literatura

Manuscrito inédito de 1931

Elsa Vera Kunze Post Susemihl*

Em 2004, o historiador americano Paul Roazen encontrou um manuscrito de Freud em meio a uma série de outros documentos depositados na universidade americana de Yale pela filha do ex-embaixador americano William Bullit. Esse é o manuscrito que foi recém-traduzido por mim para o português, diretamente do alemão, e que foi publicado pela Editora Blucher (2017) com o nome de Manuscrito inédito de 1931, em edição bilíngue.

A história desse manuscrito nos leva para o início do século passado, quando Freud clinicava em Viena e quando Bullit, ao final da Primeira Guerra Mundial, acompanhou o então presidente americano Thomas Woodrow Wilson nas conversações de paz e na formulação do tratado de Versalhes. Freud e Bullit se conheceram nesses anos e compartilharam ideias e críticas semelhantes em relação ao presidente Wilson e sua atuação durante o estabelecimento desse tratado, o qual depois realmente se mostrou desastroso e levou a situações que culminaram com uma Segunda Guerra Mundial. Freud via em Wilson uma pessoa identificada com ideias messiânicas e que tomava suas ilusões religiosas literalmente, o que, a seu ver, o fazia uma pessoa inadequada para se relacionar com os `filhos comuns dos homens´ (2017/1931, p. 18).

Surgiu, então, um projeto entre ambos, Freud e Bullit, de escrever uma biografia do presidente americano Wilson, na qual Bullit, o ex-embaixador, contaria sua experiência política e Freud, o psicanalista, contribuiria com uma análise psicológica do caráter do presidente Wilson. O trabalhou iniciou-se em ritmo acelerado, mas em algum momento houve uma parada. Provavelmente em função de algumas divergências que surgiram e que não foram superadas. Anos mais tarde, com o avanço do nazismo na Áustria, Freud e sua família tiveram que fugir. Bullit, agora embaixador americano em Paris, tem um papel decisivo nesse momento, quando ajuda Freud e sua família por meio de seus contatos de embaixador na chegada em Paris e em seu caminho a Londres, o destino de seu exílio. Bullit aproveita a ocasião para retomar o projeto da biografia, e Freud concorda então com sua publicação após a morte da segunda esposa de Wilson. O livro é publicado finalmente em 1966, quando ambos os coautores, Bullit e Freud, já não estavam mais vivos. Estabelece-se nesse momento uma longa controvérsia, pois a comunidade psicanalítica, incluindo a filha de Freud, Anna Freud, não reconhece a autoria do pai. Ainda que algumas ideias descritas ali eram psicanalíticas, sua apresentação e seu estilo estavam longe daquele conhecido como sendo de Freud. Essa situação permaneceu não esclarecida por muitos anos. Finalmente, ao serem encontrados, em 2004, os referidos documentos, foi jogada alguma luz sobre essa situação.

Agora, com esse Manuscrito em mãos foi possível fazer um cotejamento com o livro publicado, e se notou que, de fato, esse Manuscrito não havia sido publicado na sua íntegra em nenhuma parte ao longo do livro. Porém, algumas passagens foram editadas e aproveitadas no livro. Ainda que as razões que levaram a tal edição, provavelmente por Bullit, só podem ser supostas, e ainda que não sabemos se o Manuscrito havia sido escrito para ser publicado como um capítulo do livro ou somente para ser aproveitado por Bullit como ele o desejasse, podemos agora usufruir do texto que, sem sombra de dúvida, vem da pena de Freud, e no qual prontamente o reconhecemos.

