família

Meu primeiro relógio… meu primeiro celular

* Regina Elisabeth Lordello Coimbra

Nos muitos anos de trabalho psicanalítico com crianças e adolescentes observei um momento bem especial, verdadeiro marco, linha divisória e ritual de passagem para a conquista de novo patamar de desenvolvimento emocional: a hora de ganhar o primeiro relógio.

Era um grande acontecimento, geralmente recebido em festas comemorativas, fazendo parte de um ritual, como presente recebido de uma pessoa com muita importância afetiva dentro da família.

Vi latentes olhares para o primeiro relógio como se estivessem diante de um troféu que os permitiriam ter acesso à passagem do tempo – uma grande conquista!

A partir de então, a percepção do tempo seria compartilhada, favorecendo maior inserção na realidade e consequente diminuição do pensamento mágico.

À semelhança do completar o álbum de figurinhas, o tempo chegava e  propunha novo paradigma, a tolerância pela espera de um suceder de etapas necessárias para o desenvolvimento emocional.

E agora, em tempos atuais, o grande momento é a conquista do primeiro celular. “Qual a melhor idade?”, perguntam os pais. Quem sabe?

Perdeu-se o significado do grande momento, banalizou-se o ritual de passagem como grande conquista do desenvolvimento, qualquer hora é hora!

Como psicanalista aprendi: o desenvolvimento não pula etapas! E agora, estamos todos surpresos, pais e psicanalistas!

Diante da desenvoltura de seus pequenos filhos com as telinhas, os pais não entendem o que se passa com eles e entre eles. Com certeza nem os filhos!

Alguns pais buscam saídas, tentam resgatar o valor do tempo como o senhor das nossas vidas:

  • “Uma hora de celular por dia e livre no final de semana!”.
  • “Na hora em que o boletim chegar, se as notas não forem todas azuis, ficará sem celular!”
  • “Se não tomar banho na hora em que eu mandei, ficará sem celular por uma semana”.

Estamos submetidos ao novo senhor dos tempos: o celular!

 

*Regina Elisabeth Lordello Coimbra é membro efetivo, docente e psicanalista de Criança e Adolescente da SBPSP |bethcoimbra07@gmail.com

Big Little Lies – a grande mentira sobre as mulheres

*Marielle Kellermann

Big Little Lies é uma série de uma temporada com 7 episódios produzida pela HBO. Baseada em um romance de mesmo nome da escritora australiana Liane Moriarty, estreou em fevereiro de 2017 e já recebeu ótimas críticas e apreciação do público.

Resumindo de forma rápida, a série começa com um assassinato e se desenvolve com uma trama bem desenhada até o desfecho, quando o espectador descobre quem morreu e quem é o assassino.

Esse é o fio que alinhava cenas repetidas de mães levando seus filhos à escola passando por pontes suspensas em uma pequena e rica cidade da Califórnia. As personagens principais são mulheres que se conhecem por terem seus filhos estudando no mesmo colégio. Reese Witherspoon e Nicole Kidman estão entre as estrelas da série.

As cenas de início de cada episódio são repetidas, mas nem por isso são monótonas. Aliás, talvez por essa razão, carregam cada vez mais em certa tensão que se desfaz apenas no final. Mães em seus carros, levando seus filhos à escola pela manhã, por vezes absortas em pensamentos. Em outros momentos, tentando, em vão, fazer contato com filhos que prestam mais atenção em seus celulares, fones de ouvido e Ipads, as personagens vêm e vão por sobre pontes elevadas na costa do Pacífico. Um vento constante sopra, dando a impressão de que estão todo o tempo à beira de um precipício.

De início o espectador se vê diante de mulheres com as quais é difícil empatizar, pois elas rivalizam entre si, boicotam a festa de aniversário de uma criança só porque não gostam da mãe dela, tomam seus maridos por confidentes de sua competição, invejam e odeiam umas às outras.

