Psicopatologia

Dor psíquica e dor corporal : uma abordagem psicanalítica

*Denise Aizemberg Steinwurz

 

Ao longo da vida , com frequência enfrentamos situações inesperadas, geradoras de intensas angústias. Se, por um excesso, essas angústias não podem ser digeridas, elas transbordam para o corpo, que adoece.

Na vida adulta, uma doença física pode ser desencadeada por situações de perda, como a morte de um ser amado, a perda do emprego, condição financeira precária, separações ou momentos de impasse. Essas situações remetem à profunda dor mental, e a dificuldade de tolerar a dor leva o indivíduo, muitas vezes, a utilizar seu corpo para se defender dela. Contudo, essas situações só são consideradas traumáticas porque se ligaram, a posteriori, a um trauma anterior, relacionado a perdas significativas na infância.

Uma das importantes aquisições do desenvolvimento psíquico é a capacidade de simbolização. A capacidade de elaborar conflitos por meio de processos psíquicos depende do grau de complexidade que alcançou um indivíduo em sua estruturação emocional. A abordagem psicanalítica dos fenômenos somáticos compreende as doenças físicas e as afecções corporais como medidas defensivas para manter o equilíbrio dessa organização emocional. Quando há falhas nesse processo, porém, isso pode resultar na somatização dos sofrimentos psíquicos. Na ausência do símbolo e da palavra, é no corpo que eles se manifestarão.

Os fenômenos somáticos podem ser considerados uma modalidade de descarga de angústias que não podem ser pensadas e que são provenientes de experiências traumáticas sofridas em estágios precoces do desenvolvimento da pessoa. Essas vivências precisarão ser nomeadas para, então, serem pensadas e elaboradas, em vez de seguirem sendo derramadas sobre o soma.

Quadros de hipertensão arterial grave, diabetes, dermatites, fibromialgia, doenças autoimunes – como lúpus e vitiligo -, doenças gastrointestinais – como gastrite, retocolite ulcerativa ou doença de Crohn -, entre outras doenças, podem se manifestar em épocas de conflito e depois desaparecer. No entanto, elas podem se instalar como doenças crônicas que geram graus diversos de incapacidade na vida pessoal e profissional do indivíduo, colocando sua vida em risco.

Nessas circunstâncias, o objetivo de um atendimento psicanalítico será, por meio do encontro entre analista e analisando, criar condições favoráveis e necessárias para ampliarmos o repertório psíquico do paciente, de modo que ele possa pensar em seus conflitos em vez de depositá-los em seu corpo. Esse é o campo da psicossomática psicanalítica; ela promove uma abordagem voltada para as patologias decorrentes de falhas do processo de simbolização e da construção de um sólido narcisismo primário.

Pela análise, a capacidade simbólica quase inexistente poderá ser construída, por meio da colocação em palavras de cada afeto não sentido e, portanto, não assimilado mentalmente. Na medida em que o analista constrói com esse indivíduo – cuja dor no corpo grita – novas ligações psíquicas, aquilo que estava inicialmente precário poderá ganhar um novo status: onde houve a falta de uma sustentação da mãe como primeiro objeto o analista apresenta-se como um novo objeto com quem o paciente poderá – talvez pela primeira vez – ser escutado naquilo que, de fato, o corpo denuncia.

Bibliografia :

Steinwurz, D.A. ( 2017). Doença de Crohn e retocolite: abordagem psicanalítica dos fenômenos somáticos. In V.R.Béjar ( Org.). Dor psíquica, dor corporal- Uma abordagem multidisciplinar. São Paulo: Editora Blucher.

*Denise Aizemberg Steinwurz é membro filiado do Instituto de Psicanálise Durval Marcondes da SBPSP, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, Diretora de psicologia da Associação Brasileira de Colite Ulcerativa e Doença de Crohn (ABCD), Prêmio “Avelino Luis Rodrigues”(2012) no concurso ” Psicossomática e Interdisciplinaridade”( IV Congresso Paulista de Psicossomática), membro associado do Departamento de Psicanálise da Criança do Instituto Sedes Sapientiae.

Como funciona a mente de um corrupto

Coordenadora da Comissão de Ética da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, a psicanalista Cibele Maria Moraes di Battista Brandão concedeu uma entrevista de fôlego ao jornal mineiro “Diário de Caratinga”, que propôs a Cibele o desafio de traçar o perfil de quem pratica atos de corrupção, tema que continua como pauta prioritária na imprensa brasileira.

Leia a seguir a íntegra da entrevista.

Do ponto de vista da psicanálise, como pode ser interpretada a corrupção?

A corrupção pode ser vista a princípio como um tipo de loucura, de comportamento desviante, antissocial e perigoso. Nesse sentido, o sujeito privilegia só a si, até mesmo em situações em que ele foi escolhido ou eleito para trabalhar pelo bem comum. A corrupção se define pela perversão – ao invés de procurar o bem comum, ele busca tão somente seu enriquecimento e interesses individuais. A corrupção de objetivos não é só um fenômeno social e nem só um fenômeno individual. Podemos pensar no dito popular que diz “a ocasião faz o ladrão”. Precisamos da ocasião e precisamos do ladrão em potencial. Ladrão de que? Ladrão de uma falsa segurança.

O corrupto age motivado por um fator emocional ou ele é extremamente calculista/racional?

As duas coisas. Ele age motivado por um fator emocional que o faz ser calculista. Ele quer alcançar poder, dinheiro, prestígio. Como o “drogadito” que necessita da droga, ele não pensa. Age só em busca de seu objetivo. Ele quer o objeto que imagina lhe trará a solução de todas as suas aspirações narcísicas. Ele apenas quer alcançar seu objeto de desejo por idealizá-lo. A droga trará a solução mágica de tudo, assim como para o corrupto o poder,o dinheiro, o prestígio, o salvarão de todos as dores e inseguranças que o viver traz para qualquer ser humano. Ele não prioriza e nem valoriza o aprender pensar, construir recursos, viver uma vida ética. Esses valores tornam-se para ele pueris e ingênuos. A palavra ética deriva do grego “éthiké”, derivada por sua vez de ethos que significa caráter, hábito, modo de vida. A eticidade constitui-se da formação do caráter de cada indivíduo.

O corrupto tem a consciência de que está cometendo um ato que é amplamente reprovado pela sociedade?

A Psicanálise em sua prática procura compreensão de cada indivíduo como sendo único e exclusivo. Há pessoas que podem ter consciência e outras que absolutamente vivem como sendo natural participar de um esquema vigente. Na base do sempre foi assim e assim será… Se o corrupto vem de um meio que tenha regras sociais que advogam pela ideia da vantagem a consciência fica alterada. Ele passa a viver como sendo natural receber vantagens, sempre. É diferente o processo de conscientização de uma criança cujos pais desde cedo ensinam que o que pertence ao outro, ao coleguinha, é do outro… Os traços anti-sociais de um indivíduo, tais como não entender que seus atos são antiéticos e reprováveis, são resultantes de um déficit na estruturação do superego, instância da mente que tem um papel assimilável ao de um juiz ou censor interno, que tem consciência moral na auto observação, na formação de ideias e princípios. Essa instância constitui-se pela interiorização das exigências e interdições parentais. Esse déficit faz com que a consciência moral e ética não se instalem adequadamente. Não há o medo da autoridade externa, que é entendida como inexistente ou permeável conforme o seu desejo.

As pequenas “trapaças” diárias que usamos como comprar produto pirata ou apresentar um atestado falso podem ser consideradas como atos de corrupção?

