Psicanálise

A vida como ela é: Ser psicanalista hoje

Talya S. Candi

Por que perseverar no nosso impossível ofício de psicanalista?   E mais ainda, o que significa ser psicanalista hoje, no final da segunda década do século XXI?

Somos forçados a aceitar que hoje em dia a denominação de psicanalista não parece mais significar grande coisa. Esta denominação recobre um grupo de professionais profundamente variado e diferente tanto nos critérios de seleção e de habilitação, quanto na própria atuação e na formação teórica, cujo arcabouço conceitual acabou se transformando ao longo dos anos num corpo heterógeno atravessado por oposição por vezes fundamentais e irreconciliáveis. Consequentemente surge a interrogação: o que é ser psicanalista hoje?

Passada a grande febre do final do século XX, a psicanálise se estende hoje nos mais diversos centros de estudos, universidades e grandes centros hospitalares, permitindo que os estudantes interessados na ciência do inconsciente possam ter uma capacitação.  Esta fragmentação do campo tem sido em parte nefasta, mas também, acredito eu, necessária, pois permitiu uma ampla desidealização do fazer psicanalítico. O psicanalista de hoje é um professional como tanto outros que precisa estar inserido na sociedade de mercado e mostrar que seu saber é de valia tanto no campo do conhecimento científico como da terapêutica. No caso contrário, ficaríamos isolados esperando pacientes ideais, que fariam análises ideais e obteriam resultados ideias para não dizer idealizados.

Inspirada pelo psicanalista André Green, tenho me dedicado a pesquisar e trabalhar com os casos limites, casos que hoje prefiro denominar de não-neuróticos, porque desafiam o enquadre clássico (criado para tratar das neuroses) e se encontram nos limites da possibilidade de analisabilidade.  Trata-se de pacientes que parecem ter uma relação de extrema ambivalência com o psicanalista e a psicanálise. Eles experimentam por um lado, a análise como se ela fosse tão necessária quanto o ar que respiram, mas, por outro lado, acreditam (e insistem em dizer em voz alta)  que a psicanálise não pode fazer nada para aliviar o seu sofrimento. Assim vivem um impasse transferencial provocado por um negativismo feroz pelo qual se recusam tanto a largar quanto a melhorar e que, acreditamos, repete uma vivência de fracasso fundamental.

Um paciente que hoje perdi de vista, me perguntava frequentemente por que queria que ele fizesse análise?    A análise que ele foi fazendo contra a sua vontade o ajudou a recuperar sua vitalidade questionadora e me levou a repensar acerca do meu desejo de ser psicanalista.

Numa conferência já antiga que tive a oportunidade de escutar em Paris, Daniel Widlocher diz que o desejo do psicanalista se concentra em três áreas: o desejo de curar, o desejo de conhecer, e o desejo ligado à apreensão do humano. Os pacientes limites desafiam nosso desejo de curar, mas nos permitem conhecer e talvez compreender a complexidade dos dilemas e dos conflitos que nos tornam humanos.

Eles nos forçam a inserir conflitos lá onde frequentemente existem somente atos impensados que escapam a qualquer coisa que poderíamos chamar de humano.  Conflitos que hoje em dia se mostram cada vez mais ligados a impulsos destrutivos indomáveis, que aniquilam a essência do humano e apontam para lados obscuros e perversos da nossa humanidade que qualificaríamos de inumano. Como inserir humanidade lá onde vemos somente arrogância, destrutividade, violência e negação da alteridade? Em 2005, André Green[1]  escreve  um curto texto intitulado ‘’A humanidade do inumano‘’ à guisa de prefácio para o livro de Claude Balier: “A violência em abismo: ensaio de psico-criminologia”.  Uma das facetas do inumano, diz André Green, consiste na capacidade de anular qualquer questionamento e curiosidade, exterminando o sentido da vida,  transformando  qualquer  outro e o próprio Eu, em  “nada”  em “ninguém”,  como se qualquer tentativa de dar nome e significado  ao mundo no qual vivemos fosse violentamente exterminado.” O mal, o inumano é sem porque, diz ele, ele escapa a qualquer compreensão ao não ser se erguer enquanto mal, ele é uma força bruta que visa na sua essência a destruir o sentido e os porquês, os quando e os quem.”  (Green 1988, pg 370).