Uma personagem sofre por ser uma profissional de sucesso e exagera na decoração e lembrancinhas da festa da filha por temer que as outras mães a considerem relapsa por trabalhar. Outra abandonou uma carreira exitosa e tenta, sem sucesso, convencer-se de que ser exclusivamente mãe e esposa é suficiente. Uma outra tem um caso em segredo com um colega de trabalho e vive uma batalha permanente com o ex-marido e a atual esposa dele, com quem a filha adolescente parece ter mais proximidade e mais afeto. Outra personagem central na trama é uma mãe vítima de estupro que vive o conflito de ver em seu filho a violência do pai/ agressor.

Nicole Kidman ganhou o Emmy e o ator que faz seu marido também levou o prêmio como coadjuvante, não sem mérito. Ambos fazem um casal cuja relação violenta e abusiva se mescla à quase perfeição de suas belezas, das roupas, dos filhos gêmeos e da casa à beira-mar. A personagem de Nicole Kidman maquia os hematomas no corpo e esconde as dores da relação violenta mantendo uma visão idealizada que todos têm de sua família.

A personagem que foi estuprada costuma correr pelos penhascos à beira-mar, flertando com um possível suicídio – a ideia de que todas podem cair a qualquer momento está sempre presente -,  mas uma cena simples parece fundamental para mostrar sobre o que fala Big Little Lies. Essa personagem, mãe, jovem, solteira, vítima de um estupro, corre sempre sozinha. Mas, a partir do momento em que faz amizade com outras duas personagens (Nicole Kidman e Reese Witherspoon) e passa a correr acompanhada, com uma amiga de cada lado, ela não parece mais que pode cair.

Sem spoilers para o final da trama, a descoberta sobre quem morre e quem mata parece nos contar de que grande mentira a série trata. As pequenas mentiras fazem parte das histórias pessoais de cada mulher, a violência, a insegurança, um amante, mas a real big lie talvez seja a ideia – criada, vendida, anunciada – de que elas são rivais, de que estão umas contra as outras, de que se ameaçam.

A última cena se dá na praia, as personagens estão juntas, os filhos brincam. Talvez a maior mentira seja a de que mulheres não podem se apoiar, se admirar, se ajudar. Big Little Lies é, afinal, uma série delicada, bem feita, bem produzida e que, longe de estereótipos feministas ou ideias militantes, conta uma nova versão sobre possíveis relações entre mulheres, que talvez não seja uma versão contada por homens.

Pois como diz Rosa Montero em “A Louca da Casa” (2003): “(…) à medida que nós, mulheres romancistas, formos completando essa descrição de um mundo que antes só existia em nosso interior, tornamos esse mundo um patrimônio de todos.”.

 

*Marielle Kellermann Barbosa é membro filiado ao Instituto da SBPSP, editora da International Psychoanalytical Studies Organization e fã de carteirinha de séries boas.

 

Homens do nosso tempo

Gustavo Gil Alarcão

Como psicanalista habituei-me a desconstruir generalizações e buscar as singularidades de cada um. Venho apreendendo ao longo dos anos que as generalizações tanto pressionam por normatizações individuais quanto podem servir de esconderijos. Freud chacoalhou o Ocidente quando evidenciou que não há nenhum caminho predeterminado na formação de uma pessoa porque ele desarticulou a equação entre a anatomia biológica, expressa em corpos e sexos de nascimento, e seus caminhos futuros.

Não há equação entre nascer masculino ou feminino e desempenhar esses ou aqueles papeis, buscar esses ou aqueles objetos de desejo. A psicanálise propõe que estejamos atentos às permanentes construções e desconstruções que vivemos marcadas pelas identificações e pelas faltas de identificação com as quais convivemos ao longo da vida, com especial importância para aquelas que nos receberam no mundo e cuidaram de nós enquanto bebês e crianças (foi da experiência que se construiu, se confirmou e continua a se confirmar essa hipótese).

