Modernidade

Neoconservadorismo, um sintoma do mal-estar na civilização

*Marion Minerbo
**Luciana Botter

Alguns acontecimentos recentes no Brasil e no mundo nos levam a pensar numa crescente onda de conservadorismo. Liberdades e valores conquistados por grupos sociais nas últimas décadas estão sendo questionados e ameaçam ser engolidos pela onda.

Apenas para citar exemplos rápidos: museus e exposições de arte censurados pelo público, sob alegação de incitar pedofilia ou simplesmente por exibirem nus artísticos que, de repente, se tornaram “obscenos”; a “cura gay” como retorno de uma postura homofóbica; políticos de direita e/ou conservadores em ascensão, em resposta à demanda popular; manifestações racistas no futebol; e por aí vai.

Desde Freud, o mal-estar na civilização produz fenômenos que podem ser interpretados como sintomas do sofrimento psíquico consubstancial àquela cultura. Em cada época e lugar, para que uma determinada cultura se estabeleça e se torne hegemônica, ela impõe renúncias específicas. São verdadeiras amputações psíquicas.

A primeira, denunciada por Freud nesse texto, tinha a ver com a sexualidade. Mas o raciocínio vale para qualquer parte amputada, pois ela sempre faz falta e produz sofrimento psíquico – ou mal-estar, se preferirem. Em todas as épocas e lugares, a cultura oferece soluções sintomáticas que tentam minimizar o sofrimento que ela própria produz. São os fenômenos que podemos chamar de loucuras cotidianas***.

Certas pessoas aparecem como porta-vozes paradigmáticos de um sofrimento que, na verdade, é de todos. Por isso, mesmo que calemos uma dessas vozes, aparecerão outras, pois o sintoma não é individual, mas estrutural. O neoconservadorismo é um exemplo funesto disso. Mas há muitos outros sintomas, como a deliciosa e divertida gourmetização da vida [ver no blog “Você também gosta de cozinhar?”].

Hoje, muita gente adora cozinhar e/ou assistir aos programas de televisão sobre gastronomia; até os principais jornais passaram a ter um caderno semanal sobre o tema; as cozinhas ganharam um upgrade e há panelas de grife caríssimas. Essa onda gastronômica é ou não é uma verdadeira loucura? Certos pratos são “divinos” e merecem ser degustados “de joelhos”. A referência à elevação espiritual não poderia ser mais explícita. Por isso, esse fenômeno pode ser interpretado como sintoma do sofrimento produzido por uma cultura excessivamente materialista, que tende a amputar a dimensão não funcional da vida. Como se vê, a própria cultura se encarrega de produzir “soluções sintomáticas” para aliviar este sofrimento.

Que sofrimento psíquico poderia estar determinando essa onda conservadora? O que teria sido amputado?

A atual realidade socioeconômica e cultural é muito diferente do que foi a Modernidade, quando as instituições eram fortes e determinavam com mão de ferro o certo e o errado, o permitido e o proibido. Havia um conjunto rígido de valores tidos como universais orientando a conduta dos sujeitos. Quem não se encaixasse no modelo prescrito e dominante, via-se –  e era visto – como desviante. A família patriarcal, como único modelo legítimo e possível, é um exemplo da hegemonia de certos valores. Há 40 anos, quem imaginaria uma família homoparental?

Em oposição a essa rigidez, vivemos atualmente um contexto social em que tais valores são muito mais fluidos e flexíveis. Já não acreditamos em um modelo único, supostamente universal, e por isso as pessoas têm muito mais liberdade para inventar novas formas de vida. Por um lado, isso tem a vantagem de contemplar as várias formas de subjetividade. Por outro, é uma evidência da crise das instituições. É daí que surgem as desvantagens, relacionadas a uma das principais características dos nossos tempos: a “miséria simbólica”.

Mas o que é a miséria simbólica? Por que chamar de “miséria” uma situação que permite maior liberdade e em que mais pessoas podem viver de acordo com suas convicções? Porque, como se verá em seguida, estamos “passando fome”.

Quando o conceito de “verdade universal” começa a ser transformado, dando lugar ao reconhecimento de verdades subjetivas e legitimando diferentes visões de mundo, os ganhos são incontestáveis. No entanto, quando a própria noção de verdade passa a ser, ela mesma, entendida como ultrapassada e nociva –  quiçá autoritária –  e é então suprimida, aí, sim, emerge o lado patogênico da crise das instituições. Jogou-se fora o bebê junto com a água do banho.

É aí que começamos a “passar fome”. A passagem de um saudável e desejável relativismo, para um relativismo absoluto, deixa os sujeitos sem referências com as quais construir suas identidades. Sem chão, o Eu se fragiliza e passa a sofrer de uma “anemia psíquica crônica”. Submerge na angústia porque não há mais verdades minimamente estabelecidas nas quais pautar o Ideal do Eu.

É esse relativismo absoluto que produz o que chamamos de miséria simbólica: uma impossibilidade de afirmar qualquer valor como válido. O conceito bizarro de pós-verdade decorre disso. O sofrimento psíquico decorrente da amputação dessa dimensão da realidade é o desamparo identitário, termo cunhado por Susana Muszkat.

As instituições protegem nossa vida psíquica. Quando elas estão em crise profunda, ficamos órfãos das narrativas que elas criam e sustentam. A angústia que comentamos acima aparece justamente porque temos necessidade emocional de acreditar em algumas coisas – em alguma narrativa que possa dar sentido às nossas vidas. Sem elas, ficamos desnorteados,“sem propósito”-  para usar um termo que está na moda.

É aí que entra a onda conservadora. Podemos interpretá-la como uma resposta defensiva, isto é, como solução sintomática, frente à angústia produzida pela miséria simbólica. Após a desconstrução radical operada pelo relativismo absoluto, o conservadorismo emerge como uma tentativa de reconstruir algo mais sólido. Mas é como tentar curar a anemia com junkfood, em vez de comer um bom bife (!). Ou como tapar o sol com a peneira.

É importante lembrar que cada momento histórico produziu um tipo específico de conservadorismo. O da época de Freud tinha determinações bem diferentes do nosso. Por isso, podemos falar em “neoconservadorismo”, já que o atual tem a ver com a miséria simbólica, o que não era o caso na Modernidade de Freud.

O neoconservadorismo ligado à miséria simbólica tem como característica principal a defesa de valores muito concretos, colados na materialidade e na sensorialidade imediata. Para dar um exemplo: no atual contexto de miséria simbólica, o nu artístico não tem transcendência nenhuma, não representa nada – o nu enquanto símbolo deixa de existir. Na ausência do símbolo, o nu só pode ser interpretado como “uma pessoa pelada” e, portanto, algo moralmente condenável. A diferença entre o homem nu no espaço de um museu e o homem nu na rua se perde.

Em oposição a valores mais complexos, que exigem capacidade de abstração e de perceber nuances, tais como liberdade, igualdade e fraternidade, os valores neoconservadores são rasos e colados na concretude do mundo. Junte-se a isso a polarização atual e teremos um fla-flu entre pessoas que defendem valores, contra pessoas que, supostamente, querem corromper a juventude.

 

* Marion Minerbo é psicanalista da SBPSP, doutora pela UNIFESP e autora de vários livros e artigos, entre eles “Diálogos sobre a clínica psicanalítica” (Blucher, 2016) | marionminerbo@gmail.com

**Luciana Botter é formada em Direito pela USP, em Psicologia pela PUC-SP e atualmente trabalha, entre outras coisas, com edição e revisão de textos psicanalíticos. Editora do blog Loucuras Cotidianas, por Marion Minerbo.

***Loucuras Cotidianas, por Marion Minerbo: https://loucurascotidianas.wordpress.com/

A Geração Y no mundo do trabalho: dor de crescimento ou opressão sem ganho?

*Renata Zambonelli Nogueira

Com alguma frequência tenho me deparado com situações em que interlocutores de gerações anteriores à minha se queixam das características dos “jovens de hoje em dia”, apelidados de Millennials ou Geração Y. Eles se referem às pessoas nascidas depois de 1990,  que constituem a primeira geração crescida num mundo verdadeiramente globalizado, imersos na onipresença das tecnologias – especialmente da internet e das facilidades materiais -, e cuja chegada ao mundo do trabalho revelou um importante choque geracional.

Os mais velhos os descrevem como egocêntricos, preguiçosos, mimados, “cheios de mimimi”, excessivamente zelosos de sua vida pessoal e, frequentemente, os acusam de desconhecer a realidade, não saber que “é preciso dar duro para se tornar alguém na vida” e querer tudo de mão beijada.

