Entrevistas

‘Ficou difícil, para a sociedade de hoje, lidar com o diferente’, diz analista

A rapidez das mudanças do mundo, a fragilidade dos vínculos e a dificuldade de enxergar o outro são algumas das razões, apontadas por Bernardo Tanis, para o mal-estar geral da sociedade. O psicanalista – que acaba de assumir a presidência da Sociedade Brasileira de Psicanálise de SP – , quer ampliar a atuação dos profissionais na área social, aproximando-os da população “A psicanálise tem a contribuir, mas que as outras disciplinas também contribuem, e dessa forma – cada um desde a sua perspectiva, desde a sua metodologia – podem juntos produzir alguma coisa talvez que nos ajude a lidar com a perplexidade do homem no mundo de hoje”, afirmou em entrevista à repórter Marilia Neustein, em seu consultório.

Para Tanis, os desafios dos analistas de hoje são muitos, entre eles a dificuldade do indivíduo em lidar com a alteridade: “Está muito difícil para o homem lidar com o outro, com o diferente. Ou seja, nós amamos o que é idêntico a nós. E odiamos o que nos questiona, o que é diferente”, diz, Abaixo, os principais trechos da conversa.

Como você avalia o momento que o País e o mundo estão vivendo, de polarização política? A relação entre as pessoas está se tornando mais violenta?
O mundo está se transformando nas últimas décadas de um modo vertiginoso. Muito mais rápido do que conseguimos entender. Temos a sensação de que ele está mais violento, mas se pensarmos nos milhões que morreram na Primeira Guerra Mundial, na Segunda Guerra, nas atrocidades e matanças, teremos que refletir que talvez haja uma transformação no modo da violência – e precisamos entender as raízes desse cenário.

Existe mais violência?

Violência sempre existiu na história da humanidade, mas talvez o que a motiva hoje seja algo diferente. Uma coisa interessante que vem acontecendo nas últimas décadas é uma mudança do mundo que o indivíduo encontra no seu cotidiano, na sua história. Havia uma continuidade maior que a de hoje e o ritmo de mudanças na vida, nas famílias, nas amizades, no trabalho, era bem mais lento. Do ponto de vista subjetivo, esse indivíduo conseguia se projetar no futuro.

Era mais previsível.

Não que fosse ideal, porque também havia amarras, havia situações em que o indivíduo ficava preso. Nós ganhamos talvez maior margem de liberdade na vida afetiva, na sexualidade, na aceitação da diversidade. Mas em outras coisas o mundo foi nos conduzindo a um desenraizamento muito grande. Então, em relação ao trabalho, por exemplo, as pessoas não sabem se vão continuar amanhã no mesmo emprego. As mudanças são rápidas, há muitas incertezas. As pessoas estão se sentindo substituíveis, pouco relevantes, seja na vida afetiva ou na inserção no mundo do trabalho.

Acredita que há uma frivolidade nas relações e na maneira de se constituir no mundo?

Sim. Existe a dificuldade de uma certa continuidade dos vínculos. E isso vai produzindo uma forma de ilusão. Então, isso envolve questões de confiança em si mesmo, de confiança no outro, nas instituições. E isso tem uma ressonância – uma questão muito importante que a psicanálise estudou – que é uma condição de desamparo. Assim, quando o mundo externo não lhe dá muitas garantias, soma-se a estranheza com você mesmo e com esse mundo exterior.

De que forma isso aparece no consultório?

O que é que nós vemos? Maior quantidade de quadros de depressão, por exemplo. Situações de vazio que a pessoa vive ou adições fortes, compulsões. Há muito sofrimento, angústia, e isso precisa ser obturado. Então o que a gente vê são formas de obturação. E a violência aparece também aí, como forma de reagir ao sentimento de insegurança e de fragilidade social. A violência acaba aparecendo muitas vezes como um ato de afirmação.

Como os psicanalistas podem lidar com essas mudanças e fenômenos contemporâneos?

Acabamos de assumir a presidência da SBPSP e o mote científico e também de intervenção na cultura da nossa gestão vai ser a questão do “o mesmo e o outro”. Identificamos que em nosso tempo está muito difícil para o homem lidar com a alteridade, com o outro, com o diferente. Ou seja, nós amamos o que é idêntico a nós. E odiamos o que nos questiona, o que é diferente. Veja o tema das migrações, dos exilados. Consideramos, desde uma perspectiva psicanalítica, que do mesmo jeito que o ser humano é auxiliado pela psicanálise a conhecer motivações inconscientes do seu modo de lidar com a vida, consigo mesmo e com o mundo, ele também tem que aprender a dialogar com esse outro dentro de si mesmo para viver de um modo mais consciente, mais integrado. E as culturas de uma determinada sociedade também têm que aprender a conviver com o diferente dentro dessa cultura.

Nesse contexto, como vê o cenário polarizado?

Há momentos na história em que determinados grupos têm interesses em polarizar a discussão política. Como se existisse algo totalmente bom e algo totalmente ruim, excluindo as complexidades. Penso que o que acontece nas redes sociais, em alguns debates, às vezes na mídia, é que justamente as pessoas que têm um pensamento mais complexo, mais rico, que aceita a diversidade e enxerga a complexidade, ganham menos espaço. Isso se dá também no contexto da psicanálise.

De que forma? Por exemplo, discute-se muito hoje, no caso da psicanálise e da saúde mental, a questão das neurociências, do avanço da psiquiatria, dos psicotrópicos, as medicações, como se fosse também uma questão ou um ou outro. Sem levar em consideração que são modos de conceber e de lidar com o aspecto do humano complementar e não são excludentes. É inegável que temos um corpo biológico e que certas substâncias influenciam na nossa subjetividade. Podem ajudar a lidar com a ansiedade ou com a depressão, mas a dimensão subjetiva do humano, que Freud chamava alma humana, que é a angústia e o sofrimento humano ligado ao existir, isto não é tratado por nenhuma medicação. Essa transformação só pode vir de uma prática clínica. Então são vínculos complementares. Por isso o que queremos, na Sociedade de Psicanálise, é convocar um diálogo cada vez maior entre os diferentes campos do conhecimento. É procurar, buscar, tentar essa interface com as experiências das outras disciplinas. Achamos que psicanálise tem a contribuir, mas que as outras disciplinas também contribuem, e dessa forma – cada um desde a sua perspectiva, desde a sua metodologia – podem juntos produzir alguma coisa talvez que nos ajude a lidar com a perplexidade do homem no mundo de hoje.

Retomando o tema da alteridade, acredita que existe uma falta generalizada de empatia? As pessoas, de uma forma geral, não conseguem se enxergar em um lugar diferente, independente de qual situação seja?

Se a gente aceita essa diferença, a partir daí pode desenvolver a empatia. Não é a partir daquilo que a gente vê que é igual. Por que é que uma formação de analista é longa, demorada? Porque o analista precisa fazer uma análise pessoal, pois ele vai transitar consigo mesmo por esses fantasmas, por essa questão do próprio narcisismo, de aceitação do outro nele mesmo, das raivas, do desejo de dependência, das vivências de solidão. Porque pra eu poder escutar o outro e poder lidar com a diferença do outro, preciso escutar essas coisas em mim.

Quais são os maiores desafios dos analistas hoje?

Acho que desafios não faltam. Talvez um dos maiores seja a questão dos tempos e dos ritmos. Vivemos em um mundo muito acelerado e as pessoas têm uma urgência muito grande de resolver seus problemas. Além disso, há uma certa ditadura da felicidade. Nós temos que ser felizes, temos que ser todos muito bonitos, ter corpos malhados, temos que estar sempre com uma cara sorridente. Não há o direito a se exercer a subjetividade plenamente. Não há direito a ficar às vezes triste, a não querer ir pra balada. Não há direito a ter dúvidas. A psicanálise, nesse sentido, se propõe a ser o espaço da singularidade. E para isso é preciso tempo, é preciso espaço.

Vivemos uma falsa liberdade? Somos escravos dessa falta de tempo?

O ritmo do mundo de hoje aparentemente nos fala da liberdade, que cada um pode ser do jeito que quer, que pode se vestir como quer, viver sua sexualidade como preferir. Sim, há algo que caminha nesse sentido, mas também há uma tirania de tudo isto também. Uma pessoa hoje na sessão de análise tem dificuldade de desligar o celular porque tem que estar conectada permanentemente. A quantidade de informação que a gente recebe é monstruosa. A psicanálise nos ajuda a construir uma narrativa de nós mesmos, mas para ter o tempo dessa narrativa, pra poder se situar no mundo, é preciso abrir um espaço, por pequenino que ele seja.

Como vê a democratização da psicanálise? Ela deve sair do consultório e dialogar com outros setores da sociedade?

Sim, isso é um dos nossos objetivos. Queremos oferecer pequenos cursos para que as pessoas possam se aproximar de psicanálise. Grupos de escutas sobre situações que acontecem na vida de todos nós – como adoção, envelhecimento, famílias, drogas. Queremos expandir nosso setor de parcerias e convênios e mostrar o que a psicanálise tem pra dar à comunidade como um todo. Como psicanalistas precisamos nos preparar para essa escuta.

Olhando para o cenário político, acha que as delações e os escândalos de corrupção aumentam essa sensação de vazio e descrença?

Como eu vejo um pouco o fenômeno que tá acontecendo? Face a essa descrença e a essa corrupção, surgem as filosofias e os desejos autoritários. Então, do que é que precisamos? A conclusão que surge é que precisamos de um pai bravo. De um governo forte, que puna os culpados. Então aí surgem as filosofias autoritárias. Assim surgiram o fascismo e o nazismo, os governos autoritários. Em lugar de pensar, o que precisamos é criar uma sociedade cuja regulação interna seja democrática. Fortalecer não uma figura autoritária mas a democracia, as instituições, os funcionários que operem com regras claras e transparentes. Pode parecer utópico, mas é o caminho de uma sociedade forte.

 

 

Entrevista publicada originalmente no jornal O Estado de S. Paulo em 24 de abril de 2017.

A tecnologia não pode substituir o contato humano no tratamento do autismo

A psicanalista Alicia Beatriz Dorado de Lisondo integra o Grupo de Psicanálise e Pesquisa de Autismo (GPPA). Junto com outros profissionais, ela tem se dedicado a estudos na área que culminaram na publicação do livro “Atendimento Psicanalítico do Autismo” (2014) e no desenvolvimento do Protocolo PRISMA (Protocolo de Investigação Psicanalítica de Sinais de Mudança em Autismo), que oferece indicadores para o mapeamento do desenvolvimento emocional de crianças com transtornos autísticos e sua evolução no tratamento psicanalítico.

“Queríamos dialogar com a comunidade científica, mostrando como a psicanálise é um caminho eficiente para trabalhar com a criança com estados autísticos. Então criamos o Protocolo PRISMA, que foi apresentado em vários congressos internacionais”, conta Alicia. Em entrevista à Sociedade Brasileira de Psicanálise São Paulo, ela fala sobre o autismo em um mundo cheio de estímulos tecnológicos e deixa um alerta: a tecnologia não pode ser usada para substituir o contato humano.

Os estímulos proporcionados pela tecnologia podem ser usados a favor do tratamento de um paciente autista?

Sem dúvida estamos em mundo midiático. Isso é uma realidade. A questão é: como a tecnologia é usada? Isso não é só para a criança autista, é para qualquer criança. Quando a família está submetida à televisão ou ao tablet, não está dialogando nem interagindo. Há momentos que deveriam ser sagrados. Hoje, a conversa e até a briga e o confronto estão sendo substituídos por cada um com seu tablet ou com seu celular quando a família se reúne em torno de uma mesa. O problema é que o aparelho não é um ser humano. Pode estar a serviço desse refúgio autístico, desse isolamento para evitar o contato.  O aparelho pode fazer parte desse mundo mental da criança com estados autísticos. Não são só os psicanalistas: a Sociedade Brasileira de Pediatria também encaminhou um comunicado chamando a atenção para o uso excessivo dessas tecnologias que estão levando crianças a quadro de depressão, de anorexia, adições e até o suicidio.