Dito isso, entremos ao texto. Aceitei o convite para escrever um breve artigo sobre algumas características dos homens contemporâneos. Pai, relativamente jovem, psicanalista, psiquiatra, que posta fotos da família no Facebook, trabalha com adolescentes da Fundação Casa, convive e trabalha com muitas mulheres, casado etc. Partes da minha história pessoal que podem ter sido associadas às determinadas pressuposições que me colocariam em condições favoráveis de escrever sobre o tema proposto. O convite foi interessante porque partiu de uma equipe formada principalmente por mulheres e que, de certa forma, quase cem anos depois, recolocaria uma questão formulada pelo próprio Freud (1932), que já se indagava: “afinal, o que querem as mulheres?”. Hoje, em 2017, há mulheres perguntando: “afinal, o que querem os homens?”.

Não creio que se busque uma definição, o que seria tanto ingênuo quanto impossível. Mas essas questões indicam a existência de dúvidas e o questionamento acerca de identidades fixas e rígidas está posto. A maior variedade de possibilidades identificatórias é um traço de nossa época. Há condições para que as pessoas não tenham necessariamente que repetir passos e modelos. Essas possibilidades não baniram as tradicionais formas de existir, mas as ampliaram. Basta sair às ruas da maioria das cidades, para não dizer de todas, e observar a diversidade.

A diversidade sempre existiu, mas as possibilidades de expressão variam conforme o momento histórico de cada sociedade. Os filmes A Garota Dinamarquesa (2015,) Carol (2015) e Shame (2011) nos mostram exemplos disso. No primeiro, um homem que deseja se tornar uma mulher enfrenta as questões de seu tempo, os anos 1920-30. Em Carol temos um romance entre duas mulheres nos anos 1950 e Shame evidencia a vida de um homem contemporâneo cuja vida sexual compulsiva escondia uma rotina apática e entediante.

Os homens de hoje, mesmo querendo, não podem negar esses fatos. A liberdade de ser quem se é convoca a todos. Para alguns, existem possibilidades para que as escolhas feitas ao longo da vida (relembrando que somos atravessados pelo inconsciente) evoquem maior responsabilidade pessoal no sentido de se engajar consigo mesmo (se as imposições diminuíram, posso escolher mais). Para outros, a liberdade será assustadora e evocará defesas.

O mundo infelizmente ainda é muito hostil e bárbaro (vide o terrorismo, a violência policial, racismos e crimes contra minorias) e a liberdade que descrevo não pode ser exercida plenamente por muitas pessoas. As reações de intolerância daqueles que se sentem perturbados, literalmente perturbados, pela própria liberdade também estão explícitas. A liberdade do outro pode ser atacada com a violência. Os efeitos perturbadores da liberdade em si não podem ser banidos, podem ser negados ou deslocados. Provocarão sintomas desde o apego inseparável aos temas que tanto atacam (vide alguns políticos por aí, que falam mais de homossexualidade do que qualquer homossexual), ou gerando sintomas, dos quais a passagem aos atos –violência- tem sido o mais comum, havendo vários outros: as compulsões, o tédio, os pânicos e paranoias, etc.

Diante da possibilidade de sair do armário, cada um tem a efetiva possibilidade de assumir suas escolhas pensando em seus significados. Não podemos lidar sem problematização com a questão dos gêneros, tão debatida atualmente, afirmando que homens e mulheres não nascem prontos, constroem-se. Nesse sentido, se tomarmos como exemplo, para ficarmos no texto, pessoas do sexo masculino que se construíram como homens observaremos uma grande diversidade de vidas. Alguns mantiveram muito conservadas características possivelmente identificadas com as dos homens mais tradicionais de outras épocas. Ligados aos valores tradicionalmente veiculados como normas, apegam-se geralmente à moral religiosa, à família patriarcal e ao poder. Há homens que romperam radicalmente com valores tradicionais e adquiriram vidas próprias. Assistam Laerte-se (2017), De Gravata e Unha Vermelha (2014). Há vários outros: gays, homens casados, homossexuais que constroem famílias (por incrível que pareça, tradicionais), os solteiros convictos, homens que se casam com mulheres, homens que têm filhos; os que têm filhos e não se casam; os que não saem da casa dos pais; os que mudam de corpo; os que adquirem corpo; os que fogem e abandonam filhos etc. A relativização aqui não é estratégia para evitar o debate, mas é o seu argumento principal. Não se pode imaginar que determinada maneira de viver se imponha sobre as demais.

