psicanalise

EXISTE RELACIONAMENTO AMOROSO SEM SOFRIMENTO PSÍQUICO?

*Patricia Vianna Getlinger

Será que é possível minimizar ou eliminar a angústia e o sofrimento nas relações amorosas? Será que os casais contemporâneos que decidem abolir contratos preestabelecidos sofrem menos? Ou os acordos feitos “sob medida” por cada casal resultam em maior liberdade e felicidade?

Por outro lado, o que pensar quando os “novos” acertos entre o casal falham? Quando mesmo tentando criar modelos mais livres para os relacionamentos, alguém se sente “de fora” e se incomoda em não ser o único nem o preferido? Afinal, o ciúme é uma emoção legítima, ou é vergonhoso ser ciumento? E indo além, é errado pretender um amor exclusivo?

Temos visto surgir um número crescente de relacionamentos “abertos”, em que os parceiros (seja nas relações hétero, seja nas homoeróticas) buscam rever e redefinir conceitos como fidelidade e exclusividade sexual, abrindo a relação para a entrada de terceiros. Isso também ocorre nos casos de poliamor, que quando pretendem ser relações amorosas estáveis, pressupõem de forma mais evidente ainda a reconsideração da monogamia. Uma das observações mais interessantes quanto à dinâmica das relações abertas, é que elas costumam ter parâmetros particulares, criados pela dupla ou pelo grupo, que regulam e relativizam a “liberdade total”. Por que isso costuma acontecer?

O que se observa é que em cada caso, embora geralmente se parta da intenção de não ter regras, acaba surgindo a necessidade de se estabelecer um acordo específico. Alguns preceitos organizadores de um relacionamento aberto, por exemplo, podem determinar que ter relações sexuais com outras pessoas não será considerado traição desde que todos estejam presentes na cena; ou que a intenção seja comunicada antes ao parceiro ou parceira; ou que tudo seja relatado depois; ou ainda, que não se chegue ao orgasmo com terceiros. Esses são alguns padrões cerceadores, mas o que nos interessa discutir, é: por que esses parâmetros se tornam necessários? Ou seja, por que, mesmo quando se tenta evitar certas convenções, elas são reinseridas pelos mesmos sujeitos que as tinham abolido?

O que se verifica em qualquer relação amorosa, especialmente as não monogâmicas, é que prever ou controlar sentimentos como ciúme não é possível. Como saber se o “terceiro incluído” no casal não vai despertar uma paixão no meu companheiro ou companheira? E se eu flagrar um olhar mais intenso do que eu gostaria entre eles? No fim, sempre corremos o risco de que alguém se sinta menos importante, menos amado ou mesmo excluído. Mas, afinal, por que é tão desconfortável ficar de fora?

Desde a situação infantil de exclusão do casal parental, presente no modelo freudiano do filho fora do quarto dos pais, temos que lidar com esse desconforto e com a angústia que ele causa. A resolução do complexo de Édipo passa por adiar a fantasia infantil de parear com um dos pais e de deixar o outro de fora. Suportar a condição da própria exclusão exige da criança (e continua exigindo do adulto) que todos lidemos com o desejo onipotente de ser o mais especial e o centro das atenções. Requer que aceitemos a incompletude ou, em outras palavras, que elaboremos a castração simbólica.

Mas o processo de luto dessa posição onipotente é sempre inconcluso. E isso mantém a posição infantil sempre “à espreita”, buscando uma possível satisfação, que quando ocorre é muito prazerosa e de certo modo faz parte do equilíbrio psíquico. Assim, todos guardamos resquícios desse momento inicial de vida, que são reativados ao longo da infância e em muitas experiências ulteriores: querer ser o preferido dos pais com relação aos irmãos, tornar-se o queridinho da professora, atrair a admiração do chefe, ou mesmo chamar a atenção pelo aspecto inverso: ser o que dá mais trabalho, o que sempre perturba e recebe críticas etc. Em um caso e no outro, o que é satisfeito é o desejo infantil de sentir-se único, ser o eleito ou manter-se em evidência.

Com o fim da infância, fazemos o luto (incompleto) dessa posição onipotente e mesmo percebendo, com maior ou menor dor, que os pais têm um ao outro, que os irmãos também são amados, que há outros alunos que cativam a professora e que não somos o eleito pelo chefe, continuamos precisando de reasseguramentos narcísicos desse tipo. E qual é a experiência posterior com maior potencial de restaurar os sentimentos de estar incluído e de ser sui generis para alguém?

O apaixonamento. Esse estado recupera a sensação prazerosa de ser o escolhido e de ser mais encantador do que todas as outras pessoas.  Ou seja, a paixão e o amar e ser amado restituem parte da ferida narcísica operada pela castração. Até aí, isso nos ajuda a compreender porque é tão bom se apaixonar. Mas, de onde vêm a angústia e o sofrimento nas relações amorosas, sejam elas “abertas” ou “fechadas”?

Da ameaça de que esse estado idílico seja ameaçado e perdido. A alegria de reviver a ilusão de completude narcísica promovida pela paixão pode ser simultânea ao temor de sua perda. De fato, esse efeito paradoxal decorre dos indícios de que a sensação tão maravilhosa de reviver a onipotência infantil pode acabar, comprometida pela entrada de um terceiro que roube o nosso lugar e corte essa utopia, transformando-a num engodo.

Talvez os novos relacionamentos abertos sejam uma tentativa interessante de tentar diminuir os efeitos nocivos da exclusão, definindo que ela não deve incomodar. O equilíbrio, entretanto, mostra-se instável, como demonstram o surgimento (e muitas vezes o aumento crescente) dos acordos particulares que dão contorno à liberdade total. Esses limites restabelecem o que fica “de dentro” e o que fica “de fora”, reeditando as fronteiras simbólicas do triângulo edípico e evidenciando seja a dificuldade de se relacionar com absoluta soltura, seja certo conforto diante de fronteiras claras. Negar a dependência afetiva e o prazer da exclusividade, buscando ser “evoluído” e não sentir ciúme, pode funcionar por um tempo. Mas não garante menos sofrimento nas relações amorosas. E, afinal, se podemos restaurar a experiência de ser único, mesmo sabendo que é ilusória, por que recusá-la?

*Patricia Vianna Getlinger é membro associado da SBPSP-SP e membro do Departamento de psicanálise do instituto Sedes Sapientiae

 

Imagem: “Couple”, de Jarek Puczel.

Big Eyes e a Perversão Narcísica

*Vera Lamanno Adamo

A perversão narcísica diz respeito a um modo de se equilibrar fazendo valer à custa de um outro.

Enquanto, na estrutura perversa, o outro é desumanizado, isto é, o outro é coisificado, na perversão narcísica, o indivíduo recusa o valor do outro, para manter-se imune ao conflito e à dor mental.

Na perversão narcísica, o indivíduo usurpa o lugar e o valor do outro, negando ao outro o direito ao próprio narcisismo. O narcísico perverso sequestra o narcisismo do outro. Acredita que para não se sentir perdido e sem saída (embora não o assuma ou admita) é preciso se valer da vitalidade e criatividade do outro, sugá-lo, desrespeitá-lo, para submetê-lo ao seu domínio.

No entanto, a violência cotidiana exercida pelo perverso narcísico não é do mesmo tipo de uma relação sadomasoquista, não é uma perversão explícita, ela entra no dia a dia de forma silenciosa, velada e enganadora, passando quase despercebida.

Enquanto o sádico experimenta prazer humilhando e maltratando o outro, o perverso narcísico age por intimidação, produzindo perplexidade, paralisia e desvalorização, invadindo a mente de sua vítima/cúmplice por produção de culpa.