Há limites e contraindicações para o uso desses estímulos tecnológicos?

Os psicanalistas, pela experiência clínica, tentamos alertar sobre as consequências do uso excessivo dos estímulos tecnológicos. Quanto menos melhor na primeira infância. Seu uso precisa ser modulado de acordo com as idades e os estados mentais. Há um tempo fiz uma avaliação diagnóstica em que o menininho com fortes traços autísticos estava com o tablet. Ele passava o dedinho e sucessivas figuras que o pai tinha carregado apareciam na tela. Em determinado momento, tentei ver o conteúdo. Me dei conta que era tão grande a minha dor e sofrimento que eu queria encontrar um sentido naquela envoltura imagética. Ele não me olhava, ele não estava em contato comigo e o uso que ele fazia desse tablet era passar o dedinho e ficar absolutamente absorto com a  imagem  aparecendo . Ele parecia não entender, não reconhecer cada imagem. Importava ter o controle pelas aparições e desaparições .  Estava focado nesse tablet que lhe dava uma proteção sensorial e o protegia do contato humano. Esse tablet é previsível, ele tem o controle. O ser humano é imprevisível em sua essência. Ele não estava sendo estimulado com o tablet assim usado, ele encontrava excitação em seu mundo próprio, isolado do mundo humano.

Eu acho que o importante é que os pais entendam que os efeitos dos recursos tecnológicos dependem de como eles estão sendo usados e que isso não os poupa das funções paternais. Com os adolescentes, é importante que os pais estejam perto para acompanhar, não para proibir. A possibilidade de conversar, de dialogar, pode permitir que valores e modelos sejam assimilados. A criança precisa de tempo para brincar e sonhar, o adolescente para ter seus devaneios, a vida nos grupos sociais, organizar os programas sociais presenciais, poder ter devaneios, descansar. Tem criança que tem agenda de executivo.

Acredita que outros profissionais, como fonoaudiólogos e pedagogos, podem se beneficiar desse recurso no tratamento?

Depende do uso que se faz. Se estão sendo usados para substituir a interação humana, eu desaconselho seu uso. O problema da criança autista – e isso é muito importante para conscientizar a comunidade –  não é que a criança fale ou deixe de falar. É uma questão do ser, da formação da personalidade, dos alicerces do ser humano. Os papagaios também falam. Não nos interessam essas falas mecânicas e repetitivas, automáticas, que são objetos autísticos assim como o tablet pode vir a ser. Nos interessa uma pessoa que seja autor de sua fala, que tenha construído uma subjetividade. Que sua fala seja uma linguagem, expressão de sua subjetividade, uma linguagem com um sentido num diálogo humano. É preciso ter para quem falar e ter um dizer próprio e singular. Então, o fonoaudiólogo pode ser um profissional que muito ajude no momento adequado, dependendo da concepção que tenha do ser humano e da aquisição da linguagem. Mas o paciente com estados  autistas está lutando para construir um sentido para sua existência. Às vezes, o próprio sentido de existir como ser humano. Ele não é só um aparelho fonoarticulatório. A criança pode se sentir invadida com espátulas e tentativas de recuperar o tônus muscular em momentos de muita angustia catastrófica, desmantelamento psíquico,  se sentir caindo aos pedaços.

Essas questões envolvendo tecnologias são mais comuns nos pacientes nativos digitais ou você percebe em outras idades também?

A tecnologia pode ser utilizada em todas as idades e os pais são um modelo de identificação. O mundo de hoje é muito desumano. Em uma cidade como São Paulo, não há muitos espaços seguros, arborizados, para a criança brincar, explorar o mundo, subir em arvores. A vida contemporânea dos casais faz com que as crianças sejam colocadas em creches, após a licença maternidade durante muitas horas por dia. O primeiro ano de vida é fundamental para criar vida psíquica, alicerce da personalidade. Quando a mãe dá o seio ao filho, ela dá muito  mais do que leite. A criança olha a mãe suficientemente boa, se encontra espelhada no seu rosto, escuta sua voz, saboreia o leite, sente-se segura no seu colo com um holding firme. Os sentidos estão integrados, harmonizados numa sinfonia poética: audição, vista, olfativo, gustativo, Kinestecico, cinestecico. A mãe é um seio pensante e um seio estético que lhe mostra o mistério do mundo. Em muitas situações, por falta de tempo, esgotamento, falta de conhecimento, conflitos na relação afetiva, uma difícil história transgeracional e um conjunto de fatores conhecidos e desconhecidos, muitas vezes o tablet surg como recurso autocalmante, um alívio para a família em desespero. É claro que a criança pode vir a ficar calma em seu mundo próprio- a paz do sepulcro-, mas aí a criança não lida com a raiva, com a frustração, com os limites, com a malcriação, não aprende a esperar, a tolerar, a criar outras alternativas, não chega o seio, pode chupar o paninho. As emoções, nos vínculos humano nutrem a mente. Joao a mamãe já chega aí, aguarda um pouquinho…Vai dar muito mais trabalho fazer uma criança de dois anos recolher os brinquedos e colocar em uma caixa do que fazer por ele Quando ele vive a experiência de juntar, guardar numa caixa, os brinquedos, ele encontra um continente. Ele pode juntar e esparramar e aí está a reversibilidade. O que acontece no seu mundo pode vir a ter um correlato com funções mentais. Essa criança de 18 meses precisa brincar com potes, encher potes e esvaziar potes, assim aprenderá a controlar esfíncteres; uma bexiga cheia é esvaziada. Ele perde urina, não seu ser que desaparece nessa urina. Essa possibilidade de brincar vai alimentar a vida mental. A criança precisa desenhar, contar e escutar histórias, brincar, criar personagens, dramatizar, explorar o mundo, interrogar, armar quebra-cabeças, dialogar, modelar… viver em vínculos humanos significativos.

 

 

Alicia Beatriz Dorado de Lisondo é analista de crianças, adolescentes e adutos. Didata e docente do GEP Campinas e da SBPSP. Filiada à International Psychoanalytic Association. E-mail: alicia.beatriz.lisondo@gmail.com

Entrevista – Marion Minerbo

Muito além do divã

Simulando tom ficcional na interlocução com um “jovem colega” imaginário, Marion Minerbo compartilha material clínico e outras experiências em Diálogos sobre a clínica psicanalítica

Autora de Neurose e não neurose e Transferência e contratransferência, ambos da editora Pearson, a psicanalista Marion Minerbo lança seu terceiro livro, Diálogos sobre a clínica psicanalítica (Editora Blucher), dia 1º de setembro, a partir das 18h30, na Livraria da Vila da Fradique. Mais do que um título para “iniciados”, trata-se de um painel acessível e fascinante sobre a “experiência de transmissão da psicanálise” que Marion vivenciou na última década. Não é um período qualquer. Para muito além da prática e dos estudos com que Freud revolucionou a história da humanidade, o livro, de tom supostamente ficcional, usa a forma de um grande diálogo, com um interlocutor que Marion chama de “jovem colega”, para compartilhar material clínico que convida à reflexão em uma época em que “as pessoas são obrigadas a ancorar sua identidade e a inventar seus projetos de vida em bases fluidas e movediças”, como Marion declara em entrevista exclusiva à Vila Cultural.

Psicanalista, analista didata e docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBP-SP), doutora em Psicanálise, Marion virou uma “fonte” imediatamente associada a dois temas distantes e de forte apelo midiático: os reality shows e a corrupção. “Os embates teórico-clínico- emocionais de meus interlocutores mais jovens me remetem, naturalmente, ao meu próprio percurso”, escreve, na introdução do livro, cujos diálogos contemplam seis temas: transferência, escuta analítica, trauma e simbolização, pensamento clínico, sofrimento neurótico e sofrimento narcísico. Leia a entrevista da psicanalista.

Vila Cultural. Você gosta de conceder entrevistas?

Marion Minerbo. Não dou entrevistas por telefone ou com gravação de vídeo porque não dá tempo de pensar. Fico inibida com perguntas à queima-roupa. O risco de dizer banalidades é grande. Em compensação, tenho grande prazer em conceder entrevistas por escrito porque mesmo que eu já tenha falado sobre um mesmo tema várias vezes, como BBB ou corrupção, as perguntas sempre me ajudam a pensar coisas novas. Há, claro, alguma vaidade em ser entrevistada, pois é uma forma de reconhecimento do meu trabalho. Mas o que mais me motiva é a oportunidade de compartilhar com um público mais amplo o acesso ao funcionamento mental propiciado pela psicanálise.

VC. Como define o novo livro e que avaliação faz da experiência de escrevê-lo?

MM. É um livro que foi nascendo aos poucos e meio que por acaso. Em 2013, me convidaram para falar sobre “transferência”, um conceito psicanalítico básico supostamente muito conhecido e sobre o qual já se disse muito – inclusive eu, que escrevi um livro sobre isso. Estava quebrando a cabeça para não chover no molhado, até que me veio a inspiração de escrever a um jovem colega transmitindo o essencial sobre o tema em linguagem coloquial e despretensiosa. Afinal, o rigor tem que estar nas ideias, e não na linguagem. A editora do Jornal de Psicanálise, publicação semestral do Instituto de Psicanálise Durval Marcondes da Sociedade Brasileira de Psicanálise, viu naquele texto o potencial para um projeto editorial com este formato e me convidou a escrever sobre outros temas. Os primeiros diálogos eram mais tímidos, pois havia algo de ficção na criação do personagem jovem colega, e afinal, eu não sou escritora. Mas fui me apropriando dessa semificção e me divertindo com a escrita. Me afeiçoei ao jovem colega e fiquei triste quando me despedi dele. Escrever me serve para metabolizar o que estudei e para, a partir dessas leituras, organizar um pensamento próprio. Para o bem e para o mal, só consigo pensar escrevendo. Minha mãe me dizia: “Se você não consegue escrever com suas palavras, não escreva, significa que você ainda não entendeu o suficiente”. Tenho prazer em transmitir algo que dificilmente o jovem colega vai aprender só nos livros: como pensa um psicanalista – ou melhor, como pensa esta psicanalista! – em sua clínica. Sou generosa, mas também exigente com o leitor: ele não deve esperar concessões ou
simplificações. Acho que o livro é sobretudo útil. É o que tenho de mais valioso para oferecer.

VC. Que critérios usou para definir os seis temas destacados em Diálogos?

MM. Baseada na minha experiência como docente escolhi temas que fossem úteis para a clínica, e usei exemplos – devidamente ficcionalizados – para dar vida às ideias desenvolvidas. Naturalmente, todos os cuidados foram tomados para garantir o sigilo e a ética profissional. Transferência, como já disse, é básico porque é a manifestação concreta do inconsciente na vida das pessoas e na análise. Eu já tinha escrito um livro sobre esse tema (Transferência e contratransferência, Pearson, 2012), mas este diálogo me deu a oportunidade de abordar outros ângulos e aprofundar certas questões. O inconsciente é uma espécie de cicatriz viva do passado que continua produzindo sofrimento e travando o presente, o que leva certas pessoas a procurar análise. Como reconhecer na clínica esta cicatriz viva e seus efeitos? Através da Escuta analítica, que é o segundo tema. Vou usar uma analogia para explicar o que é isso. Certa vez fui arrebatada pelo desejo de pintar. Frequentei o ateliê de uma artista que não me ensinou a pintar, mas formou o meu olhar, um olhar sensível à dimensão estética da existência. Pois bem: o analista tem um olhar, ou uma escuta, ou uma apreensão, da dimensão inconsciente das relações humanas. Mas assim como a formação do olhar não transforma ninguém em artista, a apreensão da dimensão inconsciente não é suficiente para ser um psicanalista praticante. É preciso desenvolver também a capacidade de pensar analiticamente, quer dizer, articular o universal da teoria dos livros, à singularidade do paciente que está no seu divã. Escrevi, então, o diálogo sobre Pensamento clínico, uma espécie de passo a passo sobre esse “pulo do gato”. O diálogo seguinte, sobre Trauma e simbolização, serve para ajudar o jovem
colega a ter uma visão mais organizada sobre como se “adoece” psiquicamente. Sem uma compreensão razoável sobre como se adoece, é difícil saber em que direção seguir do ponto de vista terapêutico. E por falar em “direção a seguir”, os dois últimos diálogos, Sofrimento neurótico e Sofrimento narcísico, mapeiam os dois grandes territórios do sofrimento psíquico, cujas “paisagens emocionais” diferem radicalmente. A escolha desses temas se deve, de certa forma, à repercussão positiva do meu livro Neurose e não neurose (Pearson, segunda edição 2013). Muitos leitores disseram que a visão de conjunto da psicopatologia psicanalítica, ancorada em exemplos clínicos, foi muito útil.

