Método psicanalítico

Intersubjetividade, alteridade e terceiridade: por uma teoria psicanalítica viva para lidar com desafios da nossa época

Por Talya S. Candi*

Os múltiplos desafios da clínica na atualidade exigem que o psicanalista se debruce sobre os aspectos intersubjetivos da experiência analítica. Isto implica poder criar e construir junto com o paciente um dispositivo e uma linguagem feitos sob medida para permitir o desenvolvimento de uma relação baseada na confiança e na sinceridade. A descoberta da contratransferência inaugurou uma nova visão sobre o processo analítico, que não transcorre apenas do lado do paciente, mas também do lado do analista. A.Green (1975) nos sugere pensar a situação analítica a partir de uma concepção global da contratransferência que inclui diferentes aspectos de seu funcionamento mental desenvolvidos em suas experiências pessoais de análise e formação, em seu diálogo com teorias e colegas e sobretudo no contato com seus pacientes. A subjetividade do analista, seu corpo, suas crenças, pensamentos e história de vida estão implicados no processo analítico e devem ser cuidadosamente monitorados pois podem não só estabelecer conluios inconscientes com o analista, mas também e sobretudo se constituir numa das fontes mais valiosas para a elaboração da interpretação. Os conluios devem ser vistos como “nós interativos” que podem paralisar a imaginação e o pensamento criativo do analista e imobilizar o processo analítico. A analista inglesa Betty Joseph estudou em detalhes este tipo de conluio.

Não é possível, no entanto, que haja um verdadeiro processo de análise se o analista não se dedica a processos de identificação com o paciente, concordantes ou complementares, e se não tolera também momentos de indiscriminação e fusão. Em suas respectivas conceptualizações sobre o terceiro analítico, Green(1975) e Ogden (1994) postulam a ideia de que o objeto analítico é construído por paciente e analista. Para estes autores, os momentos de intensa empatia e ligação intersubjetiva devem se alternar dialeticamente com outros de maior distância e discriminação entre paciente e analista. Este vai-e-vem entre vivências de fusão e outras de discriminação, ligação e desligamento, junção e separação, mobiliza os afetos e as representações que promovem a criação do sentido e a simbolização. O progresso da análise leva ao crescimento da capacidade reflexiva compartilhada, o que permite ao paciente (e também ao analista) uma visão mais objetiva de si mesmo. Neste delicado contexto, a atuação do analista objetiva trabalhar a partir do segundo olhar, visando sempre se apropriar dos pedaços mais estranhos de si mesmo, das alteridades, de dentro e de fora, do inconsciente e dos outros que ameaçam o mundo ideal da plenitude narcísica. Para T. Ogden, a tarefa analítica deve envolver o esforço para ajudar o paciente a se tornar humano em um sentido mais amplo do que ele conseguiu até aquele momento. Ajudar o analisando a se tornar mais plenamente humano implica facilitar as tentativas do paciente de experimentar uma gama mais ampla de pensamentos, sentimentos e sensações percebidos como próprios na sua diferença, e que ele sente terem sido gerados no contexto de suas próprias relações presentes e passadas com outros seres humanos (inclusive com o analista). Neste contexto, a interpretação analítica torna-se o instrumento para expandir os vínculos entre as experiências emocionais significativas e promover novos vínculos que ampliem a rede do sentido e o repertório do que significa se sentir vivo .

*Talya S. Candi é psicanalista, membro da SBP-SP e a coordenadora do evento “Intersubjetividade, Alteridade, Terceiridade: Que conceitos são estes e sua relevância para a Psicanálise Contemporânea”, uma série de conferências e discussões que acontecem no sábado, 12 de março, na sede SBP-SP, a partir das 9h, numa iniciativa Diretoria Científica da SBP-SP.

A Psicanálise de bebês, crianças, adolescentes e suas famílias

Por Maria Thereza de Barros França [1], Regina Elizabeth Lordello Coimbra [2] e Ligia Todescan Lessa Mattos [3]

É mais fácil atender crianças em análise do que adultos? Existe atendimento psicanalítico para bebês? E adolescentes, é difícil atendê-los? Vamos nos lembrar de uma popular cantiga de roda que serviu de inspiração para este texto: 

Ciranda, cirandinha

vamos todos cirandar

vamos dar a meia-volta

volta e meia vamos dar.

O anel que tu me destes

era vidro e se quebrou,

o amor que tu me tinhas

era pouco e se acabou.

Por isso, Dona Fulana

faz favor de entrar na roda,

diga um verso bem bonito

diga adeus e vá-se embora.

O “cirandar” nos remete ao trabalho psicanalítico com crianças, no qual precisamos (re)aprender a brincar, entrar e sair da roda, lidar com interação, amor, desamor, individuação, possibilidade ou não de reparação, separação, movimento, regressão, desenvolvimento.

É comum a ideia de que é “mais fácil” atender crianças já que são mais espontâneas, menos defendidas e que seria simples estabelecer um contato lúdico com elas, recorrendo às nossas próprias experiências infantis, ou de contato com crianças dos nossos relacionamentos. É essa ideia que leva muitos jovens começarem sua vida profissional atendendo crianças.

No trabalho com a criança uma questão se coloca: “infante” é aquele que não fala. Então, como é que a criança fala? E como é que é possível falar com a criança?

O campo é repleto de variáveis e exige do analista, antes de tudo, condições pessoais, não apenas emocionais, mas entusiasmo, disposição para brincar, (já que o brincar é a fala da criança), interesse genuíno e prazer de desfrutar do contato analítico com crianças. Essas condições, é claro, não dispensam os conhecimentos acerca do desenvolvimento emocional infantil, dos fatores que o favorecem, aqueles que o prejudicam, das patologias decorrentes e das questões técnicas ligadas à especificidade do trabalho.