Acredito que o psicanalista de hoje deve poder estar preparado para ser confrontado com os aspectos mais obscuros e inumanos de nossa humanidade, que visam a aniquilar o sentido e o interesse da própria vida.

Como explicar a proliferação das patologias limites?  Existem vários modelos para explicar a origem das patologias não-neuróticas. A  grosso modo, podemos destacar dois modelos: O modelo do “conflito psíquico”  que remonta à teorização de Melanie Klein e de Kernberg, que vai enfatizar o papel da agressividade, da inveja inata e do conflito psíquico (entre a parte da personalidade  dominada pela posição esquizo-paranóide  que não suporta reconhecer a alteridade do outro e a posição depressiva que aceita a alteridade) e o modelo do déficit  que, a partir de Ferenczi e de Winnciott, destaca  a falta de sintonia do ambiente às necessidades primarias do bebê.

Este último modelo, enfatiza as dificuldades do self de se autorregular e atingir um nível de coesão de organização interna estável quando o ambiente externo não proporciona um suporte suficientemente bom, confiável e continente. Ao longo do tempo estes modelos têm levados a pontos de vista divergentes na ação terapêutica.  O modelo do conflito, coloca a ênfase na estabilidade do setting (que assegura que a análise possa sobreviver à ambivalência e agressividade do paciente) e na interpretação do conflito psíquico, possibilitando assim confrontar o paciente com a sua própria destrutividade.

O modelo do déficit, por sua vez, ressalta a necessidade de proporcionar continência e holding para possibilitar que as áreas que permaneceram indisponíveis para representação possam ser consolidadas. Esta parte do trabalho consiste em criar a tessitura de uma tela branca psíquica   que sirva de pano de fundo para que a história do paciente possa ser desenhada e inscrita.

Entre as múltiplas dificuldades que o analista deve enfrentar para levar a cabo este trabalho, destacamos a intensa quota de destrutividade que os pacientes não-neuróticos trazem e ativam na relação com o analista. Seja ela determinada por uma questão constitucional ou por uma falha dos objetos primários, a continência da agressividade constitui um nó técnico inevitável e um teste difícil.

Bion, Melanie Klein, Winnicott, Searles, Green, Pontalis  entre  muitos outros parecem ter percebido o tamanho do problema que significava para  um analista  engajar-se na análise de tais pacientes: O analista precisa num primeiro momento se implicar, ser utilizado pelas suas carências, se deixar vampirizar pelo paciente, sobreviver,  imaginar as coisas mais improváveis, as mais loucas e irracionais, aceitar errar e sentir-se completamente impotente, ser pisoteado no seu narcisismo e, finalmente, se precisar, saber desistir e aceitar recuar e…. mesmo assim continuar firme com a psicanálise.

Baita de uma tarefa!!

Para se engajar num tal desafio, o analista de hoje precisa mais do nunca estar profundamente familiarizado com seus próprias conflitos e dores, enfim, com sua vida psíquica e “sua loucura pessoal “(Green). Estes pacientes que nos desafiam com um funcionamento psíquico à beira da loucura, exigem que tenhamos  como instrumento  uma imaginação clínica para  intuir e apreender os conflitos  e não nos deixar levar pela manipulações, uma agilidade mental para não  enlouquecer com o sofrimento e,  uma firmeza  e serenidade  interna para  não desistir.

O método analítico, a associação livre e o enquadre são nosso porto seguro nesta árdua tarefa… Claro que eles serão inevitavelmente perdidos no decorrer do caminho, mas eles devem sempre nortear nossa caminhada. Cabe aqui alertar os analistas contra manipulações transferenciais que poderiam levar a situação perigosas de atuação e desfechos catastróficos.

Compreendemos que face a estas situações limites paradoxais (Roussillon) que questionam os limites da própria razão de ser da psicanálise, cabe recorrer à “loucura pessoal”(Green)  do analista que ao entrar  em ressonância com a  vida emocional do paciente, responde com flexibilidade e  rigor, a partir do espirito analítico,  inserindo sentido.