VC. Quem, na sua opinião, podem ser os leitores potenciais do livro?

MM. Acho que o livro será útil não só para estudantes e jovens colegas, mas para psicanalistas em geral, pois não importa quanta estrada já tenhamos percorrido, estamos sempre estudando para manter o “instrumento psicanalítico” afinado e afiado – caso contrário ele perde o gume. É claro que o público leigo curioso, os estudiosos de humanidades em geral e os próprios “usuários” também poderão curtir e aproveitar os diálogos, já que estão escritos de forma acessível.

VC. Quando alguém procura um analista, é comum a dúvida a respeito sobre a “linha” que ele segue. O que pensa sua sobre isso?

MM. Até meados dos anos de 1970 os psicanalistas se dividiam em tribos, dizendo-se seguidores deste ou daquele autor. No entanto, fosse qual fosse a linha, havia pacientes que “não se encaixavam” nela. Pensando bem, é muito estranho que o paciente tenha que se encaixar, pois o psiquismo singular é sempre mais amplo e complexo do que pode ser apreendido por uma única teoria. A comparação é meio tosca, mas imagine um marceneiro que se limite a trabalhar com um serrote. Pode ser suficiente para serrar tábuas, mas se quiser fazer uma mesa vai precisar de outros instrumentos. Enfim, a nova geração de psicanalistas se deparou com os limites de praticar a psicanálise seguindo uma única “linha”. Instigados por questões colocadas pela clínica, os autores mais criativos passaram a pensar “fora da caixinha”. Todos saíram ganhando. Por isso, hoje é mais ou menos consensual que um psicanalista precisa ter em seu repertório instrumentos conceituais diversificados. Essa é a posição a partir da qual escrevi os Diálogos e trabalho na minha clínica.

VC. Você tem escrito também sobre o sofrimento psíquico ligado a características do mundo contemporâneo. Fala em “miséria simbólica” e relaciona esta condição ao sentimento de tédio e de vazio. Poderia explicar essas ideias?

MM. É um assunto complexo, mas posso tentar. A modernidade foi o momento da civilização ocidental que se caracterizava pela força e solidez das grandes instituições. O sofrimento psíquico tinha a ver com a rigidez com que todos eram obrigados a se encaixar nos valores instituídos, vistos como absolutos, naturais e universais. A diversidade era condenada e excluída. A família patriarcal era o melhor exemplo disso. Hoje, boa parte das grandes instituições está em crise. Em um movimento pendular, passamos de valores e referências extremamente rígidos para a condição pós-moderna, caracterizada pelo relativismo absoluto. As referências de que necessitamos para dar sentido a nossas experiências são pouco nítidas, imprecisas, cambiáveis, vagas, incertas, ralas e movediças. Para o bem e para o mal, ninguém mais acredita em valores universais. A vantagem é que há liberdade para cada um inventar e viver sua própria vida. Se antes a diversidade era excluída, agora é festejada. A diversidade das famílias contemporâneas é um exemplo.

VC. E qual a desvantagem disso?

MM. A descrença absoluta e a fragilidade das referências simbólicas produzem um estado de miséria simbólica: as pessoas são obrigadas a ancorar sua identidade e a inventar seus projetos de vida em bases fluidas e movediças. Muitas vezes ficam perdidas, sem rumo. Sofre-se de um vazio, de um sentimento de irrealidade e de tédio, sintomas da falta de sentido da existência, muitas vezes confundidos com depressão. Esses pacientes nos procuram com queixas vagas, mal formuladas, porque faltam até palavras para descrever essa forma de sofrimento.

VC. Quais os efeitos dessa falta de rumo sobre a sociedade como um todo?

MM. Sintomas socioculturais como a proliferação e adesão a causas radicais – sexistas, alimentares, políticas, terroristas – podem ser entendidos como tentativas de preencher o vazio, “fortalecer” a identidade e dar um sentido à existência. Certo tipo de violência é outro sintoma desse mesmo sofrimento. Venho me perguntando se a emergência de forças conservadoras em vários países não seria uma tentativa de fortalecer – da pior maneira – as instituições atualmente em crise. A grande dificuldade parece ser manter a liberdade conquistada com a relativização de verdades tidas como universais, sem jogar fora o bebê com a água do banho.

VC. De onde vem o seu interesse por temas como a corrupção e os reality shows? Por que decidiu analisar assuntos tão diferentes?

MM. Como sempre, há uma boa dose de acaso nas direções que a vida toma. É possível que tudo tenha começado com meu doutorado na UNIFESP. Escrevi sobre compulsão a comprar porque na época, em 1990, estava atendendo uma paciente que apresentava este sintoma. Eu, que havia estudado medicina, precisei me aventurar em um território completamente novo: a sociedade de consumo, a sociedade do espetáculo, a cultura do narcisismo, a hiper-realidade etc. Tudo isso em paralelo ao meu trabalho no consultório. Passei a me interessar por fenômenos típicos da pós-modernidade que pareciam ter em comum a fragilidade do símbolo. Desde os crimes em família, como o de Suzane Richthofen que matou os pais, e outros em que são os pais que matam os filhos, até um tipo de violência que batizei de reality game – mistura de reality show e de videogame. Em 2007 publiquei meu primeiro artigo sobre reality show na Revista de Psicologia da USP. A partir daí, todos os anos, na época em que começava o BBB, eu era entrevistada sobre o tema. Sem querer, virei uma “especialista”. Com relação à corrupção a coisa foi um pouco diferente. Publiquei em 2000 um primeiro artigo intitulado Que vantagem Maria leva? Um olhar psicanalítico sobre a corrupção. Continuei desenvolvendo minha tese central em outros textos: pessoas podem ser subornadas, mas o que se corrompe (desnatura, apodrece) são as instituições, até que a própria corrupção se transforma, ela própria, em uma instituição. Depois, quando Dominique Strauss-Kahn, na época diretor do FMI, foi acusado de estuprar uma camareira de hotel, escrevi sobre os mecanismos psíquicos que levam o poderoso a “perder a noção”. Mas foi com a Lava Jato que comecei a ser constantemente entrevistada sobre corrupção.

VC. Como lida com o fato de ser convocada com tanta frequência para explicar, digamos, os “mecanismos psíquicos” da corrupção?

MM. Gosto muito do desafio de falar sobre o tema, pois cada jornalista faz perguntas que me obrigam a aprofundar ângulos ou aspectos nos quais eu não tinha pensado. Um exemplo: queriam que eu falasse sobre a “corrupção nossa de cada dia”. Sei que as matérias precisam de chamadas fortes. Então, mesmo não fazendo muito sentido falar nesses termos, aproveitei para mostrar a diferença que existe do ponto de vista psíquico entre a pura e simples transgressão, e atos que se pautam por uma lei paralela, não oficial e implícita. Nesse segundo caso, a pessoa simplesmente não sente que está transgredindo nada. Isso me levou a analisar o “jeitinho brasileiro” e a “lei de Gerson”. São verdadeiras instituições que ignoram a lei oficial e erigem valores que não podem ser transgredidos: respectivamente o ‘favor em nome da amizade’ e a ‘esperteza viril’. Quem não retribui favor, e quem se recusa a levar vantagem, é visto como transgressor dessas “leis” e punido pela coletividade. Eu não teria pensado nada disso sem as entrevistas.

VC. O que mais tem aprendido com seus alunos e pacientes?

MM. A sensibilidade para sintonizar com o funcionamento psíquico dos outros, pacientes e colegas, me ajuda a me colocar na pele deles, a empatizar e me identificar com suas angústias. Isso me ajuda a respeitar e a conviver com pessoas que sentem e pensam de maneira diferente de mim. Naturalmente, não podemos aceitar e concordar com tudo – há atos e atitudes que simplesmente não podem ser tolerados –, mas pelo menos podemos entender as razões e as motivações dos outros. Isso me ajuda a viver melhor.

O vício, em cinco questões para o psicanalista Oswaldo Ferreira Leite Netto

O vício, em cinco questões para o psicanalista Oswaldo Ferreira Leite Netto

Médico e psiquiatra formado pelo Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, o psicanalista Oswaldo Ferreira Leite Netto é membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, na qual coordena o grupo de estudos Psicanálise e homossexualidade. Diretor do Serviço de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria da FM-USP, Leite Netto respondeu a cinco questões propostas pelo Blog da SBPSP para refletir sobre vícios numa época em que, alguns deles, parecem valorizados socialmente como “vícios do bem”. “A palavra vício é fortemente carregada de sentido moral e algum referencial precisa estar presente”, diz Leite Netto que, junto com suas respostas, também produziu uma importante reflexão sobre a prática e importância da psicanálise.

Como se identifica um vício ou um “comportamento viciado”?

Oswaldo Ferreira Leite Netto. Vício é um hábito prejudicial e que aprisiona e limita a vida de uma pessoa. Mas é claro que, como psicanalista, relativizo  e preciso perguntar quem está dizendo que se trata de um vício. A pessoa que nos procura, sua família, seu pai, sua mãe, sua mulher ou marido ou companheiro? Quais os critérios que utiliza para esse julgamento? A palavra vício é fortemente carregada de sentido moral e algum referencial precisa estar presente porque é o que está sendo valorizado.

Quando bem vistos socialmente  _como o “vício” em exercicios físicos, por exemplo_, os vícios são a versão extrema dos valores de uma sociedade e/ou de uma época ou é apenas uma questão de personalidade? Por quê?

Oswaldo Ferreira Leite Netto. O sujeito humano está sempre interagindo com seu grupo, sua época, daí a complexidade e um contínuo desconforto pela exigência de adaptação. No seu íntimo, em seu mundo interno, estão conjugados, em harmonia ou em conflito, os valores externos da sociedade e/ou época, e suas necessidades e desejos mais internos, que podem transbordar, ameaçar o próprio indivíduo e quem está a sua volta, demandando arranjos em sua personalidade, imposições de comportamentos ou vícios sem a pessoa se dar conta completamente que estas adesões vêm dela.

Quais os perigos de se cultivar estes que seriam “vícios do bem”?

Oswaldo Ferreira Leite Netto. Do meu ponto de vista, a restrição e o empobrecimento de se viver cada momento e as intensidades do que se pode experimentar aqui e agora, com liberdade. Nunca se sabe o que vai acontecer, há o necessário a ser feito, por exemplo para manter a saúde, mas nunca  é o suficiente. É ilusório, mas pode tranquilizar naquele momento, se achar protegido porque está fazendo tudo certo. Mas a morte vai chegar e pode vir do acaso, das doenças , dos acidentes, muito antes do que se imaginou, ou porque a idade está avançada.

Como conviver e tolerar os “viciados”? Uma vez que seus vícios são “do bem”, como apontar que eles podem ser tão aprisionantes quanto um outro vício qualquer?