Ao longo dos anos, a psicanálise vem acumulando conhecimentos sobre o desenvolvimento inicial das crianças, a partir da observação de bebês e de sua interação com suas mães. Hoje já se fazem atendimentos interessantes que têm como foco a relação pais-bebê e que permitem que precocemente sejam detectados sinais de riscos ao desenvolvimento. Um trabalho preventivo torna-se então possível.

Por sua vez, a infância, a puberdade e, particularmente, a adolescência, são períodos de transformações que exigem do analista conhecimento, sensibilidade e disponibilidade para lidar com as demandas emocionais de cada um desses momentos do desenvolvimento humano.

Essas características do trabalho do psicanalista de crianças e adolescentes vêm, cada vez mais, impondo também a necessidade do atendimento aos pais que procuram ajuda para seus filhos. Esse atendimento se inicia desde o momento de recebê-los e acolhê-los e se prolonga ao longo de uma construção conjunta do entendimento das dificuldades que enfrentam com seus filhos.

Considerando toda a complexidade do atendimento de crianças e adolescentes, um grupo de psicanalistas formados na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, pensou em oferecer um espaço aberto a jovens psicólogos, pediatras, psiquiatras infantis, profissionais da educação (e de áreas afins) para o estudo e o entendimento desse período do desenvolvimento do ser humano, do nascimento à adolescência.

Assim como os jovens profissionais que iniciam suas carreiras atendendo crianças, esses psicanalistas também fizeram sua trajetória começando pela psicanálise de crianças e adolescentes e permaneceram nesse campo ao longo dos anos.

O CURSO

A SBPSP e a Diretoria de Atendimento à Comunidade, que tem entre suas finalidades a difusão da psicanálise para a sociedade, encamparam a ideia e ofereceram respaldo para a criação do curso CINAPSIA – Curso Introdutório ao Atendimento Psicanalítico de Crianças e Adolescentes.

A sigla CINAPSIA faz alusão à palavra “sinapse” que nos remete ao sistema nervoso, aos pontos de contato entre as terminações das células nervosas, os neurônios. Do significado da palavra sinapse destaca-se o de união, aspecto que orienta o curso, pelo importante papel que os vínculos afetivos e elos de ligação de várias ordens desempenham no processo de desenvolvimento psíquico.

O CINAPSIA não se propõe a formar psicanalistas, mas sim desenvolver uma atitude: o olhar e a escuta psicanalíticos voltados ao bebê, à criança, ao adolescente e seus pais. As aulas abordarão o processo de desenvolvimento, partindo da família que aguarda o bebê, a chegada do mesmo, seu crescimento, as características da latência, as transformações da adolescência, as perturbações que podem afetar esse processo e sua abordagem terapêutica. O curso abre também espaço para que os alunos, em pequenos grupos, exponham suas experiências e discutam com os professores que coordenam a atividade.

O CINAPSIA irá oferecer ocasião singular para estudo, reflexão e debates científicos sobre o atendimento psicanalítico de bebês, crianças, adolescentes e suas famílias, contando para tanto, além do seu corpo docente (relacionado abaixo), com alguns analistas convidados, brasileiros e estrangeiros.

[1] Membro efetivo da SBPSP, docente do Instituto Durval Marcondes e psicanalista de crianças e adolescentes pela IPA, coordenadora do CINAPSIA.

[2] Membro efetivo da SBPSP, docente do Instituto Durval Marcondes e psicanalista de crianças e adolescentes pela IPA, diretora da DAC – Diretoria de Atendimento à Comunidade.

[3] Membro efetivo e didata da SBPSP, docente do Instituto Durval Marcondes, assessora da diretora da DAC.

 

 

 

Transtornos Alimentares

Os distúrbios alimentares figuram entre as patologias psiquiátricas que vêm apresentando maior crescimento em termos de incidência na população. Quem já se aproximou desse universo talvez tenha constatado a sua gravidade, em termos dos prejuízos físicos, psíquicos, afetivos e sociais. Não é apenas o corpo que se torna anoréxico. Todo o psiquismo adoece no sentido da perda de vitalidade, de apetite e do prazer. Sobre esse complexo tema, vale conferir a entrevista com a psicanalista Marina Ramalho Miranda*, que vem se dedicando ao estudo do tema.

Como a psicanálise entende e avalia o recente crescimento na incidência de casos de transtornos alimentares (TA’s)?

Embora os transtornos alimentares, entre eles, as anorexias e as bulimias, sejam novas vestes para antigas patologias, não há quem não perceba esse aumento da sintomatologia em nossos dias.
Tanto na literatura sobre o tema, quanto em minha experiência, existe uma concordância de que uma multiplicidade de fatores combinados é responsável pelo surgimento dos transtornos alimentares e penso que quando pesquisamos sobre o aumento na incidência deles em nossos consultórios, hospitais e serviços de saúde mental, temos que considerá-los em conjunto.

Os fatores que compõem a etiologia dos transtornos alimentares são os constitucionais (genéticos e biológicos), psicológicos (intra-psíquicos), familiares e sócio-culturais.
Pensemos juntos, em que tempos vivemos, atendo-nos nesse início de conversa a essa dimensão.
Como um dos temas prediletos da atualidade, o corpo reina absoluto quando se conjectura sobre o tão falado trinômio juventude-beleza-saúde, pondo em risco a dimensão da mente, ou seja, corpo e mente que deveriam estar juntos e em fluente integração começam a ficar destacados um do outro, e o corpo (e seus correlatos, como a sua nutrição, aspecto, vestimentas, etc.), gradativamente assume uma posição-alvo de exigências de perfeição e controle, sem que as pessoas se dêem muito conta dessa dinâmica de hipervalorização .

Este cenário cria uma espécie de “inter-patrulhamento” da aparência física, e, em particular, no que diz respeito ao volume corporal (será que estão implícitos nessa preocupação questionamentos a respeito do espaço e lugar que ocupa no mundo?) Daí, o próximo passo recai sobre a alimentação. As mulheres, mais do que os homens, são afetadas e fiscalizadas na difícil missão de manter um corpo eternamente jovem, belo, saudável e… magro! Dietas severas de emagrecimento proliferam em todos os cantos e discursos e acabam por ficarem misturadas com a solução para o alcance não só do corpo magro e aceito, mas da felicidade e sucessos almejados.