Diremos finalmente que a história da psicanálise nos ensinou que o único que garante a situação analítica é o próprio analista, a sua pessoa e a sua ética.  Neste sentido, não temos como não insistir na necessidade de uma formação sólida e de uma análise pessoal longa que formaram os pilares do ser psicanalista no passado e que permanecem, todavia mais indispensável hoje e   provavelmente amanhã.

Ser psicanalista hoje exige uma formação dupla.  Por um lado, estar atento, como no passado, a sutis manifestações do inconsciente e quando as circunstâncias o exigem, com pacientes não-neuróticos, poder acolher modos de pensamento paradoxais ou, por vezes, modos de pensamentos inexistentes   e inventar respostas apropriadas que possam abrir caminhos nunca antes imaginados.

[1] André Green, « Préface. L’humanité de l’inhumain », in Claude Balier, La violence en Abyme, Presses Universitaires de France « Le fil rouge », 2005 (), p. XI-XVII.

Talya S. Candi, Membro associado da SBPSP, filiada à International Psychoanalytic association, doutora pela PUC-SP, autora de varios artigos em revistas cientificas e do livro; O duplo Limite: o aparelho psiquico de André Green, ed Escuta e organizadora de “Dialogos psicanaliticos contemporaneos” publicado  tambem pela ed. Escuta. Talyasc@uol.com.br

 

“Ora direis- Interpretar”: Revendo o conceito de interpretação na clínica do não representado

Audrey Setton Lopes de Souza

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo,

Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,

Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto

E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite,

enquanto a Via-Láctea, como um pálio aberto,

Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,

Inda as procuro pelo céu deserto……

Olavo Bilac       

Algumas experiências clínicas nos confrontam com dificuldades no processo analítico nas quais as palavras se mostram insuficientes – tanto para os pacientes transmitirem o que precisam, quanto para o analista entender e comunicar a eles alguma forma de compreensão dessas experiências. É preciso encontrar outros modos de escuta e de interpretação.

A noção de interpretação, fundada a partir do trabalho com pacientes neuróticos adultos, apoia-se em certa concepção do funcionamento psíquico: devido ao recalcamento, apareceriam sintomas cuja função seria encobrir e disfarçar aquilo que foi perdido e que agora não pode mais ser conhecido, sob a ameaça de invasão pela angústia. Nesse modelo, a função primordial da interpretação seria tornar o sujeito mais capaz de reencontrar-se com o que foi perdido. A clínica atual nos coloca frequentemente diante de pacientes que demandam não um trabalho com o que foi perdido, mas com o que aparentemente nem chegou a existir, o não representado ou o irrepresentável.

Em “Construções em análise” (1937), Freud já chamava a atenção para a existência de experiências de natureza traumática que não podem ser evocadas pela lembrança e que demandam novas formas de intervenção. Diferentemente do trabalho interpretativo com pacientes neuróticos para os quais a análise opera na linha do “per levare”, estes pacientes necessitam de um trabalho de “per puore”. A questão que se coloca é sobre que tipo de inscrição adquirem estas experiências e como acessá-las em análise.

Como destacou Tanis (2018) “se o modelo freudiano inicial focava na pulsão e o desejo como forças motivadoras que animavam a vida psíquica ele se enriqueceu com a inclusão do objeto, seja no reconhecimento dos modelos identificatórios, das vicissitudes da trama edípica, na constituição das instancias ideais e nos processos de luto”. Ele chama a atenção para teorizações pós-freudianas que passam a introduzir o foco no objeto como elemento regulador das emoções mais arcaicas do infant: seja na perspectiva da revêrie do Bion, do holding de Winnicott ou de Lacan quando nos fala da alienação no desejo do outro. O que Tanis realça é que “tudo isso não deixou incólume o lugar do analista no devir de uma análise, passou a convocá-lo de novas maneiras e assim as formulações sobre contratransferência e o desejo do analista ganharam força ao mesmo tempo em que o analista intérprete cedia, mas sem renunciar a ele, espaço às outras formas de intervenção e presença, o que nos convoca a renovar a reflexão em torno da abstinência e da postura ética do analista” .