Voltando ao convite e imaginando os elementos da minha vida que possam ter sido levados em conta como representativos de certo grupo de homens, penso na paternidade e no casamento. Como um homem desse tempo e com as características do ambiente onde nasci e cresci, experimentei um caminho aberto para realizar minhas escolhas (aberto não significa fácil).  Na medida em que pude me dar conta do que significava estar vivo e ter consciência de nossa breve e única experiência de existir, angustiei-me e me pus a pensar (análises pessoais foram fundamentais, porque nossa mente é engenhosa em criar subterfúgios e fugas). Fui questionar meus desejos e encontrei meu desejo de ser pai, casar-me e viver em família.

Convivo com vários amigos que fizeram escolhas parecidas e com muitos que não fizeram (tenho sorte!). Entre todos, percebo que são, em geral, homens menos assustados com os seus sentimentos e com sentimentos dos outros. Quase todos repudiam a violência como modo de se relacionar. A maioria se esforça para conviver com as diferenças. Praticamente todos quiseram se tornar independentes de suas famílias, o que se traduz em ter trabalho e ganhar dinheiro – nem todos levaram em conta outros aspectos do que chamam maturidade. Alguns vivem para se entreter e evitam qualquer conflito ou assunto mais sério. Alguns desejam profundidade em suas vivências. Todos estão conectados na rapidez, na tecnologia e na internet. A lista poderia seguir, mas é suficiente.

Tentando ajudar na questão sobre o que querem os homens, me lembro de um filme. Em A vida é Bela (1997), Roberto Begnini e seu personagem Guido encarnam o que penso poder representar um ideal para alguns homens desse tempo: nos horrores da guerra e apaixonado por sua principessa é levado para um campo de concentração com seu filho. Amor, coragem, paciência e criatividade o ajudam a salvar o filho, mas não evitam sua própria morte. Guido tinha um filho e uma mulher, mas poderia não ter filhos e amar um homem. Ainda aposto no amor e no vínculo entre as pessoas como desejo de muitos, o que não exclui a legitimidade de outros amores e vínculos, como o que se observa no filme Her (2013), quando o protagonista se apaixona por um programa de computador (certo que sua angústia tem matizes diferentes), mas se opõe aos vários exemplos de mentes tirânicas que fazem do outro objeto inanimado de sua satisfação.

 

Gustavo Gil Alarcão, membro filiado ao Instituto de Psicanálise SBPSP, psiquiatra Colaborador do Serviço de Psiquiatria IPQ HC FMUSP e Doutorando Departamento de Medicina Preventiva FMUSP.

Amamentação: você tem fome de quê?

Elisabeth Antonelli

Alimento e amor. Disso dependemos para nosso desenvolvimento físico e emocional. “O estômago é, pois, como uma miniatura interna de boa mãe” (Winnicott, 1979, p39). Agosto ficou conhecido como “Agosto Dourado”, simbolizando a luta pelo incentivo à amamentação. O dourado está relacionado ao padrão ouro de qualidade do leite materno. É uma cor toda especial, associada no mundo inteiro ao laço simbólico. São trinta e um dias em que são celebrados a promoção, a proteção e o apoio ao aleitamento, chamando nossa atenção para refletir acerca de um ciclo universal que acompanha gerações.

Quando falamos em amamentação, falamos dos primórdios da constituição do sujeito, momento privilegiado, quando ainda não existe uma separação entre o bebê e a sua mãe. Nascemos indiferenciados e imaturos se comparados, por exemplo, a um filhote de cachorro que, em pouco tempo, adquire sua independência a partir dos reflexos prévios. Por sermos dotados de um sistema de linguagem, não existimos sem o outro. Os cuidados nesse começo da vida são decisivos para o nosso desenvolvimento mental.