A psicanálise entra na roda nesse momento, em que a comida e a alimentação perdem seu sentido de combustíveis para a vida, deixam de estar a serviço do viver e como num espiral estonteante entram numa alquimia culinária e se transformam em emoção, medos, horrores, enfim toda sorte de afetos. Ela mergulha na especificidade dos vínculos familiares de cada paciente atendida, especialmente na relação entre as mulheres, nutridoras por natureza, mãe-filha-irmã (muitas vezes a avó também participa, contribuindo para o trabalho), coadjuvantes essenciais do processo psicanalítico, pois temos hipóteses de que esses vínculos já vêm sofrendo dificuldades antigas na troca afetiva, tornando-se mais vulneráveis e porosos às influências do emocional ambiental .

Em termos gerais, na anorexia e na bulimia surge a declaração de uma guerra contra a gordura, que passa a ser a principal vilã de suas vidas. Na obesidade, a comida pode ocupar o lugar da falta, preencher um vazio, amenizar um vácuo que nada tem a ver com a comida em seu sentido concreto, saciar uma fome que vem de outros lugares (ou não-lugares), territórios a serem explorados em companhia.

Mary Del Priore (2000), historiadora, defende a ideia de que hoje a história das mulheres passa pela história de seus corpos e com humor, observa:
“Diferentemente de nossas avós, não nos preocupamos mais em salvar nossas almas, mas em salvar nossos corpos da desgraça da rejeição social. Nosso tormento não é o fogo do inferno, mas a balança e o espelho.”

Há, entre os médicos, uma controvérsia sobre a psicanálise ser um método indicado para tratar pessoas com TA’s. Qual a sua posição? Pela sua experiência clínica, a psicanálise pode ser um método efetivo?

Constato, a partir de meus estudos teórico-clínicos e das inúmeras pesquisas que encontramos na Universidade e na SBPSP, e especialmente, a partir da experiência clínica de atendimento à(o)s pacientes e sua família, que o tratamento psicanalítico dos transtornos alimentares não só é indicado, mas completamente imprescindível. Sustento a ideia de que a presença do psicanalista integrando a equipe multidisciplinar de atendimento abre frestas no mundo hermético dos transtornos alimentares, favorecendo a revisitação e o exercício da linguagem falada, reaproximando essas mentes sofridas e danificadas pela força de defesas destrutivas que as isolam e enclausuram, reconduzindo-as ao mundo da interação fértil. A viva troca nutritiva que a presença e a linguagem instauram conduz ao reino do pensamento simbólico, ao reino do sonhado e do imaginado, tão inibidos no universo dos transtornos alimentares.

Será o psicanalista que irá oferecer uma escuta que se concentra na investigação do que não pôde ser dito ou do que não pôde ser ingerido (ou absorvido em excesso), do que não aparece (ou do que desnuda), do que está interditado (ou do que transborda) permanecendo desconhecido e estranho à compreensão do paciente, que por sua vez se alivia ao descobrir que seus sintomas não serão vistos como doença e sim como sinais indicativos de que algo muito sério aconteceu em algum momento de sua vida, alterando o rumo de desenvolvimento a ser seguido. A(o) paciente fala pelo corpo e com o corpo. O comer o nada ou o tudo devorar, o vomitar e expurgar são tomados como pistas a serem seguidas ou como rastros de conteúdos emocionais brutos, contraditórios, que entraram intrusivamente em seu interior e pedem para serem remastigados. A abordagem psicanalítica, com seu approach que caminha na interioridade, num movimento de olhar de dentro para fora, lê o corpo da paciente com transtorno alimentar como uma tela onde está estampada sua história pessoal. Está atenta às variações da linguagem não-verbal, não se contentando com as expressões atuadas comportamentais, mas tentando acompanhar cada paciente na individualidade e singularidade de suas expressões que, muitas vezes, se apresentam pelo avesso.

Esta tarefa pertence à psicanálise… as pessoas que sofrem desses distúrbios sentem fome desse tipo de compreensão, que se dirige para além do corpo e das comidas e se aliviam ao finalmente experenciá-la.
Um dos sintomas mais difíceis nos TA’s são as distorções da auto-imagem corporal. Sendo um método verbal, o tratamento analítico tem como chegar nesse tipo de sintoma?

Quanto mais intensas forem as distorções da imagem corporal, maior a gravidade desses quadros, pois ficam mais evidentes a força e a intensidade das fantasias que, alterando a percepção de si retiram o indivíduo do acesso ao seu próprio conhecimento e da sua interação com o mundo, deformando a experiência e a impregnando de sensações de desprazer o tempo todo. Continuamos no terreno de contribuições da escuta e da fala psicanalíticas.

Para a psicanálise, e na sua opinião, faz sentido pensar que a nossa cultura de valorização extrema da magreza seja de fato um fator desencadeante da doença? Ou são os conflitos internos e inconscientes os maiores determinantes?

Na resposta à primeira pergunta, aponto a inter-relação de múltiplos fatores agindo conjuntamente para a eclosão de um transtorno alimentar. Não dá para dizer que um deles é mais desencadeante do que o outro. Daí a importância do atendimento em equipe, que tenta mergulhar e dar um espaço especial a cada dimensão e consequências dos transtornos: a medicina, com ênfase na psiquiatria, muitas vezes a endocrinologia, a ginecologia e a cardiologia , a nutrição com sua nuclear contribuição, a orientação familiar, o educador físico auxilia bastante quanto à regulação dos exercícios físicos, que, unidos junto ao profissional psi vão formar uma espécie de família-prótese e comporão um modelo de união de esforços em contraposição a atitudes de patrimônio do atendimento.