A corrupção deve ser considerada não apenas nas investigações que vemos desfilar toda noite na nossa sala de TV, justamente no momento de descanso após exaustivo o dia de trabalho, quando nos sentamos para relaxar. A corrupção não está só nos macro acontecimentos, mas também nos pequenos delitos do cidadão comum, que se desvia da verdade para obter às vezes inúteis vantagens. Precisamos pensar que nessas pequenas situações, se bem conduzidas, trazem sementes de prevenção. É prevenção quando ensinamos um filho a não pagar “propinas” para favorecer trâmites burocráticos. Tendemos a pensar que é corrupto apenas quem recebe a propina e nos esquecemos de quem dá a propina. Destruímos nesse momento a possibilidade de se ter o contato com a verdade, que pode ser difícil, mas traz o germe do fortalecimento quando é enfrentada.

Se compararmos o corrupto que atua individualmente àquele que atua em conjunto (por exemplo, em uma quadrilha) podemos considerar que o comportamento de ambos seja o mesmo?

Em 1930, em seu importante trabalho o Mal-estar na Civilização, Sigmund Freud descrevia três motivos para o homem ter dificuldade no convívio social e também para a impossibilidade de ser feliz:

1 – Pela fraqueza humana frente às forças da natureza impossíveis de serem dominadas.

2 – Pela fragilidade de nossa constituição física que nos leva a adoecer, envelhecer e morrer.

3 – E por fim, pelo sofrimento advindo da convivência com os outros seres humanos.

Nessa constelação proposta, o ser humano está fadado a conviver com o medo, a insatisfação e a insegurança. O corrupto, seja ação individual ou em conjunto, tenta fugir dessa condição. Mas foge buscando meios mágicos como o enriquecimento ilícito que na verdade o enfraquece e expõe. Em uma vida assim, não há espaço para falarmos em crescimento, transformação ou criação de recursos mentais para lidar com a vida, que não é fácil. A busca pela felicidade tem que passar por algo que não seja só o que venha do externo. Há alguns meses atrás circula no youtube uma belíssima entrevista do ator argentino Ricardo Darin a um repórter da TV espanhola. Esse repórter surpreendeu-se com a recusa de Darin a um trabalho que veio de Hollywood. Darin não quis aceitar só porque poderia ganhar uma soma considerável de dinheiro. Ele queria mais do que tudo voltar para casa e estar com a família, com sua rotina… A entrevista vale a pena ser vista.

Muitas pessoas dizem que não existe político que não seja corrupto, pois ao serem eleitos, acabam “caindo” no sistema. Do ponto de vista da psicanálise, como a senhora analisa essa afirmação?

Como dissemos, a Psicanálise em sua prática tenta aproximar-se para conhecer aquilo que é único e exclusivo para cada pessoa. A Psicanálise não generaliza ou rotula. Não descreve afirmando que o corrupto é assim…. Entende que cada pessoa tem uma estruturação própria. Dizer que não existe político correto seria uma generalização preconceituosa. Em qualquer atividade ou profissão há todo tipo de pessoa. Não estamos aqui dividindo em duas categorias: os mocinhos e os bandidos. Dentro de todo ser humano há uma gama de bondade e maldade, desenvolvimento e decadência, etc., mas muito importante é a direção que se quer dar para a própria evolução. Todas as pessoas estão sob a égide de uma dualidade instintual. Por um lado, estão imbuídas de amor e construtividade e, por outro, mesmo involuntariamente, são constituídas por ódio e destrutividade. O que determinará uma boa evolução será uma interação entre o ambiente propiciador de crescimento e, internamente, seu desejo de se aproveitar do potencial de evolução. Acrescento que um excesso de ambição e desejo de enriquecer muito pode levar o ser humano a um lugar obscuro.

O corrupto acredita que possa ser responsabilizado por seus atos ou ele age pensado na impunidade?

No começo dessa entrevista dissemos que a corrupção é uma espécie de loucura e, como tal, afasta o indivíduo da realidade. Se uma pessoa é “ousada” acima do bem e do mal, podemos dizer que sua consciência é deteriorada. Mas o que dizer de uma realidade vivida até recentemente em que havia a impunidade? E que essa realidade não era um delírio e sim uma constatação que nos fazia afirmar sempre que a cadeia seria somente para pessoas socialmente desfavorecidas.

A corrupção pode ser considerada uma doença?

Sem dúvida nenhuma. E justifico. Tudo aquilo que se afasta da realidade e aproxima do mágico e do idealizado prejudica imensamente a pessoa, que crê, assim, que desse modo estaria encontrando a realização e a felicidade. Penso também ser necessário para responder essa questão que tentássemos definir o que é uma doença do ponto de vista da mente. A psicopatologia é um termo utilizado para designar os distúrbios do psiquismo humano. Uma das causas desses distúrbios originam-se de um sofrimento intenso frente ao qual a pessoa não consegue construir recursos para lidar com a demanda da vida. Porém, não é só isso. O assunto é muito amplo. Há outras causas para os distúrbios da mente, inclusive causas de desequilíbrio bioquímico que necessitam serem medicadas. De qualquer forma, um desequilíbrio leva a uma interrupção do desenvolvimento e evolução da pessoa e essa quebra caracteriza uma doença pois prejudica o indivíduo na sua aquisição de recursos para enfrentar a vida que, a cada etapa, torna-se mais complexa. O propósito fundamental de uma relação terapêutica seria o de ajudar a pessoa que busca esse tratamento a fazer mudanças que lhe possibilitem viver sua vida de modo mais plenamente humano, e que a pessoa possa retomar seu desenvolvimento.

Cibele M. M. Di Battista Brandão é membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), membro do Núcleo de Psicanálise de Marília e Região NPMR) e docente dessas instituições. Atualmente, coordena a Comissão de Ética da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Desaparecidos: uma história de dor

Por Leopold Nosek*

Nossos olhos recebem a luz de estrelas mortas. Atravessando distâncias abissais, o brilho de corpos celestes que já desapareceram continua a chegar até nós. Assim é a figura de Homero, cujas palavras, inscritas na memória da humanidade, guardam o substrato do que no século IV a. C. culminaria na cultura grega clássica, na qual se desenvolveriam a poesia, o teatro, a filosofia, a ética, enfim, os valores e as práticas que ainda hoje alicerçam as narrativas com as quais desenhamos os trajetos de nossa vida.

Devo dizer que hoje, assombrado pela extensa lista de desaparecidos que as ditaduras latino-americanas impingiram a pais, mães, filhos, irmãos e companheiros, descubro na Ilíada uma beleza peculiar que se apresenta como enigma: por que, como relata Homero, gregos e troianos lutam furiosamente para reaver o corpo de seus mortos? Por que todos os guerreiros se dispõem a morrer pela matéria apodrecida de uma anatomia?

Heitor, príncipe de Troia, mata em combate Pátroclo, companheiro do herói primordial grego, Aquiles. Este, tomado de ira, vinga-se matando Heitor, mas não sem antes disputar com ferocidade a posse do cadáver de Pátroclo – suprema desonra seria abandoná-lo à sanha dos inimigos, aos “cachorros e abutres de Troia”. Cego de dor pela perda do amigo, Aquiles leva o cadáver de Heitor para o acampamento grego e por nove dias exercita-se em humilhá-lo, arrastando-o repetidamente em volta do túmulo de Pátroclo.

Os deuses a tudo observam e se indignam. É por intervenção deles que, embora ultrajado, o corpo do troiano permanece incólume, e é também por ação divina que Príamo, pai enlutado, consegue se aproximar de Aquiles para lhe suplicar de joelhos que o corpo do filho lhe seja devolvido. Aquiles assente e vai além: oferece a Príamo doze dias de trégua, de modo que as exéquias de Heitor sigam o cerimonial devido. Troia pode então chorar seu filho e lhe render homenagem, costume que constitui sintoma de civilização, não importa o grau de violência com que se pratique a guerra.

E assim termina a Ilíada, não no triunfo do célebre e inexistente cavalo de Troia (essa passagem não consta de nenhuma narrativa homérica, como se descobriu), mas no êxito dos rituais de reverência e dor que acompanham o exercício do luto.

