Política

Narcisismo terciário

*Marilsa Taffarel

No dia seguinte à manifestação “Ele não” era mais nítido o sentimento de alegria… contentamento… satisfação… realização de algo significativo… das pessoas próximas que continuavam a enviar mensagens, vídeos, fotos, relatos.

Após manifestações acontece isso, mas nessa, decididamente, aconteceu mais, aconteceu maior, aconteceu muito.

Uma placa indicativa nomeava o epicentro do acontecimento: Potato Square. Vem a calhar a indicação em inglês, língua ainda internacional, pensamos. Trata-se de uma manifestação que ganhou essa dimensão e, em consequência as praças de varias capitais do mundo ocidental.
Na verdade, o epicentro era apenas nominal, porque havia vários pequenos centros em torno de um som, de alguma banda. O Largo da Batata perdeu seus contornos, ampliou seus limites. O que nos chamou a atenção foi justamente a manifestação consistir em estar ali, caminhar por ali, sentar no meio fio ou em alguma mureta. Estar entre as pessoas.

A defesa da diversidade, da multiplicidades, das singularidades estava ali estampada em gentes tão diferentes nas roupas, nos gêneros, nos adereços, embora sempre em algum lugar no rosto, nos braços, nas costas, nas testas, nas camisetas, nos lenços estivesse o “ Ele não”.

Estávamos caminhando entre as pessoas, sentindo com todos os sentidos e nos perguntando o que é uma manifestação, além de ser isso mesmo: uma manifestação?
Muitos cartazes diziam: “não é uma manifestação política, é moral”, pelo direito de ser diverso. Diríamos: uma manifestação desconstrutiva de enunciados totalizantes, hierarquizantes e fundados no desejo de uniformização do humano.

No entanto, fica a pergunta: afinal o que é uma manifestação? O fato é que não há uma manifestação. Há manifestações. Muitas delas constituem-se como fenômenos de massa que Freud descreveu. Massas mesmerizadas por líderes que encarnam figuras onipotentes, oniscientes. Líderes que convocam o desejo de obediência. Assujeitados, acríticos e passionalizados, os liderados abdicam de sua condição de sujeitos na entrega ao líder que os conduzirá ao poder e extermínio dos opositores.

Nessa manifestação “desconstrutiva”, tratava-se do prazer de estar entre pessoas as mais diversas de seu gênero, de sua classe, de seu nível, de sua geração. Estar além de todos esses atributos.

Pensei, para caracterizá-la e diferenciá-la em um conceito que reencontrei há algum tempo: narcisismo terciário. Conceito formulado por Alcira Marian Alizade, psicanalista argentina, falecida em 2012 , cofundadora da COWAP, autora de diversos livros sobre seu pensamento psicanalítico e também de livros de ficção.

Como ela pensa esse, que ela chama de “novo ato psíquico”, sem medo de usar as mesmas palavras que Freud utiliza para designar o narcisismo que se instala unificando as pulsões autoeróticas?

O narcisismo terciário dependeria de haver um investimento de amor que se inscreveria no bebê. Tal moção seria o suporte de investimentos que, à diferença dos narcisismos primário e secundário, não retornam ao ego. Eles não estariam ligados à castração, ao Édipo. Seriam pré- edípicos ou para edípicos e assim se manteriam.

Trata-se para ela da condição de possibilidade do relacionamento com o alheio, o distante, o social. Com objetos que estão além dos limites e dos interesses do nosso entorno social, estético, financeiro imediato. A vivência e a experiência da contingência e da transitoriedade da vida fariam emergir com mais força as possibilidades transformadoras, a conquista de espaços da pulsão de vida. Alicira pensa também a clínica como conquista desses espaços.
Vemos que, de forma ousada, essa autora – conhecedora do pensamento freudiano, kleiniano e do pensamento psicanalítico francês contemporâneo – prioriza, nessa conceituação, a pulsão de vida, o corpo – o corpo impõe sua presença viva e mortal – e os investimentos não-edípicos.