Os sintomas dos TA´s são característicos de alguma estrutura psíquica em particular (neurose, psicose, perversão, etc) ou eles transcendem esse tipo de classificação?

Essa pergunta colocada em último é muito acertada, pois é ilustradora do que foi discutido nas anteriores. Na sequência da 4ª reposta, o leitor já pode responder por si essa questão, percebendo a multiplicidade de dimensões encontradas nos transtornos alimentares.

A partir de toda essa complexidade discutida e da especificidade e singularidade de cada situação, como enquadrar esses fenômenos alimentares numa mesma classificação? Como apertar um indivíduo tão singular em seus sinais de perturbação dentro de uma categoria nosológica isolada?
Até os manuais médicos de diagnóstico tem para as anorexias e bulimias um lugar especial e onde elas existem por si dentro do índice geral dos transtornos da alimentação.

Os transtornos alimentares, e em especial, as anorexias e as bulimias, fazem um passeio por entre as variadas psicopatologias referidas pela psiquiatria e não se encaixam em nenhuma delas, ao mesmo tempo em que as contemplam, nos mais diferentes graus.
Sintomas de alto sofrimento para quem deles se aproxima, mas que se forem acolhidos por companhias com um bom apetite para o trabalho, culminarão em nutrição saudável para todos.

Referências
1- KRISTEVA, J. (2002) As novas doenças da alma. Rio de Janeiro: Rocco, 2002.
2- PHILIPPI, S.T. e ALVARENGA, M. Transtornos alimentares. Uma visão nutricional. São Paulo: Manole, 2004, p. 42.
3- RIO, L e RIO, T. Diários da anorexia. São Paulo: M. Books do Brasil Editora Ltda, 2004.
4- DEL PRIORE, M. De corpo a corpo com a mulher. Pequena história das transformações do corpo feminino no Brasil. São Paulo: SENAC, 2000, contracapa.
5- WILLIAMS, G. (1997) Reflections on some dynamics of eating disorders: “no entry” defenses and foreign bodies in International Journal of Psychoanalysis, 78, 927.

*Marina Ramalho Miranda é psicanalista, membro efetivo e docente pela SBPSP. É Mestre e Doutora pela PUC-SP.

Psiquiatria e psicanálise: É possível um diálogo?

Em que medida a psiquiatria e a psicanálise – campos de conhecimentos distintos – podem ser utilizados em conjunto no tratamento dos transtornos mentais? É possível um diálogo fecundo entre as duas disciplinas, tendo em vista os métodos próprios de cada uma delas?
Sobre o tema, vale conferir o ótimo e esclarecer artigo da psicanalista Thais Blucher, membro da SBPSP.

Psiquiatria e psicanálise: É possível um diálogo?

Por Thais Blucher*

Recentemente, numa reunião de psicanalistas, um colega foi criticado quando relatou que determinados pacientes em análise necessitavam de um acompanhamento psiquiátrico concomitante. Num outro evento, em conferência num hospital, ouviu de uma colega psiquiatra que ela contraindicava psicanálise para pacientes mais graves que poderiam piorar com o método.

Esse relato parece ilustrar a dificuldade de diálogo que se intensificou nos últimos anos – um confronto entre as correntes biológicas e as correntes psicológicas – no tratamento dos distúrbios mentais.

A psiquiatria e a psicanálise são disciplinas distintas.
A psiquiatria é uma especialidade médica que estuda e trata os transtornos mentais tanto com medicamentos quanto com métodos psicoterápicos. Os psiquiatras, em sua formação, estudam a anatomia, a fisiologia das estruturas neuronais e as patologias da mente. Aprendem a bioquímica do comportamento e toda a farmacologia. Têm durante sua formação um panorama geral das abordagens distintas de psicoterapia, sendo a psicanálise uma delas. Caso o psiquiatra tenha a intenção de se tornar psicanalista deverá fazer uma formação em psicanálise nas diversas instituições reconhecidas.

Já a psicanálise nasce da medicina, com Freud, médico neurologista de Viena que, na escassez de recursos para tratar o sofrimento de seus pacientes, cria uma nova abordagem terapêutica, descolada da anatomia e fisiologia. Já na sua origem, a psicanálise se distancia do modelo médico da época.

Baseado em observações clínicas, Freud elaborou um modelo para elucidar o funcionamento mental e a formação dos sintomas, embora acreditasse que as explicações biológicas pudessem um dia ser alcançadas para explicar as transformações numa análise. Já nos primórdios ele valorizava a filosofia e a literatura como importantes conhecimentos para a prática psicanalítica. Se no início da psicanálise seus interlocutores são médicos, rapidamente ela vai agregando vários interessados de outras áreas. Em 1926 Freud publica um artigo em que defende a prática da psicanálise por não médicos, distanciando ainda mais essa disciplina de uma prática médica.

Durante a primeira metade do século 20, houve um grande domínio da psicanálise nos tratamentos psiquiátricos ambulatoriais, particularmente a psiquiatria Americana.

Na década de 50, surgiram os primeiros medicamentos psicotrópicos e, nas décadas seguintes, ao mesmo tempo em que as drogas progressivamente entravam na prática ambulatorial, também aumentava a polarização da psiquiatria entre os campos “biológico” e “psicológico”. Com o avanço das diretrizes diagnósticas e da metodologia das pesquisas, a medicina cada vez mais passou a ser baseada em evidências, território no qual os estudos com psicofármacos desenvolveram-se imensamente (muito incentivados pelos recursos da indústria farmacêutica).

Desse modo, comparativamente, a psicanálise, apoiada num paradigma muito diferente do tratamento medicamentoso, pouco pode provar sobre o quanto ela conseguia curar, prevenir ou retardar o curso dos transtornos mentais. Como consequência, a psicanálise foi se distanciando da comunidade médica, dando espaço para psicoterapias mais breves, mais simples de serem avaliadas como, por exemplo, o método cognitivo.

Como será que estas disciplinas conversam?