Nesse Manuscrito, Freud apresenta de forma resumida alguns conceitos fundamentais da Psicanálise, tais como a libido, a bissexualidade, a teoria dos instintos de vida e de morte, e descreve como estes elementos configuram por meio de identificações e relações de objeto as diferentes composições do complexo de Édipo. Talvez em nenhum outro lugar de toda a sua obra encontramos um texto que apresenta de uma forma tão clara, concisa e detalhada todas essas ideias psicanalíticas, sem que seja perdida, nessa breve exposição, a extensão e a profundida destas ideias. E ainda, deixa explícita a consciência da provisoriedade e da limitação de todas essas teorias ou modelos. Com seu estilo de escrita elegante e seu encadeamento brilhante de ideias, Freud nos guia com desenvoltura e tranquilidade ao longo do texto através de vários temas bastante complexos da teoria psicanalítica. Salvo no final, não encontramos ali nada de necessariamente novo, ainda assim somos surpreendidos por novas conexões e formulações. Nesse sentido, é um texto que, a meu ver, se presta para leigos como uma introdução a algumas ideias psicanalíticas, mas que, ao mesmo tempo, é muito rico e esclarecedor também para o psicanalista familiarizado com a sua obra, podendo este usufruir da capacidade de Freud apresentar suas ideias.

Logo no início, Freud estabelece a diferença entre um estudo psicológico do caráter de uma pessoa a partir de dados obtidos pela sua biografia, ou poderíamos dizer também de sua obra, com aquilo que considera uma psicanálise de fato, o que a seu ver somente é possível na presença real de duas pessoas, o analista e o analisando.

Ao longo do texto, Freud traz então uma pormenorizada descrição de como os fatores constitucionais de feminilidade e masculinidade, decorrentes da bissexualidade constituinte do ser humano e relacionadas, mas não determinadas, pelas diferenças anatômicas dos sexos, se relacionam com as experiências de vida na infância, resultando na maneira individual de cada um em se haver com os conflitos do complexo de Édipo e se tornar um indivíduo único e singular. A feminilidade e a masculinidade estão, desta maneira, na base dos conflitos do complexo de Édipo e, ao final, do complexo de Castração, quando estas diferentes tendências no indivíduo vão estabelecer relações conflitantes entre si diante das diferentes posições relacionais com o pai e a mãe. Conclui assim: `Podemos dizer para finalizar que cada eu de um ser humano é o resultado final do esforço por um equilíbrio de todos estes conflitos entre as diferentes correntes da libido com as exigências do supereu e com os fatos do mundo externo real. O tipo de equilíbrio que ao final será possível depende, por um lado, da extensão da masculinidade e da feminilidade inatas, e, por outro, das impressões que o ser humano recebeu durante a sua infância. O resultado final dessa tentativa de equilíbrio determina o que chamamos de caráter do eu´. (1931/2017, pp. 67-69)

A grande novidade do texto está ao final, quando Freud nos apresenta uma ideia a respeito de como compreender do ponto de vista psicanalítico a importância da figura de Cristo, mostrando que está contida na narrativa do Cristo uma possibilidade de harmonizar as diferentes tendências em conflito presentes no complexo de Édipo.

O Manuscrito de 1931 foi inicialmente publicado em alemão por Ilse Gubrich-Simites e em inglês por Mark Solms, que também o traduziu em 2006. Ambas as edições vieram acompanhadas de artigos comentando o texto e sua história. Em 2015, é publicada uma tradução para o italiano de S. Franchini em edição crítica com comentários de M. Hinz e R. Righi. Também, em início de 2017, surge uma tradução em francês com apresentação de Elisabeth Roudinesco.

Em 2017, Alexandre Socha e eu nos propusemos o projeto de organizar a publicação desse texto agora traduzido para o português, e assim o livro O Manuscrito inédito de 1931 foi publicado em edição bilíngue pela Editora Blucher no final de 2017. Além do texto de Freud com a minha tradução direto do alemão, o livro ainda conta com um prefácio de Alexandre Socha e um posfácio de Luís Carlos Menezes.

Sem dúvida, um texto que vale a leitura!

Freud, S (2017) O manuscrito inédito de 1931. São Paulo: Editora Blucher. (Tradução de Elsa Vera Kunze Post Susemihl). Texto original de 1931.

Elsa Vera Kunze Post Susemihl é psicóloga formada pela USP, membro efetivo e docente da SBPSP, IPA International Psychoanalytical Association, membro e professora no Departamento de Psicanálise da Criança Instituto Sedes Sapientiae.