O cuidado materno é fundamental para o desenvolvimento do psiquismo do lactente. Junto com o leite, o bebê recebe o amor da sua mãe e, neste mesmo ato, o bebê pode participar do desenvolvimento na mãe da capacidade de decifrar os estados penosos vivenciados por ele.

A alimentação do filhote humano depende de todo o aparato psíquico da mãe, que servirá de suporte para o desenvolvimento do aparato psíquico do bebê. Embora o aleitamento no peito seja o mais desejável, as mesmas condições precisarão ser mantidas no aleitamento na mamadeira. É certo que as mesmas dificuldades brotarão.

Ainda na gravidez, a mãe percebe que uma nova realidade se aproxima: para gerar um filho precisará aprender a lidar com a dependência que a maternidade impõe. Não há preparação anterior quando se trata de gerar uma vida. Do mesmo modo que muito se espera de uma futura mãe, são negadas as condições necessárias para que ela possa sustentar tal papel. Nesse momento, o pai, que pode ou não ser seu marido, precisaria ter asas grandes o suficiente para proteger este ninho que vai ser inaugurado.

Somos seres desamparados que temos crias desamparadas que precisam de nós. Esse fato pode fundar uma tragédia ou pode construir a preciosidade do humano. Winnicott (2000. p401) chama de “Preocupação Materna Primária” o estado que a mãe vivencia perto do parto e nas primeiras semanas a partir do nascimento do bebê. Nesta fase de adaptação ao bebê, a mãe entra num estado muito especial, de uma espécie de retraimento ou dissociação, ou fuga, semelhante a um estado esquizoide. O autor descreve tal estado:gradualmente, esse estado passa a ser o de uma sensibilidade exacerbada durante e principalmente ao final da gravidez. Sua duração é de algumas semanas após o nascimento do bebê. Dificilmente as mães o recordam depois que o ultrapassaram. Eu daria um passo a mais e diria que a memória das mães a esse respeito tende a ser reprimida”.

Os primeiros momentos da vida de um bebê carecem de toda atenção da mãe que precisaria também contar com a atenção redobrada do marido e demais membros da família. A sociedade deveria ser convocada a acolher as parturientes amamentadoras para que esse processo pudesse ocorrer da melhor forma possível. Estamos falando de dificuldades simples e situações normais. Eventualmente, poderá haver outras questões mais complexas trazidas pelo bebê.

Falar em amamentação necessariamente é uma convocação às condições necessárias para que a mãe possa produzir leite, o que é um ato de amor por excelência!

 

 

Elisabeth Antonelli é psicóloga, psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, membro associada da Sociedade Brasileira de Psicanálise, professora do COGEAE, da PUC-SP e do Instituto Sedes Sapientiae, autora do livro: “Os Sentimentos do Analista: A Contratransferência em Casos de Difícil Acesso”, ed. Zagodoni, além de artigos em revistas científicas.

 

 

 

Referências bibliográficas

https://www.marinha.mil.br/saudenaval/aleitamento-materno

Winnicott, D.W:  Da Pediatria à Psicanálise. RJ,Imago Ed.,2000

_____________: Tudo Começa em casa, SP. Martins Fontes, 1989

_____________: A criança e o seu mundo, RJ, Zahar, Ed. 1977

Novos casais – antigos amores

Regina Maria Rahmi

O Dia dos Namorados faz emergir indagações sobre o amor. E como anda o amor, tão cantado em verso e prosa? E a busca pela cara metade?

Freud afirma que a busca do partner evoca, desperta ou ativa algum traço parcial no sujeito das primeiras relações amorosas. A primeira marca de prazer e satisfação. Entre o encanto do reencontro e o desencanto da ausência é o lugar onde convergem os apaixonados.