Um ensaio de Freud, “Luto e melancolia”, nos ajuda a compreender por que razão, tal como nossos antepassados remotos, precisamos reaver o corpo dos nossos mortos. A premissa é que não, existindo representação da morte no inconsciente, o medo da morte se desloca para outros territórios. Manifesta-se, por exemplo, como sentimento de desamparo, solidão e abandono – lembremos o costume de nos agruparmos como família nos cemitérios, próximos dos que amamos, ou as concepções de vida eterna e reencarnação, tão variadas quanto são as culturas e as religiões.

Contudo, se a ideia da morte nos é insuportável, como se dá o luto? Freud o confronta com o fenômeno da melancolia. Nesta, há uma recusa a abandonar o objeto amado que perdemos; por meio de rememoração contínua, insistimos em mantê-lo presente. A melancolia é essa disfunção do luto que torna o objeto uma presença eterna. Já no processo de luto o objeto que se perdeu no mundo exterior torna-se uma presença no espírito de quem sofreu a perda. O ódio iniciado com a perda se acomoda, desenvolvemos uma identificação com o que perdemos.

Nesse percurso, um paradoxo: o espírito se enriquece, e o faz por via de trajetos trágicos. Necessitamos do corpo para apoiar essa quase impossível tarefa do luto. Como que damos vida ao corpo presente para poder repetir a experiência da perda e nos conformarmos com ela. Para que, libertos da sombra daquele que se foi, a vida possa prosseguir seu trajeto.

Quando o que temos não é o morto, mas o desaparecido, nem sequer a melancolia pode se instaurar. Cria-se um vazio em nós, um buraco negro que, como parasita, atrai para si o pensamento e os afetos, introduz deformações nos caminhos da alma. No plano da cultura e da história ocorrerá a mesma deformação que se abate sobre os destinos individuais. A cultura como que se paralisa, empobrece, pode mesmo gerar monstruosidades.

Hoje, na América Latina, familiares e companheiros dedicam a vida a buscar os restos de um ser cuja existência é recusada no mesmo momento em que se recusa sua morte. Nessa busca, tornam-se testemunhas não só da verdade de um sujeito singular, mas também de um momento trágico da história coletiva.

Não é outro o âmbito desta reflexão, suscitada também por conversas informais com entrevistadores da Comissão da Verdade. Uma das perguntas que afloraram ali foi esta: por que até agora não se produziram no Brasil obras literárias ou cinematográficas relevantes sobre o período da ditadura militar? A nosso juízo, a maioria das obras que já veio a público teria caráter jornalístico ou catártico, o que se explicaria sobretudo por não ter ocorrido uma ruptura real com a ditadura; um acomodamento ignorou os elementos potencialmente traumáticos daquela transição.

Aqueles que a ditadura representou recusaram a dor e a perda. Não quiseram a ruptura e conseguiram escamoteá-la dos que necessitavam dela. Os que se opunham não tiveram força para se fazer valer ou cederam à acomodação – e os nossos desaparecidos ficaram impossibilitados de existir até mesmo como desaparecidos. Tornaram-se sintoma exemplar de um acordo político que se fez impedindo o luto ou mesmo uma possível melancolia. Não se registraram perdas. A história teve de continuar calada. Como não pensar que esses restos autoritários, retrógrados, tingiram os pactos de silêncio que se seguiram e estão na raiz de deformidades que hoje explodem como distopias em nossa sociedade?

Os buracos de pensamento, as maquiagens, as recusas da verdade afetam o conjunto da sociedade. Pode bem ser que essa crise se encaminhe para outras figuras e setores sociais, à espera apenas de uma falência para entrar em cena. Teremos outros movimentos históricos, é certo, mas nossos desaparecidos continuarão a nos assombrar. De modo semelhante, nosso passado escravagista é um fantasma cotidiano que nos assola no mais íntimo dos nossos lares. Recusar a narrativa do trágico da história alimenta inevitavelmente os fantasmas. Aproveitando-se das nossas obscuridades, eles não perderão a oportunidade de reaparecer.

*Leopold Nosek é médico, psicanalista, membro e ex-presidente da SBPSP.

Minha vida (não) é um tédio

A sensação de vazio entediante que faz a existência parecer uma sequência estéril de dias sem qualquer sentido tem a ver com a falta de “criatividade psíquica”, que destrói a imaginação e o interesse real pelas coisas da vida.

Minha vida (não) é um tédio

Por Marion Minerbo*

Todos nós nos entediamos em situações específicas como passar horas no trânsito, num aeroporto, ou em uma festa em que não conhecemos ninguém. Mas o tédio que interessa ao psicanalista é aquele ligado à sensação crônica de vazio existencial: a pessoa sente que a vida não tem sentido, nada é vivido como significativo nem parece valer a pena. A vida é uma sequência estéril de dias e a pessoa não sabe o que fazer consigo mesma. Há um sentimento penoso e estranho de que o eu é construído artificialmente “de fora para dentro”, e não “de dentro para fora” com experiências genuínas, verdadeiras, com lastro.

O tédio costuma ser confundido com a depressão, mas são vivências diferentes. Na depressão o sentimento é de perda e de tristeza: havia algo que iluminava a existência, e este algo foi perdido. O deprimido não se sente vazio, mas “cheio de tristeza”, o que pode ser uma reação muito saudável diante de uma perda. Ele continua sonhando em recuperar aquilo que perdeu, enquanto o problema do entediado é que ele não sonha com nada. O mesmo afeto também costuma ser confundido com uma insatisfação com a vida. Até certo ponto, ela é positiva porque pode ajudar o insatisfeito a mudar de vida. Já a pessoa entediada vive um simulacro de vida. Ela ainda não conseguiu criar uma vida própria “de verdade”. Se “mudar de vida”, provavelmente em pouco tempo voltará a se sentir entediada.

Para não sofrer de tédio, muitas pessoas se lançam em atividades frenéticas, ou ao contrário, desligam-se dormindo muito. Podem usar drogas, ou então parasitar a vida dos outros. Celulares e redes sociais podem ser usados para disfarçar a sensação de vida vazia e sem sentido. (Note, porém, que esses mesmos estímulos podem ser usados de modo muito criativo). Quando, por qualquer motivo, esses recursos não estão disponíveis, o tédio se agudiza. Isso porque eles funcionam como “acompanhantes” que dão uma sustentação psíquica no tempo e no espaço. Quando faltam, a pessoa se sente largada de repente: ela cai e se esborracha brutalmente no vazio.

É a falta radical de criatividade psíquica que mata a imaginação e o interesse pelas coisas da vida, originando o vazio e o tédio. Criatividade, aqui, não tem nada a ver com ser artista ou descobrir soluções criativas para problemas. Trata-se da capacidade de criar algum sentido para a vida, de acreditar em um motivo para sair da cama cada manhã. Uma criança com um desenvolvimento psíquico normal não se entedia, pois é capaz de pegar qualquer coisa, uma tampinha de garrafa, e imaginar uma brincadeira com aquilo. A criatividade é a função psíquica mais importante porque “ilumina” nossas vidas. E então qualquer coisa pode se tornar interessante, envolvente e valiosa.

* Marion Minerbo é psicanalista, analista didata e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Autora dos livros Neurose e Não-Neurose (Ed. Casa do Psicólogo), Transferência e Contratransferência (Ed. Casa do Psicólogo) e Diálogos sobre a clínica psicanalítica (Ed. Blucher), que será publicado no início do segundo semestre.

Nise – O Coração da Loucura

“Nise – O Coração da Loucura”, Brasil, 2016 – Direção: Roberto Berliner
Por Eleonora Rosset*

Quem será essa senhora de tailleur bordô, coque, salto baixo e bolsa, que bate com delicadeza na porta alta de ferro? Ninguém aparece. E ela, persistente, bate com um pouco mais de força. Nada. Então, com uma força surpreendente, ela esmurra a porta, até que alguém vem abrir.