Autores como Botella e Botella (2002), Green (2003, 2008, 1993/2010), Marucco (2007), Ogden (2006) e Roussillon (1991/2005) chamam a atenção para os efeitos psíquicos dessas experiências traumáticas que não alcançam qualquer representação – e portanto não podem ser evocadas –, propondo reflexões sobre novas formas de intervenção.

Uma vivência será experimentada como traumática no momento em que o sistema de representações não consegue captá-la, dar sentido ou torná-la simbólica. Essa vivência, quando não transformada, torna-se excesso de energia causando uma fratura, um vazio na trama de representações trazendo novos desafios para a atividade psicanalítica.

Para Marucco (2007), o trabalho com esses pacientes nos coloca mais próximos do caldeirão do id e mais longe do inconsciente reprimido, que aparece como repetições irrepresentáveis, marcas que ele denomina trauma psíquico/pré-psíquico e que escapam a qualquer possível significação. Assim, a ideia de não representação e de aspectos cindidos do ego coloca novos objetivos para a psicanálise, pois são aspectos que o paciente não poderá relembrar, e sim viver pela primeira vez – experiências que não puderam ser abarcadas pelas representações e que trazem reflexos para a técnica psicanalítica. A insuficiência de simbolização, que implica o predomínio de manifestações através do corpo ou do ato, frequentemente confronta o enquadre analítico e seus recursos, como a clássica posição de neutralidade, o silêncio e a inatividade do analista, as regras do setting, etc.

A necessidade de o paciente vivenciar pela primeira vez os conteúdos cindidos significa uma participação diferente do analista. Seu funcionamento mental torna-se importante. É preciso ajudar o paciente a encontrar algo novo, um objeto analítico – que não é de um e não é de outro – que promova ligaduras com potencial transformador da realidade psíquica (Marucco, 2002, 2007).

A noção de trabalho do negativo, de André Green (1993/2010), também vai nessa direção: esse conceito implica a existência de algo mais do que a ausência, uma presença não presente, um registro apresentado pelo elemento psíquico inexistente, uma qualidade psíquica que se registra pelo negativo. Tal condição, de perda de sentido da representação interna, será considerada por Green como constituindo a representação interna do negativo; uma presença da ausência do objeto e da ausência de sentido, criando um buraco representacional e produzindo estados de esvaziamento e de falta de sentido.

Azevedo (2009) aponta que Green parte do conceito de negativo em Winnicott, condição considerada normal no desenvolvimento infantil, ligada a uma qualidade do funcionamento psíquico, que pode alcançar a noção de que tudo o que constitui o não eu (aquilo que não é possuído) é o negativo do eu. Essa condição depende da existência de um objeto transicional que perdure como vivo, apesar de ausente. A falha do objeto externo produz um estado de persecutoriedade intolerável e a morte desse frágil objeto interno; como resultado, haveria uma retirada de catexia do objeto que corresponderia ao que Green denomina de função des/objetivante e que atuaria como contrária à vida.

O que Green (2003) aponta é que tal identificação da vida pulsional com um objeto que jamais irá satisfazer o sujeito levaria a uma reivindicação de autonomia cuja meta seria atingir um estado de separação, independência e autossuficiência que se manifestaria na clínica como reações terapêuticas negativas e vivências de branco sem palavras, exigindo do analista uma maior tolerância a certo modo de atividade psíquica para poder desempenhar o papel de receptor de complementaridade e ser capaz de “apreender o que não se soube ou não se pode dizer e que se exprime, então, nas formas extraverbais” (Green, 2003, p. 481). Esses pacientes demonstram grande dificuldade para tolerar o enquadre clássico e exigem do analista certa margem de manobra.

“Nestas condições, o analista deve abster-se de deixar o paciente viver experiências que terminarão por revelarem-se mais esterilizantes que fecundas, com a análise tornando-se cronicamente traumática. É nestes casos em que aquilo que foi muito a propósito denominado de “presença” do analista, adquire pleno significado” (Green, 2008 pg 115.)