Penso que, embora caracterizado a partir da realidade norte-americana, esse conflito geracional tenha alguma correspondência em certos recortes das cidades brasileiras. Pude observá-lo na Faculdade de Medicina onde me graduei em 2011 e na qual, atualmente, me dedico a atividades didáticas com os alunos. Ali me parece que a estrutura hierárquica que formou tantas gerações de médicos em São Paulo já não exatamente serve às atuais. Falas de professores renomados como a de que “diamantes se fazem sob pressão” são ferozmente atacadas e provocam intenso sofrimento psíquico entre os alunos, marcado por sentimentos de incompreensão e desamparo, em lugar de uma adaptação produtiva. A tradicional cultura médica de investimento total, de valorização da resiliência levada ao limite, do orgulho narcísico de enfrentar bravamente jornadas de 48horas de plantão pode estar com os dias contados sob a gerência dessa nova geração. O que aconteceu?

De imediato, penso que devemos abandonar a pretensão de “explicar” toda uma geração, e vou modestamente oferecer uma das minhas ideias à prova para pensarmos um possível fenômeno em desdobramento na cultura: as estruturas totalizante das instituições perderam o seu sentido, e o sofrimento dentro delas não está mais associado a um crescimento que vale a pena, não é mais significado como uma “dor de crescimento”. Na ausência de sentido, vive-se uma espécie de opressão sem ganho.

Tentarei, então, decupar minha hipótese da perda de sentido na forma de perguntas que nos ajudem a pensar.: Quais seriam as diferenças fundamentais no caldo de cultura em que cresceram esses jovens? Quais os reais efeitos da tecnologia na subjetivação, e como as formas virtuais de se relacionar com o outro interferem na capacidade de sustentar relações reais? O que mais, historicamente, aconteceu no mundo nos últimos anos, e quais as perspectivas desses jovens no nosso momento histórico? Quais tipos de relação de trabalho estão disponíveis para eles? Como a economia e a realidade dos processos de produção e consumo interferem nas dinâmicas subjetivas de funcionamento? Como esses jovens lidam com a espera diante de tantas facilidades materiais?

No meio psicanalítico se discute, hoje, a existência de novas formas de sofrimento na contemporaneidade. Como psicanalistas, sabemos da influência peremptória da cultura sobre os processos de constituição do sujeito, e a ideia corrente a respeito do nosso tempo é a de um momento histórico de desilusão diante de uma suposta falência do projeto moderno, um enfraquecimento das instituições e um sofrer característico da pós-modernidade, marcadamente distinto do sofrimento dos neuróticos analisados por Freud. Eu incluiria nessa análise uma dimensão categoricamente política. Há uma crise social instalada a partir do capitalismo neoliberal levado ao seu extremo: banalização do consumo, superficialidade das relações humanas e precarização das relações de trabalho.

Tentarei descrever o que entendo por sofrimento contemporâneo por meio de uma ilustração. Há poucas semanas assisti ao filme de Terrence Malick, “De canção em canção”, e saí do cinema como quem sai do consultório após uma longa sequência de sessões difíceis. Mundos mentais áridos, pouco povoados, vivências de tédio, repetição e completa ausência de sentido. “Qualquer experiência é melhor do que nenhuma”, diz uma das personagens. Os cenários são casas amplas, translúcidas, com horizontes infinitos, repletos de nada. Gavetas vazias, relações sem lastro, desejos sem densidade, descontinuidade…

Tudo isso contraposto a uma beleza estética deslumbrante das personagens, dos figurinos e dos cenários arquitetônicos. Seria o filme um retrato onírico da nossa sociedade de consumo? Poderíamos comparar aquela fotografia exuberante à cultura da imagem, dos perfis das redes sociais repletos de selfies e check-ins, da necessidade de promover a si mesmo, de ser visto numa vida de felicidade e plenitude, para que ela se torne minimamente satisfatória, para encobrir com curtidas o mal-estar?

Me remeto a imagens descritas por meus pacientes em análise, buscando uma espécie de “nutrição de verdade” no mundo de hoje: eles procuram por alfaces que não pareçam plástico, frutas que não sejam insossas como aquelas bonitas do mercado, peitos sem silicone… Para além dos seus significados nas análises individuais, me pergunto o que essas experiências sensoriais da contemporaneidade estarão representando.

Hoje nas grandes cidades vive-se um completo desconhecimento dos processos produtivos, e o consumo é fácil e indiscriminado.  Estaria essa dissociação relacionada a um esvaziamento simbólico na cultura? Existirá uma espécie de banalização do acesso a qualquer coisa, de forma a destituir de valor o objeto de desejo? Haverá um processo semelhante no trato com o outro, que, quando fora do aplicativo, de carne e osso, pode se tornar excessivamente falho, frustrante, trabalhoso, intolerável?

Penso que é situando-nos nesse difícil contexto de múltiplos esvaziamentos que podemos nos colocar a pensar as dificuldades dessa geração em realizar e sustentar investimentos libidinais, tolerando as frustrações impostas pelo princípio de realidade. Falo aqui das relações de trabalho, mas acho que o problema também se estende às ligações amorosas. O substrato real não os ajuda em nada nessa tarefa: vagas precarizadas, vínculos informais, carreiras de ensino superior desparecendo do mercado, extinção da aposentadoria, instituições corrompidas, falidas e desacreditadas – e espaços de conhecer gente cada vez mais deslocados ao espaço virtual, onde basta um clique para se desimplicar.

Há um desafio posto às novas gerações. Elas estão sujeitas a reinventar referências, reconstruir a solidez na cultura e restabelecer, à sua maneira, a capacidade de ligação.

*Renata Zambonelli é Psiquiatra e Psicanalista, membro filiada à SBPSP | renatazambonelli.psi@gmail.com

Uma reflexão sobre o lixo eletrônico tóxico e seus efeitos no psiquismo

*Helena Cunha Di Ciero Mourão

Diferentemente das pacientes da cena de Viena de Dr. Freud, as meninas de hoje protestam em CAPS LOCK ao invés de mergulharem na repressão e na resignação. Nossas jovens millennials lutam pelo feminismo desde cedo, questionando o papel da mulher. Brigam para serem ouvidas na escola, enfrentando, a seu modo, uma sociedade que emoldura e enfraquece o sexo feminino.

Esse questionamento me parece ter aparecido antes de se sentirem acuadas no papel feminino. Essa reflexão é, hoje, construída junto com a feminilidade, não posteriormente. Ponto para a nova geração!

As meninas de hoje relatam também abusos sofridos em grupos fechados de mulheres nas redes sociais: “Share your pepeka” é um deles, no qual trocam experiências referentes à sexualidade. Há também o #agoraéquesãoelas, um movimento para que revelem em seus perfis virtuais os abusos sofridos.

Em contrapartida, essas mesmas meninas que brigam para serem respeitadas por suas escolhas sexuais entoam canções de funkeiros que são absolutamente desrespeitosos com a figura feminina, por vezes violentos. Os tais “proibidões” são a antítese desse discurso feminista. Colocam a mulher num contexto que banaliza não apenas a sexualidade, como as drogas. Me pergunto se essas jovens que cantam essas canções compreendem, de fato, o que propagam. Se questionam a si mesmas se querem ser tratadas pelos parceiros como as personagens das canções de suas playlists.

Recentemente assisti ao documentário Hot Girls Wanted, que investiga a entrada de jovens meninas no mercado pornográfico. Todas por volta de 18 anos, em busca de dias de glória e glamour. “Já que vou transar, por que não filmar? Já que o nude pode vazar, melhor eu mesma me expor por vontade própria” , relata uma das jovens. São meninas que entram nesse mercado em busca de fama e sucesso às custas de uma exposição violenta e precoce. Uma decisão impulsiva, um acting out em busca de independência.

O espectador acompanha com tristeza a falta de intimidade dessas meninas consigo mesmas, com seus sentimentos, com seu próprio corpo. O olhar assustado e, por vezes, opaco que elas trocam com os parceiros-atores, a violência à qual se submetem, a falta de amor pelo próprio corpo. O filme é uma denuncia triste. Vale assistir para refletir.

Refletir que toda uma geração formará sua sexualidade assistindo a vídeos na internet e esbarrarão nos mais diversos conteúdos. Ouvindo canções repletas de violência e promiscuidade que podem vir a ser a canção-tema de uma noite marcante. O desabrochar dessa fase marca toda uma relação “eu-corpo” que durará por toda a vida. Intimidade não pode ser excluída desse período, como se fosse algo sem valor.