Esse início do filme apresenta Nise da Silveira (1905-1999) à plateia que ainda não a conhece. Dá para notar que ela é uma pessoa que opta primeiro pela educação mas que, se preciso for, usa até a força para conseguir o que quer.

E foi preciso muita delicadeza e força mescladas para conseguir realizar o trabalho que ela fez no Centro Psiquiátrico Nacional, no Engenho de Dentro, depois que saiu da prisão da ditadura Vargas, acusada de ser comunista, onde ficou de 1934 a 1936.

Era um tempo no qual se confundia hospital psiquiátrico com prisão. Médicos e enfermeiros eram carcereiros e agentes de punição. O medo andava junto com a sujeira e o abandono, nos corredores e enfermarias daquele hospital.

A Dra. Nise (Gloria Pires, magnífica), única mulher entre os psiquiatras, foi logo afastada da prática clínica porque não concordava com lobotomias e eletrochoques. Acabou no lugar menos frequentado do hospital e com quase nada de verba, o STO, Setor de Terapia Ocupacional.

Ao chegar no local, cheio de lixo, ela arregaçou as mangas e começou o seu trabalho com balde e vassoura, ajudada por uma enfermeira de boa vontade.
Tudo limpo, ela convida os clientes (“pacientes somos nós que temos de ser com eles”), que vagam pelo pátio de terra, uns nus, outros vestidos em farrapos, para entrar:

“- Deixa que eles façam o que quiserem”, diz para Ivone, a enfermeira.
Aos palpites repressores do enfermeiro Lima (Augusto Madeira), ela retruca:
“- Cala a boca! O que eles falam aqui é matéria prima de nosso trabalho. Ouça. Observe. E cala a sua boca!”

Incansável, ela pesquisa prontuários e ousa abrir o “cofre”, a solitária onde Lucio, visto como capaz de matar, está encerrado há dias. Traz quem pode para o pátio e um jogo de bola é o início da aproximação entre ela e aquelas pessoas evitadas.

Logo, Nise consegue a ajuda de Almir (Felipe Rocha) que vai sugerir um novo caminho. Traz tintas coloridas e cavaletes com telas e assim começa o que hoje é o legado do Museu de Imagens do Inconsciente, inaugurado no Rio de Janeiro em 1952.

Seguidora de Jung, a quem escreve relatando seu trabalho, Nise acreditava na busca de uma linguagem que pudesse trazer à tona tudo aquilo que jazia no inconsciente de seus clientes. Via nas telas a história de cada um. Do caos inicial surgia o começo de uma integração. As imagens pintadas organizavam o que antes não tinha voz.

Mario Pedrosa (1900-1981), interpretado por Charles Fricks, o maior crítico de arte da época, vê artistas nos clientes de Nise e acontece a exposição “Os Artistas de Engenho de Dentro”.

A Dra. Nise da Silveira, em pessoa e com bom humor, fecha o filme e nos deixa com os olhos marejados.
Alguém do meu lado no cinema diz:
“Ah! Se existissem mais pessoas como ela…”

O excelente roteiro, baseado no livro “Nise – Arqueóloga dos Mares” de Bernardo Horta, a direção inspirada de Roberto Berliner, a trilha sonora brilhante de Jaques Morelembau, a fotografia impecável de André Horta e um elenco harmonioso, ajudam a contar a história dessa grande mulher.
Imperdível.

*Eleonora Rosset é psicanalista, membro da SBPSP e autora do Blog “Uma psicanalista vai ao cinema” (http://www.eleonorarosset.com.br/).

O incesto e o abuso sexual

Por Claudio Castelo Filho *

Trabalho como psicanalista em meu próprio consultório há 32 anos. E já há algum tempo fui convidado pelo ilustre colega e amigo, grande pioneiro neste campo, o professor doutor Claudio Cohen, a colaborar, como supervisor convidado, com o Centro de Estudos e Atendimento Relativo ao Abuso Sexual (CEARAS) do Instituto Oscar Freire na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. É onde acontece um extenso trabalho de pesquisa e psicoterapia com famílias incestuosas (pais com filhas/filhos, irmãos entre eles, mãe/filhos/filhas, avós/netas/netos, padrastos/madrastas/enteados, tios etc.), que revela o quanto a situação é ampla na sociedade, das classes mais baixas às mais privilegiadas. No trabalho feito com famílias encaminhadas por fóruns de justiça e que estão, portanto, sendo acompanhadas juridicamente, tratamos do grupo (família), que percebemos como “um indivíduo”, assim como no consultório analítico também podemos entender que uma pessoa é um “grupo de entidades”. Neste trabalho do CEARAS, em que a dimensão psíquica da situação é a prioridade, não é possível, por exemplo, haver uma “discriminação simplificada” entre vítima e algoz, pois o que se verifica é uma questão dinâmica de todo o grupo, em que a capacidade para pensar e simbolizar em geral é muito precária (o que não implica obviamente na desresponsabilização dos adultos envolvidos). O trabalho é focado na captação dessa problemática, na sua exposição e possível conscientização, para que se possa desenvolver alguma possibilidade de ela ser pensada e elaborada, visto que admoestações morais e repressão policial podem ser muito úteis e importantes para o grupo manter sua organização social, mas insuficientes e quase sempre inúteis para uma efetiva realização por parte da família e de seus membros do significado psíquico desse tipo de atuação.

Freud, Klein e Bion perceberam o aspecto fundamental da existência do tabu sobre o incesto, intrinsecamente associado ao desenvolvimento da capacidade para reconhecer e lidar com frustração, o que implica no crescimento da capacidade para pensar dos seres humanos, algo essencial no processo civilizatório. Sem isso, em pouco ou nada nos diferenciamos dos outros mamíferos superiores ou das feras selvagens, que permanecem sempre potenciais dentro de nós. Não obstante, o que se verifica é que essa capacidade civilizatória e para pensar é muito mais incipientemente desenvolvida do que se costuma acreditar. O que se observa, na prática, é que os aspectos mais primevos encontram pouco equipamento mental para elaborá-los e o incesto e o abuso sexual (além de toda a violência que observamos no cotidiano, o que não é novidade na história de nossa espécie) são muito mais comuns do que o tabu que os envolve leva a crer.

* Psicólogo formado pela Universidade de São Paulo e mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, Claudio Castelo Filho é membro efetivo e analista didata da SBPSP, doutor em Psicologia Social e professor livre docente em Psicologia Clínica pela USP. Castelo Filho é autor do de “O Processo Criativo: Transformação e Ruptura” (Ed. Blucher, 2015) e produziu este texto como parte da apresentação que fará na “I Jornada Sobre Abuso Sexual – Consequências para a subjetividade – Prevenção”, que a SBPSP realiza nos dias 1 e 2 de abril de 2016.

O vício, em cinco questões para o psicanalista Oswaldo Ferreira Leite Netto

O vício, em cinco questões para o psicanalista Oswaldo Ferreira Leite Netto

Médico e psiquiatra formado pelo Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, o psicanalista Oswaldo Ferreira Leite Netto é membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, na qual coordena o grupo de estudos Psicanálise e homossexualidade. Diretor do Serviço de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria da FM-USP, Leite Netto respondeu a cinco questões propostas pelo Blog da SBPSP para refletir sobre vícios numa época em que, alguns deles, parecem valorizados socialmente como “vícios do bem”. “A palavra vício é fortemente carregada de sentido moral e algum referencial precisa estar presente”, diz Leite Netto que, junto com suas respostas, também produziu uma importante reflexão sobre a prática e importância da psicanálise.

Como se identifica um vício ou um “comportamento viciado”?