Roussillon (1991/2005) também observa que devemos localizar a raiz dessas dificuldades nas falhas das experiências iniciais mãe-bebê, na elaboração dos paradoxos da destrutividade ou do uso do objeto e do objeto transicional. As manifestações clínicas desses pacientes são reações à revivescência de experiências infantis marcadas pela ausência de respostas maternas e por certa desqualificação de suas necessidades. O lugar da “matriz original do fantasma” é então deixado vazio; as pacientes são confrontadas a um branco, representando a ausência de representações, vivido como uma profunda ferida narcísica. A angústia assim mobilizada só pode ser contida na urgência do adormecimento ou numa hiperatividade que mantém e evacua, ao mesmo tempo, a excitação não ligável. (p. 210)

Ele acrescenta que, assim como Winnicott propõe que devemos ensinar os pacientes a brincar, nessa clínica somos levados, nem sempre de forma consciente, a “presentear” (formular, pôr em forma) uma atividade comparada ao que Bion descreve como a capacidade de rêverie materna.

Roussillon (2007) aponta que com estes pacientes o “analista pode avançar apenas lentamente e segundo o afrouxamento progressivo das defesas, sendo obrigado a encontrar modos de presença e modalidades técnicas de intervenção, que asseguram uma presença ou mesmo um acompanhamento suficiente, mas à distância e sem comprometer a análise da configuração transferencial”.

Em suas teorizações, tanto Green quanto Roussillon destacam as contribuições de Bion na área do pensamento e não pensamento e do conhecimento negativo (Bion, 1959/1988a) e o conceito de identificação projetiva proposto por Klein (1946/1991).

Klein, no seu trabalho com crianças, também nos mostra que o analista defronta-se frequentemente com crianças com dificuldades  de simbolização apontando para os efeitos devastadores da identificação projetivas maciças  que geram uma escotomização da vida psíquica. Suas contribuições abriram caminhos para modificações técnicas que consideram a importância do papel do analista na função de acolher e significar estas identificações projetivas.

Ampliando as concepções de Klein, Bick (1991) destaca a importância das primeiras situações. Segundo ela,  anteriores à posição esquizoparanoide, para a possibilidade de construção de um objeto continente capaz de acolher as identificações projetivas. Cito aqui a descrição da Izelinda Barros deste processo “Antes da introjeção deste objeto continente, isto é, antes da constituição de um continente interno, e das possibilidades comunicativas oferecidas pela identificação projetiva, a segurança do bebê está depositada nas qualidades sensoriais do objeto materno e self e objeto são experimentados como superfícies sensíveis e contíguas. Nesta fase a dependência do objeto é absoluta; a separação é experimentada como a perda de partes do próprio corpo.”

Ela destaca que o bebê, no início de sua vida, graças ao uso da identificação projetiva e às qualidades de rêverie da mãe, vive uma ilusão de continuidade com ela e, portanto, não é confrontado com a realidade da separação. Por outro lado, repetidos descompassos afetivos na dupla trazem à luz, precocemente, a realidade de corpos e mentes separadas entre o bebê e sua mãe; provocam perturbações no desenvolvimento da pele psíquica e podem levar à constituição de uma “segunda pele” por meio da qual “ a dependência do objeto é substituída por uma pseudoindependência, pelo uso inapropriado de certas funções mentais, com o propósito de criar um substituto para esta função de pele continente” … Bick (op.cit. p197).

Devemos a Bion a apropriação do conceito de identificação projetiva e sua dimensão comunicativa, enfatizando a função de rêverie (Bion, 1962/1988b), primordial para o trabalho com o que Bion denominou  elementos beta: experiências sensoriais brutas e não processadas e que são incapazes de vincular-se umas às outras e, portanto, tornam-se impróprias para o pensar, o sonhar, ou mesmo para guardar como lembrança (Ogden, 2006).  É a partir da transformação operada pela função alfa que essas experiências podem vincular-se e ser usadas para sonhar e pensar. Esse modelo de interação não verbal, característico da relação mãe-bebê, põe o analista no lugar daquele que exerce a função de acolher e transformar as experiências não digeridas de seus pacientes, num trabalho muitas vezes para além das palavras.