Trata-se de um espaço importante da construção do psiquismo. O fantasiar foi, em alguns aspectos, substituído pelo Google, e muitas vezes o conteúdo digital é assustador. A internet oferece possibilidades diversas, sem que o jovem tenha um aparelho digestivo psíquico suficientemente forte.

Devemos pensar cuidadosamente sobre como as mídias podem ser invasivas, sobre o que é informação e o que é lixo eletrônico tóxico, cujos resíduos ficam marcados permanentemente numa mente em formação.

 

*Helena Cunha Di Ciero Mourão é  membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e especialista em psicologia psicanalítica pela Universidade de São Paulo | hcdiciero@gmail.com

 

Homens do nosso tempo

Gustavo Gil Alarcão

Como psicanalista habituei-me a desconstruir generalizações e buscar as singularidades de cada um. Venho apreendendo ao longo dos anos que as generalizações tanto pressionam por normatizações individuais quanto podem servir de esconderijos. Freud chacoalhou o Ocidente quando evidenciou que não há nenhum caminho predeterminado na formação de uma pessoa porque ele desarticulou a equação entre a anatomia biológica, expressa em corpos e sexos de nascimento, e seus caminhos futuros.

Não há equação entre nascer masculino ou feminino e desempenhar esses ou aqueles papeis, buscar esses ou aqueles objetos de desejo. A psicanálise propõe que estejamos atentos às permanentes construções e desconstruções que vivemos marcadas pelas identificações e pelas faltas de identificação com as quais convivemos ao longo da vida, com especial importância para aquelas que nos receberam no mundo e cuidaram de nós enquanto bebês e crianças (foi da experiência que se construiu, se confirmou e continua a se confirmar essa hipótese).

Dito isso, entremos ao texto. Aceitei o convite para escrever um breve artigo sobre algumas características dos homens contemporâneos. Pai, relativamente jovem, psicanalista, psiquiatra, que posta fotos da família no Facebook, trabalha com adolescentes da Fundação Casa, convive e trabalha com muitas mulheres, casado etc. Partes da minha história pessoal que podem ter sido associadas às determinadas pressuposições que me colocariam em condições favoráveis de escrever sobre o tema proposto. O convite foi interessante porque partiu de uma equipe formada principalmente por mulheres e que, de certa forma, quase cem anos depois, recolocaria uma questão formulada pelo próprio Freud (1932), que já se indagava: “afinal, o que querem as mulheres?”. Hoje, em 2017, há mulheres perguntando: “afinal, o que querem os homens?”.

Não creio que se busque uma definição, o que seria tanto ingênuo quanto impossível. Mas essas questões indicam a existência de dúvidas e o questionamento acerca de identidades fixas e rígidas está posto. A maior variedade de possibilidades identificatórias é um traço de nossa época. Há condições para que as pessoas não tenham necessariamente que repetir passos e modelos. Essas possibilidades não baniram as tradicionais formas de existir, mas as ampliaram. Basta sair às ruas da maioria das cidades, para não dizer de todas, e observar a diversidade.

A diversidade sempre existiu, mas as possibilidades de expressão variam conforme o momento histórico de cada sociedade. Os filmes A Garota Dinamarquesa (2015,) Carol (2015) e Shame (2011) nos mostram exemplos disso. No primeiro, um homem que deseja se tornar uma mulher enfrenta as questões de seu tempo, os anos 1920-30. Em Carol temos um romance entre duas mulheres nos anos 1950 e Shame evidencia a vida de um homem contemporâneo cuja vida sexual compulsiva escondia uma rotina apática e entediante.

Os homens de hoje, mesmo querendo, não podem negar esses fatos. A liberdade de ser quem se é convoca a todos. Para alguns, existem possibilidades para que as escolhas feitas ao longo da vida (relembrando que somos atravessados pelo inconsciente) evoquem maior responsabilidade pessoal no sentido de se engajar consigo mesmo (se as imposições diminuíram, posso escolher mais). Para outros, a liberdade será assustadora e evocará defesas.

O mundo infelizmente ainda é muito hostil e bárbaro (vide o terrorismo, a violência policial, racismos e crimes contra minorias) e a liberdade que descrevo não pode ser exercida plenamente por muitas pessoas. As reações de intolerância daqueles que se sentem perturbados, literalmente perturbados, pela própria liberdade também estão explícitas. A liberdade do outro pode ser atacada com a violência. Os efeitos perturbadores da liberdade em si não podem ser banidos, podem ser negados ou deslocados. Provocarão sintomas desde o apego inseparável aos temas que tanto atacam (vide alguns políticos por aí, que falam mais de homossexualidade do que qualquer homossexual), ou gerando sintomas, dos quais a passagem aos atos –violência- tem sido o mais comum, havendo vários outros: as compulsões, o tédio, os pânicos e paranoias, etc.

Diante da possibilidade de sair do armário, cada um tem a efetiva possibilidade de assumir suas escolhas pensando em seus significados. Não podemos lidar sem problematização com a questão dos gêneros, tão debatida atualmente, afirmando que homens e mulheres não nascem prontos, constroem-se. Nesse sentido, se tomarmos como exemplo, para ficarmos no texto, pessoas do sexo masculino que se construíram como homens observaremos uma grande diversidade de vidas. Alguns mantiveram muito conservadas características possivelmente identificadas com as dos homens mais tradicionais de outras épocas. Ligados aos valores tradicionalmente veiculados como normas, apegam-se geralmente à moral religiosa, à família patriarcal e ao poder. Há homens que romperam radicalmente com valores tradicionais e adquiriram vidas próprias. Assistam Laerte-se (2017), De Gravata e Unha Vermelha (2014). Há vários outros: gays, homens casados, homossexuais que constroem famílias (por incrível que pareça, tradicionais), os solteiros convictos, homens que se casam com mulheres, homens que têm filhos; os que têm filhos e não se casam; os que não saem da casa dos pais; os que mudam de corpo; os que adquirem corpo; os que fogem e abandonam filhos etc. A relativização aqui não é estratégia para evitar o debate, mas é o seu argumento principal. Não se pode imaginar que determinada maneira de viver se imponha sobre as demais.

Voltando ao convite e imaginando os elementos da minha vida que possam ter sido levados em conta como representativos de certo grupo de homens, penso na paternidade e no casamento. Como um homem desse tempo e com as características do ambiente onde nasci e cresci, experimentei um caminho aberto para realizar minhas escolhas (aberto não significa fácil).  Na medida em que pude me dar conta do que significava estar vivo e ter consciência de nossa breve e única experiência de existir, angustiei-me e me pus a pensar (análises pessoais foram fundamentais, porque nossa mente é engenhosa em criar subterfúgios e fugas). Fui questionar meus desejos e encontrei meu desejo de ser pai, casar-me e viver em família.

Convivo com vários amigos que fizeram escolhas parecidas e com muitos que não fizeram (tenho sorte!). Entre todos, percebo que são, em geral, homens menos assustados com os seus sentimentos e com sentimentos dos outros. Quase todos repudiam a violência como modo de se relacionar. A maioria se esforça para conviver com as diferenças. Praticamente todos quiseram se tornar independentes de suas famílias, o que se traduz em ter trabalho e ganhar dinheiro – nem todos levaram em conta outros aspectos do que chamam maturidade. Alguns vivem para se entreter e evitam qualquer conflito ou assunto mais sério. Alguns desejam profundidade em suas vivências. Todos estão conectados na rapidez, na tecnologia e na internet. A lista poderia seguir, mas é suficiente.

Tentando ajudar na questão sobre o que querem os homens, me lembro de um filme. Em A vida é Bela (1997), Roberto Begnini e seu personagem Guido encarnam o que penso poder representar um ideal para alguns homens desse tempo: nos horrores da guerra e apaixonado por sua principessa é levado para um campo de concentração com seu filho. Amor, coragem, paciência e criatividade o ajudam a salvar o filho, mas não evitam sua própria morte. Guido tinha um filho e uma mulher, mas poderia não ter filhos e amar um homem. Ainda aposto no amor e no vínculo entre as pessoas como desejo de muitos, o que não exclui a legitimidade de outros amores e vínculos, como o que se observa no filme Her (2013), quando o protagonista se apaixona por um programa de computador (certo que sua angústia tem matizes diferentes), mas se opõe aos vários exemplos de mentes tirânicas que fazem do outro objeto inanimado de sua satisfação.

 

Gustavo Gil Alarcão, membro filiado ao Instituto de Psicanálise SBPSP, psiquiatra Colaborador do Serviço de Psiquiatria IPQ HC FMUSP e Doutorando Departamento de Medicina Preventiva FMUSP.