Oswaldo Ferreira Leite Netto. Conviver com o outro, com as diferenças,  por si só é um desafio constante. Na intimidade do lar,  no trabalho, na vida social. Preconceitos e exclusões são fenômenos constantemente observados. E as pessoas reagem se sentindo acusadas ou desqualificadas: “viciado!”  Num trabalho com um psicanalista, na intimidade e no sigilo desse processo, pode-se começar a desconstruir mitos e crenças que uma pessoa alimenta e que podem estar sustentando esses comportamentos. E o paciente deve se sentir menos cobrado, menos acusado ou “desqualificado”,  para poder se desarmar e dispensar certas práticas que não se justificam, que estão a serviço de fantasias e que podem ser relaxadas.

Qual o primeiro passo para se libertar de um vício?

Oswaldo Ferreira Leite Netto. Penso que ele pode vir quando a pessoa se dá conta que há insatisfação e dor. Começa a surgir a ideia ou sensação do exagero, da vida restrita. A pessoa precisa ser tocada por uma desconfiança de que a vida talvez seja para ser vivida e não resolvida. Alimentação ajuda, exercício ajuda, botox e plástica também….mas não salva do envelhecimento, da doença, da morte. Mas a gente pode se tornar mais livre, autônoma, independente, generosa, amorosa e sábia para admitir que o que não tem remédio, remediado está. E tentar gozar a vida, que tem começo meio e fim.

Sobre vícios e virtudes

O que deve ser cultivado e o que deve ser evitado?  Eis a questão com a qual  começamos a entender que viver é basicamente muito difícil para nós, humanos

Por Oswaldo Ferreira Leite Netto

Diante destas questões sobre o vício, fico, como psicanalista, na posição de quem sempre precisa, primeiro, explicitar.  E acho que isso é o mais importante ao se divulgar a psicanálise, como ela funciona, do que se ocupa, como surgiu e como foi se constituindo.

Qual é o ponto de vista da psicanálise e do psicanalista? Qual a sua contribuição? De onde ele fala? É preciso lembrar que a psicanálise nasceu das mãos de Sigmund Freud, neurologista sediado em Viena, no início do século 20, para atender necessidades médicas.

Naquela época, pacientes que apresentavam sinais ou sintomas, manifestações estranhas, patológicas, limitantes e sofridas como grandes crises de agitação, paralisias ou desmaios, perturbavam e desafiavam os médicos.  Por que não se encontravam no corpo, no “organismo” desses pacientes, as causas de tantos sintomas?

A medicina se desenvolveu, tornou-se consistente e cada vez mais científica e confiável e até hoje segue assim: para as alterações encontradas  no corpo,  há uma explicação, uma causa e, portanto, uma indicação para a busca de um tratamento, de um caminho a ser adotado para eliminar o fator que estava causando a perturbação ou ao menos para tentar controlá-lo.

Assim,  os avanços mais significativos e importantes na medicina, além dos recursos terapêuticos como medicamentos e aprimoramento de técnicas cirúrgicas,  se dão no campo dos recursos diagnósticos. Exames laboratoriais e de imagem, com todas as conquistas tecnológicas, investigam e descobrem alterações no corpo, explicando a alteração, o mal funcionamento, a dor, a febre, o mal estar.

Mas se voltarmos à época em que Freud  viveu, o que se chamava de histeria, paralisias, cegueiras, diferentes formas de perda de função normal às vezes não se explicava. Não era, portanto, possível oferecer recursos terapêuticos pelo que se tentava descobrir a partir de alterações no corpo e no organismo.  Nada, afinal, estava, em alguns casos, relacionado à alteração nos órgãos, nos músculos, nos nervos, na circulação sanguínea.

A sacada genial de Freud foi, ao ouvir e observar seus pacientes, tentar  entender outros aspectos, sobretudo de suas personalidades, ao conversar e se aproximar de cada paciente que o procurava. E quando o assunto é gente, ninguém discorda, tudo pode, na prática, ser muito mais complicado do que imaginamos.

Temos uma mente e dela podemos não estar compreendendo alguns aspectos ou mesmo desconhecendo detalhes do seu funcionamento. Podemos estar pouco conscientes de nós mesmos e do que está nos pressionando ou provocando certos sintomas.

Freud chegou às ideias de inconsciente, de repressão e da importância da sexualidade. Aquelas mulheres poderiam estar, por exemplo, com frustrações amorosas e sexuais? Que foram postas de lado? O sinal mais indireto, mas melhor perceptível eram os sintomas ditos então conversivos. Uma energia que alimentaria um sentimento de paixão, de ternura, de desejo, que facilitaria um prazer erótico, na vida sexual da pessoa, se desvia e vai se concentrar num órgão ou aparelho?

Somos todos muito diferentes dos outros seres do reino animal. Paradoxalmente, ainda assim somos animais, seres biológicos: precisamos comer, precisamos descansar, temos um aparelho reprodutor, produzimos filhotes. Mas habitamos também um reino da cultura, que nos controla, nos exige, nos impõe princípios, limites, hábitos, valores que  vão nos distanciando do reino animal. Mas estamos sempre pertencendo a ele. Temos um corpo, do qual a medicina se ocupa. Mas temos uma mente que pode estar em conflito, com inúmeras questões, desde o início de nossas vidas.

O que nos foi imposto pela nossa família original? Um menino joga bola, a menina brinca com bonecas. Menino usa determinadas cores em suas roupas, meninas outras. Nossa família é católica e vai à igreja aos domingos. Nossa família come peixe cru. Em nosso país comemos feijoada e tomamos caipirinha, sobretudo aos sábados. Devemos fazer atividade física para mantermos a saúde. Hoje a medicina recomenda academia até para os bem idosos. O peso deve ser mantido e controlado dentro de determinados limites. Sol sem excesso. Usar protetor solar evitará o envelhecimento, as rugas, a feiúra.  Se os seios estão flácidos, são pequenos e pouco atraentes, pode-se aumentá-los, deixá-los mais rígidos e firmes, para que a mulher  se sinta mais bela, mais atra ente e  certamente mais desejada .

A vida no reino da cultura impõe regras, padrões, expectativas e controles sobre o comportamento das pessoas. Umas controlando as outras. Ao sinal vermelho, pare. No amarelo preste atenção. Só prossiga no verde. Atravesse nas faixas. Controle-se, respeite os mais velhos, não diga palavrões. Mesmo que tenha muita raiva, não agrida fisicamente seu semelhante. Não mate. Você poderá ser rejeitado, excluído. Comportamentos passam a ser moralmente controlados. Desclassificados ou valorizados. Noções de bem e mal, virtudes e vícios. O que deve ser cultivado e o que deve ser evitado? Aí é que começamos a entender como viver é basicamente difícil para nós humanos, com tanta coisa para administrar.  Viver razoavelmente bem, com alguma satisfação, enquanto a velhice, as limitações e a morte não chegam.

Sabemos que vamos morrer,um fator a mais para a complicação e para o sofrimento íntimo: medos, fantasias, angústia, pânico. E tentamos nos livrar dessas ideias, desses perigos. E começamos a nos iludir. Isso não vai acontecer comigo (só com os outros!), vou só comer verduras, não vou fumar, vou evitar o descontrole, sexo só com camisinha; “nesta parte do corpo da minha companheira  não ponho minha mão”, “ nesta, do meu companheiro, muito-menos-a-minha- boca- de-jeito-nenhum”. “Este eu não beijo, o que vão pensar?”

O que a psicanálise ilumina e traz ao exame, à compreensão, é esta complexidade toda, estas motivações que podem estar escondidas e secretas,, determinando  nossos comportamentos, pensamentos e desconfortos. Podemos estar nos defendendo, nos protegendo com recursos que podem, também eles, estarem nos custando caro demais.

 

Escola e Família: indagações e perplexidades em tempos críticos

De perspectivas diferentes, a Educação e a Psicanálise se ocupam do desenvolvimento humano e o diálogo entre as duas áreas tem se mostrado cada vez mais produtivo. Nos dias atuais, com as novas tecnologias e perspectivas que desafiam todos nós, o papel da família e da escola na educação das crianças vem sofrendo profundas mudanças e gerando questões que necessitam urgente reflexão.

Sobre o tema, vale conferir abaixo a ótima conversa que tivemos com as psicanalistas e membros da SBPSP, Heloisa Ditolvo, Marina Bilenky e Silvia Deroualle, coordenadoras da 5ª Jornada de Psicanálise e Educação, no dia 26/09, na sede da SBPSP. O evento é imperdível tanto para psicanalistas como para educadores atentos às perplexidades da nossa realidade atual.

Por que uma jornada que reúne os temas Psicanálise e Educação?

A psicanálise e a educação são áreas de estudo que abordam questões que possuem intersecções. Partindo de diferentes perspectivas, ambas se interessam pelo desenvolvimento humano e entendem a necessidade de se cuidar e de se criar condições favoráveis para que esse desenvolvimento aconteça.

Quais as principais interfaces entre ambas?

Ambas procuram entender e trabalhar com o ser humano que vive dentro de uma cultura que lhe é própria e ocupam-se em instrumentalizar esse indivíduo para que possa ser reflexivo, crítico, criativo, capaz de utilizar recursos próprios.

Em nosso percurso, nas Jornadas anteriores, fomos constituindo a ideia de que tanto a Educação como a Psicanálise estão comprometidas com a construção de lugares produtores de sentido, de narrativas e, em última análise, com a construção do humano.

Em tempos de rápidas transformações e novos paradigmas, o que muda no papel dos adultos de educarem as crianças? 

A tradição, o conhecimento passado através das gerações, não responde mais às inúmeras indagações que esses novos paradigmas nos propõem. Não possuímos um acervo de conhecimentos que nos auxilie a educar para o uso da internet, por exemplo. Como os problemas são novos, precisamos pensar novas soluções. Somos assaltados por situações no cotidiano que não podemos prever. Os adultos encontram dificuldade de exercer seu papel de autoridade diante de assuntos que não dominam.

Do ponto de vista da construção de conhecimento, como as novas tecnologias podem se tornar aliadas nesse processo? 

As informações são muito acessíveis hoje. Mas é preciso discriminar informação de conhecimento. O conhecimento implica dar um lugar e um sentido para o novo conteúdo. É preciso cuidar para que essas informações não sejam meros dados repetidos ou decorados, para que possam se transformar em material incorporado com significado.

O professor tem esse papel fundamental tanto no sentido de educar para o uso das novas ferramentas, quanto no de construir o conhecimento junto com seu aluno. E a escola pode usar as novas tecnologias para tornar suas ferramentas mais acessíveis aos alunos. O processo fica mais dinâmico, as crianças podem ter maior autonomia com a disponibilidade de informação oferecida.

Com a difusão de tantas informações pela internet e uma maior disseminação de conhecimento, é possível pensarmos em um sistema mais horizontal de educação, em que a criança goze de maior autonomia? (em substituição ao modelo tradicional hierárquico). Isso inclusive já vem acontecendo em algumas escolas que partem de filosofias semelhantes à Escola da Ponte, em Portugal. A questão é se o modelo se tornaria sustentável em escala maior, não apenas em universos pequenos.  

Isso já vem acontecendo em outras partes do mundo também. A Finlândia, cuja educação é considerada uma das melhores do mundo, mudou seu currículo mínimo para atender à nova demanda do mundo globalizado. A ideia é juntar as áreas de conhecimento, que seriam todas estudadas para a realização de projetos interdisciplinares, dando à criança maior autonomia para pesquisar e ênfase no trabalho em conjunto.

O adulto continua exercendo seu papel de autoridade nesse modelo, afinal não podemos negar que existe uma diferença hierárquica entre a criança e o adulto. O adulto precisa servir de referência à criança, orientá-la e ajudá-la a construir o conhecimento. O saber do adulto adquirido ao longo de sua vida é o que dá base para a sua autoridade.

Nossas crianças, as crianças do século 21, já nasceram dentro dos novos paradigmas; ou seja, são crianças com ferramentas digitais, mergulhadas no  mundo virtual da internet. Como fica a criatividade  e o brincar, temas tão caros para psicanalistas e educadores, em termos de construção da identidade dentro dessa nova realidade?