A ilusão de ter a mesma ilusão… Na parceria amorosa, implica em momentos mágicos onde os dois acreditam terem encontrado aquilo que sonharam. Esse é o território de projeções entrecruzadas, fantasias de continuidade, completude e transcendência. Não seria o “campo virtual”algo inerente à natureza das paixões? Um espaço de sonho e desejo?

“Os enamorados” –  diz William Shakespeare –  “buscam a noite”. Território das idealizações e intensas atrações. A grande questão aparece quando a luz da realidade, a existência do outro, se faz presente.

Qual é o espaço para a alteridade? Para a existência do outro enquanto outro, o diferente? Qual a tolerância para a dor de perceber que o outro não alberga somente nossas projeções? Que o partner existe por si, diferente do que se imagina?

 Na atualidade

A busca pela satisfação instantânea, o abandonar-se aos impulsos, estar em movimento, alta velocidade, uma aventura estimulante…  Nas parcerias, leva por vezes a “amores líquidos”, como se refere Zygmunt Bauman. Laços frágeis que, frente à frustração do não encontro daquilo que almeja, emerge o pesadelo.  A desilusão leva facilmente a rompimentos; sempre está a possibilidade de apertar a tecla e deletar.

Por outro lado, também existem aqueles que têm espaço e recurso interno para lidar com os desencontros e experimentar o desconhecido; a possibilidade de um novo vínculo nasce de um entre dois.  No momento em que o amor se apresenta, o prazer é inerente ao encontro, surge uma esperança.  Há uma inquietação e uma descoberta de quem se apresenta.

O amor vive da incompletude. É a falta, a busca que nos põe em movimento.  O desejo precisa de tempo para germinar, crescer e amadurecer. E no dizer do poeta Arnaldo Antunes: “O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo por conjunção estrelar. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério pela paz que o outro dá ou pelo tormento que provoca”.

 

Regina Maria Rahmi é membro associado da SBPSP, professora dos Seminários de Psicanalise dos vínculos de Família e casal da (Dac), diretoria de Atendimento a Comunidade da SBPSP e coordenadora do curso de especialização de Família e casal na atualidade – Instituto Sedes Sapientiae.

Foto: We Heart It

Dia da Família: alternativa democrática?

*Por Eliana Riberti Nazareth

Algumas escolas já implantaram o Dia da Família (15 de maio) em substituição ao Dia das Mães e ao Dia dos Pais. Outras parecem estar em via de. Alguns justificam tal iniciativa dizendo que, desse modo, mais crianças podem ser incluídas nas comemorações, pois nem todas têm mãe, pai ou ambos, ou provêm de famílias ditas tradicionais. Ligado a isso, outros afirmam ser esta uma maneira mais “democrática”, implicando uma visão menos preconceituosa e menos intolerante, sobretudo em se tratando de crianças e adolescentes pertencentes a famílias que não se compõem por pai-mãe-filhos. Bons argumentos à primeira vista.

A fim de ampliar a reflexão, proponho examinar brevemente tais premissas envolvidas na criação do Dia da Família, isto é, a maior possibilidade de inclusão e o abrandamento do preconceito. Reflexão que, talvez, nos leve a pensar além de consequências mais superficiais para as famílias, tenham elas a estrutura que tiverem. Refiro-me aos pressupostos de tais iniciativas e suas possíveis ressonâncias no imaginário de crianças, adolescentes e suas famílias.

No caso do argumento de que a extinção da comemoração em separado do Dia das Mães e dos Pais (e criação de um único dia, o da Família) permitiria uma maior inclusão, penso que, na sua origem, estaria a tentativa de minorar o sofrimento daquelas crianças que não têm um ou ambos os pais, ou porque nunca os tiveram como figuras presentes emocionalmente em suas vidas, ou porque os perderam por abandono, separação conjugal conflituosa ou morte. Objetivo louvável num primeiro momento. Mas será mesmo que a diminuição do sofrimento da perda se dá dessa maneira?  Será que eliminar essas comemorações levará ao desfazimento dos conflitos, dos traumas, das dores das perdas?

