história

Desamparo e Dor

*Anna Veronica Mautner

Não ser autor da sua própria vida nem do seu próximo momento é angustiante. A dor de depender da visão de mundo do outro para resolver desde miudezas até grandes decisões eu diria que é insuportável.

Além de fome, além de frio o campo de concentração ou holocausto anexava esta angustia. Comerei o que me derem, descansarei no espaço que me for dado e eu não tenho com que cuidar de mim.

Num campo de concentração as pessoas estão à mercê de outros que no caso são inimigos: não gostam da gente.

Estes inimigos não querem nem se dar ao trabalho de matar ou aleijar. É uma relação muito estranha.

No holocausto o inimigo foi dono da minha vida e não apenas da minha morte.

Se todos morrêssemos, os guardas e policiais ficariam todos desempregados. O carrasco depende da existência da vítima para exercício de sua função. É uma estranha construção esta de ódio e dependência.

Sobre o Dia da Catástrofe:

No dia 11 de abril, judeus do mundo inteiro renderam tributo a memória das vítimas e dos mártires do Holocausto durante o Yom Hashoá (Dia da Catástrofe).  Seis milhões de judeus, incluindo familiares de Freud, e muitas outras vítimas foram exterminadas pelos nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial, no episódio mais sombrio da história contemporânea. Anna Veronica Mautner, sobrevivente do Holocausto, chegou ao Brasil no dia 23 de agosto de 1939, uma semana antes do início da guerra em 1º de setembro de 1939. Seu texto para o blog da SBPSP fala da dor e da angustia dessa terrível experiência de vida.

 

*Anna Verônica Mautner é psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e autora de “Cotidiano nas Entrelinhas” (Editora Ágora).

Melanie Klein e sua contribuição para a Psicanálise

Liana Pinto Chaves*

Há 136 anos, nascia em Viena, em 30 de março de 1882, Melanie Reizes, que viria a se tornar uma das mulheres mais influentes da história da Psicanálise e, por que não dizer, da história do pensamento. A tripeira genial, no dizer de Lacan, por conta da crueza dos termos que empregava em seus relatos clínicos; o gênio feminino, no dizer de Julia Kristeva, que dedicou a essa mulher, que marcou a história do século XX, um livro cheio de admiração.

Foi a caçula de uma prole de quatro filhos. Seu pai, médico, provinha de uma família judia ortodoxa, da qual se afastou em razão da rigidez dela. A mãe, uma mulher bonita, culta, espirituosa e interessante. Segundo a própria MK havia na casa uma necessidade ardente de conhecimento. Essa ânsia por conhecimento ocupou um papel central no seu pensamento.

A morte de pessoas queridas pontuou sua vida desde muito cedo e teve grande importância na sua teorização. Perdeu a irmã Sidonie quando ela própria tinha 4 anos; o pai quando tinha 18 anos; o irmão querido, Emanuel, quando ela tinha 20 anos e o filho, Hans, quando MK tinha 52 anos. Seu artigo fundamental ‘O luto e suas relações com os estados maníaco-depressivos’, de 1940, por exemplo, é uma contribuição definitiva sobre a perda e o luto, um decantado de muitos anos de reflexão.

Não cursou a universidade, como era seu desejo, por se casar muito cedo, aos 21 anos, e já com 22 ter a primeira filha. Viveu em Budapest, onde leu Freud pela primeira vez. Sentindo-se aprisionada em sua condição de mãe e mulher e num casamento insatisfatório, buscava algo que a satisfizesse intelectualmente e emocionalmente. Entrou em análise com Sandor Ferenczi, que viu nela alguém muito promissor para desbravar o território desconhecido da análise de crianças. Começou analisando os próprios filhos, algo que não era incomum naqueles tempos.

A condição feminina e seu papel de mãe, aliados a uma intuição aguda, um faro, um olhar, ouvidos, e uma particular sensibilidade à angústia e ao sofrimento das crianças, conferem à mãe um lugar central como objeto primário na constituição do psiquismo segundo o seu pensar. Logo em seguida, muito cedo, entra o pai, formando o casal parental e toda a sua concepção do Édipo arcaico. Desenvolveu a técnica da psicanálise de crianças, considerando o brincar como equivalente ao papel dos sonhos e das associações dos adultos. Ao olhar uma criança tolhida, inexpressiva ou cheia de medos e incapaz de brincar, indagava-se: por que esta criança não está brincando como poderia? O que a impede? E foi assim, enveredando para noções de fantasias muito agressivas em operação, levando ao estancamento do desejo de conhecer e à impossibilidade de se expressar.