Para nos auxiliar nessa resposta, temos o documentário “Território do Brincar” (atualmente no circuito comercial) que faz uma pesquisa  com crianças de todo o Brasil sobre o brincar. O que essa pesquisa nos mostra é que há preservação de muitas brincadeiras  e que elas são as mesmas tanto para as crianças de “condomínio” das regiões sul e sudeste, como para as crianças do nordeste.
É surpreendente a criatividade das crianças, a preservação do imaginário e a grande habilidade motora. Essa pesquisa nos aponta que a criação, o imaginário, e a liberdade continuam sendo fundamentais na construção da identidade e do humano.
Parece que nossas crianças conseguem se movimentar tanto pelo mundo virtual como nas brincadeiras mais tradicionais que nos são familiares. A utilização das novas tecnologias representa avanços e resultados de desenvolvimento. Porém o excesso no uso ou o risco de uma substituição do real pelo virtual é que podem acarretar prejuízos na construção da identidade.

A existência de um universo virtual exerce que tipo de influência na construção e desenvolvimento de alguns aspectos da identidade? (ex.: ser popular na redes sociais pode contribuir para uma boa autoestima, ou vice-versa). 

O nosso futuro é a utilização cada vez maior do universo virtual. Sob esta perspectiva as crianças e os adolescentes, durante a formação de suas identidades, certamente são influenciados pelas experiências nas redes sociais. Ser aceito ou não como “amigo” no Facebook, receber muitos “likes” ou não receber a quantidade que esperava, sofrer algum tipo de bulling na internet, obter um sucesso meteórico porém fugaz são algumas das situações vividas no mundo virtual e que por vezes escapam ao controle dos jovens. A entrada neste universo volátil e surpreendente precisa ser acompanhada e compartilhada presencialmente por alguém do universo afetivo da criança, que possa orientá-la e educá-la para usar esta ferramenta.

A criança internaliza figuras ao longo de seu desenvolvimento com as quais se identificará.  É importante que sejam verdadeiras e reais e não espetaculares ou idealizadas como é comum encontrarmos no mundo virtual. Estas últimas certamente vão desapontar e frustrar oferecendo elementos não reais mas falseados e enganadores e que se apresentam como modelos impossíveis de serem atingidos..

O tempo de permanência que a criança fica conectada, a qualidade e natureza do material que ela acessa, a potência que os jogos imprimem no passar de fases, preparam a criança para enfrentar um opositor presencialmente?

Temos um instrumento muito poderoso, ferramenta útil, mas que deve ser usado com sabedoria.

A maior complexidade do mundo atual exige de nós mais recursos, do ponto de vista emocional? Ou é apenas uma questão de serem diferentes e outros recursos?

O mundo atual nos pede rapidez nas respostas, eficiência, performance. Com isso as pessoas tendem a agir de modo imediato, sem pensar, para dar conta da pressão. Sim, precisamos desenvolver mais recursos para lidar com tudo isso, para não nos vermos compelidos a agir de forma impensada só para responder às demandas que nos atropelam e pedem por respostas imediatas. Precisamos desenvolver ainda mais uma atitude reflexiva, poder nos dar um tempo para pensar melhor em cada situação de modo a poder ter respostas mais eficientes para aquele momento, mas que também sirvam para o longo prazo. Não precisamos de outros recursos, precisamos de um acervo maior de conhecimento para lidar com as novas situações a que somos expostos.

 

 

 

Transtornos Alimentares

Os distúrbios alimentares figuram entre as patologias psiquiátricas que vêm apresentando maior crescimento em termos de incidência na população. Quem já se aproximou desse universo talvez tenha constatado a sua gravidade, em termos dos prejuízos físicos, psíquicos, afetivos e sociais. Não é apenas o corpo que se torna anoréxico. Todo o psiquismo adoece no sentido da perda de vitalidade, de apetite e do prazer. Sobre esse complexo tema, vale conferir a entrevista com a psicanalista Marina Ramalho Miranda*, que vem se dedicando ao estudo do tema.

Como a psicanálise entende e avalia o recente crescimento na incidência de casos de transtornos alimentares (TA’s)?

Embora os transtornos alimentares, entre eles, as anorexias e as bulimias, sejam novas vestes para antigas patologias, não há quem não perceba esse aumento da sintomatologia em nossos dias.
Tanto na literatura sobre o tema, quanto em minha experiência, existe uma concordância de que uma multiplicidade de fatores combinados é responsável pelo surgimento dos transtornos alimentares e penso que quando pesquisamos sobre o aumento na incidência deles em nossos consultórios, hospitais e serviços de saúde mental, temos que considerá-los em conjunto.

Os fatores que compõem a etiologia dos transtornos alimentares são os constitucionais (genéticos e biológicos), psicológicos (intra-psíquicos), familiares e sócio-culturais.
Pensemos juntos, em que tempos vivemos, atendo-nos nesse início de conversa a essa dimensão.
Como um dos temas prediletos da atualidade, o corpo reina absoluto quando se conjectura sobre o tão falado trinômio juventude-beleza-saúde, pondo em risco a dimensão da mente, ou seja, corpo e mente que deveriam estar juntos e em fluente integração começam a ficar destacados um do outro, e o corpo (e seus correlatos, como a sua nutrição, aspecto, vestimentas, etc.), gradativamente assume uma posição-alvo de exigências de perfeição e controle, sem que as pessoas se dêem muito conta dessa dinâmica de hipervalorização .

Este cenário cria uma espécie de “inter-patrulhamento” da aparência física, e, em particular, no que diz respeito ao volume corporal (será que estão implícitos nessa preocupação questionamentos a respeito do espaço e lugar que ocupa no mundo?) Daí, o próximo passo recai sobre a alimentação. As mulheres, mais do que os homens, são afetadas e fiscalizadas na difícil missão de manter um corpo eternamente jovem, belo, saudável e… magro! Dietas severas de emagrecimento proliferam em todos os cantos e discursos e acabam por ficarem misturadas com a solução para o alcance não só do corpo magro e aceito, mas da felicidade e sucessos almejados.

A psicanálise entra na roda nesse momento, em que a comida e a alimentação perdem seu sentido de combustíveis para a vida, deixam de estar a serviço do viver e como num espiral estonteante entram numa alquimia culinária e se transformam em emoção, medos, horrores, enfim toda sorte de afetos. Ela mergulha na especificidade dos vínculos familiares de cada paciente atendida, especialmente na relação entre as mulheres, nutridoras por natureza, mãe-filha-irmã (muitas vezes a avó também participa, contribuindo para o trabalho), coadjuvantes essenciais do processo psicanalítico, pois temos hipóteses de que esses vínculos já vêm sofrendo dificuldades antigas na troca afetiva, tornando-se mais vulneráveis e porosos às influências do emocional ambiental .

Em termos gerais, na anorexia e na bulimia surge a declaração de uma guerra contra a gordura, que passa a ser a principal vilã de suas vidas. Na obesidade, a comida pode ocupar o lugar da falta, preencher um vazio, amenizar um vácuo que nada tem a ver com a comida em seu sentido concreto, saciar uma fome que vem de outros lugares (ou não-lugares), territórios a serem explorados em companhia.

Mary Del Priore (2000), historiadora, defende a ideia de que hoje a história das mulheres passa pela história de seus corpos e com humor, observa:
“Diferentemente de nossas avós, não nos preocupamos mais em salvar nossas almas, mas em salvar nossos corpos da desgraça da rejeição social. Nosso tormento não é o fogo do inferno, mas a balança e o espelho.”

Há, entre os médicos, uma controvérsia sobre a psicanálise ser um método indicado para tratar pessoas com TA’s. Qual a sua posição? Pela sua experiência clínica, a psicanálise pode ser um método efetivo?

Constato, a partir de meus estudos teórico-clínicos e das inúmeras pesquisas que encontramos na Universidade e na SBPSP, e especialmente, a partir da experiência clínica de atendimento à(o)s pacientes e sua família, que o tratamento psicanalítico dos transtornos alimentares não só é indicado, mas completamente imprescindível. Sustento a ideia de que a presença do psicanalista integrando a equipe multidisciplinar de atendimento abre frestas no mundo hermético dos transtornos alimentares, favorecendo a revisitação e o exercício da linguagem falada, reaproximando essas mentes sofridas e danificadas pela força de defesas destrutivas que as isolam e enclausuram, reconduzindo-as ao mundo da interação fértil. A viva troca nutritiva que a presença e a linguagem instauram conduz ao reino do pensamento simbólico, ao reino do sonhado e do imaginado, tão inibidos no universo dos transtornos alimentares.

Será o psicanalista que irá oferecer uma escuta que se concentra na investigação do que não pôde ser dito ou do que não pôde ser ingerido (ou absorvido em excesso), do que não aparece (ou do que desnuda), do que está interditado (ou do que transborda) permanecendo desconhecido e estranho à compreensão do paciente, que por sua vez se alivia ao descobrir que seus sintomas não serão vistos como doença e sim como sinais indicativos de que algo muito sério aconteceu em algum momento de sua vida, alterando o rumo de desenvolvimento a ser seguido. A(o) paciente fala pelo corpo e com o corpo. O comer o nada ou o tudo devorar, o vomitar e expurgar são tomados como pistas a serem seguidas ou como rastros de conteúdos emocionais brutos, contraditórios, que entraram intrusivamente em seu interior e pedem para serem remastigados. A abordagem psicanalítica, com seu approach que caminha na interioridade, num movimento de olhar de dentro para fora, lê o corpo da paciente com transtorno alimentar como uma tela onde está estampada sua história pessoal. Está atenta às variações da linguagem não-verbal, não se contentando com as expressões atuadas comportamentais, mas tentando acompanhar cada paciente na individualidade e singularidade de suas expressões que, muitas vezes, se apresentam pelo avesso.

Esta tarefa pertence à psicanálise… as pessoas que sofrem desses distúrbios sentem fome desse tipo de compreensão, que se dirige para além do corpo e das comidas e se aliviam ao finalmente experenciá-la.
Um dos sintomas mais difíceis nos TA’s são as distorções da auto-imagem corporal. Sendo um método verbal, o tratamento analítico tem como chegar nesse tipo de sintoma?

Quanto mais intensas forem as distorções da imagem corporal, maior a gravidade desses quadros, pois ficam mais evidentes a força e a intensidade das fantasias que, alterando a percepção de si retiram o indivíduo do acesso ao seu próprio conhecimento e da sua interação com o mundo, deformando a experiência e a impregnando de sensações de desprazer o tempo todo. Continuamos no terreno de contribuições da escuta e da fala psicanalíticas.

Para a psicanálise, e na sua opinião, faz sentido pensar que a nossa cultura de valorização extrema da magreza seja de fato um fator desencadeante da doença? Ou são os conflitos internos e inconscientes os maiores determinantes?

Na resposta à primeira pergunta, aponto a inter-relação de múltiplos fatores agindo conjuntamente para a eclosão de um transtorno alimentar. Não dá para dizer que um deles é mais desencadeante do que o outro. Daí a importância do atendimento em equipe, que tenta mergulhar e dar um espaço especial a cada dimensão e consequências dos transtornos: a medicina, com ênfase na psiquiatria, muitas vezes a endocrinologia, a ginecologia e a cardiologia , a nutrição com sua nuclear contribuição, a orientação familiar, o educador físico auxilia bastante quanto à regulação dos exercícios físicos, que, unidos junto ao profissional psi vão formar uma espécie de família-prótese e comporão um modelo de união de esforços em contraposição a atitudes de patrimônio do atendimento.

Os sintomas dos TA´s são característicos de alguma estrutura psíquica em particular (neurose, psicose, perversão, etc) ou eles transcendem esse tipo de classificação?