No trabalho com pacientes psicóticos, Bion questiona a função da interpretação introduzindo a ideia das funções alfa e beta, e da função de metabolização dos afetos; enfatiza, assim, a importância do objeto real (do analista real e da mãe real) nesse processo, colocando o analista na função de acolher e significar experiências. Sua concepção de função alfa evoca a função mental de transformar as impressões sensoriais brutas, denominadas elementos beta, em elementos alfa. A ideia de elementos beta também aponta para o irrepresentável, pois essas experiências sensoriais brutas e não processadas são incapazes de vincular-se umas às outras e, portanto, tornam-se impróprias para o pensar, o sonhar, ou mesmo para guardar como lembrança (Ogden, 2006). É a partir da transformação operada pela função alfa que essas experiências podem vincular-se e ser usadas para sonhar e pensar.

A função de rêverie (Bion, 1962/1988b) torna-se primordial para o trabalho com os elementos beta. Esse modelo de interação não verbal, característico da relação mãe-bebê, põe o analista no lugar daquele que exerce a função de acolher e transformar as experiências não digeridas de seus pacientes, num trabalho muitas vezes para além das palavras.

Os autores citados se propuseram a pensar a clínica dos pacientes-limite, o campo dos pacientes psicossomáticos, borderline, da angústia do vazio e das dificuldades de simbolização. Nesses casos, o analista é convocado a trabalhar para preencher o vazio, suprimindo o vazio imaginativo do paciente e a ausência simbólica da elaboração psíquica que este foi incapaz de realizar. Eles ressaltam como o analista é, de alguma forma, levado a desenhar imagens que correspondam à vida mental do paciente, ajustando suas possibilidades simbólicas às do paciente.

Na construção de uma história analítica, buscamos desenvolver, dentro da relação, um aparato psíquico capaz de pensar e transformar as experiências emocionais vividas pelos dois membros do par e o que introduz a consideração da disponibilidade analítica para suportar as rupturas do enquadre clássico, utilizando-se de sua capacidade de sonhar.

É necessário conceber a análise como um campo de construção de um objeto continente, que possibilite oferecer a experiência de reconhecimento e de esperança que não pôde ser encontrada na relação com os objetos iniciais.

Com estes pacientes, é necessário rever o conceito de interpretação para além do tornar consciente o inconsciente, abandonar o lugar ascético do analista decifrador de enigmas e encontrar novas formas de intervenção para poder alcançar a experiência em curso.(Souza,2016) Do ponto de vista da experiência como analista, torna-se evidente que não se trata de observar e interpretar o que se passa; é necessário viver e sobreviver ao intenso campo emocional que se forma, acolhendo-o com nossa capacidade de rêverie e ajudando nesse processo de sonhar os sonhos não sonhados.

Bibliografia

Azevedo, A. M. A. (2009). Por que Green? Psicanálise: Revista da SBPdePA, 11(2), 233-244.

Barros, I.G. (2013) Os primórdios da estruturação psíquica como se apresentam na clínica. Revista de Psicanálise de Ribeirão Preto- Bergasse 19; vol. IV nº 1

Bick, E. (1991). A experiência da pele em relações de objeto arcaicas. In E. B. Spillius (Ed.), Melanie Klein Hoje (B. H. Mandelbaum, Trad., pp. 194-198). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1967)

Bion, W. R. (1988a). Ataques ao elo de ligação. In W. R. Bion, Estudos psicanalíticos revisados (W. M. de M. Dantas, Trad., pp. 87-100). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1959)

Bion, W. R. (1988b). Uma teoria sobre o processo de pensar. In W. R. Bion, Estudos psicanalíticos revisados (W. M. de M. Dantas, Trad., pp. 101-109). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1962)

Botella, C. & Botella, S. (2002). Irrepresentável: mais além da representação (M. E. Schneider, P. Ramos & V. Dresch, Trads.). Porto Alegre: Criação Humana; Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul.

Ferro, A. (1998). Na sala de análise: emoções, relatos e transformações (M. Justum, Trad.). Rio de Janeiro: Imago.

Green, A. (2003). A crise do entendimento psicanalítico. In A. Green (Org.), Psicanálise contemporânea: Revista Francesa de Psicanálise, número especial, 2001 (A. Cabral et al., Trads., pp. 477-491). Rio de Janeiro: Imago; São Paulo: SBPSP.