No pensamento kleiniano, a emoção está no centro da cena e o fio que perpassa toda a teorização é o da angústia e da fantasia inconsciente. Por exemplo, a teoria das duas posições baseia-se na identificação de dois tipos fundamentais de angústia. A angústia persecutória própria da posição esquizoparanóide, e que é fundamentalmente a angústia de morte do eu, e a angústia depressiva da posição depressiva, que é o temor da morte do outro de quem o bebê depende. Este é um salto gigantesco do desenvolvimento, uma guinada, é a passagem de um tipo de lógica das relações para outro tipo de lógica, do eu para o outro.

Presta reconhecimento ao longo de toda a sua obra ao que a análise de crianças pequenas lhe ensinou. Sua observações clínicas a levaram a descobertas que não estavam contempladas pela teorização de Freud. Teve a coragem de se contrapor a ele, defendendo suas descobertas com vigor. Ela adiantou todo o calendário do desenvolvimento infantil. Postulou uma situação edipiana e a construção do superego como se dando muito antes do que previa a teoria clássica.

Considerava-se uma estrita seguidora de Freud e sua obra como uma expansão da obra dele e ressentia-se quando se via acusada de desviante. Adotou de imediato o conceito de pulsão de morte, ao contrário de tantos outros autores. A agressividade e a destrutividade, a pulsão de morte, presentes no seu trabalho sobre a inveja mais o conceito de cisão abriram caminho para a perspectiva de tratar os casos graves até então considerados intratáveis. E futuramente levaram a importantes contribuições de outros analistas para a compreensão da compulsão à repetição, das reações terapêuticas negativas, do narcisismo destrutivo, das organizações patológicas, dos refúgios psíquicos, etc.

Ao se mudar para Londres, em 1926, criou-se uma discussão ferrenha entre sua visão sobre a análise de crianças e a dos seguidores de Anna Freud. Durante os anos da segunda guerra mundial (1939-1945), tiveram lugar as grandes controvérsias (1942-1944) entre os seguidores de MK e os do grupo em torno de Anna Freud.  Os kleinianos se viram instados a responder a desafios teóricos para justificar seus achados e desse processo saíram os trabalhos fundamentais que levaram à consolidação da teoria.

Seu pensamento constitui junto com a obra de Freud os alicerces de todo o pensamento psicanalítico posterior. Seus conceitos foram absorvidos ao corpus da Psicanálise: a importância do mundo interno e da fantasia inconsciente, a teoria das posições, a destrutividade, mas também a generosidade, o amor, a reparação e a esperança, numa dialética permanente.

MK foi uma mulher controvertida, mas de grande convicção quanto ao valor de suas descobertas e de sua obra. Partindo de uma forte ambição pessoal, foi se movendo em direção à dedicação a algo muito maior do que seu próprio prestígio.

Encerro com uma breve passagem do final da biografia de MK escrita por Phyllis Grosskurth, em que ela menciona a relação especial que MK tinha com seu neto Michael:

‘Michael estava perturbado com a perspectiva da morte da avó querida. Ela lhe disse que não tinha medo de morrer. A única coisa que era imortal era aquilo que uma pessoa havia conquistado; e sua força e coragem estavam em sua crença de que suas ideias seriam levadas adiante por outros.’

E sabemos que foram. Essa era MK e aqui estamos nós prestando-lhe homenagem.

Liana Pinto Chaves é membro efetivo, analista didata e docente da SBPSP.

Há 90 anos, um evento social em São Paulo colocava a psicanálise em evidência

O dia 24 de novembro de 1927 foi importante para o movimento psicanalítico no Brasil. Há exatos 90 anos, Durval Marcondes, médico paulista considerado um dos precursores da psicanálise no Brasil, organizava um evento na Rua Doutor Villa Nova, sede do Colégio Rio Branco, em São Paulo, reunindo intelectuais, artistas e políticos para a fundação de uma associação de psicanálise no Brasil.