Essa pergunta colocada em último é muito acertada, pois é ilustradora do que foi discutido nas anteriores. Na sequência da 4ª reposta, o leitor já pode responder por si essa questão, percebendo a multiplicidade de dimensões encontradas nos transtornos alimentares.

A partir de toda essa complexidade discutida e da especificidade e singularidade de cada situação, como enquadrar esses fenômenos alimentares numa mesma classificação? Como apertar um indivíduo tão singular em seus sinais de perturbação dentro de uma categoria nosológica isolada?
Até os manuais médicos de diagnóstico tem para as anorexias e bulimias um lugar especial e onde elas existem por si dentro do índice geral dos transtornos da alimentação.

Os transtornos alimentares, e em especial, as anorexias e as bulimias, fazem um passeio por entre as variadas psicopatologias referidas pela psiquiatria e não se encaixam em nenhuma delas, ao mesmo tempo em que as contemplam, nos mais diferentes graus.
Sintomas de alto sofrimento para quem deles se aproxima, mas que se forem acolhidos por companhias com um bom apetite para o trabalho, culminarão em nutrição saudável para todos.

Referências
1- KRISTEVA, J. (2002) As novas doenças da alma. Rio de Janeiro: Rocco, 2002.
2- PHILIPPI, S.T. e ALVARENGA, M. Transtornos alimentares. Uma visão nutricional. São Paulo: Manole, 2004, p. 42.
3- RIO, L e RIO, T. Diários da anorexia. São Paulo: M. Books do Brasil Editora Ltda, 2004.
4- DEL PRIORE, M. De corpo a corpo com a mulher. Pequena história das transformações do corpo feminino no Brasil. São Paulo: SENAC, 2000, contracapa.
5- WILLIAMS, G. (1997) Reflections on some dynamics of eating disorders: “no entry” defenses and foreign bodies in International Journal of Psychoanalysis, 78, 927.

*Marina Ramalho Miranda é psicanalista, membro efetivo e docente pela SBPSP. É Mestre e Doutora pela PUC-SP.

A travessia do deserto do luto

A perda de um filho pequeno constitui, provavelmente, uma das experiências mais traumáticas para alguém. Quando a criança vive apenas poucos dias após o nascimento, o sentimento de plenitude e felicidade são violentamente esmagados pela dor da perda, pela ausência de sentido, pela incompreensão e, claro, pela necessidade de viver o luto. Sobre o tema, vale conferir a entrevista abaixo, que a jornalista Camila Goytacaz – que perdeu um filho com 11 dias de vida – concedeu ao Jornal Zero Hora. O texto foi originariamente publicado no portal do veículo, em 23/05/2015.

Você teve uma experiência de morte muito próxima do nascimento, quando o seu corpo ainda tinha sinais claríssimos do período pós-parto. Como foi assimilar tudo isso?

O mais dolorido é isso: a gravidez é muito pública. Todo mundo sabe que você está grávida. No final da gestação ou logo depois que saiu da barriga, tem essa coisa evidente de “sumiu a barriga, então cadê o bebê?”. Essas perguntas vêm com muita frequência, de estranhos e de conhecidos. Você não se encontra: não sou mais aquela que eu era antes, não sou mais aquela grávida rechonchuda, quem sou eu? Para a mulher no puerpério (período pós-parto), somado ao momento da perda, do luto, é muito duro. Ela tem tudo que a puérpera tem, o leite, a nova forma do corpo, mas não tem o bebê. É uma incerteza, um grande vazio, um buraco. E você tem que viver a vida, sair na rua e falar: “O bebê morreu”.

Você se viu confrontada com essa situação muitas vezes?

Muitas. Eu ficava pensando: “Tomara que não seja eu que tenha que dar a notícia para essa pessoa. Tomara que alguém já tenha contado”. Esperava que elas já soubessem por alguém, me poupassem da pergunta. Esses primeiros dias, que para a mãe com bebê são tão gostosos, para a mãe que perdeu são muito doloridos. Acho que todos os lutos são muito solitários, mas o nosso é mais particular ainda. Nascimento e morte são muito próximos. É o impensável.

As pessoas, em geral, não sabem, não querem ou não conseguem falar sobre a morte e o luto. Você tinha vontade de falar sobre o José?

São dois extremos. Tem a turma que não fala, que não reconhece que aquilo aconteceu, “vamos continuar conversando normalmente e fingir que a gente não sabe”. Isso machuca demais. Você está vivendo em um buraco tão grande, é uma dor tão profunda, como é que elas podem continuar falando sobre amenidades? Eu buscava meu filho na escolinha e ninguém falava comigo, as mães se dissipavam. A diretora falou: “Pode ficar tranquila que a gente vai fingir que nada aconteceu”. E tem o outro extremo, o das pessoas que querem falar, não sabem o que dizer e falam coisas que também machucam: “Foi melhor assim”, “Imagina você ter um filho com problemas”, “Você pode ter outro filho.” Não é um sapato, é uma criança, é muito profundo para a gente simplificar. “Imagina se vivesse muito, aí você se apega e morre com dois, três anos.” Isso não ajuda. O que ajuda de verdade é o que vem do coração, um abraço.

Você usa uma expressão interessante, a “travessia do deserto do luto”.

Eu pensava: “Só aconteceu comigo? Não é possível. Será que sou a única? Não pode ser”. Eu estava num grupo virtual de 800 mães, não era possível que só o meu bebê tivesse morrido. Aí veio o lado jornalista, de querer apurar, comecei a ir atrás dessas pessoas, trocar experiências, e-mails, falar por telefone. Eram pessoas que eu não conhecia, mas se dispuseram a essa troca. E depois eu comecei a oferecer isso para outras. A travessia é muito solitária, um processo só meu, ninguém vai entender, por mais que queira. Mas outra mãe que viveu a mesma coisa me faz sentir menos sozinha. Aí comecei a sentir vontade de publicar. Eu sabia que tinha que atravessar aquele deserto só meu. As pessoas diziam que eu tinha que tomar um remedinho, somos a sociedade do remedinho. Eu queria sentir tudo mesmo, queria fazer a travessia, chegar um ano depois e dizer: vivi o processo, está resolvido, está acomodado.

Seu primogênito, Pedro, com dois anos e meio, esperava ansioso pelo irmão. Aguardava-o na janela, achando que o bebê tocaria a campainha. Como foi explicar para ele tudo que aconteceu?

Ele conseguia fazer as perguntas de uma criança de dois anos e meio. Um ano depois, a pergunta estava mais incrementada. Agora ele tem seis e meio e faz perguntas elaboradas. Aquela história de que o José mora numa nuvem satisfazia quando ele tinha três anos. Agora ele quer saber: “Onde é essa nuvem? Quem está lá com ele? O que eles fazem? Por que ele morreu e eu não?” Quando a Joana nasceu, ele a ensinava a respirar, achava que a qualquer momento ela poderia morrer também. A criança mistura a realidade e a fantasia. O Pedro achava que o José ia voltar. Teve um Natal em que ele disse que não queria presente, queria que trouxessem o irmão de volta. Eu tentava ser o mais franca possível, nem sempre conseguia. Ele se compadecia muito. Por outro lado, era ele que me salvava também. Ele me chamava para brincar. “Tá bom, mamãe. Depois você chora, agora vamos brincar.”

A gestação da Joana veio três meses depois da morte de José. Qual foi o sentimento?

Foi um susto. Fiz um esforço e pensei: cada filho é um filho, essa história é da Joana. O que eu vou viver nessa gravidez é dela. Fui até o final sentindo isso. Tinha medo? Morria de medo. Na véspera do dia em que ela nasceu, chorei um pouco pelo José, me abalei. Tem altos e baixos. As pessoas têm uma ilusão de que o processo do luto é linear. Lembro de uma vez que achei que estava ótima e encontrei uma pessoa que fazia ioga para gestantes comigo. Ela estava com o bebê, que seria da idade do meu, e falou: “Nossa, você já está deixando o seu em casa, tão pequenininho?” Aquilo pegou tão fundo que falei: “É, estou deixando”. Não tive coragem, sustentei a mentira. Fui para baixo de novo, depois voltei a subir. Mas no dia do parto dela me lembro que não tinha espaço para o José, era o momento dela, de me conectar com ela. Hoje me sinto mais forte, sinto que sou uma mãe para a Joana muito mais corajosa do que fui para o Pedro, porque entre os dois passei por essa perda.

Quem perde um filho tem menos medo da vida?

Não, tem menos medo da morte. Da vida não. A mãe que passa por isso já conhece um pouco a morte, já fez um contato com ela, então desmistifica um pouco. Claro que num primeiro momento não. Tinha muito medo de que acontecesse alguma coisa com o Pedro, estava traumatizada. Uma pequena queda em casa e eu já fiquei devastada, mas racionalmente fui criando uma casca. A mãe que passa por isso encara com mais naturalidade os percalços da vida porque a gente sabe que vai dar conta. E também se abala menos com problemas que não são problemas.

Redimensiona as coisas.

Ave, Maria! Eu via as minhas amigas sofrendo: “Ai, o meu bebê só quer colo”. Eu falava: “Você deveria dar graças a Deus porque o seu bebê está aí e só quer colo. O problema é o bebê que está lá na UTI e a mãe nunca pode pegar no colo”. Comecei a valorizar pequenos momentos, pequenas coisas tão preciosas. É muito louco o que vou te falar agora, mas me sinto mais feliz hoje, mais completa, por ter perdido o José. Não é que eu esteja feliz por ter perdido um filho, jamais. Mas por ter perdido um filho hoje eu vivo de uma maneira mais aqui e agora, mais presente, mais grata ao que ficou, ao que eu tenho.

Depois do período de um ano de luto, a sua felicidade tinha alguma parcela de culpa?

A gente lida mal com os processos de perda. Se você fica muito tempo sofrendo, o povo olha e diz: “Nossa, você ainda está nessa? Faz seis meses, pelo amor de Deus, sai dessa, toma um antidepressivo”. Se é rápido, se você está se divertindo: “Nossa, mas você já saiu do luto?”. Não tem um tempo certo. Eu me sentia culpada, sentia vergonha de estar me divertindo com meu filho, de estar namorando com o meu marido. É ser feliz e ser triste ao mesmo tempo, são processos que coexistem.

Como o José está presente na vida da família?

Nas brincadeiras, nas fantasias, nas histórias do cotidiano. Faz parte da história deles (Pedro e Joana). Eles usam um chapeuzinho de praia de pano que seria do José. Os dois falam: “Hoje sou eu que vou usar o chapéu do José!” É um objeto de uma criança que nunca existiu na vida deles, mas para eles é uma entidade presente. Às vezes surge um amiguinho com o mesmo nome: “Mamãe, ele se chama José, igual ao meu irmão que foi para o céu”. Acho que isso é o mais legal: encontrar um jeito de essa história ficar na família toda a vida.

Quem era a mãe lá do começo e quem é a mãe de hoje?

Eu me via naquela perfeição, “tudo vai dar certo, tudo está redondinho, mamãe, papai e filhinho”. Quando perdi o José, me caiu essa ficha de que não existe esse cenário idealizado, existe a vida de verdade, que tem tragédias, acidentes, mortes, perdas, e a gente é feliz com isso e apesar disso. O José ter morrido foi só um dos possíveis desfechos na minha vida. Estar vivo é isso, é lidar com essa fragilidade. A mãe de agora é essa mãe mais real. Me permito ser mais imperfeita. Planejar é só uma intenção, uma expectativa, não é nenhuma garantia de que vai acontecer. A qualquer momento tudo pode mudar.

Amor e psicanálise

Amor e psicanálise

O amor é um tema universal que desperta as mais variadas reflexões. O que, afinal, significa amar verdadeiramente? Na Psicanálise, não trabalhamos com respostas únicas e conclusivas. Ao contrário, buscamos ampliar a compreensão dos acontecimentos humanos. É disso que se trata a entrevista abaixo, sobre amor, com o psicanalista lacaniano Jacques-Alain Miller, publicada originalmente na revista “Psychologies Magazine”. Vale a leitura!