Parece que por trás dessa substituição de comemorações está embutida a crença de que “longe dos olhos, longe do coração”, algo com o qual nós, psicanalistas, lidamos todos os dias. Construção difícil de desmontar, pois diz respeito à ilusão de que, quanto menos contato se tem com a realidade dolorosa, menor o sofrimento. E a cultura, sobretudo a atual, não tem favorecido muito o enfrentamento da realidade. Ao contrário, cada vez mais proliferam os meios de seu tangenciamento e negação, com a criação de simulacros.

A justificativa de que a criação do Dia da Família, em substituição ao Dia das Mães e Dia dos Pais, seria uma alternativa mais democrática e menos preconceituosa implica a intenção de que, desse modo, possa haver uma maior receptividade das diferenças, sobretudo em se tratando de crianças filhas de casais do mesmo sexo.

Aqui também caberiam algumas ponderações. Qual seria a maneira mais adequada de se lidar com o preconceito e a intolerância? Seria extinguindo ou anulando as diferenças? Ou seria mantê-las e ajudar crianças, adolescentes e suas famílias a compreendê-las e elaborá-las descobrindo novas possibilidades do ser, tão complexo, humano?

Ao não se comemorar mais Dia das Mães e Dia dos Pais, pode-se ter a impressão de que as faltas e as diferenças não serão registradas com sua devida importância e singularidade. Tentar tratar o diferente como se não o fosse, tentar tratar as especificidades das mais diversas configurações familiares como não se não fossem peculiares e distintas pode, ao contrário do pretendido, fortalecer preconceitos que ficam invisíveis e aparentemente inertes, mas que podem tomar voz nos nada triviais comportamentos de bulliyng. As diferenças não desaparecem pela simples troca de comemorações.

Levar em consideração as singularidades é o que pode favorecer a compreensão e aceitação da pluralidade das famílias.

Como nos ensina Bion “o desenvolvimento mental saudável parece depender da verdade como o ser vivo depende da comida”.

Que se comemore o Dia da Família, o Dia das Mães e o Dia dos Pais!

*Eliana Riberti Nazareth é membro efetivo da SBPSP, mestre em Psicologia Clínica pela PUCSP, coordenadora do Grupo de Estudos das Relações CorpoMente e docente do Instituto de Psicanálise da SBPSP. Eliana possui especialização em psicoterapia de família e de casal pelo ILEF – México.

 

O incesto e o abuso sexual

Por Claudio Castelo Filho *

Trabalho como psicanalista em meu próprio consultório há 32 anos. E já há algum tempo fui convidado pelo ilustre colega e amigo, grande pioneiro neste campo, o professor doutor Claudio Cohen, a colaborar, como supervisor convidado, com o Centro de Estudos e Atendimento Relativo ao Abuso Sexual (CEARAS) do Instituto Oscar Freire na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. É onde acontece um extenso trabalho de pesquisa e psicoterapia com famílias incestuosas (pais com filhas/filhos, irmãos entre eles, mãe/filhos/filhas, avós/netas/netos, padrastos/madrastas/enteados, tios etc.), que revela o quanto a situação é ampla na sociedade, das classes mais baixas às mais privilegiadas. No trabalho feito com famílias encaminhadas por fóruns de justiça e que estão, portanto, sendo acompanhadas juridicamente, tratamos do grupo (família), que percebemos como “um indivíduo”, assim como no consultório analítico também podemos entender que uma pessoa é um “grupo de entidades”. Neste trabalho do CEARAS, em que a dimensão psíquica da situação é a prioridade, não é possível, por exemplo, haver uma “discriminação simplificada” entre vítima e algoz, pois o que se verifica é uma questão dinâmica de todo o grupo, em que a capacidade para pensar e simbolizar em geral é muito precária (o que não implica obviamente na desresponsabilização dos adultos envolvidos). O trabalho é focado na captação dessa problemática, na sua exposição e possível conscientização, para que se possa desenvolver alguma possibilidade de ela ser pensada e elaborada, visto que admoestações morais e repressão policial podem ser muito úteis e importantes para o grupo manter sua organização social, mas insuficientes e quase sempre inúteis para uma efetiva realização por parte da família e de seus membros do significado psíquico desse tipo de atuação.