Oswaldo Ferreira Leite Netto. Vício é um hábito prejudicial e que aprisiona e limita a vida de uma pessoa. Mas é claro que, como psicanalista, relativizo  e preciso perguntar quem está dizendo que se trata de um vício. A pessoa que nos procura, sua família, seu pai, sua mãe, sua mulher ou marido ou companheiro? Quais os critérios que utiliza para esse julgamento? A palavra vício é fortemente carregada de sentido moral e algum referencial precisa estar presente porque é o que está sendo valorizado.

Quando bem vistos socialmente  _como o “vício” em exercicios físicos, por exemplo_, os vícios são a versão extrema dos valores de uma sociedade e/ou de uma época ou é apenas uma questão de personalidade? Por quê?

Oswaldo Ferreira Leite Netto. O sujeito humano está sempre interagindo com seu grupo, sua época, daí a complexidade e um contínuo desconforto pela exigência de adaptação. No seu íntimo, em seu mundo interno, estão conjugados, em harmonia ou em conflito, os valores externos da sociedade e/ou época, e suas necessidades e desejos mais internos, que podem transbordar, ameaçar o próprio indivíduo e quem está a sua volta, demandando arranjos em sua personalidade, imposições de comportamentos ou vícios sem a pessoa se dar conta completamente que estas adesões vêm dela.

Quais os perigos de se cultivar estes que seriam “vícios do bem”?

Oswaldo Ferreira Leite Netto. Do meu ponto de vista, a restrição e o empobrecimento de se viver cada momento e as intensidades do que se pode experimentar aqui e agora, com liberdade. Nunca se sabe o que vai acontecer, há o necessário a ser feito, por exemplo para manter a saúde, mas nunca  é o suficiente. É ilusório, mas pode tranquilizar naquele momento, se achar protegido porque está fazendo tudo certo. Mas a morte vai chegar e pode vir do acaso, das doenças , dos acidentes, muito antes do que se imaginou, ou porque a idade está avançada.

Como conviver e tolerar os “viciados”? Uma vez que seus vícios são “do bem”, como apontar que eles podem ser tão aprisionantes quanto um outro vício qualquer?

Oswaldo Ferreira Leite Netto. Conviver com o outro, com as diferenças,  por si só é um desafio constante. Na intimidade do lar,  no trabalho, na vida social. Preconceitos e exclusões são fenômenos constantemente observados. E as pessoas reagem se sentindo acusadas ou desqualificadas: “viciado!”  Num trabalho com um psicanalista, na intimidade e no sigilo desse processo, pode-se começar a desconstruir mitos e crenças que uma pessoa alimenta e que podem estar sustentando esses comportamentos. E o paciente deve se sentir menos cobrado, menos acusado ou “desqualificado”,  para poder se desarmar e dispensar certas práticas que não se justificam, que estão a serviço de fantasias e que podem ser relaxadas.

Qual o primeiro passo para se libertar de um vício?

Oswaldo Ferreira Leite Netto. Penso que ele pode vir quando a pessoa se dá conta que há insatisfação e dor. Começa a surgir a ideia ou sensação do exagero, da vida restrita. A pessoa precisa ser tocada por uma desconfiança de que a vida talvez seja para ser vivida e não resolvida. Alimentação ajuda, exercício ajuda, botox e plástica também….mas não salva do envelhecimento, da doença, da morte. Mas a gente pode se tornar mais livre, autônoma, independente, generosa, amorosa e sábia para admitir que o que não tem remédio, remediado está. E tentar gozar a vida, que tem começo meio e fim.

Sobre vícios e virtudes

O que deve ser cultivado e o que deve ser evitado?  Eis a questão com a qual  começamos a entender que viver é basicamente muito difícil para nós, humanos

Por Oswaldo Ferreira Leite Netto

Diante destas questões sobre o vício, fico, como psicanalista, na posição de quem sempre precisa, primeiro, explicitar.  E acho que isso é o mais importante ao se divulgar a psicanálise, como ela funciona, do que se ocupa, como surgiu e como foi se constituindo.

Qual é o ponto de vista da psicanálise e do psicanalista? Qual a sua contribuição? De onde ele fala? É preciso lembrar que a psicanálise nasceu das mãos de Sigmund Freud, neurologista sediado em Viena, no início do século 20, para atender necessidades médicas.

Naquela época, pacientes que apresentavam sinais ou sintomas, manifestações estranhas, patológicas, limitantes e sofridas como grandes crises de agitação, paralisias ou desmaios, perturbavam e desafiavam os médicos.  Por que não se encontravam no corpo, no “organismo” desses pacientes, as causas de tantos sintomas?

A medicina se desenvolveu, tornou-se consistente e cada vez mais científica e confiável e até hoje segue assim: para as alterações encontradas  no corpo,  há uma explicação, uma causa e, portanto, uma indicação para a busca de um tratamento, de um caminho a ser adotado para eliminar o fator que estava causando a perturbação ou ao menos para tentar controlá-lo.

Assim,  os avanços mais significativos e importantes na medicina, além dos recursos terapêuticos como medicamentos e aprimoramento de técnicas cirúrgicas,  se dão no campo dos recursos diagnósticos. Exames laboratoriais e de imagem, com todas as conquistas tecnológicas, investigam e descobrem alterações no corpo, explicando a alteração, o mal funcionamento, a dor, a febre, o mal estar.

Mas se voltarmos à época em que Freud  viveu, o que se chamava de histeria, paralisias, cegueiras, diferentes formas de perda de função normal às vezes não se explicava. Não era, portanto, possível oferecer recursos terapêuticos pelo que se tentava descobrir a partir de alterações no corpo e no organismo.  Nada, afinal, estava, em alguns casos, relacionado à alteração nos órgãos, nos músculos, nos nervos, na circulação sanguínea.

A sacada genial de Freud foi, ao ouvir e observar seus pacientes, tentar  entender outros aspectos, sobretudo de suas personalidades, ao conversar e se aproximar de cada paciente que o procurava. E quando o assunto é gente, ninguém discorda, tudo pode, na prática, ser muito mais complicado do que imaginamos.

Temos uma mente e dela podemos não estar compreendendo alguns aspectos ou mesmo desconhecendo detalhes do seu funcionamento. Podemos estar pouco conscientes de nós mesmos e do que está nos pressionando ou provocando certos sintomas.

Freud chegou às ideias de inconsciente, de repressão e da importância da sexualidade. Aquelas mulheres poderiam estar, por exemplo, com frustrações amorosas e sexuais? Que foram postas de lado? O sinal mais indireto, mas melhor perceptível eram os sintomas ditos então conversivos. Uma energia que alimentaria um sentimento de paixão, de ternura, de desejo, que facilitaria um prazer erótico, na vida sexual da pessoa, se desvia e vai se concentrar num órgão ou aparelho?

Somos todos muito diferentes dos outros seres do reino animal. Paradoxalmente, ainda assim somos animais, seres biológicos: precisamos comer, precisamos descansar, temos um aparelho reprodutor, produzimos filhotes. Mas habitamos também um reino da cultura, que nos controla, nos exige, nos impõe princípios, limites, hábitos, valores que  vão nos distanciando do reino animal. Mas estamos sempre pertencendo a ele. Temos um corpo, do qual a medicina se ocupa. Mas temos uma mente que pode estar em conflito, com inúmeras questões, desde o início de nossas vidas.

O que nos foi imposto pela nossa família original? Um menino joga bola, a menina brinca com bonecas. Menino usa determinadas cores em suas roupas, meninas outras. Nossa família é católica e vai à igreja aos domingos. Nossa família come peixe cru. Em nosso país comemos feijoada e tomamos caipirinha, sobretudo aos sábados. Devemos fazer atividade física para mantermos a saúde. Hoje a medicina recomenda academia até para os bem idosos. O peso deve ser mantido e controlado dentro de determinados limites. Sol sem excesso. Usar protetor solar evitará o envelhecimento, as rugas, a feiúra.  Se os seios estão flácidos, são pequenos e pouco atraentes, pode-se aumentá-los, deixá-los mais rígidos e firmes, para que a mulher  se sinta mais bela, mais atra ente e  certamente mais desejada .