A política no divã

Por Bernardo Tanis*

Embora a psicanálise seja um poderoso instrumento clínico e contribua para a investigação das motivações humanas, a gênese do processo civilizatório, a instituição das normas e o reconhecimento das poderosas forças que levam à transgressão e ao esgarçamento do pacto social encontra limites face à complexidade dos fenômenos globais (políticos, econômicos, sócias…), que só podem ser abordados com base em um pensamento complexo, como nos diz Edgar Morin. No entanto pode auxiliar na compreensão de por que, em certos contextos, assistimos hoje ao fracasso da virtude e ao apagamento da distinção entre o público e o privado; pode facilitar o entendimento dos motivos pelos quais a razão é colocada a serviço de interesses pessoais e corporativos e a fé é utilizada para justificar as maiores violências contra o indivíduo identificado como diferente.

O comportamento ético que era para Aristóteles o comando das paixões por meio da razão, com o estabelecimento de normas e regras para a vontade, de modo que esta pudesse deliberar corretamente, parece apagado nos nossos dias. O que deveria ser a defesa do cidadão na esfera pública (virtude) e o combate ao crime, é corrompido pela lógica desenfreada de interesses particulares e de corporações; sem ser, de modo algum, prerrogativa exclusiva de um determinado grupo político. O crime é cometido sob o domínio da hybris, uma arrogância que se considera inatacável, invulnerável, blindada.

No contexto global e também no nosso país não é menos gritante o aumento das diferenças entre os mais ricos e os mais pobres. Assistimos também ao ressurgimento de movimentos discriminatórios, xenófobos, contrários à aceitação de migrações; concomitantemente, proliferam atos terroristas que, além de acabar com a vida de centenas de indivíduos, criam um clima de insegurança, reforçando o desenvolvimento de Estados policiais, do estado de exceção (Agamben). Nesse cenário, o outro, o estrangeiro, o diferente, é objeto de tamanha hostilidade e transformado num ser tão estranho e odiado que sua exclusão/aniquilamento parece justificado.

A falta de sensibilidade ao sofrimento do outro, a vazão da agressão através do ato que ultrapassa o limite da lei dos homens, é metonímia do abuso, do estupro, dos maus-tratos, da fome, do desemprego, do domínio sádico do outro, da pedofilia, da humilhação perversa, do racismo e da discriminação.

Em “O mal-estar na civilização” Freud fala-nos da intensidade das pulsões e da necessária renúncia à sua satisfação plena na cultura, o preço que todos pagamos pela vida em sociedade. Fala também da agressividade humana e do modo como ela se entrelaça com o narcisismo. Propõe a ideia de narcisismo das pequenas diferenças que alude à forma como os integrantes de uma comunidade podem se unir mascarando ou disfarçando inconscientemente seus conflitos e projetando no outro, no vizinho, sua agressividade. Amamos nossos irmãos e repudiamos os outros a quem tratamos com intolerância. A diferença encontra os mais variados discursos para ser transformada em ameaça. Essa relação imanente entre o indivíduo e a cultura é um operador fundamental do pensamento freudiano para a construção dos modelos de pensamento sobre a subjetividade humana. Freud dedica uma vasta e profunda reflexão aos vínculos entre o indivíduo e o poder, o indivíduo e a massa, assim como entre o narcisismo/sexualidade e a formação de nossos ideais, a moral e a ética.

Se retornamos ao termo corrupção, na sua etimologia grega alude a estragar, decompor, perverter, depravar, e guarda sua vinculação com o prefixo co, que alude à necessidade de dois participantes para que esse ato possa acontecer. Mas o que se esgarça, o que se decompõe? A ideia de justiça, a lei, o homem, a representação simbólica de um laço social que se sustenta num pacto simbólico, mas que se degrada e se transforma numa relação de compadrio. O poder se corrompe.

Classicamente a noção de poder remetia ao domínio exercido pelo Estado ou pelo soberano sobre seus súditos, associado ao autoritarismo, à violência praticada contra o outro, à censura. O poder visa exercer um domínio. Para nós, psicanalistas, a ideia de domínio é polissêmica e fundamental na compreensão das forças que movimentam o psiquismo. Comporta dois grandes grupos de sentidos: (a) um voltado para si, para o próprio aparelho psíquico: domínio da força pulsional, dos estímulos que nos invadem – domínio através do recurso ao processo transformativo do sonho, à sublimação, à representação, ao símbolo, à criatividade; (b) outro voltado para o exterior: domínio a partir da descarga e do livre exercício da sexualidade na busca do prazer, mas também exercício de domínio sobre o outro mediante diferentes formas de controle, de sedução, do ato e do sadismo.

Ambos fazem parte do potencial humano e operam em permanente tensão. Na atualidade as formas de poder e de domínio parecem mais difusas, penetram e se infiltram no cotidiano, menos identificado com uma instância, no entanto mais onipresente como meio de controle da subjetividade e das ações dos indivíduos. Até que ponto determinadas formas de poder não chegaram a mutilar subjetividades de modo que o ato emerja como única resposta possível para certos indivíduos ou grupos? Alguns analistas já se debruçaram com muita propriedade sobre esses temas.

Sintetizando os extremos: a ideia do cidadão acima de qualquer suspeita apregoa a noção narcísica do indivíduo que não estaria sujeito aos ditames do coletivo e estaria acima da lei, a corrupção revelando de modo contundente os intrincados jogos de forças entre o Estado, o poder e as paixões humanas; por outro lado, a condição de submissão, opressão e impotência na qual indivíduos, grupos ou nações se encontram conduz sujeitos movidos pela falta de alternativa à utilização consciente ou inconsciente do recurso ao ato muitas vezes devastador.

Pensar e agir eticamente ultrapassa a esfera do eu para nos lançar ao encontro do outro. Nesse contexto, a política cobra seu sentido original à serviço da comunidade, da vida em sociedade e não na sua redutora e corrupta perspectiva do compadrio e obtenção de privilégios. Talvez a psicanálise possa contribuir para reconhecer e desconstruir, na medida do possível, as formas de poder internas e sociais que alienam o cidadão e a subjetividade.

Novos desafios nos interpelam se nos deixamos atingir pela diferença, pela alteridade e o respeito à lei e ao laço social que nos constituem. O imperativo ético da psicanálise, através do reconhecimento da estranheza do desejo inconsciente em nós, nos convoca a reconhecer a estrangeiridade do outro e suas singulares demandas. Sua irremediável estranheza nos estimula à invenção de uma prática e de um discurso coerentes que nos possibilitem conviver melhor com nós mesmos e com o diferente. Seremos capazes?

*Bernardo Tanis é psicanalista, membro efetivo da SBPSP e doutor em Psicologia Clínica.

Entrevista – Marion Minerbo

Muito além do divã

Simulando tom ficcional na interlocução com um “jovem colega” imaginário, Marion Minerbo compartilha material clínico e outras experiências em Diálogos sobre a clínica psicanalítica

Autora de Neurose e não neurose e Transferência e contratransferência, ambos da editora Pearson, a psicanalista Marion Minerbo lança seu terceiro livro, Diálogos sobre a clínica psicanalítica (Editora Blucher), dia 1º de setembro, a partir das 18h30, na Livraria da Vila da Fradique. Mais do que um título para “iniciados”, trata-se de um painel acessível e fascinante sobre a “experiência de transmissão da psicanálise” que Marion vivenciou na última década. Não é um período qualquer. Para muito além da prática e dos estudos com que Freud revolucionou a história da humanidade, o livro, de tom supostamente ficcional, usa a forma de um grande diálogo, com um interlocutor que Marion chama de “jovem colega”, para compartilhar material clínico que convida à reflexão em uma época em que “as pessoas são obrigadas a ancorar sua identidade e a inventar seus projetos de vida em bases fluidas e movediças”, como Marion declara em entrevista exclusiva à Vila Cultural.

Psicanalista, analista didata e docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBP-SP), doutora em Psicanálise, Marion virou uma “fonte” imediatamente associada a dois temas distantes e de forte apelo midiático: os reality shows e a corrupção. “Os embates teórico-clínico- emocionais de meus interlocutores mais jovens me remetem, naturalmente, ao meu próprio percurso”, escreve, na introdução do livro, cujos diálogos contemplam seis temas: transferência, escuta analítica, trauma e simbolização, pensamento clínico, sofrimento neurótico e sofrimento narcísico. Leia a entrevista da psicanalista.

Vila Cultural. Você gosta de conceder entrevistas?