A Disposição para o Assombro

Leopold Nosek

Penso que assombro e infinito são os pilares da ética a ser exercida na clínica psicanalítica, e são eles também que dão um caráter sublime ao estético quando, diante do infinito, o espírito se move e num instante de fulguração tem uma parcial revelação do sentido.

Assombro evoca também a reação diante da particular aventura que nos é proposta nos estertores do século XIX: a viagem pelos espaços interiores que encontrará sua radicalidade na experiência psicanalítica. No extremo oposto, o positivismo, também datado, instala-se na crise da religiosidade do século XIX e substitui o molde religioso como crença. Entra por uma janela quando, pela porta, pensava-se expulsar qualquer resquício de metafísica. Nada mais distante do projeto freudiano, que, oriundo do Esclarecimento, ao tomar o inconsciente como objeto se caracterizará paradoxalmente como um projeto iluminista noturno.

A descoberta de Freud abre no século XX uma nova fronteira para as grandes navegações – o continente da subjetividade – e representa, é certo, um progresso crucial para a capacidade do homem de explorar a si mesmo. A tentativa de colonizá-lo, porém, configura também um novo e inevitável ato de violência, o que me levará a equiparar o inconsciente ao infinito e, com isso, atribuir à psicanálise uma ética derivada da recepção do outro. Como acolher cada paciente, a cada vez? Todo rosto nos põe diante do infinito da alteridade. Ser ético implicará a disposição cotidiana para o trauma, o susto, o assombro que significa, a cada vez, abrir a porta para um estrangeiro.

Minha paixão pela aventura psicanalítica poderá talvez ser encontrada nestas páginas […] Deixo em aberto a ideia, ou o desejo, de ter sido capaz de me movimentar no “modo fértil”, como costumamos dizer em psicanálise quando nos referimos ao modo da construção do pensamento. Nesse modo da sexualidade, mais uma vez o assombro e o susto. Seja como for, espero que meu eventual leitor possa experimentar algo do prazer que acompanha inevitavelmente o espírito quando este, num átimo, tem um vislumbre da liberdade.

 

Leopold Nosek é psiquiatra, psicanalista e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Ex-presidente da SBPSP, FEBRAPSI e FEPAL. Chair do Think Tank da IPA sobre o futuro da psicanálise e da IPA.

Morre o poeta?

Por Adriana Rotelli Resende Rapeli *

Cruzava a manhã do domingo quando li que Ferreira Gullar morreu. Onde estão, para onde vão todas as lembranças dos que, como ele, já se foram? Porque o mundo que já acontecia sem ele ainda e mais ainda hoje o mundo é todo sensações que lampejam de seus versos: de cheiro de tangerina (sonho de floresta), de colo de açucena, de espantoso ocre da casa, branco de pedra do piso do banheiro, de alguma coisa dourada na pele, do azul da mancha do quadro de Leonardo (em que parte de mim está?), do guarda sol às três da tarde, o verde erva e poça e olhos e praça. E barulhos: do rumor da cidade ou do silêncio da noite, do latido do cão, de um avião ou de um bater de asas.

Gullar me ilumina em sua arte a questão de vida ou morte: “ O que eu vejo me atravessa como ao ar a ave… e sou então apenas essa rude pedra iluminada ou quase se não fora saber que a vejo.” Não somos pedras, minérios que não sonham, não se espalham no ar como um grito, ou como o cheiro embriagador da fruta. Se pedras somos, elas brilham como diamantes: no fundo do olhar, no mais fundo, detrás de todo o amargor, há guardado um lampejo.

É este brilho, fugaz como espanto de onde brota a humanidade e o poema, aquilo que em nós que se sabe de repente, como recém-chegados em um mundo de maravilhas e angústias. A arte de traduzir uma parte de nós que não é multidão, ninguém. Esse quase nada, quase nunca, que nos faz a consciência que sobrevive à estranheza e à solidão: o poeta Gullar é a criança que nele soluça, mal suportando o peso do amor interminável, acumulado vida afora. No fundo sem fundo, todo o mundo. A idade não o envelheceu, o corpo não cansou de ser enigma. Retirou-se docemente, mas morreu em fúria, ainda em espanto.