A vida no reino da cultura impõe regras, padrões, expectativas e controles sobre o comportamento das pessoas. Umas controlando as outras. Ao sinal vermelho, pare. No amarelo preste atenção. Só prossiga no verde. Atravesse nas faixas. Controle-se, respeite os mais velhos, não diga palavrões. Mesmo que tenha muita raiva, não agrida fisicamente seu semelhante. Não mate. Você poderá ser rejeitado, excluído. Comportamentos passam a ser moralmente controlados. Desclassificados ou valorizados. Noções de bem e mal, virtudes e vícios. O que deve ser cultivado e o que deve ser evitado? Aí é que começamos a entender como viver é basicamente difícil para nós humanos, com tanta coisa para administrar.  Viver razoavelmente bem, com alguma satisfação, enquanto a velhice, as limitações e a morte não chegam.

Sabemos que vamos morrer,um fator a mais para a complicação e para o sofrimento íntimo: medos, fantasias, angústia, pânico. E tentamos nos livrar dessas ideias, desses perigos. E começamos a nos iludir. Isso não vai acontecer comigo (só com os outros!), vou só comer verduras, não vou fumar, vou evitar o descontrole, sexo só com camisinha; “nesta parte do corpo da minha companheira  não ponho minha mão”, “ nesta, do meu companheiro, muito-menos-a-minha- boca- de-jeito-nenhum”. “Este eu não beijo, o que vão pensar?”

O que a psicanálise ilumina e traz ao exame, à compreensão, é esta complexidade toda, estas motivações que podem estar escondidas e secretas,, determinando  nossos comportamentos, pensamentos e desconfortos. Podemos estar nos defendendo, nos protegendo com recursos que podem, também eles, estarem nos custando caro demais.

 

Drogas, solidão e confusões

A dependência química é uma das mais graves formas de adoecimento mental e seus efeitos, geralmente, se alastram para muito além do indivíduo que consome a droga. Trata-se de uma questão de saúde pública, que repercute nas diferentes esferas sociais. Recentemente, o jornalista britânico Johann Hari publicou um segundo trabalho acerca do tema, sugerindo novas hipóteses sobre o vício que, se corretas, transformariam toda a estratégia dos profissionais envolvidos no combate às drogas. O artigo abaixo, da psiquiatra e psicanalista Adriana Rotelli Resende Rapeli, faz uma breve análise sobre o estudo e as suposições de Hari. Para quem se interessa pelo tema, vale a leitura!

Drogas, solidão e confusões.  

Por Adriana Rotelli Resende Rapeli*

Um amigo pediu minha opinião sobre o livro “Chasing the Scream”, do jornalista britânico Johann Hari, tal como vinculado pelas redes sociais há algumas semanas. Veja matéria aqui.

Pelo que li na internet, o jornalista entende que há razões sociais e políticas para que as drogas tenham sido proibidas nos EUA, há aproximadamente 100 anos. Os argumentos do artigo se baseiam em entrevistas que ele fez ao redor do mundo com pessoas que foram ou eram dependentes químicos e em resultados de experiências com ratos de laboratório, que mostravam que estes consumiam menos a água que continha substâncias químicas se houvesse mais ratos e opções de atividades em suas gaiolas. Completa citando a diminuição do consumo de heroína quando os soldados que lutaram no Vietnã voltavam para casa. Conclui que a dependência química seria causada pela solidão, pelo estresse e pela falta de opções sociais. E que a guerra às drogas, portanto, estaria usando estratégias equivocadas.

Eu me dispus a refletir sobre o assunto, sabendo que corro o risco de, do mesmo modo que a informação descontextualizada da internet e com objetivos de propaganda, causar efeitos reducionistas e simplificadores.

Na geração atual ou em antecedentes, raro é que alguma família em nosso meio não sofra com problemas mentais, entre eles a dependência química. O discurso de culpa está presente em muitas das famílias de dependentes químicos que atendi. Culpa que sobrepõe à rejeição, mágoas e ressentimentos que o dependente químico provocou ao longo de décadas. As frustrações repetidas tanto em relações familiares quanto na sociedade provocam o pior de nós mesmos, e as reações muitas vezes são de vingança, raiva e crueldade. Há um impasse: ou não conseguimos cuidar e daí somos mal cuidadores, ou a pessoa é má e merece o mau tratamento. Oscilamos entre a culpa e a raiva e desenvolvemos defesas emocionais diante de sofrimento, como a negação.

A situação não é simples. Não dá para equiparar humanos a ratos de laboratório. Embora essas experiências ampliem o entendimento dos mecanismos de ação de drogas, não dá para equiparar humanos a ratos, não somos só pavlovianos. Há que se considerar questões de personalidade e questões psiquiátricas que, juntas, desencadeiam, se somam ou pioram o quadro. Há fóbicos e deprimidos que desenvolvem dependência do álcool. Assim como indivíduos com transtornos de personalidade antissocial podem desenvolver múltiplas dependências. São tantas as variáveis que não se pode restringir a questões sociais mesmo que elas sejam sim importantes fatores que agravam tais condições. A solidão pode ser causa, mas também consequência da dependência química.

Do ponto de vista mais psicodinâmico, mesmo na dependência do cigarro vemos uma condição emocional de regressão, baixa tolerância a frustração, dependência e passividade (ainda que travestidas de hiperatividade). Débil vitalidade, histórias pessoais com retalhos de vivências de perda parcamente elaboradas e um escasso sentido de individualidade estão entre as configurações emocionais que comumente encontramos nos dependentes químicos.

Os casos mais benignos respondem positivamente – como na experiência do ratinho da gaiola –, quando expostos a uma maior diversidade de opções e atividades. Ou como os soldados que voltam da guerra e saem do medo e privações para uma estrutura social mais segura e confiável.

Mas a maioria das pessoas continua em sua guerra implacável, em que não há vencedores. E se restringem a comportamentos de adição de drogas que se tornam irracionais e limitadores, como o rato da gaiola vazia. Seu mundo assim se torna, vazio, nada existe, mesmo que a família, amigos e profissionais de saúde ainda estejam por perto.

Somos seres despreparados para a vida emocional, quando esta requer recursos ainda não desenvolvidos. Usamos drogas. E somos também seres despreparados para cuidar dos que estão sofrendo e adoecendo. Teremos que continuar buscando o grito (chasing the scream), ouvi-lo entendê-lo, traduzi-lo e talvez continuar colhendo mais perguntas do que respostas.

*Adriana Rotelli Resende Rapeli é psiquiatra, psicanalista pela SBPSP e SBPRJ.

Transtornos Alimentares

Os distúrbios alimentares figuram entre as patologias psiquiátricas que vêm apresentando maior crescimento em termos de incidência na população. Quem já se aproximou desse universo talvez tenha constatado a sua gravidade, em termos dos prejuízos físicos, psíquicos, afetivos e sociais. Não é apenas o corpo que se torna anoréxico. Todo o psiquismo adoece no sentido da perda de vitalidade, de apetite e do prazer. Sobre esse complexo tema, vale conferir a entrevista com a psicanalista Marina Ramalho Miranda*, que vem se dedicando ao estudo do tema.

Como a psicanálise entende e avalia o recente crescimento na incidência de casos de transtornos alimentares (TA’s)?

Embora os transtornos alimentares, entre eles, as anorexias e as bulimias, sejam novas vestes para antigas patologias, não há quem não perceba esse aumento da sintomatologia em nossos dias.
Tanto na literatura sobre o tema, quanto em minha experiência, existe uma concordância de que uma multiplicidade de fatores combinados é responsável pelo surgimento dos transtornos alimentares e penso que quando pesquisamos sobre o aumento na incidência deles em nossos consultórios, hospitais e serviços de saúde mental, temos que considerá-los em conjunto.