O narcisismo terciário pode ajudar a compreender como descobrimos a condição humana mais do que atravessando barreiras estéticas, intelectuais, diferenças de gênero. E sim recuperando investimentos em sistemas não centrados, não hierárquicos. Investimentos nas coisas humanas, em todos os seres que constituem nosso pequeno e frágil planeta.

 

Imagem: AFP para a Revista Época.

 

Marilsa Taffarel é membro efetivo e professora da SBPSP, mestre em filosofia da psicanálise pela PUC-SP, doutora pelo núcleo de psicanálise da PUC-SP e co-autora do livro “Isaias Melsohn, a psicanálise e a vida”.

Manifesto da Diretoria da SBPSP pela defesa da democracia e contra o autoritarismo

A Diretoria da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo acredita ser importante e necessário se manifestar frente aos últimos acontecimentos e ao clima que se estabeleceu em nosso país.

A psicanálise sempre teve como valor máximo a coragem de enfrentar a verdade, defender a liberdade do indivíduo, o respeito ao grupo, e a tolerância em face às diferenças. Esta disposição é base de nosso trabalho clínico e do conhecimento que adquirimos, ao longo dos mais de cem anos de nossa história.

Estes valores são imprescindíveis para construção de uma sociedade democrática e da nossa prática; repudiamos toda e qualquer ameaça a estes princípios.

Assim, vimos reforçar nossa preocupação e necessidade de unirmos forças contra o perigo de perdermos nossos valores de base e, assim, nossas condições de exercício da cidadania e da psicanálise.

A história nos serve como alerta; saibamos levá-la em conta!

Diretoria
SBPSP

O “pensamento” fascista e a função po-ética da psicanálise

*Ricardo Trapé Trinca

Isso que escutamos é o estalar de nosso “Ovo da Serpente”[1]? Ah, mas que estranho fascínio é esse exercido sobre nós, que perturba com um choque inebriante! E, enquanto esperamos nascer um monstro horrível, o que vemos é um filhote chamado propaganda, uma sereia que cativa e engrandece… Ah, mas como nos atrai essa sedutora vontade de poder!

Para nós, psicanalistas interessados nas interfaces entre a sociedade e a clínica contemporânea, os tempos atuais têm sido extremamente inquietantes e perturbadores. Escutamos de nossos pacientes com frequência cada vez maior a ideia de que a vida pública e privada deveria ser organizada com autoritarismo e rigidez. De que é preciso se aliar às pessoas de “bem”, contra a corrupção, etc. O que nos faz apreender um espírito justiceiro, segregador e antidemocrático, que cresceu e se desenvolveu entre nós. Este texto é um pedido para que observemos tanto em nós mesmos como em nossos pacientes tal presença, digamos, funesta e dissociada.

Vamos tentar descrevê-la. Podemos observar inicialmente o predomínio de um intenso sentimento de frustração, no qual o orgulho pessoal parece ter sido ferido ou roubado. Trata-se de uma frustração pessoal, mas também social. Essa frustração associa-se à ideia de que algo ou alguém destruiu a esperança de se ter uma vida melhor. Uma vida em que não só haveria menor necessidade de negociação dos nossos impulsos com o mundo, mas no qual nosso autoritarismo pessoal encontraria finalmente a esperança de ser autorizado, como um direito. Esta maneira de pensar, que chamamos de fascista, surge como uma conclamação à recuperação, por meio da força, deste orgulho roubado por alguém que, por sua vez, se tornou um usurpador.

Com este conclame, o fascismo impõe-se com uma linguagem traumatizante, cuja presença torna-se ameaçadora. Ele cria repentinamente um impacto imprevisível. Enquanto aquele que escuta tal discurso tende a sofrer o golpe de certas palavras e a se demorar sobre elas, tentando questioná-las, o discurso já foi adiante, como uma metralhadora de disparos contínuos. Contra esse discurso não há conversa; não existe um diálogo ou ponderações a serem feitas. Ou se aceita ou não se aceita. Caso seja aceito, o discurso transforma-se em algo que serve para ser retransmitido. Caso não se aceite, uma reação violenta contra o discurso é frequente; e, assim, ele é reproduzido na forma de seu avesso, propagando o ódio e uma organização maniqueísta da realidade. O poder que dele surge, cooptando seguidores e divergentes numa empreitada beligerante, advém de sua sede por obtenção de justiça, ou seja, de que o autovalor ou a posição perdida deve ser recuperada a qualquer custo; comportamento que encontra eco na formulação winnicottiana de tendência antissocial. É um discurso que visa ao poder perdido e à subjugação do perdedor.

