falar que mães que recentemente tiveram seus bebês, acolhidos com muito amor, também vivam sentimentos de luto – e elas vivem! Isto porque, além de muitas mudanças hormonais, o estado de humor da gestante vai sofrendo modificações: parece que toda sua vida se lentifica, seu foco de atenção vai se estreitando em torno de tudo o que diz respeito ao seu bebê, o que é muito interessante no sentido de colocar a mãe em sintonia com ele, favorecendo que lhe ofereça os cuidados que necessita.

Após o nascimento, a mãe se depara com o vazio no seu corpo, com as demandas do bebê, com os confrontos entre o bebê que havia imaginado e com o bebê real, que agora ocupa tanto espaço na sua mente e na sua vida.

Consideramos tanto essa ‘depressão’ pós-parto como a ‘depressão’ adolescente uma depressão normal. Isso não quer dizer que desconsideremos a ocorrência de quadros com características muito intensas, com enorme prejuízo para a vida da mãe ou do adolescente, ou de qualquer pessoa, e que demandam então uma atenção especial.

Nos casos de depressão em adolescentes, deve-se prestar muita atenção aos sinais que possam indicar algum risco de suicídio, especialmente se além do isolamento e dos sintomas já mencionados, surgirem também outros sintomas, tais como ideias estranhas, ou mesmo delirantes, acompanhadas ou não de alucinações.

No caso de crianças, para as quais costumamos ter a visão idealizada da “infância feliz”, muitas vezes fica difícil detectar sintomas depressivos. Crianças deprimidas podem ser vistas como crianças boazinhas e quietinhas, obedientes e tímidas. Por outro lado, as crianças com manifestações hipomaníacas podem ser confundidas com crianças decididas, ativas, bem resolvidas.

O que se passa é que vivências de perda provocam a necessidade de elaboração do luto, processo no mais das vezes difícil de conviver, muito sofrido para quem o vive e também difícil para as pessoas próximas suportarem. Desse modo, lançamos mão de mecanismos de defesa contra o sofrimento, sendo que a exaltação de humor, a já mencionada “mania” ou hipomania, é uma das formas de nos defendermos, de tentarmos não entrar em contato com nossas dores.

O problema é que tais defesas prejudicam o trabalho de luto, prolongando e até cronificando os sentimentos de perda, podendo acarretar em prejuízos para o desenvolvimento da criança e mesmo para o adulto conseguir encaminhar sua vida com maturidade.

Assim sendo, é muito importante que estejamos atentos aos sinais que possam indicar que uma tristeza deixou de ser algo “simples” e passou a se intensificar, afetando nossas vidas ou de alguém de nosso convívio.

Pode-se buscar tratamento psicoterápico, psicanalítico e mesmo em alguns casos pode haver a necessidade de administração de medicamentos como recurso auxiliar.

As famílias que ajudam seus membros a enfrentar, conviver e a superar perdas podem muitas vezes se ver diante de limites. Daí a necessidade de ajuda especializada, o que não deixa de ser também uma forma de demonstrar amor.

Onde buscar ajuda:

1. Centro de Atendimento Psicanalítico (CAP) – ligado à Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)

Rua Sergipe, 441 – Conj. 62 e 51
Higienópolis – São Paulo/SP – CEP: 01243-001
Telefone: (11) 3661 9822

2. Clínica Psicológica “Durval Marcondes” do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da USP

Av. Prof. Mello Moraes, 1721 – Bloco D
Cidade Universitária – São Paulo/SP – CEP: 05508-030

Telefone: (11) 3091 8248 e  (11) 3091 8223
Endereço Eletrônico: clinica@usp.br

3. Clínica Psicológica do Instituto Sedes Sapientiae

Rua Ministro Godoi, 1484

Perdizes – São Paulo/SP – CEP: 05015-900

Secretaria da Clínica: Telefone: (11) 3866 2735 ou (11) 3866 2736

clinica@sedes.org.br

Fontes: Maria Thereza de Barros França – psicanalista e membro da SBPSP