O poema, ele o queria nascendo de fruta apodrecendo num prato, não do mármore perene ou de cristal intocável. Ele o queria vivo – se possível em varanda com ruídos da rua, com vozes de pessoas trabalhando. O poema que irrompe donde menos se espera, num cheiro de flor, na janela do ônibus, no moer do silêncio, na poeira dos cabelos, na visão da tarde, soprando por um átimo de tempo. Átimo de átimo que seja, o coração freme e se acende. Pois um simples roçar de mãos comporta imponderáveis toneladas de luz, inquietante é cor de qualquer dia, a tristeza guarda no avesso a alegria ardente .

Hoje, lamentei sua morte. É perda demais para um simples homem, diria ele. Perplexa, lembro com ele que a morte, como a poesia, nos revela a vida que fulgura instantânea: o milagre que a vida traz e zás, ironicamente dissipa. A mesma poesia –brisa que faz do tempo a eternidade, da beleza o infinito.

Flutue ainda, prenhe de poemas. Enquanto isso, suas raízes fundas, poeta, estão já se arrebentando, tão fundas quanto estes céus.

Por ele, que me ajuda a vida a valer a pena.

PS: os trechos de poemas e versos adaptados ao texto são citações dos conhecidos “Dois e dois: quatro” e “Traduzir-se” e principalmente do livro “Barulhos” (1980-1987), José Olímpio Editora, cujo primeiro contato, na mesa da copa da casa de uma amiga, se deu como conviria a Gullar, com inesquecível maravilhamento.

*Adriana Rotelli Resende Rapeli é psicanalista e membro associado da SBPSP e da SBPRJ

Entrevista – Marion Minerbo

Muito além do divã

Simulando tom ficcional na interlocução com um “jovem colega” imaginário, Marion Minerbo compartilha material clínico e outras experiências em Diálogos sobre a clínica psicanalítica

Autora de Neurose e não neurose e Transferência e contratransferência, ambos da editora Pearson, a psicanalista Marion Minerbo lança seu terceiro livro, Diálogos sobre a clínica psicanalítica (Editora Blucher), dia 1º de setembro, a partir das 18h30, na Livraria da Vila da Fradique. Mais do que um título para “iniciados”, trata-se de um painel acessível e fascinante sobre a “experiência de transmissão da psicanálise” que Marion vivenciou na última década. Não é um período qualquer. Para muito além da prática e dos estudos com que Freud revolucionou a história da humanidade, o livro, de tom supostamente ficcional, usa a forma de um grande diálogo, com um interlocutor que Marion chama de “jovem colega”, para compartilhar material clínico que convida à reflexão em uma época em que “as pessoas são obrigadas a ancorar sua identidade e a inventar seus projetos de vida em bases fluidas e movediças”, como Marion declara em entrevista exclusiva à Vila Cultural.

Psicanalista, analista didata e docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBP-SP), doutora em Psicanálise, Marion virou uma “fonte” imediatamente associada a dois temas distantes e de forte apelo midiático: os reality shows e a corrupção. “Os embates teórico-clínico- emocionais de meus interlocutores mais jovens me remetem, naturalmente, ao meu próprio percurso”, escreve, na introdução do livro, cujos diálogos contemplam seis temas: transferência, escuta analítica, trauma e simbolização, pensamento clínico, sofrimento neurótico e sofrimento narcísico. Leia a entrevista da psicanalista.

Vila Cultural. Você gosta de conceder entrevistas?

Marion Minerbo. Não dou entrevistas por telefone ou com gravação de vídeo porque não dá tempo de pensar. Fico inibida com perguntas à queima-roupa. O risco de dizer banalidades é grande. Em compensação, tenho grande prazer em conceder entrevistas por escrito porque mesmo que eu já tenha falado sobre um mesmo tema várias vezes, como BBB ou corrupção, as perguntas sempre me ajudam a pensar coisas novas. Há, claro, alguma vaidade em ser entrevistada, pois é uma forma de reconhecimento do meu trabalho. Mas o que mais me motiva é a oportunidade de compartilhar com um público mais amplo o acesso ao funcionamento mental propiciado pela psicanálise.