Esse discurso, como a correnteza de um rio, corre numa só direção. Diferentemente de outros discursos humanos, polifônicos, nele há uma simplificação de sentidos possíveis. Portanto, a fala humana se empobrece, como numa fala de propaganda. E, como um autofalante, o discurso fascista não tem nenhuma receptividade, é uma propagação sem audição, cujo objetivo é realizar um reclame e conclamar outros iguais para realizar uma espécie de polarização narcísica, na qual se tende a girar em torno de ideias desprovidas de amizade e negociação. Há enorme fragilidade no conteúdo que é propagado, porque ele não é dialógico, reflexivo, e sim uma enorme restrição do escopo do pensamento[2] e da história. Além disso – e talvez um dos seus principais aspectos – a forma do dizer, sua estética, tende a ser tão ou mais importante do que seu conteúdo. Como não se trata de uma experiência do pensar emocional que se pode ter com alguém, ele assume a forma de um discurso e o seu valor parece repousar justamente nisso, em uma fala que desconsidera a outra mente, e que se faz de cima para baixo, composta por autoritarismo, agressividade e empoderamento. O conteúdo, cujo valor de verdade inexiste, fica em segundo plano, já que o principal é a sua estética. Assim, o valor de verdade de uma afirmação é substituído pelo valor de seu espetáculo impactante, em uma espécie de estética do choque, mas destituída do poder emancipatório que essa estética trouxe para a modernidade, especialmente nas artes (Parente, 2018). Quase não precisamos dizer quanto esse discurso é sedutor; a história que nos diga [3]!

Nessa maneira de constituir um “pensamento”, ou uma fala desprovida de apreço com a verdade, o conteúdo que se propaga é autoengendrado. Ela não se torna apenas uma falsificação da realidade, mas uma nova realidade, cuja existência se baseia no número de apreciações ou visualizações que recebeu. Não é necessário que encontre correspondência no real. Qualquer coisa pode ser dita sem ser refutada, pois o importante é a sua força de caráter traumatizante. Como a verdade, assim, não tem referência na realidade, ou na experiência emocional, mas na repetição do “meme”, a verdade transmitida passa a ser a do choque, que é sentido como “estar se falando a verdade”. E, paradoxalmente, nesse discurso há um reclame contra a mentira, de modo que sua estética passa a ser considerada, por si só, a expressão de algo verdadeiro.

Mas esse discurso não estaria, por sua vez, tamponando sentimentos de desamparo? Acreditamos, no entanto, que tais sentimentos passam a ser atribuídos àqueles que sentem o seu impacto, em movimentos de identificação projetiva. E assim, essa maneira de não pensar acaba por se tornar propaganda de preconceitos (discriminação social, étnica, racial, de gênero, etc), de alguém “forte” para alguém “fraco”.  Essa é uma das razões pelas quais nessa forma de discurso não se permitem dúvidas, incertezas e insegurança. Elas são combatidas radicalmente, pois a dúvida abriria a percepção para a apreensão dos sentimentos de desamparo dos quais se pretende evadir.

Não podemos esquecer que estamos todos em igualdade de condições para nos tornarmos expressão de uma tendência humana como esta, que avista nossa maior desumanidade e barbárie. Precisamos constantemente pensar como, a cada dia, cada um de nós não se tornará um fascista[4]. Como fazer para que o nosso discurso não seja, ele mesmo, uma ferramenta de poder, cuja intenção seria impedir o encontro humano no qual o pensamento se desenvolva, envolvido pelo desconhecido das coisas. O encontro com o rosto do outro será sempre o encontro com o mistério. Por isso, é fundamental que possamos, a cada vez, reconhecer a presença de nosso próprio fascismo, podendo, por meio desse reconhecimento, dizer não a isso a cada vez, a cada instante de seu acontecimento. O problema, portanto, passa a não ser mais se somos ou não fascistas, mas quando somos, e reconhecer o momento de nosso enlouquecimento [5].