Green, A. (2008). Orientações para uma psicanálise contemporânea (A. M. R. Rivarola et al., Trads.). Rio de Janeiro: Imago; São Paulo: SBPSP.

Green, A. (2010). O trabalho do negativo (F. Murad, Trad.). Porto Alegre: Artmed. (Trabalho original publicado em 1993)

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Klein, M. (1996). O luto e suas relações com os estados maníaco-depressivos. In M. Klein, Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945) (A. Cardoso, Trad., pp. 385-412). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1940)

Marucco, N. (2002). De ayer a hoy, de nosotros a los pioneros: qué escuchamos y cómo intervenimos. Trabalho apresentado na Associação Psicanalítica Argentina.

Marucco, N. (2007). Entre a recordação e o destino: a repetição. Revista Brasileira de Psicanálise, 41(1), 121-136.

Ogden, T. (2006). Esta arte da psicanálise: sonhando sonhos não sonhados e choros interrompidos. In Livro Anual de Psicanálise (Vol. 20, pp. 173-189). São Paulo: Escuta.

Roussillon, R. (2005). Paradoxos e situações limites da psicanálise (P. Neves, Trad.). São Leopoldo: Unisinos. (Trabalho original publicado em 1991)

Souza, A.L.S. (2016). Construindo formas de comunicação: revendo o conceito de interpretação na clínica do não representado.  Revista Brasileira de Psicanálise, 50(3), 60-75.

Tanis, B. (2017)- Psicanálise e suas clínicas- Plenária Simpósio Bienal- O mesmo e o outro in http://pdf.blucher.com.br.s3-sa-east-1.amazonaws.com/socialsciencesproceedings/isbsbpsp/28.pdf

 

Audrey Setton Lopes de Souza é psicanalista, Membro efetivo da SBPSP; Professora Doutora do IPUSP- SP e Professora do Departamento de psicanálise da criança DO sedes. asetton@uol.com.br

 

 

Uma crônica com veias psicanalíticas. Se não houver lamparina, escuridão. Se houver lamparina, o romance (compreensões sobre a vida subjetiva).

* Carla Oléa

A pequena Ana que completava naquele dia 6 anos chegara da escola.

A mãe à mesa do almoço aguardava os filhos para compartilharem a refeição.

A menina entrou pela porta e avistou a mãe, na mornidão do meio-dia, mergulhando vagarosamente a concha na tigela de feijão fumegante e caseiro.

A pequena trazia o olhar perdido e apressado – aquele que aguarda ser resgatado.

Caminhou por cima de passos firmes até a mãe e, impaciente, entregou-lhe um cartão.

A mãe tomou-o nas mãos e logo reconheceu que se tratava de um presente oferecido pela escola, no qual os colegas haviam escrito mensagens de aniversário à pequena menina.

Ana – entre aflita e envergonhada – tentava adentrar a bruma que se formara e se assegurar no olhar da mãe.

Lívida e aspirada num vácuo, onde não mora pensamento, a mãe deparou-se com uma imagem surpreendente.

A menina havia riscado o cartão à tinta de piche.

Cobriu cada mensagem com a aspereza de quem estava acompanhada pelos ciclopes.

Um detalhe chamou a atenção – o nome de uma das crianças que era o mesmo da mãe, havia sido preservado.

A mãe hesitante perguntou à Ana:

– Por que você fez isso?

A pequena, ainda analfabeta da linguagem íntima e subjetiva, respondeu o que lhe foi possível:

– Porque sim!

– Mas você riscou o cartão na frente dos seus colegas? – questionou a mãe.

– Sim, eu risquei.

A mãe, zelosa timoneira, convicta de sua função em conduzir a nau para um bom destino seguiu apreensiva e se aviou em corrigir a filha.

– Ana, você não pode agir assim. Você precisa ser grata. Precisa aprender a receber.

Fez-se noite.

A mãe repousou a cabeça no travesseiro que, naquela comprida noite, ainda era pedra.

Perguntou-se o que teria ocorrido? O que dera errado? Não estaria conseguindo levar sua pequena menina à construção de uma capacidade para relacionar-se?

Fizeram-se muitas noites.

Ao lado da cama, no criado mudo que herdou da avó, morava uma lamparina.