Freud, Klein e Bion perceberam o aspecto fundamental da existência do tabu sobre o incesto, intrinsecamente associado ao desenvolvimento da capacidade para reconhecer e lidar com frustração, o que implica no crescimento da capacidade para pensar dos seres humanos, algo essencial no processo civilizatório. Sem isso, em pouco ou nada nos diferenciamos dos outros mamíferos superiores ou das feras selvagens, que permanecem sempre potenciais dentro de nós. Não obstante, o que se verifica é que essa capacidade civilizatória e para pensar é muito mais incipientemente desenvolvida do que se costuma acreditar. O que se observa, na prática, é que os aspectos mais primevos encontram pouco equipamento mental para elaborá-los e o incesto e o abuso sexual (além de toda a violência que observamos no cotidiano, o que não é novidade na história de nossa espécie) são muito mais comuns do que o tabu que os envolve leva a crer.

* Psicólogo formado pela Universidade de São Paulo e mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, Claudio Castelo Filho é membro efetivo e analista didata da SBPSP, doutor em Psicologia Social e professor livre docente em Psicologia Clínica pela USP. Castelo Filho é autor do de “O Processo Criativo: Transformação e Ruptura” (Ed. Blucher, 2015) e produziu este texto como parte da apresentação que fará na “I Jornada Sobre Abuso Sexual – Consequências para a subjetividade – Prevenção”, que a SBPSP realiza nos dias 1 e 2 de abril de 2016.

No tempo da diversidade

No tempo da diversidade

Para lidar com as novas diferenças macro e microculturais nas relações e vínculos dos grupos, da família ou do casal, é precisar criar espaços para reflexão e buscar respostas que sugerem renovações teóricas e clínicas.

Por David Levisky *

Trabalhos psicanalíticos recentes tem tratado a diversificação dos espaços psíquicos e as modalidades inconscientes de seus funcionamentos. O sujeito, o vínculo e o grupo, a saber o casal, a família e mais largamente a cultura revelam uma complexidade que o VII Congresso da Associação Internacional de Psicanálise de Casal e Família (AIPCF), que acontece em entre 3 e 7 de agosto, em São Paulo, se propõe a explorar ao nível das renovações clínicas e teóricas.

Uma primeira dimensão da diversidade cultural encontra-se na psicanálise de família, já que o grupo contém diferenças macroculturais de origem social ou étnica. Mecanismos de defesa como a negação e conflitos entre ideais culturais pesam significativamente na vida psíquica da família. Como trabalhar os processos associativos durante a sessão analítica para colocar em evidência e conduzir na direção de uma diferenciação que integra ou não a diversidade cultural?

Os conflitos culturais podem ser reminiscências de mudanças sociais em ressonância com a história da família ao mesmo tempo em que são portadores do inédito e estão voltados para o futuro? No seio de uma mesma família há uma segunda dimensão da diversidade cultural oriunda de processos contínuos das diversidades microculturais ao longo das gerações. Como ajudar a família a superar as turbulências ligadas a eventos que geram processos defensivos e fazer evoluir em sua microcultura?

Um terceiro aspecto da diversidade cultural em psicanálise de casal e família atinge a cultura pessoal e psicanalítica do analista, particularmente no trabalho gerado no campo transferencial/contra-transferencial. A psicanálise de casal e família é uma traição a uma suposta ortodoxia psicanalítica ou, pelo contrário, uma diversificação do exercício psicanalítico, um avanço capaz de enriquecer o corpo metapsicológico?

Estas são algumas das questões que o VII Congresso se dispõe a debater e desde já contamos com a participação dos colegas, cujas presenças certamente enriquecerão o debate e as respostas para temas da maior relevância.

*David Levisky é psicanalista e membro efetivo da SBPSP.