Marion Minerbo. Não dou entrevistas por telefone ou com gravação de vídeo porque não dá tempo de pensar. Fico inibida com perguntas à queima-roupa. O risco de dizer banalidades é grande. Em compensação, tenho grande prazer em conceder entrevistas por escrito porque mesmo que eu já tenha falado sobre um mesmo tema várias vezes, como BBB ou corrupção, as perguntas sempre me ajudam a pensar coisas novas. Há, claro, alguma vaidade em ser entrevistada, pois é uma forma de reconhecimento do meu trabalho. Mas o que mais me motiva é a oportunidade de compartilhar com um público mais amplo o acesso ao funcionamento mental propiciado pela psicanálise.

VC. Como define o novo livro e que avaliação faz da experiência de escrevê-lo?

MM. É um livro que foi nascendo aos poucos e meio que por acaso. Em 2013, me convidaram para falar sobre “transferência”, um conceito psicanalítico básico supostamente muito conhecido e sobre o qual já se disse muito – inclusive eu, que escrevi um livro sobre isso. Estava quebrando a cabeça para não chover no molhado, até que me veio a inspiração de escrever a um jovem colega transmitindo o essencial sobre o tema em linguagem coloquial e despretensiosa. Afinal, o rigor tem que estar nas ideias, e não na linguagem. A editora do Jornal de Psicanálise, publicação semestral do Instituto de Psicanálise Durval Marcondes da Sociedade Brasileira de Psicanálise, viu naquele texto o potencial para um projeto editorial com este formato e me convidou a escrever sobre outros temas. Os primeiros diálogos eram mais tímidos, pois havia algo de ficção na criação do personagem jovem colega, e afinal, eu não sou escritora. Mas fui me apropriando dessa semificção e me divertindo com a escrita. Me afeiçoei ao jovem colega e fiquei triste quando me despedi dele. Escrever me serve para metabolizar o que estudei e para, a partir dessas leituras, organizar um pensamento próprio. Para o bem e para o mal, só consigo pensar escrevendo. Minha mãe me dizia: “Se você não consegue escrever com suas palavras, não escreva, significa que você ainda não entendeu o suficiente”. Tenho prazer em transmitir algo que dificilmente o jovem colega vai aprender só nos livros: como pensa um psicanalista – ou melhor, como pensa esta psicanalista! – em sua clínica. Sou generosa, mas também exigente com o leitor: ele não deve esperar concessões ou
simplificações. Acho que o livro é sobretudo útil. É o que tenho de mais valioso para oferecer.

VC. Que critérios usou para definir os seis temas destacados em Diálogos?

MM. Baseada na minha experiência como docente escolhi temas que fossem úteis para a clínica, e usei exemplos – devidamente ficcionalizados – para dar vida às ideias desenvolvidas. Naturalmente, todos os cuidados foram tomados para garantir o sigilo e a ética profissional. Transferência, como já disse, é básico porque é a manifestação concreta do inconsciente na vida das pessoas e na análise. Eu já tinha escrito um livro sobre esse tema (Transferência e contratransferência, Pearson, 2012), mas este diálogo me deu a oportunidade de abordar outros ângulos e aprofundar certas questões. O inconsciente é uma espécie de cicatriz viva do passado que continua produzindo sofrimento e travando o presente, o que leva certas pessoas a procurar análise. Como reconhecer na clínica esta cicatriz viva e seus efeitos? Através da Escuta analítica, que é o segundo tema. Vou usar uma analogia para explicar o que é isso. Certa vez fui arrebatada pelo desejo de pintar. Frequentei o ateliê de uma artista que não me ensinou a pintar, mas formou o meu olhar, um olhar sensível à dimensão estética da existência. Pois bem: o analista tem um olhar, ou uma escuta, ou uma apreensão, da dimensão inconsciente das relações humanas. Mas assim como a formação do olhar não transforma ninguém em artista, a apreensão da dimensão inconsciente não é suficiente para ser um psicanalista praticante. É preciso desenvolver também a capacidade de pensar analiticamente, quer dizer, articular o universal da teoria dos livros, à singularidade do paciente que está no seu divã. Escrevi, então, o diálogo sobre Pensamento clínico, uma espécie de passo a passo sobre esse “pulo do gato”. O diálogo seguinte, sobre Trauma e simbolização, serve para ajudar o jovem
colega a ter uma visão mais organizada sobre como se “adoece” psiquicamente. Sem uma compreensão razoável sobre como se adoece, é difícil saber em que direção seguir do ponto de vista terapêutico. E por falar em “direção a seguir”, os dois últimos diálogos, Sofrimento neurótico e Sofrimento narcísico, mapeiam os dois grandes territórios do sofrimento psíquico, cujas “paisagens emocionais” diferem radicalmente. A escolha desses temas se deve, de certa forma, à repercussão positiva do meu livro Neurose e não neurose (Pearson, segunda edição 2013). Muitos leitores disseram que a visão de conjunto da psicopatologia psicanalítica, ancorada em exemplos clínicos, foi muito útil.

VC. Quem, na sua opinião, podem ser os leitores potenciais do livro?

MM. Acho que o livro será útil não só para estudantes e jovens colegas, mas para psicanalistas em geral, pois não importa quanta estrada já tenhamos percorrido, estamos sempre estudando para manter o “instrumento psicanalítico” afinado e afiado – caso contrário ele perde o gume. É claro que o público leigo curioso, os estudiosos de humanidades em geral e os próprios “usuários” também poderão curtir e aproveitar os diálogos, já que estão escritos de forma acessível.

VC. Quando alguém procura um analista, é comum a dúvida a respeito sobre a “linha” que ele segue. O que pensa sua sobre isso?

MM. Até meados dos anos de 1970 os psicanalistas se dividiam em tribos, dizendo-se seguidores deste ou daquele autor. No entanto, fosse qual fosse a linha, havia pacientes que “não se encaixavam” nela. Pensando bem, é muito estranho que o paciente tenha que se encaixar, pois o psiquismo singular é sempre mais amplo e complexo do que pode ser apreendido por uma única teoria. A comparação é meio tosca, mas imagine um marceneiro que se limite a trabalhar com um serrote. Pode ser suficiente para serrar tábuas, mas se quiser fazer uma mesa vai precisar de outros instrumentos. Enfim, a nova geração de psicanalistas se deparou com os limites de praticar a psicanálise seguindo uma única “linha”. Instigados por questões colocadas pela clínica, os autores mais criativos passaram a pensar “fora da caixinha”. Todos saíram ganhando. Por isso, hoje é mais ou menos consensual que um psicanalista precisa ter em seu repertório instrumentos conceituais diversificados. Essa é a posição a partir da qual escrevi os Diálogos e trabalho na minha clínica.

VC. Você tem escrito também sobre o sofrimento psíquico ligado a características do mundo contemporâneo. Fala em “miséria simbólica” e relaciona esta condição ao sentimento de tédio e de vazio. Poderia explicar essas ideias?

MM. É um assunto complexo, mas posso tentar. A modernidade foi o momento da civilização ocidental que se caracterizava pela força e solidez das grandes instituições. O sofrimento psíquico tinha a ver com a rigidez com que todos eram obrigados a se encaixar nos valores instituídos, vistos como absolutos, naturais e universais. A diversidade era condenada e excluída. A família patriarcal era o melhor exemplo disso. Hoje, boa parte das grandes instituições está em crise. Em um movimento pendular, passamos de valores e referências extremamente rígidos para a condição pós-moderna, caracterizada pelo relativismo absoluto. As referências de que necessitamos para dar sentido a nossas experiências são pouco nítidas, imprecisas, cambiáveis, vagas, incertas, ralas e movediças. Para o bem e para o mal, ninguém mais acredita em valores universais. A vantagem é que há liberdade para cada um inventar e viver sua própria vida. Se antes a diversidade era excluída, agora é festejada. A diversidade das famílias contemporâneas é um exemplo.

VC. E qual a desvantagem disso?

MM. A descrença absoluta e a fragilidade das referências simbólicas produzem um estado de miséria simbólica: as pessoas são obrigadas a ancorar sua identidade e a inventar seus projetos de vida em bases fluidas e movediças. Muitas vezes ficam perdidas, sem rumo. Sofre-se de um vazio, de um sentimento de irrealidade e de tédio, sintomas da falta de sentido da existência, muitas vezes confundidos com depressão. Esses pacientes nos procuram com queixas vagas, mal formuladas, porque faltam até palavras para descrever essa forma de sofrimento.