Como sabemos muito pouco sobre a nossa própria vida, estamos sempre rodeados por impotência, medos e sentimentos de desamparo. E, em face do desamparo, criamos ilusões alucinadas da realidade, com a intenção de nos protegermos dela. Se o desamparo, por um lado, é uma condição fundante do psiquismo humano, por outro, seu aparecimento pode revelar a ocorrência de fraturas éticas (Safra, 2004). Estas fraturas estão relacionadas a uma ruptura com a confiança e com a espera pela mente de um outro, condição indispensável – de amparo – para a ampliação das possibilidades psíquicas em face do desamparo.  A aliança com o pensar fascista é a expressão da desesperança em relação ao outro, como alteridade, mas ocorre quando, pela impotência, busca-se a onipotência. Trata-se, portanto, de um falso amparo narcísico, que pode ser buscado, como comportamento político, em qualquer ideologia.

Sabemos que a atividade psicanalítica sustenta as incertezas do não saber, para ser surpreendido com a aparição do pensamento numa relação dialógica. Na situação clínica, a função po-ética consiste na surpreendente criação ou revelação da alteridade. Uma alteridade concebida como uma nova formação de metáforas e de histórias possíveis para um sofrimento[6]. Trata-se de uma atividade que devolve o valor da verdade ao seu conteúdo correspondente e restabelece o valor estético da pesquisa e da incerteza em relação ao saber, tornando a ação política oposta ao discurso de poder. Isso porque as metáforas e histórias são sempre incapazes de expressar todo o sofrimento. Ou seja, trata-se de uma ação de des-empoderamento, que restabelece, assim, a força da verdade. A função po-ética tem implícita uma ética do cuidado e da atenção aos sofrimentos humanos, que são muitas vezes impensáveis, ainda mais quando associados à nossa condição de desamparo.

Num mundo em que o discurso fascista se propaga como rastilho de pólvora, com um encantamento pelo choque, com ares de espetáculo, a tarefa psicanalítica, como resistência ao fogo, é continuar a mostrar seus princípios po-éticos. Pois o alimento que nossa mente precisa é aquele do encontro com a alteridade, que nos nutre com o sentimento de verdade, mesmo que seja provisória e incompleta.

 

[1] Faço alusão ao filme de Ingmar Bergman “O Ovo da Serpente”, Das Schlangenei(1977), que tratado período de incubação do nacional-socialismo na Alemanha.

[2]George Orwell em seu livro 1984, descreve o controle sobre a linguagem como um dos modos de se restringir o escopo do pensamento. Orwell descreve a Novilíngua, uma língua cujo objetivo seria tornar impossível designar certas coisas, de modo que aquilo tenderia a se tornar inexistente pela impossibilidade de ser designada. Ou seja, ideias indesejáveis a um sistema fascista não teriam como surgir de dentro dele.

[3]Brun (2018): “Por que o fascismo continua sendo tão atraente? Em Israel se apresenta o fascismo como um monstro terrível. Creio que é um erro, porque como todo mal tem uma cara amável e sedutora. (…) Como é possível que milhões de alemães tenham apoiado Hitler? Deixaram-se levar porque os fazia se sentir especiais, importantes, belos. Por isso é tão atraente”. No filme de Peter Cohen, Arquitetura da Destruição (1992), logo no seu início, o narrador diz: ”Dizem que numa aldeia alemã dos anos trinta, o povo tinha um conceito próprio do que era o nacional-socialismo. Eles achavam que o nacional-socialismo tinha uma ligação com a pureza (…) o sonho de criar, através da pureza, um mundo mais harmonioso”.

[4] Em 1977, Foucault escreve o prefácio do Anti-Édipo, de Deleuze e Guattari, formulando que há um inimigo maior a ser combatido, o fascismo. “Não somente o fascismo histórico de Hitler e Mussolini – que soube tão bem mobilizar e utilizar o desejo das massas, mas também o fascismo que está em todos nós, que ronda nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz gostar de poder, desejar essa coisa mesma que nos domina e explora”.