Havia luz.

À noite, enquanto a mãe dormia entre pedras, a lamparina acendia sua luz tênue, permanecia acesa durante a longa noite e se apagava antes do sol despertar.

A mãe não lhe suspeitava a presença, porém, certo dia, ao abrir os olhos um pensamento a acolheu.

Ela, então, compreendeu algo da pequena Ana.

Ela disse à filha:

– Sabe aquele dia em que era seu aniversário e que você recebeu um lindo cartão das crianças da sua sala e, furiosa, riscou as mensagens e o entregou a mim?

Então, eu lhe expliquei que aquela não era uma maneira afetuosa de retribuir. Disse-lhe que foi uma atitude descuidada. Mas eu entendi algo mais profundo no meu coração e quero dizer-te.

– Você está sentindo uma força aí dentro, uma vontade de fazer amigos, uma vontade de encantar-se com outras pessoas que não só sua mamãe.

– E isso dá medo.

– Isso dá culpa.

– Você teme que isso te separe de mim.

– Teme me fazer mal.

– Mas eu quero te dizer algo.

– Você pode gostar de outras pessoas. E pode querer estar perto delas. Pode querer viver momentos bons e que não sejam comigo.

– E isso é bom. Isso é bonito em você .

– E nós continuaremos assim de mãos dadas.

– No coração da mamãe também vivem muitos amores. Mas há nele um lugar que é só seu.

A pequena menina compreendeu.

Ela se juntou – como acontece ao pequeno pinguim personagem da autora e ilustradora alemã Jutta Bauer no imperdível livro ilustrado “Mamãe zangada”.

Alumiou-se a escuridão.

A escuridão que é grávida de certezas, verdades incontestes, entendimentos lógicos, mas que mantém a vivência órfã de compreensão emocional.

Conheci essa mãe. Ela trazia consigo a lamparina psicanalítica.

Capaz de suportar a escassez de respostas, permanecer envolta em dúvidas, deitar-se sobre pedra e mergulhar na escuridão. Ela era socorrida por essa função dentro da mente capaz de aclarar as profundezas e trazer de lá o que faz sentido.

Se um artista houvesse se sentado à mesa de almoço – e essa cena o incomodasse, o convocasse, o arremessasse para a arte –, ele poderia tê-la registrado em imagens, em música, em poesia, em literatura, em escultura.

Sua lamparina alumbraria a vivência e ele (a) reproduziria na arte: a pequena menina angustiada e afogada pelo conflitivo desejo de querer além da mãe.

Ilustrações do livro “Mamãe zangada”, de Jutta Bauer

Dizia Winnicott sobre as descobertas psicanalíticas:

“Naturalmente, se o que digo tem em si verdade, esta já terá sido tratada pelos poetas do mundo, mas os clarões de insight, que surgem na poesia, não podem absolver-nos de proceder à penosa tarefa de nos afastar passo a passo da ignorância, em direção ao nosso objetivo”. (in o Medo do Colapso – 1963)

O fato substancial é que essa experiência poderia ter se perdido na escuridão da razão. Desafortunadamente, nesse caso, o entendimento estaria a quilômetros daquilo que de fato pulsava no âmago da experiência. Ao invés de ser um ato recepcionado nas searas do acolhimento, teria, entrementes, sido transformado num acontecimento insólito e barulhento. Nada mais.

Ao abeiramento da lamparina, não obstante, constituiu-se o romance.

Carla Oléa é psicóloga e escritora. Gerencia um blog literário que contém coletânea própria de ensaios, crônicas e poemas. É mestre em psicologia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp – Campus Assis – SP) e membro filiado à Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

Bibliografia:

  1. O medo do colapso in Explorações Psicanalíticas. Donald Winnicott. Artes Médicas.1994
  2. Mamãe zangada. Jutta Bauer. Ed. Cosace Naify. 2008.

Imagens:

  1. La Petite Châtelaine 1892-1896. Camille Claudel. Musée Joseph-Denais.

A escultura é referente a uma fase do trabalho de Claudel em que se evidencia a criança surpreendida pelo desconhecido.

  1. Montagem com ilustrações do livro Mamãe zangada, de Jutta Bauer.