VC. Quais os efeitos dessa falta de rumo sobre a sociedade como um todo?

MM. Sintomas socioculturais como a proliferação e adesão a causas radicais – sexistas, alimentares, políticas, terroristas – podem ser entendidos como tentativas de preencher o vazio, “fortalecer” a identidade e dar um sentido à existência. Certo tipo de violência é outro sintoma desse mesmo sofrimento. Venho me perguntando se a emergência de forças conservadoras em vários países não seria uma tentativa de fortalecer – da pior maneira – as instituições atualmente em crise. A grande dificuldade parece ser manter a liberdade conquistada com a relativização de verdades tidas como universais, sem jogar fora o bebê com a água do banho.

VC. De onde vem o seu interesse por temas como a corrupção e os reality shows? Por que decidiu analisar assuntos tão diferentes?

MM. Como sempre, há uma boa dose de acaso nas direções que a vida toma. É possível que tudo tenha começado com meu doutorado na UNIFESP. Escrevi sobre compulsão a comprar porque na época, em 1990, estava atendendo uma paciente que apresentava este sintoma. Eu, que havia estudado medicina, precisei me aventurar em um território completamente novo: a sociedade de consumo, a sociedade do espetáculo, a cultura do narcisismo, a hiper-realidade etc. Tudo isso em paralelo ao meu trabalho no consultório. Passei a me interessar por fenômenos típicos da pós-modernidade que pareciam ter em comum a fragilidade do símbolo. Desde os crimes em família, como o de Suzane Richthofen que matou os pais, e outros em que são os pais que matam os filhos, até um tipo de violência que batizei de reality game – mistura de reality show e de videogame. Em 2007 publiquei meu primeiro artigo sobre reality show na Revista de Psicologia da USP. A partir daí, todos os anos, na época em que começava o BBB, eu era entrevistada sobre o tema. Sem querer, virei uma “especialista”. Com relação à corrupção a coisa foi um pouco diferente. Publiquei em 2000 um primeiro artigo intitulado Que vantagem Maria leva? Um olhar psicanalítico sobre a corrupção. Continuei desenvolvendo minha tese central em outros textos: pessoas podem ser subornadas, mas o que se corrompe (desnatura, apodrece) são as instituições, até que a própria corrupção se transforma, ela própria, em uma instituição. Depois, quando Dominique Strauss-Kahn, na época diretor do FMI, foi acusado de estuprar uma camareira de hotel, escrevi sobre os mecanismos psíquicos que levam o poderoso a “perder a noção”. Mas foi com a Lava Jato que comecei a ser constantemente entrevistada sobre corrupção.

VC. Como lida com o fato de ser convocada com tanta frequência para explicar, digamos, os “mecanismos psíquicos” da corrupção?

MM. Gosto muito do desafio de falar sobre o tema, pois cada jornalista faz perguntas que me obrigam a aprofundar ângulos ou aspectos nos quais eu não tinha pensado. Um exemplo: queriam que eu falasse sobre a “corrupção nossa de cada dia”. Sei que as matérias precisam de chamadas fortes. Então, mesmo não fazendo muito sentido falar nesses termos, aproveitei para mostrar a diferença que existe do ponto de vista psíquico entre a pura e simples transgressão, e atos que se pautam por uma lei paralela, não oficial e implícita. Nesse segundo caso, a pessoa simplesmente não sente que está transgredindo nada. Isso me levou a analisar o “jeitinho brasileiro” e a “lei de Gerson”. São verdadeiras instituições que ignoram a lei oficial e erigem valores que não podem ser transgredidos: respectivamente o ‘favor em nome da amizade’ e a ‘esperteza viril’. Quem não retribui favor, e quem se recusa a levar vantagem, é visto como transgressor dessas “leis” e punido pela coletividade. Eu não teria pensado nada disso sem as entrevistas.

VC. O que mais tem aprendido com seus alunos e pacientes?

MM. A sensibilidade para sintonizar com o funcionamento psíquico dos outros, pacientes e colegas, me ajuda a me colocar na pele deles, a empatizar e me identificar com suas angústias. Isso me ajuda a respeitar e a conviver com pessoas que sentem e pensam de maneira diferente de mim. Naturalmente, não podemos aceitar e concordar com tudo – há atos e atitudes que simplesmente não podem ser tolerados –, mas pelo menos podemos entender as razões e as motivações dos outros. Isso me ajuda a viver melhor.

Como funciona a mente de um corrupto

Coordenadora da Comissão de Ética da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, a psicanalista Cibele Maria Moraes di Battista Brandão concedeu uma entrevista de fôlego ao jornal mineiro “Diário de Caratinga”, que propôs a Cibele o desafio de traçar o perfil de quem pratica atos de corrupção, tema que continua como pauta prioritária na imprensa brasileira.

Leia a seguir a íntegra da entrevista.

Do ponto de vista da psicanálise, como pode ser interpretada a corrupção?

A corrupção pode ser vista a princípio como um tipo de loucura, de comportamento desviante, antissocial e perigoso. Nesse sentido, o sujeito privilegia só a si, até mesmo em situações em que ele foi escolhido ou eleito para trabalhar pelo bem comum. A corrupção se define pela perversão – ao invés de procurar o bem comum, ele busca tão somente seu enriquecimento e interesses individuais. A corrupção de objetivos não é só um fenômeno social e nem só um fenômeno individual. Podemos pensar no dito popular que diz “a ocasião faz o ladrão”. Precisamos da ocasião e precisamos do ladrão em potencial. Ladrão de que? Ladrão de uma falsa segurança.

O corrupto age motivado por um fator emocional ou ele é extremamente calculista/racional?

As duas coisas. Ele age motivado por um fator emocional que o faz ser calculista. Ele quer alcançar poder, dinheiro, prestígio. Como o “drogadito” que necessita da droga, ele não pensa. Age só em busca de seu objetivo. Ele quer o objeto que imagina lhe trará a solução de todas as suas aspirações narcísicas. Ele apenas quer alcançar seu objeto de desejo por idealizá-lo. A droga trará a solução mágica de tudo, assim como para o corrupto o poder,o dinheiro, o prestígio, o salvarão de todos as dores e inseguranças que o viver traz para qualquer ser humano. Ele não prioriza e nem valoriza o aprender pensar, construir recursos, viver uma vida ética. Esses valores tornam-se para ele pueris e ingênuos. A palavra ética deriva do grego “éthiké”, derivada por sua vez de ethos que significa caráter, hábito, modo de vida. A eticidade constitui-se da formação do caráter de cada indivíduo.

O corrupto tem a consciência de que está cometendo um ato que é amplamente reprovado pela sociedade?

A Psicanálise em sua prática procura compreensão de cada indivíduo como sendo único e exclusivo. Há pessoas que podem ter consciência e outras que absolutamente vivem como sendo natural participar de um esquema vigente. Na base do sempre foi assim e assim será… Se o corrupto vem de um meio que tenha regras sociais que advogam pela ideia da vantagem a consciência fica alterada. Ele passa a viver como sendo natural receber vantagens, sempre. É diferente o processo de conscientização de uma criança cujos pais desde cedo ensinam que o que pertence ao outro, ao coleguinha, é do outro… Os traços anti-sociais de um indivíduo, tais como não entender que seus atos são antiéticos e reprováveis, são resultantes de um déficit na estruturação do superego, instância da mente que tem um papel assimilável ao de um juiz ou censor interno, que tem consciência moral na auto observação, na formação de ideias e princípios. Essa instância constitui-se pela interiorização das exigências e interdições parentais. Esse déficit faz com que a consciência moral e ética não se instalem adequadamente. Não há o medo da autoridade externa, que é entendida como inexistente ou permeável conforme o seu desejo.

As pequenas “trapaças” diárias que usamos como comprar produto pirata ou apresentar um atestado falso podem ser consideradas como atos de corrupção?

A corrupção deve ser considerada não apenas nas investigações que vemos desfilar toda noite na nossa sala de TV, justamente no momento de descanso após exaustivo o dia de trabalho, quando nos sentamos para relaxar. A corrupção não está só nos macro acontecimentos, mas também nos pequenos delitos do cidadão comum, que se desvia da verdade para obter às vezes inúteis vantagens. Precisamos pensar que nessas pequenas situações, se bem conduzidas, trazem sementes de prevenção. É prevenção quando ensinamos um filho a não pagar “propinas” para favorecer trâmites burocráticos. Tendemos a pensar que é corrupto apenas quem recebe a propina e nos esquecemos de quem dá a propina. Destruímos nesse momento a possibilidade de se ter o contato com a verdade, que pode ser difícil, mas traz o germe do fortalecimento quando é enfrentada.