[5] Na forma de transformações em alucinose (Bion, 1965/2004).

[6] Pensamos em Hanna Arendt: “Toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história”.

Imagem: Retirada do filme de Ingmar Bergman, “O Ovo da Serpente”.

Ricardo Trapé Trinca é psicanalista, doutor em Psicologia Clínica pela USP, mestre em Filosofia pela PUC-SP e membro filiado ao Instituto “Durval Marcondes” da SBPSP. 

A política no divã

Por Bernardo Tanis*

Embora a psicanálise seja um poderoso instrumento clínico e contribua para a investigação das motivações humanas, a gênese do processo civilizatório, a instituição das normas e o reconhecimento das poderosas forças que levam à transgressão e ao esgarçamento do pacto social encontra limites face à complexidade dos fenômenos globais (políticos, econômicos, sócias…), que só podem ser abordados com base em um pensamento complexo, como nos diz Edgar Morin. No entanto pode auxiliar na compreensão de por que, em certos contextos, assistimos hoje ao fracasso da virtude e ao apagamento da distinção entre o público e o privado; pode facilitar o entendimento dos motivos pelos quais a razão é colocada a serviço de interesses pessoais e corporativos e a fé é utilizada para justificar as maiores violências contra o indivíduo identificado como diferente.

O comportamento ético que era para Aristóteles o comando das paixões por meio da razão, com o estabelecimento de normas e regras para a vontade, de modo que esta pudesse deliberar corretamente, parece apagado nos nossos dias. O que deveria ser a defesa do cidadão na esfera pública (virtude) e o combate ao crime, é corrompido pela lógica desenfreada de interesses particulares e de corporações; sem ser, de modo algum, prerrogativa exclusiva de um determinado grupo político. O crime é cometido sob o domínio da hybris, uma arrogância que se considera inatacável, invulnerável, blindada.

No contexto global e também no nosso país não é menos gritante o aumento das diferenças entre os mais ricos e os mais pobres. Assistimos também ao ressurgimento de movimentos discriminatórios, xenófobos, contrários à aceitação de migrações; concomitantemente, proliferam atos terroristas que, além de acabar com a vida de centenas de indivíduos, criam um clima de insegurança, reforçando o desenvolvimento de Estados policiais, do estado de exceção (Agamben). Nesse cenário, o outro, o estrangeiro, o diferente, é objeto de tamanha hostilidade e transformado num ser tão estranho e odiado que sua exclusão/aniquilamento parece justificado.

A falta de sensibilidade ao sofrimento do outro, a vazão da agressão através do ato que ultrapassa o limite da lei dos homens, é metonímia do abuso, do estupro, dos maus-tratos, da fome, do desemprego, do domínio sádico do outro, da pedofilia, da humilhação perversa, do racismo e da discriminação.

Em “O mal-estar na civilização” Freud fala-nos da intensidade das pulsões e da necessária renúncia à sua satisfação plena na cultura, o preço que todos pagamos pela vida em sociedade. Fala também da agressividade humana e do modo como ela se entrelaça com o narcisismo. Propõe a ideia de narcisismo das pequenas diferenças que alude à forma como os integrantes de uma comunidade podem se unir mascarando ou disfarçando inconscientemente seus conflitos e projetando no outro, no vizinho, sua agressividade. Amamos nossos irmãos e repudiamos os outros a quem tratamos com intolerância. A diferença encontra os mais variados discursos para ser transformada em ameaça. Essa relação imanente entre o indivíduo e a cultura é um operador fundamental do pensamento freudiano para a construção dos modelos de pensamento sobre a subjetividade humana. Freud dedica uma vasta e profunda reflexão aos vínculos entre o indivíduo e o poder, o indivíduo e a massa, assim como entre o narcisismo/sexualidade e a formação de nossos ideais, a moral e a ética.

Se retornamos ao termo corrupção, na sua etimologia grega alude a estragar, decompor, perverter, depravar, e guarda sua vinculação com o prefixo co, que alude à necessidade de dois participantes para que esse ato possa acontecer. Mas o que se esgarça, o que se decompõe? A ideia de justiça, a lei, o homem, a representação simbólica de um laço social que se sustenta num pacto simbólico, mas que se degrada e se transforma numa relação de compadrio. O poder se corrompe.