A vítima/cúmplice acaba aceitando todo tipo de compromisso em detrimento da própria autoestima, executando, muitas vezes, atos contrários à sua moral, pois se sente como um herói chamado a um grande combate, onde suas virtudes reparadoras poderão ser postas à prova.

A história real de Walter e Margaret Keane, retratada no filme Big Eyes, de Tim Burton (2014), ilustra bem a dinâmica do narcísico perverso e sua vítima/cúmplice.

Na década de 1960, Walter Keane foi homenageado por seus retratos sentimentais – crianças com grandes olhos – que vendiam aos milhões. Mas, na verdade, Margaret, sua esposa, era a artista que trabalhava, em virtual escravidão, para manter o sucesso do marido.

Eles se conheceram, aparentemente, em uma exposição de arte ao ar livre, em São Francisco. Mais tarde, à noite, se encontraram.  Casaram-se pouco tempo depois. Margaret estava se sentindo culpada pela separação, insegura e incapacitada para criar sua filha sozinha.

Os dois primeiros anos de casamento foram bons, mas tudo mudou na noite em que Margaret descobriu que Walter estava vendendo suas “crianças de grandes olhos” como se fossem suas produções. Eles estavam em uma espécie de salão, em São Francisco, Walter estava vendendo os quadros, quando alguém de repente perguntou à Margaret: “Você também pinta?”. Ela ficou chocada ao descobrir que o marido levava todo o crédito do trabalho dela, para si mesmo.

Em casa, ela pediu para desmanchar esta mentira, para que ele revelasse a verdade, e Walter, se justificando, disse: “nós precisamos do dinheiro, as pessoas tendem a comprar quadros quando acham que estão conversando com o artista, elas não querem saber que não sou eu o pintor e que preciso que minha mulher pinte, as pessoas já acreditam que eu sou o pintor das “crianças de grandes olhos”, se eu, de repente, disser que é você, eles irão nos processar”.

Margaret cedeu à mentira.

Walter ofereceu uma solução: “ensine-me como pintar essas crianças de olhos grandes”. Ela tentou, mas ele não conseguiu e dizia que era por culpa dela que não tinha paciência para ensiná-lo.

Margaret sentiu-se cada vez mais trapaceada e incomodada com aquela fraude. Querendo se livrar desta impostura, solicitava a Walter que dissesse a verdade e ele reagia cada vez mais com ameaças de violência.

Margaret se intimidava e acabava levando a situação adiante.

Nos anos 60, as pinturas, pôsteres e postcards de Margaret ganharam fama internacional e estavam em todos os lugares, como livrarias, shoppings, museus, mas ela não tinha acesso ao dinheiro. Eles se mudaram para uma bela casa com piscina e empregados, Margaret não precisava fazer nada, exceto pintar. Nesta casa, ela ficava trancada em seu atelier, onde ninguém podia entrar nem mesmo sua filha. Até mesmo os empregados não sabiam disto e quando Walter saia, ligava, de hora em hora, para saber se ela estava em casa. Margaret sempre pintava em segredo em seu atelier, com portas fechadas e a cortina cerrada.

Depois de dez anos casados, oito deles terríficos, Margaret pediu o divórcio. Walter se desesperou: “Você vai destruir tudo… você vai me destruir… eu só queria ser um pintor, só isto.”. Margaret não cedia e, com a desenvoltura de um showman e a frieza de um impostor, Walter dizia: “ninguém saberá a diferença entre a cópia e o original”.

Margaret sustentou sua decisão, mas prometeu a Walter que continuaria pintando por ele. Depois de ter lhe enviado umas vinte ou trinta pinturas, decidiu que não iria mais compactuar com aquela farsa e que dali em diante só falaria a verdade. Levou um longo tempo para Margareth reconhecer que estava sendo cúmplice de uma violência silenciosa e que, ao longo do tempo, foi ruindo ainda mais a sua autoestima e paz interior.

A história de Margareth e Walter Kane, a dinâmica vampiresca que se estabeleceu entre eles, está pintada em cores fortes. No entanto, esta dinâmica, na maioria das vezes, é muito mais camuflada.

O vampiro, figura mitológica, como sugerem as abundantes histórias na literatura, apresenta-se desde uma aparência repugnante, representada nas lendas de diferentes povos da antiguidade, até a figura aristocrática, carismática e sofisticada, descrita no romance de John Polidori, The Vampire. Cada um deles apresenta diferentes graus de sofisticação nos atos de sedução, manipulação e indução de culpa, com o objetivo de sugar a essência vital de sua vítima/cúmplice.

 

Referências

Martins, A. (2009) – Uma violência silenciosa: considerações sobre a perversão narcísica. Cad. Psicanal. – CPRJ. v.31, n.22, 37-56.

Parttrey, A., Nelson, C. (2014)- Citizen Kane: the big lies behind the big eyes. Feral House.

Racamier, P.C. (1992) – On Narcisistic Perversion. Int. Journal. Psychoanal., vol 95, 1, 119-132, 2014.

 

*Vera Adamo é membro efetivo, analista didata e docente do Grupo de Estudos Psicanalíticos de Campinas e da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Trauma: um conceito para o pensamento clínico contemporâneo

*Berta Hoffmann Azevedo

Comecemos com um paradoxo: sem assombro não há trabalho de representação, muito embora esse trabalho possa ficar impedido justamente por ele.
Assombro, palavra que tomo emprestado de Leopold Nosek, livre de conotações conceituais já circunscritas, que permite abraçar a exigência de trabalho psíquico que o novo impõe. É a falta que, ao assombrar a continuidade fusional, pode ser capaz de abrir espaço ao processo representativo. Ou o enigma sintomático, que pode colocar em marcha o processo analítico, e a busca por dar sentidos para o que assombra.

Por outro lado, há também um tipo de assombro que emudece, que impede qualquer narrativa, rompendo o tecido representacional e o trabalho de simbolização.
Freud em sua conferência 18 das Conferencias introdutórias (1916-1917) fala dos soldados que, retornando da I Guerra, repetiam em sonhos a situação traumática. Fenômeno próximo ao que nos conta Walter Benjamim sobre o silêncio dos que voltavam do horror.

A alteridade, aquela cuja aproximação pressupõe um desconhecimento irredutível, como outro universo, implica incursões arriscadas e aproximadas. Nossos instrumentos de apreensão sempre um tanto insuficientes.

O trabalho analítico aposta nisso, numa alteridade que está na base mesma do psíquico, cuja constituição passa pelo outro, sendo, portanto, cultural e mantendo em si mesmo o alheio, não apenas em um desconhecido inconsciente que emerge para retraduções, como também naquilo que precisa ser construído para ganhar qualquer sentido pela primeira vez.

A criação de sentido passa necessariamente por uma novidade, passa pelo contato com o outro que pode aportar significação, palavra, forma. Mas não só. Muitas vezes um encontro porta o traumático.

Desde as formulações de 20 em Freud, o trânsito no par representação de coisa- representação de palavra deixa de ser o único desafio do trabalho psicanalítico.

Freud nos lembra que o psiquismo não se organiza de antemão orientado pelo princípio de prazer, há condições prévias a essa configuração: a saber, a necessidade de ligação.

 

As moções pulsionais passam a ser pensadas como tendo destinos possíveis, sendo a elaboração representativa apenas um deles. Os autores da chamada Psicanálise contemporânea, nos termos que propõe André Green, debruçam-se sobre outras saídas para o representante psíquico da pulsão, que pode manifestar-se em ato, pela via alucinatória ou também no corpo, não apenas como conversão histérica, como também em formas mais próximas do que Freud propunha como neurose atual.