Os fatores que compõem a etiologia dos transtornos alimentares são os constitucionais (genéticos e biológicos), psicológicos (intra-psíquicos), familiares e sócio-culturais.
Pensemos juntos, em que tempos vivemos, atendo-nos nesse início de conversa a essa dimensão.
Como um dos temas prediletos da atualidade, o corpo reina absoluto quando se conjectura sobre o tão falado trinômio juventude-beleza-saúde, pondo em risco a dimensão da mente, ou seja, corpo e mente que deveriam estar juntos e em fluente integração começam a ficar destacados um do outro, e o corpo (e seus correlatos, como a sua nutrição, aspecto, vestimentas, etc.), gradativamente assume uma posição-alvo de exigências de perfeição e controle, sem que as pessoas se dêem muito conta dessa dinâmica de hipervalorização .

Este cenário cria uma espécie de “inter-patrulhamento” da aparência física, e, em particular, no que diz respeito ao volume corporal (será que estão implícitos nessa preocupação questionamentos a respeito do espaço e lugar que ocupa no mundo?) Daí, o próximo passo recai sobre a alimentação. As mulheres, mais do que os homens, são afetadas e fiscalizadas na difícil missão de manter um corpo eternamente jovem, belo, saudável e… magro! Dietas severas de emagrecimento proliferam em todos os cantos e discursos e acabam por ficarem misturadas com a solução para o alcance não só do corpo magro e aceito, mas da felicidade e sucessos almejados.

A psicanálise entra na roda nesse momento, em que a comida e a alimentação perdem seu sentido de combustíveis para a vida, deixam de estar a serviço do viver e como num espiral estonteante entram numa alquimia culinária e se transformam em emoção, medos, horrores, enfim toda sorte de afetos. Ela mergulha na especificidade dos vínculos familiares de cada paciente atendida, especialmente na relação entre as mulheres, nutridoras por natureza, mãe-filha-irmã (muitas vezes a avó também participa, contribuindo para o trabalho), coadjuvantes essenciais do processo psicanalítico, pois temos hipóteses de que esses vínculos já vêm sofrendo dificuldades antigas na troca afetiva, tornando-se mais vulneráveis e porosos às influências do emocional ambiental .

Em termos gerais, na anorexia e na bulimia surge a declaração de uma guerra contra a gordura, que passa a ser a principal vilã de suas vidas. Na obesidade, a comida pode ocupar o lugar da falta, preencher um vazio, amenizar um vácuo que nada tem a ver com a comida em seu sentido concreto, saciar uma fome que vem de outros lugares (ou não-lugares), territórios a serem explorados em companhia.

Mary Del Priore (2000), historiadora, defende a ideia de que hoje a história das mulheres passa pela história de seus corpos e com humor, observa:
“Diferentemente de nossas avós, não nos preocupamos mais em salvar nossas almas, mas em salvar nossos corpos da desgraça da rejeição social. Nosso tormento não é o fogo do inferno, mas a balança e o espelho.”

Há, entre os médicos, uma controvérsia sobre a psicanálise ser um método indicado para tratar pessoas com TA’s. Qual a sua posição? Pela sua experiência clínica, a psicanálise pode ser um método efetivo?

Constato, a partir de meus estudos teórico-clínicos e das inúmeras pesquisas que encontramos na Universidade e na SBPSP, e especialmente, a partir da experiência clínica de atendimento à(o)s pacientes e sua família, que o tratamento psicanalítico dos transtornos alimentares não só é indicado, mas completamente imprescindível. Sustento a ideia de que a presença do psicanalista integrando a equipe multidisciplinar de atendimento abre frestas no mundo hermético dos transtornos alimentares, favorecendo a revisitação e o exercício da linguagem falada, reaproximando essas mentes sofridas e danificadas pela força de defesas destrutivas que as isolam e enclausuram, reconduzindo-as ao mundo da interação fértil. A viva troca nutritiva que a presença e a linguagem instauram conduz ao reino do pensamento simbólico, ao reino do sonhado e do imaginado, tão inibidos no universo dos transtornos alimentares.

Será o psicanalista que irá oferecer uma escuta que se concentra na investigação do que não pôde ser dito ou do que não pôde ser ingerido (ou absorvido em excesso), do que não aparece (ou do que desnuda), do que está interditado (ou do que transborda) permanecendo desconhecido e estranho à compreensão do paciente, que por sua vez se alivia ao descobrir que seus sintomas não serão vistos como doença e sim como sinais indicativos de que algo muito sério aconteceu em algum momento de sua vida, alterando o rumo de desenvolvimento a ser seguido. A(o) paciente fala pelo corpo e com o corpo. O comer o nada ou o tudo devorar, o vomitar e expurgar são tomados como pistas a serem seguidas ou como rastros de conteúdos emocionais brutos, contraditórios, que entraram intrusivamente em seu interior e pedem para serem remastigados. A abordagem psicanalítica, com seu approach que caminha na interioridade, num movimento de olhar de dentro para fora, lê o corpo da paciente com transtorno alimentar como uma tela onde está estampada sua história pessoal. Está atenta às variações da linguagem não-verbal, não se contentando com as expressões atuadas comportamentais, mas tentando acompanhar cada paciente na individualidade e singularidade de suas expressões que, muitas vezes, se apresentam pelo avesso.

Esta tarefa pertence à psicanálise… as pessoas que sofrem desses distúrbios sentem fome desse tipo de compreensão, que se dirige para além do corpo e das comidas e se aliviam ao finalmente experenciá-la.
Um dos sintomas mais difíceis nos TA’s são as distorções da auto-imagem corporal. Sendo um método verbal, o tratamento analítico tem como chegar nesse tipo de sintoma?

Quanto mais intensas forem as distorções da imagem corporal, maior a gravidade desses quadros, pois ficam mais evidentes a força e a intensidade das fantasias que, alterando a percepção de si retiram o indivíduo do acesso ao seu próprio conhecimento e da sua interação com o mundo, deformando a experiência e a impregnando de sensações de desprazer o tempo todo. Continuamos no terreno de contribuições da escuta e da fala psicanalíticas.

Para a psicanálise, e na sua opinião, faz sentido pensar que a nossa cultura de valorização extrema da magreza seja de fato um fator desencadeante da doença? Ou são os conflitos internos e inconscientes os maiores determinantes?

Na resposta à primeira pergunta, aponto a inter-relação de múltiplos fatores agindo conjuntamente para a eclosão de um transtorno alimentar. Não dá para dizer que um deles é mais desencadeante do que o outro. Daí a importância do atendimento em equipe, que tenta mergulhar e dar um espaço especial a cada dimensão e consequências dos transtornos: a medicina, com ênfase na psiquiatria, muitas vezes a endocrinologia, a ginecologia e a cardiologia , a nutrição com sua nuclear contribuição, a orientação familiar, o educador físico auxilia bastante quanto à regulação dos exercícios físicos, que, unidos junto ao profissional psi vão formar uma espécie de família-prótese e comporão um modelo de união de esforços em contraposição a atitudes de patrimônio do atendimento.

Os sintomas dos TA´s são característicos de alguma estrutura psíquica em particular (neurose, psicose, perversão, etc) ou eles transcendem esse tipo de classificação?

Essa pergunta colocada em último é muito acertada, pois é ilustradora do que foi discutido nas anteriores. Na sequência da 4ª reposta, o leitor já pode responder por si essa questão, percebendo a multiplicidade de dimensões encontradas nos transtornos alimentares.

A partir de toda essa complexidade discutida e da especificidade e singularidade de cada situação, como enquadrar esses fenômenos alimentares numa mesma classificação? Como apertar um indivíduo tão singular em seus sinais de perturbação dentro de uma categoria nosológica isolada?
Até os manuais médicos de diagnóstico tem para as anorexias e bulimias um lugar especial e onde elas existem por si dentro do índice geral dos transtornos da alimentação.