A psicanálise se propõe a compreender os sintomas por meio do método da associação livre, em que o paciente fala o que lhe vem à mente e o psicanalista tenta dar sentido ao relato, supondo que desta forma o sofrimento ganhará uma compreensão e poderá ser elaborado. Um bom modelo seria o de um quebra-cabeça. O paciente traz vários relatos sobre si e juntos, paciente e analista, tentam encontrar a ligação entre as peças e assim dar instrumentos para o analisando lidar com as questões da vida.

Ora, se o paciente encontra-se numa crise intensa seja depressiva, maníaca, de ansiedade, num distúrbio alimentar ou outras, esse sofrimento pode retardar ou até impedir a evolução do processo.

Num texto interessante, dois colegas psiquiatras e psicanalistas Fiks e Santos Jr citam a pesquisadora Kay Redfield Jamison, uma das maiores especialistas no campo dos transtornos bipolares, ela mesma portadora da doença, que relata que quando estava em excitação ou depressão não conseguia produzir nada.

Ao contrário da cultura leiga que acredita que a aceleração produza mais ideias e a depressão mais conteúdo ao sofrimento, Jamison relata que a excitação é muito pueril e que a inibição depressiva traz um sofrimento exagerado. Dentro deste ponto de vista, a medicação psiquiátrica será um instrumento de colaboração ao atendimento psicanalítico, pois alivia o paciente do excesso de sofrimento e permite maior condição para o desenvolvimento da análise.

Por outro lado, as medicações psiquiátricas têm seus mecanismos de ação e sua farmacocinética bastante conhecidas, mas nem todos os sofrimentos são resolvidos com os psicofármacos, sugerindo que existam outros fatores, que não apenas os biológicos, contribuindo para o desencadeamento e manutenção dos sintomas.

A psicanálise poderá trazer outra versão para os acontecimentos da mente e buscar na compreensão dos processos mentais a origem e o desencadeamento dos sintomas. Pode inclusive contribuir na melhor aceitação do analisando para o uso da medicação, compreendendo as fantasias inconscientes que às vezes impedem a aderência ao tratamento.

Finalizarei citando Frey, Mabilde e Eizirik num artigo para Revista Brasileira de Psiquiatria: “acreditamos que, ao abordar os problemas mentais a partir de uma visão exclusivamente biológica ou psicológica, pode-se estar negando um tratamento mais adequado ao indivíduo que sofre. Um dos nossos desafios é reconhecer a complexidade e a multifatoriedade dos transtornos mentais e buscar meios em que se possa integrá-los ou, ao menos, desenvolver e manter um diálogo respeitando as especificidades de cada um. Talvez essa meta precise levar o tempo necessário para a elaboração do luto da perda da onipotência daqueles que (ainda) defendem o reducionismo”.

*Thais Blucher é psiquiatra, psicanalista e membro da SBPSP.

Psicanálise da família

O atendimento psicanalítico de família é uma modalidade bastante importante nas situações em que a criança ou o adolescente sintomáticos expressam, na verdade, algo que não pode ser metabolizado pelo grupo familiar. Há todo um sistema inconsciente de operações exercido pela família e um aparelho psíquico que serve como sustentáculo para os filhos. Nesse processo, há uma comunicação que vai além daquilo que é conscientemente transmitido, com a possibilidade de que os filhos – em algum momento – manifestem algo que se instalou no grupo e que não pode ser elaborado. Sobre esse tema, vale conferir o artigo da psicanalista Vera Lamanno Adamo, especialista no assunto.

Psicanálise da Família

Por Vera Lamanno Adamo*

Todas as vezes que eles viajavam de perua Deus ia junto. Ele tentava falar, mas todo mundo era surdo.

Isto foi o que disse uma jovem paciente, em meio a um surto psicótico, quando lhe perguntaram sobre a sua família.
Que deus é este que esta jovem criou? O que ele tinha para dizer que ninguém conseguia escutar? O que este deus, ela mesma, tentava dizer que ninguém conseguia ouvir? Estava ela reclamando a presença de um Outro para escutar e dar sentido ao que, ela mesma, mal conseguia ouvir a respeito de si?

A família transmite ao recém-nascido sua maneira de apreender o mundo externo e de organizar o seu espaço interno. Os pais transmitem consciente e inconscientemente a possibilidade de transformar experiências sensoriais e emocionais, em elementos para experimentar o mundo e representa-lo no espaço interior. O funcionamento psíquico dos pais serve de invólucro e de sustentáculo para os filhos, como uma matriz de sentido. Isto é, o funcionamento psíquico dos pais forma uma espécie de aparelho psíquico familiar constituído por um conjunto de recursos psíquicos que oferece à princípio, uma moderação das angustias insuportáveis para evitar uma sobrecarga as quais, posteriormente, podem ser restituídas em elementos utilizados para imaginação, pensamento, sonho.

Há todo um sistema inconsciente de operações exercido pela família para enfrentar ou se evadir do sofrimento mental, de suas histórias de amor e ódio, suas perdas, seus lutos, de suas experiências mais ou menos traumáticas.

As funções do aparelho psíquico familiar, primeiramente tecido pelo casal e que, posteriormente, passam a fazer parte de uma aparelhagem psíquica comum e partilhada por todos, fundamentam-se na capacidade do grupo de receber, conter, ligar e transformar as angustias de cada um, permitindo, assim, uma comunicação entre consciente e inconsciente, realidade interna e realidade externa. Este processamento favorece um trabalho de discriminação entre eu e outro, fantasia e realidade, acontecimentos atuais e acontecimentos passados.

Quando a família busca ajuda através de uma criança ou adolescente sintomáticos compreende-se este fenômeno como a manifestação de uma não metabolização do grupo de vivências muito intensas, experiências esparsas, não representadas, impensáveis.