Classicamente a noção de poder remetia ao domínio exercido pelo Estado ou pelo soberano sobre seus súditos, associado ao autoritarismo, à violência praticada contra o outro, à censura. O poder visa exercer um domínio. Para nós, psicanalistas, a ideia de domínio é polissêmica e fundamental na compreensão das forças que movimentam o psiquismo. Comporta dois grandes grupos de sentidos: (a) um voltado para si, para o próprio aparelho psíquico: domínio da força pulsional, dos estímulos que nos invadem – domínio através do recurso ao processo transformativo do sonho, à sublimação, à representação, ao símbolo, à criatividade; (b) outro voltado para o exterior: domínio a partir da descarga e do livre exercício da sexualidade na busca do prazer, mas também exercício de domínio sobre o outro mediante diferentes formas de controle, de sedução, do ato e do sadismo.

Ambos fazem parte do potencial humano e operam em permanente tensão. Na atualidade as formas de poder e de domínio parecem mais difusas, penetram e se infiltram no cotidiano, menos identificado com uma instância, no entanto mais onipresente como meio de controle da subjetividade e das ações dos indivíduos. Até que ponto determinadas formas de poder não chegaram a mutilar subjetividades de modo que o ato emerja como única resposta possível para certos indivíduos ou grupos? Alguns analistas já se debruçaram com muita propriedade sobre esses temas.

Sintetizando os extremos: a ideia do cidadão acima de qualquer suspeita apregoa a noção narcísica do indivíduo que não estaria sujeito aos ditames do coletivo e estaria acima da lei, a corrupção revelando de modo contundente os intrincados jogos de forças entre o Estado, o poder e as paixões humanas; por outro lado, a condição de submissão, opressão e impotência na qual indivíduos, grupos ou nações se encontram conduz sujeitos movidos pela falta de alternativa à utilização consciente ou inconsciente do recurso ao ato muitas vezes devastador.

Pensar e agir eticamente ultrapassa a esfera do eu para nos lançar ao encontro do outro. Nesse contexto, a política cobra seu sentido original à serviço da comunidade, da vida em sociedade e não na sua redutora e corrupta perspectiva do compadrio e obtenção de privilégios. Talvez a psicanálise possa contribuir para reconhecer e desconstruir, na medida do possível, as formas de poder internas e sociais que alienam o cidadão e a subjetividade.

Novos desafios nos interpelam se nos deixamos atingir pela diferença, pela alteridade e o respeito à lei e ao laço social que nos constituem. O imperativo ético da psicanálise, através do reconhecimento da estranheza do desejo inconsciente em nós, nos convoca a reconhecer a estrangeiridade do outro e suas singulares demandas. Sua irremediável estranheza nos estimula à invenção de uma prática e de um discurso coerentes que nos possibilitem conviver melhor com nós mesmos e com o diferente. Seremos capazes?

*Bernardo Tanis é psicanalista, membro efetivo da SBPSP e doutor em Psicologia Clínica.

Como funciona a mente de um corrupto

Coordenadora da Comissão de Ética da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, a psicanalista Cibele Maria Moraes di Battista Brandão concedeu uma entrevista de fôlego ao jornal mineiro “Diário de Caratinga”, que propôs a Cibele o desafio de traçar o perfil de quem pratica atos de corrupção, tema que continua como pauta prioritária na imprensa brasileira.

Leia a seguir a íntegra da entrevista.

Do ponto de vista da psicanálise, como pode ser interpretada a corrupção?

A corrupção pode ser vista a princípio como um tipo de loucura, de comportamento desviante, antissocial e perigoso. Nesse sentido, o sujeito privilegia só a si, até mesmo em situações em que ele foi escolhido ou eleito para trabalhar pelo bem comum. A corrupção se define pela perversão – ao invés de procurar o bem comum, ele busca tão somente seu enriquecimento e interesses individuais. A corrupção de objetivos não é só um fenômeno social e nem só um fenômeno individual. Podemos pensar no dito popular que diz “a ocasião faz o ladrão”. Precisamos da ocasião e precisamos do ladrão em potencial. Ladrão de que? Ladrão de uma falsa segurança.