O sonho na neurose traumática é o exemplo da repetição incansável sem transformação elaborativa, que não alcança cumprir o papel de realização de desejo, até que a primeira tarefa de ligar possa ser realizada.

Há, portanto, funcionamentos psíquicos que não respondem ao princípio de prazer, seja por que ele é momentaneamente posto fora de ação, seja por que não pôde se instituir como organizador do psiquismo.

São movimentos que deram lugar à segunda tópica freudiana, sem que a primeira tenha por sua vez se tornado obsoleta. A escuta do que está no campo psíquico, do que diz respeito ao desejo e suas representações segue válido. Nem todo sonho é traumático, e nem todo sintoma é pura descarga. Nossa clínica diária dá provas disso.

Mas alguns o são. E a disposição para escutar aquilo que engancha na cicatriz do trauma e põe em xeque o princípio de prazer estende o alcance da Psicanálise para situações clínicas limites.

O traumático, presente em Freud já em seu Projeto para uma Psicologia científica, volta com força em suas teorizações após a experiência com a neurose traumática em seu Além do Princípio de Prazer, com o recorte clínico da compulsão à repetição. Junto dele, o conceito de dor também proposto por Freud, e muito valorizado por Pontalis, nos ajuda a elucidar essas situações limites na clínica.

Freud, em 1895, já falava que a dor causa no psiquismo um efeito tal como o de ser atingido por um raio, de maneira que uma facilitação é criada entre a inclinação à descarga e a imagem-mnêmica do objeto que excita a dor, e se essa imagem é em algum momento reinvestida, despertará como a original, a mesma tendência à fuga.

As vivências de dor e desamparo podem atrair o psiquismo sem, à diferença da fixação de prazer, permitir substituições e deslocamentos. Em algumas situações, o modelo da vivência de satisfação como organizador das repetições de prazer, é substituído pelo da dor.

Estamos num campo de excesso de intensidades que inunda o psíquico e coloca de lado o princípio de prazer. Há um rasgo na malha representativa, um furo, que, se reinvestido, causa dor, como bem argumenta Green para pensar o trabalho do negativo contra o próprio processo de representação.

Há em Freud mais de uma noção de traumático, ambas envolvendo conotações econômicas de excesso. Numa primeira formulação, ele está ligado ao après-coup, a esse golpe que dá origem ao sintoma. Em outra mais tardia, ele sublinha a tarefa urgente de ligação que fica por ser realizada e a compulsão à repetição instaurada como consequência. Tais formulações não refletem apenas tempos teóricos diversos, como respondem a problemas clínicos diferentes, ambos presentes em nosso fazer psicanalítico.

Será que o embaraço sexual histérico de um adolescente deve ser nomeado como traumático? Para o Freud da primeira tópica, certamente sim. Mas seria ele da mesma espessura que aquele de um paciente que nos chega com sentimentos de vazio e branco ou com uma tendência ao ato sem abertura associativa?

Num ou noutro sentido não me parece um evento corriqueiro, cuja radicalidade valha a pena ser perdida.

O traumático atuou como mola propulsora de teorizações importantes de autores como André Green, que ressaltam estar em jogo não apenas a existência do irrepresentado, e do irrepresentável, mas também do desinvestimento do processo representativo como consequência possível do traumático. São áreas que funcionam como disco riscado, áreas destruídas do psíquico sem marcas mnêmicas disponíveis, cujas cicatrizes tendem a irromper nas sessões de maneira desavisada, na forma de acontecimentos atuais. Áreas em que é preciso criar temporalidade psíquica ali onde encontramos tempo morto. Os vividos traumáticos, como sabemos, emergem na sessão, e há um valor de testemunho que a análise pode alcançar, ao afirmar o que se passou, nos termos que forem possíveis de se apresentar. Esses momentos resistem ao efeito de desmentido e podem levar à retomada de um movimento simbolizante.

O reconhecimento da heterogeneidade psíquica me parece imprescindível. Ela nos permite reconhecer a diferença em manejar a prisão de sentidos e o sem sentido. Para esse último é fundamental o analista implicado, no aspecto de contar com suas próprias associações e não apenas acompanhar o deslizamento de sentido que a associação do paciente possa conduzir. Assumir a complexidade oferecida pelas formulações de 1920, sem para isso abandonar a radicalidade das descobertas da chamada primeira tópica. É preciso articulá-las: um desafio ao pensamento clínico contemporâneo.

 

REFERÊNCIAS

Freud, S. (2001) Proyecto de psicología. In. S. Freud. Obras Completas. Buenos Aires: Amorrortu, V.1. (Trabalho original publicado em 1950 [1895])

Freud, S. (2000) Conferencias de introducción al psicoanálisis. In. S. Freud. Obras Completas. Buenos Aires: Amorrortu. (Trabalho original publicado em 1916-1917)

Freud, S. (2001) Más allá del principio de placer. In. S. Freud. Obras Completas. Buenos Aires: Amorrortu. (Trabalho original publicado em 1920)

Green, A. (2001) El tiempo fragmentado. Buenos Aires: Amorrortu. (Trabalho original publicado em 2000)

Nosek, L. A disposição para o assombro. São Paulo: Perspectiva, 2017.

Pontalis, J-B. (2005) Entre o sonho e a dor. Aparecida: Ideias & Letras (Trabalho original publicado em 1977).

 

Berta Hoffmann Azevedo é psicóloga, psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, membro associado à Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Docente nos cursos “André Green e a Psicanálise Contemporânea”, da SBPSP, e “Introdução à Psicanálise: Teoria e Clínica“, da Santa Casa de São Paulo. Autora do livro “Crise Pseudoepiléptica”, Coleção Clínica Psicanalítica, ed. Casa do Psicólogo.

Psicanálise e formação de massa

*José Martins Canelas Neto

“A meu ver a questão decisiva para a espécie humana é saber se, e em que medida, a sua evolução cultural poderá controlar as perturbações trazidas à vida em comum pelas pulsões humanas de agressão e autodestruição.” (S. Freud, O mal-estar na civilização, 1930).

Diante da preocupante onda de ódio e violência que estamos vivendo no Brasil atualmente, proponho trazer algumas reflexões psicanalíticas que podem nos ajudar a compreender esse sombrio momento que vivemos.

Freud foi um importante pensador da cultura humana e publicou muitos livros e textos sobre o assunto. O mais famoso deles é O mal-estar na civilização, de 1930. Nessa obra o inventor da psicanálise se pergunta: como os homens, em suas condutas, revelam algo sobre a finalidade da vida? Para ele a resposta é simples: eles buscam a felicidade. No entanto, é bem mais comum experimentarmos a infelicidade. Esta é proveniente de três fontes: do próprio corpo, do mundo externo e das relações com outros humanos. O sofrimento provocado por essa última fonte de infelicidade é, para Freud, aquele que experimentamos mais dolorosamente. Isso tem sido verificado por vários psicanalistas atualmente, devido ao clima de ódio e horror que se instalou no país.