VC. Como define o novo livro e que avaliação faz da experiência de escrevê-lo?

MM. É um livro que foi nascendo aos poucos e meio que por acaso. Em 2013, me convidaram para falar sobre “transferência”, um conceito psicanalítico básico supostamente muito conhecido e sobre o qual já se disse muito – inclusive eu, que escrevi um livro sobre isso. Estava quebrando a cabeça para não chover no molhado, até que me veio a inspiração de escrever a um jovem colega transmitindo o essencial sobre o tema em linguagem coloquial e despretensiosa. Afinal, o rigor tem que estar nas ideias, e não na linguagem. A editora do Jornal de Psicanálise, publicação semestral do Instituto de Psicanálise Durval Marcondes da Sociedade Brasileira de Psicanálise, viu naquele texto o potencial para um projeto editorial com este formato e me convidou a escrever sobre outros temas. Os primeiros diálogos eram mais tímidos, pois havia algo de ficção na criação do personagem jovem colega, e afinal, eu não sou escritora. Mas fui me apropriando dessa semificção e me divertindo com a escrita. Me afeiçoei ao jovem colega e fiquei triste quando me despedi dele. Escrever me serve para metabolizar o que estudei e para, a partir dessas leituras, organizar um pensamento próprio. Para o bem e para o mal, só consigo pensar escrevendo. Minha mãe me dizia: “Se você não consegue escrever com suas palavras, não escreva, significa que você ainda não entendeu o suficiente”. Tenho prazer em transmitir algo que dificilmente o jovem colega vai aprender só nos livros: como pensa um psicanalista – ou melhor, como pensa esta psicanalista! – em sua clínica. Sou generosa, mas também exigente com o leitor: ele não deve esperar concessões ou
simplificações. Acho que o livro é sobretudo útil. É o que tenho de mais valioso para oferecer.

VC. Que critérios usou para definir os seis temas destacados em Diálogos?

MM. Baseada na minha experiência como docente escolhi temas que fossem úteis para a clínica, e usei exemplos – devidamente ficcionalizados – para dar vida às ideias desenvolvidas. Naturalmente, todos os cuidados foram tomados para garantir o sigilo e a ética profissional. Transferência, como já disse, é básico porque é a manifestação concreta do inconsciente na vida das pessoas e na análise. Eu já tinha escrito um livro sobre esse tema (Transferência e contratransferência, Pearson, 2012), mas este diálogo me deu a oportunidade de abordar outros ângulos e aprofundar certas questões. O inconsciente é uma espécie de cicatriz viva do passado que continua produzindo sofrimento e travando o presente, o que leva certas pessoas a procurar análise. Como reconhecer na clínica esta cicatriz viva e seus efeitos? Através da Escuta analítica, que é o segundo tema. Vou usar uma analogia para explicar o que é isso. Certa vez fui arrebatada pelo desejo de pintar. Frequentei o ateliê de uma artista que não me ensinou a pintar, mas formou o meu olhar, um olhar sensível à dimensão estética da existência. Pois bem: o analista tem um olhar, ou uma escuta, ou uma apreensão, da dimensão inconsciente das relações humanas. Mas assim como a formação do olhar não transforma ninguém em artista, a apreensão da dimensão inconsciente não é suficiente para ser um psicanalista praticante. É preciso desenvolver também a capacidade de pensar analiticamente, quer dizer, articular o universal da teoria dos livros, à singularidade do paciente que está no seu divã. Escrevi, então, o diálogo sobre Pensamento clínico, uma espécie de passo a passo sobre esse “pulo do gato”. O diálogo seguinte, sobre Trauma e simbolização, serve para ajudar o jovem
colega a ter uma visão mais organizada sobre como se “adoece” psiquicamente. Sem uma compreensão razoável sobre como se adoece, é difícil saber em que direção seguir do ponto de vista terapêutico. E por falar em “direção a seguir”, os dois últimos diálogos, Sofrimento neurótico e Sofrimento narcísico, mapeiam os dois grandes territórios do sofrimento psíquico, cujas “paisagens emocionais” diferem radicalmente. A escolha desses temas se deve, de certa forma, à repercussão positiva do meu livro Neurose e não neurose (Pearson, segunda edição 2013). Muitos leitores disseram que a visão de conjunto da psicopatologia psicanalítica, ancorada em exemplos clínicos, foi muito útil.