O corrupto age motivado por um fator emocional ou ele é extremamente calculista/racional?

As duas coisas. Ele age motivado por um fator emocional que o faz ser calculista. Ele quer alcançar poder, dinheiro, prestígio. Como o “drogadito” que necessita da droga, ele não pensa. Age só em busca de seu objetivo. Ele quer o objeto que imagina lhe trará a solução de todas as suas aspirações narcísicas. Ele apenas quer alcançar seu objeto de desejo por idealizá-lo. A droga trará a solução mágica de tudo, assim como para o corrupto o poder,o dinheiro, o prestígio, o salvarão de todos as dores e inseguranças que o viver traz para qualquer ser humano. Ele não prioriza e nem valoriza o aprender pensar, construir recursos, viver uma vida ética. Esses valores tornam-se para ele pueris e ingênuos. A palavra ética deriva do grego “éthiké”, derivada por sua vez de ethos que significa caráter, hábito, modo de vida. A eticidade constitui-se da formação do caráter de cada indivíduo.

O corrupto tem a consciência de que está cometendo um ato que é amplamente reprovado pela sociedade?

A Psicanálise em sua prática procura compreensão de cada indivíduo como sendo único e exclusivo. Há pessoas que podem ter consciência e outras que absolutamente vivem como sendo natural participar de um esquema vigente. Na base do sempre foi assim e assim será… Se o corrupto vem de um meio que tenha regras sociais que advogam pela ideia da vantagem a consciência fica alterada. Ele passa a viver como sendo natural receber vantagens, sempre. É diferente o processo de conscientização de uma criança cujos pais desde cedo ensinam que o que pertence ao outro, ao coleguinha, é do outro… Os traços anti-sociais de um indivíduo, tais como não entender que seus atos são antiéticos e reprováveis, são resultantes de um déficit na estruturação do superego, instância da mente que tem um papel assimilável ao de um juiz ou censor interno, que tem consciência moral na auto observação, na formação de ideias e princípios. Essa instância constitui-se pela interiorização das exigências e interdições parentais. Esse déficit faz com que a consciência moral e ética não se instalem adequadamente. Não há o medo da autoridade externa, que é entendida como inexistente ou permeável conforme o seu desejo.

As pequenas “trapaças” diárias que usamos como comprar produto pirata ou apresentar um atestado falso podem ser consideradas como atos de corrupção?

A corrupção deve ser considerada não apenas nas investigações que vemos desfilar toda noite na nossa sala de TV, justamente no momento de descanso após exaustivo o dia de trabalho, quando nos sentamos para relaxar. A corrupção não está só nos macro acontecimentos, mas também nos pequenos delitos do cidadão comum, que se desvia da verdade para obter às vezes inúteis vantagens. Precisamos pensar que nessas pequenas situações, se bem conduzidas, trazem sementes de prevenção. É prevenção quando ensinamos um filho a não pagar “propinas” para favorecer trâmites burocráticos. Tendemos a pensar que é corrupto apenas quem recebe a propina e nos esquecemos de quem dá a propina. Destruímos nesse momento a possibilidade de se ter o contato com a verdade, que pode ser difícil, mas traz o germe do fortalecimento quando é enfrentada.

Se compararmos o corrupto que atua individualmente àquele que atua em conjunto (por exemplo, em uma quadrilha) podemos considerar que o comportamento de ambos seja o mesmo?

Em 1930, em seu importante trabalho o Mal-estar na Civilização, Sigmund Freud descrevia três motivos para o homem ter dificuldade no convívio social e também para a impossibilidade de ser feliz:

1 – Pela fraqueza humana frente às forças da natureza impossíveis de serem dominadas.

2 – Pela fragilidade de nossa constituição física que nos leva a adoecer, envelhecer e morrer.

3 – E por fim, pelo sofrimento advindo da convivência com os outros seres humanos.