Em 1921, numa obra quase premonitória quanto à ascensão do nazismo na Alemanha, Psicologia das massas e análise do Eu, Freud mostra que a psicologia individual e a psicologia social não se opõem na medida em que “na vida psíquica do ser individual, o Outro é via de regra considerado enquanto modelo, objeto, auxiliador e adversário, e portanto, a psicologia individual é também, desde o início, uma psicologia social.” A psicanálise provocou uma ferida no amor-próprio do homem, ao mostrar que o Eu não é mais o senhor em sua própria casa. A questão da alteridade, assim como a do diferente, fazem parte da essência do ser humano. Um outro interno, constituído pelo nosso inconsciente e nosso corpo (que é um outro para nós) e o outro externo, o semelhante. Nesse texto Freud estuda o que chamou de formação de massa. Trata-se de uma formação que pode aparecer com diferentes formas e durações em diferentes tipos de grupo. No fascismo, o papel do líder, para o qual é transferida toda a autoridade, é fundamental para instigar a formação de massa. A massa assim formada é impulsiva, volúvel e excitável. Freud enumera algumas características da formação de massa: “a massa não tolera qualquer demora entre seu desejo e sua realização, tem o sentimento da onipotência, a noção do impossível desaparece para o indivíduo na massa. A massa é extraordinariamente crédula e influenciável, é acrítica, pensa em imagens que evocam umas às outras associativamente… e não têm sua coincidência com a realidade por uma instância razoável. Ao se reunirem os indivíduos numa massa, todas as inibições individuais caem por terra e todos os instintos cruéis, brutais, destrutivos, que dormitam no ser humano, como vestígio dos primórdios do tempo, são despertados para a livre satisfação instintiva.”

Vemos nessa descrição um modelo para pensarmos a disseminação do ódio por meio de notícias falsas (fake news) e, em geral, violentas, que se estabelecem como verdades absolutas. O indivíduo dentro da formação de massa não consegue ter um trabalho de pensamento crítico. Estamos vendo nessas eleições no Brasil o papel proeminente das redes sociais dentro do ciberespaço. O ciberespaço favorece um fracasso do trabalho de pensamento crítico das pessoas, na medida em que se trata de um mundo real, embora virtual, no qual não existe temporalidade, nem espacialidade. O trabalho de pensamento se faz numa temporalidade, com pequenas quantidades de energia, e é muito diferente das concepções passionais nas quais é o afeto de ódio, trabalhando com grandes quantidades de energia, que conduz o pensamento.

A contaminação do pensamento pelo ódio perturba a possibilidade de se desenvolver um verdadeiro trabalho do pensar, para o qual necessitamos que as palavras não sejam banalizadas. Trabalho do pensar que é fundamental na sustentação da democracia num sentido amplo. A democracia não se limita à existência de eleições livres por voto secreto de todos os cidadãos. Ela necessita que haja um clima de tolerância ao outro e às diferenças para que o debate de propostas possa ocorrer entre as forças políticas que estão em jogo num determinado momento. Quando afirmações homofóbicas, racistas, de incentivo à violência e à tortura, por parte do líder são banalizadas, abrimos a porta para o que Hanna Arendt chamou de “banalidade do mal”. As palavras perdem seu valor e seu papel de único meio para evitarmos o confronto violento. Não há mais espaço algum para o debate de ideias, uma vez que incitações ao mal não são levadas a sério.

O psicanalista francês Charles Melman, em seu livro O homem sem gravidade, considera que atualmente vivemos numa cultura que sofreu importante mutação em sua economia psíquica passando de uma economia organizada pelo recalque a uma economia organizada pela exibição do gozo. Essa lógica do gozo tem relação profunda com um além do prazer e com a pulsão de morte e nela impera o imediatismo da necessidade e não o desejo.
Freud supõe a existência no homem de um fator hostil à civilização. Supõe que uma profunda insatisfação com a civilização existente, em determinadas situações históricas, originou uma condenação da civilização.

A cultura, conclui Freud, é edificada sobre a renúncia pulsional, pressupõe a não satisfação de poderosas pulsões. Esse fato leva à frustração causada pela cultura. Essa frustração é causa de todas as hostilidades que a cultura tem de combater. (p.60)

O sentido da evolução cultural é que ela nos apresenta a luta entre Éros e morte, pulsão de vida e pulsão de destruição, tal como se desenrola na espécie humana. Essa luta é o conteúdo essencial da vida e, por isso, a evolução cultural pode ser designada brevemente como a luta vital da espécie humana. (p.90-91)

Freud introduz a noção de narcisismo das pequenas diferenças. O mal-estar na civilização mostra de maneira detalhada como a agressividade primária e o narcisismo das pequenas diferenças (diferenças de cor da pele, de orientação sexual, de classes, etc) se opõem à identificação mútua: por que preferiria eu um estrangeiro aos meus próximos, por que amaria eu um estrangeiro que está prestes a me detestar e a me maltratar? Esse é o pressuposto que sustenta esse narcisismo das pequenas diferenças e que se exprime na intolerância com o outro diferente de mim.

A limitação do narcisismo é produzida apenas por um fator, pela ligação libidinal a outras pessoas. O amor a si encontra limite apenas no amor ao outro, amor aos objetos. (p.58) Essa condição é necessária para a evolução cultural e do trabalho em comum. Esse é o papel das pulsões de vida e do amor num sentido ampliado.

O escritor, prêmio Nobel de Literatura, Elias Canetti, escreveu um livro – Massa e poder (1960) – para pensar as diferentes formações de massa para compreender as que surgiram durante o nazismo. Descreve em seu livro um tipo extremo de formação de massa que chama de malta. Na malta é a lógica da sobrevivência pura que impera: O momento do sobreviver é o momento do poder. O horror ante a visão da morte desfaz-se em satisfação pelo fato de não se ser o morto. Este jaz, ao passo que o sobrevivente permanece em pé[…] A forma mais baixa do sobreviver é o matar. (p.227)

Será preciso sempre um grande esforço daqueles que acreditam nas pulsões de vida, na tolerância, na democracia para lutarmos contra as tendências maléficas da alma humana. Cito, para terminar o poema de Schiller, citado por Freud em O mal-estar na civilização:
Que se alegre,
Aquele que respira no alto na rósea luz!
Porque embaixo, é o horror,
E o homem não deve tentar os deuses
Nem nunca, para um sempre nunca, desejar ver
O que eles se dignam cobrir de noite e de terror.

 

Referências:
Canetti, E. (1960). Massa e poder. São Paulo, Companhia das Letras, 2008.
Freud, S. (1921). Psicologia das massas e análise do Eu, tradução de Paulo César de Souza, São Paulo, Companhia das Letras, 2011.
Freud, S. (1930). O mal-estar na civilização, tradução de Paulo César de Souza, São Paulo, Companhia das Letras, 2010.
Melman, Ch. (2002). L’homme sans gravité. Éditions Denoël, Paris, 2005.

 

José Canelas é membro efetivo e analista didata da SBPSP, psiquiatra formado pela Universidade de Paris, tendo feito sua formação psicanalítica na França, na Sociedade Psicanalítica de Paris, onde residiu entre 1983 e 1997.

Narcisismo terciário

*Marilsa Taffarel

No dia seguinte à manifestação “Ele não” era mais nítido o sentimento de alegria… contentamento… satisfação… realização de algo significativo… das pessoas próximas que continuavam a enviar mensagens, vídeos, fotos, relatos.

Após manifestações acontece isso, mas nessa, decididamente, aconteceu mais, aconteceu maior, aconteceu muito.

Uma placa indicativa nomeava o epicentro do acontecimento: Potato Square. Vem a calhar a indicação em inglês, língua ainda internacional, pensamos. Trata-se de uma manifestação que ganhou essa dimensão e, em consequência as praças de varias capitais do mundo ocidental.
Na verdade, o epicentro era apenas nominal, porque havia vários pequenos centros em torno de um som, de alguma banda. O Largo da Batata perdeu seus contornos, ampliou seus limites. O que nos chamou a atenção foi justamente a manifestação consistir em estar ali, caminhar por ali, sentar no meio fio ou em alguma mureta. Estar entre as pessoas.