Durval, ainda estudante da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, teve o primeiro contato com a psicanálise ao ler um artigo do neurologista Francisco Franco da Rocha, publicado no jornal O Estado de S. Paulo, em 1919, intitulado “Do Delírio em Geral”. O fascínio com as premissas da psicanálise e as ideias de Freud foi imediato. Não só Durval Marcondes, mas outros grupos sentiram-se tocados pelos métodos desenvolvidos pelo médico vienense.

A teoria de Freud cruzou o oceano e na década de 20 começou a chacoalhar a sociedade paulistana e o resto do Brasil. Em 1920, Franco da Rocha publica “O Pansexualismo na Doutrina de Freud”. Os artistas organizadores da Semana de Arte Moderna de 1922, Mário de Andrade e Oswald de Andrade, a essa altura já se inspiravam clara e fortemente nas teorias freudianas. Em 1925, a publicação mineira “A Revista”, editada por Carlos Drummond de Andrade, trouxe um artigo assinado por Iago Pimentel chamado “Sobre a psycho-analyse”, baseado em uma série de conferências feitas por Freud na Universidade de Clark, nos Estados Unidos, em 1909. O artigo trazia as bases da teoria freudiana:

“Freud tem uma concepção dynamica da vida psychica, que elle considera como um  systema em evolução de forças antagonistas ou componentes; só uma pequena parte dessas forças constitui o consciente do indivíduo, em oposição, a outra parte, o inconsciente, composto de elementos muito mais numerosos e, sobretudo, muito mais activos no determinismo da atividade mental”.

Grupo de estudos

O fato é que, apesar do evento de 1927 organizado por Durval Marcondes ser considerado um marco do movimento psicanalítico em São Paulo, ele não significa a formação da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo ainda, mas era o seu embrião. Durante alguns anos, esse grupo que reunia nomes como Franco da Rocha, Osório César, Raul Briquet, Pedro de Alcântara Marcondes Machado, Menotti Del Picchia, Cândido Motta Filho e Lourenço Filho, promoveu frequentes conferências sobre o tema, bastante noticiadas pelos jornais da época. Em 1928, Durval lança a Revista Brasileira de Psychanalise e envia a Freud um exemplar. O pai da psicanálise lhe devolve uma carta de agradecimento com votos de que um fecundo futuro lhe seja reservado. Nesse primeiro momento, no entanto, a publicação tem vida curta, voltando a ser publicada ininterruptamente a partir de 1967.

Em determinado momento da década de 30, o próprio Durval chega à conclusão de que a formação de um psicanalista exigia bem mais que o estudo da obra de Freud. Ele havia lido uma publicação sobre o modelo de formação psicanalítica do Instituto de Piscanálise de Berlim, baseado em análise didática, supervisão de casos clínicos e cursos teóricos-técnicos. A partir daí ele começa a articular com Ernest Jones a vinda de um profissional para o Brasil e chega ao nome de Adelheid Koch, didata formada pela Sociedade Psicanalítica de Berlim.

Adelheid chega a São Paulo em 1936, dedica-se aos estudos do português durante um ano e então inicia o atendimento de pacientes. Havia sido formado um grupo de estudos com potenciais candidatos à formação. Além de Durval, participavam do grupo Virgínia Leone Bicudo, Flavio Dias, Darcy Mendonça Uchoa e Frank Philips.

Em 1943, Adelheid Koch solicita à International Psychoanalytical Association (IPA) o reconhecimento oficial das atividades desse grupo. A resposta positiva é datada de 9 de dezembro de 1943, mas só chega ao Brasil em 1944. O grupo recebe o nome de Grupo Pshychoanalytico de São Paulo e o seu reconhecimento foi um importante passo na direção da institucionalização da psicanálise no Brasil. O presidente nesse momento será Durval Marcondes. Adelheid Koch assume a comissão de ensino; Frank Philips é o secretário e Virgínia Bicudo tesoureira.

Na década de 50, Adelheid Koch traz Theon Spanudis, médico turco com formação feita na Associação Psicanalítica de Viena para ajudá-la com a formação. Em 1951, em Amsterdã, no XVII Congresso Internacional da IPA, Adelheid Koch e sua analisanda Lygia Alcântara do Amaral ouvem a ratificação da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Sâo Paulo, como membro da IPA. As bases sólidas e a força desse grupo que vem se estruturando desde 1927 são elementos fundamentais para a consistência, o respeito e o reconhecimento social que a SBPSP tem como instituição.