Nessa constelação proposta, o ser humano está fadado a conviver com o medo, a insatisfação e a insegurança. O corrupto, seja ação individual ou em conjunto, tenta fugir dessa condição. Mas foge buscando meios mágicos como o enriquecimento ilícito que na verdade o enfraquece e expõe. Em uma vida assim, não há espaço para falarmos em crescimento, transformação ou criação de recursos mentais para lidar com a vida, que não é fácil. A busca pela felicidade tem que passar por algo que não seja só o que venha do externo. Há alguns meses atrás circula no youtube uma belíssima entrevista do ator argentino Ricardo Darin a um repórter da TV espanhola. Esse repórter surpreendeu-se com a recusa de Darin a um trabalho que veio de Hollywood. Darin não quis aceitar só porque poderia ganhar uma soma considerável de dinheiro. Ele queria mais do que tudo voltar para casa e estar com a família, com sua rotina… A entrevista vale a pena ser vista.

Muitas pessoas dizem que não existe político que não seja corrupto, pois ao serem eleitos, acabam “caindo” no sistema. Do ponto de vista da psicanálise, como a senhora analisa essa afirmação?

Como dissemos, a Psicanálise em sua prática tenta aproximar-se para conhecer aquilo que é único e exclusivo para cada pessoa. A Psicanálise não generaliza ou rotula. Não descreve afirmando que o corrupto é assim…. Entende que cada pessoa tem uma estruturação própria. Dizer que não existe político correto seria uma generalização preconceituosa. Em qualquer atividade ou profissão há todo tipo de pessoa. Não estamos aqui dividindo em duas categorias: os mocinhos e os bandidos. Dentro de todo ser humano há uma gama de bondade e maldade, desenvolvimento e decadência, etc., mas muito importante é a direção que se quer dar para a própria evolução. Todas as pessoas estão sob a égide de uma dualidade instintual. Por um lado, estão imbuídas de amor e construtividade e, por outro, mesmo involuntariamente, são constituídas por ódio e destrutividade. O que determinará uma boa evolução será uma interação entre o ambiente propiciador de crescimento e, internamente, seu desejo de se aproveitar do potencial de evolução. Acrescento que um excesso de ambição e desejo de enriquecer muito pode levar o ser humano a um lugar obscuro.

O corrupto acredita que possa ser responsabilizado por seus atos ou ele age pensado na impunidade?

No começo dessa entrevista dissemos que a corrupção é uma espécie de loucura e, como tal, afasta o indivíduo da realidade. Se uma pessoa é “ousada” acima do bem e do mal, podemos dizer que sua consciência é deteriorada. Mas o que dizer de uma realidade vivida até recentemente em que havia a impunidade? E que essa realidade não era um delírio e sim uma constatação que nos fazia afirmar sempre que a cadeia seria somente para pessoas socialmente desfavorecidas.

A corrupção pode ser considerada uma doença?

Sem dúvida nenhuma. E justifico. Tudo aquilo que se afasta da realidade e aproxima do mágico e do idealizado prejudica imensamente a pessoa, que crê, assim, que desse modo estaria encontrando a realização e a felicidade. Penso também ser necessário para responder essa questão que tentássemos definir o que é uma doença do ponto de vista da mente. A psicopatologia é um termo utilizado para designar os distúrbios do psiquismo humano. Uma das causas desses distúrbios originam-se de um sofrimento intenso frente ao qual a pessoa não consegue construir recursos para lidar com a demanda da vida. Porém, não é só isso. O assunto é muito amplo. Há outras causas para os distúrbios da mente, inclusive causas de desequilíbrio bioquímico que necessitam serem medicadas. De qualquer forma, um desequilíbrio leva a uma interrupção do desenvolvimento e evolução da pessoa e essa quebra caracteriza uma doença pois prejudica o indivíduo na sua aquisição de recursos para enfrentar a vida que, a cada etapa, torna-se mais complexa. O propósito fundamental de uma relação terapêutica seria o de ajudar a pessoa que busca esse tratamento a fazer mudanças que lhe possibilitem viver sua vida de modo mais plenamente humano, e que a pessoa possa retomar seu desenvolvimento.

Cibele M. M. Di Battista Brandão é membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), membro do Núcleo de Psicanálise de Marília e Região NPMR) e docente dessas instituições. Atualmente, coordena a Comissão de Ética da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.