A defesa da diversidade, da multiplicidades, das singularidades estava ali estampada em gentes tão diferentes nas roupas, nos gêneros, nos adereços, embora sempre em algum lugar no rosto, nos braços, nas costas, nas testas, nas camisetas, nos lenços estivesse o “ Ele não”.

Estávamos caminhando entre as pessoas, sentindo com todos os sentidos e nos perguntando o que é uma manifestação, além de ser isso mesmo: uma manifestação?
Muitos cartazes diziam: “não é uma manifestação política, é moral”, pelo direito de ser diverso. Diríamos: uma manifestação desconstrutiva de enunciados totalizantes, hierarquizantes e fundados no desejo de uniformização do humano.

No entanto, fica a pergunta: afinal o que é uma manifestação? O fato é que não há uma manifestação. Há manifestações. Muitas delas constituem-se como fenômenos de massa que Freud descreveu. Massas mesmerizadas por líderes que encarnam figuras onipotentes, oniscientes. Líderes que convocam o desejo de obediência. Assujeitados, acríticos e passionalizados, os liderados abdicam de sua condição de sujeitos na entrega ao líder que os conduzirá ao poder e extermínio dos opositores.

Nessa manifestação “desconstrutiva”, tratava-se do prazer de estar entre pessoas as mais diversas de seu gênero, de sua classe, de seu nível, de sua geração. Estar além de todos esses atributos.

Pensei, para caracterizá-la e diferenciá-la em um conceito que reencontrei há algum tempo: narcisismo terciário. Conceito formulado por Alcira Marian Alizade, psicanalista argentina, falecida em 2012 , cofundadora da COWAP, autora de diversos livros sobre seu pensamento psicanalítico e também de livros de ficção.

Como ela pensa esse, que ela chama de “novo ato psíquico”, sem medo de usar as mesmas palavras que Freud utiliza para designar o narcisismo que se instala unificando as pulsões autoeróticas?

O narcisismo terciário dependeria de haver um investimento de amor que se inscreveria no bebê. Tal moção seria o suporte de investimentos que, à diferença dos narcisismos primário e secundário, não retornam ao ego. Eles não estariam ligados à castração, ao Édipo. Seriam pré- edípicos ou para edípicos e assim se manteriam.

Trata-se para ela da condição de possibilidade do relacionamento com o alheio, o distante, o social. Com objetos que estão além dos limites e dos interesses do nosso entorno social, estético, financeiro imediato. A vivência e a experiência da contingência e da transitoriedade da vida fariam emergir com mais força as possibilidades transformadoras, a conquista de espaços da pulsão de vida. Alicira pensa também a clínica como conquista desses espaços.
Vemos que, de forma ousada, essa autora – conhecedora do pensamento freudiano, kleiniano e do pensamento psicanalítico francês contemporâneo – prioriza, nessa conceituação, a pulsão de vida, o corpo – o corpo impõe sua presença viva e mortal – e os investimentos não-edípicos.

O narcisismo terciário pode ajudar a compreender como descobrimos a condição humana mais do que atravessando barreiras estéticas, intelectuais, diferenças de gênero. E sim recuperando investimentos em sistemas não centrados, não hierárquicos. Investimentos nas coisas humanas, em todos os seres que constituem nosso pequeno e frágil planeta.

 

Imagem: AFP para a Revista Época.

 

Marilsa Taffarel é membro efetivo e professora da SBPSP, mestre em filosofia da psicanálise pela PUC-SP, doutora pelo núcleo de psicanálise da PUC-SP e co-autora do livro “Isaias Melsohn, a psicanálise e a vida”.

Manifesto da Diretoria da SBPSP pela defesa da democracia e contra o autoritarismo

A Diretoria da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo acredita ser importante e necessário se manifestar frente aos últimos acontecimentos e ao clima que se estabeleceu em nosso país.

A psicanálise sempre teve como valor máximo a coragem de enfrentar a verdade, defender a liberdade do indivíduo, o respeito ao grupo, e a tolerância em face às diferenças. Esta disposição é base de nosso trabalho clínico e do conhecimento que adquirimos, ao longo dos mais de cem anos de nossa história.

Estes valores são imprescindíveis para construção de uma sociedade democrática e da nossa prática; repudiamos toda e qualquer ameaça a estes princípios.

Assim, vimos reforçar nossa preocupação e necessidade de unirmos forças contra o perigo de perdermos nossos valores de base e, assim, nossas condições de exercício da cidadania e da psicanálise.

A história nos serve como alerta; saibamos levá-la em conta!

Diretoria
SBPSP

Freud e a clínica do século XXI

*Claudia Suannes

Um homem só morre efetivamente depois que o último homem que o conheceu morre também. A frase de Borges, que serve como ponto de partida da biografia escrita por Elisabeth Roudinesco, soa oportuna para se pensar no aniversário de morte de Freud, dia 23 de setembro, e no lastro do pensamento freudiano na clínica dos tempos atuais.

A radicalidade do pensamento de Freud, que tira da consciência o eixo do funcionamento psíquico humano e marca a importância da sexualidade, produz um impacto que o situa como um dos grandes pensadores do século XX, cujo legado se estende para além da disciplina por ele criada.

São muitas as contribuições de Freud para se pensar a cultura, os fenômenos sociais e políticos, além da própria clínica psicanalítica.  Como é próprio a um pensador de sua envergadura, sua teoria também é objeto de crítica, sendo uma delas expressa no questionamento sobre a eficácia do método psicanalítico na clínica do século XXI.

Renato Mezan, no livro O tronco e os ramos, dedica-se ao estudo da história da psicanálise, tendo como eixo de seu estudo a relação entre o pensamento de Freud e seus sucessores. Partindo das diferenças entre as escolas de psicanálise, Mezan indaga-se como a partir de um tronco comum, Freud, as escolas possam ter produzido teorizações tão diferentes entre si, mantendo-se, ainda assim, em um campo que é reconhecidamente o campo da psicanálise.  Uma linha fecunda de análise que o autor nos apresenta, então, é a noção de “matriz clínica”, que consiste na base a partir da qual cada autor lê e indaga o texto freudiano. Dito de outro modo, no exercício de seu ofício, os psicanalistas têm contato com pacientes diferentes e é a partir de suas inquietações clínicas que cada analista/autor vai engendrar sua reflexão teórica, privilegiando, para tanto, aspectos da teoria freudiana que melhor permitem pensar os fenômenos com os quais se deparam.

O que me interessa marcar na citação do trabalho de Mezan é a consideração sobre a noção de matriz clínica como fonte de desenvolvimento do pensamento freudiano. Isto é, a radicalidade do método psicanalítico, que contém em seu bojo a possibilidade de escuta às diferentes expressões de sofrimento psíquico e aos modos particulares de se haver com este sofrimento. O subsequente esforço de teorização sobre esses fenômenos encontra na imagem do tronco e seus ramos a expressão de vigor e de possibilidade de constante renovação. Basta abrir os jornais, sair pelas ruas ou receber um novo paciente para constatamos que o terroir dos dias atuais constitui um terreno fértil para o desenvolvimento da psicanálise.

Em homenagem à sua contribuição para a psicanálise, escrevi breve reflexão sobre a influência de Freud para a clínica no século XXI neste outro artigo, publicado em 2015 no blog da AMF (Associação dos Membros Filiados ao Instituto de Psicanálise da SBPSP).

