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As novas etapas do envelhecimento: o desafio de viver muito

Por Telma Weiss*

“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. 

Guimarães Rosa – Grandes Sertões Veredas

 

Até a metade do século passado, fome, guerras e pestes eram questões reais que ameaçavam a vida dos homens. Morria-se de fome, pestes matavam e devastavam quase que populações inteiras e, durante vários séculos, guerras eram um fato tão “corriqueiro” que os momentos de paz eram intervalos entre um conflito e o próximo. (Harari)

Atualmente temos uma outra realidade, um cenário bem diferente do que tinham os nossos antepassados. Com o avanço das ciências, em especial da medicina, da tecnologia, da nutrição, da valorização da prática esportiva e de uma vida ativa, os desafios da longevidade tornaram-se realidade. Vivemos mais e com mais qualidade de vida.

Hoje em dia, pessoas entre 45 e 65 anos são ativas, trabalham e circulam no mundo com curiosidade, muito longe da imagem do sujeito aposentado, daquele que “foi para os aposentos”. Daquele que está à margem da sociedade.

Como nos situarmos nessa “nova” etapa, entre a vida adulta e a velhice? O escritor Mario Prata escreveu uma crônica provocativa no Estadão: “Você é um envelhescente? ”. O autor, com seu humor afiado, nos faz pensar no novo homem maduro, que ainda não é idoso, mas que também não é jovem. Ele compara a envelhescência com a adolescência. Uma fase de trânsito.

Sylvia Salles Godoy Soares escreveu o interessante livro “Envelhescência” em que discute o fenômeno do envelhecimento contemporâneo focando na identidade feminina. A autora descreve o desafio que a mente tem que fazer, como na adolescência, para entender o novo corpo e assim tentar criar um entendimento entre o físico e o psíquico.

Uma boa imagem para compreendermos e refletirmos sobre esse novo desafio da modernidade, a longevidade, é pensarmos em uma obra, em uma reforma. Precisamos nos reinventar, precisamos trabalhar para nos reconhecermos nesse novo lugar de vida. Como toda construção, primeiro temos que pensar no que queremos e no que não queremos mais, fazemos então um anteprojeto, um projeto e, se possível, chamarmos um bom profissional para nos acompanharmos nessa empreitada. E quais seriam os planos, os projetos para essa obra?

Freud nos disse que o ego é corporal (1923) – corpo e mente não são indissociáveis –   importante pensarmos em como entender as novas necessidades e os novos limites do corpo maduro: o cuidado com o bem-estar físico, o desafio de administrar as oscilações hormonais, em especial as mulheres. A dedicação com os exercícios físicos, a atenção a uma alimentação saudável e exames médicos preventivos serão decisões que terão como objetivo focar num corpo funcional que acompanhe a mente no reinventar da própria vida.

Do ponto de vista emocional, nosso desafio será refletir sobre nossa história, nosso percurso. É um momento de resgatarmos a própria identidade e pensarmos em como queremos envelhecer. O que podemos e o que não podemos mais fazer? Ou não devemos ou não queremos mais fazer. É tempo também de construir novos limites.

Vamos ter que dialogar com nosso narcisismo: refletir sobre o novo lugar que vamos ocupar na família com a chegada de uma nova geração: como ser pais e também agora ocupar o lugar de avós? Como fica o narcisismo quando a geração mais nova começa a ocupar a cena, eventualmente, ultrapassando os próprios pais?

Homens e mulheres começam a perder encantos físicos. Será que vão reagir diferentemente? Para as mulheres, a menopausa, sem dúvida, é um fato que coloca a feminilidade em crise. E o homem, ao perceber que sua potência sexual não é a mesma do jovem, sente-se em conflito em relação a sua masculinidade.

O envelhecimento é uma etapa da vida, não uma escolha. Se pensarmos bem, é um privilégio estarmos “bastante tempo na estrada”. Não é fácil notarmos que não somos mais jovens. Teremos que nos esforçar para elaborar o luto pela mudança de nosso corpo, de nosso lugar do mundo e aceitarmos esse novo horizonte que se apresenta. Pensar em novos trajetos. Novas trilhas. Uma tarefa árdua, porém, necessária. É, sem dúvida, uma fase angustiante.

E para que esse caminho seja interessante, precisamos esforçar-nos para renovar nosso repertório, ampliar nosso ponto de vista, nossa perspectiva e desapegar do modus operandi que já não estão mais em sintonia com o novo momento. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, poderá ser uma ótima oportunidade de nos sentirmos mais interessantes, mais vivos e, assim, administrarmos a nova fase de vida com disposição, criatividade e vivacidade.

A pessoa que consegue reorganizar-se, que consegue dar conta da “obra” e elaborar o luto da perda da juventude, terá mais possibilidades de sentir-se livre para usufruir esse momento da melhor maneira possível. Por outro lado, o sujeito que não consegue enfrentar a perda pela fase que passou, que não consegue compreender o seu novo lugar no mundo, pode tornar-se melancólico, ressentido, não enxergando as novas oportunidades que a vida apresenta.