Psychologies: A psicanálise ensina alguma coisa sobre o amor?
Jacques-Alain Miller: Muito, pois é uma experiência cuja fonte é o amor. Trata-se desse amor automático, e freqüentemente inconsciente, que o analisando dirige ao analista e que se chama transferência. É um amor fictício, mas é do mesmo estofo que o amor verdadeiro. Ele atualiza sua mecânica: o amor se dirige àquele que a senhora pensa que conhece sua verdade verdadeira. Porém, o amor permite imaginar que essa verdade será amável, agradável, enquanto ela é, de fato, difícil de suportar.

Psychologies: Então, o que é amar verdadeiramente?
Jacques-Alain Miller: Amar verdadeiramente alguém é acreditar que, ao amá-lo, se alcançará a uma verdade sobre si. Ama-se aquele ou aquela que conserva a resposta, ou uma resposta, à nossa questão “Quem sou eu?”.

Psychologies: Por que alguns sabem amar e outros não?
Jacques-Alain Miller: Alguns sabem provocar o amor no outro, os serial lovers – se posso dizer – homens e mulheres. Eles sabem quais botões apertar para se fazer amar. Porém, não necessariamente amam, mais brincam de gato e rato com suas presas. Para amar, é necessário confessar sua falta e reconhecer que se tem necessidade do outro, que ele lhe falta. Os que crêem ser completos sozinhos, ou querem ser, não sabem amar. E, às vezes, o constatam dolorosamente. Manipulam, mexem os pauzinhos, mas do amor não conhecem nem o risco, nem as delícias.

Psychologies: “Ser completo sozinho”: só um homem pode acreditar nisso…
Jacques-Alain Miller: Acertou! “Amar, dizia Lacan, é dar o que não se tem”. O que quer dizer: amar é reconhecer sua falta e doá-la ao outro, colocá-la no outro. Não é dar o que se possui, os bens, os presentes: é dar algo que não se possui, que vai além de si mesmo. Para isso, é preciso se assegurar de sua falta, de sua “castração”, como dizia Freud. E isso é essencialmente feminino. Só se ama verdadeiramente a partir de uma posição feminina. Amar feminiza. É por isso que o amor é sempre um pouco cômico em um homem. Porém, se ele se deixa intimidar pelo ridículo, é que, na realidade, não está seguro de sua virilidade.

Psychologies: Amar seria mais difícil para os homens?
Jacques-Alain Miller: Ah, sim! Mesmo um homem enamorado tem retornos de orgulho, assaltos de agressividade contra o objeto de seu amor, porque esse amor o coloca na posição de incompletude, de dependência. É por isso que pode desejar as mulheres que não ama, a fim de reencontrar a posição viril que coloca em suspensão quando ama. Esse princípio Freud denominou a “degradação da vida amorosa” no homem: a cisão do amor e do desejo sexual.

Psychologies: E nas mulheres?
Jacques-Alain Miller: É menos habitual. No caso mais freqüente há desdobramento do parceiro masculino. De um lado, está o amante que as faz gozar e que elas desejam, porém, há também o homem do amor, feminizado, funcionalmente castrado. Entretanto, não é a anatomia que comanda: existem as mulheres que adotam uma posição masculina. E cada vez mais. Um homem para o amor, em casa; e homens para o gozo, encontrados na Internet, na rua, no trem…

Psychologies: Por que “cada vez mais”?
Jacques-Alain Miller: Os estereótipos socioculturais da feminilidade e da virilidade estão em plena mutação. Os homens são convidados a acolher suas emoções, a amar, a se feminizar; as mulheres, elas, conhecem ao contrário um certo “empuxo-ao-homem”: em nome da igualdade jurídica são conduzidas a repetir “eu também”. Ao mesmo tempo, os homossexuais reivindicam os direitos e os símbolos dos héteros, como casamento e filiação. Donde uma grande instabilidade dos papéis, uma fluidez generalizada do teatro do amor, que contrasta com a fixidez de antigamente. O amor se torna “líquido”, constata o sociólogo Zygmunt Bauman. Cada um é levado a inventar seu próprio “estilo de vida” e a assumir seu modo de gozar e de amar. Os cenários tradicionais caem em lento desuso. A pressão social para neles se conformar não desapareceu, mas está em baixa.

Psychologies: “O amor é sempre recíproco”, dizia Lacan. Isso ainda é verdade no contexto atual? O que significa?
Jacques-Alain Miller: Repete-se esta frase sem compreendê-la ou compreendendo-a mal. Ela não quer dizer que é suficiente amar alguém para que ele vos ame. Isso seria absurdo. Quer dizer: “Se eu te amo é que tu és amável. Sou eu que amo, mas tu, tu também estás envolvido, porque há em ti alguma coisa que me faz te amar. É recíproco porque existe um vai-e-vem: o amor que tenho por ti é efeito do retorno da causa do amor que tu és para mim. Portanto, tu não estás aí à toa. Meu amor por ti não é só assunto meu, mas teu também. Meu amor diz alguma coisa de ti que talvez tu mesmo não conheças”. Isso não assegura, de forma alguma, que ao amor de um responderá o amor do outro: isso, quando isso se produz, é sempre da ordem do milagre, não é calculável por antecipação.

Psychologies: Não se encontra seu ‘cada um’, sua ‘cada uma’ por acaso. Por que ele? Por que ela?
Jacques-Alain Miller: Existe o que Freud chamou de Liebesbedingung, a condição do amor, a causa do desejo. É um traço particular – ou um conjunto de traços – que tem para cada um função determinante na escolha amorosa. Isto escapa totalmente às neurociências, porque é próprio de cada um, tem a ver com sua história singular e íntima. Traços às vezes ínfimos estão em jogo. Freud, por exemplo, assinalou como causa do desejo em um de seus pacientes um brilho de luz no nariz de uma mulher!

Psychologies: É difícil acreditar em um amor fundado nesses elementos sem valor, nessas baboseiras!
Jacques-Alain Miller: A realidade do inconsciente ultrapassa a ficção. A senhora não tem idéia de tudo o que está fundado, na vida humana, e especialmente no amor, em bagatelas, em cabeças de alfinete, os “divinos detalhes”. É verdade que, sobretudo no macho, se encontram tais causas do desejo, que são como fetiches cuja presença é indispensável para desencadear o processo amoroso. As particularidades miúdas, que relembram o pai, a mãe, o irmão, a irmã, tal personagem da infância, também têm seu papel na escolha amorosa das mulheres. Porém, a forma feminina do amor é, de preferência, mais erotômana que fetichista : elas querem ser amadas, e o interesse, o amor que alguém lhes manifesta, ou que elas supõem no outro, é sempre uma condição sine qua non para desencadear seu amor, ou, pelo menos, seu consentimento. O fenômeno é a base da corte masculina.

Psychologies: O senhor atribui algum papel às fantasias?
Jacques-Alain Miller: Nas mulheres, quer sejam conscientes ou inconscientes, são mais determinantes para a posição de gozo do que para a escolha amorosa. E é o inverso para os homens. Por exemplo, acontece de uma mulher só conseguir obter o gozo – o orgasmo, digamos – com a condição de se imaginar, durante o próprio ato, sendo batida, violada, ou de ser uma outra mulher, ou ainda de estar ausente, em outro lugar.

Psychologies: E a fantasia masculina?
Jacques-Alain Miller: Está bem evidente no amor à primeira vista. O exemplo clássico, comentado por Lacan, é, no romance de Goethe, a súbita paixão do jovem Werther por Charlotte, no momento em que a vê pela primeira vez, alimentando ao numeroso grupo de crianças que a rodeiam. Há aqui a qualidade maternal da mulher que desencadeia o amor. Outro exemplo, retirado de minha prática, é este: um patrão qüinquagenário recebe candidatas a um posto de secretária. Uma jovem mulher de 20 anos se apresenta; ele lhe declara de imediato seu fogo. Pergunta-se o que o tomou, entra em análise. Lá, descobre o desencadeante: ele havia nela reencontrado os traços que evocavam o que ele próprio era quando tinha 20 anos, quando se apresentou ao seu primeiro emprego. Ele estava, de alguma forma, caído de amores por ele mesmo. Reencontra-se nesses dois exemplos, as duas vertentes distinguidas por Freud: ama-se ou a pessoa que protege, aqui a mãe, ou a uma imagem narcísica de si mesmo.

Psychologies: Tem-se a impressão de que somos marionetes!
Jacques-Alain Miller: Não, entre tal homem e tal mulher, nada está escrito por antecipação, não há bússola, nem proporção pré-estabelecida. Seu encontro não é programado como o do espermatozoide e do óvulo; nada a ver também com os genes. Os homens e as mulheres falam, vivem num mundo de discurso, e isso é determinante. As modalidades do amor são ultrassensíveis à cultura ambiente. Cada civilização se distingue pela maneira como estrutura a relação entre os sexos. Ora, acontece que no Ocidente, em nossas sociedades ao mesmo tempo liberais, mercadológicas e jurídicas, o “múltiplo” está passando a destronar o “um”. O modelo ideal do “grande amor de toda a vida” cede, pouco a pouco, terreno para o “speed dating”, o “speed loving” e toda floração de cenários amorosos alternativos, sucessivos, inclusive simultâneos.

Psychologies: E o amor no tempo, em sua duração? Na eternidade?
Jacques-Alain Miller: Dizia Balzac: “Toda paixão que não se acredita eterna é repugnante”. Entretanto, pode o laço se manter por toda a vida no registro da paixão? Quanto mais um homem se consagra a uma só mulher, mais ela tende a ter para ele uma significação maternal: quanto mais sublime e intocada, mais amada. São os homossexuais casados que melhor desenvolvem esse culto à mulher: Aragão canta seu amor por Elsa; assim que ela morre, bom dia rapazes! E quando uma mulher se agarra a um só homem, ela o castra. Portanto, o caminho é estreito. O melhor caminho do amor conjugal é a amizade, dizia, de fato, Aristóteles.

Psychologies: O problema é que os homens dizem não compreender o que querem as mulheres; e as mulheres, o que os homens esperam delas…
Jacques-Alain Miller: Sim. O que faz objeção à solução aristotélica é que o diálogo de um sexo ao outro é impossível, suspirava Lacan. Os amantes estão, de fato, condenados a aprender indefinidamente a língua do outro, tateando, buscando as chaves, sempre revogáveis. O amor é um labirinto de mal entendidos onde a saída não existe.


Esta entrevista foi realizada por Hanna Waar e publicada originariamente na revista “Psychologies Magazine”, de outubro 2008 (n° 278). Tradução: Maria do Carmo Dias Batista.

DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E TECNOLOGIA

Atualmente, com os enormes avanços da tecnologia, as crianças estão cada vez mais expostas a aparelhos eletrônicos como smartphones, tablets, computadores e jogos em geral. Essa realidade – que é inerente ao nosso contexto histórico e cultural – afeta sensivelmente o seu desenvolvimento cognitivo e emocional e o seu debate mostra-se fundamental para reduzir alguns possíveis efeitos colaterais. Sobre o assunto, vale conferir a entrevista abaixo, com a psicanalista Maria Aparecida Quesado Nicoletti*.

1) As crianças são expostas, cada vez mais cedo, a smartphones, iPads, computadores, jogos eletrônicos etc. De que forma isso afeta o desenvolvimento tanto cognitivo quanto emocional?
Depende muito da etapa da infância que se examina. Pela construção da pergunta entendo que a questão se refere a crianças que estão na faixa etária pré-escolar e no início do período de escolarização fundamental.

Nessa etapa do desenvolvimento, por volta dos quatro ou cinco anos, talvez o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança já deixou para trás os estágios primários da formação de sua psique. Seu corpo e sua mente estão ávidos por experiências novas e isso faz com que a criança incorpore rapidamente a linguagem corrente, nomes e atividades motoras variadas. Em geral, se lhe for dado a escolher o que fazer, as escolhas recairão sobre atividades prazerosas, sejam elas participar de jogos nos quais têm que fazer esforços físicos, seja interagir com computadores ou usar as mãos para manusear objetos.