Cláudia Suannes é mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, membro filiado ao Instituto Durval Marcondes da SBPSP. Contato: clausuannes@gmail.com

Sobre o aborto, com a psicanálise

*Ludmila Frateschi

Paulo Endo[1], no I Simpósio Bienal da SBPSP, conclamou a psicanálise e os psicanalistas a não se calarem quando seus muitos anos de produção científica tiverem algo a acrescentar ao debate público. É possível que a psicanálise possa contribuir com a discussão sobre manter ou não o aborto como crime?

Os movimentos pela defesa da vida das mulheres e pela igualdade de direitos entre mulheres e homens têm defendido, já há muito tempo, a autonomia de decisão de uma mulher sobre seu o corpo e o seu direito de fazer um aborto no caso de gravidez que não se sinta apta a levar a termo.

No Brasil, a legislação mantém o aborto como crime no Código Penal, prevendo de um a três anos de reclusão para aquelas que o praticam. Destacam-se apenas três situações em que a pena não se aplica: risco de morte da mãe, anencefalia fetal e gravidez decorrente de estupro. Alguns legisladores defendem que a criminalização seja ainda maior: O projeto de lei 5069/2013, por exemplo, levou milhares de mulheres às ruas e fomentou várias manifestações feministas em 2015, propondo tornar também crime o auxílio ao aborto[2]“ e acabou não indo para frente[3]. Também o texto atual da PEC 181/2015[4], originalmente criado para estender a licença maternidade de mães de prematuros, foi alterado por um deputado: num desvio, ele acrescentou uma emenda prevendo que a vida de fetos deva ser protegida acima de tudo e desde a concepção[5].

Por outro lado, uma sugestão legislativa para legalizar o aborto voluntário até a décima segunda semana de gestação tramitou na Comissão de Direitos Humanos do Senado, ensejando cinco consultas públicas entre 2014 e 2016[6]. Seu relator sugeriu o arquivamento do projeto no início deste ano[7]. No entanto, uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 442 ajuizada pelo PSOL com o argumento de que os artigos do Código Penal referentes ao aborto são inconstitucionais, passou a tramitar no Supremo Tribunal Federal (STF) e, em agosto, realizou-se mais uma audiência pública. Não sabemos ainda qual será o resultado final. A audiência ganhou ainda maior visibilidade porque, no mesmo mês, na Argentina, vimos milhares de mulheres nas ruas em vigília pela aprovação da legalização do aborto naquele país. Lá, o movimento teve uma vitória na Câmara, mas uma derrota no Senado.

A criminalização do aborto leva à enorme subnotificação dos casos e aos nefastos efeitos da prática que se faz clandestinamente. A pesquisadora Débora Diniz, expondo a Pesquisa Nacional do Aborto[8] na audiência do STF, apresenta o impressionante dado de que uma a cada cinco brasileiras com quarenta anos já fizeram ao menos um aborto. Diniz cita também o emblemático (mas, infelizmente, comum) caso de uma mulher que, mãe de outros filhos, morreu numa manobra com um talo de mamona, naquilo que seria o seu segundo aborto. Denuncia-nos, assim, como a criminalização obriga as mulheres a se esconderem, impedindo que procurem ajuda, orientação e cuidado e levando à repetição de uma situação tão dolorosa e arriscada. Convoca-nos, como analistas, a pensar: que mecanismo psíquico e social opera na hipocrisia que nega a realidade dos abortos clandestinos? O que favorece a repetição deste ato mortífero?

Outra expositora da audiência Pública, a pastora Lusmarina, do Instituto de Estudos da Religião (ISER)[9], recusa o dogmatismo e reforça os preceitos humanistas de sua Igreja: a importância do acolhimento e a singularidade de cada experiência. Ela fala em “escolhas possíveis”, lembrando-nos do preceito também psicanalítico de que um ato ou sintoma é sempre o melhor que o sujeito pode fazer com sua angústia naquele momento e, abstendo-se de uma posição que julga, diz ela: “Não cabe a nós como sociedade, como Estado ou como gente de fé, “amontoar aflição sobre aflição’ – como dizia Lutero -, culpa sobre culpa, medo sobre medo, abandono sobre abandono, dor sobre dor, ao ameaçar com a prisão e a categorização de ‘assassina’ alguém que está numa profunda situação de vulnerabilidade”.

Virginia Ungar[10], Presidente da International Psychoanalytical Association (IPA), disse: “Partamos de uma evidência: nossa época não é a de princípios do século passado quando nasceu a psicanálise. Tampouco a situação das mulheres que estamos aqui é representativa da maioria das mulheres. É verdade que antes houve outras mulheres no lugar de condução de muitas sociedades psicanalíticas. Isto não quer dizer que vamos negar o lugar vulnerável que tem tido e ainda tem a mulher em nossa sociedade”. Creio ser importante que possamos pensar nas diferentes condições em que as mulheres no Brasil fazem aborto. Segundo a Pesquisa Nacional do Aborto, a mulher que tem menos acesso a planejamento familiar, que pratica aborto nas piores condições e que tem maiores complicações é pobre, negra ou indígena, nortista ou nordestina. Ela precisa escolher entre ter um filho que não pode ou correr risco de vida. Entre adequar-se a um mandamento social de que não pode dar conta ou, como disse a Pastora Lusmarina, acreditar que é uma assassina.

Sabendo que a possibilidade de maternar não é universal entre as mulheres e que é fundamental para o desenvolvimento da criança, pergunto-me então o que a psicanálise e os psicanalistas têm a dizer sobre a criminalização daquelas que assumem o seu limite.

Retomo, por fim, um episódio da série “The Handmaid’s Tale”, inspiração das manifestações na Argentina. Nele, uma das personagens – obrigada a ter filhos para a comunidade, já que é uma das poucas mulheres férteis que resta – tenta cometer infanticídio. Ordena-se então que seja apedrejada pelas outras mulheres férteis. Estas recusam-se a cumprir a ordem. Compreendem, a meu ver, que não é possível apedrejar alguém por levar a cabo um desejo que reconhecem em si mesmas. Parece-me algo que um psicanalista poderia questionar: se em toda mulher há alguma ambivalência em tornar-se mãe, por que socialmente apedrejamos, matamos e criminalizamos mulheres que admitem não poderem tornar-se mães?

 

Imagem: Alejandro Moreyra para o portal Tiempo Argentino

 

[1] Paulo Endo, em fala no Fórum Violência e Psicanálise no I Simpósio Bienal da SBPSP

[2] No texto do PL: “Induzir ou instigar a gestante a usar substância ou objeto abortivo, instruir ou orientar gestante sobre como praticar aborto ou prestar-lhe qualquer auxílio para que o pratique, ainda mais sob o pretexto da redução de danos

[3] Projeto de Eduardo Cunha (então do PMDB do Rio de Janeiro),

[4] De autoria de Aécio Neves (PSDB-MG)

[5] Jorge Tadeu Mudalem (DEM – SP)

[6] De autoria de André de Oliveira Kiepper, cidadão comum do Rio de janeiro, mestre em saúde pública

[7] Senador Magno Malta (PR-ES)

[8] https://www.youtube.com/watch?v=kuzNoNoYrTg

[9] https://www.youtube.com/watch?v=joAMPIaSkv0

[10] Virginia Ungar, O mesmo, O outro – fala na conferência de abertura do I Simposio Bienal da SBPSP

 

Ludmila Frateschi é psicóloga e psicanalista formada pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Pertence ao Serviço de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (HC/FMUSP). É atualmente membro filiado do Instituto Durval Marcondes. Atende em consultório particular. Contato: ludmilafrateschi@gmail.com

Ilusão: o perigoso fio que nos conecta mesmo sem wi-fi

A Sociedade Brasileira de Psicanálise colabora com a Revista Psique.