Os transtornos alimentares, e em especial, as anorexias e as bulimias, fazem um passeio por entre as variadas psicopatologias referidas pela psiquiatria e não se encaixam em nenhuma delas, ao mesmo tempo em que as contemplam, nos mais diferentes graus.
Sintomas de alto sofrimento para quem deles se aproxima, mas que se forem acolhidos por companhias com um bom apetite para o trabalho, culminarão em nutrição saudável para todos.

Referências
1- KRISTEVA, J. (2002) As novas doenças da alma. Rio de Janeiro: Rocco, 2002.
2- PHILIPPI, S.T. e ALVARENGA, M. Transtornos alimentares. Uma visão nutricional. São Paulo: Manole, 2004, p. 42.
3- RIO, L e RIO, T. Diários da anorexia. São Paulo: M. Books do Brasil Editora Ltda, 2004.
4- DEL PRIORE, M. De corpo a corpo com a mulher. Pequena história das transformações do corpo feminino no Brasil. São Paulo: SENAC, 2000, contracapa.
5- WILLIAMS, G. (1997) Reflections on some dynamics of eating disorders: “no entry” defenses and foreign bodies in International Journal of Psychoanalysis, 78, 927.

*Marina Ramalho Miranda é psicanalista, membro efetivo e docente pela SBPSP. É Mestre e Doutora pela PUC-SP.

Psiquiatria e psicanálise: É possível um diálogo?

Em que medida a psiquiatria e a psicanálise – campos de conhecimentos distintos – podem ser utilizados em conjunto no tratamento dos transtornos mentais? É possível um diálogo fecundo entre as duas disciplinas, tendo em vista os métodos próprios de cada uma delas?
Sobre o tema, vale conferir o ótimo e esclarecer artigo da psicanalista Thais Blucher, membro da SBPSP.

Psiquiatria e psicanálise: É possível um diálogo?

Por Thais Blucher*

Recentemente, numa reunião de psicanalistas, um colega foi criticado quando relatou que determinados pacientes em análise necessitavam de um acompanhamento psiquiátrico concomitante. Num outro evento, em conferência num hospital, ouviu de uma colega psiquiatra que ela contraindicava psicanálise para pacientes mais graves que poderiam piorar com o método.

Esse relato parece ilustrar a dificuldade de diálogo que se intensificou nos últimos anos – um confronto entre as correntes biológicas e as correntes psicológicas – no tratamento dos distúrbios mentais.

A psiquiatria e a psicanálise são disciplinas distintas.
A psiquiatria é uma especialidade médica que estuda e trata os transtornos mentais tanto com medicamentos quanto com métodos psicoterápicos. Os psiquiatras, em sua formação, estudam a anatomia, a fisiologia das estruturas neuronais e as patologias da mente. Aprendem a bioquímica do comportamento e toda a farmacologia. Têm durante sua formação um panorama geral das abordagens distintas de psicoterapia, sendo a psicanálise uma delas. Caso o psiquiatra tenha a intenção de se tornar psicanalista deverá fazer uma formação em psicanálise nas diversas instituições reconhecidas.

Já a psicanálise nasce da medicina, com Freud, médico neurologista de Viena que, na escassez de recursos para tratar o sofrimento de seus pacientes, cria uma nova abordagem terapêutica, descolada da anatomia e fisiologia. Já na sua origem, a psicanálise se distancia do modelo médico da época.

Baseado em observações clínicas, Freud elaborou um modelo para elucidar o funcionamento mental e a formação dos sintomas, embora acreditasse que as explicações biológicas pudessem um dia ser alcançadas para explicar as transformações numa análise. Já nos primórdios ele valorizava a filosofia e a literatura como importantes conhecimentos para a prática psicanalítica. Se no início da psicanálise seus interlocutores são médicos, rapidamente ela vai agregando vários interessados de outras áreas. Em 1926 Freud publica um artigo em que defende a prática da psicanálise por não médicos, distanciando ainda mais essa disciplina de uma prática médica.

Durante a primeira metade do século 20, houve um grande domínio da psicanálise nos tratamentos psiquiátricos ambulatoriais, particularmente a psiquiatria Americana.

Na década de 50, surgiram os primeiros medicamentos psicotrópicos e, nas décadas seguintes, ao mesmo tempo em que as drogas progressivamente entravam na prática ambulatorial, também aumentava a polarização da psiquiatria entre os campos “biológico” e “psicológico”. Com o avanço das diretrizes diagnósticas e da metodologia das pesquisas, a medicina cada vez mais passou a ser baseada em evidências, território no qual os estudos com psicofármacos desenvolveram-se imensamente (muito incentivados pelos recursos da indústria farmacêutica).

Desse modo, comparativamente, a psicanálise, apoiada num paradigma muito diferente do tratamento medicamentoso, pouco pode provar sobre o quanto ela conseguia curar, prevenir ou retardar o curso dos transtornos mentais. Como consequência, a psicanálise foi se distanciando da comunidade médica, dando espaço para psicoterapias mais breves, mais simples de serem avaliadas como, por exemplo, o método cognitivo.

Como será que estas disciplinas conversam?

A psicanálise se propõe a compreender os sintomas por meio do método da associação livre, em que o paciente fala o que lhe vem à mente e o psicanalista tenta dar sentido ao relato, supondo que desta forma o sofrimento ganhará uma compreensão e poderá ser elaborado. Um bom modelo seria o de um quebra-cabeça. O paciente traz vários relatos sobre si e juntos, paciente e analista, tentam encontrar a ligação entre as peças e assim dar instrumentos para o analisando lidar com as questões da vida.

Ora, se o paciente encontra-se numa crise intensa seja depressiva, maníaca, de ansiedade, num distúrbio alimentar ou outras, esse sofrimento pode retardar ou até impedir a evolução do processo.

Num texto interessante, dois colegas psiquiatras e psicanalistas Fiks e Santos Jr citam a pesquisadora Kay Redfield Jamison, uma das maiores especialistas no campo dos transtornos bipolares, ela mesma portadora da doença, que relata que quando estava em excitação ou depressão não conseguia produzir nada.

Ao contrário da cultura leiga que acredita que a aceleração produza mais ideias e a depressão mais conteúdo ao sofrimento, Jamison relata que a excitação é muito pueril e que a inibição depressiva traz um sofrimento exagerado. Dentro deste ponto de vista, a medicação psiquiátrica será um instrumento de colaboração ao atendimento psicanalítico, pois alivia o paciente do excesso de sofrimento e permite maior condição para o desenvolvimento da análise.

Por outro lado, as medicações psiquiátricas têm seus mecanismos de ação e sua farmacocinética bastante conhecidas, mas nem todos os sofrimentos são resolvidos com os psicofármacos, sugerindo que existam outros fatores, que não apenas os biológicos, contribuindo para o desencadeamento e manutenção dos sintomas.

A psicanálise poderá trazer outra versão para os acontecimentos da mente e buscar na compreensão dos processos mentais a origem e o desencadeamento dos sintomas. Pode inclusive contribuir na melhor aceitação do analisando para o uso da medicação, compreendendo as fantasias inconscientes que às vezes impedem a aderência ao tratamento.

Finalizarei citando Frey, Mabilde e Eizirik num artigo para Revista Brasileira de Psiquiatria: “acreditamos que, ao abordar os problemas mentais a partir de uma visão exclusivamente biológica ou psicológica, pode-se estar negando um tratamento mais adequado ao indivíduo que sofre. Um dos nossos desafios é reconhecer a complexidade e a multifatoriedade dos transtornos mentais e buscar meios em que se possa integrá-los ou, ao menos, desenvolver e manter um diálogo respeitando as especificidades de cada um. Talvez essa meta precise levar o tempo necessário para a elaboração do luto da perda da onipotência daqueles que (ainda) defendem o reducionismo”.

*Thais Blucher é psiquiatra, psicanalista e membro da SBPSP.