Começam aqui algumas das dúvidas sobre o impacto que instrumentos e brinquedos computadorizados terão sobre o desenvolvimento infantil. Nota-se, em diversos espaços de comunicação, a existência de opiniões a favor e contra a exposição das crianças dessa faixa etária aos computadores.

Do ponto de vista da psicanálise, que busca o desenvolvimento saudável e harmonioso das crianças contemporâneas, inseridas em seu contexto de vida, a exposição aos computadores e às novas formas de vivenciar e de aprender o que tais instrumentos trazem consigo constitui movimento adequado para o desenvolvimento cognitivo e emocional infantil, sendo pouco provável que tais atividades tenham impactos negativos, a menos que entre em cena o excesso.
Em resumo, a interação da criança com os computadores faz parte da cultura de nossa época e como tal, não deve ser evitada. Sua influência só será ruim quando houver excesso ou deslocamento de intenção, quando o computador é oferecido de maneira contínua, para mudar o comportamento imediato da criança, como ocorre quando se quer que ela concentre sua atenção no jogo, enquanto seu comportamento está “dizendo” que ela precisa de interação com seus pais ou professores.

2) Qual o papel dos pais na imposição de limites ou no incentivo do aprendizado do uso de aparelhos tecnológicos?

A informática traz oportunidades de comunicação e de interação social que nunca foram experimentadas pelo Homem e, por isso mesmo, ainda não sabemos como lidar com isso. Certamente, não será impondo limites sem fornecer razões que a criança possa aceitar, ou incentivando a criança a usar computadores para aprender sem cuidar que a aprendizagem se dê a partir de uma base apropriada de compreensão, que os pais exercerão as melhores de suas influências. Em linhas gerais, pode-se aconselhar os pais a criarem espaços de participação das crianças no modo de vida da família, oferecendo oportunidades para que as mesmas usem não apenas computadores, mas brinquedos físicos, ouçam a leitura de livros, participem de jogos que exijam atividade física, evitando a rigidez da imposição. Acredito que a “chave do sucesso” para limite/incentivo seja a moderação do uso da tecnologia nessa fase de desenvolvimento precoce.

3) Em que medida o uso de computadores, iPads etc. pode afetar a socialização das crianças?

A socialização das crianças depende de um conjunto de circunstâncias de natureza cultural, que incluem as origens da família, sua situação socioeconômica, suas crenças e práticas religiosas, bem como a qualidade dos vínculos familiares. Computadores, em geral, não têm o poder de influenciar o processo de socialização, salvo onde ocorram falhas relacionadas com uma das dimensões acima citadas como, por exemplo, quando a família descuida da socialização da criança, não lhe oferecendo as vivências necessárias para seu desenvolvimento pleno.

4) Como a tecnologia pode estar sendo usada para facilitar o processo educacional ou mesmo suplantá-lo? (Por exemplo, em um restaurante, ao invés de ensinar algum comportamento, os pais dão um iPad na mão da criança para ela “não incomodar”).

Em uma determinada época, a família “terceirizou” a educação dos filhos para a escola, que, além da responsabilidade do ensino formal, passou a substituir a tarefa de exercer também a “paternidade”. No momento, será que vemos a “terceirização” para os aparelhos eletrônicos? Nota-se que muitos pais parecem estar abdicando da importante tarefa de educar, porque educação requer trabalho. Será que essas crianças se sentirão atendidas com amor ou sentir-se-ão abandonadas, por não encontrar espaço para interagir com seus genitores? O excesso do uso de aparelhos eletrônicos também pode ser observado em adultos. É comum ouvir queixas de adultos reclamando que o cônjuge não deixa o Ipad de lado e que, por isso é difícil conversar.

*Maria Aparecida Quesado Nicoletti é psicanalista e membro da SBPSP.

Envelhecimento e psicanálise

O envelhecimento é um fato inexorável da vida. O processo nos obriga a encarar não apenas a nossa finitude, como também as limitações do corpo que vão, aos poucos, tornando-se presentes. Quando vivemos em uma cultura que valoriza a juventude, envelhecer significa também ocupar um papel social menos valorizado, inferior. Tais questões, juntamente com todo o declínio das funções do corpo, podem causar imenso sofrimento psíquico e por esse motivo a psicanálise se propõe a pensá-las. Sobre o tema, vale conferir a entrevista abaixo, com a psicanalista Sylvia Salles Godoy*.

1) Porque as culturas ocidentais não aceitam (ou têm dificuldade em aceitar) o processo de envelhecimento?

A questão do envelhecimento, per se, além de envolver questões culturais tangencia o tema da finitude. Em outros termos, o mistério de vida e morte resvala e paira no imaginário da pessoa que envelhece. Para levar-se adiante o intuito de cotejar culturas seria necessário uma extensa pesquisa, que nos levaria a infinitas digressões. Se desdobrarmos essa questão tão somente no ocidente, já poderemos observar uma multiplicidade de culturas com diferenças cruciais. No velho continente, mais especificamente em países onde a população madura e idosa é de há muito tempo predominante, a aceitação e o convívio com a passagem do tempo se dão como um processo natural com todas as vicissitudes que lhe são peculiares. Mas, no novo mundo, em especial no Brasil, onde até pouco tempo atrás o contingente da população idosa se constituía em uma minoria, borbulha uma questão emergente: como é envelhecer em um país com predomínio de população jovem? O problema se acentua porque embora saibamos que a cultura está continuamente a se reconstituir, uma boa fatia dela por uma tendência conservadora persiste impregnada de valores e conceitos que, se no passado foram um eixo norteador, ao serem transmitidos de geração em geração, prossegue alimentando padrões que podem facilmente deslizar e confluir para uma zona de preconceitos com atitudes decorrentes.

2) Quais os fatores que poderiam ajudar as pessoas a encararem com menor resistência esse fato inexorável?

Para encarar com menor resistência é preciso examinar, antes de tudo, como a passagem do tempo incide em seus itinerários: no plano biológico, a medicina vem, cada vez mais, nos oferecendo recursos para contornar e suprir as manifestações de declínio inerentes aos órgãos e suas funções. Desde o mais elementar, que é o uso de óculos para se obter uma melhor definição da visão, as reposições hormonais que por certo contribuem para um prolongamento da vida sexual, até preenchimentos para ajustes estéticos etc. No plano subjetivo a questão se torna mais complexa porque vêm à tona indagações existenciais sobre o significado e sentidos da vida que passam a ocupar um lugar central na cena: o confrontar-se com a imagem de si mesmo num jogo de espelhos com a cultura de seu tempo e lugar a qual, tendo como paradigma padrões de estética, beleza e juventude e ainda, como pano de fundo uma equação de equivalência entre juventude e poder, vem exercer um fascínio e colocar em xeque a autoestima com tudo o que envolve e acarreta. Ou seja, uma busca de juventude eterna! Miragem?

3) Qual a contribuição da psicanálise nesse campo?

Acredito que a psicanálise é o mais sofisticado instrumento de mergulho no interior do ser e, por certo, pode contribuir enormemente para uma percepção mais refinada de si mesmo a cada momento de vida, sobretudo, quando temos que nos defrontar com mudanças cruciais e que pedem uma “arrumação da casa”.

4) O que é o conceito de envelhescência que você criou?

A autoria merece uma citação que é o que dá credibilidade à criação. Mario Prata, em uma crônica no jornal “O Estado de São Paulo” (publicada em 03/08/93) criou a expressão envelhescência, fase da vida na qual não se é mais jovem, mas ainda está longe de ser velho. Fez uma analogia com a adolescência, período da vida no qual não mais se é criança, nem chegou a ser adulto e que, assim como na primeira, estão presentes acentuadas mudanças físicas e psíquicas. O conceito, se assim o podemos denominar, refere-se à vivência do processo do qual ninguém escapa. Entendemos que esse processo carece de uma reavaliação de valores e de mudanças no modus vivendi que, se em algum momento foram legítimos, perderam a validade por decurso de prazo e se faz imprescindível um restauro da visão de mundo.

5) Há formas de lidar melhor com esse processo? O que podemos aprender com outras culturas? 

Por tratar-se de um processo, cada qual vai ter sua especificidade e modo particular de se recompor. Do meu ponto de vista, reitero ser a psicanálise o método por excelência para se reinventar novas formas de viver. Mas isso não impede que existam outros caminhos que possam ajudar as pessoas a conviverem e descobrirem os encantos de outros ciclos da vida que, desembaraçada de pré-conceitos, tem trânsito livre para novas experiências na A/Ventura da Envelhescência.

Para aprender com outras culturas, alguns sábios nos legaram ensinamentos.

Cícero no ano 44 A. C. em De Senectude recomenda:

Resistir à velhice: cuidados com a saúde, exercícios físicos moderados.

Beber e comer pouco, o suficiente para refazer suas forças sem as esmagar.

Cuidar do espírito e da alma, pois como uma lamparina, se não lhe vertermos óleo, ela se apaga.

Ter atividade intelectual, pois a memória diminui se não a exercitarmos.

Sêneca em Sobre o Sábio e a atitude diante da Morte diz:

Não soframos por antecipação! “Somos mais vítimas do nosso terror, do que dos perigos reais.”

Faz apologia: “… do encontro, da conversa a viva voz, do olhar, da convivência cotidiana. O importante não é viver, mas viver bem.”

Para melhor ilustrar, podemos fazer uma releitura e até exaltar princípios básicos do berço da nossa civilização:

Historicamente, em civilizações milenares onde não existia o confronto de castas e classes sociais, o envelhecimento era concebido como fonte de experiências e o idoso considerado guardião das tradições. O papel social do ancião era o de conselheiro, elo entre as origens e os deuses. “A concepção de ser velho se revestia assim de sacralidade […] na qual eram incumbidos de efetuar a ligação com os antepassados, unindo vivos e mortos em uma cadeia cósmica”. A velhice estava relacionada à noção de força vital e, por conseguinte, era uma etapa valorizada. Ou seja, cabia a eles a função social de lembrar, unindo o outrora ao presente. Pela narrativa oral de sua sabedoria, os velhos sedimentavam a perpetuação da comunidade através dos tempos.

Na Grécia e na Roma antiga, onde a longevidade só era possível entre as classes privilegiadas, destaca-se a imagem do sábio que revelava uma harmonia entre a idade biológica, a função social, e com poder de comandar a sociedade. (A idade desses velhos não ultrapassava os quarenta anos e os que chegavam aos sessenta eram uma exceção). Esta era a visão consoante com as ideologias que valorizavam a velhice, por ser ela a instância social que detinha o poder. Mas “Quando a Grécia deixa de ser gerontocrática, o ancião passa a ser diminuído, conforme revelam as comédias onde o idoso é ridicularizado”. Com as transformações sócio-políticas, na Grécia dos séculos IX, VIII a.C., deu-se uma ruptura da unicidade primordial. “Fragmentam-se o tempo e os mitos; a sociedade passa a se organizar em funções do poder” […] “Chronos o tempo, então, passa a ser o símbolo da destruição, e a velhice passa a ser entendida como o prenúncio da extinção de vida”. Essa mitologia reflete a problemática do poder numa sociedade dividida e hierarquizada. O medo da sucessão e o conflito de gerações revelam que a visão cíclica do existir é substituída por uma concepção bipartida, de modo que todos os opostos, inclusive velhice e juventude, passam a se contrapor. A partir dessa desconstrução da consciência dos opostos, “A noção de honra que estava associada à velhice passa a se conjurar sob o signo do poder”.

[1] A expectativa de vida no início do século XX era de 60 anos. Hoje é de 80/90.

Sylvia Salles Godoy é psicanalista e autora do livro Envelhescência – Um fenômeno da modernidade à luz da psicanálise, Ed. Escuta.