Abaixo, reprodução do artigo de Helena Cunha Di Ciero Mourão* para a revista Psique nº 150, de agosto de 2018

 

Recentemente testemunhei a seguinte cena num restaurante. Eram dois adolescentes com os pais. Logo que a comida chegou, um apetitoso sanduíche acompanhado de batatas fritas, cada membro da família sacou do bolso seu celular e fotografou o prato antes mesmo de experimentá-lo. Parecia uma cena de faroeste. Estavam ávidos e felizes por registrar o cheeseburguer que comeriam em segundos. Orgulhosos. A ligeireza em fotografar a cena veio antes do que a fome. Surpreendi-me, também, por não ter me espantado, assisti à cena como quem contempla um movimento habitual do sujeito contemporâneo: a pausa para a fotografia.

Curioso pensar que, apesar do imediatismo ser uma marca forte do tempo em que vivemos, essa suspensão está sempre presente. Pausa antes de postar, pausa para registrar a foto ou filmar, pausa na conversa ao vivo para responder a um comentário do mundo virtual.

Os diálogos pelos aplicativos de mensagens instantâneas nada têm de instantâneos, todos somos escravos desse mesmo tempo de espera. Atualmente, essa forma de comunicação é muito mais frequente do que os telefonemas, possibilitando um tempo de reflexão antes da resposta, uma reformulação da frase antes do envio e, muitas vezes, uma quebra da espontaneidade.

O lugar mais temido pelos adolescentes hoje são as marcas azuis do Whatssapp, que indicam que o outro visualizou a mensagem e não respondeu. Elas tornam real o maior pesadelo dessa geração: a sensação de invisibilidade.

Posto, logo existo

As fotos hoje são compartilhadas em busca da validação de uma experiência. É preciso que alguém testemunhe minha vivência, assista às minhas experiências, dê likes nos meus registros fotográficos para que a cena seja completa. A função da rede social é a de uma plateia que assiste, contempla, celebra um fragmento do tempo recortado e editado numa imagem.

Como uma mãe que aplaude o filho em seus passos, os amigos virtuais reafirmam nosso narcisismo[1] (há inclusive um emoji de palmas). O espelho virtual representa algo muito valioso para todos nós, aquele primeiro olhar que delineia nossa existência e de onde vem o amor: O olhar materno. Seria este o lugar onde se iniciam as primeiras trocas significativas com o mundo. Esse espelho inaugura nosso psiquismo e traz uma sensação que buscamos a vida inteira: a de segurança.

Possivelmente, essa é a causa de serem tão poucos os que conseguem não se render aos encantos da Internet. A busca por curtidas seria uma forma resgatar a lembrança de que existimos para alguém de maneira concreta. Não é raro ouvir de pacientes apaixonados: “Estou feliz, ele curtiu minha foto”. Ou seja: “Ele se lembra de mim, eu tenho a prova viva”.

Há também os que se filmam em seus stories, enquanto olham para a tela, conversam com seus seguidores e pedem opinião sobre roupas, corte de cabelo etc. ou divagam sobre a vida.  Existem também as filmagens ao vivo, os lives, nos quais as pessoas em tempo real interagem com outros usuários da rede. Seria possível se isentar da persecutoriedade nesse tipo de postagem? Pois essa exposição traz riscos, haters e falas de estranhos protegidos pelo escudo da tela de computador. Nem tudo é like, há também o haters. Freud diria que entre fezes e sangue nascemos. Não dá para esperar só aplausos da plateia virtual.

Tal qual a bruxa da história da Branca de Neve, o espelho de pixels contemporâneo tem uma função oracular. Seria este oráculo poderoso o suficiente para evitar o fim trágico do sujeito atual que nos remeteria à história de Narciso? Importante adicionar que há muitos registros de pessoas que arriscam sua vida para fazer uma selfie em lugares perigosos, colocando-se em situações de risco e morrendo por acidente ou distração. Não é uma causa mortis incomum, inclusive vem crescendo. O mito de Narciso segue mesmo bastante atual.

O que chama atenção para um outro ponto que considero interessante: o que aparece nos filtros virtuais é um fragmento da realidade, um pedaço, muitas vezes editado com o objetivo de contar ao outro sobre o quanto sou feliz. É comum, por exemplo, as postagens serem recados endereçados a alguém com uma finalidade provocativa. Uma bela foto de um momento pode não revelar o que de fato se passava no instante, pois há um aspecto da cena que é impossível de ser captado em sua totalidade: as emoções.

A psicanalista Marielle Kellerman Barbosa (2012, p. 101) escreve:

Podemos considerar a virtualização das relações, da comunicação, sob essa perspectiva freudiana da busca da felicidade na medida em que recriamos para nós uma realidade mais agradável e digerível. A tecnologia nos permite fazer um photoshop das relações, dos momentos, da imagem com que nos apresentamos ao mundo

As fotos poderiam ser recortes daquilo que gostaríamos de ser, representando um ideal de ego, isto é, como gostaríamos de ser vistos e como acreditamos que um dia fomos tratados em nossa tenra infância.

No artigo do jornal Folha de São Paulo, “Felicidade nas telas”, de 2010, Calligaris discute essa necessidade de expor a felicidade nas redes sociais como sendo um desejo de ter a vida invejada pelo outro:

Além disso, somos cronicamente dependentes do olhar dos outros. Consequência: para ter certeza de que sou feliz, preciso constatar que os outros enxergam minha felicidade. Nada grave, mas isso leva a algo mais chato: a prova de minha felicidade é a inveja dos outros.

Recentemente li um post com fotos de pessoas tiradas na semana ou até no dia em que se suicidaram como um alerta. Era uma campanha chamada “Depressão não tem cara”, na qual fotografias de cenas felizes, repletas de pessoas sorrindo e aparentemente leves, escondiam a morte que as espreitava. Vendo as fotos imagina-se algo bem diferente do que se passava internamente com as personagens ilustravam as fotos.

Em outro artigo, “A inveja dos outros”, de 2013, Calligaris acrescenta um ponto bastante interessante:

Num mundo em que a inveja é um regulador social, as aparências são decisivas, pois comandam a inveja dos outros. Por exemplo, o que conta não é ser feliz, mas parecer invejavelmente feliz.

Nesse mundo o ter é mais importante do que o ser apenas por que à diferença do ser, o ter pode ser mostrado facilmente. É simples mostrar o brilho de roupas e bugiganga aos invejosos. Complicado seria lhes mostrar vestígios da vida interior e pedir que nos invejem por isso.

Recordação

Esquecer-se de fotografar uma experiência deveria ser sinal de estar vivendo-a com plenitude, de maneira inteira e, no entanto, há uma lástima: “Puxa, nem sequer tiramos fotos!”. Mas, por que a lástima?

Ao registrar momentos em nossos iPhones, nossos “eus” de bolso, criamos também uma ilusão de poder a qualquer momento revisitar aquela memória. Um pedaço de nossa história poderia ficar salvo, eternamente, da passagem do tempo, aprisionado numa nuvem virtual como lembranças que nunca se apagam. A prova de que um dia eu existi. Daqui a alguns anos o Facebook será um enorme catálogo de pessoas que já não existem mais. Para quem poderemos escrever no mural, revisitar as fotos, pensar nos posicionamentos políticos, se eram ou não coerentes, e até mesmo postar flores nas páginas daqueles que se foram ao invés de visitar seus túmulos no dia de Finados. Um pedaço da nossa vida que pode ficar inesquecível.