VC. Quem, na sua opinião, podem ser os leitores potenciais do livro?

MM. Acho que o livro será útil não só para estudantes e jovens colegas, mas para psicanalistas em geral, pois não importa quanta estrada já tenhamos percorrido, estamos sempre estudando para manter o “instrumento psicanalítico” afinado e afiado – caso contrário ele perde o gume. É claro que o público leigo curioso, os estudiosos de humanidades em geral e os próprios “usuários” também poderão curtir e aproveitar os diálogos, já que estão escritos de forma acessível.

VC. Quando alguém procura um analista, é comum a dúvida a respeito sobre a “linha” que ele segue. O que pensa sua sobre isso?

MM. Até meados dos anos de 1970 os psicanalistas se dividiam em tribos, dizendo-se seguidores deste ou daquele autor. No entanto, fosse qual fosse a linha, havia pacientes que “não se encaixavam” nela. Pensando bem, é muito estranho que o paciente tenha que se encaixar, pois o psiquismo singular é sempre mais amplo e complexo do que pode ser apreendido por uma única teoria. A comparação é meio tosca, mas imagine um marceneiro que se limite a trabalhar com um serrote. Pode ser suficiente para serrar tábuas, mas se quiser fazer uma mesa vai precisar de outros instrumentos. Enfim, a nova geração de psicanalistas se deparou com os limites de praticar a psicanálise seguindo uma única “linha”. Instigados por questões colocadas pela clínica, os autores mais criativos passaram a pensar “fora da caixinha”. Todos saíram ganhando. Por isso, hoje é mais ou menos consensual que um psicanalista precisa ter em seu repertório instrumentos conceituais diversificados. Essa é a posição a partir da qual escrevi os Diálogos e trabalho na minha clínica.

VC. Você tem escrito também sobre o sofrimento psíquico ligado a características do mundo contemporâneo. Fala em “miséria simbólica” e relaciona esta condição ao sentimento de tédio e de vazio. Poderia explicar essas ideias?

MM. É um assunto complexo, mas posso tentar. A modernidade foi o momento da civilização ocidental que se caracterizava pela força e solidez das grandes instituições. O sofrimento psíquico tinha a ver com a rigidez com que todos eram obrigados a se encaixar nos valores instituídos, vistos como absolutos, naturais e universais. A diversidade era condenada e excluída. A família patriarcal era o melhor exemplo disso. Hoje, boa parte das grandes instituições está em crise. Em um movimento pendular, passamos de valores e referências extremamente rígidos para a condição pós-moderna, caracterizada pelo relativismo absoluto. As referências de que necessitamos para dar sentido a nossas experiências são pouco nítidas, imprecisas, cambiáveis, vagas, incertas, ralas e movediças. Para o bem e para o mal, ninguém mais acredita em valores universais. A vantagem é que há liberdade para cada um inventar e viver sua própria vida. Se antes a diversidade era excluída, agora é festejada. A diversidade das famílias contemporâneas é um exemplo.

VC. E qual a desvantagem disso?

MM. A descrença absoluta e a fragilidade das referências simbólicas produzem um estado de miséria simbólica: as pessoas são obrigadas a ancorar sua identidade e a inventar seus projetos de vida em bases fluidas e movediças. Muitas vezes ficam perdidas, sem rumo. Sofre-se de um vazio, de um sentimento de irrealidade e de tédio, sintomas da falta de sentido da existência, muitas vezes confundidos com depressão. Esses pacientes nos procuram com queixas vagas, mal formuladas, porque faltam até palavras para descrever essa forma de sofrimento.