“É preciso saber viver”… – como cantam Roberto Carlos e os Titãs. Isso é muito verdadeiro, principalmente agora que temos a possibilidade – não a garantia – de termos uma vida longa e de qualidade. A psicanálise, mais do que nunca, apresenta-se como um instrumento útil para ajudar no desafio de reinventarmos nosso projeto de vida.

 

Referências Bibliográficas

Freud, Sigmund (1923). O ego e o id. Ed. Imago, 1969 Rio de Janeiro.

Harari, Yuval Noah (2016) – Homo Deus: uma breve história do amanhã, Ed Companhia das Letras, 2016, São Paulo.

Prata, Mario (1993) Você é um envelhescente?  Jornal OEstado de São Paulo

Soares, Sylvia Salles de Godoy de Souza (2012) – Envelhescência: um fenômeno da modernidade,  Ed. Escuta 2012 São Paulo.

 

* Telma Kutnikas Weiss é psicanalista, membro associado e diretora da SBPSP. Publicou vários artigos entre eles “Guarda Compartilhada: uma breve visão psicanalítica”.

 

 

O lugar do idoso no mundo contemporâneo

Miriam Altman

Você já parou para pensar no lugar que o idoso ocupa na nossa sociedade? São pessoas que muito produziram: participaram da vida familiar, ajudaram na construção de projetos, de sonhos e da vida comunitária por muito tempo.

A velhice tem estado em pauta desde a antiguidade, mas só a partir do século passado foi possível consolidar a emergência do estudo do envelhecimento. O fato é que a expectativa de vida aumenta a cada ano em função do desenvolvimento da medicina e da tecnologia. Já que se aumenta a longevidade, não deveria a qualidade de vida aumentar também? Será que nós, tanto como indivíduo quanto como sociedade, estamos preparados para esta realidade?

O ponto é que muitos de nós, ao se aposentar, têm dificuldade de se inserir em alguma atividade produtiva. Como em nossa sociedade somos muitas vezes definidos pela atividade do trabalho e, inclusive, chegamos a construir a nossa identidade com base na profissão, diante da aposentadoria, perdemos o chão. Isso faz com que sentimentos de fracasso, impotência e inutilidade nos envolvam. “A casa cai”.

Mas por que, nesse momento tão importante de mudanças, esquecemos que somos humanos e podemos (e devemos) nos valorizar? Que podemos nos ocupar com diversas outras atividades, inclusive desenvolvendo novos gostos pessoais; ou desfrutando do tempo livre; ou ainda nos reinserindo no mercado de trabalho?

O processo de envelhecimento é um momento de vida delicado, assim como a adolescência. O corpo vai se transformando e somos direcionados a buscar soluções práticas, normalmente na medicina e na tecnologia.

Porém, essas mudanças ocorrem tanto no nível físico quanto psíquico. Não podemos negligenciar a mente. Esse é um momento de indagação, reflexão e descoberta. E, diferentemente da pressa que acomete a adolescência, esse projeto pode ser construído aos poucos, sem pressa, encarando os próprios medos.

Sendo assim, não são apenas os jovens que precisam buscar um caminho. Nós também precisamos. Porém, o processo de autoconhecimento não é simples e imediato, mesmo para quem tem experiência de vida. Consequentemente, em inúmeras ocasiões não conseguimos encontrá-lo sozinho. É necessário algum apoio para elaborar as perdas e ganhos e trabalhar tantas questões internas. Mas então por que é tão fácil procurar um médico e tão difícil procurar um psicoterapeuta ou analista?

A percepção da vida psíquica pode, para muitas pessoas, ser o início da busca por uma psicanálise. Às vezes, é desconfortável depararmo-nos com sentimentos e emoções que não “estavam no programa” ou que nos trazem angústias. A vida mental é experimentada como algo abstrato, não tem consistência, cor, tamanho. Não temos acesso a ela por meios conhecidos, como os sensoriais. A terapia é uma conversa diferente aonde estes aspectos da vida mental podem ser investigados tornando-nos mais aptos a um conhecimento e contato com as próprias emoções. Por ser algo dessa natureza, desconhecida e pouco tangível, muitas pessoas preferem dar atenção ao corpo e às doenças e, dessa forma, cuidar em primeiro lugar do corpo. Isso é muito importante, desde que não esqueçamos que temos também uma vida emocional que não pode ser negligenciada!

Por fim, toda crise tem um lado bom, já que, apesar das angústias e desconfortos, ela nos impulsiona a buscar soluções para resolver conflitos novos e também antigos. Com um maior autoconhecimento, podemos nos posicionar mais ativamente perante o mundo em constantes mudanças e escolher prudentemente nosso posicionamento na sociedade, definindo nosso lugar. Aproveite esse momento para se conhecer melhor e fazer algo produtivo pessoal e profissionalmente por você!

 

Miriam Altman é membro associado à SBPSP, mestre em Psicologia Clínica pela USP e tem especialização em psicoterapia psicanalítica pelo Sedes Sapientiae.

miriam@miriamaltman.psc.br