Na cultura mexicana uma pessoa não deixa de existir quando morre, mas sim quando ninguém mais fala dela. Por isso o dia dos mortos é tão importante. Para que a memória do falecido nunca se perca na história de uma família, todos aqueles que partiram são rememorados nesse dia.

Na plataforma virtual a morte também não é sinônimo de esquecimento. Hoje nas redes sociais não é incomum homenagear, no dia das Mães ou dos Pais, os que já faleceram numa tentativa de, em algum lugar, reativar aquela lembrança e, principalmente, buscar alguma solidariedade, seja na forma de comentário ou de curtida. Nesse sentido a rede social se tornaria um espaço de acolhimento pela identificação. Busco alguém que saiba o que estou sentindo, comunico ao mundo minha dor: uma espécie de catarse eletrônica.

Todavia, há certas pessoas que, se não morrem na nossa história, assombram todo nosso trajeto e nos aprisionam. Servem apenas para assombrar nosso disco rígido mental, sobrecarregando-o. É o caso dos ex-amores, por exemplo, que nas redes sociais só deixam de existir quando bloqueados ou deletados e para isso é necessária muita força de vontade no dedo indicador. Visitas virtuais às páginas da pessoa que um dia amamos não são raras, pelo contrário. Trazem mal-estar, alimentando, assim, a melancolia[2] e impedindo-nos de completar o trabalho do luto[3]. Uma memória permanece semiviva rondando as timelines da nossa mente. Se antigamente, quando terminávamos uma relação, temíamos encontrar nosso antigo amor na fila do cinema, hoje nos deparamos com vídeos diversos daquele alguém vivendo uma outra história e somos, muitas vezes, espectadores de cenas virtuais desnecessárias e que afetam nossa vida real: como um beijo apaixonado daquele pedaço da sua história que hoje tem vida própria.

Sou mais um na multidão

Hoje, as crianças brincam com tablets, disputam com seus pais os celulares, dividem seu tempo com a onipresença dos aparelhos eletrônicos. Estamos todos unidos pelo mesmo fio, invisível e poderoso: o fio da ilusão. De acordo com o Comitê Invisível, em Motim e destruição agora (2017, p. 57):

A Condição do reino dos Gafa (Google, Apple, Facebook, Amazon) é que os seres, os lugares, os fragmentos do mundo permaneçam sem contato real. Onde os Gafa pretendem ‘vincular o mundo inteiro’ é, ao contrário, trabalhar para o isolamento real de cada um. É imobilizar os corpos. É manter cada um recluso em sua bolha significante. O golpe da força cibernético consiste em gerar, em cada um, a sensação de ter acesso ao mundo inteiro, quando se está na realidade, cada vez mais, separado de ter cada vez mais ‘amigos’, quando se é cada vez mais autista”.

O sujeito contemporâneo mantém a ilusão de estar sempre conectado, e essa ilusão contribui para sua solidão. Se hoje Freud pudesse acrescentar algo a sua frase “É preciso amar para não adoecer”, acrescentaria: “é preciso desconectar para não adoecer”.

Não há antídoto contra o desamparo, condição inerente ao ser humano. Não há escudo que nos proteja dos riscos da existência e das dores da vida.

Referências bibliográficas

BARBOSA, M. K.. Viver conectado, subjetividade no mundo contemporâneo. Ide, v. 35, 2012, p.89 – 101.

CALLIGARIS, C: Felicidade nas telas. Folha de São Paulo, 2010.

______. A inveja dos outros. Folha de São Paulo, 2013.

COMITÊ INVISÍVEL. Cinquenta tons de rupturas. In : ______. Motim e destruição agora. São Paulo: N1 Edições, 2017, p.57.

FREUD, S. Luto e melancolia. Tradução de Marilene Carone. São Paulo: Cosac Naify, 2011.

______. Sobre o narcisismo: uma introdução. In: ______. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. V. 14. Rio de Janeiro: Imago, 1990, p. 83-119.

 

[1] Freud (1914) atribuiu ao narcisismo a atitude de uma pessoa que trata seu próprio corpo como objeto sexual.

[2] Termo usado por Freud em Luto e melancolia que descreve o estado da mente diante da perda de um objeto de amor – que não necessariamente morreu, mas que se perdeu como objeto de amor – em que há a suspensão do interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda a atividade e o rebaixamento do sentimento de autoestima.  “A sombra do objeto recai sobre o próprio ego. O luto profundo em reação à morte de uma pessoa amada contém o mesmo estado de ânimo doloroso, o mesmo desinvestimento no mundo externo, a perda da capacidade de encontrar um novo objeto de amor – em substituição ao pranteado -, porém não há o rebaixamento de autoestima”.

[3]  Freud coloca nesse mesmo texto que o trabalho do luto consiste em um hiper-investimento nas lembranças que se referem ao objeto perdido afim de desligar a energia que vinculava o ego ao objeto de amor. “Mas de fato, uma vez concluído o trabalho do luto o ego fica novamente livre e desinibido” (1914/2011, p. 50).

 

Helena Cunha Di Ciero Mourão é psicóloga formada pela PUC -SP, especialista em psicoterapia psicanalítica pela Universidade de São Paulo e colaboradora da Revista Amarello  É membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. E-mail: hcdiciero@gmail.com

Sobre o incêndio no Museu Nacional

Nós, psicanalistas da SBPSP, consternados com o acontecido com o Museu de História Nacional, endossamos a carta da Federação Brasileira de Psicanálise abaixo publicada.

Acontecimentos como este devem alertar os poderes públicos e a sociedade como um todo para importância da preservação e conservação dos nossos acervos de memória histórica e cultural. Fatos como este – assim como em outras esferas, a traumática tragédia de Mariana – não podem ser vistos como acidentes. Eles acendem uma luz vermelha sobre o descaso com o nosso patrimônio histórico cultural e nossa população.

Bernardo Tanis

Presidente da SBPSP

Carta aberta à comunidade científica, endereçada ao presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC:

A Federação Brasileira de Psicanálise – FEBRAPSI sente imensa perplexidade pela tragédia que se abateu sobre o mais antigo patrimônio histórico do Brasil. Sua dor e sua tristeza ecoam em todo Brasil. Muito de nós, ainda crianças, fomos a este museu e com olhos ávidos de curiosidade olhamos as múmias, pela primeira vez na vida, os imensos esqueletos, que naquela época ainda ficavam maiores diante de nosso pequeno tamanho. O que dizer da sensação de estar no local onde monarcas viveram, as louças, os adereços e as roupas? Tudo nos ensinava como numa época mais antiga as pessoas se vestiam e viviam. Nunca esquecemos e nem esqueceremos esta primeira visita. Mais tarde, levamos nossos filhos que, para nossa alegria, também se inebriaram com a beleza e riqueza deste museu, testemunha viva de nossa história. Hoje, perplexos percebemos que não poderemos mostrar este museu do jeitinho que nós o vimos pela primeira vez. Apesar da luta de vocês por todos esses anos, muitas preciosidades foram perdidas. Perdas irreparáveis! Não valorizar o passado é perder a memória e com isso a própria identidade. Perde o Brasil mais uma vez.

Aproveitamos para parabenizá-los pelo esforço de todos vocês em manter e proteger durante todos esses 200 anos esta relíquia que é o Museu Nacional.

Anette Blaya Luz
Presidente

Rosa Maria Carvalho Reis
Secretária Geral

Foto: O Estado de S. Paulo