Quanto mais a família apresenta-se (e muitas vezes por meio de gerações) impossibilitada de viver limitações, privações, doença, dor, sofrimento, morte e luto, mais se instalarão defesas grupais radicais, como por exemplo, recusa de diferenciação entre o que é e o que não é característico do humano, da vida, da morte, da temporalidade, do feminino e do masculino.
Todas as vezes que eles viajavam de perua Deus ia junto. Ele tentava falar, enfatizou a paciente, mas todo mundo era surdo.

Esta não seria a sua forma de dizer que estavam todos mudos e surdos para aquilo que necessitava ser dito, ouvido, contido e transformado em uma linguagem que contivesse sentido e significado ?

Escutar uma família, tarefa essencial de um trabalho analítico, diz respeito à capacidade do profissional de processar como a família efetua a comunicação entre consciente e inconsciente; entre os conflitos atuais e o funcionamento mais arcaico; como manejam a individualidade de cada um; como a família reconhece suas dificuldades enquanto grupo, se tende a projetar os conflitos em um ou mais de seus membros, ou fora dela, se tende a banalizar, minimizar ou anular suas dificuldades. Uma escuta investida de experiência emocional passível de sentido.

*Vera Lamanno Adamo é psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e do Grupo de Estudos Psicanalíticos de Campinas.

Psicanálise em clínica extensa

Psicanálise em clínica extensa

Por Leda Herrmann*

Estamos em crise? Esta pergunta compreende, como resposta, tanto um sim, como um não.

Argumentos para o sim. Segundo Fabio Herrmann, a crise de mercado, de pacientes em consultórios, que já se manifestava na Europa e nos Estados Unidos a partir do final dos anos 70, deveu-se ao estreitamento da Psicanálise do amplo espectro de uma ciência do desvelamento do sentido humano para uma psicoterapia de consultório privado. Esse estreitamento favoreceu e fortaleceu o desenvolvimento de uma técnica terapêutica que se alimentava da produção teórica sobre o sujeito psíquico que ela mesma configurava. Uma clínica padrão foi se padronizando e se repetindo malgré as pressões que as alterações do mundo em que vivemos vinham impondo ao homem e ao seu mundo.

No século 21, os pacientes de psicanálise nos trazem características peculiares. Há uma alteração no sofrimento psíquico, que passa a se expressar pela passagem ao corpo a ao ato – como nas crises de pânico, nas adições às drogas, e nas dietas. Sua maneira de se expressar constrói um discurso na forma de afirmações, com poucas perguntas, evidenciando a dificuldade própria dos dias de hoje da autoexploração interior.

Também é difícil escutar o outro e constatamos, nos pacientes, urgência pela velocidade em receber respostas para o que não foi sequer perguntado. A subjetividade se modifica diante dessas condições do mundo, mundo que se faz conhecer por meio de informações e propagandas midiáticas transmitidas velozmente e não mais de forma direta. Nossa técnica padrão passa a ser constantemente desafiada.

E o “não” para a crise?

Frente às transformações no e do mundo contemporâneo, constrói-se uma clínica que amplia seus modos para além do padrão, tradição nas análises regulamentadas institucionalmente para a formação de analistas. Trata-se de uma clínica que vem se transformando nos quesitos de setting em relação à frequência, uso do divã e mesmo ao consultório privado. Passam a fazer parte do cardápio de nossa clínica as análises de baixa frequência semanal e em circunstâncias pouco convencionais, como atendimentos por skype ou telefone, em hospitais e em outras instituições que, se apresentam alterações de técnica, não se desviam de nosso invariante: o método interpretativo com que Freud inventou a Psicanálise.

Para resposta pelo não, estou me valendo da extensão da clínica. As peculiaridades da clínica extensa deste século 21 não se restringem ao enquadre. Ela responde à demanda da sociedade e passa a estar presente em instituições diversas que não se limitam a hospitais ou outras da área de saúde. No entanto, não tenho dúvidas em reconhecê-la clínica psicanalítica por duas das condições com que se apresenta. Por um lado a clínica extensa realiza-se pela ação do método interpretativo, nossa marca, que dá vez ao conteúdo latente (também poderíamos dizer, inconsciente), suporte dos sentidos que se mostram diretamente por palavras ou ações; por outro, cumpre função terapêutica – a cura no sentido apontado por Freud em 1926 no seu texto “A questão da análise leiga”, de possibilitar ao paciente o uso de seus recursos internos que estavam, até então, inacessíveis por força de repressão.

*Leda Herrmann é psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e autora de Andaimes do Real: A Construção de um Pensamento, Casa do Psicólogo, 2007.

Função da Psicanálise

Afinal, para que serve a psicanálise? O que está em jogo durante o tratamento analítico? Qual o papel do psicanalista? Tais questões são discutidas no artigo abaixo, do psicanalista e membro da SBPSP Claudio Castelo Filho. Vale a leitura!

Função da Psicanálise

Por Claudio Castelo Filho*

Corroída pela própria rejeição de si mesma, uma pessoa não pode contar consigo mesma. Enfraquece, adoece, e fica cada vez mais a mercê dos grupos e da opinião alheia às quais não pode fazer face por não dispor de recursos com que contar. Uma pessoa que está de bem consigo própria pode pertencer a qualquer tipo de minoria (as pessoas que consideram e se valem do próprio discernimento, adquirido pela experiência e não por submissão a autoridades ou dogmas, sempre fazem parte de uma minoria), mas estando em maioria consigo mesma, poderá enfrentar e lidar com esse fato.

Considero que a única função de uma psicanálise é apresentar uma pessoa a ela mesma – a quem de fato é, não a quem acredita ser, ou considera que deveria ou seria o certo ser – para que possa, se assim quiser e se dispuser, “casar-se consigo”. Como ela mesma é a única pessoa de quem de fato não pode se separar, seria fundamental para sua qualidade de vida e possível felicidade que esteja num bom casamento com sua própria personalidade.

Não tente se curar de você mesmo! É como doença autoimune: devasta!