Se compararmos o corrupto que atua individualmente àquele que atua em conjunto (por exemplo, em uma quadrilha) podemos considerar que o comportamento de ambos seja o mesmo?

Em 1930, em seu importante trabalho o Mal-estar na Civilização, Sigmund Freud descrevia três motivos para o homem ter dificuldade no convívio social e também para a impossibilidade de ser feliz:

1 – Pela fraqueza humana frente às forças da natureza impossíveis de serem dominadas.

2 – Pela fragilidade de nossa constituição física que nos leva a adoecer, envelhecer e morrer.

3 – E por fim, pelo sofrimento advindo da convivência com os outros seres humanos.

Nessa constelação proposta, o ser humano está fadado a conviver com o medo, a insatisfação e a insegurança. O corrupto, seja ação individual ou em conjunto, tenta fugir dessa condição. Mas foge buscando meios mágicos como o enriquecimento ilícito que na verdade o enfraquece e expõe. Em uma vida assim, não há espaço para falarmos em crescimento, transformação ou criação de recursos mentais para lidar com a vida, que não é fácil. A busca pela felicidade tem que passar por algo que não seja só o que venha do externo. Há alguns meses atrás circula no youtube uma belíssima entrevista do ator argentino Ricardo Darin a um repórter da TV espanhola. Esse repórter surpreendeu-se com a recusa de Darin a um trabalho que veio de Hollywood. Darin não quis aceitar só porque poderia ganhar uma soma considerável de dinheiro. Ele queria mais do que tudo voltar para casa e estar com a família, com sua rotina… A entrevista vale a pena ser vista.

Muitas pessoas dizem que não existe político que não seja corrupto, pois ao serem eleitos, acabam “caindo” no sistema. Do ponto de vista da psicanálise, como a senhora analisa essa afirmação?

Como dissemos, a Psicanálise em sua prática tenta aproximar-se para conhecer aquilo que é único e exclusivo para cada pessoa. A Psicanálise não generaliza ou rotula. Não descreve afirmando que o corrupto é assim…. Entende que cada pessoa tem uma estruturação própria. Dizer que não existe político correto seria uma generalização preconceituosa. Em qualquer atividade ou profissão há todo tipo de pessoa. Não estamos aqui dividindo em duas categorias: os mocinhos e os bandidos. Dentro de todo ser humano há uma gama de bondade e maldade, desenvolvimento e decadência, etc., mas muito importante é a direção que se quer dar para a própria evolução. Todas as pessoas estão sob a égide de uma dualidade instintual. Por um lado, estão imbuídas de amor e construtividade e, por outro, mesmo involuntariamente, são constituídas por ódio e destrutividade. O que determinará uma boa evolução será uma interação entre o ambiente propiciador de crescimento e, internamente, seu desejo de se aproveitar do potencial de evolução. Acrescento que um excesso de ambição e desejo de enriquecer muito pode levar o ser humano a um lugar obscuro.

O corrupto acredita que possa ser responsabilizado por seus atos ou ele age pensado na impunidade?

No começo dessa entrevista dissemos que a corrupção é uma espécie de loucura e, como tal, afasta o indivíduo da realidade. Se uma pessoa é “ousada” acima do bem e do mal, podemos dizer que sua consciência é deteriorada. Mas o que dizer de uma realidade vivida até recentemente em que havia a impunidade? E que essa realidade não era um delírio e sim uma constatação que nos fazia afirmar sempre que a cadeia seria somente para pessoas socialmente desfavorecidas.

A corrupção pode ser considerada uma doença?

Sem dúvida nenhuma. E justifico. Tudo aquilo que se afasta da realidade e aproxima do mágico e do idealizado prejudica imensamente a pessoa, que crê, assim, que desse modo estaria encontrando a realização e a felicidade. Penso também ser necessário para responder essa questão que tentássemos definir o que é uma doença do ponto de vista da mente. A psicopatologia é um termo utilizado para designar os distúrbios do psiquismo humano. Uma das causas desses distúrbios originam-se de um sofrimento intenso frente ao qual a pessoa não consegue construir recursos para lidar com a demanda da vida. Porém, não é só isso. O assunto é muito amplo. Há outras causas para os distúrbios da mente, inclusive causas de desequilíbrio bioquímico que necessitam serem medicadas. De qualquer forma, um desequilíbrio leva a uma interrupção do desenvolvimento e evolução da pessoa e essa quebra caracteriza uma doença pois prejudica o indivíduo na sua aquisição de recursos para enfrentar a vida que, a cada etapa, torna-se mais complexa. O propósito fundamental de uma relação terapêutica seria o de ajudar a pessoa que busca esse tratamento a fazer mudanças que lhe possibilitem viver sua vida de modo mais plenamente humano, e que a pessoa possa retomar seu desenvolvimento.

Cibele M. M. Di Battista Brandão é membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), membro do Núcleo de Psicanálise de Marília e Região NPMR) e docente dessas instituições. Atualmente, coordena a Comissão de Ética da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Minha vida (não) é um tédio

A sensação de vazio entediante que faz a existência parecer uma sequência estéril de dias sem qualquer sentido tem a ver com a falta de “criatividade psíquica”, que destrói a imaginação e o interesse real pelas coisas da vida.

Minha vida (não) é um tédio

Por Marion Minerbo*

Todos nós nos entediamos em situações específicas como passar horas no trânsito, num aeroporto, ou em uma festa em que não conhecemos ninguém. Mas o tédio que interessa ao psicanalista é aquele ligado à sensação crônica de vazio existencial: a pessoa sente que a vida não tem sentido, nada é vivido como significativo nem parece valer a pena. A vida é uma sequência estéril de dias e a pessoa não sabe o que fazer consigo mesma. Há um sentimento penoso e estranho de que o eu é construído artificialmente “de fora para dentro”, e não “de dentro para fora” com experiências genuínas, verdadeiras, com lastro.

O tédio costuma ser confundido com a depressão, mas são vivências diferentes. Na depressão o sentimento é de perda e de tristeza: havia algo que iluminava a existência, e este algo foi perdido. O deprimido não se sente vazio, mas “cheio de tristeza”, o que pode ser uma reação muito saudável diante de uma perda. Ele continua sonhando em recuperar aquilo que perdeu, enquanto o problema do entediado é que ele não sonha com nada. O mesmo afeto também costuma ser confundido com uma insatisfação com a vida. Até certo ponto, ela é positiva porque pode ajudar o insatisfeito a mudar de vida. Já a pessoa entediada vive um simulacro de vida. Ela ainda não conseguiu criar uma vida própria “de verdade”. Se “mudar de vida”, provavelmente em pouco tempo voltará a se sentir entediada.

Para não sofrer de tédio, muitas pessoas se lançam em atividades frenéticas, ou ao contrário, desligam-se dormindo muito. Podem usar drogas, ou então parasitar a vida dos outros. Celulares e redes sociais podem ser usados para disfarçar a sensação de vida vazia e sem sentido. (Note, porém, que esses mesmos estímulos podem ser usados de modo muito criativo). Quando, por qualquer motivo, esses recursos não estão disponíveis, o tédio se agudiza. Isso porque eles funcionam como “acompanhantes” que dão uma sustentação psíquica no tempo e no espaço. Quando faltam, a pessoa se sente largada de repente: ela cai e se esborracha brutalmente no vazio.

É a falta radical de criatividade psíquica que mata a imaginação e o interesse pelas coisas da vida, originando o vazio e o tédio. Criatividade, aqui, não tem nada a ver com ser artista ou descobrir soluções criativas para problemas. Trata-se da capacidade de criar algum sentido para a vida, de acreditar em um motivo para sair da cama cada manhã. Uma criança com um desenvolvimento psíquico normal não se entedia, pois é capaz de pegar qualquer coisa, uma tampinha de garrafa, e imaginar uma brincadeira com aquilo. A criatividade é a função psíquica mais importante porque “ilumina” nossas vidas. E então qualquer coisa pode se tornar interessante, envolvente e valiosa.

* Marion Minerbo é psicanalista, analista didata e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Autora dos livros Neurose e Não-Neurose (Ed. Casa do Psicólogo), Transferência e Contratransferência (Ed. Casa do Psicólogo) e Diálogos sobre a clínica psicanalítica (Ed. Blucher), que será publicado no início do segundo semestre.