VC. Quais os efeitos dessa falta de rumo sobre a sociedade como um todo?

MM. Sintomas socioculturais como a proliferação e adesão a causas radicais – sexistas, alimentares, políticas, terroristas – podem ser entendidos como tentativas de preencher o vazio, “fortalecer” a identidade e dar um sentido à existência. Certo tipo de violência é outro sintoma desse mesmo sofrimento. Venho me perguntando se a emergência de forças conservadoras em vários países não seria uma tentativa de fortalecer – da pior maneira – as instituições atualmente em crise. A grande dificuldade parece ser manter a liberdade conquistada com a relativização de verdades tidas como universais, sem jogar fora o bebê com a água do banho.

VC. De onde vem o seu interesse por temas como a corrupção e os reality shows? Por que decidiu analisar assuntos tão diferentes?

MM. Como sempre, há uma boa dose de acaso nas direções que a vida toma. É possível que tudo tenha começado com meu doutorado na UNIFESP. Escrevi sobre compulsão a comprar porque na época, em 1990, estava atendendo uma paciente que apresentava este sintoma. Eu, que havia estudado medicina, precisei me aventurar em um território completamente novo: a sociedade de consumo, a sociedade do espetáculo, a cultura do narcisismo, a hiper-realidade etc. Tudo isso em paralelo ao meu trabalho no consultório. Passei a me interessar por fenômenos típicos da pós-modernidade que pareciam ter em comum a fragilidade do símbolo. Desde os crimes em família, como o de Suzane Richthofen que matou os pais, e outros em que são os pais que matam os filhos, até um tipo de violência que batizei de reality game – mistura de reality show e de videogame. Em 2007 publiquei meu primeiro artigo sobre reality show na Revista de Psicologia da USP. A partir daí, todos os anos, na época em que começava o BBB, eu era entrevistada sobre o tema. Sem querer, virei uma “especialista”. Com relação à corrupção a coisa foi um pouco diferente. Publiquei em 2000 um primeiro artigo intitulado Que vantagem Maria leva? Um olhar psicanalítico sobre a corrupção. Continuei desenvolvendo minha tese central em outros textos: pessoas podem ser subornadas, mas o que se corrompe (desnatura, apodrece) são as instituições, até que a própria corrupção se transforma, ela própria, em uma instituição. Depois, quando Dominique Strauss-Kahn, na época diretor do FMI, foi acusado de estuprar uma camareira de hotel, escrevi sobre os mecanismos psíquicos que levam o poderoso a “perder a noção”. Mas foi com a Lava Jato que comecei a ser constantemente entrevistada sobre corrupção.

VC. Como lida com o fato de ser convocada com tanta frequência para explicar, digamos, os “mecanismos psíquicos” da corrupção?

MM. Gosto muito do desafio de falar sobre o tema, pois cada jornalista faz perguntas que me obrigam a aprofundar ângulos ou aspectos nos quais eu não tinha pensado. Um exemplo: queriam que eu falasse sobre a “corrupção nossa de cada dia”. Sei que as matérias precisam de chamadas fortes. Então, mesmo não fazendo muito sentido falar nesses termos, aproveitei para mostrar a diferença que existe do ponto de vista psíquico entre a pura e simples transgressão, e atos que se pautam por uma lei paralela, não oficial e implícita. Nesse segundo caso, a pessoa simplesmente não sente que está transgredindo nada. Isso me levou a analisar o “jeitinho brasileiro” e a “lei de Gerson”. São verdadeiras instituições que ignoram a lei oficial e erigem valores que não podem ser transgredidos: respectivamente o ‘favor em nome da amizade’ e a ‘esperteza viril’. Quem não retribui favor, e quem se recusa a levar vantagem, é visto como transgressor dessas “leis” e punido pela coletividade. Eu não teria pensado nada disso sem as entrevistas.

VC. O que mais tem aprendido com seus alunos e pacientes?

MM. A sensibilidade para sintonizar com o funcionamento psíquico dos outros, pacientes e colegas, me ajuda a me colocar na pele deles, a empatizar e me identificar com suas angústias. Isso me ajuda a respeitar e a conviver com pessoas que sentem e pensam de maneira diferente de mim. Naturalmente, não podemos aceitar e concordar com tudo – há atos e atitudes que simplesmente não podem ser tolerados –, mas pelo menos podemos entender as razões e as motivações dos outros. Isso me ajuda a viver melhor.