Mesmo que uma pessoa possa ter uma natureza como a do Japão, com terremoto, maremoto, vulcões, tufões, invernos rigorosos, pouca terra produtiva, o reconhecimento e respeito a essa natureza, considerando-a tal como realmente é, e não como seria bom que fosse ou como deveria ser, permite um grande desenvolvimento justamente por conta da necessidade de manejar e tirar partido dessa natureza. Brigar com ela ou negá-la certamente não resulta em boa coisa… E certamente o que lá fizeram evidencia o quanto de proveito conseguiram tirar dessa natureza. Como dizia Wilfred Bion: how to make the best of a bad job, ou como se diz em português: como tornar proveitoso um mal negócio. Obviamente o psicanalista não faz isso só. A cooperação e o interesse verdadeiro do analisando em conhecer a realidade, mesmo que a princípio possa se sentir muito incomodado com o que for percebendo, são fundamentais para a tarefa ir adiante. A atitude de verdadeira compaixão e simpatia humana por parte do analista é também fundamental. Isso só é possível para um analista que tenha tido ele mesmo a mais extensa e profunda análise de sua própria personalidade. E numa formação séria de um psicanalista essa é uma questão sine qua non..

Minha tarefa é a de auxiliar uma pessoa a usar seus próprios recursos psíquicos, aqueles que realmente tem, que são os passíveis de evoluir com o processo analítico, para pensar por si mesma. Paradoxalmente, o desenvolvimento da autonomia de um indivíduo e de sua possibilidade de pensar livre e criativamente é o que pode trazer as maiores contribuições reais para os grupos de que possa fazer parte. Basta considerar o exemplo de Freud.

* Claudio Castelo Filho é analista didata da SBPSP, doutor em Psicologia Social, professor livre docente em Psicologia Clínica pela USP.

claudio.castelo@uol.com.br

O fim de um processo de análise e a noção de cura em psicanálise.

É comum ouvirmos que psicanálise é um processo longo e interminável. Será mesmo? Como e quando saber que um processo de análise chegou ao fim? Na Psicanálise, como se trabalha o conceito de “cura”? É possível utilizar esse parâmetro, quando lidamos com o adoecimento psíquico?
Abaixo, segue interessante entrevista com a psicanalista e membro da SBPSP, Maria Olympia França*, sobre o tema.

1) Como saber em que momento um processo de análise chegou ao fim? Essa é uma decisão que deve vir do analista ou do analisando? Quando vem do analisando, a vontade de parar deve sempre ser interpretada como um trabalho da resistência?

Se compreendermos o processo de análise como um instrumento auxiliar para usufruirmos a vida, em princípio, ele poderia não ter fim.
No entanto, quando a análise é buscada para eliminar determinados sintomas que causam sofrimento e estreitamento da vida, podemos considerar que a eliminação ou diminuição desses sintomas é um sinal de que o processo pode ser interrompido. Neste momento, o paciente poderá sentir-se apto a tocar sua vida de maneira satisfatória, sem a necessidade da análise.
Também precisamos levar em conta a proposição de Freud segundo a qual uma análise não vai além do que as defesas (conflitos) do analista permitem. O ideal é que o analista tenha condições de perceber esses limites e francamente os expor ao paciente.
Minha posição enquanto analista é a de que determinar o momento de término somente caberá a mim quando eu perceber que não tenho mais o que contribuir ao processo. A decisão de parar a análise sempre caberá ao paciente. No entanto, em determinados casos, o analista pode apontar ao paciente que aquele processo ainda não se esgotou e que existem recursos a serem desenvolvidos.
O desejo de parar, por parte do analisando, não equivale necessariamente a uma resistência negativa ao tratamento, mas por vezes uma resistência a se pensar mais feliz. Há pacientes que pedem a opinião do analista, outros não. Cabe ao analista respeitar a ambos.

2) Na Psicanálise, é comum trabalhar com a noção de ‘receber alta’? Se sim, quais critérios podem ser utilizados para se pensar nessa ‘alta’? Se não, o que define o fim de um processo analítico?

Nem todos sabem que, na concepção de Freud, a finalidade última da Psicanálise é ajudar o homem a ser mais feliz. Nessa perspectiva, será que faz sentido pensarmos em “alta”? Haverá “alta” para sermos felizes ou critérios para saber o quanto ainda podemos fazer “render” nossos potenciais?
Como enfatizei na questão 1, o término de uma análise pode decorrer de diferentes motivações (do analista ou do analisando) e não há como generalizarmos.

3) Pensando na questão da alta associada à ideia de cura, em que medida se pode (ou não) falar em cura dos sofrimentos mentais?

Não há mal que nunca acabe nem bem que sempre dure. Aceitando este ditado popular, nos perguntaríamos: cura de quê? Por se tratar de “doença da alma”, quais as circunstâncias e sintomas que indicam e que, nós analistas, poderemos nos arrogar o direito de considerarmos uma doença a ser tratada?

4) De forma geral, como a Psicanálise compreende a perspectiva da cura?

O sofrimento mental faz parte da vida dos humanos. Não há “cura” para ele enquanto tal. O trabalho analítico nos tem revelado que a permeabilidade a esse tipo de sofrimento não somente varia de pessoa para pessoa como poderá ser bastante minorado na medida da maior ou menor capacidade de conhecê-los e administrá-los. A proposta da psicanálise é de nos ajudar nessa tarefa. Diz Clarice Lispector: a pior dor é a de não podermos sentir nossa própria dor..

Há, porém, sintomas que, de tão dolorosos, interrompem o curso normal da sobrevivência. Em relação a estes poderíamos pensar na ideia de cura. Temos observado que o trabalho da análise proporciona que a tristeza humana seja suportável e em casos pontuais, tenha fim. Também a capacidade de ser feliz pode ser expandida na medida em que conhecemos os nossos conflitos. Muitos deles são resolvidos, ou pelo menos encaminhados, pelo simples fato de tomarmos conhecimento.
Quando ganhamos confiança e maior autoestima, podemos encontrar alegria em situações familiares e profissionais que antes passavam despercebidas. Com isto deixaremos de ser reféns de sofrimentos desnecessários.