In-Tolerância ! O que a Psicanálise tem a dizer – parte 2

Sob o prisma das relações de alteridade e de responsabilidade, a questão ética nos coloca empaticamente relacionados com o outro em diversos graus

Por Ilana Waingort Novinsky*

A experiência clínica hoje aponta que não podemos limitar o nosso foco apenas à vida intrapsíquica presente e manifesta dos pacientes, sem prestar atenção ao que se passa ao nosso redor. Para realizarmos o trabalho analítico e lidar com os novos tipos de sofrimento e adoecimento que se apresentam em consultórios, é necessário resgatar os valores que nos colocam em reverência à alteridade, compreendida como matriz de uma ética individual e das relações humanas. Para acolhermos o outro, que é sempre diferente e estranho, é preciso poder reconhecermos que ele é um ser humano como eu.

É a relação com o outro, o pertencer a um grupo, o ser parte de uma comunidade o que constitui a condição fundamental para o nosso vir a ser e para o desenvolvimento da singularidade de cada um. A questão ética aqui se refere às condições necessárias para o acontecer humano, isto é, ao que permite a cada um de nós participar de uma comunidade.

Habitualmente a ética é vista como fruto do aprendizado, de algo que se acrescenta a uma personalidade que estaria se formando, se organizando, daí a importância dada à educação.

Entretanto, o trabalho do psicanalista inglês Donald W. Winnicott nos mostra que a questão ética faz parte da própria condição humana, do modo de ser de uma criança, do que lhe é originário. Há, desde o início da vida, segundo Winnicott, um pressentimento do ético: uma criança que tem a experiência de ser cuidada, recebe desta forma também um saber sobre a ética, um elemento fundante, sobre o qual inúmeros outros elementos psíquicos podem acontecer.

O que caracteriza o cuidado ético é a atitude que se exprime na consideração pelo outro e por suas necessidades. Na ausência desta atitude as ações do cuidar perdem sua motivação ética, se desvalorizam e deterioram. Quando este cuidado ético não acontece, temos a presença de fraturas nos fundamentos da ética da criança, e ocorrem fissuras psíquicas no seu desenvolvimento.

Nossos pacientes são testemunhas dessas fragmentações éticas, com seus inúmeros sofrimentos, como a perda do sentido de si e do contato com os outros. Podem sentir uma profunda solidão, sem alguém que os façam se sentir humanos e pertencendo à comunidade humana, e desenvolver assim uma visão niilista da existência. Aqueles que não experimentaram este cuidado ético fundante tendem a reproduzir comportamentos de violência explícita no nível social, tendências anti-sociais, através da participação em organizações delinquentes, como tentativas de sobrevivência psíquica.

Todo ser humano nasce numa experiência de “nós”, de pertencer a um grupo familiar e precisa viver a experiência de hospitalidade, como experiência fundante, neste seu grupo familiar e humano. Este cuidado é parte fundamental das condições ontológicas da constituição da pessoa humana, e sem ele a dimensão ética é apenas superficial ou impossível de ser acessada. Isto significa que sem a experiência de cuidado não temos como conviver e viver em um mundo hospitaleiro e solidário, com compaixão e tolerância. Cuidar, aqui, implica tolerar o outro: aquele que não foi cuidado, recebido como um outro, tem pouca possibilidade de poder receber também um outro, de tolerar a singularidade do outro.

A criança que encontra apenas figuras que encarnam força, mas que não lhe permitem ter as experiências fundantes aqui apontadas pode desenvolver ideais fantásticos de si mesma, desenraizada da condição humana. Pode também buscar a autoridade pelo negativo, entrando em uma sequência de comportamentos delinquentes na busca de quem a pare, de quem a devolva a uma ética da condição humana. Estas são situações que ocorrem a partir do sofrimento de crianças que viveram a violência e a intolerância.

Hoje, os indivíduos, famílias, grupos e instituições mostram-se incapazes, muitas vezes, de oferecerem estas formas fundamentais de cuidado, pois passam por graves descontinuidades e arcam com certo descrédito.

A proliferação de ideologias e grupos totalitários e a globalização de diferentes formas de intolerância, mais uma vez, atestam as falhas nos dispositivos de acolhimento e reconhecimento disponíveis no mundo contemporâneo. Uma sociedade tecnológica, de competição e da imagem revela, assim, pelo avesso as graves deficiências em mecanismos sociais de reconhecimento dos indivíduos em suas singularidades.

Os fenômenos totalitários chamam a atenção para a intensa demanda de inclusão e da busca de objetos capazes de fornecer sustentação e continência. É justamente a massa de indivíduos, avulsos e desamparados, a que mais se sente atraída pelas promessas de englobamento absoluto, proferidas pelas ideologias totalitárias e seus líderes.

Na questão da tolerância, a meu ver, não se trata de “tolerar, ou ter paciência” com o mais “fraco, infantil ou necessitado”, ou seja, de uma relação de poder. Trata-se de ver, sentir e viver com o Outro, de reconhecer como partilhamos as mesmas necessidades, fragilidades e angústias. Neste contexto a experiência de empatia surge como experiência humana fundamental.

Estamos aqui no campo do entre-nós, onde precisamos acolher o desproporcional, o trágico e o paradoxal, como aspectos inerentes ao nosso campo de experiências, estudos e reflexões. Desta forma, a perspectiva epistemológica usada tanto no estudo sobre a pessoa humana quanto nas relações de tolerância e intolerância, mais do que ser um elemento relacionado à teoria do conhecimento, expressa uma posição ética.

A questão da intolerância/tolerância, sob o prisma das relações de alteridade e da responsabilidade, nos coloca empaticamente relacionados em diversos graus com o Outro.

Quando não podemos mais acompanhar e sermos acompanhados nas nossas necessidades e vocações, estamos em meio à intolerância e em seu extremo, na barbárie: quando o Outro é usado, negado, em nome de objetivos e justificativas os mais variados. Não é apenas a ética que está em suspensão, mas ocorre uma destituição da pessoa humana em níveis tão profundos que a própria capacidade de atuação desaparece e o ser humano perde seu lugar, como ator psíquico e político, como ocorreu durante as perseguições e campos de concentração nazistas.

Uma reflexão psicanalítica sobre a questão da tolerância/intolerância, nos leva à questão das necessidades éticas fundamentais, sem as quais estamos condenados ao adoecimento e à barbárie – à intolerância.

*A psicanalista Ilana Waingort Novinsky é Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e o texto acima é a segunda e última parte de um ensaio em que ela discute e intolerância.

No tempo da diversidade

No tempo da diversidade

Para lidar com as novas diferenças macro e microculturais nas relações e vínculos dos grupos, da família ou do casal, é precisar criar espaços para reflexão e buscar respostas que sugerem renovações teóricas e clínicas.

Por David Levisky *

Trabalhos psicanalíticos recentes tem tratado a diversificação dos espaços psíquicos e as modalidades inconscientes de seus funcionamentos. O sujeito, o vínculo e o grupo, a saber o casal, a família e mais largamente a cultura revelam uma complexidade que o VII Congresso da Associação Internacional de Psicanálise de Casal e Família (AIPCF), que acontece em entre 3 e 7 de agosto, em São Paulo, se propõe a explorar ao nível das renovações clínicas e teóricas.

Uma primeira dimensão da diversidade cultural encontra-se na psicanálise de família, já que o grupo contém diferenças macroculturais de origem social ou étnica. Mecanismos de defesa como a negação e conflitos entre ideais culturais pesam significativamente na vida psíquica da família. Como trabalhar os processos associativos durante a sessão analítica para colocar em evidência e conduzir na direção de uma diferenciação que integra ou não a diversidade cultural?

Os conflitos culturais podem ser reminiscências de mudanças sociais em ressonância com a história da família ao mesmo tempo em que são portadores do inédito e estão voltados para o futuro? No seio de uma mesma família há uma segunda dimensão da diversidade cultural oriunda de processos contínuos das diversidades microculturais ao longo das gerações. Como ajudar a família a superar as turbulências ligadas a eventos que geram processos defensivos e fazer evoluir em sua microcultura?

Um terceiro aspecto da diversidade cultural em psicanálise de casal e família atinge a cultura pessoal e psicanalítica do analista, particularmente no trabalho gerado no campo transferencial/contra-transferencial. A psicanálise de casal e família é uma traição a uma suposta ortodoxia psicanalítica ou, pelo contrário, uma diversificação do exercício psicanalítico, um avanço capaz de enriquecer o corpo metapsicológico?

Estas são algumas das questões que o VII Congresso se dispõe a debater e desde já contamos com a participação dos colegas, cujas presenças certamente enriquecerão o debate e as respostas para temas da maior relevância.

*David Levisky é psicanalista e membro efetivo da SBPSP.