*Maria Olympia França é psicanalista e membro da SBPSP.

Transferência

Compreendida como um instrumento do método psicanalítico, a transferência é um fenômeno que se dá na relação analítica, fundamental para o processo. ​P​or meio dela a dupla poderá trabalhar aspectos emocionais inconscientes, que vêm à tona na medida em que reeditamos​ e revivemos,​ ​no tratamento, conflitos e emoções gerador​e​s de sofrimento. O artigo abaixo, da psicanalista e membro da SBPSP, Elsa Susemihl, desenvolve o tema com objetividade e clareza.

Transferência

Por Elsa Vera Kunze Post Susemihl*

A chamada transferência é um conceito fundamental da Psicanálise. Foi descoberta por Freud e ocupa os psicanalistas até hoje, tanto na prática clínica quanto na reflexão teórica.

A transferência se apresenta por meio de determinados modelos de relacionamento com o mundo e com as pessoas. Todos nós os temos mas, às vezes, eles podem estar ligados a sintomas e grande sofrimento psíquico.

Pode ser observada naquelas atitudes e reações emocionais que são sempre iguais e que se repetem, ainda que a situação seja diferente. Podemos pensar em uma pessoa que sempre tem problemas com o chefe, por exemplo, sente-se injustiçada. Muda de emprego inúmeras vezes mas, invariavelmente, encontra um chefe que a trata injustamente. Ou uma pessoa que sofre intensamente de ciúmes e em diferentes relacionamentos/casamentos, o sentimento reaparece e gera a mesma insegurança e sofrimento.

A Psicanálise investiga, no mundo inconsciente, as raízes dessas repetições. Sabemos, desde Freud, que somos regidos por uma área inconsciente da nossa mente. É nessa área que se encontra a origem dos fenômenos transferenciais.

O aparelho psíquico se forma a partir dos fortes vínculos emocionais com os pais ou primeiros cuidadores. As experiências emocionais ligadas aos grandes conflitos com amor, ódio, inveja, ciúme, dependência etc são armazenadas na nossa mente inconsciente. A maneira como elas são vividas é absolutamente pessoal e suas marcas vão compor a nossa individualidade. Carregamos essas marcas vida afora e vamos repetindo a forma pela qual tivemos de lidar com as diferentes situações e conflitos desde estas primeiras experiências. Tudo isso se processa no nosso psiquismo sem que disso tenhamos consciência. Ou seja, transferimos aquilo que vivemos no início de nossa vida para outras situações da nossa vida atual, sem o sabermos.

A transferência se apresenta também na análise, de forma concentrada. Pelas condições especiais do trabalho analítico – uma relação de sigilo e confiança, com encontros regulares e freqüentes, com o uso do divã que propicia um olhar voltado para dentro – a observação dos fenômenos transferenciais é facilitada.

O analista e o analisando podem assim ter acesso ao mundo inconsciente, às fantasias e desejos, às emoções profundas que na atualidade do processo analítico se reapresentam de forma viva novamente. E dessa forma, durante o processo analítico, abre-se a possibilidade de encontrar novas direções e descobrir caminhos alternativos para antigos conflitos.

*Elsa Vera Kunze Post Susemihl é psicanalista e membro da SBPSP

Métodos de investigação em Psicanálise

Neste post, discutiremos o uso e aplicação de um método de investigação em psicanálise conhecido como Procedimento de Desenhos-Estórias. O texto abaixo é assinado por Walter Trinca, psicólogo, mestre e doutor em Psicologia, psicanalista membro da SBPSP e especialista no assunto.

Procedimento de Desenhos-Estórias

Por Walter Trinca*

Introduzido em 1972, o Procedimento de Desenhos-Estórias (D-E) é uma técnica psicodinâmica de investigação da personalidade. Assim como a Hora de Jogo Diagnóstica (Aberastury, 1962) e o Jogo de Rabiscos (Winnicott, 1971), o D-E se constitui em uma estratégia de investigação ampla, e não um teste psicológico. Sua aplicação demanda ao examinando 5 unidades sequenciais de desenhos livres e cinco estórias que lhes são associadas imediatamente após cada desenho, seguidas de um “inquérito” e título da produção.

A junção das formas gráficas com as formas de percepção temática tem por objetivo a obtenção de informações sobre as experiências subjetivas, com ênfase na dinâmica inconsciente. Pode ser aplicado individualmente em crianças, adolescentes e adultos que conseguem se comunicar por desenhos e verbalizações; e é indicado nos primeiros contatos com o examinando.

O “inquérito” visa a ampliação das observações por meio de esclarecimentos e novas associações. O uso do D-E não se restringe a situações clínicas, podendo ser empregado em escolas, ambientes judiciais, médicos e outras situações em que os processos mentais necessitam ser investigados. O D-E pode proporcionar uma compreensão abrangente, quando combinado com as entrevistas, a anamnese e outros instrumentos psicológicos.

De modo geral, pode-se afirmar que as imagens gráfico-verbais contidas no D-E estão dentre aquelas que melhor se prestam à comunicação de emoções versáteis e sutis, porque sua natureza é descompromissada e lúdica. Permitem uma abordagem dos pontos conflitivos e dos comprometimentos emocionais por meio da associação livre. O D-E vai ao encontro dos pontos cruciais e dos focos nodais dos desajustamentos psíquicos. Quanto mais aberta e lúdica for a situação do exame, melhor se presta à emergência do desconhecido que necessita se tornar conhecido. Dessa forma, o D-E pode ser interpretado segundo princípios semelhantes à interpretação dos sonhos, preferencialmente pela livre inspeção do material. No conjunto da produção gráfico-verbal de um examinando, geralmente se encontra a convergência das partes em direção a uma comunicação unitária, inteira e indivisa.

*Walter Trinca é psicólogo, mestre e doutor em Psicologia Clínica e psicanalista membro da SBPSP.